Um comovente acerto de contas com a própria história

Fun home. Capa. Reprodução

 

O subtítulo Uma tragicomédia em família não é estraga-prazeres em Fun home [título original: Fun home: a family tragicomic; tradução: André Conti; Todavia, 2018, 233 p.; R$ 55], título-trocadilho da nova graphic novel de Alison Bechdel: antes de traduzirmos por casa divertida ou algo que o valha, é preciso ter em mente que se trata de uma abreviatura de casa funerária, um negócio de família em cujos fundos, por assim dizer, a autora foi criada.

Nascida na Pensilvânia em 1960, Bechdel teve lançado no Brasil seu Você é minha mãe? [Companhia das Letras, 2013]. Fun home foi eleito livro do ano pela revista Time em 2006. A obra conta a conflituosa história de sua relação com seu pai, tendo por pano de fundo a estrutura familiar e as ocupações, obsessões e mistérios de Bruce Allen Bechdel.

Administrador da funerária que herdou, Bruce era professor de inglês, leitor compulsivo, restaurador por hobby, obcecado por decoração e um pai distante, frio e opressor, que enxergava nos filhos mão barata e sempre disponível a comandos que variavam de acordo com seu humor.

Pai e filha são homossexuais, mas ela só descobrirá este fato da vida do pai, após a morte dele, em situação que leva a crer em suicídio, quando ela própria decide revelar-se. Peças se encaixam, mas o pai distante segue misterioso para a filha.

O traço de união entre eles é o amor à literatura, com seus jogos, suas coincidências e citações que vão de F. Scott Fitzgerald a Marcel Proust e Albert Camus, passando por Kate Millet, Colette e James Joyce, longe de tornar seus quadrinhos herméticos para quem não os tenha lido.

Os tons esverdeados de Fun home são um marco das narrativas autobiográficas, sem restringir aqui meramente ao universo dos quadrinhos: Alison Bechdel é impiedosa consigo mesmo e com os que a rodeiam – ou rodearam –, sem tornar sua história sui generis piegas ou irreverente, vide os agradecimentos que faz aos familiares, de uma sinceridade comovente, como o enredo.

Bechdel traça com as tintas da delicadeza as incertezas e as descobertas da puberdade e da sexualidade, entre desenhos animados do Papa-Léguas e o escândalo do Watergate, no governo de Richard Nixon, símbolos, para o bem e para o mal, de uma época em que a homossexualidade era considerada doença.

Fun home é um acerto de contas com o passado, entre dolorido e hilariante, uma lição da qual não se pode fugir.

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Assista ao trailer do livro:

Boicotem quem boicota O Boticário!

 

Há quem pague caro e use tênis com o nome da coca-cola. Outros pagam centenas de reais em camisas oficiais do Flamengo, Barcelona ou Seleção Brasileira, para fazer propagandas de marcas de produtos de toda a sorte. Cada um/a, cada um/a, tou fora!

Em Eu, etiqueta, poema de Carlos Drummond de Andrade que li em alguma gramática do ensino fundamental, o poeta mineiro já se queixava do excesso de logomarcas a que estávamos submetidos. E era apenas o século XX.

Com um comercial exibido na tevê aberta, O Boticário causou a ira de homofóbicos e reacionários em geral. Os que defendem a cura gay e a família tradicional (seja lá o que isso for), que ainda falam em homossexualismo em vez de homossexualidade, mesmo a OMS já tendo, há tempos, retirado o primeiro de sua lista de doenças mentais.

O Boticário mostra algo real e os habitantes da babacolândia falam que “não têm preconceito”, “que têm amigos gays” e toda sorte de baboseiras típicas da intolerância. O pastor Silas Malafaia convocou boicote à empresa de cosméticos, à guisa de “pertencer a uma maioria” e de “preservar macho e fêmea”. Segundo o zoófilo, ops, evangélico, a campanha “é uma tentativa de querer ensinar crianças e jovens o homossexualismo” (sic), conforme notícia do Portal Terra.

As casas legislativas brasileiras estão dominadas por hordas de fundamentalistas. Nunca os vi criticar, por exemplo, a publicidade voltada ao público infantil, como forma de preservar nossas crianças. Certamente o lobby de seus financiadores de campanha pesa mais na hora de decidir a que pauta se apegar.

Em vez de se juntar a quem prega o ódio, este blogue lança a campanha que intitula este post: boicotem quem boicota O Boticário!

É fácil pregar o ódio em nome de Jesus. Difícil é amar o próximo, como o mesmo Cristo ensinou. Ainda mais se esse próximo não for tão próximo assim. Se for diferente então, o próximo está condenado.

Não escrevo para fazer propaganda do Boticário, afinal de contas, não sou pago para isso e, em grande medida, o dia dos namorados é mais uma data caça-níquel no calendário do consumo. Aos preconceituosos de plantão, recomendo outros poetas: “qualquer maneira de amor vale a pena”, “ame, seja como for”, desde que o amor esteja cheirosinho, usando Boticário ou outra marca qualquer – vale até o bom e velho sabão de andiroba, comprado a quilo na quitanda mais próxima. Como diria Márcio Greick, “o mais importante é o verdadeiro amor”.

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Abre o post a antológica, sempre rodando em um k7 imaginário, best of particular, Largo do boticário, linda canção sobre linda paisagem carioca, de Milton Carlos, saudoso irmão de Isolda, ambos fornecedores de pérolas para o repertório de Roberto Carlos.

Um bonito filme sobre o amor

Ao ver Praia do Futuro, novo longa de Karim Aïnouz, espectadores precisam enxergar além de rótulos

Rodado entre o Brasil e a Alemanha, Praia do Futuro [2014, drama, 90min.] não é um filme gay ou homossexual e erra quem tenta rotulá-lo. Como erram os que deixam a sala após a primeira cena de sexo entre Donato (Wagner Moura) e Konrad (o alemão Clemens Schick).

O filme é antes uma obra sobre o amor e seus encontros e despedidas. E sobre as rupturas que a vida – e o amor – exige.

Nem tudo está dado, de cara. O cinema de Karim Aïnouz exige do espectador. Talvez os que deixam a sala ao ver dois homens, másculos, se beijando, se pegando pra valer, não mereçam a grandeza de sua obra.

O roteiro é bom, a fotografia valoriza a paisagem e os personagens. Praia do Futuro é um filme bem feito, que força os espectadores a enxergar para além de rótulos. As cenas de sexo são merecedoras de atenção para além da polêmica: plasticamente aliam a “violência” e a “brutalidade” tipicamente masculinas e a “doçura” e a “delicadeza” tipicamente femininas. Mas dizer isso ainda não as traduz perfeitamente, já que estamos justamente falando em fugir de rótulos.

O diretor brasileiro radicado em Berlim é um provocador. Realiza um belo filme e põe em xeque a onda conservadora que toma de assalto o país através de figuras nefastas como os deputados Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano, para ficarmos apenas nestes e nos reaças que repercutem suas vozes e têm as suas repercutidas, em retroalimentação danosa. Praia do Futuro não empunha bandeiras em prol de nada, não é panfletário, mas apresenta muitas questões, quem tiver bons olhos e ouvidos perceba.

Donato é um militar – ironia fina, lembremos do sucesso avassalador de Tropa de Elite 1 e 2, estrelados justamente por nosso protagonista – do Corpo de Bombeiros cearense, que dá expediente na praia fortalezense que batiza o filme. É homossexual, mas disso só saberemos depois. Após sua primeira perda como salva-vidas – não consegue resgatar o amigo motoqueiro de Konrad – entrega-se a uma paixão avassaladora, deixando para trás a família, o emprego, o Brasil.

Chega a Berlim para uma temporada, desiste de voltar. Arruma trabalho. E tempos depois é surpreendido pela chegada do irmão, para quem Donato é(ra) um herói – o Aquaman. Ayrton (Jesuíta Barbosa) parte para a Alemanha em busca de notícias e para levar uma: a da morte de sua mãe, há cerca de ano e meio.

Donato parte – mas eis outra coisa que o filme não diz, não diretamente – para se livrar da culpa (a primeira falha contabilizada), da opressão (quer ambiente mais opressor que o militar?) e em busca de um sonho, de um amor verdadeiro. Piegas? Não nas mãos de Karim Aïnouz, diretor de Madame Satã [2001] e O céu de Suely [2006], entre outros.

Em tempo: vi o filme domingo passado (25) à noite, no São Luís Shopping. Comprei o ingresso com cerca de uma hora de antecedência. Não rolaram perguntas sobre a minha vontade de ver o filme nem o carimbo de “avisado”, como supostamente ocorre em algumas salas, conforme fotografias e relatos viralizados em redes sociais. Vi gente levantar e ir embora após a primeira cena de sexo entre Donato e Konrad. Vi mais gente levantar e ir embora após outras cenas de sexo. Deixaram de prestigiar um ótimo filme de um cineasta que já conta ótimos serviços prestados à sétima arte nacional.

Mais contradições da comissão do Feliciano

Na tarde de ontem (4), um pedido de vista do deputado Simplício Araújo (PPS/MA) barrou a votação do projeto de “cura gay” na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados.

O projeto de lei susta trecho de resolução de 1999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que proíbe profissionais da área de “curar” a homossexualidade.

Em matéria de Eduardo Bresciani no site dO Estado de S. Paulo há depoimentos horrorosos de João Campos (PSDB/GO) e Anderson Ferreira (PR/PE), o primeiro repetindo bastante a palavra “competência” – algo que parece lhe faltar – para dizer que o CFP “usurpou a competência do legislativo”; o segundo para dizer que a alteração do texto da resolução do Conselho garantiria liberdade a psicólogos/as: ora, se a Organização Mundial de Saúde (OMS) removeu em 1990 a homossexualidade de sua lista de doenças mentais, teria o legislativo brasileiro “competência”, portanto, para garantir a psicólogos/as o “direito” de “curar” – ou não – gays?

Uma segunda contradição reside no depoimento de Liliam Sá (PSD/RJ): “Ninguém está falando que a partir desse momento pessoas vão sair correndo atrás dizendo: você é doente, você tem que se curar. É para quem procurar ajuda”.

Por que então o colegiado presidido pelo homofóbico Marco Feliciano (PSC/SC) – diz o texto que ele não gosta da expressão “cura gay” – pisa em ovos, ops, quando o assunto é a garantia de direitos de homossexuais? Garantir o casamento civil igualitário e a criminalização da homofobia não significa que agora todo heterossexual vá tornar-se gay, coisa de que, aliás, só os enrustidos têm medo.

Odyr

Acho que “guzzices” é hoje um termo melhor que “mainardices” para definir as “sandices” (que são bem mais que isso) da revista Veja, que em sua edição ora nas bancas, chegou a comparar a união entre pessoas do mesmo sexo com a relação entre homens e cabras, além de inúmeras baboseiras outras (encravou, no texto, por exemplo, “homossexualismo” em vez de “homossexualidade”, intenção em vez de vacilo).

Sobre o assunto (ou diante da falta dele), o genial Odyr Bernardi postou em seu facebook (“bernardice”, ao contrário de seu significado original, é, aqui, sinônimo de vida inteligente na “cartunice” brasileira).