Você tem medo de quê? Você tem ódio de quê?

Foto: Zema Ribeiro

 

​Duas portas de rolo são levantadas e de trás delas saem duas travestis a se somar à que​​ já está no palco — ao todo são seis em cena. Teatro, canto, dança e música conduzem os espectadores por seu universo.

A rua, a noite, o medo. O bullying na infância, o preconceito dentro e fora de casa, da família, a violência. Paisagens e temas que compõem a vida de qualquer travesti.

Quem tem medo de travesti, de Silvero Pereira e Jezebel De Carli, é um exercício de pensar em como lidamos com o diferente, uma peça urgente diante da licença para matar minorias traduzida na política armamentista do governo federal.

Mulher Barbada, Denis Lacerda, Patrícia Dawson, Diego Salvador, Ítalo Lopes e Verònica Valenttino em cena travestem-se várias vezes. O figurino, de Antônio Rabadan, é um luxo. Os jogos de sombras ajudam a descortinar as várias situações de uma população em geral enxergada como sub-cidadã (inclusive, ou principalmente, pela hipocrisia dos “cidadãos de bem” que desfrutam de seus serviços). O texto joga luz sobre esse grupo vulnerável, que mais que invisível, é alvo fácil do ódio.

A dramaturgia conduz à reflexão mas consegue fazer sorrir, fazendo-se valer de piadas do universo homoafetivo, sem nunca precisar descambar para o politicamente incorreto, além do pajubá, o código linguístico particular da população LGBTQI+ (mas não só), que tanto incomodou o homofóbico presidente da república ao ser tema de questão do último Enem.

Medo é uma palavra central em Quem tem medo de travesti. Nem sempre travestis podem perdê-lo antes de tombarem, vítimas da violência, agora infelizmente legitimada. Mas o espectador pode perder seu medo e ir assistir o espetáculo.

Serviço

A circulação de Quem tem medo de travesti integra o projeto Travestis Itinerantes, do Coletivo Artístico As Travestidas, selecionado pelo programa Rumos, do Instituto Itaú Cultural, e conta com mesa redonda, oficina e encenação. Hoje, às 20h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) acontece a última apresentação em São Luís. Os ingressos custam R$ 20,00 (meia para estudantes com carteira: R$ 10,00). Daqui o grupo segue para Belém/PA (dias 20 e 21 de maio na Estação Gasômetro) e Imperatriz/MA (25 e 26 de maio, no Teatro do Sesc Palmas).