O comovente e fundamental Stanislaw Ponte Preta

Autoria desconhecida

 

“O forte de Stanislaw Ponte Preta era justamente extrair humorismo dos fatos, das notícias da imprensa. Leitores enviavam-lhe recortes de jornais, colaborando mais ou menos com a metade das histórias contadas no Festival de besteiras que assola o país. Pouco antes de morrer ele lançava um jornalzinho humorístico, chamado A Carapuça: era ele mais uma vez à procura de piadas concretas” (Paulo Mendes Campos).

Domingo passado, almoçando em casa de amigos, lembrei-me de quando aos 11 ou 12 anos de idade, num livro de gramática, li uma crônica em que Stanislaw Ponte Preta – ou Sérgio Porto: “O nome todo era Sérgio Marcos Rangel Porto” (Paulo Mendes Campos) – contava a história de um cidadão que, aficionado por livros, batizava todos os filhos com nomes relativos à sua mania, sendo pai de Prefácio, Tomo, Capítulo e assim sucessivamente, até que a esposa faz uma promessa: se viesse uma menina, batizaria de Maria. A menina vem e só ao ir registrá-la o pai descobre a promessa: para não contrariar a mulher nem a Nossa Senhora, batiza-lhe Errata Maria. Isto resumidamente, que lendo o próprio Stanislaw tem muito mais graça.

O fato é que passei anos até me reencontrar com este texto, em O homem ao lado (graças a Deus, as obras de Stanislaw e Paulo Mendes Campos, dois de meus favoritos, têm sido reeditadas sucessivamente – até por que o Febeapá continua atual, municiado cotidianamente por nossa imprensa e classe política).

Eu ainda nem conhecia a expressão comovido como o diabo, que já nem sei se dele ou de Paulo Mendes Campos, mas apaixonei-me imediatamente por Stanislaw Ponte Preta. Aos 11 ou 12 anos. Não sabia se achava mais engraçada a história do homem que batizava os filhos com nomes relacionados a livros ou o próprio nome do autor. Em minha cabeça de criança pairava a curiosidade: por que alguém escolhe um nome artístico mais complicado que o de batismo? Até hoje as prosas de Stanislaw Ponte Preta e Paulo Mendes Campos me deixam comovido como o diabo.

“Uma vez Vinicius de Moraes chegou depois de longa temporada diplomática nos Estados Unidos. Havia batido um longo papo com Louis Armstrong. No bar Michel, nas primeiras horas da noite, ainda portanto com pouco combustível na cuca, a ilustre orquestra não demorou a formar-se. Instrumentos invisíveis foram sendo distribuídos entre Sérgio, Vinicius, Fernando Sabino, José Sanz, Lúcio Rangel, Sílvio Túlio Cardoso. Eram o saxofone, o piano, o contrabaixo, o trompete, o trombone, a bateria.

“Não me deram nada e tive que ficar de espectador. Mas valeu a pena. A orquestra tocou por mais de duas horas, alheada das mulheres bonitas que entravam e até esquecida de renovar os copos. A certa altura Sérgio pediu a Vinicius que trocassem de instrumentos, ele queria o piano, ficasse o poeta com o saxofone. Feito. Só que os dois, compenetrados e desligados, trocaram de lugar efetivamente, como se diante da cadeira de Vinicius estivessem de fato as teclas de um piano. Foi a jam session mais surrealista da história do jazz.

“O humorista começou a surgir no Comício, um semanário boêmio e descontraído, onde também apareceram as primeiras crônicas de Antônio Maria. Mas foi no Diário Carioca, também boêmio e impagável, que nasceu Stanislaw Ponte Preta, que tem raízes no Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, e em sugestões de Lúcio Rangel e do pintor Santa Rosa. Convidado por Haroldo Barbosa, precisando melhorar o orçamento, Sérgio foi fazer graça no rádio, depois de passar um mês a aprender na cozinha dos programas humorísticos da rádio Mayrink Veiga” (Paulo Mendes Campos).

Não há outro adjetivo possível para Stanislaw Ponte Preta: gênio. Você mesmo já deve ter usado a expressão mais perdido que cego em tiroteio achando tratar-se de um dito popular: é invenção dele, que “fez rádio, cinema, televisão, teatro, show de boate” (Sérgio Augusto) e era “uma usina de expressões, gírias, neologismos, ditados e definições impagáveis – cocoroca, teatro rebolado etc. – que muitas vezes pareciam saídas da boca de um malandro” (Sérgio Augusto).

Por falar em invenção: “Fernando Pessoa inventou três heterônimos, Millôr escondeu-se atrás de quatro ou cinco pseudônimos, Sérgio contentou-se com um alter ego apenas, o suficiente para torná-lo o mais lido e citado gozador da imprensa brasileira nos anos 1950 e 1960 do século passado” (Sérgio Augusto). Além de ser nome fundamental para afirmarmos, ainda hoje, que o Brasil é o país da crônica.

Não bastasse tudo isso, foi Sérgio Porto quem – funcionário do Banco do Brasil por 22 anos, até decidir trocar o emprego dos sonhos definitivamente pelo jornalismo, que já praticava paralelamente ao ofício de bancário – descobriu Cartola lavando carros em um estacionamento. Levou o sambista ao produtor Pelão e este lançou, pela Discos Marcus Pereira, o elepê de estreia do autor de As rosas não falam. O resto é história.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho” (Paulo Mendes Campos). Falecido em 1968, aos 45 do primeiro tempo, ele completaria hoje (11) 94 anos.

O jazz brasileiro de Caymmi

Dorival. Capa. Reprodução

 

Vem de longa data o reconhecimento da sofisticação da música popular brasileira, uma das mais interessantes do planeta. Voltemos no tempo para permanecer no universo do homenageado, Caymmi, de quando sua O que é que a baiana tem?, interpretada por Carmem Miranda, integrou a trilha sonora do filme Banana da terra, em 1939, para gringo ver. Ou quando sua Doralice conquistou o Carnegie Hall e a bossa nova (com jazz) de João Gilberto (e Stan Getz) conquistou o mundo.

Dorival [2017], disco que reúne Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), André Mehmari (piano) e Nailor Proveta (saxofone e clarinete), “time dos sonhos, reunião de bambas, quarteto fantástico”, como assinala Joyce Moreno em texto no encarte, “levando a música de Dorival Caymmi, gênio da raça, a mares nunca dantes navegados”.

Individualmente os integrantes deste quarteto têm relevantes serviços prestados à música brasileira, aqui e no exterior – Dorival foi gravado no Rainbow Studio, em Oslo –, assim como o homenageado. Há quase 20 anos já haviam se reunido em disco, em Forças d’alma, como Tutty Moreno Quarteto. Agora, assinando pura e simplesmente com seus próprios nomes, credenciais que lhes bastam, presenteiam os ouvidos mais atentos com “uma daquelas provas de que o Brasil que o Brasil merece é possível”, para continuarmos citando Joyce.

Em 10 faixas abordam o universo criativo de Dorival Caymmi, dono de uma das obras mais particulares da história da música brasileira – Morena do mar e Milagre reaparecem na Suíte Caymmi, que traz ainda entre uma e outra, que se repetem, Dois de fevereiro. A abordagem é original, o baiano elevado a jazz, mesmo quando se trata do Samba da minha terra, sem perder a essência de brasilidade, a brejeirice, o clima praieiro. Entre outras, comparecem ao repertório Sargaço mar, João Valentão, A vizinha do lado e Só louco – se uma das forças da obra de Caymmi reside na lírica, é tanto o talento dos instrumentistas reunidos em Dorival que a supressão das letras não diminui o brilho e valor de sua obra.

Praia, mar, céu e Caymmi são evocados na arte que embala o disco, assinada pelo talentoso Gal Oppido. Não é o primeiro disco inteiramente dedicado ao cancioneiro caymmiano. Espero que não seja o último. O grande trunfo de Dorival é que os craques do time jogam para o conjunto. Aqui e ali sobressaem-se seus talentos individuais, mas não há vontade ou necessidade de um querer demonstrar maior virtuosismo que outro. O importante é re/embalar, em beleza diversa da original, a obra do gênio a quem escolheram acertadamente homenagear.

Constroem, a partir da desconstrução da obra de Caymmi, uma nova obra, com respeito e reverência, singela e comovente como o pai de Dori, Danilo e Nana inventou.

*

Ouça A vizinha do lado (Dorival Caymmi), com Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, André Mehmari e Nailor Proveta:

Best of

Para Belchior com amor. Capa. Reprodução
Para Belchior com amor. Capa. Reprodução

 

O desaparecimento do compositor cearense Belchior tem causado verdadeira comoção aos brasileiros, de maneira geral. Sobram especulações sobre seus motivos, apesar de anunciados ao longo de sua obra, e homenagens. Discos como Belchior Blues [2012], que destaca a porção blueseira de quem disse que “um tango argentino me vai bem melhor que um blue” [em A palo seco, de 1973], e Ainda somos os mesmos [2014], organizado pelo site Scream & Yell, além de shows – o Encontrando Belchior, de Tássia Campos, e a releitura do disco Alucinação [1976] por Gero Camilo –, e até mesmo bloco de carnaval: o Volta Belchior, de Belo Horizonte/MG. Sem contar os gritos e a hashtag #voltabelchior, que se irmanam aos gritos e hashtag #foratemer, para protestar contra o atual estado de coisas no Brasil.

Lançado na altura do aniversário de 70 anos do compositor, completados em 26 de outubro de 2016, soma-se a este lote de homenagens Para Belchior com amor [Miragem Editorial, 2016, 96 p.], livro organizado pelo cearense Ricardo Kelmer reunindo 14 escritores conterrâneos – inclusive ele próprio – em textos para 14 clássicos do bigodudo mais querido do Brasil. Há contos, cartas, ensaios, memórias.

O conto de Claudene Aragão para Coração selvagem [1977] imagina um encontro seu com Belchior. Escondido num lugar óbvio, o compositor acede vê-la e falar-lhe, ocasião em que revela ter mais de 300 músicas inéditas. Em determinada passagem, o personagem Belchior afirma, sobre seu desaparecimento: “Todas as respostas sempre estiveram nas minhas canções. Fui preparando isso por muito tempo, e nas minhas composições fui deixando pistas sutis do meu plano […]. Não me perdi. Não fugi. Não me escondi. Me permiti viver como eu queria. Afinal de contas, não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”, citando trecho da composição revivida.

Também merece destaque o conto de Raymundo Netto, que recria, de forma bem humorada, o encontro de Belchior com policiais, como cantado em Fotografia 3×4 [1976]. Cai na brincadeira do nome inventado pelo compositor em entrevista aO Pasquim, quando entre várias lorotas, disse chamar-se Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes – esparrela em que cai também o organizador, ao citar o falso nome de batismo na orelha e numa pequena biografia do homenageado ao final do livro. O verdadeiro nome de Belchior é apenas Antonio Carlos Belchior, como afirma o jornalista Jotabê Medeiros, que lança este ano Pequeno perfil de um cidadão comum, biografia de Belchior em que trabalha já há alguns anos.

A jornalista Ana Karla Dubiela parte das lembranças de um show de Belchior no campus da UFSC em 1984, quando ela estava em lua de mel em Florianópolis, para recontar A palo seco. “Quando fomos testemunhas do desespero que virou moda em 76, éramos adolescentes – e, com algumas exceções, os nossos desesperos eram outros. Pouco mais tarde, universitários, andávamos meio descontentes, é verdade, sem entender muito bem por que o ar era mais denso, os silêncios mais gritantes, as conversas cifradas”, lembra ela, que foi para o show, que “durou bem mais que as duas horas previstas”, “com os LPs debaixo do braço para pedir autógrafo”.

Alucinação [1976], por Thiago Arrais, e Apenas um rapaz latino-americano [1976], por José Américo Bezerra Saraiva, extrapolam o universo das canções escolhidas e do próprio compositor, espraiando-se por outras obras suas, de conterrâneos que buscavam o sucesso no mesmo período, e de artistas (da música ou não) com quem a obra de Belchior sempre dialogou. Com seu estilo peculiar Xico Sá recria Todo sujo de batom [1974] e Gero Camilo amplifica o drama familiar de Na hora do almoço [1971], enquanto Ethel de Paula, em Conheço meu lugar [1979], atesta: “eis que o nome Belchior, segundo o dicionário, significa exatamente isso: “Rei da luz. Rei luminoso”. Ou ainda o seu correspondente terreno, plebeu: “mercador de objetos usados; alfarrabista”. Um simples cantador das coisas do porão. Uma pessoa. E a palavra pessoa, nele, ainda soa bem”.

Ouça Alucinação, eleito por internautas e críticos do jornal O Povo, “o melhor disco cearense de todos os tempos”:

Uma homenagem honesta e inovadora

Romulo Fróes emula Nelson Cavaquinho em foto de Rodrigo Sommer. Reprodução do perfil do cantor no Facebook
Romulo Fróes emula Nelson Cavaquinho em foto de Rodrigo Sommer. Reprodução do perfil do cantor no Facebook

Nelson Cavaquinho (29/10/1911-18/2/1986) é dono de uma das líricas mais particulares da música popular brasileira. Sua obra é mórbida, permeada de morte e amores desfeitos – o que não deixa de ser uma espécie de morte.

Rei vadio. Capa. Reprodução
Rei vadio. Capa. Reprodução

Aos 30 anos de sua morte, o mangueirense recebe tributo à altura, de Romulo Fróes, admirador confesso: Rei vadio – As canções de Nelson Cavaquinho [Selo Sesc SP, 2016]. O cantor e compositor é um dos nomes mais festejados no cenário da música brasileira dos últimos 15 anos, como integrante do grupo Passo Torto ou em carreira solo, esta marcada, desde o início, pela reverência ao ídolo de cabelos prateados – em Cão [2006], seu segundo disco, já regravava Mulher sem alma [Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito], que volta a aparecer neste tributo.

Além da predileção por temas sombrios, outras características marcam a obra de Nelson Cavaquinho, quando interpretada por ele mesmo: seu jeito de tocar as cordas (de arame farpado) do violão, beliscando-as com dois dedos, como se usasse um alicate, sua voz fanha e rouca, forjada em álcool, tabaco e noites de sono perdidas, causam uma sensação incômoda em ouvintes desavisados ou neófitos. A “beleza difícil” que Romulo Fróes aborda em texto à guisa de introdução desta valorosa homenagem.

Certamente a mesma estranheza causada nele ao ouvir o ídolo pela primeira vez. Como acrescentar algo novo a obra tão singular? Um dos caminhos foi não se contentar com o óbvio: a homenagem de Romulo Fróes não é best of vulgar, mas um trabalho de pesquisa – marcado também pelo afeto – de quem conhece profundamente o terreno em que está pisando. Tanto que o disco traz o choro Caminhando, originalmente de Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia, com letra de Nuno Ramos e voz de Ná Ozzetti – que já dividiu disco com o Passo Torto –: “Essa rua era minha/ eu cantava sozinho/ no meio da praça/ e vencia sozinho/ com a minha cachaça/ mais o meu cavaquinho”, diz trecho da letra.

Nuno Ramos, originário das artes plásticas, é compositor importante no universo de Fróes, de quem é parceiro, e assina um baita artigo sobre o homenageado no encarte do disco – originalmente publicado no número inaugural da revista serrote [março/2009], do Instituto Moreira Sales.

Outros convidados são Criolo (em Luz negra, de Nelson Cavaquinho e Amancio Cardoso) e Dona Inah (em Eu e as flores, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho), espécie de voz feminina de Nelson Cavaquinho, noutro sentido que não o atribuído se falássemos em Beth Carvalho e Clara Nunes, para citarmos duas de suas grandes intérpretes.

Outra opção estética de Fróes para evitar o óbvio foi adentrar o estúdio sem nenhuma ideia pré-concebida: os arranjos foram tomando forma no ato da gravação, o que garante às 14 faixas de Rei vadio o frescor do improviso, como se jazzificassem Nelson Cavaquinho, o que é fortemente percebido nas intervenções do saxofone de Thiago França.

Também comparecem ao excelente time de músicos nomes como Allan Abbadia (trombone), Curumin (bateria em Mulher sem alma), Guilherme Held (guitarra), Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (contrabaixo elétrico), Rodrigo Campos (violão, cavaquinho e guitarra), Wellington Moreira “Pimpa” (bateria e percussão) e a Velha Guarda Musical de Nenê de Vila Matilde (Clara, Irene e Laurinha, coro em Vou partir, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho), entre outros.

Como a obra do homenageado, Rei vadio é um disco de tons cinzas, como entrega o projeto gráfico, cujas imagens são frames do antológico curta-metragem Nelson Cavaquinho [1969] de Leon Hirszman. Não é um disco para ouvidos acostumados com música fácil e descartável, mas fundamental para quem deseja compreender dois momentos distintos e importantes da música popular brasileira: a obra de Nelson Cavaquinho, contemporâneo de Noel Rosa (citado na letra de História de um valente, de Nelson Cavaquinho e José Ribeiro) e Cartola, para citarmos dois gigantes do samba, e esta turma nova, que já vem movimentando a cena há algum tempo, tem também uma voz particular, mas não tem vergonha de dizer o nome de seus ídolos.

Choro em dose dupla para celebrar aniversário de Pixinguinha

Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
"Jornada Chorística do Maranhão" acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação
“Jornada Chorística do Maranhão” acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação

Como já é tradição nos calendários musical e cultural de São Luís, será comemorado o Dia Nacional do Choro, homenagem ao nascimento de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (23/4/1897-17/2/1973), um dos mais importantes nomes do gênero e da música brasileira.

A data é celebrada a cada 23 de abril. A novidade em 2016 é que haverá duas festas: uma, a oficial, promovida pela Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), cujos corredores, tendo professores e alunos em várias formações, foram berço de diversos grupamentos. A segunda festa acontecerá na nova praça de alimentação do São Luís Shopping. Nesta, os músicos abriram mão de seus cachês, em favor do livro Chorografia do Maranhão, a ser lançado em breve. Ambos os acontecimentos são gratuitos e abertos ao público.

“Parte dos recursos para fazer o livro estão garantidos por edital da Fapema [a Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão], outra parte foi arrecadada através de campanha de financiamento coletivo na internet, mais um pedaço está vindo da solidariedade dos músicos que se apresentarão no São Luís Shopping e há, ainda, promessas de empresas privadas. Ficamos muito felizes com a iniciativa do shopping e o gesto dos músicos. De pedacinho em pedacinho, a gente vai conseguindo contar estes importantes capítulos da história do choro e da música do Maranhão”, comenta Ricarte Almeida Santos, autor do livro, com este que vos perturba e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos.

A programação da Emem acontece dia 22 (sexta-feira), às 18h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Como em anos anteriores, a iniciativa homenageará um chorão local. Este ano será o bandolinista e cavaquinhista Roquinho, que curiosamente não está entre os 52 entrevistados pela Chorografia do Maranhão: o músico simplesmente negou-se a atender todos os insistentes pedidos de entrevista dos chororrepórteres – o que não lhe diminui o brilho, o talento e a importância para a cena choro local. O convite anuncia a “participação de instrumentistas, grupos de choro da cidade e artistas convidados”, destacando os grupos Instrumental Pixinguinha, Regional Tira-Teima, Chorando Callado e Os Cinco Companheiros.

No São Luís Shopping a comemoração acontece sábado (23), em dois turnos. A “Jornada Chorística do Maranhão”, como foi batizado o evento, terá o primeiro tempo ao meio dia, com Trio Feitiço da Ilha e Chico Nô, Suellen Almeida (flauta), Regional Deu Branco, Urubu Malandro e Instrumental Pixinguinha. O segundo tempo, que começa às 18h, contará com Os Cinco Companheiros, Quinteto Bom Tom e Anna Cláudia, Regional Camisa de Bolso, Trítono Trio, Danuzio Lima (flauta) e Regional Tira-Teima.

Do quintal ao municipal, como no título do livro de Henrique Cazes, e agora à praça de alimentação, o choro se renova e conquista novos espaços e público. Vida longa, com as bênçãos de São Pixinguinha.

Confira o encontro do Instrumental Pixinguinha com o Regional Tira-Teima em Cochichando [Pixinguinha/ João de Barro/ Alberto Ribeiro], durante a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes em 2013.

Roberto Farias e Murilo Santos serão homenageados no 8º. Maranhão na Tela

Festival acontece de 21 a 26 de março no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, com programação gratuita

A oitava edição do Maranhão na Tela acontece entre os próximos 21 a 26 de março, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, na Praia Grande. Já consolidado nos calendários cinematográfico e cultural da capital maranhense, o festival homenageia os diretores Murilo Santos e Roberto Farias, este às vésperas dos 83 anos que ele completa dia 27 de março.

Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução
Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução

Meia dúzia de filmes de Farias serão exibidos em cópias digitalizadas durante o festival, incluindo a “trilogia do Rei”: Roberto Carlos em ritmo de aventura [1968], Roberto Carlos e o diamante cor de rosa [1970] e Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora [1971]. O clássico Pra frente, Brasil [1982] será exibido na sessão de abertura do festival. Os outros títulos de Farias que serão exibidos na mostra que o homenageia são Assalto ao trem pagador [1962] e o documentário O fabuloso Fittipaldi [1974].

A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação
A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação

Novidade nesta edição, o que faz o festival se aproximar ainda mais do nome Maranhão na Tela, é a homenagem a cineastas maranhenses, começando, este ano, por Murilo Santos. “O nome do Murilo foi, desde sempre, o único que cogitamos para ser o primeiro homenageado maranhense. Ano que vem teremos uma lista, chegaremos a um consenso, mas esse ano é só dele”, declarou a idealizadora e produtora do Maranhão na Tela Mavi Simão, revelando ter sido consenso o nome do homenageado. “O Murilo tem uma importância histórica pro cinema maranhense que não tem similar. A forma como ele atuou e atua é única!”, continuou.

Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução
Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução

Murilo também terá seis títulos exibidos no oitavo Maranhão na Tela: Um boêmio no céu [1974], Tambor de crioula [1979], Quem matou Elias Zi? [1982], com trilha sonora e desenhos do irmão Joaquim Santos, Na terra de Caboré [1986], Marisa vai ao cinema [1995] e Fronteira de imagens [2009].

Mavi Simão avalia a evolução do festival ao longo das edições e o investimento constante em formação, uma característica do evento anual. “O Maranhão na Tela sempre teve um foco, um objetivo claro, que é o de contribuir para fomentar a produção local, e esse direcionamento acredito que dê uma solidez pro festival. Outro compromisso que me move é o de sempre tentar superar a edição anterior e assim vamos caminhando. O compromisso do festival sempre foi com o fomento e, dentro do meu parco raio de alcance, a melhor forma de fazer isso é investindo em formação. O conhecimento inquieta as pessoas”, afirmou.

Sobre o atual momento vivido pelo cinema no Maranhão, particularmente no que tange a notícias recentes como os anúncios do governo estadual de uma escola de cinema e um edital para o audiovisual maranhense, ela comemora: “Estamos vivendo um momento ímpar, um antes e depois da produção audiovisual maranhense. Agora sim, vislumbro mais concretamente a inserção da produção local na cena nacional. E a escola vai ter um impacto enorme nesse processo! Finalmente temos um governo que reconhece a importância estratégica do audiovisual”.

Cartaz de Quase memória. Reprodução
Cartaz de Quase memória. Reprodução

Além das homenagens, o Maranhão na Tela terá uma vasta programação com aproximadamente 350 títulos, entre pré-estreias, estreias, retrospectivas e animações. Na primeira categoria estão Quase memória, de Ruy Guerra, baseado no livro de Carlos Heitor Cony, Um filme de cinema, de Walter Carvalho, Para minha amada morta, de Aly Muritiba, e Prova de coragem, de Roberto Gervitz, com atuação de Áurea Maranhão.

A mostra Maranhão de Cinema, uma das que compõem a programação do Maranhão na Tela, tem 36 filmes, divididos em duas categorias: uma competitiva, com títulos inéditos, e uma retrospectiva, com obras que marcaram a produção audiovisual no estado nos últimos 40 anos – destaque para a filmografia de Murilo Santos. A curadoria é assinada por Mavi Simão com o diretor Josh Baconi e Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande, que abrigará a maior parte da programação desta oitava edição do festival, realização da Mil Ciclos Filmes, com patrocínio da Oi e da Rede de Óticas Diniz, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e apoio cultural da Oi Futuro.

Sobre destaques da programação, Mavi preferiu não se comprometer, tamanho o envolvimento e o cuidado com cada detalhe da produção. “Cada filme, cada curso, cada convidado, cada espectador faz o festival ser como é. Tô aqui pensando e não consigo destacar algo ou alguém em especial. Tenho uma relação passional com o Maranhão na Tela, tudo o que acontece a cada edição é especial pra mim”, finalizou.

Serra de Almeida recebe homenagem de amigos por seus 80 anos

O flautista durante sua entrevista à Chorografia do Maranhão, que inaugurou a série. Foto: Rivanio Almeida Santos
O flautista durante sua entrevista à Chorografia do Maranhão, que inaugurou a série. Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O flautista Serra de Almeida completa, nesta sexta-feira 13, 80 anos de idade, metade deles dedicados à flauta, que aprendeu a tocar já quarentão, como revelou à Chorografia do Maranhão, no depoimento que abriu a série, publicada entre março de 2013 e maio deste ano no jornal O Imparcial.

Há 26 anos o são-bernardense integra o Regional Tira-Teima, mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, prestes a lançar (finalmente) seu (aguardado) disco de estreia – incluindo, no repertório, alguns choros de autoria de Serrinha, como é carinhosamente chamado pelos colegas de grupo e por uns mais chegados.

Não poderia haver melhor forma de comemorar a data que com uma roda de choro à altura do talento do mestre. É o que acontecerá hoje (13), às 20h, no terraço do Hotel Brisamar, onde o Tira-Teima costumeiramente se apresenta às sextas-feiras. Mas esta tem sabor especial, por razões óbvias.

Ao grupo, cuja formação atualmente se completa com Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro e voz), Luiz Jr. (violão sete cordas), Henrique (percussão) e Zé Carlos (percussão e voz), se somarão as participações especiais de Anna Claudia, Augusto Pellegrini, Carlinhos da Cuíca, Carlinhos Veloz, Fátima Passarinho, Celson Mendes, João Pedro Borges, Juca do Cavaco, Zequinha do Sax, Zé Luiz do Sax e Osmar do Trombone, além da presença de Bernardo Serra, irmão do homenageado.

Fisicamente, Serrinha lembra o lendário Copinha, mas sua predileção é por Altamiro Carrilho. Merece destaque sua memória prodigiosa: é capaz de tocar incontáveis choros sem qualquer estante à sua frente. Quem quiser comprovar, eis aí uma ótima oportunidade.

A produção não informou o valor do couvert artístico.

Carmen Mirandivando

Já descalça, Alexandra Nicolas presta reverência aos grandes que lhes escoltam. Foto: Rivanio Almeida Santos
Já descalça, Alexandra Nicolas reverencia aos grandes que lhe escoltam. Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O sucesso das duas edições anteriores de RicoChoro ComVida já haviam consolidado em definitivo o espetáculo mensal no calendário cultural da capital maranhense. Sábado passado (3), o grupo Urubu Malandro, com os reforços de Rui Mário (sanfona) e Fleming (bateria), e, antes, o DJ Joaquim Zion, já haviam aquecido o público, quando a cantora Alexandra Nicolas subiu ao palco, em tons de rosa e azul dos pés à cabeça, para homenagear Carmen Miranda, que confessou ser sua maior influência musical.

As várias preocupações da artista – figurino, pesquisa e seleção de repertório etc. – fizeram merecer, à sua apresentação – e ao projeto como um todo –, o epíteto de espetáculo, literalmente. O público, sempre acostumado a vê-la cantar descalça, deve ter estranhado o salto alto decorado que calçava para ser estrela ao lado de astros nada distraídos, para contrariar uma canção que não cantou.

Subiu ao palco dançando, provocante, Diz que tem [Vicente Paiva e Aníbal Cruz], dando pistas do que seria a noite dali por diante. Seguiram-se Disseram que eu voltei americanizada [Luiz Peixoto e Vicente Paiva] e O samba e o tango [Amado Regis], quando ela confessou: “meu repertório é à base de alegria e amor, por isso eu estou aqui, são a base de tudo o que faço”. Então tá explicado!

Vieram Tico-tico no fubá [Zequinha de Abreu], Teleco-teco [Marino Pinto e Murillo Caldas], Bambo de bambu [Almirante e Valdo Abreu], em que botou a plateia para cantar e bater palmas, e E o mundo não se acabou [Assis Valente]. Até que ela tirou os sapatos, botou-os em cima do tamborete, e confessou: “é uma honra calçar esse sapato, mas eu já cantei muito calçada”, riu e fez a plateia sorrir. “Esse sapato é quase uma pessoa, então vai ficar aqui à disposição de quem quiser tirar foto”, continuou. Já estavam todos entregues aos encantos de Alexandra e de sua homenageada.

Quando cantou Quem é [Custódio Mesquita e Joracy Camargo] lamentou a ausência de um par para duetar – na gravação original da música, Carmen Miranda dialoga com Grande Otelo –, prometendo-o para uma próxima ocasião. Arlindo Carvalho (percussão), Osmar do Trombone, Juca do Cavaco e Domingos Santos (violão sete cordas) vez por outra interagiam fazendo-lhe um divertido coro.

Após Camisa listada [Assis Valente], Alexandra louvou a existência de outras Carmens na música brasileira, destacando os nomes das Ritas Lee e Benneditto, Ná Ozzetti e Ney Matogrosso, todos de sua admiração.

A Meu rádio e meu mulato [Herivelto Martins], seguiu-se Na cabecinha da Dora [Antonio Vieira], externa ao repertório da “pequena notável”. “Carmen Miranda me contou em sonho que só não gravou essa música por que não conheceu Seu Vieira. Eu acredito nisso. Eu não podia deixar também de prestar essa homenagem, pois ele [o compositor] está aqui”, disse, apontando para o afoxé – usado por Fleming durante o show – pousado num banco, o que seria do artista – um dos fundadores do Urubu Malandro –, não fosse seu falecimento em abril de 2009.

Com o choro que dá nome ao grupo [Urubu malandro, de Pixinguinha, João de Barro e Louro], aliás, Alexandra Nicolas encerrou, apoteoticamente, sua primeira incursão no palco do Barulhinho Bom, que abriga o projeto RicoChoro ComVida. Aos aplausos e gritos de “mais um” em uníssono, respondeu com mais uma dose de O samba e o tango, fazendo jus à letra: “eu canto e danço sempre que possa”.

A festa continuou, com canjas de Anna Cláudia – que anunciou lançamento de disco novo para breve –, Tássia Campos – que dividirá com Cesar Teixeira e Marcos Magah o palco do Baile da Tarja Preta, de aniversário de seis anos do jornal Vias de Fato, dia 14 de novembro, no Porto da Gabi – e Joãozinho Ribeiro – que lembrou o centenário de Orlando Silva e se apresenta dia 10 de outubro (sábado), na programação de aniversário do Laborarte (em sua sede, na Rua Jansen Müller, 42, Centro). Joaquim Zion garantiu a necessária prorrogação, quando os insistentes, qual este cronista e(m) boas companhias, já em pé, dividiam-se entre o som, os últimos goles e doses, o papo e arriscar um ou outro passo.

Com devoção e elegância Silvério Pessoa volta a visitar Jackson do Pandeiro

Cabeça feita. Capa. Reprodução
Cabeça feita. Capa. Reprodução

 

Silvério Pessoa é descendente musical direto de Jackson do Pandeiro, de cujos genes nunca negou a influência. Desde Fome dá dor de cabeça (1998), único disco que lançou como integrante do Cascabulho, banda de seu início de carreira, já estava impregnado do Micróbio do frevo – ali Jackson do Pandeiro já comparecia ao repertório, com 17 na corrente (Manoel Firmino Alves e Edgar Ferreira). Não à toa, depois, batizou seu segundo disco Micróbio do frevo (2003), inteiramente dedicado ao repertório do mestre – antes, inaugurando sua bem sucedida carreira solo lançou Bate o mancá – O povo dos canaviais (2000), dedicado ao repertório de Jacinto Silva.

Agora volta à carga com este Cabeça feita – Silvério Pessoa canta Jackson do Pandeiro [2015, R$ 25,00 na Livraria Poeme-se], em que buscou aproximar-se da sonoridade original das gravações do homenageado, tanto no uso dos instrumentos quanto no puxar dos “erres”. O repertório não se limita a um “best of”: embora músicas mais conhecidas gravadas por Jackson do Pandeiro formem a maior parte do repertório, Silvério também foi buscar lados b do cantor.

Forró, frevo, xote, coco, rojão, samba: à primeira vista o disco pode parecer predominantemente junino – e acertadamente o fará quem usá-lo como trilha sonora em festas do período –, mas, como toda a obra do homenageado, pode ser ouvido o ano inteiro. Parte do que se ouve em Cabeça feita já foi ouvida também em recriações de outros intérpretes, caso da faixa-título (Sebastião Batista da Silva e Jackson do Pandeiro), gravada por Gal Costa em Profana (1984), Forró em limoeiro (Edgar Ferreira), por João Bosco em 1995, A ordem é samba (Jackson do Pandeiro e Severino Ramos), por Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede em Vagabundo (2004), além de, entre outras, Casaca de couro, por Zé Ramalho, e Na base da chinela, por Geraldo Azevedo com o grupo Cascabulho, estas últimas em Jackson do Pandeiro revisto e sampleado (1999), tributo coletivo ao rei do ritmo.

Com repertório tão vasto e tantas releituras, é justamente a devoção o que torna original a ourivesaria musical em torno do nome do paraibano Jackson do Pandeiro empreendida pelo pernambucano Silvério Pessoa. Nem capa e encarte, repertório menos ainda, soam óbvios. O maestro Spok (saxofone) é o convidado de Coco social (Rosil Cavalcanti), que ajuda a traduzir a elegância e o cenário em que posa o cantor na capa do disco: “ele é pernambucano, do canavial/ veio pro salão, é social”, diz a letra, sobre as origens e a chegada do coco aos salões e colunas sociais.

Cabeça feita repagina 24 músicas em 15 faixas, nas quais Silvério Pessoa é acompanhado por Raminho (zabumba), Luis Carlos (triângulo, congas, pandeiro, tamborim, maracás e ganzá), Renato Bandeira (viola de 10 cordas e violão), Israel Silva (contrabaixo), Vanessa Oliveira (coro), Pepê (violão de sete cordas, cavaquinho e banjo) e Dudu do Acordeom.

Ao repertório não faltam músicas de duplo sentido, de um tempo em que seu uso exigia alguma inteligência do ouvinte: o pot-pourri que reúne Vou de tutano (José Cavalcante e José Gomes Filho), Xote de Copacabana (Jackson do Pandeiro), Xarope de amendoim (Paulo Patrício e Severino Ramos) e Cremilda (Edgar Ferreira), além de Quadro negro (Rosil Cavalcanti e Jackson do Pandeiro).

Silvério Pessoa não joga conversa fora em Cabeça feita, como adverte a letra da faixa-título: “sou cabeça feita/ não jogo conversa fora/ se o papo é legal eu fico/ se não serve vou embora”. Disco festivo e inteligente, de cujo baile nordestino o leitor, festivo e inteligente idem, não cansará, mesmo após gastar todo o repertório e sandália.

As visões de Chico Nô

Divulgação
Divulgação

 

Às margens do Rio Tocantins, Imperatriz tornou-se famosa por aglutinar um grupo de músicos, a partir de meados da década de 1980, responsáveis por uma estética particular. Nomes como o paraense Neném Bragança, o tocantinense – como entrega o sobrenome artístico – Zeca Tocantins, o potiguar Nando Cruz, o pernambucano Carlinhos Veloz e os maranhenses – nenhum nascido lá – Erasmo Dibell, Chiquinho França, Luis Carlos Dias, Wilson Zara e Gildomar Marinho, entre outros.

Dos mais simpáticos músicos já surgidos no Maranhão, Chico Nô é dos poucos de fato nascidos em Imperatriz, embora já há muito radicado na capital maranhense. Também já viveu no Rio de Janeiro, onde aprofundou os estudos e aproximou-se do universo de Noel Rosa, uma de suas mais importantes referências.

No entanto, ao contrário do carioca falecido pouco antes dos 27, engana-se quem pensar numa figura eminentemente boêmia, de vida desregrada ou coisa parecida. Apesar do sorriso constante e do jeito simples, Chico Nô é também um dos mais dedicados artistas militantes, figura em extinção num estado em que a política – sobretudo a cultural – é, ainda, fortemente marcada pelo clientelismo e pela troca de favores. Não é raro vê-lo envergando um boné do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), envolvido em eventos organizados pelo próprio, entre outros movimentos e organizações sociais.

Conhecedor de um invejável repertório de terceiros, capaz de fazer inveja a qualquer profissional da noite e do “som do barzinho”, Chico Nô é também um admirável compositor, dono de obra robusta, em volume e qualidade. Para ficarmos em poucos exemplos, citemos Chorinho de herança (com letra de Ricarte Almeida Santos) e Pequenininho, ambas gravadas por Lena Machado em Samba de minha aldeia (2009), além de Taperoá voou, homenagem ao genial e pouco falado Vital Farias, Baião dos excluídos, gravada em Regar a terra (2005), disco coletivo que celebrou os 20 anos de MST no Maranhão, e Visões de Lampião (as três em parceria com Bruno Gueiros e Vergara), que dá nome ao show em que ele faz o pré-lançamento do disco homônimo, dividido com o músico e produtor Zé Paulo.

Note-se o equilíbrio de seu repertório, tanto afeito aos problemas sociais quanto à festa, quando não às duas coisas.

Visões de Lampião, o show, acontece hoje (29), às 21h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), e terá participações especiais de Patativa e do grupo Xaxados e Perdidos, além de discotecagem de Girleno. Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.

Festa para Pixixita reúne tribo da música

Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito
Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito

 

Não conheci José Carlos Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, pessoalmente. Sua fama, no entanto, está impregnada de tal modo na cidade que é impossível não se sentir, de algum modo, próximo dele.

Alguns músicos citaram-no como professor, amigo ou influência, ao longo da série Chorografia do Maranhão. A um deles, Ricarte Almeida Santos, um dos parceiros da empreitada, respondeu: “eu não tive a honra de conhecê-lo, mas conheci Nelsinho, um cara bacana, gente fina”.

É por aí.

Nelsinho é filho de Pixixita. Também é, já, uma espécie de lenda urbana, professor de capoeira, o sorriso sempre a iluminar a ensolarada São Luís, que vez em quando a gente encontra flanando por aí, por aqui, por ali.

Pixixita era professor da Escola de Música. Feições indígenas, entre a inocência de um curumim e a sabedoria de um pajé. Mais que a música, sua grande paixão, o professor foi um cultivador de amizades.

Maranhense de Imperatriz, o cantor e compositor Chico Nô é um dos que não escondem a amizade, admiração, carinho, respeito e saudades de Pixixita, falecido em 2002, em um acidente automobilístico.

Em 2004, no evento semanal A vida é uma festa, Chico Nô homenageou o mestre amigo. Da tertúlia capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, a Tribo do Pixixita – como passou a ser chamada a homenagem – ganhou vida própria e não existe abril sem ela, no calendário cultural da cidade que Pixixita tanto amou.

Produzida por Luiza Maria, Chico Nô e Nelsinho, a Tribo do Pixixita chega em 2015 à sua 12ª. edição, agregando uma constelação de craques da música produzida por estas plagas (sem contar os que aparecem sem ser anunciados), mais “pixixitesco” impossível: Angela Gullar, Beto Ehongue, Chico Nô, Chico Saldanha, Criolina, Erivaldo e Didã, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Marcos Magah, Ronald Pinheiro, Rosa Reis e Sérgio Habibe.

A festa acontece no Malagueta (Renascença II), neste sábado (11), às 20h30. Os ingressos custam R$ 20,00, à venda no local.

Chorografia do Maranhão: Os Irmãos Gomes

[O Imparcial, 22 de junho de 2014]

A 34ª. edição da Chorografia do Maranhão é misto de entrevista e homenagem. Entrevistamos os Irmãos Gomes, naturais de Rosário, e homenageamos seu pai, o compositor Nuna Gomes, também oriundo da cidade banhada pelo Itapecuru.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: MURILO SANTOS

Ladeados pelos chororrepórteres, Os Irmãos Gomes. Da esquerda para a direita: Bastico (violão), Zequinha do Sax e Biné do Cavaco (violão). Foto: Murilo Santos
Ladeados pelos chororrepórteres, Os Irmãos Gomes. Da esquerda para a direita: Bastico (violão), Zequinha do Sax e Biné do Cavaco (violão). Foto: Murilo Santos

 

Vem de Rosário o trio de entrevistados da 34ª. edição da série Chorografia do Maranhão. Os Irmãos Gomes, filhos da doméstica e costureira Isabel Pereira da Silva Gomes e de Nionílio Alódio Gomes (1904-1985), barbeiro e músico mais conhecido pela alcunha de Capitão Nuna Gomes, herdaram do pai o gosto e talento pela música.

Desfalcados do fotógrafo titular, Murilo Santos assumiu o posto e clicou no Bar do Léo o depoimento a Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro de Benedito do Espírito Santo Silva Gomes, o Biné do Cavaco (nascido em 6 de agosto de 1953), José Raimundo Silva Gomes, o Zequinha do Sax (6 de fevereiro de 1940) e Sebastião de Jesus Silva Gomes, o Bastico (14 de setembro de 1948).

Autor de obra pequena – muito se perdeu na própria memória, pela falta de registro – Nuna Gomes é nome fundamental na galeria de compositores de choro do Maranhão. Sua Um sorriso foi registrada em Choros Maranhenses (2005), do Instrumental Pixinguinha, primeiro disco autoral de choro registrado no Maranhão – Biné do Cavaco integrou o grupo em sua formação inicial, no começo da década de 1990.

 

A conversa foi ilustrada musicalmente por, entre outras, Saxofone, por que choras? (Ratinho) e Siboney (Ernesto Lecuona).

Além de músicos, vocês têm outras profissões?
Biné – Eu tentei ser aeroviário, trabalhei uns 10 anos, trabalhei na Vasp, Transbrasil, mas com o tempo fiz uma empresa pra mim, tentei ser empresário. Resultou agora já há 14 anos abri minha escola de música, já formei dois filhos e acho que vou me aposentar nisso, como professor de música.
Zequinha – Eu fui funcionário público federal, trabalhei muitos anos nos Correios, carteiro, passei 17 anos, quase 18, nos Correios. Aí eu fui redistribuído para a Escola Técnica, na época era Escola Técnica Federal do Maranhão, cheguei lá em 1978 e lá eu me aposentei, trabalhando uma parte como músico, ensinando na banda de música, e outros anos eu trabalhei como supervisor, passei nove anos como supervisor e nove anos como professor na banda de música. Ensinei muita gente lá.
Bastico – Além de músico eu consegui fazer cursos profissionalizantes na Escola Técnica Federal do Maranhão. Consegui fazer as profissões de tornearia, marcenaria, eletricidade, bombeiro hidráulico, solda elétrica e oxigênio, tipografia, e fora outras profissões como xerografia. E algumas com atividades durante algum tempo. Outras já até abolidas, como o caso da tipografia. Algumas exercidas, outras não. Atualmente sou só músico. Continua, essa é padrão.
Biné – Não tem saída: lá em casa a gente encerra com música.

Como era o universo da infância de vocês? Era musical? Como era o clima na casa de vocês?
Zequinha – Lá em casa sempre foi. Ainda em Rosário, aqui. Lá em Rosário a gente era muito novo.
Biné – Eu vim de Rosário com seis anos, sete. Mas lá em casa sempre foi música.
Zequinha – Eu era o mais velho. Lá eu aprendi a tocar o clarinete, com o professor da época, João dos Santos, grande músico. Eu comecei a tocar cabaça coberta com botão de cueca, ia fazer festa pra ganhar dinheiro.
Biné – O músico do interior, na época, tinha três classes. Zequinha entrou na terceira, pra depois ir pra segunda e depois pra primeira. Na terceira entrava cabaça, pandeiro; o cantor já era da segunda, com banjo. Agora o cara do sax, do pistom, já era da primeira.
Zequinha – Eu entrei como cabacista, da terceira. Era como se aquele ganhasse cem reais, o outro 80 e eu ganhava 60. Eu não achava legal, por que eu trabalhava mais, ainda cantava. Moral da história: eu comecei a aprender, fui estudar música, passei uns meses. Depois comecei a tocar clarinete. Aí vim pro quartel, passei um ano, quando eu voltei pra Rosário, seis meses ou um pouco menos, eu ganhei uma nomeação no Correio de São Luís e tive que vir pra cá. Eu não tinha conhecimento nenhum, a não ser o quartel.
Biné – Eu me lembro que papai dizia que a gente só vinha pra São Luís quando Zequinha estivesse empregado.
Zequinha – Aí com poucos meses eu estava empregado, aluguei uma casa e disse para mamãe botar tudo dentro do caminhão que a casa já estava alugada. Aí eles vieram pra cá, ali no Monte Castelo, eu gosto muito do bairro. Tudo o que eu precisava ter eu tive lá. Passei 10 anos lá, durante o tempo de solteiro. Ali eu saía pra tocar.

Capitão Nuna Gomes. Sem data. Autoria desconhecida
Capitão Nuna Gomes. Sem data. Autoria desconhecida

 

Além da genética, o fato de o pai de vocês tocar, vocês acham que houve outro fator decisivo para vocês seguirem a carreira de músicos?
Biné – Sobrevivência!
Zequinha – Eu, me ajudou demais. Aqui eu fiz conjuntos, naquela época era conjunto musical, participei de vários. Isso tudo a gente faturava, e bem, na época. Eles já vieram depois. Eu tinha que arrumar um jeito para ajudar na despesa de casa. Nós éramos nove irmãos, mais os dois pais, e alguns amigos que moravam. Tinha que ter dinheiro pra poder segurar, e com a música eu ganhava muito mais do que o próprio salário no Correio. Até hoje.

O violonista Bastico. Foto: Murilo Santos
O violonista Bastico. Foto: Murilo Santos

 

Bastico, você, filho de Nuna, que tocava bandolim e violino, o que te fez escolher o violão? Eu já te vi tocando seis cordas, sete cordas, guitarra, baixo. O que te levou aos instrumentos de cordas?
Bastico – Esse fator de nosso pai ter sido músico e concentrar em sua volta muitos músicos, a apreciação da arte em si, me chamava a atenção, eu como criança. Apesar de me chamar a atenção não havia em nosso pai uma permissão ou uma preferência para que qualquer um de nós seguisse os dons que ele tinha, que era ser músico ou barbeiro. Ele aspirava, como geralmente todos os pais, alguma coisa melhor que a que ele continha. Mas como esse dom é uma origem que se alastra por toda a família. Chamava-me a atenção, aquela reunião, a forma de meu pai tocar, a forma de meu irmão mais velho, Denisal, tocar, e outros amigos e alunos dele. Mas eu não expunha meu interesse a meu pai nem a ninguém. Eu procurei captar às escondidas. Na ausência dele, na forma mais oculta possível, pegando instrumento dele, sem o conhecimento dele. Isto com pouca idade, meus oito, nove, 10 anos. Até chegar o momento do conhecimento: num determinado momento em que ele necessitava de uma pessoa que tocasse violão para que ele pudesse fazer uma apresentação. E ele, que não sabia que eu já havia captado alguma coisa dele e das outras pessoas que com ele tocavam, foi surpreendido pela minha irmã para poder tomar conhecimento de que eu já tocava as músicas que ele precisaria tocar. A partir desse momento eu fui levado junto com ele para um compromisso, em que ele faria o oferecimento de duas músicas, uma valsa e um chorinho, de autoria dele, eu passei a ser um músico assediado por ele, já. Então eu passei a fazer parte das apresentações, das amizades dele. A partir daí meu desenvolvimento foi baseado no que ele fazia, da forma que ele tocava, na qualidade que ele desenvolvia o instrumento e o meu irmão também. A música é um dom natural de família. A partir daquele instante, já vindo pra cá, houve outras evoluções.

Zequinha do Sax e Biné do Cavaco. Foto: Murilo Santos
Zequinha do Sax e Biné do Cavaco. Foto: Murilo Santos

 

Biné, você está com um violão, mas você tem o nome artístico de Biné do Cavaco.
Biné – Essa é uma história muito interessante. A gente tinha uma banda, Curtisom, inclusive eu fiquei muito satisfeito: todos nós estamos vivos. Encontrei Joaquim [baterista], fazia 10 anos que eu não via, vamos fazer um encontro. A história do cavaco é a seguinte: a gente tinha uma Rural [veículo utilitário]. Nós éramos sete. Imagina, ficávamos cinco lá atrás, dois na frente e o motorista. O motorista nunca ia dormir para vir depois da festa. Aí ele ficava com sono e dizia: “toquem alguma coisa!” E às vezes a gente levava um violão pra brincar, pra fazer um sambinha, numa época em que samba não se tocava em festa. Era inconveniente o violão. Um dia levamos um cavaquinho, peguei a afinação do violão, eu tocava para animar o cara, pra ele não dormir. E eu comecei a tocar cavaquinho naquela afinação. Um dia Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor] chegou pra mim e disse: “Biné, esse cavaquinho tá tocado em afinação errada”. Aí ele me deu a afinação como seria. O que aconteceu? Eu comecei a tocar o cavaquinho, aprender um chorinho aqui. Depois a gente fez um grupinho de brincadeira, a gente ia pra rádio Ribamar. Zequinha, você lembra o 20 Cordas no Choro? Mas a gente não era chorão, então a gente sabia 10, 15, 20 choros. Não dava pra segurar um repertório, a gente tocava em banda. A gente chegava, tocava cinco choros, diziam “está muito bom, voltem na próxima semana”. Na outra semana a gente tocava os outros cinco [risos]. Dava pra tocar umas quatro semanas. Aí chegou a época de roda de samba, o Curtisom saiu na frente, por que tinha um cara tocando cavaquinho: eu.

Quem integrava o Curtisom?
Biné – O Curtisom era formado, inicialmente, por Almir, cantor, Zequinha, eu, Bastico, Joaquim, esse amigo nosso que eu falei, Giovani, violonista, e Pinheiro, Chico Pinheiro, de teclado. Chico Pinheiro foi a coisa mais interessante, por que ele não sabia tocar teclado e nós convidamos ele pra tocar teclado, quando a gente comprasse. “Vai treinando na Escola Técnica no piano, que quando a gente comprar, tu vem ser o nosso tecladista”. E ele veio. Quando comprou, “te vira aí”.

Isso era década de 1970?
Zequinha – 72.
Biné – Dia 2 de julho o Curtisom faria 42 anos.

Vocês tocavam em casas noturnas? Como era isso?
Biné – São Luís era maravilhoso! Não é como agora. Eu fico prestando atenção. Eu passo ali, vejo o Lítero [o Grêmio Lítero Recreativo Português, no Anil] no chão. Em 1972 eu toquei o carnaval ali. Foi a época, quando eu falei com Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], Zequinha foi um dos fundadores dos Fantoches. Nós tínhamos tantos lugares para tocar. Tinha os grupos classe A, uns quatro: Nonato, Fantoches, Som Livre e Curtisom. A gente tocava no mesmo valor. Quando a gente estava cheio de contratos, a gente passava. Tinha um negócio interessante: toda turma fazia duas a três festas para poder fazer as festas do final de ano, dos colégios. Tinha Casino Maranhense, Montese, tantos clubes aqui, as bandas não davam para quem queria.

No traço de Nuna Neto (chargista de O Imparcial), outro herdeiro do capitão Gomes, a família musical reunida
No traço de Nuna Neto (chargista de O Imparcial), outro herdeiro do capitão Gomes, a família musical reunida

 

Mesmo o pai de vocês sendo músico, não era tranquilo o apoio dele a vocês serem músicos também, até pelo preconceito que existia à época. Depois o pai de vocês apoiou essa escolha?
Zequinha – Meu pai sempre me apoiou eu tocando sax. Por que também é o instrumento que eu sei tocar, embora um pouco menos do que os outros, mas dá pra gente ouvir. Canhoto, seria difícil eu tocar um instrumento de cordas, por que eu não tocava numa afinação minha. Ficou difícil eu aprender cavaquinho ou bandolim. Violão eu toco pro gasto. Quando eu fui pro saxofone ele me dava todo apoio.
Biné – Acontece um negócio interessante: com o tempo papai passou a admirar muito a gente, eu não lembro por quê. Quando a gente reunia tinha uma banda tocando: Bastico no violão, eu de cavaquinho, Zequinha de saxofone, alguém fazendo ritmo, não sei quem cantando. Vamos, tá uma banda montada. Quando era banda, era eu guitarrista, Bastico baixista, Zequinha sax, aí já vinha Celso, irmão nosso que faleceu há uns quatro meses, cantava, tocava bateria.
Bastico – Na opinião dele ninguém seria músico, ninguém seria barbeiro. Mas a partir do momento em que cada um abraçou a música, o dom dele, que é o nosso também, e passou a desenvolver, ele passou a apoiar. Passou a apoiar e a usufruir o que se fazia. Estava sempre que possível junto com a gente, sempre perto, e sempre mostrando ou expondo às pessoas o que ele tinha, de família, como músicos iguais a ele ou no ramo dele. Ele fazia questão, ele tinha um prazer, não era a preferência dele. Talvez a preferência dele fosse outras coisas, mas ele apoiava todos nós, sim.

Ele chegou a dar aulas para vocês? A ensinar música?
Bastico – Para mim, no caso, não. Eu acho até que para nenhum dos irmãos. Cada um foi autodidata ou procurou alguma forma de desenvolver a sua cultura. Foi mais fácil uns com os outros e com ele também, embora indiretamente. Mas ele lecionar qualquer coisa pra gente, não. Depois desse desenvolvimento nosso ele poderia sugerir qualquer opinião.
Biné – Eu concordo contigo numa coisa: a primeira ação de papai para os filhos tocarem. Papai tinha muita ideia musical, mas sabia que aquela música que ele fazia não tinha grande futuro. O que ele fez? Pegou nós três irmãos primeiros, mais Denisal, Concita e Nazaré, essa já falecida, e botou com Pedro Gromwell pra poder estudar partitura. Ele ia uma ou duas vezes por semana em Rosário, dar aulas.

Ainda assim, ele não dando aula formalmente, vocês o consideram o seu principal mestre?
Zequinha – Eu o considero. Por que ele, quando a gente fazia coisa errada, brigava. Dava murro nas paredes, na mesa. “Tá errado!” Eu não, por que meu instrumento é solo e ele não sabia tocar [risos], mas ele gostava de ouvir.
Biné – Ele tinha um ouvido magnífico. Não era o que ouvia bem a música: ele ouvia, memorizava e passava para o instrumento.
Zequinha – Ele tinha uma facilidade monstra de aprender as coisas. Ele não lia música, mas tudo ele pegava no ar.
Biné – Papai teve essa visão de botar os filhos para aprender a ler música, na época. Os outros, que não quiseram aprender a ler, ele começou a relaxar um pouco. Papai conhecia perfeitamente os instrumentos que tocava, a ponto de eu pensar que eu já era o craque, artista, cabeludo, de guitarra e tudo mais, e chegar e dizer o seguinte: “papai, eu tou tocando cavaquinho, já sei solar uns choros, vou comprar meu cavaquinho”. E ele dizia: “vá comprar o cavaquinho que eu quero ver se você sabe comprar o instrumento”. Cheguei, procurei o mais bonito, quando eu cheguei ele só fez isso [belisca duas cordas, imitando o gesto do pai]: “vá devolver, que não presta”. Aí eu fui estudar para entender aquele gesto dele. É como eu lembro, comento, as músicas de papai, hoje, que a gente procurou estudar um pouco mais para entender a estrutura, a organização das músicas que ele fez, rapaz, as músicas de papai estão todas dentro do padrão. Eu conversando com meu grande amigo César Jansen [bandolinista], ele me disse que as músicas de choro, cada parte tem 16 compassos. “Foi um estudo feito através de Pixinguinha. Vamos ver os de Capitão”, é como chamam papai. Cumprem rigorosamente as determinações da parte teórica, as músicas dele, as movimentações harmônicas. Ficou mais fácil, estudando, entender a música de papai. É a mesma variação da música de Jacob [do Bandolim], a mesma dos grandes compositores.

Em "A arte musical de Nuna Gomes" estão registradas nove composições dele. Capa. Reprodução
Em “A arte musical de Nuna Gomes” estão registradas nove composições dele. Capa. Reprodução

Qual o tamanho da obra de Nuna Gomes?
Biné – Nuna não tem uma obra muito grande. Ele deve ter umas 14 músicas – umas quatro valsas, uns 10 choros. Tem umas coisas perdidas, por que não era escrito. O que foi escrito foi por Zé Hemetério, foi o que foi gravado. Tem até músicas com dúvidas quanto aos nomes. Mas aquelas que foram gravadas estão certinhas. Só podia memorizar naquela época através de um gravador. Tu queria ver papai não dar uma nota num instrumento era botar um gravador na frente. Ele se perdia todinho, “tira esse gravador daí!”

Como vocês definiriam o Capitão Nuna Gomes?
Bastico – Eu posso dizer, em particular, que fui priorizado com a preferência dele na forma de meu aprendizado sobre as coisas que ele fazia. Eu procurei aprender da forma que ele tocava, ele e meu irmão, assim satisfazendo a necessidade dele. Por essa razão ele procurou aproximar-se o máximo possível de mim, chegando ao ponto de não satisfazer-se em tocar sem minha presença em determinados momentos. Eu acho que definir meu pai tanto como pai, homem, músico ou como um cidadão, ele para mim foi um modelo, um modelo que a gente cria na mente, um exemplo a seguir.
Zequinha – É um tanto difícil de a gente chegar e dizer a verdade: “ah, por que é filho”. Não: eu sempre dei 10 pra ele. Ele pegava o cavaquinho, tudo o que ele queria ele fazia com aquele cavaquinho. Violão do mesmo jeito, bandolim, esse era o instrumento dele, e o violino. Violão ele pegava depois. [Lacrimejando:] Eu não gosto de falar.
Biné – Eu tentei ser solista. Da família, é como se fosse um time de futebol, eu era o nove. Eu era o solista, com Zequinha, lá na frente da banda. Solista de guitarra, solista de cavaquinho. Aí eu passei a perceber e valorizar Capitão Nuna: ele passava cinco anos sem pegar um instrumento. Quando a gente foi levar Nuna pra gravar o primeiro cd dele, lá onde Anísio, ele disse: “a coisa mais impressionante, eu não vejo seu Nuna errar uma nota”. Ele tinha uma segurança tão grande na escala, que se tornou, devido a tocar muito tempo, conviver muito tempo com o instrumento, o que ele imaginava, ele fazia perfeitamente. Eu tenho certa dificuldade. O músico completo tem que ter muitas coisas, inclusive memória. A escola dele, ele foi autodidata. Aí é que está minha admiração: magnífico nessa parte. Todo instrumento que ele tocava, ele tocava com muita segurança.

A obra de Nuna foi registrada em disco recentemente. Como foi esse processo? Se alguém quiser ter acesso, onde encontra?
Biné – Esse material não se encontra direto ao público. Ele foi registrado por um grande amigo nosso, Hilton Mendes, que mandou fazer uns 400 cds. Isso já se distribuiu para os amigos, deve ter bem poucos [exemplares]. Foi uma obra feita de caráter mais documental, não foi com caráter comercial.

Além desse disco que registrou a obra de Nuna, vocês participaram da gravação de outros discos?
Biné – A gente fez algumas coisas, tem registros de memórias, em fitas lá em casa. Tem Zé Hemetério tocando. Tem Ricarte [risos dos chororrepórteres], um grande violonista, amigo de Zé Hemetério.

 

Biné, você foi membro do Instrumental Pixinguinha. Quanto tempo você passou no grupo?
Biné – Eu passei 18 meses. Eu estava trabalhando na Transbrasil e na época não queria saber de música, mas Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] me convidou e eu fui. Na época eu não lia música e eles disseram [risos]: “tu tá lascado”. “Mas eu aprendo”. Foi muito importante nessa parte teórica, eu comecei a estudar, gostava do trabalho que estava sendo feito. Fizemos um espetáculo no Teatro Arthur Azevedo em que tocamos a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Depois saímos eu, César Jansen, Solano, Paulinho [Oliveira, flautista] e Marcelo [Moreira, violonista]. Ficou só Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. De lá reuniu, o pessoal trouxe Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Isso era 1990, esse pessoal [a atual formação] veio depois.

O pai de vocês tinha amizade com Zé Hemetério? Como era isso?
Zequinha – Nós éramos vizinhos. Era aquela amizade louca! Eu toquei demais com Zé Hemetério.
Biné – Zé Hemetério era o seguinte: já envelhecido, ele tinha alguns contratos, mas não tinha parceiros. Ele chegava e perguntava: “vocês vão tocar quinta-feira?” Íamos eu, Bastico e Maneco acompanhando ele, tocamos muito. Ele no violino, tocando festa de 15 anos. Muito depois ele começou a tocar bandolim, mas só pra brincar, não pra ganhar dinheiro.

Vocês já falaram no Curtisom e no Pixinguinha. De que outros grupos musicais vocês participaram?
Biné – Eu e Bastico participamos da Orquestra Maranhense. A Orquestra Maranhense tem uma história que ainda não foi dita por ninguém. O Ataíde, que fez a Orquestra Maranhense, na época era dono do Som Livre, depois extinto. Ele pensou assim: todos os músicos, das bandas da polícia e das bandas do exército, não têm onde tocar depois que se reformam, a não ser em [bumba meu] boi e carnaval. E ele idealizou uma orquestra para poder tocar todo o tempo. Pegou todos os músicos reformados da época e fez a Orquestra Maranhense, lá na casa dele no Ipase. Ele perguntou: “Biné, tu não vai dar uma força pra mim?” Eu fui pra guitarra, Bastico pro baixo, e ele ficava lá no teclado.
Zequinha – Nós criamos aqui o Conjunto Melodia, com Mascote [o violonista e percussionista Antonio Sales Sodré], Ataíde, [o cantor Léo] Spirro, a gente tocava muito. Sabe como é o conjunto: vai, vai e se acaba. Aí nós criamos o Big Nove, com aquela dupla Ponto e Vírgula, Jorge e Othon Santos. Foi chamado Spirro, Bárbara, cantora, naquela época cantava muito bem, eu. Nós éramos nove músicos, por isso Big Nove. Fizemos muita festa, [Clube] Jaguarema. Terminou o Big Nove nós fizemos Os Fantoches. Depois o Curtisom, em 1972 eu saí dos Fantoches. Aí nós fundamos o nosso, um nome criado por Bastico, Curtisom, muito bom. Quando surgiu, surgiu com tudo.
Bastico – Eu fiz parte de muitos, como Big Nove, Ferreira e Seu Conjunto. Depois fui participante do Som Livre, Os Fantoches e do Curtisom. Depois da Orquestra Maranhense. Toco violão há oito anos no bumba meu boi Mocidade de Rosário.

Vocês se consideram chorões?
Bastico – Eu sempre fui. Eu sou muito amante do gênero, e como amante eu gosto sempre de participar como músico. Portanto, tanto quanto como amante, como quanto participante instrumentista, eu sou chorão.
Zequinha – Eu me considero. Por que foi um dos ritmos que eu mais abracei. Na época em que eu tocava o sax alto ele pede que a gente toque choro devido à facilidade na execução. Eu morava no interior e lá eu tinha que aprender a tocar, pra fazer aquelas festas que começavam às nove horas e terminavam às seis da manhã. De madrugada a gente tocava choro e eu me acostumei com aquilo, aprendi, vim pra cá e trouxe o costume pra cá. Abraço todos os gêneros, toco todos os gêneros, mas naquela época eu tocava mais o choro.
Biné – Na visão de músico ou na de musicólogo? Na visão de musicólogo eu adoro o choro; na de músico, eu gosto, porém eu não pratico. Eu fui um dos primeiros a tocar choro aqui dentro de São Luís. Eu procuro ser o máximo eclético. Hoje eu toco mais violão, tenho minhas agendas. Na verdade eu tenho que parar para poder estudar, treinar. Não tem grupo, o choro é fundamental ter o grupo.

Danilo Caymmi encerra ano de homenagens a Dorival Caymmi com show em São Luís

[JP Turismo, Jornal Pequeno, ontem]

Apresentação acontece no Teatro Arthur Azevedo, amanhã (20). O repertório é composto por clássicos de autoria do compositor baiano, que completaria 100 anos em 2014

POR ZEMA RIBEIRO

Danilo Caymmi com o violonista André Siqueira durante apresentação na Ponta do Bonfim em agosto passado. Foto: Doriana Camello
Danilo Caymmi com o violonista André Siqueira durante apresentação na Ponta do Bonfim em agosto passado. Foto: Doriana Camello

 

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é”, cravou Dorival Caymmi no antológico Samba da minha terra, recriado por tantos ao longo dos tempos, em especial Os Novos Baianos, uma de suas tiradas imortalizadas para além de palcos e rodas de samba mundo afora.

“O que é que a baiana tem?”, perguntou, para responder em seguida, seu primeiro sucesso a extrapolar os limites do país, imortalizado e para sempre lembrado na voz de Carmen Miranda, a pequena notável.

“Quem quiser vatapá, que procure fazer: primeiro o fubá, depois o dendê”. Como bom baiano Dorival Caymmi era chegado a boa comida, mesa farta. E ensinou receitas de bem viver e boa música. O longevo compositor baiano faleceu em 2008 aos 94 anos.

“Doralice, eu bem que te disse, amar é tolice, é bobagem, ilusão”, advertia a voz de João Gilberto em disco com Stan Getz que acabou por tornar a bossa nova – e consequentemente a música brasileira – objeto de culto em terras estrangeiras. A música é dele, Dorival Caymmi.

Autor de inúmeros clássicos, como demonstram os parágrafos iniciais, o autor de Oração da Mãe Menininha, nos legou também uma prole musical importante para a MPB: é pai de Dori, Nana e Danilo Caymmi.

O terceiro volta à São Luís amanhã (20) para encerrar a temporada de homenagens ao pai, pelo centenário que teria completado neste 2014. Acompanhado dos músicos André Siqueira (violão) e Davi Mello (guitarra), Danilo Caymmi (voz e flauta) apresenta o show Dorival 100 Anos no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), às 20h.

O repertório é inteiramente dedicado à obra de Dorival, mas Danilo deve lembrar também alguns clássicos seus, indispensáveis, caso de Andança (parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós) e O bem e o mal (parceria com Dudu Falcão), tema da minissérie global Riacho Doce.

Com mais de 40 anos de carreira, tendo integrado as míticas Som Imaginário e Banda Nova – que acompanhou Tom Jobim em diversas turnês internacionais – é a segunda vez que Danilo Caymmi visita a Ilha. A primeira foi em agosto passado, quando ele se apresentou para um público restrito no projeto Ponta do Bonfim – Música e Por do Sol, equilibrando no repertório temas autorais e de autoria de seu pai.

2014 foi um ano marcado por diversas atividades alusivas ao centenário de Dorival Caymmi. Foram lançados diversos discos e realizados diversos shows e exposições, em várias partes do Brasil.

Os ingressos para Dorival 100 Anos, à venda na bilheteria do Teatro, custam R$ 40,00 (balcão e galeria), R$ 50,00 (frisa e camarote) e R$ 60,00 (plateia). O show tem produção de 4P Produções, patrocínio de Potiguar Casa OK, Marcos Peixoto Arquitetura, UVA/IDEM, Calado e Correa Advogados Associados e Premier Hotel, e apoio do jornal O Imparcial e Opus Estúdio.

Show Elas cantam Vieira celebrará 94 anos que compositor faria 9 de maio

Falecido em 7 de abril de 2009, obra de Antonio Vieira será lembrada na data em que compositor completaria 94 anos

O compositor em ação no também saudoso Clube do Choro Recebe. Foto: Pedro Araújo

No próximo 9 de maio, o compositor Antonio Vieira completaria 94 anos. “Se vivo fosse não cabe dizer, pois ele está vivo entre nós, através de sua lembrança e principalmente de sua obra”, afirma o percussionista Arlindo Carvalho, músico que privou da amizade do “velho moleque”, um dos organizadores do tributo que celebrará a data em São Luís.

Elas cantam Vieira: conosco não tem mosquito! é o nome do show que será apresentado sexta-feira, 9, às 20h, em frente ao Memorial Maria Aragão, na praça homônima (Av. Beira Mar, Centro). Subirão ao palco Alexandra Nicolas, Anna Cláudia, Camila Reis, Cecília Leite, Célia Maria, Lena Machado, Rosa Reis e Tássia Campos para festejar a obra do autor de clássicos do quilate de Cocada, Banho cheiroso e Tem quem queira, entre mais de 300 outras.

A banda que as acompanhará é formada pelos músicos Arlindo Carvalho (percussão), Caio Carvalho (percussão), Celson Mendes (violão), Danilo Miranda (sax alto e clarinete), Fleming (bateria), Mauro Travincas (contrabaixo), Osmar do Trombone e Paulo Trabulsi (cavaquinho). O espetáculo contará ainda com as participações especiais de Adelino Valente (piano) e Zezé Alves (flauta)

Com apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e Museu da Memória Audiovisual do Maranhão/ Fundação Nagib Haickel (Mavam), o espetáculo é gratuito, mas recomenda-se a quem for, doar um quilo de alimento não perecível: a arrecadação será destinada a uma instituição de caridade da capital maranhense.

“Celebrar o legado de Vieira é também celebrar suas convicções, ele cuja obra e posturas traduziam diversas preocupações sociais”, finalizou Arlindo Carvalho.

[Este post sofreu correções às 9h15min de 6/5/2014]

A violência artística de Carlos Latuff

“A função do artista é violentar”. A frase do cineasta Glauber Rocha que serve de epígrafe ao blogue de Carlos Latuff traduz seu exercício de ler o mundo através dos traços e cores de suas charges, publicadas por aí, o artista ainda mais conhecido fora que em seu pobre Brasil – triste do país que não sabe reconhecer e valorizar seus artistas.

Carioca nascido em 30 de novembro de 1968, o chargista é um cronista do cotidiano, com a pena mais afiada e o olhar mais aguçado que o de muita gente por aí, sobretudo os que ocupam cargos e funções nos podres poderes – o poder, propriamente dito, e a mídia.

Latuff come pelas beiradas. É na imprensa alternativa e sindical, entre jornais nanicos e panfletos dos movimentos sociais que ele crava suas denúncias, não sem um quê de ternura e beleza, orientando-se pela máxima do revolucionário. Tem ilustrado e participado de momentos cruciais da história recente – primavera árabe, derrubada da ditadura egípcia, Pinheirinho, Copa do Mundo no Brasil etc. Já perdeu a conta de em quantas publicações infiltrou suas obras de arte e uma delas protagonizou talvez o primeiro caso de asilo artístico no Brasil: Por uma cultura de paz, charge de sua autoria que retrata um homem negro crucificado executado pela polícia, teve sua retirada solicitada por um político filho de militar e ganhou abrigo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Sem formação acadêmica, apenas com o “segundo grau completo”, como ele mesmo diz, o desenhista formou-se observando as ruas, sua cidade maravilhosa natal, o Brasil e o mundo que roda a trabalho, terrenos mais que férteis em se tratando de matéria prima para o seu fazer artístico e político.

“Artivista”, cravei uma vez referindo-me a ele. Já admirava e acompanhava seu trabalho e acompanhava quando pintou a oportunidade: a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) realizou, em 2012, com algumas entidades parceiras, uma Campanha de Combate à Tortura e tivemos a honra de convidá-lo a desenhar o cartaz (a imagem ilustra a capa desta agenda).

Por que Latuff não é apenas talentoso. É também um artista comprometido com a luta dos menos favorecidos, despejados, indígenas, quilombolas, sem-terra, vítimas dos megaprojetos e megaeventos, vítimas da polícia, crianças e adolescentes, idosos, mulheres, LGBTs. Em suma, um artista comprometido com a luta por e a efetivação dos direitos humanos na vida das pessoas.

Cada um luta com as armas que tem. Canetas na mão e ideias na cabeça, eis as de Latuff. No ano em que a SMDH completa 35 anos de luta em defesa da vida, é motivo de orgulho para nós, presentear sócios/as, parceiros/as e amigos/as com esta antologia latuffiana, imagens pinçadas de um ano especialmente trágico para os direitos humanos no Brasil.

Homenagem – Especialmente para esta Agenda 2014, Latuff desenhou o saudoso Celso Sampaio, assessor jurídico da SMDH, falecido ano passado, também admirador de seu trabalho.

[textinho que escrevi pra Agenda 2014 da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos]