Esfregando genialidade na cara da humanidade

Mate minha mãe. Capa. Reprodução
Mate minha mãe. Capa. Reprodução

 

O que quer alguém que já venceu o Oscar, o Pulitzer e o Obie Awards ao se meter e fazer uma graphic novel? Esfregar sua genialidade na cara da humanidade? “O que é que pode fazer um homem comum neste presente instante?”, hein, meu caro Belchior?

O melhor a fazer é deleitar-se com o exagerado talento de Jules Feiffer, 87, esfregado em nossa cara página a página, quadro a quadro de Mate minha mãe [Companhia das Letras/ Quadrinhos na Cia., 2015, 160 p., leia um trecho].

50 tons de cinza (e marrom) que realmente valem a pena, trama bem urdida, nada a ver com o soft pornô, best seller em livrarias e cinemas – refiro-me à coloração desta obra-prima de Feiffer, ser incomum e raro (redundo?), avalizado na contracapa por Neil Gaiman, Art Spiegelman, Chris Ware e Stan Lee. Querem mais?

Com talento mais que comprovado em outras áreas, Feiffer, escritor e cartunista com mais de 35 livros publicados, estreia em grande estilo com esta graphic novel policial, recheada de música. Não à toa, suas personagens cantam e dançam (às vezes literalmente), equilibrando-se na corda bamba entre o rabisco e a obra de arte.

Assistente de Will Eisner na adolescência, Feiffer, de cara, agradece a mestres que dão pistas das referências encontradas em Mate minha mãe: os quadrinhistas Milton Caniff e o próprio Eisner, os romancistas Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James M. Cain e os cineastas John Huston, Billy Wilder e Howard Hawks.

Dividida em dois atos, a história se passa nas décadas de 1930 e 40. Pode soar clichê, mas parece impossível fugir da comparação dos quadrinhos com o cinema (noir): os diálogos rápidos, os capítulos curtos, a agilidade das personagens, saltando fora dos quadrinhos, os núcleos se cruzando: cinco mulheres e um alcoólatra arremedo de detetive.

Blues, bom humor, ironia: Feiffer tira um sarro de Hollywood, onde se passa a segunda parte da história, com uma personagem transgênero desfilando entre as estrelas, em determinado momento convertidas em atrações para soldados em guerra.

Gênio!

São Luís no mapa de Super Nada

Sempre defendi que um cinema como o Praia Grande deveria estar incluído na rota de lançamentos do cinema nacional. Isso por dois motivos: fazer com que estes filmes cheguem à ilha, já que as salas superclimatizadas e megaconfortáveis dos shopping centers não irão fazê-lo, e também para angariar algum público para a sala do centro histórico, o público que quer ver as novas produções nacionais e fugir um pouco do esquema Hollywood + pipoquinha.

Não, não estou dizendo que o Praia Grande não possa exibir cinema estrangeiro (o que até faz, com qualidade, e não sou contra). Tampouco estou dizendo que os cinemas de shopping não podem exibir filmes nacionais (o que até fazem, embora em geral com o humor sem graça da Globo Filmes).

Mas a grande notícia cinematográfica do dia é a seguinte: São Luís está entre as capitais em que Super Nada estreia hoje (15). O novo filme de Rubens Rewald, com Marat Descartes, Jair Rodrigues e Clarissa Kiste.

O filme será exibido às 17h30min no Cine Praia Grande. E às 17h e 21h no Cine Lume.