Contra a discriminação

A marcha. Capa. Reprodução

 

A graphic novel A marcha [título original: March: book one; 2018, 128 p.; R$ 45], cuja primeira parte (de três) foi recentemente publicada no Brasil pela Nemo, poderia ser apenas uma espécie de publicidade travestida de história em quadrinhos.

É o que podem dizer os apressados ou adeptos de teorias da conspiração, sobretudo os que, cá no Brasil, parecem viver ainda no tempo em que se passa a história – entre as décadas de 1950 e 60. Explico: traduzida por Érico Assis, a graphic novel leva a assinatura de John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell.

Somente o terceiro é da área, romancista gráfico com um Eisner na bagagem, por Any Empire, Swallow me Whole. O primeiro é o deputado do subtítulo da história – John Lewis e Martin Luther King em uma história de luta pela liberdade – e o do meio, seu assessor.

O subtítulo diz perfeitamente do que se trata e terminam aí quaisquer especulações em contrário: a narrativa fluida e muito bem desenhada, toda em preto e branco, remonta às lutas pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos, de que Lewis acabaria por tornar-se um líder (é deputado desde a década de 1980, justificando a confiança dos que lhes depositam os votos).

Nesta primeira parte da história, o deputado recebe crianças em seu gabinete, e reconta sua trajetória, da infância na pequena propriedade da família, em que sua relação com as galinhas e com a Bíblia já pareciam desenhar o futuro militante da não-violência.

Adiante, reconta os sit-ins que organizou: grupos de negros ocupavam balcões de lanchonetes que, à época, podiam escolher quem servir ou não de acordo com a cor da pele. Este tipo de protesto, inteligente e não-violento, levou à derrubada das leis Jim Crow, que institucionalizavam a segregação racial americana.

Revelada ao longo da graphic novel, sua inspiração foi a história em quadrinhos Martin Luther King e a história de Montgomery, publicada pela FOR [sigla de The Fellowship of Reconciliation, a Irmandade da Reconciliação], “que explicava os princípios da resistência passiva e da ação não-violenta como ferramentas para a dessegregação”.

130 anos depois de abolir a escravidão, o Brasil ainda não superou o ranço escravocrata e o racismo, embora não institucionalizado, segue vigente, sob camadas de hipocrisia disfarçadas de brincadeiras e/ou não alinhamento ao politicamente correto.

Uma leitura fundamental em um país em que a classe média adora papagaiar os norte-americanos e, sob a égide de um golpe, parece querer retroceder em se tratando de direitos humanos – expressão em geral deturpada.

Jornalismo com J maiúsculo

Reportagens. Capa. Reprodução
Reportagens. Capa. Reprodução

 

A nanobiografia do autor, ao fim do volume, afirma: “formou-se em jornalismo, mas deixou a profissão para se dedicar às histórias em quadrinhos”. A bem da verdade, ele não deixou a profissão: Joe Sacco [Malta, 1960] tornou-se talvez o mais importante autor de jornalismo em quadrinhos e este Reportagens [Quadrinhos na Cia., 2016, 199 p.; tradução de Érico Assis; leia um trecho] é prova inconteste.

Aliás, Journalism é o título original deste álbum, que reúne verdadeiras lições de jornalismo – e geopolítica – em um gênero em geral tido como menor, menos sério ou menos importante. O próprio Sacco assina uma “saraivada introdutória para achacar todos aqueles que se opõem à legitimidade dos quadrinhos como forma eficiente de fazer jornalismo” – lição número um.

Seu trabalho é tão profundo quanto reportagens que se utilizam apenas de palavras e fotografias – aliás, seus quadrinhos deixam no chinelo muitos jornalistas acostumados (viciados) aos ares-condicionados de confortáveis redações e/ou ao copia e cola de releases e opiniões prontas dos patrões.

Joe Sacco não vai apenas para a rua, como é necessário para o bom e velho jornalismo, não apenas enfia os pés na lama: ele vai literalmente para o meio do olho do furacão, retratar dramas humanos em zonas de guerra.

Reportagens é uma coletânea de trabalhos de menor extensão publicados por ele mais ou menos recentemente em revistas e jornais como Boston Globe, Details, Guardian Weekend, Harper’s Magazine, New York Times Magazine, Virginia Quarterly Review e XXI.

O jornalista-quadrinhista é objetivo sem se tirar de cena – por vezes as reportagens têm um quê de making-of (além de um texto ao final de cada uma, detalhando pormenores de suas feituras e opiniões do autor sobre o próprio trabalho, um interessante exercício de autocrítica, inclusive).

O ponto em comum destas reportagens é a violência. O modus operandi militar – igual em qualquer parte do mundo – é alvo de Julgamentos de guerra, que se passa no Tribunal Penal Internacional, em Haia. O preconceito contra imigrantes africanos em Malta – terra natal de Sacco – é retratado em Os indesejáveis. Kushinagar retrata fiel e cruamente as injustiças, desigualdades sociais e a fome na Índia.

Se há quem ainda torça o nariz para o jornalismo em quadrinhos – gênero ainda pouco explorado no Brasil –, há quem reconheça Joe Sacco como um dos maiores correspondentes de guerra de nossos tempos, ele, autor também de Notas sobre Gaza [Companhia das Letras, 2010, 432 p.] e Palestina [Conrad, 2011, 328 p.], temas e geografias que também frequentam Reportagens.

Diante de pautas tão densas e cruéis é impossível falar em ludicidade – mesmo em se tratando de histórias em quadrinhos. Sacco não perde o bom humor e, aqui e ali, tira onda de seus interlocutores, fazendo com isso, críticas a funcionários públicos corruptos e coronéis – tenham os nomes que tiverem em outros países e línguas.

Dinheiro não traz felicidade

O quadrinista Marcello Quintanilha é um especialista em retratar dramas humanos, de gente comum. Poderia ser a vida deste resenhista, ou a do leitor, tão reais são suas personagens.

Ele foi premiado recentemente num dos maiores festivais de quadrinhos do mundo, em Angoulême, na França, por sua trama policial Tungstênio [Veneta, 2014, 184 p.], seu álbum anterior.

Talco de vidro. Capa. Reprodução
Talco de vidro. Capa. Reprodução

Artista completo, Quintanilha assina roteiro e desenhos, tanto naquele quanto no drama psicológico Talco de vidro [Veneta, 2015, 160 p.], em que aborda a inveja e a mesquinhez, sentimentos sórdidos que levam à tragédia.

A HQ conta a história de Rosângela, dentista niteroiense sempre acostumada a ter tudo: seu primeiro consultório montado foi presente do pai e, bem casada, recebeu do marido – com quem tem dois filhos –, de presente (surpresa!), em sua casa de praia, um carro zero quilômetro.

Mas a protagonista de Talco de vidro não está satisfeita e, infeliz, sente inveja do sorriso da prima pobre. Não lhe inveja morar no subúrbio ou ir às festas espremida num Fiat 147 a serviço da família inteira – obviamente maior que a lotação do veículo.

A história mergulha na mente doentia de Rosângela, cuja vida entra em franca decadência, entre o fim do casamento, a vida desregrada que passa a ter, sob olhares moralistas, e a depressão, até o trágico desfecho.

Entre as belas paisagens do Rio de Janeiro, seja de bairros de classe média alta ou da periferia, o fosso que separa as parentes que protagonizam a graphic novel, o que o traço de Quintanilha faz é representar sentimentos bastante comuns, quase sempre escondidos, por vergonha ou por conta das regras do jogo chamado vida. Quem tem dinheiro para comprar tudo tem inveja daquilo que o dinheiro não pode comprar.

Mas engana-se quem fizer julgamentos antecipados atribuindo qualidade apenas ao traço do autor: seus diálogos e narrativa são tão bem construídos que, arrisco dizer, sobreviveriam como obra literária, sem o suporte das imagens. Certamente é justo neste casamento, que se fortalece a cada lançamento de Quintanilha, que reside a força que lhe garantiu sucesso internacional: é dos poucos quadrinistas brasileiros com projeção fora do país desenhando gente comum – mesmo quando “diferenciada”.

Mercado de quadrinhos em debate

30 de janeiro é o Dia do Quadrinho Nacional. A data alude à publicação da primeira HQ brasileira, As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma viagem à corte, de Angelo Agostini, em 1869.

Em São Luís, a comemoração da data será antecipada e acontece hoje, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração), com uma Roda de quadrinhos, formada por gente que entende do riscado: Iramir Araújo e Beto Nicácio (da Dupla Criação, que organiza o evento), Ronilson Freire, Rom Freire, Zilson Costa e Bruno Azevêdo debaterão o “Mercado de quadrinhos: expectativas e perspectivas”.

O encontro é, também, uma oportunidade de comprar, direto da mão de autores e editores, quadrinhos autorais, além de conhecer um pouco melhor o trabalho de uma turma que rala bastante e nem sempre tem o devido reconhecimento.

Divulgação
Divulgação