Antenado, afiado e político

Hibernar na casa das moças ouvindo rádio. Capa. Reprodução
Hibernar na casa das moças ouvindo rádio. Capa. Reprodução

 

O veterano Odair José foi desde sempre associado à dita música brega, ou antes, cafona. Poucos sabem que foi um dos compositores mais censurados pela ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964, tema de Eu não sou cachorro, não – Música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002), de Paulo César de Araújo.

Poucos conhecem também a porção roqueira de Odair, cuja ópera rock O filho de José e Maria (1977), hoje cult, foi censurada pelos generais de plantão e pela Igreja Católica.

Em Hibernar na casa das moças ouvindo rádio, de repertório completamente autoral, ele volta ao front. É disco roqueiro e político, o título a junção dos títulos das três primeiras faixas.

Em Hibernar, se propõe uma fuga da realidade, da realidade fabricada destes tristes tempos, em que “o mundo está de ponta-cabeça”. “Tem conspiração na terra do sol”, diz a letra, que continua: “é pão e circo com marmelada/ tem mais um atrito trazendo perigo/ não dá pra saber quem é o inimigo”. E arremata: “tem um falso profeta anunciando/ que pra semana Deus está chegando”.

No blues Na casa das moças, emoldurado pela gaita de Lucas Martini, Odair volta a falar de prostituição, tema que lhe rendeu o hit Vou tirar você desse lugar. A letra fala que “tem uma casa no bairro/ onde moram umas moças”, um lugar em que os homens que ajudam a lavar a louça ganham recompensas. Um jeito bem Odair José de pautar a divisão das tarefas domésticas.

Ouvindo rádio é sobre o universo mágico a que este meio de comunicação, de morte tantas vezes anunciada, ainda nos conduz. O disco é cerzido por vinhetas, a simular uma transmissão radiofônica (com textos e locução de Thunderbird), e esta faixa traz “a música dos Beatles, os dribles do Mané/ nos campos pelo mundo Pelé”.

É um disco que não se furta aos debates atuais. Em Rapaz caipira, por exemplo, a crítica tem endereço certo, as mentiras que elegeram Jair Bolsonaro e pautam seu modo desastroso de governar: “aquilo que era mentira/ passou ser verdade”. E continua: “está vivendo no centro/ de um furacão/ onde a realidade/ é mera ilusão”. O tema volta à pauta em Fora da tela: “quanto mais eu olho/ menos posso ver/ a verdade insiste/ em se esconder”.

“Incrível liquidação de armas de fogo! Você pediu, agora chupa!”, manda Thunderbird na abertura de Chumbo grosso, outro petardo certeiro no discurso beligerante do neofascista que ocupa a presidência da república: “o assunto agora é a cultura da bala/ na falta de argumento a solução é uma vala”. A faixa tem participação especial de Raquel Virginia e Assucena Assucena, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira.

Imigrante mochileiro é outra a trazer um tema quente, o drama mundial da imigração, para o centro do debate promovido pelo som de Odair José. A faixa tem participação do Nação Zumbi Jorge du Peixe (voz e órgão).

Amor e sexo comparecem a Fetiche, Gang bang e Liberado, as três que encerram o disco de 11 faixas. Na última ele canta: “hoje tudo está liberado/ em nome do amor” – assim seja, contra o fascismo reinante.

A vinheta que encerra Pirata urbano sintetiza: “este disco é indicado para estupidez coletiva. Se persistirem os sintomas, procure um psiquiatra”.