A atualidade de Guilherme Arantes

A simples menção ao nome de Guilherme Arantes evoca diversos sucessos de sua autoria, não poucas baladas radiofônicas facilmente assobiáveis até hoje e temas em trilhas sonoras de novelas. Ouvir seu disco sem os encartes – sim, são dois – à mão nos leva a pensar em como ele tornou à sonoridade oitentista que o alçou ao gosto popular, apesar de certa sofisticação melódica.

Flores & cores. Capa. Reprodução

Ouvir seu disco com os encartes à mão é perceber que evocar aquela sonoridade foi justamente sua intenção. Um dos encartes traz longo texto reproduzindo a caligrafia do compositor, pianista e cantor, em que ele se debruça sobre a gênese de Flores & cores [2017], seu 27º. álbum em 41 anos de carreira – após o lançamento, ano passado, de um documentário e um box comemorativo das quatro décadas de trajetória, iniciada com a banda progressiva Moto Perpétuo, que lançou um único disco, homônimo, ele se sentiu livre para recomeçar.

Revolveu velhas fitas cassetes e papéis amarelados que estavam se esfarelando com o tempo, retomou coisas antigas, mexeu em coisa ou outra entre letras e melodias e o resultado é um disco que conjuga a sonoridade de seu período de maior sucesso com os dias atuais.

Semente da maré é um dos primeiros hits do disco, apesar do tema árido e urgente: os refugiados ao redor do mundo. “Me vejo em qualquer morada…/ não conheço mais qual país/ corresponde a qual lembrança/ onde fui parar, o que eu fiz…/ duelo perdido, desde a tenra infância…/ …e o refugiado olha ao redor…/ sem ver semelhança”, diz a letra, facilmente assobiável, perfeita para o rádio na hora do rush.

A banda base de Guilherme Arantes, que pilota diversos pianos e teclados, é formada por Gabriel Martini (percussão e violões), Willy Verdaguer (contrabaixo) e Alexandre Blanc (violões e guitarras). O projeto gráfico do disco evoca ares psicodélicos, em diálogo com o tema de amor da faixa-título. Gravado no estúdio Coaxo do Sapo, na Bahia, há momentos solares, como Numa onda (Nada no mar) e Praia linda, músicas que falam de amor, tal qual Chama de um grande amor, mais escancarada.

Em tempos de música feita para consumo imediato e descarte idem, Guilherme Arantes recicla o conteúdo de seu baú, a revelar o porquê de sua longevidade artística. Música boa não tem idade e o paulista é um artista dos dias atuais.

Ouça Semente da maré:

Disco de banda integrada por Guilherme Arantes ganha reedição

Moto Perpétuo. Capa. Reprodução
Moto Perpétuo. Capa. Reprodução

 

Lançado originalmente em 1974, o único disco do Moto Perpétuo, que leva apenas o nome da banda, acaba de ganhar nova reedição em cd. O grupo, que tinha entre os membros Guilherme Arantes (teclado e vocal) antes da carreira solo, se completava com Gerson Tatini (contrabaixo e vocais), Cláudio Lucci (violões, violoncelo, guitarra e vocal) e os já falecidos Egydio Conde (guitarra solo e vocais) eDiógenes Burani (percussão e vocais).

Do quinteto, somente Guilherme Arantes alcançou sucesso de público, em carreira solo. Cláudio Lucci tocou em Façanhas (1991), de Arrigo Barnabé, e no disco de José Miguel Wisnik que leva seu nome (1992), e pôs a voz (coro) no discos A light at the end of the tunel (1992), de Celso Pixinga, e Ópera do malandro – ao vivo (2003), coletivo sobre a obra de Chico Buarque; Conde tocou em Ligação (1983), de Guilherme Arantes; e Burani tocou em Build up (1970), de Rita Lee, e nos antológicos Ou não (1973) e Revolver (1975), de Walter Franco.

O som progressivo do Moto Perpétuo dialoga com bandas como O Som Nosso de Cada Dia – que também chegou a ter Egydio Conde como integrante –, Som Imaginário e A Barca do Sol. A sonoridade do álbum também dá pistas do que viriam a ser os primeiros discos solos de Guilherme Arantes – que assina sozinho nove das 11 faixas de Moto Perpétuo.

Ao contrário do que possa indicar o título, no entanto, o álbum é curto: tem pouco mais de 37 minutos. A ideia da peça sem fim faz sentido, no diálogo da última faixa, Turba, com a primeira, Mal o sol. Aquela encerra: “bom dia, café com leite/ bom dia planalto/ que diabo o cinza desse asfalto”; enquanto esta começa: “A partir da cama num hotel de fronteira/ olhos de água céu e missa/ ao calor do dia ou à sua certeza/ mal o sol amarelecera no céu”.

Zeca, Baileiro

Há tempos digo e reafirmo: Zeca Baleiro é o maior trabalhador da música popular brasileira em atividade. Só este ano, já lançou o cd Era domingo, o dvd A viagem da família Zoró e o livro Quem tem medo de Curupira? [Companhia das Letrinhas, 2016, 80 p.; leia um trecho] – os dois últimos, respectivamente, videoclipes animados para 11 das 28 faixas do disco Zoró – Bichos esquisitos, que lançou há dois anos, e um livro com o texto da peça escrita para o grupo ludovicense de teatro amador Ganzola, no longínquo 1988, quando sequer tinha se mudado para São Paulo ou gravado seu disco de estreia [Por onde andará Stephen Fry?, 1997]. De temática infantil, dvd e livro foram lançados neste mês das crianças.

Justo no dia das crianças (12 de outubro) estreou, no Canal Brasil, sua mais nova empreitada: o programa Baile do Baleiro, que transita entre apresentações do maranhense com artistas convidados interpretando músicas autorais (dos convidados, no caso) ou alheias e os bastidores, em que aparecem o clima descontraído dos ensaios, os encontros de Zeca com as visitas e ligeiras entrevistas que ele faz com os mesmos, sobre suas referências e memórias musicais (e) afetivas.

O programa de tevê enquadra um formato de show que Baleiro apresenta há mais de uma década – quando passou pelo Maranhão teve como convidada a sambista Patativa, de quem ele viria a produzir Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia.

Sem preconceito de estilo ou faixa etária participaram do primeiro programa a cantora Blubell e o soulman Hyldon, que fizeram bonito em músicas como o tango Bandido, dela, e as clássicas As dores do mundo e Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de sapê), ambas dele. Com ela, Baleiro dividiu Mamãe passou açúcar em mim (Wilson Simonal) – sozinho, ele abriu o programa com Segura esse samba, ogunhé (Osvaldo Nunes).

Cantadas sozinhas ou em dueto com o anfitrião, as músicas acabam convertendo-se em, além de festa, uma espécie de almanaque da música dançante (com inteligência) brasileira, a partir da revisitação a baús particulares e à grande tradição da canção popular, para usarmos termo parecido à justificativa da academia sueca em premiar Bob Dylan com o Nobel de Literatura – prêmio festejado tanto por Zeca Baleiro quanto pelo modesto repórter que ora lhes comenta seu novo programa.

Baile do Baleiro vai ao ar às quartas-feiras às 21h (horário de Brasília; hora local: 20h), com reprises aos sábados às 16h30 (no horário de verão) e às terças às 12h30 (idem). O segundo episódio, no próximo dia 19, terá como convidado Odair José. Em outros episódios Baleiro receberá ainda Edy Star, Guilherme Arantes, Jurema, Luiz Ayrão, Maria Alcina, Wado e Zizi Possi.

Veja o teaser do programa: