Perfil de Flávio Reis no facebook é falso

Com a capa do livro Guerrilhas de avatar e o nome do amigo e professor Flávio Reis, um falso perfil no facebook solicitou a amizade deste blogueiro ontem. Não aceitei de cara e desconfiei, chegando a ler as postagens: textos publicados por ele no jornal Vias de Fato, além de peças de divulgação de seu terceiro livro, lançado em 2012. O fake chegou a receber boas vindas de alguns amigos (reais) desavisados.

Por e-mail, o autor dos recém-relançados Cenas marginais e Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão, afirmou: “é claro que não sou eu. Tem como avisar lá? É muito chato alguém ficar falando como se fosse você”.

O recado está dado: o fã de João Gilberto – para citar alguém que tem perfil falso no facebook – não está nesta nem em qualquer rede social. O blogue ia noticiar marcando o fake, mas parece que quem quer que estivesse por trás disso já desistiu da empreitada.

Brasil, bem-vindo ao século XXI!

FLÁVIO REIS* 

A onda de manifestações em curso no Brasil alinha finalmente o país com as formas de protesto que vêm se desenvolvendo em várias partes do mundo. “Ocupe Wall Street” e seus desdobramentos em outras cidades norte-americanas, os “indignados” nas praças espanholas e seus ecos em Portugal e na Grécia, a chamada “primavera árabe”, com a derrocada dos governos na Tunísia e no Egito, os protestos na Turquia, todos expressam tentativas de reinvenção das práticas de mobilização política, marcadas pela intensa utilização das redes sociais, instantaneidade e horizontalidade, ultrapassando na prática política toda a estrutura dos instrumentos de representação, caracterizados de maneira oposta pela organização de instituições, verticalização hierárquica, programa de ação.

1968 é um momento emblemático em que os movimentos sociais expõem a crise da política representativa moderna e do seu correlato, a sociedade disciplinar, vindas do final do século XVIII e que se arrastaram, não sem agudos problemas, no século XX. Das barricadas de 1968 não saiu, no entanto, a reinvenção da política para além dos partidos, como era protagonizado pelos círculos mais ativos. Após a repressão, os poderes instituídos incorporaram algumas pautas e a maior parte dos movimentos se institucionalizou, sendo reconhecidos como atores políticos. O impulso para fora da lógica da política representativa foi brecado, mas, a partir daí, partidos e sindicatos cada vez mais se tornaram meio zumbis, com existência espectral, simulacro de representação social.

Com a ascensão dos mercados e o discurso de minimalização da política, submeteram-se sem nenhum pudor às novas “regras do jogo”, a linguagem da publicidade substituiu as ideologias e os financiamentos espúrios passaram a integrar os códigos de ética, aumentando a defasagem entre sociedade e os setores políticos, cada vez mais voltados para si, oligarquizados. Os centros de decisão foram transportados, então, de vez para as feras do mercado. Os bancos centrais e organismos internacionais dominados pelos países desenvolvidos, em articulação com interesses de grandes grupos e investidores, passaram a ditar políticas econômicas em países os mais diversos.

No entanto, outra ponta dos movimentos se desenvolvia de maneira quase silenciosa, de maneira fragmentária e descontínua, irrompendo com força nos protestos antiglobalização em Seattle, 1999. Ali, a pluralidade de demandas, a horizontalidade da organização, a instantaneidade, o momento, eram a tônica dessa nova “urgência das ruas”, que é principalmente uma urgência de redefinição da política. Após conjuntura difícil depois do 11 de setembro, quando a paranoia do terrorismo foi habilmente manipulada, esses movimentos múltiplos estouraram na esteira da crise econômica deflagrada em 2008 e, com eles, a perplexidade de um mundo político submetido a velhas tradições. Em brilhante intervenção quando do início do movimento “Ocupe Wall Street”, Naomi Klein dizia: “Por que eles estão protestando?, indagam os sabichões embasbacados na televisão. Enquanto isso o resto do mundo pergunta: Por que demoraram tanto?”  A observação serve igualmente para as mobilizações no Brasil.

Os anos do governo Lula ocasionaram um atrelamento das energias de movimentos sociais aos tentáculos do governo federal, ao tempo que uma política social voltada para setores excluídos garantiu a emergência de expressivo contingente aos mercados e ao consumo. Gostando cada vez mais de posar de novo “pai dos pobres”, Lula não estimulou nenhuma modificação importante na esfera da política, ao contrário, compôs fartamente com antigas oligarquias e adotou ele próprio, cada vez mais, práticas oligárquicas, controlando o poder com a desenvoltura de um cacique e esvaziando mesmo antigas práticas participativas no interior daquele que um dia chegou a ser chamado de o último grande partido de esquerda do ocidente.  

Na esteira da crise, enquanto a situação social e econômica se deteriorava em vários países, no mundo islâmico assistíamos a uma ocupação das ruas contra os poderes estabelecidos e aqui mesmo na América Latina tensões e mobilizações eleitorais expressavam conflitos políticos, distributivos, étnicos e outros, no Brasil as lutas lentamente se acirravam, ao passo que era mantida de vento em popa a construção da imagem do país onde se processava uma verdadeira revolução. O mundo vivia o inferno, mas o Brasil parecia tangenciar essa situação.

De uma tacada as duas coisas vieram abaixo, na esteira de um confronto motivado pelo aumento de um serviço péssimo, o dos transportes urbanos, retrato de outros de igual ou maior importância e também em situação caótica, justo no momento em que se iniciava a programação dos grandes eventos que mostrariam este oásis ao mundo. Nas promessas, os governos afirmavam que os eventos trariam um legado às cidades em termos das melhorias urbanas requisitadas. Mas nada fizeram e os estádios belos e caros foram terminando em cima da hora. De qualquer forma, parecia que o resto era apenas apostar na festa e no futebol, requisitos em que a formação da identidade nacional sempre mostrou-nos como bambas.

Qual a surpresa dos nossos ilusionistas e igualmente dos seus opositores invejosos, uns e outros implicados diretamente no caso das passagens, ambos igualmente “monitorando de Paris”, na busca de mais um grande evento para São Paulo, quando as mobilizações iniciaram, puxadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), a polícia em sequência fez seu show de violência indiscriminada e, a partir daí, assistimos a uma explosão de insatisfações represadas, expressões de múltiplas demandas, de identidades mutantes que escapam a qualquer visão unificadora dos conflitos e das demandas. E também explosões de violência de pequenos grupos, essa mesma violência que nos envolve a cada dia com maior intensidade e na qual as cidades estão completamente mergulhadas. Gritam contra tudo, mas é clara a conexão ampla entre serviços públicos péssimos e a percepção da corrupção, da eterna farra do dinheiro público, da impunidade, na qual se enredou o mundo da representação política.

Perplexos diante de um movimento de pessoas e não de organizações, os governantes, a mídia e mesmo muitos estudiosos passaram a inquerir sobre a “pauta de reivindicações”, as “lideranças”, o perfil de organização etc., enquanto no mundo real os participantes se comunicam através das redes, as decisões na maioria das vezes são tomadas na hora, as palavras de ordem mudam continuamente. Quem são eles? perguntam nos jornais, nas entrevistas. Afinal, o que querem? Será que ainda ousam sonhar com autonomia e participação efetiva?  

Quando se abriu a porteira, as ruas, que há muito se tornaram perigosas para o cidadão comum, voltaram a se tornar perigosas para os poderes instituídos, mais do que simplesmente para os governantes de plantão. A resistência aos partidos e organizações sindicais expressa a recusa das regras da representação e seus organismos, os zumbis que atravessaram o século XX. Não há nisso despolitização ou um traço simplesmente fascista como logo se apressaram a apregoar ou insinuar alguns, uma trama em processo para enfraquecer as “instituições democráticas”, quando a questão é justamente de seu estado de esclerosamento. Os primeiros a quererem rotular, geralmente são também os primeiros a quererem estigmatizar. Sem saber bem como responder aos acontecimentos, o primeiro ministro da Turquia, por exemplo, já fala mesmo numa “conspiração internacional” para desestabilizar o seu governo e o do Brasil. Prepara a repressão.

Assim como 1968, estes movimentos que têm motivações múltiplas e nasceram no chão da rede, um espaço que libera forças centrífugas e propicia continuamente novas formas de comunicação, podem não saber exatamente o que querem, mas parecem ter discernimento do que não querem. Ainda não geraram nada mais contínuo e efetivo, pois mesmo a transição de regime no Egito permanece indefinida, mas estão recolocando em cena a noção de que a vida pode ser diferente, algo sempre incômodo e perigoso aos grupos dominantes e aos governantes de todos os quadrantes e de todas as épocas, mas que estava quase neutralizado nos anos de auge do deus mercado. Neste sentido, os movimentos podem começar visando a luta contra o capital financeiro, a troca de regimes, a questão dos transportes, a defesa ecológica, mas seus desdobramentos permanecem em aberto, porque nesta lógica, coisas como tarifa urbana e luta contra a PEC 37, chamada de PEC da Impunidade, por exemplo, vão juntas, se apoiam.

Enquanto nossas duas outras grandes manifestações dos tempos recentes, a das diretas e a do impeachment, pressionavam o sistema político sem ultrapassagem dos mecanismos representativos, ao contrário, lutando nitidamente no sentido de seu fortalecimento, estas indicam uma fratura muito mais funda e abrem uma porta para as lutas tal como em parte já vêm se desenvolvendo e podem se aprofundar nos próximos anos, com maneiras de pressão e construção de canais que respondam à mudança da forma decisória e à aceleração do tempo propiciada pelas novas tecnologias.

Os conflitos se descentralizam, saem da tutela das instâncias formais de regulação e podem se conectar em curto-circuito, propiciando mudanças nas formas de processá-los. Uma pressão às vezes explosiva para religar o cidadão às decisões fundamentais que envolvem diretamente o cotidiano, a vida vivida e não a dos planos, discursos e propagandas, da marquetagem enganatória paga regiamente com o nosso próprio dinheiro e onde tudo sempre parece muito melhor do que realmente é. A ação simultânea, fragmentária e espontânea nas cidades, com um borbulhar de queixas, temperado por bombas e conflitos, além de uma posição crítica majoritária sobre o gasto com os jogos e contra a poderosa FIFA, são a verdadeira surpresa do Brasil ao mundo, expressando de fato, mas de forma contrária ao espetáculo programado, toda sua complexa contemporaneidade. Bem-vindo às lutas do século XXI!

*FLÁVIO REIS é professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA. Autor de Cenas marginais (2005), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007) e Guerrilhas (2012), todos pagos do próprio bolso, os dois primeiros recém-relançados.

Um passeio historiográfico por São Luís do Maranhão

Maria de Lourdes Lauande Lacroix lança amanhã (30) São Luís do Maranhão: Corpo e Alma

De tão importante, a obra – em especial A fundação francesa de São Luís e seus mitos (2001) – de Maria de Lourdes Lauande Lacroix , professora aposentada dos Departamentos de História das Universidades Federal (UFMA) e Estadual do Maranhão (UEMA), mereceu destaque em Guerrilhas, festejado terceiro livro que Flávio Reis lançou este ano (tendo disponibilizado-o para download desde o final de 2011).

Aquele título dela (e suas reedições) merece(m) nada menos que cinco dos 20 artigos da coletânea dele, que já a havia reverenciado como uma “marca de formação”, ao dedicar a ela, a Luciano Martins e ao saudoso José de Ribamar Chaves Caldeira seu Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007).

A dedicação de Flávio Reis – que foi seu aluno e assina as orelhas daquela obra da ludovicense Lourdinha, como a tratam os íntimos – é justa e merecida. A fundação francesa de São Luís e seus mitos problematiza o que parecemos ter de mais caro, o epíteto de “única capital brasileira fundada pelos franceses”, como apregoava um apresentador de tevê local.

Às vésperas das festividades – quiçá justaposição de “festival de vaidades” – oficiais, Maria de Lourdes Lauande Lacroix presenteia-nos, a nós ludovicenses e/ou seus habitantes e a esta capital, com um mergulho em São Luís do Maranhão: Corpo e Alma, passeio, como entrega o título, na cidade em que ninguém nasce e vive impunemente, como cravou certeiro o publicitário Marcus Pereira, na contracapa de um antológico disco de Chico Maranhão.

A nova obra da professora, realizada com patrocínio da Alumar, contou com projeto gráfico de Flávio Reis (que também assina a coordenação editorial) e Nazareno Almeida (que também assina a diagramação e o tratamento de imagens), além de fotografias de Edgar Rocha, de arquivo, reproduções de obras de acervos particulares, além de atuais, feitas especialmente para o livro. São 578 páginas, 170 ilustradas.

Mais não posso dizer, pois o belo volume chegou-me às mãos apenas ontem, com uma emocionante e inusitada dedicatória. O blogue voltará ao assunto em breve, mas não podia se furtar de convidar seus poucos mas fieis leitores para o lançamento: amanhã (30), às 19h30min, no Quality Grand São Luís Hotel (Praça Pedro II, ao lado da Igreja da Sé).

10 links para Cesar Teixeira

Em contagem regressiva, 10 links para os poucos mas fieis leitores (que convidarão outros muitos para lotar o Trapiche quando do acima) irem se aquecendo.

Discurso de Cesar Teixeira por ocasião de sua premiação com a comenda José Augusto Mochel, do PCdoB, como figura de destacada atuação em prol dos direitos humanos no Maranhão, ano passado.

A foto de Murilo Santos cujo detalhe serve de cabeçalho a este blogue, em que Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazem um par de violeiros em MaréMemória, peça do Laborarte baseada no livro-poema de José Chagas, em maio de 1974.

Antes da MPM, texto de Flávio Reis que viria a integrar seu Guerrilhas [Pitomba!/ Vias de Fato, 2012]; o artigo, originalmente publicado no jornal Vias de Fato, de que Cesar Teixeira é fundador, dá uma panorâmica na produção musical do Maranhão da fundação do Laborarte (1972) aos dias atuais; o compositor fundou também o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão.

Para entender Cesar Teixeira, comentário de Alberto Jr. sobre Bandeira de Aço, show que o compositor apresentou ano passado no Circo da Cidade, publicado no jornal O Estado do Maranhão.

Caricatura de Salomão Jr. que enfeitou o texto acima.

Bandeira de Aço e êxtase, comentário deste blogueiro sobre o mesmo show.

A entrevista que Cesar Teixeira concedeu a Ricarte Almeida Santos e este blogueiro, no Chorinhos e Chorões (Rádio Universidade FM, 106,9MHz), antes do show de ano passado. Em quatro blocos, o programa traz amostra chorística da obra do compositor, em interpretações próprias e de grandes nomes da música brasileira.

Bandeira de aço, eterna, texto deste blogueiro que saiu no Vias de Fato de julho do ano passado, divulgando o show. Um ano depois, outro texto nosso sobre o show de 3 de agosto; o jornal chega às bancas e assinantes este fim de semana.

Cinco poemas de Cesar Teixeira publicados em um livro do poeta Herberth de Jesus Santos, o Betinho.

Hino latino (Oração favelense) (A Cesar o que é de Cesar), samba-enredo com três títulos, meu (letra) e de Gildomar Marinho (música), com que participamos (e fomos desclassificados na primeira eliminatória) do concurso da Favela do Samba quando a escola de samba ludovicense homenagearia o compositor.

Só me tornei editor porque não arrumei um!

Obra publicada em edição da revista Pitomba

Ficaria feliz em ter alguém que cuidasse de toda a parte chata do trabalho. Sobraria mais tempo pra escrever e terceirizaria o custo do material todo, que lucro mesmo eu nunca esperei. Grifes também fariam bem ao espírito, se calhasse.

Mas não calhou.

Tenho aqui tantas cartas de recusa de originais, que dava pra escrever um romance nas costas delas. Um dia uso pra alguma coisa, existe estilo, humor e sarcasmos deliciosos nelas.

A ideia da editora foi a de criar uma falácia. E se eu não fosse eu? Se me institucionalizasse? Criasse um nome de fantasia? O de batismo tinha falhado de todas as maneiras.

Meses depois, transformei o incômodo num pequeno texto chamado Manifesto Pitomba, no qual tentava enumerar problemas e soluções, mas que acabou brutalmente censurado pelo Reuben [da Cunha Rocha] e pelo Celso [Borges] — que têm mais senso do ridículo que eu — mas que insisto em colar, pequenininho, nos meus próprios livros. É no ridículo que opero.

Mas vamos lá. Ao problema.

Nossas possibilidades de edição se resumem a duas secretarias de cultura que valem menos que a merda do pombo da cumeeira do Oscar Frota. Os editais são escritos por um paquiderme, executados por um protozoário e resultam em livros tão feios que, ao longo dos anos, recusei-me a ler vários por não suportar o contato com o objeto.

Os caras não se importam com algo com o qual eu me importo muitíssimo, e isso me emputecia! Me inscrevi nesses editais por anos e anos, ganhei algumas vezes, mas nunca saía nada! É preciso que vocês entendam que um dia eu levei esse povo muito a sério. Eu até lia os poemas, porra!

Com o tempo, passou a me incomodar mais a atitude dos autores, que se sujeitam ao [Concurso Literário e Artístico] Cidade de São Luís todos os anos, sabendo do embuste, como se sujeitam aos editais da Secma (quando esta os faz). O trabalho deles ficava, ao logo dos anos, tão medíocre quanto o esquema todo. Parecia que os editais, antes de promover o tal fomento à produção, a viciava. Há de se tirar o chapéu ao funcionismo, conseguir travar gerações inteiras com uma estratégia de edição tosca e migalhenta como esta é um lance de gênio. Gente que, anos antes, tava amolando as pontas das facas aos murros.

A Pitomba é uma forma positiva de recusa à calhordice geral, ao amadorismo da oficialidade, devolvendo a ofensa na forma de livros ofensivos, porque ousamos achar que o livro é um troço importante, bonito, tesudo e tal. Também é uma maneira de existir, e qualquer existência fora das paredes das repartições, no Maranhão, é transgressora.

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Texto de Bruno Azevêdo, dono da Pitomba Livros e Discos, que publica as coisas dele [Breganejo Blues e O Monstro Souza, entre outros] e publicou, com o Vias de Fato, o Guerrilhas, do Flávio Reis. O reclame foi publicado no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, do Jornal Pequeno, sábado passado (30/6).

A Pitomba edita também a Pitomba. Digo, o selo/editora publica a revista, editada por Bruno com os citados Celso e Reuben, que também publicaram textos sobre a Pitomba, a revista, no Guesa. O do último tá no blogue dele (donde roubei a ilustração do post). O do remanescente da Guarnicê, se ele me mandar, que ver mesmo o Jornal Pequeno de sábado, eu não vi, eu penduro cá no blogue.

UFMA errou de Flávio

Como já é sabido dos poucos mas fieis leitores deste blogue, o professor mestre FLÁVIO ANTONIO MOURA REIS lança hoje, em debate com os professores Flávio Soares e Wagner Cabral, seu mais novo livro, Guerrilhas.

O último, via tuiter, alertou: a UFMA errou o Flávio. Numa lambança (para lembrar título de artigo de Reis que ficou de fora de Guerrilhas sobre a gestão de Natalino Salgado), googlaram Flávio Reis (o certo é este, dona UFMA!) na página do CNPq/Lattes e acharam Luis Flávio Reis Godinho, professor doutor.

A turma errou até o título do livro: vejam que está no singular, no parágrafo inicial.

No ringue do pensamento

Ao escrever sobre Guerrilhas (2012), de Flávio Reis, quando o classificou acertadamente como “figura de exceção entre nossos pensadores e professores”, Reuben da Cunha Rocha abriu um leque que pode e deve ser ampliado quando somamos ao “homem magro de fala digressiva”, dois outros professores do naipe: Flávio Soares e Wagner Cabral.

Pugilistas do pensamento, o trio se encontra numa mesa-ringue tendo por mote o lançamento (detalhes na imagem que abre o post), na UFMA, do citado livro, “coletânea de artigos publicados por Flávio Reis na imprensa maranhense ao longo da última década”, o sucessor de Grupos políticos e estrutura oligárquica (2007) e Cenas marginais (2005).

Bancado pelo bolso do autor, como os anteriores, Guerrilhas foi publicado no início deste ano, com os selos da editora Pitomba! e do jornal Vias de Fato, sem trazer qualquer referência à universidade onde seu autor dá aula – a contribuição radical aos debates em torno dos assuntos que aborda e sua visão aguçada, por si só já justificariam a publicação pela própria UFMA, mas Flávio é um dissidente ácido e prefere a liberdade de outros caminhos.

REIS, SOARES e CABRAL, como são chamados em citações acadêmicas, vão certamente distribuir socos no status quo, seus modos de ver/rever o Maranhão porradas certeiras, diretas, no estômago, sobretudo dos acostumados a velhas famas, por vezes injustificadas e ufanistas.

O mito francês e a dança dos historiadores, O Maranhão bárbaro e sua miséria historiográfica, Oligarquia e medo, O nó-cego da política maranhense, A política do engodo e o engodo da política, para citar títulos de alguns artigos de Guerrilhas, violência urbana, jornalismo, poesia, cinema, música, literatura e psicanálise serão munição para este debate “peso”, expressão quase sempre usada por Flávio Reis para definir algo muito bom, extraordinário, seja um disco, um livro, um filme ou um aluno acima da média.

A pauta certamente se ampliará e os três professores darão conta do recado, imperdível, eu diria. Roubando mais um par de aspas de Reuben – tirando o “peso” aí de cima, são dele as outras ao longo do texto –, que qual este blogueiro, tem no autor de Guerrilhas um de seus heróis, cabe repetir: “É chegado o tempo do arsenal contra o repertório”.

Implosão das certezas

Como você poderia descrever essa obra? É uma junção de textos de combate, fruto de debates em que me meti na última década, principalmente crítica de autores nossos ou da realidade local, mas como é uma reunião ampla comporta também cinema marginal e até psicanálise. Gosto de pensar nesse livro como pequena caixa de bombons venenosos.

E o que o leitor poderá encontrar em seu livro? Raiva, indignação, avacalhação, mas também beleza e uma pitada de humor. Penso que só misturando esses elementos conseguiremos olhar para além dos lugares comuns da história do Maranhão. Aqui, acima de tudo, as pessoas se levam muito a sério, mesmo os mais bobos e ignorantes pensam sempre que estão dizendo a coisa mais importante do mundo, uma mostra do faz de conta em que vivemos mergulhados.

São artigos incisivos, questionadores e, acima de tudo, críticos. Na sua percepção está em falta essa visão questionadora dos fatos? A crítica está devendo em todo lugar, o pensamento há muito vem a reboque dos acontecimentos, mas aqui no Maranhão acho ainda mais grave, pois no fundo atravessamos o século XX como que anestesiados, cultuando um passado fantasmagórico. Hoje, apesar da manutenção deste padrão repetitivo e vazio, comandado principalmente pelos principais veículos de comunicação, é possível ver alguma disposição e condição de crítica numa outra geração que não reza pela cartilha dos velhos atenienses da Academia de Letras, nem se submete aos cânones estéreis do pensamento universitário. É fugindo desses dois horrores que tento respirar, atacando a linguagem publicitária que hoje dá a forma e o tom de todos os discursos.

Os seus textos falam de música, literatura, cidades, política. O que mais fervilha nessa sua mente criativa? Odeio a especialização e o pensamento “de especialista”, que é uma coisa catalogada. Aprendi cedo que o impulso criativo e a provocação mais interessante são fruto da mistura e da transgressão, nunca do respeito a cânones. Para fugir da camisa de força entrei numa aventura de implosão das certezas, que foi a implosão do campo de conhecimento. O blábláblá mais comum da universidade não me interessa mais há muito tempo.

*

Flávio Reis em entrevista a Patrícia Cunha nO Imparcial de hoje [Impar, p. 1], quando, às 19h30min, ele lança Guerrilhas no Papoético (Chico Discos, também conhecido como Sebo do Chiquinho, Rua Treze de Maio, 389-A, esquina com Afogados, sobre o Banco Bonsucesso). Entrada franca, o livro custa apenas R$ 20,00.

Flávio Reis lança Guerrilhas no Papoético

Livro reúne 20 textos que o cientista político e professor da UFMA publicou em jornais de São Luís nos últimos dez anos

(A arte do convite e o texto são da assessoria do evento)

Guerrilhas [Pitomba!/ Vias de Fato, 2012] aborda de forma contundente assuntos da área de política, história, música, cinema e psicanálise, entre outros. O livro abre com a polêmica sobre a fundação de São Luís, tema de cinco artigos de Flávio Reis, que é cientista político e professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão. O autor escreveu também Cenas Marginais (2005) e Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (2007).

Guerrilhas é um pequeno livro que nos ajuda a pensar o Maranhão, a entender por que chegamos até aqui do jeito que chegamos. No cerne de cada questão abordada está a luta contra o modo de pensar da classe dominante, que impõe a sua história, ora idealizada, ora subjugando o pensamento discordante”, afirma o poeta Celso Borges no prefácio do trabalho.

Na área de política, Guerrilhas ressuscita assuntos fadados ao silêncio, como o momento obscuro da política maranhense, nos anos 20 do século passado. Com base no livro Neurose do Medo (Nascimento de Moraes, 1923), resgata uma história com direito a governador neurótico, juiz arruaceiro, assassinato e suicídio. Quase 100 anos depois, mais um capítulo da política maranhense também é comentado pelo cientista, no artigo O Nó-Cego da Política Maranhense, que fala sobre a troca de governadores do estado, decidida pelo TSE em 2009.

O livro traz três artigos sobre cinema, abordando o radicalismo da estética marginal, dos anos 70; a obra do cineasta Frederico Machado, com destaque para o filme, Litania da Velha; e um olhar sobre Nietzsche em Turim, do diretor Júlio Bressane, um texto que vê o nascimento da loucura de um dos pensadores mais radicais do ocidente.

Na área de literatura, Guerrilhas se debruça sobre A Saga do Monstro Souza, de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos. Flávio Reis acompanha a trajetória do personagem principal, um cachorro-quente serial killer, inserindo colagens e notícias de jornais retiradas do próprio livro de Bruno e Gabriel. O artigo é uma busca obsessiva pela São Luís real e não aquela idealizada em campanhas publicitárias para atrair turistas.

A música está presente em Guerrilhas no texto Antes da MPM. O assunto trazido à tona é o debate sobre o que vem a ser realmente música popular maranhense, o termo MPM, ou a invenção dele. O autor sabe que esta “é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis”.

Serviço

Guerrilhas > Livro de Flávio Reis > Lançamento dia 16 de fevereiro (quinta-feira), às 19h30min > Local: PapoéticoChico Discos (Sebo do Chiquinho, Rua São João, 389, esquina com Afogados, sobre o Banco Bonsucesso) > Entrada franca > O livro custa apenas R$ 20,00.

Guerrilhas, novo livro de Flávio Reis

Este blogue dá em primeira mão. Antes, o prefácio:

OUTRA HISTÓRIA
Celso Borges*

Cada um luta com a arma que pode, com a arma que tem. A de Flávio Reis está na cabeça, no pensamento, na palavra. Afiada e lúcida, perpassa vários campos nesses 20 textos de Guerrilhas, em sua maioria publicada em jornais de São Luís nos últimos anos. Um pequeno livro que nos ajuda a pensar o Maranhão, a entender por que chegamos até aqui do jeito que chegamos. No cerne de cada questão abordada está a luta contra o modo de pensar da classe dominante, que impõe a sua história, ora idealizada, ora subjugando o pensamento discordante.

O livro abre com a polêmica sobre a fundação de São Luís. Cinco artigos desconstruindo o discurso oficial, que prefere idealizar a fundação da cidade pelos franceses, em lugar dos portugueses “bárbaros”. Um discurso que privilegia a filiação distinta de Daniel de La Touche, o fidalgo francês, Senhor de La Ravardière, em substituição a Jerônimo de Albuquerque, que nem português era, um mestiço do sertão. Analisando o debate em torno do nosso “mito fundador”, o autor afirma que a argumentação da maioria dos intelectuais e historiadores, sedimentada a partir do início do século 20, é resultado de uma visão narcísica que busca esconder uma história de violência e miséria em nome de um passado glorioso.

Guerrilhas ressuscita também assuntos fadados ao silêncio, como o momento obscuro da política maranhense, nos anos 20 do século passado. Com base no livro Neurose do Medo (Nascimento de Moraes, 1923), resgata uma história com direito a governador neurótico, juiz arruaceiro, assassinato e suicídio. Um verdadeiro circo de horrores, retrato da república em terra tupiniquim.

Quase 100 anos depois, mais um capítulo da barbárie política do Maranhão é revisto, agora sobre a troca de governadores do estado, decidida pelo TSE em 2009 (“O Nó-Cego da Política Maranhense”). Aqui ele aponta o dedo aos que sempre estão posando para a foto no baile dos vencedores. Mais adiante, no artigo em que saúda o primeiro aniversário do jornal Vias de Fato, (“Vias de Fato: um ano memorável”), retrata onde estamos metidos, imersos num jornalismo distante da comunidade, ressonando uma estrutura apodrecida.

Os primeiros nove textos de Guerrilhas são, portanto, uma radiografia de como a estrutura política dos últimos 100 anos nos obrigou a ler o Maranhão à sua maneira. Em seguida, o autor escreve sobre a violência urbana. E o Maranhão está ali também, como um “estado onde a moldura do poder oligárquico conseguiu atravessar o século sem grandes alterações, as polícias militar e civil sempre estiveram perpassadas por interesses políticos e prontas a se submeterem às vinganças privadas que passam ao largo do sistema judiciário.” (“Crime e Cinismo”).

Mais à frente, em artigo sobre “Litania da Vela”, poema de Arlete Nogueira da Cruz, toma por referência o filósofo Walter Benjamin e encara o poema como “ladainha do fim dos tempos modernos”. Poema do grotesco, prenúncio da nova barbárie, faz a descrição crua da miséria de uma velha na ‘cidade que se desfaz em salitre’. É a deixa para a retomada do primeiro assunto do livro. Como um boi triste e furioso, o autor continua ruminando o mito da fundação da cidade, tema que perpassa todo o livro. Nasce aí, talvez, o mais importante texto da coletânea: “A Saga do Monstro Souza”, sobre a obra de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos.

Nesta análise, consolida algo que me parece fundamental em Guerrilhas, um desejo de recontar a história numa busca obsessiva pela cidade real, não a de azulejinhos e boizinhos de butique, embalagem ideal para os turistas de pacote e o desenvolvimento de campanhas publicitárias, que alimentam a insossa cultura do elogio. Um Não à “Ó minha cidade, deixa-me viver…”, de Bandeira Tribuzi ou à Ilha Magnética de César Nascimento, mas um viva a São Luís de “Eh, Ponta D’areia, há muito tempo que eu não te vejo”, de Chico Maranhão. Flávio acompanha a trajetória do personagem principal, um cachorro-quente serial killer, inserindo colagens e notícias de jornais retiradas do próprio livro de Bruno e Gabriel.

A discussão sobre identidade reaparece através da música. O assunto trazido à tona é o debate sobre o que vem a ser realmente música popular maranhense, o termo MPM, ou a invenção dele. O texto é apenas a ponta de iceberg de um debate complexo e extenso. O autor sabe que esta “é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis”. Talvez tenha esquecido de destacar no bolo de influências de alguns compositores da tal MPM o reggae, que divide com o bumba-boi, o prato preferido desses artistas, de 1978 a 1998. Afinal, aquilo que se fez com o boi, tirando-o do terreiro para dentro dos estúdios (leia-se Papete e compositores do Bandeira de Aço), aconteceu também com o reggae, retirado dos salões para o sucesso das rádios (leia-se Beto Pereira, Mano Borges, César Nascimento, etc).

Da música para o cinema. Dos três artigos destaco “Marginal Sim, e por que não? Babaloo, Babilônia, Brasil”. Defesa enfática do cinema marginal, produzido no Brasil nos primeiros anos da década de 70, enaltecendo a postura dessa geração, que continuou com a câmera livre do cinema novo, mas sem as amarras deste: “de certa forma radicalizavam o mergulho no subdesenvolvimento preconizado anos antes por Gláuber Rocha, faziam a escancaração da barbárie sem a carapaça política e o sentido de missão”.

Os textos sobre cinema mostram uma opção clara pela radicalidade, com exceção da análise que faz sobre a filmografia do maranhense Frederico Machado, em que é mais ponderado. No olhar sobre “Nietzsche em Turim”, de Júlio Bressane, acompanha os passos-imagens do filósofo alemão enquanto a loucura toma sua alma. Um texto que vê o nascimento da loucura de um dos pensadores mais radicais do ocidente.

De Nietzsche para Lacan, Freud e companhia: recalque, desejo, angústia e pulsão. Dois artigos, dois peixes fora d’água, dois peixes dentro do mar da existência, o doloroso mundo da psicanálise. Talvez Flávio pudesse deixá-los de fora, mas como evitar a vida fora da arte?

*Celso Borges é autor de oito livros de poesia, entre eles “Pelo Avesso”, “Persona Non Grata”, “NRA”, “Música” e “Belle Époque”.

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2011 foi o ano em que conheci pessoalmente o desde antes e sempre admirado Flávio Reis. Entre as muitas lacunas em minha formação, uma delas certamente é não ter sido seu aluno. No entanto, tenho aprendido um bocado com seu convívio, nas reuniões do conselho editorial do jornal Vias de Fato, do qual “nosso mestre”, como o chamamos eu e Emílio Azevedo, é grande entusiasta.

Autor de Cenas Marginais (2005) e Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (2007), ambos editados às próprias custas s/a, o professor da UFMA agora bota na rua o bloco de Guerrilhas, “reunião de artigos escritos na última década, quase todos publicados na imprensa local, reeditados com pequenas correções”, cujo prefácio acima bem resume.

O livro “ainda não foi impresso, mas será” e o lançamento acontecerá em janeiro, detalhes o blogue dará em momento oportuno, antecipando que trata-se de uma publicação que envolve esforços do próprio Flávio Reis (às próprias custas s/a, ibidem), da editora Pitomba! e do jornal Vias de Fato, cujos selos comparecem à obra. Antes do lançamento os poucos mas fieis leitores deste blogue já podem baixar o pdf: Guerrilhas.