Canto é dança é reza

O grupo Nóg Gã do Povo Kaingang. Foto: Francisco Colombo
O grupo Nóg Gã do Povo Kaingang. Foto: Francisco Colombo
O grupo Teko Guarani do Povo Mbyá - Guarani. Foto: Francisco Colombo
O grupo Teko Guarani do Povo Mbyá – Guarani. Foto: Francisco Colombo

 

Um bom público compareceu ontem (26) ao Anfiteatro Beto Bittencourt, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), para prestigiar o penúltimo dia de apresentações do circuito Sesc Sonora Brasil, que em 2019 tem como tema “A música dos povos originários do Brasil” – a programação se encerra hoje, com a apresentação do Grupo Wiyae, “que significa canto na língua Tikuna” e “foi criado especialmente para o projeto”, conforme o material de divulgação do Sonora Brasil.

O formato semicircular da chamada “ágora do Odylo” favorece a interação entre os artistas indígenas e o público, lembrando que a grande maioria das aldeias dispõe suas ocas em círculo, garantindo a existência de uma espécie de praça pública para o convívio comunitário e as celebrações.

Ontem, primeiro se apresentou o grupo Nóg Gã do Povo Kaingang, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Eram cinco homens, de cocares e saias, empunhando lanças e maracás, e uma pintura corporal que não obedece padrões, mas que, segundo um deles explicou, serve para evitar o casamento entre parentes e, consequentemente, o incesto.

O canto e a dança do Nóg Gã têm características ritualísticas: cantam e dançam como quem reza, sacudindo maracás e empunhando suas lanças, transformadas em instrumentos de percussão, batidas no chão. Depois são depositadas em círculo, com as pontas convergindo para o centro, em gesto diametralmente oposto a qualquer incitação a violência – apesar de o repertório trazer temas como a Dança da guerra e 500 anos de resistência.

“Somos todos irmãos, independente de raça, se cor, somos todos seres humanos”, afirmou um dos integrantes, numa sutil referência à violência perpetrada contra o povo Wajãpi, cujo cacique Emyra foi assassinado no oeste do Amapá, no último dia 22 – e ao pouco caso do presidente da república Jair Bolsonaro e seu primeiro escalão mentalmente indigente.

“A mídia só sabe discriminar os povos indígenas, só fala daqueles políticos corruptos que vivem lá em Brasília, ninguém lembra dos povos indígenas”, continuou, mais explícito.

Na sequência foi a vez do grupo Teko Guarani do Povo Mbyá – Guarani, também gaúchos, de Lomba do Pinheiro, na capital Porto Alegre. São 10 pessoas, sendo seis mulheres, incluindo uma criança. O cacique é o único a usar cocar – e também o único calçado, usando tênis; os demais trajam roupas brancas com motivos indígenas e se apresentam descalços – e faz as vezes de mestre de cerimônias: não toca nem canta. Homens tocam violão (por eles chamado de “mbá’epú”, com cinco cordas, cada qual representando “uma divindade Mbyá: Tupã, Kuarany, Karaí, Jakairá e Tupã Mirim”), violino (“ravé”, com três cordas) e chocalho (“mbaraká miri”, revezado com um tambor, “angu’á pú”), as mulheres fazem coro.

O violonista usa a mão esquerda para rasquear as cordas do instrumento sem armar qualquer acorde, a mão direita apenas segurando o braço do violão. O violino é tocado da mesma forma, o arco indo e vindo, o instrumento apoiado nas costelas do violonista.

Algumas divindades são saudadas no repertório do grupo, formado por músicas tradicionais do povo Guarani: Ñe’ë í (Pequeno espírito) e Ñamandu mirim (Pequeno sol).

A certa altura o cacique revela, aos 46 anos, nunca ter ficado doente. “Não conheço hospital”, diz. A apresentação se encerra com os dois grupos se encontrando em Tangará (Brincadeira em roda), diante de uma plateia emocionada.

O Grupo Wiyae, que se apresenta hoje, reúne músicos de diversas procedências: a cantora amazonense Djuena Tikuna, a paulista Magda Pucci (cantora, arranjadora, compositora, educadora musical e pesquisadora das músicas de vários povos há 23 anos), o maranhense Diego Janatã e o acordeonista paulista Gabriel Levy. A apresentação acontece às 18h, no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). A entrada é gratuita.