Habemus Cultura

A fachada do Engenho Central no fim da tarde…
… e à noite, durante o video mapping, já com a chaminé anunciando a inauguração.
O governador Flávio Dino, o secretário de Estado de Cultura e Turismo Diego Galdino, o prefeito de Pindaré-Mirim Henrique Salgado e a diretora do Engenho Central Amélia Cunha cortam faixa inaugurando o equipamento. Fotos: Zema Ribeiro

 

Foi concorrida a solenidade de inauguração do Engenho Central de Pindaré-Mirim, sexta-feira passada (25), no centro da cidade, às margens do rio que lhe batiza. Artistas locais se apresentaram no palco que aguardava as presenças do governador Flávio Dino, do secretário de Estado da Cultura e Turismo Diego Galdino, do prefeito de Pindaré-Mirim Henrique Salgado e da diretora deste novo equipamento cultural maranhense Amélia Cunha, entre outras autoridades.

À medida em que as cadeiras iam sendo ocupadas por quem desejava guardar o lugar para prestigiar o espetáculo Pão com Ovo, da Cia. Santa Ignorância, um grupo de capoeira se apresentava na calçada do Engenho e uma turma de samba – cujos brincantes dizem “vamos fazer um maracatu” ao se referirem ao próprio som – animava à praça em frente.

A estrutura física do Engenho Central foi mantida. É um galpão enorme, com biblioteca, cineteatro e pavilhão de exposições – a inaugural é composta por fotos de Catarino Fotógrafo, como ficou conhecido Manoel Catarino de Andrade (29/11/1920-8/12/1993), “pioneiro da fotografia no Vale do Pindaré”, conforme sinaliza o texto de apresentação da exposição, entre retratos da gente do lugar, da construção de ruas, do próprio Engenho Central e da estrada, então de areia, que liga Pindaré a Santa Inês.

“Construído a margem direita do rio Pindaré, em terras pertencentes à extinta colônia de São Pedro, habitada por índios Guajajaras, o Engenho Central de Pindaré-Mirim ou companhia Progresso Agrícola, foi criado no início do século XIX. Todo maquinário e aparelhagem necessários à sua instalação foram importados da Inglaterra pela quantia de 28$000 réis e executado pelo técnico Robert Collond, da firma inglesa Fawcet Preston & Cia.

O Engenho Central, um dos melhores do Brasil, possuía 500 carros de boi, 35 carroças, cerca de 50 casas de madeira, três léguas de terra apta à lavoura e 10 km de via férrea. Hoje este secular monumento, com sua tradicional chaminé, seus paredões em alvenaria, seu teto laminado sobre custosa estrutura de ferro é um dos últimos representantes do sistema de engenhos centrais instalados no Brasil durante o Império”, diz o texto que li na porta de vidro da biblioteca.

Por ocasião da inauguração do equipamento cultural de multiuso que atenderá a população do município e adjacências, o reitor do Iema [Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão] Jonathan Almada assinou um edital para o oferecimento de curso de inglês com 80 vagas, para adolescentes a partir de 13 anos, cujas aulas acontecerão no local.

Após os discursos das autoridades e uma grandiosa queima de fogos, uma fumaça multicolorida passou a sair da chaminé sinalizando estar oficialmente inaugurado o Engenho Central. O cerimonialista não hesitou e vibrou: “habemus arte, habemus cultura!”.

O vídeo mapping exibido na fachada da construção contou a história do Engenho Central, passeando por manifestações culturais do Maranhão. Foi difícil conter as lágrimas ao ver projetado um bumba-meu-boi ao som da toada Urro do Boi, de Coxinho, eterno amo do Boi de Pindaré.

O Maranhão está na contramão do Brasil. E pela primeira vez os maranhenses dizemos isto com orgulho. Enquanto em Brasília se fecha o Ministério da Cultura e no Rio de Janeiro se incendeia museu, aqui equipamentos culturais são reformados e inaugurados.

Samba de protesto

Os “excluídos” em ação em Diverdade, show de 14/12/2013

Não sou contra a vinda de artistas de outros estados para o que quer que seja no Maranhão. Ser contra seria bairrismo, embora a vinda de artistas de fora para eventos como o carnaval e os festejos juninos por aqui não cumpra o papel que deveria, de intercâmbio cultural. Tampouco artistas nossos são enviados a outros estados com essa intenção (Barrica e Bicho Terra pra gringo ver não contam).

Para o carnaval deste ano o Governo do Maranhão anunciou uma vasta programação com nomes pagos a peso de ouro. Gente do quilate de Daniela Mercury, Diogo Nogueira, Elba Ramalho, Monobloco e o onipresente (local) Bicho Terra, entre outros – confesso que senti falta da Alcione no Bloco dos Apaniguados.

O compositor Cesar Teixeira está fora da programação carnavalesca, sob responsabilidade da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), pasta comandada por Olga Simão. Não é a primeira vez que o artista é excluído de programações do tipo, sem justificativas, num gesto de retaliação política – o autor de Oração Latina é reconhecidamente uma histórica voz de resistência à oligarquia Sarney.

Notem os poucos mas fiéis leitores: o problema não é ele estar fora da programação carnavalesca. É saber que critério o excluiu. “É inadmissível que um órgão cultural do governo, na ausência de editais, se aproprie do erário público para decidir quem deve ou não participar de programações culturais públicas, exercendo uma espécie de censura institucional àqueles artistas que não rezam na cartilha do governo Roseana Sarney”, declarou em uma rede social Irinete Chaves, esposa e produtora do compositor.

No Maranhão há muitos artistas frutas de estação, isto é, aqueles que se adequam aos períodos carnavalesco e junino – muitas vezes utilizando-se inclusive do vasto repertório de Cesar Teixeira, autor de clássicos tocados à exaustão em ambos os períodos, mas não só – e depois somem, para reaparecer na próxima… estação.

Não é o caso de Cesar Teixeira, cuja obra, reconhecida nacionalmente nas mais diversas vozes, tem importância, riqueza e variedade, e deveria ser valorizada pelos gestores de cultura de nosso estado, provavelmente o último da nação que ainda não adota o princípio republicano dos editais para a convocação de artistas para compor suas programações oficiais, na contramão do que indica, por exemplo, o Ministério da Cultura.

Festival – Sábado passado (15), em um festival de música carnavalesca organizado pelo Sistema Mirante de Comunicação – de propriedade da família da governadora Roseana Sarney –, uma música de Cesar Teixeira, Dias felizes, defendida pelo grupo Lamparina, sagrou-se vice-campeã, surpreendendo a muita gente, este blogueiro inclusive. Isto é, em terreno hostil, a marcha-rancho conseguiu comprovar o talento de seu autor.

Silêncio constrangedor – Através da assessoria de comunicação, este blogue indagou à secretária Olga Simão que critérios haviam norteado a exclusão de Cesar Teixeira da programação do carnaval maranhense. Até o fechamento da matéria, a Secma não se pronunciou – como o fez também quando o compositor foi deixado de fora da temporada junina do ano passado.

Maranhão, outro excluído – Pouco antes do fechamento deste texto, através do blogue da jornalista Vanessa Serra, ficamos sabendo que Chico Maranhão, outro importante artista maranhense de reconhecimento nacional, também foi excluído da programação carnavalesca oficial.

O campo de Pedrinhas e o Brasil

FLÁVIO SOARES*

“Relembrai vossa origem, vossa essência;/vós não fostes
criados para bicho,/e sim para o  valor e a experiência”
(Dante em P. Levi, É isto um homem?)

Para Ana Clara (in memoriam)

CAMPO DE PEDRINHAS

Passagem de 2013 para 2014, ainda em meio às festas do Natal e Ano Novo, clima carnavalesco chegando, expectativas da Copa do Mundo, nova onda de protestos e eleições de outubro, e eis que o “espetáculo do suplício” maranhense ganha nova projeção no país dos “Amarildos”. Aparece como relâmpago a iluminar, por instantes, o coração das trevas desse país, na forma dos horrores da Penitenciária de Pedrinhas, localizada na periferia de São Luís. Guerra civil em estado puro, banal, sem mediações.

Corpos “picadinhos”, perfurados a balas, facas, facões e canivetes, segundo a lógica da revolta, do ódio, do crack; cabeças degoladas, exibidas como troféus ou bolas de futebol; esqueletos de ônibus queimados; homem, mulheres e crianças em chamas; tiros em delegacias e policiais morrendo e matando adoidado; denúncia do estupro de mulheres por presos em “visitas íntimas” coletivas; cidade com mais de milhão de habitantes tomada pelo medo; imagens do horror na mídia em transe; divulgação de gravação dos papos de guerra via celulares entre membros do “Bonde dos 40” e do “Primeiro Comando do Maranhão” (PCM), antiga facção dos “baixadeiros”, inspirada no PCC-SP e CV-RJ; estado de emergência decretado no sistema prisional (de fato, em toda a região metropolitana), entregue ao domínio “pacificador” da PM e da Força Nacional, num estado onde, como disse certa vez um ex-secretário da segurança, “tudo é possível”; planos e planos emergenciais; denegação sobre denegação de um governo radicalmente alienado, simulando Roseana “no país das maravilhas” para uma população prisioneira da impotência, assombrada e indignada.

Mesmo difícil, vale distinguir as razões da explosão midiática daquelas da implosão de Pedrinhas em si. Há dez anos, pelo menos, denúncias são feitas por órgãos como SMDH, MP-MA e OAB-MA. Várias rebeliões, com mortes e decapitações, ocorridas antes, foram noticiadas pela imprensa. Exemplos: presídio São Luís-Pedrinhas, com 18 mortes (3 decapitações), novembro de 2010; Delegacia Regional de Pinheiro, Baixada maranhense, com 6 mortes (4 decapitações), fevereiro de 2011; CADET-Pedrinhas, com 9 mortos e dezenas de feridos, outubro de 2013. No entanto, sem força para criar abalos maiores.

Claro que é imoral expor ou esconder as barbaridades do Maranhão apenas por razões eleitorais, embora isto seja um dado real da briga pelo poder entre bandos partidários. Mas, sem dúvida, o modo como o Maranhão oficialmente se olha e quer ser visto foi posto em questão, como nunca antes, quando da divulgação mundo a fora dos vídeos das decapitações (feita pelos presos na rebelião de 17 de dezembro de 2013), imediatamente considerada pelo Governo do Estado “ato criminoso” (a divulgação, é claro), invertendo a situação; e, em seguida, das imagens dos ônibus incendiados (3/1/2014) e, dias depois, a morte de Ana Clara, em cujo enterro se fez presente o senador João Alberto, linha de frente da oligarquia Sarney, ex-governador (abril de 1990 a março de 1991) famoso pela “Operação Tigre” e alcunha de “Carcará”. Sobre as cenas da decapitação, o argentino Juan Ernesto Méndez, relator membro do Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU, observou: “Já vi cenas de morte entre presos… mas é a primeira vez que eu vejo decapitação… Depois que vi essas terríveis imagens em Pedrinhas, pedi à minha equipe de Genebra que analise o assunto” (Folha de S. Paulo, 12/1/2014).

Não foi, portanto, o simulacro da cultura, da cidade “patrimônio da humanidade”, dos Lençóis maranhenses, mas a brutalidade dos vídeos expondo presos decapitados, “videodrome” produzido em celular pelos próprios, que catapultou o Maranhão da Oligarquia Sarney e suas prisões e, por tabela, sua tragédia social, numa escala inédita. Primeiro sucesso maranhense mundial. Com certeza um marco que assinala a entrada do Maranhão no século XXI. Não é só uma questão de espetáculo, de exploração mercadológica e contemplação passiva da própria desgraça. Estratégia fatal, a violência em si dos presos atingiu um extremo praticamente impossível de ser batido, de ser trocado na mesma moeda, pela violência do poder oligárquico. A não ser que este fosse capaz de degolar a si mesmo. Eis aí, quem sabe, a “grandeza” desse ato pérfido numa terra em que, já dizia João Lisboa no século XIX, “miséria” e “mal” (dos opressores) não sofriam compensações do “bem”.

De toda maneira, numa região onde a violência da colonização e do império deixou traumas arraigados, e onde elite e povo tendem a decidir o que é bom e ruim quase sempre pelo espelho de fora, o giro neste espelho – agora não mais da barbárie em civilização, mas da civilização em barbárie, expondo o Maranhão atroz e mentiroso  criticado pelo autor acima –, produzido pelo bombardeio das notícias e vídeos do terror local na imprensa nacional e do Mundo, feriu a imagem oficial esquizofrênica do “povo cordato” cujo monstro da violência, vindo não se sabe de onde, um governo-protetor se encarregaria em manter preso nos labirintos das Pedrinhas. Seu lugar merecido e justo.

Resta saber se tais deslocamentos levarão à consciência das classes populares quanto às causas materiais, políticas e sociais da violência que lhes atinge em primeiro lugar, potencializando sua capacidade de indignação, ou ao reforço das velhas expectativas messiânicas e, em especial, a ânsia por novas formas de controle (tipo Sistema BI paranaense, coleira eletrônica, novo “modelo de gestão” e coisas do tipo.).

Embora Pedrinhas seja um dos principais presídios do Brasil, seu universo carcerário é relativamente minúsculo. Representa 1%, ou menos que isso, da crescente população carcerária do país (de mais de 500 mil). Em números absolutos, fontes do TJ-MA indicam, até 12/12/2013, um total de 5.466 presos em todo o estado, dos quais 1.555 cumprem penas em delegacias. Déficit de 2.562 vagas. Segundo o Banco Nacional de Mandatos de Prisão do CNJ existem ainda 5.539 mandatos por cumprir. Pergunta-se: como é possível a um Governo de Estado cuja população atinge quase 6.800.000 habitantes (nas estimativas recentes do IBGE), e cujo pacto com o poder federal é cantado e decantado, “fracassar” de modo tão grotesco na guarda de 5.466 presos?

É comum se dizer que as condições extremas em Pedrinhas, absolutamente desumanas, decorrem de um sem número de fatores, tais como: concentração e superpopulação de presos do interior e da capital num só lugar, com celas totalmente inadequadas, cheias de “gambiarras”, insalubridade; falta de recursos humanos e materiais; corrupção, inexistência da fiscalização e mistura indiscriminada dos presos, fora da Lei de Execuções Penais; presos ilegais; facções e rebeliões; denúncia de abusos, tortura, espancamento e morte, cometidos pelo chamado “Serviço Velado da Polícia Militar”; paralisação na Delegacia da Estiva da maioria dos inquéritos das mais de 300 mortes nos últimos 10 anos; crimes no interior das prisões denunciados e não investigados; assassinato de denunciantes; crimes com erros periciais básicos; desaparecimento de presos, etc.

São práticas e situações de governo deliberadas, sistemáticas e sabidas, ligadas, por um lado, a uma ideia particular de justiça, para não dizer fascista, bastante comum na Colônia penal maranhense, segundo a qual presos devem pagar pecados no inferno carcerário. Nem lugar de passagem para cumprimento da pena, nem de reclusão, a prisão é o próprio espaço da pena de morte. Oficina do diabo, sem dúvida. Crença de que bandido não pode ter “privilégios” e o sistema carcerário é a “última das prioridades”. O imaginário dominante é marcado pelo ódio arraigado aos “direitos humanos”. A ideia é de que “monstros” devem ser punidos como “monstros”.

Trata-se, sem dúvida, de assumido preconceito social e racial oriundo das camadas senhoriais, mas aceito como natural por extensa parte da população. Incapacidade crônica do miserável em perceber as causas históricas, sociais e políticas da violência num contexto em que elas berram. Basta observar, para verificar essa aceitação, que, dentro do Campo de Pedrinhas (alguma dúvida de que é um tipo de Campo?), o berço étnico-social comum não é apagado pelas diferenças das posições e funções – se presos, agentes penitenciários, monitores, inspetores ou policiais. São quase sempre negros esfolando negros a serviço de brancos ou quase-brancos, situados a quilômetros e quilômetros de distância, em bairros, edifícios e condomínios nobres à beira do Atlântico.

De outro lado, o quadro atual do “abandono” liga-se a uma situação não menos decisiva de “descontrole”, caracterizada pelas disputas no interior das polícias, especialmente entre alto comando da Polícia Militar e Secretário de Segurança; Secretário do presídio e agentes penitenciários (a divulgação do vídeo falso da perna dissecada não veio daí?); gangues contra gangues. Como se a lógica do “monstro” se reproduzisse para todos os lados. O caos instalado favorece o “domínio das facções” e suas guerras cruéis envolvendo controle das prisões, comércio das drogas em franca expansão na Ilha e no Continente; disputas entre presos da Capital e do Interior (os “cara da baixada”); abuso sexual das mulheres (negado por alguns presos). A desordem instalada resulta num ambiente inevitável de delinquência, propício aos conluios entre bandidos e agentes penitenciários corruptos e, sobretudo, à livre exploração econômica da prisão pelas facções do governo e empresas dos comparsas contratadas. Negócios e intolerâncias se retroalimentam.

A “delinquência, ilegalidade dominada, é uma agente para a ilegalidade dos grupos dominantes”, diz Foucault em Vigiar e Punir. O que se chama “fracasso” da prisão é, na verdade, êxito. Forma de produção da criminalidade com o apoio da polícia visando estabelecer, a serviço dos grupos dominantes delinquentes, o controle e a exploração social. Pedrinhas é parte de um montante de investimentos que só entre 2009 e 2013 movimentou 274,1 milhões do governo do estado para empresas de “familiares, amigos e correligionários” (O Globo, 12/1/2014, “Roseana Sarney já gastou 274 milhões…”). Não dá para dissociar a conversão das prisões em negócios rendosos de compadres, a cada volta no parafuso do nosso estado de emergência, da atual configuração do capitalismo: novo regime da crueldade baseado precisamente na militarização da vida social e administração da miséria absoluta.

AMNÉSIA E NEGAÇÃO DA CRUELDADE

Mas a contribuição de Pedrinhas para a sucessão de horrores que vem causando fascínio e repulsa no mundo é fruto de um “princípio do mal” ainda mais horroroso, estrutural, sem a qual não funciona a máquina social e histórica perversa e fantasmagórica chamada “Maranhão”. Uma espécie de “Louisiana” do Norte, com a qual, no entanto, o atual Brasil “civilizado, moderno e industrializado” convive há séculos sem espanto algum. Na verdade desde que o Maranhão era a antiga Província do Norte do Império. Ou terá sido apenas acaso que a nova “Guantánamo” noticiada do país, esteja encravada, desde o finalzinho de 1965, na capital de um dos estados do nordeste, onde nervos, cabeças e ossos estão literalmente entre os mais expostos da fratura social brasileira do Planeta?

Violência social e histórica, a crueldade que caracteriza o mundo infeliz dos cárceres maranhenses não é, de modo algum, produzida exclusivamente dentro dele; não é, no fundo, diferente daquela que distingue a relação do governo com o mesmo povo negro, mestiço e pobre nas escolas, hospitais, transportes, saneamento, moradia e mundo do trabalho. Todos os dias, matérias e matérias são divulgadas na imprensa sobre cada um destes setores e a situação quase sempre é de completo desprezo e falta de humanidade. Ou será que a “superlotação” das prisões é tão diferente assim da dos ônibus, hospitais e moradias usadas pelos trabalhadores? Vistos como indignos de viver, são explorados como se pertencentes ao mundo dos “animais” ou das coisas, cujo único modo possível de tratamento, além do religioso (isto é, busca da salvação da alma), é a aplicação da lei social da indiferença e crueldade. A “taca” de “deixar nós moído”, nas palavras de um “monstro” ao radialista Silvan Alves.

O Maranhão das Pedrinhas, sobretudo, é o mesmo Maranhão miserável dos massacres, assassinatos, genocídios de camponeses, índios, quilombolas; o mesmo Maranhão 66 de Glauber Rocha, filme que teima obsessivamente em não acabar, eterno retorno do inferno, para o qual Pedrinhas, nascida já como depósito de detentos, não passou despercebida; mas também o Maranhão da extinção indígena, denunciada em Serra da Desordem (filme inquietante de Andréa Tonacci), pela invasão de fazendas, madeireiras, exploração de minério; o Maranhão da alta bandidagem de Grupos políticos e estrutura oligárquica, de Flávio Reis; o Maranhão da província escravista de O Mulato (lançado em 1881, em São Luís), de Aluísio Azevedo; o Maranhão da barbárie e do simulacro de João Lisboa, enfim, em que a oligarquia Sarney funda, pelo monopólio, exploração e depredação mafiosa das verbas públicas, o seu domínio de quase meio século, e faz de tudo para ocultar e dissimular de todos, até do mundo, pela estratégia de mudar a mentira em verdade e a verdade em mentira, conforme as circunstâncias e conveniências de quem age como se fosse um poder divino, criador da luz a partir do nada (não é esse o discurso do “Maranhão Novo”?), dono do destino, da vida e da morte dos seus súditos.

A reação do governo diante do horror do Campo de Pedrinhas é sintoma explícito da gravidade da sua esquizofrenia moral e social: “rede de boatos”; “mal que vem para o bem”; “fruto da ação do governo”; “o estado está mais rico”; “cresce e melhora”; “o Maranhão de verdade”; “campanha política contra o Maranhão”; “não existe oligarquia”; “licitações” para compra de lagostas e caviar; “Eu amo o Maranhão, aqui é bom demais”; “sou pacifista”; “falta de fundamentação”; e até a conspiração da oposição com a imprensa internacional. Nem a junção da mais fina ironia de Machado de Assis com o espírito mais anárquico de Rogério Sganzerla daria conta em narrar e filmar todo o jogo de negação, deformação e recalque sarneista da memória da crueldade do Maranhão e em especial da sua própria barbárie.

Exploração e recusa radical do outro, o sarneismo é um tipo de anomalia histórico-social, banalização do mal, que jamais poderá encarar suas origens e história. A não ser no terreno da mistificação, dos mitos, da simulação, da estetização cultural, do “inexplicável”. Como a barbárie pode encarar a si mesma? Olhar em seus olhos opacos? De todas as oligarquias do Maranhão, essa foi talvez a que, visando o domínio total, mais fez para apagar a relação dos seus súditos com o real. Grau zero da simulação. No entanto, historiadores e estudiosos, de distintas formações e colorações ideológicas, alcançaram (sabe o deus das pesquisas e arquivos locais como) denunciar e analisar as contradições do Maranhão e sua violência, sob os mais diversos aspectos, em vários momentos. Permita o leitor, ainda que de passagem, a lembrança necessária de alguns: João Lisboa, Jornal do Timon; Dunshee de Abranches, O Cativeiro; Carlota Carvalho, O Sertão; Mathias Assunção, A Guerra dos Bem-te-vis; Alfredo Wagner, A Ideologia da Decadência; Victor Asselim, Grilagem: corrupção e violência em terras do Carajás; Wagner Cabral da Costa, Sob o signo da morte: o poder oligárquico de Victorino a Sarney; Lourdes Lacroix, Jerônimo de Albuquerque Maranhão: guerra e fundação no Brasil colonial; Mundinha Araujo, Insurreição de escravos em Viana, 1867; Manuel da Conceição, Essa terra é nossa; Maristela de Paula Andrade (org.), Chacinas e Massacres no Campo; Yuri Costa, A Outra Justiça: a violência da multidão representada nos jornais, etc.

Para alguém minimamente afeito à realidade absurda do estado, as cenas de Pedrinhas evocam um filme de horrores inacreditáveis, presentes desde sua pré-história colonial. Tempos das primeiras guerras cruéis, onde cabeças indígenas eram decepadas em estranhos “folguedos bárbaros”. Horrores cuja recorrência, hoje, nem os estudiosos mais cretinos teriam coragem de negar. Em primeiro lugar, os da Balaiada, guerra matricial do Maranhão pós-colonial, desencadeada no final de 1838, por uma revolta na cadeia da vila da Manga (atual Nina Rodrigues), vale do Munim, por conta de recrutamentos arbitrários.

Horror reconhecido de cara por um autor monarquista, Gonçalves de Magalhães, com “um só fato”, mas que dizia tudo: “a um mísero ancião octogenário cortaram o ventre e nele coseram um leitão vivo, que lhe roía as entranhas; esta recordação horrível de um suplício tartáreo foi feita ante os olhos dos filhos e da esposa do desgraçado velho, e nem deixaram os frios algozes, que galhofavam, sem o ver exalar o último expiro no meio das cruéis vascas e dolorosos gritos da família, que além deste martírio foi espancada em despedida. A tanto chega a cruel fereza do coração humano!” (Memória histórica e documentada da Revolução da Província do Maranhão. São Paulo, Siciliano, 2001, p. 46). Houve quem duvidasse do exemplo, vendo exagero, por expressar preconceitos racistas de um conservador da Corte do Império. Mas, no dizer de autora mais insuspeita, Carlota Carvalho, a guerra dos Bem-te-vis foi um “espetáculo dos suplícios” traumático e alucinador (O Sertão. Ética, 2000, p. 138).

Numa entrevista recente, intitulada “Bonde errado”, dada ao jornal O Estado de S. Paulo (11/01/14), o advogado Luís Antonio Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, questionado sobre “vídeos de terror” em Pedrinhas, diz: “Num deles o preso teve o olho extraído e jogado ainda pulsando na direção de uma juíza que negociava as reivindicações; em outro abriram o tórax de um preso, tiraram o coração, deceparam seu pé e o colocaram dentro da cavidade. Entrar num presídio logo após uma rebelião é encontrar vísceras.” Na mesma entrevista, informa que presos dizem que a prática adotada pelas facções do presídio, de cortar cabeças de pessoas vivas como modo de impor respeito, foi inaugurada por um índio guajajara (Barra do Corda), tal o grau de revolta com as humilhações sofridas ali.

A visibilidade dos aspectos sinistros do sarneismo tem suas chances aumentadas, no entanto, na medida em que o país se ajusta com sucesso ao controle total do capital. Será mera coincidência que o instante em que o relâmpago de Pedrinhas ilumina o Brasil como “Grande Maranhão”, é o mesmo em que ele é atravessado pela lógica desastrosa do mercado mundial? Sem querer dizer que este sinal de alarme esteja sendo ouvido, é como se a “hora maranhense” do país se aproximasse a cada volta dada no ponteiro do relógio da normalização da exceção, da militarização da vida social e da administração da miséria extrema.

Na feição desmedida do Maranhão, a monstruosidade social brasileira atual é expressão, sem dúvida, do pacto republicano pra lá de diabólico do sarneismo com o governo FHC, intensificado com o Lulismo. Criatura genuína de uma ditadura que alçou a barbárie brasileira a patamares inéditos, essa oligarquia acompanhou e foi protagonista do colapso da modernização nacional-desenvolvimentista e da extinção da política no país. Ajustada às novas Administrações emergenciais do PSDB e depois PT, configura-se como um tipo bem sucedido de poder que ampliou as diferenças de classes, estrangulando suas lutas através da guerra civil molecular. Dirigido por um poder senhorial endinheirado, sua violência maior, com a conivência de sempre do poder nacional, foi transformar o estado num deserto de miseráveis físicos, intelectuais, morais e políticos. Como esperar iniciativa de mudança de um povo que não tem sequer saúde para se manter em pé?

Para os sobreviventes, resta o sentimento indefinível do acúmulo de problemas praticamente insolúveis. Não por acaso, nas últimas décadas, muitos têm fugido (quando não são traficados) em busca desesperada de saídas ou abrigos nos estados do Norte, Centro-Oeste, Sudeste, na expectativa ilusória de uma exploração mais civilizada. Outros seguem ralando e resistindo na província, do jeito que podem, no meio do nada. Será tão difícil assim compreender que o Maranhão, sem deixar de ser questão político-social, é também um problema humanitário?

SINAL DE ALERTA MARANHENSE

Nessas horas, ante a constelação de impasses insolúveis dentro da estrutura social-oligárquica de poder vigente, ou de qualquer pacote de medidas emergenciais vindas do governo federal, recoloca-se um enigma de dois séculos de idade, pelo menos, e que sintetiza vários outros. Afinal, o que é o Maranhão?

Preconceitos não deixam de ressoar no trato da pergunta. E o preconceito, como se sabe, não é só questão da ignorância dos fatos, como da forma de narrá-los. Quem estuda o Maranhão com sensibilidade crítica, e não só o do governo de ontem ou da “era Sarney”, sabe da cegueira singular gestada no coração sombrio das suas classes senhoriais. Mas quem, por exemplo, já passou pelo sudeste aprende logo que, desde muito tempo, o Maranhão não é apenas questão de geografia, simples ponto no extremo norte do país, mas símbolo do “atraso brasileiro” na sua forma igualmente extrema.  Nunca entenderam (desconhecemos exceções) a modernidade radical desse atraso.

Uma coisa é certa: é imenso equívoco falar do Maranhão como se fosse caso isolado, “feudo” distante, exótico lugar de “banquetes totêmicos”, originalidade das originalidades, tanto quanto como se fosse mais uma variação da situação nacional. Afirmação essa rapidamente explorada pela oligarquia para assegurar cinicamente sua “irresponsabilidade” criminosa e considerar injusto o que se diz sobre o Maranhão, e ainda posar como defensora “revoltada” da auto-estima de um povo que na prática destruiu e corrompeu. Contra o crescimento da vergonha, insegurança e desânimo popular, denegar sempre, até o fim: “não, o Maranhão não é isso; o maranhense é ordeiro”; o ocorrido foi coisa de “alguns celerados”; aqui “nunca teve uma tradição de violência”. A culpa é das “drogas”. Não é daqui…

É preciso indagar, sem ilusões, sobre a situação do estado e suas conexões obscuras com o país (a concordância dos últimos governos federais com o horror maranhense prova isto), mas evitando deduzir tal situação simplesmente a partir de uma abstração “nacional” ou do que se sabe sobre determinadas localidades e regiões (São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo), como fizeram diversos comentaristas e nossa oligarquia de cada dia. Diferença de grau? Pode ser. Mas diferença decisiva. Neste momento em que determinadas regiões do país parecem dar sinais de vitalidade social (indicado nos protestos de 2013), mas em que a exceção maranhense tende a tornar-se regra nacional, importa, no entanto, compreender a “dialética” de que se o Brasil é e sempre foi país de oligarquias, da desigualdade social e do encarceramento de pessoas das classes populares, nem todas as oligarquias, desigualdades ou formas de encarceramento são como as maranhenses (ou são?). Não é problema de quantidade, volume ou primazia, seja lá no que for, mas intensidade e duração. Qualidade das coisas.

Nas últimas décadas, abriu-se a possibilidade para recolocar a questão indicada, mas pelo avesso: a de uma “maranhensização” do Brasil a caminho. Fenômeno caracterizado pela disseminação de um coquetel improvável e atual a não poder mais de estado de exceção, formas de acumulação primitiva, combinação feliz de softwares importados e mão de obra barata e controlada, espoliação do trabalho (precisa lembrar que o estado é campeão do trabalho escravo?), agiotagem, assassinato de jornalistas corruptos e prefeitos idem, operação “boi barrica”, “operação tigre”, “Caso Matosão”, agronegócio predador, compra de eleições, força crítica e técnico-científica no chão, formas antigas de dependência cultural, desigualdade social, intolerância de todo tipo, alienação, impotência ou baixíssima capacidade de reação popular e campos de barbárie nos limites de Pedrinhas. Estamos falando de colônia, naturalmente.

A sensação é de que o clarão sobre o horror do Maranhão e seu universo carcerário (labirinto do minotauro que devorou Ariadne, ao contrário da fábula famosa) abre a possibilidade para pensar não apenas o estado em suas vísceras, mas, através destas, digamos sem receios, a genealogia do “totalitarismo” brasileiro emergente na virada do século XX para o XXI. Ao seu modo, o laboratório de Pedrinhas é isso aí. As cabeças degoladas e a vida da menina Ana Clara, que se foi nas chamas do ônibus incendiado, podem iluminar, no entanto, os caminhos do debate sobre as conexões entre ditadura e democracia, sarneismo e lulismo, norte e sudeste, pré-história e história do Brasil; produzir ângulos para perceber que o povo “capado e recapado, sangrado e ressangrado” deste estado é hoje um dos resultados mais visíveis, ou melhor, o resto, sem tirar nem pôr, do logro civilizatório do Brasil; e, sobretudo, a possibilidade de que este mesmo povo, das ruas e das prisões, abra os olhos, não para a salvação de quem nunca quis salvá-lo, “o Maranhão”, mas para a invenção da luta, das armas, invenção de si, visando superar de vez a guerra e a paz de cemitério deste programa fantasmagórico.

*Flávio Soares é professor do Departamento de História da UFMA. Texto originalmente publicado na edição de janeiro do Vias de Fato, nº. 50, já nas bancas

Caos no sistema penitenciário: há tempos o governo tem as mãos banhadas de sangue

Em cerca de 10 dias o saldo de mortos na Penitenciária de Pedrinhas chega a 18 – ontem (9) foram 13, mais 30 feridos – e o seríssimo problema tenta ser encoberto pela mídia governista como mera “guerra de gangues”. Puro cinismo! Outra tentativa dos poderosos de tapar o sol com a peneira foi responsabilizar a descoberta de um plano de fuga pela rebelião: não colou, um detento desmentiu a versão – no próprio jornal governista.

A tática é conhecida: membros de facções rivais são colocados juntos e o resultado é o banho de sangue que lava as páginas e ajuda a vender jornais. As autoridades tapam o nariz e fazem de conta que não têm nada a ver com isso. Hoje reforçada pela tecnologia e redes sociais, o mau gosto espalha-se rapidamente e em larga escala.

“Governar é cuidar das pessoas”, apregoa o slogan das propagandas governistas. A apática Roseana Sarney tem as mãos – se não o corpo todo – banhadas de sangue, após seguidas carnificinas, dentro e fora dos presídios. Se isto é cuidar das pessoas, melhor dispensar.

Aos mortos, sequer resta dignidade – algo que já não tiveram em vida – membros expostos no açougue humano para o deleite de um público de um freak horror show.

As redes sociais, as mesmas que proliferam os registros do terror, ajudam a espalhar boatos: um arrastão aqui, um não saiam de casa acolá. O que só torna as coisas ainda piores do que já estão, a realidade mais bruta e cruel que a ficção.

“Providências terão de ser tomadas”, disse Aluísio Mendes, secretário de segurança pública, ao jornal de seus patrões, O Estado do Maranhão. Há tempos deveriam ter sido tomadas: a começar pelo domínio da corrupção no sistema penitenciário, se não o que explica a entrada de drogas e armas em presídios?

Deixo um exemplo antigo, tão antigo que o próprio Aluísio Mendes já era secretário. Nem preciso dizer quem (já) era a governadora do Estado, preciso?

São João do Maranhão: migalhas e milhões

“No mês de maio”, quando “tá todo mundo ensaiando” (Chico Saldanha), 25 pais franciscos, incluindo um adolescente, foram resgatados trabalhando em situação análoga à escravidão nas obras de montagem do arraial da Lagoa da Jansen, em São Luís do Maranhão, o preferido da elite da capital maranhense. Certamente buscavam dar de comer, se não a língua, ao menos o mocotó, às catirinas famintas que deixaram em casa.

O arraial da Lagoa, além de sua localização, ali por perto da São Luís vertical, na chamada cidade nova, também é o mais frequentado por sua programação: foi para lá que a governadora Roseana Sarney destinou as atrações nacionais chamadas a engrossar o caldo de nossa maior manifestação cultural popular, a festa de São João. Nomes como Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Nando Cordel e o grupo Falamansa, já passaram ou passarão pelo citado palco.

Em absoluto não se trata de ser contrário à vinda de artistas de fora ou a ida de artistas daqui para um palco fora com o uso de recursos públicos, desde que a coisa seja feita dentro de um planejamento e com critérios prévia e (ao menos) minimamente estabelecidos, garantindo a qualidade do que se oferece à população e a transparência das ações.

Desde o primeiro mandato da governadora Roseana Sarney as verbas destinadas à cultura têm sido substancialmente aditivadas, sem que isso, no entanto, tenha algum reflexo na vida da população ou na melhoria dos indicadores sociais do, neste aspecto, estado mais pobre da federação.

Os shows patrocinados pelo Governo do Maranhão, seja no São João deste ano, no réveillon do ano passado e/ou nos malfadados e controversos 400 anos da capital do estado, têm significado apenas um mar de gente nos espetáculos. Algo muito bom, por exemplo, para uso em futura propaganda eleitoral gratuita (?).

Histórico opositor da oligarquia Sarney, o compositor Cesar Teixeira recentemente teve sua imagem veiculada em publicidade institucional, após ter participado do show em homenagem aos 35 anos do LP Bandeira de Aço, lançado por Papete, disco em que assina um terço do repertório. O espetáculo, produzido pelo coletivo BR-135 (o casal Criolina Alê Muniz e Luciana Simões e companhia), reuniu compositores de músicas daquele disco antológico e novos nomes da cena musical do Maranhão, com patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), captado através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Isto é: a Cemar escolheu patrocinar o show, para o qual destinou algum recurso, estampou sua logomarca no material de promoção do show e deduzirá o dinheiro (público) de impostos que paga.

No frigir dos ovos, o marketing roseanista aproveita-se de algo tão pequeno (seja lá qual for o valor do patrocínio é certo que ele não fez cócegas no bolso da empresa que o patrocinou) para lucrar com isso e instaurar a dúvida, qual um São Francisco às avessas: teria Cesar Teixeira se rendido ao sarneysmo?, perguntavam-se/me, mesmo gente esclarecida, após ver sua imagem estampada na tela da Mirante, nos bastidores e corredores do Teatro Arthur Azevedo.

Não apenas não se rendeu como continua sendo perseguido: dos poucos artistas solo com repertório autoral suficiente não para um show em um arraial, mas para uma temporada junina inteira, Cesar Teixeira não fará sequer uma apresentação em qualquer arraial da capital, apesar de ter protocolado a documentação necessária na Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão em tempo hábil – o órgão não se manifestou sobre o assunto, apesar de procurado pelo blogue.

No Maranhão, público e privado sempre se confundiram: é praticamente sua lógica de funcionamento. Não se sabe onde começam e terminam, por exemplo, Governo do Estado, Sistema Mirante e Marafolia, uns ajudando os outros a manter a “ordem” e o estado de coisas onde pais franciscos não conseguem se revoltar: o dono do gado é alguém a quem agradecem a fogueira-festa, mesmo que as catirinas não tenham a língua do mimoso para alimentá-las. Uns se calam, tocados a ferro e fogo rumo ao curral, já sem ânimo para qualquer reação, tanto tempo submetidos ao jugo oligárquico. Outros não se rendem. “Aqui na terra/ quem não berra/ nada ganha/ é mais um boi de piranha/ como todo brasileiro” (Cesar Teixeira).

Nada de novo em Pedrinhas

A barbárie se repete no sistema penitenciário. Discurso de autoridades e meios de comunicação idem. Extermínio de detentos não pode ser simplesmente aceito e naturalizado.

Li a cobertura dos três diários ilhéus de maior circulação acerca do assassinato de cinco detentos em Pedrinhas, na madrugada de ontem (10). Manchete de capa em O Estado do Maranhão, jornal de oposição à atual gestão municipal, a chacina perdeu para o balanço de 100 dias do governo Holandinha nos jornais Pequeno e O Imparcial.

Nenhuma das matérias sobre o assunto – tanto faz se em matutino de oposição ou situação, na esfera municipal ou estadual – critica o Estado do Maranhão (o ente federado, não o jornal), seu governo, a governadora Roseana Sarney, a Secretaria de Segurança Pública, a de Justiça e Administração Penitenciária (responsável direta pela questão carcerária) e/ou seus secretários Aluízio Mendes e Sebastião Uchôa, respectivamente. Sintomático.

Há muito por ser esclarecido. As cinco vítimas haviam sido presas na última sexta-feira, isto é, completaram sequer uma semana sob a custódia do Estado. “Segundo agentes que estavam na entrada da detenção, nenhum barulho foi ouvido, apesar do fato ter ocorrido na madrugada”, afirma a matéria de O Imparcial. Este “sono de pedra” dos agentes é, no mínimo, conivente com os assassinatos.

O jornal O Estado do Maranhão, afirma logo no sutiã que “a chacina vitimou três irmãos e dois cúmplices, suspeitos de participação em assaltos, homicídios e tráfico de drogas”, como se o parentesco entre três das cinco vítimas lhes tornassem mais criminosos que as demais. Cabe perguntar: se eram suspeitos, o que faziam presos?

Sobre o ocorrido a “palavra do especialista” – box inventado por O Imparcial em sua última reforma visual – ouviu Bruno Mondego Polary, psicólogo, especialista em Desenvolvimento e Gestão com Pessoas. Faltou dizer que ele é chefe da Assessoria de Planejamento e Ações Estratégicas da SEJAP. Um trecho inacreditável de sua fala ao jornal: “A Psicologia assume uma postura delirante, sonhadora e otimista, da qual compartilho no sentido de que a única maneira de o poder público evitar as mortes nos Estabelecimentos Penais é acreditando no ser humano”.

Acreditar no ser humano é delírio? Delírio parece ser a vontade do sistema de justiça e segurança do Estado de simplesmente lavar as mãos quanto ao ocorrido. Diz o Jornal Pequeno: “Ainda segundo a Sejap, os assassinatos podem ter sido motivados por vingança, uma vez que as cinco vítimas haviam assassinado, semanas atrás, um integrante do grupo rival ao deles”. De suspeitas as vítimas passam instantaneamente à condição de acusados, mesmo que a(s) investigação(ões) não tenha(m) sido concluída(s) – ou sequer iniciada(s).

Não é a primeira vez que Pedrinhas é palco destas cenas brutais. Infeliz e provavelmente não será a última. Logo o assunto cairá no esquecimento, afinal de contas, para os embrutecidos sistema de justiça e segurança, os meios de comunicação e a “opinião pública” – (in)formada pelos anteriores – eram apenas “bandidos”, “marginais” que “tiveram o que mereceram” – ainda que sequer existam provas de suas culpas.

Fugir da questão – e de outras, mais amplas – apenas nos levará a vez por outra nos depararmos com o horror e a tragédia, além de alguns cínicos fingindo deparar-se com o banho de sangue pela primeira vez. O assunto é bem mais complexo e está para além dos muros de nossos presídios.

São Luís: os 400 anos e sua imprensa

Jornais da capital maranhense repercutiram o anúncio pelo Governo do Estado do Maranhão das festividades de comemoração dos controversos 400 anos de São Luís.

Da família da governadora Roseana Sarney O Estado do Maranhão é o que traz a maior matéria sobre o assunto, o que não quer dizer a melhor (ou a menos pior). O texto, entretanto, não passa de um grande publieditorial, em vez de jornalismo, cometendo equívocos como dizer que a Biblioteca Pública Benedito Leite será inaugurada quando o correto seria dizer reinaugurada.

A governadora do Maranhão Roseana Sarney e o prefeito de São Luís João Castelo não dialogam; isto é, em alguns dias deverá ser anunciada outra programação oficial dos 400 anos da capital maranhense pelo segundo, em ritmo de campanha pela reeleição.

Não houve qualquer planejamento para a pretensa megafesta que se avizinha e o caos deve se instalar na Lagoa da Jansen, palco dos shows. Artistas como Gilberto Gil, Roberto Carlos, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano, Alcione, Zeca Pagodinho e Rita Benneditto (que todos os jornais continuaram chamando Rita Ribeiro, mesmo após a mudança do nome artístico da cantora) não têm agendas tão simples de se encaixar em uma programação em cima da hora.

Perguntas básicas que deveriam ter sido feitas por algum/a jornalista presente à coletiva em que a filha do presidente do Senado anunciou a programação: quanto custará aos cofres públicos a farra dos 400 anos? Quanto custa cada cachê das megaestrelas contratadas e anunciadas? De onde sairão estes recursos?

A cobertura domesticada do anúncio das festividades, com o Jornal Pequeno limitando-se a copiar o G1 (no Maranhão sinônimo de Mirante), fez-me lembrar do saudoso Millôr Fernandes, colecionado por Ruy Castro em Mau humor: uma antologia definitiva de frases venenosas [Companhia das Letras, 2007]: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

Faça sua festa no Ceprama. Ligue já para o Governo do Estado e faça sua reserva!

(OU: A MORTE DO CEPRAMA DEPRIME)

Ontem eu fui ao Ceprama. Por conta de uma demanda da Cáritas, uma das entidades a que presto assessoria. Dei bom dia a um homem na porta e entrei. Assustei-me ao ver o enorme salão vazio. Quer dizer, cheio de vigas, ou coisa que o valha, uma reforma em andamento, vi rápido, entre o susto e aquele embaço nas vistas, sempre ocorrido quando adentramos um ambiente fechado imediatamente após deixarmos o sol a pino.

Onde estavam os artesãos e suas obras de arte? Quedê azulejos, chaveiros, camisas, boizinhos, bijuterias, souvenires que tanto alegram os turistas que passam por aqui ou os parentes e amigos presenteados lá fora? Nada. As perguntas, inicialmente feitas de mim para mim, incrédulo, repeti ao homem que havia cumprimentado na entrada. “Eles estão lá no… como é o nome?”, começou a responder, perguntando a um terceiro. “Do quê?” “Do negócio que eles [os artesãos e as artesãs] ‘tão… ali na Beira Mar…”, continuou a perguntar, ao que chutei, certeiro: “Casa do Maranhão?”, “Isso!”. Agradeci e me dirigi ao carro, voltando do meio do caminho.

“Deixa eu te perturbar de novo. Faz quanto tempo?” “Uns quatro meses.” “E aqui, vai ser o quê?” “Uma casa de eventos, o Governo vai arrendar.”

Quatro meses! Ok, eu não leio jornais como deveria, às vezes o faço por mero dever de ofício, dada a qualidade de nossa mídia em geral. Mas essa minha ida por acaso ao Ceprama foi a primeira vez que ouvi falar na remoção dos artesãos dali para a Casa do Maranhão. Ok, o Ceprama não era lá um local que eu frequente habitualmente, mas acredito que essa notícia, nada nova, vá pegar de surpresa alguns dos poucos mas fieis leitores deste blogue.

Por conta da demanda da Cáritas, fui, em seguida, à Casa do Maranhão: superapertada com os artesãos instalados ali. “Como vocês vieram parar aqui?”, perguntei a um homem em um dos stands. “O pessoal do governo chegou lá e disse que a gente vinha pra cá.” “Só isso? Sem discussão, sem nada?” “Só, a gente tem que vir, não tem outro lugar, né?”, respondeu ele num tom conformado sem convencer sequer a si mesmo.

Resta saber como serão regidos e geridos (digeridos nunca!) os arrendamentos futuros do agora ex-Ceprama. Seguirão os princípios constitucionais da administração pública, da legalidade, impessoalidade, interesse público e transparência, entre outros? Ou será apenas palco privilegiado de barricas, marafolias e maracutaias?

Maranhão metáfora Moto Club

Pela TV Difusora assisti ontem ao clássico de maior rivalidade no futebol maranhense, que terminou com a vitória do Sampaio Correia sobre o Moto Club por 3 a 2. Terminou é modo de dizer: a partida teve seu final antecipado de forma ridícula, com o rubro-negro deixando o campo 15 minutos antes do fim do jogo, para evitar tragédia maior: uma goleada. A derrota era praticamente inevitável, disso sabíamos antes mesmo de os times entrarem em campo; uma goleada, mesmo faltando apenas um quarto de hora para o apito final, era muito provável.

O time tricolor demonstrou infinita superioridade durante o tempo em que a bola esteve em disputa. A defesa do Moto não existe e nos aproximadamente 75 minutos de bola rolando, três de seus jogadores foram expulsos, o que deixou a superioridade boliviana ainda mais evidente.

A postura da equipe motense foi de um extremo desrespeito para com a torcida rubro-negra, que ao longo dos últimos meses tem carregado o time nas costas. Com rifas, bingos, doações e esmolas é que se têm pagado os salários dos jogadores. Como foi acintosa também a declaração de público pagante – pouco mais de três mil torcedores, segundo a Federação Maranhense de Futebol. Na opinião do comentarista José Raimundo Rodrigues, motense de carteirinha, eram mais de 10 mil e a FMF estava debochando do torcedor maranhense. Houve um bate-boca no ar entre ele e Antonio Américo, presidente da FMF, o outro comentarista.

Há um ar ridículo, aliás, na transmissão futebolística local. Se Zé Raimundo torce descaradamente pelo Moto, mesmo que apontando as muitas falhas do time, onde elas existem, o segundo comentarista é sempre pior: ontem era o presidente da FMF, noutro jogo um deputado e por aí vai; é sempre uma autoridade, mas nunca no assunto. O patrocínio é quase exclusividade do Governo do Maranhão, com quase nada de iniciativa privada. E com o vexame motense de tirar o time de campo antes da hora ontem, a tendência é piorar. O campeonato maranhense entra na sua fase semifinal com o Moto Club na corda bamba para o bastante provável rebaixamento.

Personagem do vexame, Kléber Pereira converteu um pênalti, insuficiente para livrar seu time do ridículo fim
Metáfora – A atitude do time do Moto Club ontem foi ridícula e desrespeitosa. Ponto. Com os próprios motenses que, repita-se, têm carregado o time nas costas. Com os maranhenses que gostam de futebol. E com todos os maranhenses, já que mais um motivo para uma chacota nacional foi dado.

Mas cabe aí uma reflexão: presidido por Sarney Neto, um dos braços da família-polvo no ramo do futebol, o Moto Club foi abandonado à própria sorte. Vivendo de esmolas, os jogadores sem saber se teriam como pagar as contas de água e energia elétrica, o colégio dos filhos, sequer se conseguiriam por arroz e feijão na mesa. O que resta a fazer? Tirar o time de campo!

Vejam se não é o que faria, se pudesse, e faz, quando pode, grande parte do povo maranhense? Quando pega um ônibus com destino ao corte de cana ou à construção civil, em grande parte em condições análogas à de escravo. Eis a metáfora: Sarney Neto é vocês sabem quem, manda de fora, raramente aparece, tem suas vantagens e não está nem aí para a devoção e o sofrimento do torcedor, o Estádio Nhozinho Santos é o Maranhão e o Moto Club é o povo maranhense.

Via Expressa não vai atingir igreja do Vinhais Velho, diz secretário

Max Barros garante que obra não causará dano à Igreja de São Batista, que é tombada

 

Via Expressa não atingirá a igreja. E as pessoas?

 

O secretário de Estado de Infraestrutura, Max Barros, informou ontem que a obra da Via Expressa não acarretará qualquer dano à Igreja de São João Batista, no Vinhais Velho, que é tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual. “Estamos tomando todos os cuidados necessários. Contratamos um escritório de arqueologia, que está acompanhando todos os passos do processo”, declarou.

De acordo com o secretário, a avenida passará a uma distância de 100m da igreja. Além disso, o prédio será beneficiado com um largo que será edificado na área existente em frente ao templo, para uso e diversão da comunidade.

Max Barros informou ainda que apenas oito imóveis estão no traçado da Via Expressa. Destes, dois já estão desocupados e os outros seis estão em processo de negociação com o Governo do Estado.

Obra – Com investimentos de mais de R$ 100 milhões, a Via Expressa é uma das obras construídas pelo governo para marcar a celebração dos 400 anos de São Luís e beneficiará 300 mil habitantes em diversos bairros de São Luís. O projeto prevê a ligação da Avenida Colares Moreira – passando pela Carlos Cunha – à Daniel de La Touche, na altura do Ipase.

A nova avenida terá cerca de 9 km de extensão, passando por mais de 20 bairros. De acordo com estudos da Sinfra, a via deve atrair pelo menos 30% do total de veículos que hoje trafegam pela Jerônimo de Albuquerque, entre os Elevados da Cohama e o do Trabalhador, o que vai contribuir para desafogar o trânsito na área.

Mais – A nova avenida interligará os Bairros Cohafuma, Vinhais e Maranhão Novo, por meio de alças acopladas às vias já existentes, que serão especialmente restauradas para a garantia de melhor fluxo de tráfego.

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Com uma obra e um sutiã a mais aqui e um mais a menos acolá, o texto acima foi publicado, quase sem tirar nem por vírgula, nas edições de hoje (18) dos jornais O Estado do Maranhão (Geral, p. 5) e Pequeno (Cidade, p. 13).

No primeiro, não é de se estranhar, já que trata-se de um veículo de comunicação do Sistema Mirante, de propriedade da família da governadora, quase um “diário oficial” de seu governo (não há Via Expressa que o coloque nos trilhos, nos eixos).

No segundo, dito de oposição à família Sarney (mesmo que isso, às vezes, signifique defender intransigentemente e/ou legitimar a péssima gestão tucana de João Castelo à frente da prefeitura ludovicense), o estranhamento é atenuado por ter se tornado comum, infelizmente, a prática nada saudável do control c control v em releases.

Em sua última página (Polícia, p. 16), o JP anunciou o Almoço da Resistência, ato organizado por moradores do Vinhais Velho, que acontece logo mais ao meio-dia. Ontem, a comunidade recebeu a visita do arcebispo de São Luís Dom José Belisário.

Vinhais Velho organiza Almoço da Resistência

Ato acontece quarta-feira (18), ao meio-dia, buscando novamente chamar a atenção para problemas trazidos pela Via Expressa

DO TRIBUNAL POPULAR DO JUDICIÁRIO

Moradores da comunidade Vinhais Velho realizarão na próxima quarta-feira (18), um “Almoço da Resistência”, para o qual estão sendo convidados profissionais dos meios de comunicação, militantes de organizações de direitos humanos, parlamentares estaduais e federais, além dos moradores da região.

O Vinhais Velho é uma das áreas que serão atingidas com a construção da Via Expressa. Desde o anúncio e a ostensiva propaganda em relação à obra do governo do estado seus moradores vêm se organizando para resistir. Já foram realizados cafés da manhã, reuniões e celebrações ecumênicas.

De acordo com diversos moradores, após a repercussão destes atos de resistência, a única preocupação dos responsáveis pela obra é com a manutenção de uma igreja local, com quase 400 anos de edificada. As indenizações propostas estão bastante aquém do valor de mercado.

O Almoço da Resistência acontecerá ao meio-dia, na Granja do Japonês, localizada na Rua Grande, nº. 90, no Vinhais Velho.

De como Roseana Sarney gosta de preto e de índio

Só assim Roseana Sarney quer saber de preto e índio
Este blogue recebe com alegria a notícia do título de patrimônio cultural imaterial brasileiro dado ao complexo cultural do bumba meu boi, ontem (30), em Brasília/DF (o que já havia acontecido anos antes com o tambor de crioula).

Roseana Sarney não perde a pose e a oportunidade e aproveita para “sambar” com diversos personagens de uma de nossas mais destacadas manifestações culturais, outrora alvo de perseguição policial e da elite branca e endinheirada.

Aí é bonito posar ao lado de preto e de índio, os grandes estorvos ao “desenvolvimento” patrocinado pelos governos estadual e federal. Indígenas, quilombolas e sem-terra estão, mais uma vez, acampados na sede do Incra, em São Luís. A governadora nunca se dignou a pisar por lá, nem em junho nem agora, com as mesmas sandálias que valsam toadas.

Roseana Sarney não é índia, não é Catirina e duvido mesmo que levasse algum prêmio na Dança dos Famosos do Domingão do Faustão, devendo ser reconhecida como dançarina apenas por seus fieis bajuladores de plantão. “Como dança a governadora!”, devem suspirar emocionados ao vê-la arriscar um passo ou outro para posar para a mídia que lhe serve e lhe ajuda a sustentar a pose.

A governadora é, ao contrário, a dona da fazenda, a dona do mar, aquela que nega a língua e outros nacos do boi a índias, índios, Catirinas, Pais Franciscos, quilombolas, sem-terra e maranhenses outros, famintos e sedentos de justiça e paz, no campo e na cidade.