O batalhão de um homem só

Foto: Marla Batalha

 

Já disse aqui e acolá, mas não custa repetir: certos artistas têm uma impressionante capacidade de premonição, o que os torna artistas maiores.

É o caso de Lauande Aires e particularmente de O miolo da estória, da Cia. de Artes Santa Ignorância, reapresentado ontem (10) no Teatro Arthur Azevedo (em cujo palco chegou pela primeira vez), dentro da programação do Gema – Grandes espetáculos do Maranhão, que promove o reencontro do público com destaques da produção teatral local recente. Aliás, estamos em ótima safra.

Sozinho em cena, Lauande encarna um batalhão. João Miolo, seu personagem, é um operário da construção civil, que sonha. Sonhar, aqui, verbo literalmente intransitivo. “Nunca deixe de sonhar” é o seu principal conselho. Os tempos são duros e ele se veste com a roupa da utopia.

João Miolo faz rir, não aquele riso fácil, mas um riso que leva à reflexão, ao criticar a mobilidade urbana enquanto pedala rumo ao serviço. No traçado da massa com a colher de pedreiro, percute, pá e enxada idem. O carro de mão vira carcaça. Tudo nele é bumba meu boi, embora não haja, a rigor, em cena, nada que lembre o folguedo.

João se machuca e faz promessa, como antigamente se originava a maioria dos grupos de bumba meu boi no Maranhão. Mas não soa saudosista. O monólogo critica as relações trabalhistas e mesmo não sendo encenado há cinco anos, soa atual e necessário. É um retrato do trabalhador que sua para pagar as contas e poder se divertir de vez em quando, a cada fim de semana ou temporada junina. É, pelo recorte de um brasileiro, um retrato fiel do Brasil.

Ao fim do espetáculo, Lauande cumprimentou, na plateia, Geovane (vulgo Bomba), miolo, hoje no Bumba meu boi da Madre Deus, que um dia viu subir de joelhos os 47 degraus da Capela de São Pedro, na tradicional homenagem ao santo, num 29 de junho. Tocado por sua devoção e sacrifício, acompanhou-o noutros eventos, colhendo elementos para a pesquisa que resultou nO miolo da estória.

Selecionada em edital da Ancine, a peça vai virar filme, dirigido por Lucian Rosa, com roteiro dele e Lauande Aires. As filmagens devem se iniciar em junho deste ano, em São Luís, conforme também anunciou ontem.

Pequena coleção de emoções

Foto: Rodrigo Oliveira

 

Dirigindo para o trabalho vi hoje uma cena que me botou comovido como o diabo, ave, Paulo Mendes Campos!

Um casal se beijava no canteiro central de uma avenida. Gente humilde que acabara de descer do ônibus, ao menos foi o que imaginei, a caminho do trabalho. Era uma despedida temporária, supus também, como se quisessem que o beijo fosse uma espécie de empréstimo, adiantamento da saudade que sentiriam um do outro enquanto durassem seus expedientes.

Confesso mesmo que senti vontade de parar o carro e contemplar a cena. Não fotografar. Apenas assistir, como um voyeur invulgar. Mas nem ousei por que os motoristas que, apressados como sempre, não perceberam a singularidade daquela cena, logo estariam atrás de mim, buzinando e me amaldiçoando até a quinta geração com os palavrões mais vulgares possíveis.

Adiante, pensei ser hoje meu dia de sorte: enquanto o carro deslizava sobre a ponte do São Francisco e um pequeno engarrafamento se anunciava na avenida Beira-Mar, mirei o céu e vi uma revoada de pássaros que me fez lembrar aqueles patos que migram em bando, sobretudo nos desenhos animados do Pica-Pau. Ou a memória da infância me trai?

Ando tão à flor da pele, Zeca Baleiro, que ontem fui ver uma peça teatral, um musical adolescente baseado em um filme americano que nunca me interessou. Fui ao teatro movido pelo interesse (jornalístico) na cena local, que tem proporcionado ao público interessado uma boa safra de espetáculos, o que pode ser comprovado na programação do Gema, boa sigla de Grandes Espetáculos do Maranhão (confira a programação completa), que começou no final de semana passado com a adaptação “codoense” de O auto da compadecida, da Companhia Gracielle Costa, e segue neste fim de semana com O miolo da história, de Lauande Aires, e adiante com Pai e filho, da Pequena Companhia de Teatro, Chico, eu e Buarque e João do Vale, o gênio improvável, realizações do próprio Teatro Arthur Azevedo.

High School Musical Brasil, parceria da Oficina de Interpretação SLZ com a Troupe Parabolandos (SP), a peça de ontem, é pueril como todo cinema americano que só o poema de Leminski salva: “podem ficar com a realidade/ esse baixo-astral/ em que tudo entra pelo cano/ eu quero viver de verdade/ eu fico com o cinema americano”. No fim das contas é sobre o amor e suas descobertas adolescentes. Segurei as lágrimas uma ou duas vezes. “Homem não chora”, não é, Pablo do Arrocha?

Na saída, pude comentar o espetáculo com os amigos que me acompanhavam, diante de uma cerveja gelada servida na Feira da Tralha. Sempre me ressenti da ausência de botecos nos arredores dos teatros, para que os que quisessem esticar os comentários, a noite, prosear. A Feira da Tralha não é bem um boteco, mas o sebo faz as vezes de. Ontem conversamos ao som de Janis Joplin e Raul Seixas.

A noite foi arrematada – e nós arrebatados – pela sabedoria de Alvaiade, da Velha Guarda da Portela: “o dia se renova todo dia/ eu envelheço cada dia e cada mês/ o mundo passa por mim todos os dias/ enquanto eu passo pelo mundo uma vez”, samba que muito cantarolei ninando José Antonio. “A natureza é perfeita/ não há quem possa duvidar/ a noite é o dia que dorme/ o dia é a noite ao despertar”.