Garrincha do Brasil

Garrincha, a alegria do povo. Cartaz. Reprodução

 

Nada mais simbólico que neste domingo de missa, praia, céu de anil, sangue no jornal e bandeiras e adesivos nas avenidas, o Canal Brasil exibir Garrincha, alegria do povo [documentário, Brasil, 1962, restaurado em 2006; 58 min.], tributo cinematográfico de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) ao anjo das pernas tortas – de carioca para carioca, de craque pra craque, tabela perfeita, um gol de cinema. O filme tem roteiro do diretor com Luiz Carlos Barreto, Armando Nogueira (1927-2010), Mário Carneiro (1930-2007) e David Neves (1938-1994).

Personagem emblemático do futebol brasileiro, Garrincha (Manuel Francisco dos Santos, 1933-1983) é até hoje adorado não só por botafoguenses: seus dribles desconcertantes encantavam até mesmo os adversários – e seguem encantando, em videotapes ou no filme de Andrade. Eis aí um brasileiro capaz de unir o Brasil.

Acervo Cinemateca Brasileira. Reprodução

Eram outros tempos, em que um futebol tinha uma dimensão menos espetacularizada (e monetizada, através da publicidade, sobretudo) e a gente humilde (onde vez por outra surge um Garrincha) tinha condições de frequentar estádios, antes de estes passarem a ser chamados de arenas.

A homenagem de Andrade a Garrincha, prestada ainda em vida, como advogavam Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Guilherme de Brito (1922-2006), acertadamente não se prende a ser uma espécie de “melhores momentos” do craque (o que qualquer produtor de tevê faz na segunda-feira, após a rodada do fim de semana), nem adentra a tragédia do alcoolismo que o vitimou, talvez por ter sido realizado no auge do futebolista, em 1962 – e já que falamos em música, à trilha sonora comparecem as escolas de samba Portela e Império Serrano.

Andrade equilibra a montagem entre o delírio das torcidas e o silêncio das fotografias em preto e branco com que também ilustra seu filme, antológico qual um drible do homenageado, a reação do craque à fama (uma câmera escondida acompanha o ídolo pelas ruas do Rio de Janeiro) e a dimensão humana do personagem: pai de sete filhas, a casa humilde, na Pau Grande natal, decorada quase completamente com temas futebolísticos – retratos, flâmulas –, e o aparelho de som, diante do qual aparece dançando e botando as filhas para dançar, numa coleção que tinha Nat King Cole, sambas e marchinhas, o próprio Garrincha personagem de alguns clássicos da música popular brasileira.

É cinema, mas contém teatro (o espetáculo das jogadas individuais de Garrincha e as vitórias alcançadas pelo Botafogo e pela Seleção Brasileira nas copas de 1958 e 62), dança (não apenas na sala de casa: Garrincha bailava ao deixar adversários – os joões, como ele mesmo se referia a seus marcadores – no chão), pintura (cada fotografia de um drible de Mané merece moldura) e poesia: adaptando Leminski (1944-1989, que posteriormente se referiria a Zico, com essa pergunta), “como explicar um gol de Garrincha?”. Tarefa impossível: quem explica um milagre? Em se tratando de Garrincha, é simplesmente disso que se trata.

Uma história curiosa que comparece à película narrada por Heron Domingues é a de que Garrincha chegou a se empregar na fábrica de tecidos em torno do qual girava a vida em Pau Grande. Conseguia a proeza de dormir em pleno expediente, apesar do barulho ensurdecedor das máquinas. Sua demissão ficava adiada para a próxima segunda-feira e nunca se concretizava, pois no fim de semana ele fazia os gols das vitórias do Sport Club Pau Grande, o time da fábrica, ampliando o respeito dos colegas – e garantindo a sobrevida no emprego.

Criador de passarinhos, entre os bichos de sua “coleção”, havia um mainá, ave reconhecida pela capacidade de aprender algumas palavras, quando em cativeiro. Duas ou três vezes ao longo do filme ouvimos o bichinho de estimação de Garrincha gritar: “Vasco!”.

É vendo Garrincha, alegria do povo que entendemos a resposta de Vinicius de Moraes (1913-1980) a um superior no Itamaraty, quando perguntado se não gostaria de prolongar sua função no estrangeiro: “e você sabe lá o que é um choro de Pixinguinha, o que é torcer pelo Botafogo?”.