Maranhão metáfora Moto Club

Pela TV Difusora assisti ontem ao clássico de maior rivalidade no futebol maranhense, que terminou com a vitória do Sampaio Correia sobre o Moto Club por 3 a 2. Terminou é modo de dizer: a partida teve seu final antecipado de forma ridícula, com o rubro-negro deixando o campo 15 minutos antes do fim do jogo, para evitar tragédia maior: uma goleada. A derrota era praticamente inevitável, disso sabíamos antes mesmo de os times entrarem em campo; uma goleada, mesmo faltando apenas um quarto de hora para o apito final, era muito provável.

O time tricolor demonstrou infinita superioridade durante o tempo em que a bola esteve em disputa. A defesa do Moto não existe e nos aproximadamente 75 minutos de bola rolando, três de seus jogadores foram expulsos, o que deixou a superioridade boliviana ainda mais evidente.

A postura da equipe motense foi de um extremo desrespeito para com a torcida rubro-negra, que ao longo dos últimos meses tem carregado o time nas costas. Com rifas, bingos, doações e esmolas é que se têm pagado os salários dos jogadores. Como foi acintosa também a declaração de público pagante – pouco mais de três mil torcedores, segundo a Federação Maranhense de Futebol. Na opinião do comentarista José Raimundo Rodrigues, motense de carteirinha, eram mais de 10 mil e a FMF estava debochando do torcedor maranhense. Houve um bate-boca no ar entre ele e Antonio Américo, presidente da FMF, o outro comentarista.

Há um ar ridículo, aliás, na transmissão futebolística local. Se Zé Raimundo torce descaradamente pelo Moto, mesmo que apontando as muitas falhas do time, onde elas existem, o segundo comentarista é sempre pior: ontem era o presidente da FMF, noutro jogo um deputado e por aí vai; é sempre uma autoridade, mas nunca no assunto. O patrocínio é quase exclusividade do Governo do Maranhão, com quase nada de iniciativa privada. E com o vexame motense de tirar o time de campo antes da hora ontem, a tendência é piorar. O campeonato maranhense entra na sua fase semifinal com o Moto Club na corda bamba para o bastante provável rebaixamento.

Personagem do vexame, Kléber Pereira converteu um pênalti, insuficiente para livrar seu time do ridículo fim
Metáfora – A atitude do time do Moto Club ontem foi ridícula e desrespeitosa. Ponto. Com os próprios motenses que, repita-se, têm carregado o time nas costas. Com os maranhenses que gostam de futebol. E com todos os maranhenses, já que mais um motivo para uma chacota nacional foi dado.

Mas cabe aí uma reflexão: presidido por Sarney Neto, um dos braços da família-polvo no ramo do futebol, o Moto Club foi abandonado à própria sorte. Vivendo de esmolas, os jogadores sem saber se teriam como pagar as contas de água e energia elétrica, o colégio dos filhos, sequer se conseguiriam por arroz e feijão na mesa. O que resta a fazer? Tirar o time de campo!

Vejam se não é o que faria, se pudesse, e faz, quando pode, grande parte do povo maranhense? Quando pega um ônibus com destino ao corte de cana ou à construção civil, em grande parte em condições análogas à de escravo. Eis a metáfora: Sarney Neto é vocês sabem quem, manda de fora, raramente aparece, tem suas vantagens e não está nem aí para a devoção e o sofrimento do torcedor, o Estádio Nhozinho Santos é o Maranhão e o Moto Club é o povo maranhense.

O anticorintianismo

XICO SÁ

Amigo torcedor, amigo secador, nunca se amou e se odiou tanto o Corinthians como nesta semana. Jamais o anticorintianismo, nem mesmo nas participações do time na Libertadores da América, foi tão extremado.

Tudo conspira contra o time do Parque São Jorge. Vi gente que não se interessa por futebol desde a Copa de 1950 tramando pelos botecos contra o Corinthians. Nunca a colônia portuguesa foi tão gigante e vascaína em todo país.

Mesmo sabendo que as condições históricas e objetivas estão dadas: o título do Nacional dificilmente escapará dos proletários da zona leste de São Paulo. A cidade está partida, e o anticorintianismo faz do corintiano mais fundamentalista.

O palmeirense pede a bola da honradez, estufa o peito e roga: se depender do Palestra os “gambás” conhecerão o mais dantesco dos infernos no próximo domingo.

Toda essa turma do contra faz o corintiano buscar mais passionalidade pelo time, cota de paixão roxa que julgava ser impossível. O corintiano foi buscar no miocárdio batimentos a mais para enfrentar a decisão de domingo. Acima do bem e do mal no seu poleiro metafísico, meu estimado corvo Edgar graceja: “Que vença, e não só nesta semana, o azarão completo”.Não é o caso agora. Não há zebras em jogo, advirto o lazarento. “Que triunfe, então, o inesperado”, diz o bicho, covarde e sem palpite.

Secador de nascença, gestado em um castelo mal-assombrado do amigo Roger Corman, o corvo não tem jeito. É mais um a incorporar o espírito do anticorintianismo que reina em SP agora.

A corrente do agouro está formada. Nunca vi tanto vascaíno desde a chegada das caravelas do heroico português.

A missão do secador, todavia, não é moleza. Além do Gigante da Colina ter que afogar o Flamengo, seu mais temível adversário, o Corinthians tem que perder o arrojo, sua marca no certame, no derradeiro confronto do ano.

A vida de um corintiano sempre esteve mais para o mata-mata, um desafio diário, um dragão por dia sob a espada de Jorge. Este foi o espírito alvinegro na mais punk jornada dos pontos corridos.

Resta agora ao amigo mosqueteiro amaciar o coração para o domingo, mandando uma do Cartola para afastar o agouro do anticorintianismo: “E com raiva para os céus/ Os braços levantei/ Blasfemei/ Hoje todos são contra mim”. Sim, deve haver o perdão, como reza o mesmo samba.

[Vascaíno, reproduzo acá o texto do grande Xico Sá no caderno de esportes da Folha de S. Paulo de hoje. Acesso ao original mediante senha para assinantes]

Existem tragédias maiores que a derrota em copas do mundo e olimpíadas

A Relatoria do Direito Humano à Cidade da Plataforma Dhesca Brasil visitou o Rio de Janeiro em maio passado para investigar os impactos que já causam aos cariocas os dois maiores eventos esportivos de que o Brasil já teve notícia: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, o primeiro sediado em diversas cidades brasileiras, incluindo a capital carioca, cidade-sede do segundo.

Abaixo, quatro vídeos elaborados pela Missão da citada Relatoria nas comunidades de Restinga, Favela do Metrô, Morro da Providência e Vila Recreio 2. Para assistir, se indignar e lembrar quando formos comemorar cada gol brasileiro na primeira competição, cada medalha na segunda. Qual o preço de cada vitória? A derrota de milhares de famílias desde agora? Para quem não tiver paciência de abrir vídeo por vídeo, um playlist com os quatro aqui.

O Santos é o novo campeão

Não à toa um verso do hino do Santos batiza este post. Não sou santista, mas isso não me impediu de vibrar e torcer pelo alvinegro da Vila Belmiro na noite de ontem, quando o time brasileiro derrotou os uruguaios do Peñarol por 2×1, conquistando seu terceiro título na Libertadores da América, o 15º. título brasileiro no certame, desde sua existência, iniciada em 1960 – o negro dourado do Uruguai, aliás, seu maior vencedor. Triste, triste foi a pancadaria que sobrou, comportamento típico do Peñarol, típico de quem não sabe perder. O Santos foi superior na bola, dentro das quatro linhas, e fora delas, ao esquivar-se, na medida do possível – verás que um filho teu não foge à luta – do cenário grotesco de incivilidade generalizada, da parte deles, que serviu apenas para enfeiar o espetáculo que teve direito até mesmo a Pelé correr pelo gramado puxando o técnico Muricy Ramalho pelo braço.

Torci pelo Santos não por ser “o Brasil na Libertadores”. Bobagem! Sorte a nossa: não era o Galvão narrando ou teríamos ouvido essa frase sabe-se lá quantas vezes. Há times pelos quais você não torceria mesmo que ele pusesse o uniforme da seleção e fosse disputar a Copa do Mundo. Torcer pelo Santos é ler poesia escrita com os pés e com a cabeça – e, por que não dizer, com o coração.

Neymar e Ganso, membros da Academia Brasileira de Passes de Letra

Ver Ganso, Neymar, Elano, Arouca e cia. jogando, é ter de volta o prazer do futebol-arte, há tanto tempo esquecido em nome do futebol de resultados – joga-se feio, mas faz-se gol, é o que importa para os burocratas do ludopédio. O Santos mostra que as coisas podem caminhar juntas, que uma não anula a outra, que uma não é oposição a outra.

Depois de um 0x0 na casa do adversário, uma vitória em casa para selar bonito um feito que levou 48 anos para se repetir – o último título santista no torneio sul-americano foi em 1963, quando o Santos sagrou-se bicampeão, algo até então inédito na recém-inaugurada Libertadores, com Pelé ainda jogando.

Não que não dê saudades o Santos de Pelé que nem vi jogar – saudades de um tempo que não vivi e não vi mais que flashes em programas como o Gol – O Grande Momento do Futebol e breves coletâneas montadas em programas outros de esporte. Mas os gritos de gol e de campeão desentalados das gargantas dos santistas espalhados pelo mundo – muitos torcendo pelo Peixe justo por terem visto ou sabido de Pelé jogando – hoje nos permitem falar, em vez de no Santos do Rei do Futebol, no Santos de Neymar, no Santos de Ganso, no Santos de cada um que levou o time ao merecido posto de melhor time das Américas – azar das que não participam da Libertadores.

Torcedores mais otimistas previam, exibindo em faixas ontem no Pacaembu, o tetracampeonato já ano que vem. Eu, que não sou torcedor do Santos, repito, já previa o título do campeonato brasileiro, coroando o Santos definitivamente como a grande equipe brasileira em 2011 – lembremos que este ano o time já foi campeão paulista –, apesar dos tropeços do time no início da disputa nacional, frutos da prioridade dada à Libertadores.

Pena não poder manter o chute: o anúncio da saída de Neymar e a não pouco provável de Ganso parecem ser o início de um desmonte do escrete. O futebol-arte pode voltar a perder este status na Vila Belmiro. Uma pena não só para torcedores do Santos.

Resta-nos torcer pelo núcleo santista que vai à Argentina para a Copa América. Os garotos trocam agora o preto-e-branco pelo amarelo da seleção canarinha. Que venham uruguaios, argentinos, venezuelanos, colombianos, chilenos, peruanos ou quaisquer hermanos e quem mais ousar tirar nossos pés da bola e nossas mãos da taça.

Que venha o futebol de verdade!

Quem me acompanha deste ou de blogues anteriores, sabe que futebol não é lá minha praia. Devo ter jogado umas duas partidas na vida e vi o esporte pela tevê umas tantas vezes – até hoje vejo, embora com menos frequência, principalmente de 1998 para cá, quando a seleção brasileira vergonhosamente perdeu o campeonato mundial para a França, vocês lembram.

O fato é que em minha modestíssima opinião – de quem se mete onde não é chamado – o futebol virou um grande espetáculo publicitário, milionário. E só. E o jornalismo esportivo ao mesmo tempo fábrica e incineradora de ídolos, às vezes falsos. A máquina que move o futebol como um todo me incomoda, chego a ser a favor de teto salarial para os profissionais da bola. É um grande jogo onde poucos ganham milhões e muitos perdem sono, trabalho (a ressaca na manhã seguinte, os ônibus lotados para voltar do estádio para casa) e dinheiro (ingressos, camisas oficiais dos clubes), sustentando o circo todo – que eu quero é ver pegar fogo.

Não sou daqueles que torcem apenas na Copa do Mundo. Ou que torcem contra por ser o futebol o ópio do povo – sabemos que de fato é, como o são novelas e BBBs. Futebol, para mim, é poesia, como já disseram Paulo Leminski e Marcelo Montenegro. “Como querer que um gol tenha razão de ser, além da explosão de alegria da torcida?”, já indagou o primeiro; do segundo, basta ler qualquer texto seu sobre o assunto. Quem lembra do Canal 100 também entende(rá) essa relação – poesia e futebol jogando no mesmo time, basta ler Nelson Rodrigues ou Xico Sá.

Mas deixemos o blá blá blá de lado: quão patética a despedida de Ronaldo. Num Pacaembu lotado, pouco mais de 15 minutos ontem, contra a Romênia – o Brasil venceu por 1×0, com um gol de Fred, no primeiro tempo, antes da entrada do “fenômeno”, combinada para e acontecida aos 30 minutos do primeiro tempo. Como disse, futebol não é minha praia. Então permitam-me uma pergunta, talvez descontextualizada ou já respondida: por que Ronaldo não se despediu contra a Holanda, seleção mais forte que a Romênia, contra a qual o Brasil apenas empatou em 0x0, dias antes?

Galvão Bueno e cia., para maldição dos que, como eu, viram o jogo pela tevê aberta, emocionaram-se mais com o pouco mais de quarto de hora que Ronaldo passou em campo – e depois com sua abobalhada volta olímpica – que com o próprio gol da seleção brasileira.

Não me entendam mal, meus caros: é inegável a contribuição que Ronaldo Nazário de Lima deu ao futebol brasileiro, ao futebol mundial. É um dos maiores jogadores em todos os tempos, é o maior artilheiro da história das copas do mundo. Mas a festa de ontem era dispensável. Ele podia ter dormido sem essa – nós também. Ao vê-lo junto aos filhos num quadradinho com gramado e traves, um campinho de brinquedo, digamos – não ficou no banco de reservas – impossível não lembrar do saudoso Bussunda, que tanto e tão bem o imitou no Casseta & Planeta.

"Bussúndico", Ronaldo despediu-se "oficialmente" ontem dos gramados

Mas o pior já passou. Que venha o futebol de verdade, hoje à noite, com Coritiba e Vasco decidindo a Copa do Brasil. É quando uns dirão, definitivamente, que futebol não é a minha praia: vai, Vascão!

Esse cara é massa!

CELSO BORGES*
ESPECIAL PARA ESTE HUMILDE BLOGUE

Xico Sá (foto) tá em São Luís. E isso não é pouco. É difícil a gente encontrar um profissional do nível dele, que combina bom texto + humanismo + ironia + 1 dose de pinga + Waldick Soriano na vitrola + Dom Quixote no coração. Esse cabra do Crato (CE) é um craque da palavra. Desses raros que a gente anda atrás pra saber o que anda escrevendo. E não é pouco. Em 26 anos de jornalismo espalhou seu estilo muito pessoal prum mundaréu de jornais e revistas e ganhou os prêmios Esso e Abril. Na TV faz parte da equipe do programa Cartão Verde, da TV Cultura/SP, ao lado do ex-jogador Sócrates.

Além disso, tem parcerias musicais com o grupo Mundo Livre S/A, é coautor de roteiros de longa-metragem, fez pontas como ator em Crime delicado e O cheiro do ralo. Mas quem disse que é só isso? Xico é também um grande escritor. Nem vou citar todos os títulos. Eu já li dois e adorei: Chabadabadá e Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente. A mim resta incitá-los a procurar nas casas do ramo. É provável que não se ache aqui em São Luís. Grande novidade. Alô livreiros, pelo amor à literatura, peçam os títulos de Xico Sá!

Nunca é demais repetir: Xico é um craque da palavra. Só que ao invés de vesti-la com paletó e gravata, vai buscar excelência de linguagem na poeira das ruas. Em lugar de cátedras, mesas de bar. Cita do suicida da esquina que acabou de tomar formicida e se matou por amor ao valente e essencial Nietzsche. Sabe que no balde da vida a sabedoria tá num e noutro. Em lugar de Mahler, Magal, ou melhor, Mahler e Magal. É antológica sua apresentação ao lado de Sidney Magal.

Diferente de intelectuais e jornalistas formados (alguns deformados) dos anos 50 e 100 (sim, eles continuam vivos), Xico também bebe com prazer do lixo pop. No seu caldeirão de referências coloca o que seria incabível para os letrados de araque. Sou fã da coluna que ele escreve sobre futebol na Folha de S. Paulo. Depois de À sombra das chuteiras imortais, de Nelson Rodrigues, eu pensei que nada fosse me comover tanto.

Eu encontrei Xico umas três, quatro vezes, duas delas em lançamentos de livro, mas é como se fôssemos velhos conhecidos. Tasco-lhe sempre um abraço enorme, que é uma forma de expressar a alegria por tê-lo perto dividindo espantos. Dessa vez não será diferente. Pena que não vai dar tempo de levar esse cara pruma rodada dupla do campeonato maranhense no Nhozinho Santos. Logo ele torcedor do Ibis (PE) e do Santos (SP), amante e devoto de peladas homéricas. Salve, irmão! Seja bem-vindo!

*Celso Borges é jornalista e poeta. Seus títulos mais recentes são Belle epoque (2010), Música (2006) e XXI (2000).