Agora é pra valer!

[release]

TEMPORADA CELEBRA 60 ANOS DE JOÃOZINHO RIBEIRO*

Compositor realizará shows bimestrais até o fim de 2015. Apresentações serão seguidas de sessões de autógrafos do disco Milhões de Uns – Vol. 1. Estreia acontece neste sábado (11), no Bar do Léo

Divulgação
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Milhões de Uns – Vol. 1 apresenta uma significativa, embora pequena, parte da obra musical do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que completa 60 anos de idade neste recém-iniciado abril. É o primeiro registro lançado com o autor interpretando sua obra, coalhado de participações especiais, gravado ao vivo em duas memoráveis noites no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012 – a exceção é a gravação em estúdio de Elba Ramalho para Asas da paixão (Joãozinho Ribeiro).

Milhões de Uns - Vol. 1. Capa. Reprodução
Milhões de Uns – Vol. 1. Capa. Reprodução

É que Milhões de Uns não é apenas o título de uma das mais conhecidas músicas do artista, vencedora do Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos, na magistral interpretação de Célia Maria. A música que batiza o disco de estreia é a mais perfeita tradução do que são a vida e obra do bacharel em Direito, funcionário público e professor universitário nascido João Batista Ribeiro Filho.

A constelação presente ao disco reflete sua importância para a música produzida no Maranhão ao longo dos últimos mais de 30 anos. Ali estão nomes como o Coral São João (a faixa-título), Milla Camões (Coisa de Deus), Célia Maria (Saiba, rapaz), Zeca Baleiro (Palavra e Erva santa), Chico César (Anonimato e Erva santa), Alê Muniz (Planos urbanos), Lena Machado (Rua Grande), Chico Saldanha (Matraca matreira) e Elba Ramalho, a interpretar sambas, choros, blues, reggaes, forrós e marchinhas, o que demonstra a versatilidade de Joãozinho Ribeiro.

Variedade refletida também no leque de parceiros: Betto Pereira (Coisa de Deus), Alê Muniz (Planos urbanos), Chico César (Anonimato), Marco Cruz (Tá chegando a hora) e Zezé Alves (Rua Grande).

O autor e seus convidados são escudados pela banda Milhões de Uns, outra constelação de craques à parte: Arlindo Carvalho (percussão), Danilo Costa (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Klayjane (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra semiacústica e viola caipira), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo) e Wanderson Silva (percussão).

Se médicos chegaram a desenganar o moleque João aos nove anos de idade, apostando-lhe cinco anos de sobrevida, o menino cresceu, tornou-se Joãozinho Ribeiro e teima em viver e fazer arte, desde um Festival Universitário de Música na UFMA, em 1979. Com seu otimismo quase insuportável, como gracejou Zeca Baleiro durante a gravação do disco, um de seus bordões é “eu não morro nem que me matem”, frase de quem teima em lutar pelas coisas que acredita, como diz outra conhecida canção sua.

Para festejar os seis ponto zero, Joãozinho Ribeiro, sempre acompanhado de convidados especiais, inicia neste sábado (11), às 21h, no Bar do Léo, uma temporada que circulará alguns bares e outros logradouros ludovicenses. A ideia é realizar, a partir deste início de março, shows bimestrais até o fim do ano – a empreitada tem apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func).

Para a estreia estão escalados Célia Maria e Chico Saldanha. Os shows terão um formato intimista. As apresentações têm entrada franca. Milhões de Uns – Vol. 1 pode ser adquirido na ocasião, no local, e ainda nos seguintes pontos de venda espalhados pela Ilha: Livraria Poeme-se (Praia Grande), Banca do Dácio (Praia Grande), Rodrigo Cds Maranhenses (Praia Grande), Banca do Valdir (Renascença I), Papos & Sapatos (Lagoa da Jansen), Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim), Banca do Mundo de Coisas (Renascença II) e Play Som (Tropical Shopping).

Serviço

O quê: show Milhões de Uns. Lançamento do cd homônimo.
Quem: Joãozinho Ribeiro e banda. Participações especiais: Célia Maria e Chico Saldanha.
Quando: dia 11 de abril (sábado), às 21h.
Onde: Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais).
Quanto: entrada franca.
Apoio: Fundação Municipal de Cultura (Func).

*Este texto é uma versão atualizada de um release postado anteriormente.

Secma exclui sumariamente artistas do carnaval

Artistas foram comunicados via ofício enviado por e-mail. Detalhe: nenhum deles havia requerido inscrição para participar da programação e inexiste edital ou chamada pública para tal

Datado de 26 de fevereiro de 2015 (sic) e subscrito pela Coordenação Geral do Carnaval 2015 o ofício circular nº. 005/2015-GS-SECMA, tem o seguinte teor:

Estamos iniciando uma nova gestão e, com ela, estamos organizando a estrutura de eventos da Secretaria de Cultura, pautada na justiça social, na democracia cultural e na organização dos recursos disponibilizados pelo campo cultural. Deste modo, tivemos que fazer uma série de adequações no projeto Carnaval 2015 para torná-lo mais popular e mais próximo ao orçamento deste ano que foi cortado em mais de 30 por cento. Por isso, embora reconhecendo o seu trabalho na área da música popular maranhense teremos que dispensar a sua participação na programação deste ano.

Entretanto, logo após o carnaval, é nosso interesse realizar um seminário temático para discutir uma política pública voltada especificamente para este setor que é uma das prioridades da SECMA. Espero que o senhor/senhora compreenda o momento e participe do seminário que resultará em um evento a ser realizado ainda este semestre pela SECMA.

O texto foi enviado por e-mail a diversos artistas e a lista de destinatários a que o blogue teve acesso não fazia distinção entre eleitores do governador Flávio Dino (PCdoB) ou de Lobão Filho (PMDB), o segundo mais votado no pleito de outubro passado.

Tendo em vista a inexistência de um edital, chamada pública ou algo que o valha, o documento, no fim das contas, impede qualquer tentativa de participação dos artistas que porventura estejam na citada lista. Mais arbitrário, impossível.

O cantor e compositor Nosly afirma: “Não tomamos conhecimento de nenhum edital e mesmo formalizar [uma solicitação de inclusão na programação] através de ofício não nos dá nenhuma garantia de participação no Carnaval ou no São João. Os critérios de escolha ninguém sabe .É vergonhoso um artista com mais de 25 anos de carreira ter sempre que mostrar que existe”. Indagado se a medida havia soado autoritária ele declarou: “não se pode cobrar autoritarismo sobre algo que nunca foi realmente democrático”.

A notícia foi recebida com tranquilidade pelo cantor e compositor Chico Saldanha: “Já havia decidido, desde o ano passado, não mais participar do carnaval no esquema como era realizado. Primeiro porque parecia um mero favor a escalação dos artistas para as apresentações. Depois a precariedade das condições estruturais da Jardineira, onde trabalhei, o que exigia verdadeiros malabarismos para o cantor se posicionar em 30 cm quadrados sem poder tirar o pé do lugar, durante duas horas, sem contar com três instrumentos de sopro, bateria, percussão etc., etc. a um metro do seu ouvido  e um calor infernal de um gerador em suas costas. A idade não mais me permite tais artes”, declarou.

Pelas redes sociais, houve quem se lamentasse, sentindo-se “traído”, justamente por isso. Caso do cantor e compositor Luis Carlos Dias, que expressou seu descontentamento em seu perfil em uma rede social: “eu ajudei a eleger pessoas para me perseguir também (…), estou decepcionado”, afirmou, após lembrar seu apoio às candidaturas de Flávio Dino (2008) e Edivaldo Holanda Junior (2012) a prefeito de São Luís, e do primeiro a governador do Maranhão (2014).

Não devem ser o voto ou a participação em uma campanha eleitoral os elementos definidores de inclusão ou exclusão de uma programação – seja ela de Carnaval, São João ou qualquer outra. A questão, no entanto, é: que critérios foram utilizados para a escolha dos nomes que comporão a programação carnavalesca promovida pelo governo do Estado do Maranhão? Ou – no fim das contas, dá no mesmo – de quem foi “eliminado” por antecipação, numa espécie de WO cultural.

O discurso da “mudança” deu o tom da campanha do então candidato Flávio Dino, que chega ao poder repetindo, neste aspecto, o modus operandi roseanista. Insistimos: por que não realizar um edital ou chamada pública em vez de escolher determinados artistas a seu bel-prazer? “Esse que seria o governo da renovação, não renova”, criticou o cantor e compositor Carlos Berg.

O presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís Marlon Botão, em entrevista ao jornal O Imparcial de domingo (25/1), afirma o reforço da cervejaria Ambev, com o aporte de R$ 1,3 milhão, via Lei Estadual de Incentivo à Cultura. O recurso soma-se aos R$ 3 milhões destinados à folia pela Prefeitura de São Luís. A esfera estadual preferiu a cômoda posição de contentar-se com o anunciado corte de 30% e a consequente dispensa de artistas da programação – em vez de opções como a diminuição da festa, do número de apresentações e/ou até mesmo do valor dos cachês.

Na mesma entrevista Marlon Botão vai além e diz que “acabou essa história de dizer é carnaval de São Luís, carnaval do Governo do Estado. Não. É carnaval do Maranhão. Hoje a parceria está efetivada entre o Governo do Estado e a Prefeitura de São Luís”. O gesto do governo do Estado aponta uma desarmonia entre o discurso e a prática.

O cantor e compositor Tutuca, produtor do Lençóis Jazz e Blues Festival, pode dizer estar acostumado a vetos a seu nome: quando Bulcão assumiu a Secma, após Roseana tomar o poder de Jackson Lago via golpe judiciário, em abril de 2009, assim o secretário se referiu ao artista, em entrevista a um blogue do Sistema Mirante: “o Tutuca na minha gestão não vai levar nada”. Eleitor declarado de Flávio Dino, Tutuca foi novamente cortado em 2015. Ao blogue ele declarou-se surpreso e frustrado com o e-mail/ofício. Indaguei-lhe se compareceria ao evento pós-carnaval, citado no documento. “Acho ridícula essa proposta de mais um seminário. Pra quê? Temos um plano de cultura para 10 anos, do qual inclusive a atual secretária foi relatora. Não vou participar”, declarou, enfático. Para o músico, o problema, no entanto, não está em Ester Marques: “O problema é que o Governo usou uma Secretaria tão importante como barganha política com um bloco evangélico, que não tem nenhum interesse em cultura. Pra mim esse foi o grande erro. Você pode colocar na Secma hoje até o Juca Ferreira [ministro da Cultura]: se for mandado pela Elisiane [Gama (PPS), deputada federal, responsável pela indicação de Ester Marques para a Secma – em nota o partido já se desresponsabilizou pelas ações da gestora], vai dar nisso mesmo que estamos vendo”, disparou.

O sambista Adão Camilo concorda com Tutuca, em relação à proposta de seminário: “esse lance de seminário, palestras, bate-papo, são coisas que dificilmente levam a algum lugar. Vejo muitos discursos cheios de boa vontade, cheio de fórmula mágica para o sucesso, no entanto, a prática é totalmente diferente”. Artistas excluídos da programação via ofício, como ele e Coqueiro da Ilha, apontam Ester Marques como uma escolha acertada para a Secma, o que demonstra que a discussão não está sendo tratada unicamente pelo viés da política partidária. Chico Saldanha revela não levar muito em consideração de onde parte a indicação. “Indicações fazem parte da prática política. Se derem os instrumentos políticos necessários à secretária e ela escolher pessoas que tenham compromissos com a cultura, pode perfeitamente fazer uma boa administração”, acredita.

Do episódio e sua repercussão, uma coisa é evidente: a urgente necessidade de mudanças no modelo de financiamento público à cultura popular. O atual, insustentável, é herança do mandonismo da ex-governadora Roseana Sarney, que a partir de 1995 incrementou as verbas culturais, sobretudo em anos eleitorais, tornando-se a “dona” do carnaval – e dos festejos juninos – da capital, desresponsabilizando quase completamente a gestão municipal e a iniciativa privada, na contramão de cidades-modelo quando o assunto é folia, casos de Recife e Salvador, para ficarmos em poucos exemplos.

Procurada pelo blogue, a secretária Ester Marques não se manifestou até o fechamento desta matéria.

*

Emenda: a Secma anunciou que dialogará hoje (3) com os artistas excluídos.

Grande atraso em pagamento de cachê revolta violonista

Turíbio Santos tocou em São Luís em setembro do ano passado, por ocasião das comemorações de aniversário da cidade

Durante as comemorações de 401 anos de São Luís vi dois belíssimos concertos na Praça Maria Aragão: o da pianista Eudóxia de Barros e o dos violonistas João Pedro Borges e Turíbio Santos, maranhenses que se configuram em dois dos maiores nomes do instrumento não apenas no Brasil.

As apresentações aconteceram 7 de setembro de 2013, ocasião em que cometi a fotosca que ilustra este post. O prefeito Edvaldo Holanda Jr. esteve na plateia. Seis meses depois o internacionalmente reconhecido Turíbio Santos ainda não recebeu o cachê devido. O músico afirma ter trocado outros compromissos por uma visita à Ilha, para rever os amigos e outra vez tocar na cidade em que tudo começou. A equipe da Chorografia do Maranhão, os irmãos Almeida Santos, Ricarte e Rivanio, e este que vos perturba, aproveitou a ocasião e entrevistou-o para a série, na casa de João Pedro Borges, em que ele se hospedou.

O atraso no pagamento é “a maior falta de respeito que já fizeram comigo em 50 anos de profissão”, afirma Turíbio Santos em e-mail enviado ao blogue. “No aniversário de São Luís e no ano em que comemoro 70 anos o desgosto só faz se multiplicar”, continua.

Também por e-mail, João Pedro Borges, o Sinhô, que dividiu discos importantes com Turíbio Santos, declarou-se “completamente indignado diante desta negligência inaceitável com este artista maranhense, dos principais do Brasil e do mundo, de quem tenho a sorte de ser discípulo e amigo”.

Procurada pelo blogue a Fundação Municipal de Cultura (Func) informou que o pagamento será autorizado hoje (16) para a Fundação Sousândrade, e que a dívida com Turíbio Santos será quitada na próxima semana.

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Update (às 12h24min de 17/4/2014):

Fundação Municipal de Cultura – Comunicado
 
A Fundação Municipal de Cultura (Func), órgão vinculado à Prefeitura de São Luís, comunica a todos que, até o dia 23 de abril, todos os artistas que prestaram serviços para o evento Aniversário da Cidade, em setembro de 2013, terão o pagamento efetuado por meio da Fundação Sousândrade.

Avisamos ainda que o repasse do pagamento foi autorizado no dia 15 de abril, após a sinalização da Secretaria Municipal da Fazenda (SEMFAZ), e que cada artista será notificado pessoalmente sobre a confirmação do pagamento.

São Luís, 17 de abril de 2014.

Quem disse que carnaval não tem nada a ver com direitos humanos?

IV Baile do Parangolé festeja 34 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH). A festa, gratuita, acontece sábado (9), no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga)

Fundada em 12 de fevereiro de 1979, em meio às lutas contra a ditadura militar então vigente no país e pela anistia, a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) completa 34 anos na próxima terça-feira de carnaval.

Uma coincidência que não se encerra no calendário. O carnaval é, por excelência, a festa da fantasia. Temporada de puro êxtase em que as pessoas se desligam do mundo real, se esquecem dos problemas cotidianos e caem na folia, “pra tudo se acabar na quarta-feira”, como determinaria o poeta.

Esta fantasia já foi cantada em verso e prosa e poupo os poucos mas fieis leitores de outros exemplos. A luta por direitos humanos é constante e não conhece folga ou férias. Carnaval é cultura e cultura é direito humano fundamental, devendo assim ser entendido e garantido, sem restringir-se apenas à festa e sem dissociar-se de outros direitos.

Batizado pelo coco de Cesar Teixeira, sócio da SMDH e seu ex-assessor de comunicação, o Baile do Parangolé, hoje já cravado nos calendários cultural e carnavalesco de nossa ilha capital, tem sido um espaço/momento de celebração e reencontros entre militantes de direitos humanos, amigos e familiares. Embora nunca tenha se fechado, este ano abre-se ainda mais, já que não haverá venda de camisas e/ou cobrança de ingressos, graças ao apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e do Porto da Gabi.

O autor do Parangolé é homenageado no traço de Djalma Lúcio, que, especialmente para a ocasião, desenhou o jornalista e compositor, autor de vasto repertório carnavalesco – sambas, frevos, marchas e outros gêneros do período, algumas de suas músicas certamente comparecendo ao vesperal.

O baile terá como atrações Chico Nô e a Turma do Vandico e certamente contará com canjas de artistas militantes que se revezarão entre plateia e palco. A escolha do band leader não se dá ao acaso: é também uma forma de reconhecer seu compromisso com as lutas dos movimentos sociais maranhenses.

Isso tudo é só pra convidar vocês pra festa!

Carnaval de passarela: uma decisão que pode apontar novos rumos para a Cultura de São Luís

A certamente difícil decisão de não realizar o carnaval de passarela em São Luís é a primeira prova de fogo do presidente da Fundação Municipal de Cultura (Func) Chico Gonçalves e sua equipe. O órgão publicou hoje uma nota comunicando-a.

As opiniões certamente se dividirão, uns poucos apoiando a decisão, outros, a grande maioria, acreditamos, contrários a ela.

A Func não tomou a decisão sozinha: antes, as associações de blocos e união de escolas de samba resolveram que seus grupos filiados não participarão do desfile após o anúncio do não pagamento de cachês pelo poder público municipal, diante da terra arrasada deixada pela gestão de João Castelo (PSDB).

Ainda que não propositalmente, a suspensão do carnaval de passarela pode ser o primeiro passo para que se rediscuta o modelo de financiamento das manifestações culturais destas plagas, não só no carnaval, desejo expresso na nota hodierna.

Alguns exemplos e questionamentos. As cervejarias estão entre as empresas que mais lucram com a festa de momo, inclusive com bastante participação deste blogueiro, mas investem pouco ou quase nada. Que escola de samba ou bloco carnavalesco, em qualquer grupo e/ou categoria, tem se preocupado com a sustentabilidade para além dos cachês recebidos anualmente no período? O fomento à cultura é dever do Estado, mas deve ser promovido de acordo com os princípios da administração pública.

O fato é que há muito, grupos políticos têm se apropriado de manifestações culturais, inclusive inventando-as, em prol da legitimação deste ou daquele político, quando esta avaliação cabe às urnas, de preferência sem a maquiagem de “amigo da cultura (popular)” que tão bem lhes cai nas caras de pau (esta não é uma metáfora para as máscaras comumente usadas pelos fofões em nosso carnaval).

Seria precipitado dizer que a não realização do carnaval de passarela é uma decisão acertada ou um engano. Ela é fruto da atual conjuntura e certamente pega a todos de surpresa: gestores públicos, agremiações carnavalescas e principalmente a população. O cancelamento da passarela em cima da hora mostra também que aquele pedaço do carnaval é feito no improviso, a grande maioria dos grupos esperando pingar o troco do poder público para adquirir fantasias e preparar os carros alegóricos, alguns ficando prontos apenas na concentração. Vejamos quantos blocos e escolas de samba realizarão desfiles, bailes, festas em suas próprias comunidades, frutos dos esforços de seus dirigentes, brincantes e simpatizantes.

A decisão pode parecer radical, mas havia a possibilidade real de, mesmo com cachês garantidos, blocos e escolas não irem à avenida, ao menos alguns: com vistas à reeleição, o ex-prefeito João Castelo inflacionou cachês de agremiações em 2012. O resultado nocivo percebemos agora. Superá-lo pode deflagar outra política cultural.

Onde o reggae é a lei

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da música negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de primeiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dançarinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o esquema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os supergraves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas subiam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – os homens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tambor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar referência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Carles Solís fotografou o casal dançando agarradinho da capa

Trecho de Onde o reggae era a lei, prefácio que Otávio Rodrigues, não por acaso apelidado Doctor Reggae, escreveu para Onde o reggae é a lei (cuja capa acima este blogue dá em primeiríssima mão), livro que a Karla Freire lança ainda este ano pela Edufma, com produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, do marido Bruno Azevêdo, que ano que vem lança Em ritmo de seresta: narrativas e espaços sociais da música brega e choperias em São Luís do Maranhão (este o título acadêmico, que deve mudar, para efeitos editoriais). Ambos os livros são frutos de suas dissertações de mestrado em Ciências Sociais (UFMA).

Não tenho culpa se deixo aqui os poucos mas fieis leitores deste blogue com água na boca (o livro tá mais perto do que longe, eu esperei mais, com ansiedade e aflição maiores, podem acreditar!).

O livro de Karla Freire venceu há algum tempo alguma categoria do Concurso Artístico e Literário Cidade de São Luís, promovido anualmente pela Fundação Municipal de Cultura (Func). Demorou a sair por que seu editor (e marido) não queria engessar os livros como em geral acontece em edições “oficiais”. A espera valeu a pena: fora o texto da autora, há um tratamento caprichadíssimo para quase 70 páginas de fotos, muitas delas de antigos reggaes de São Luís, fruto de uma pesquisa posterior à defesa do trabalho em banca acadêmica.

Em breve este blogue avisa do reggae de lançamento, pra gente curtir umas pedras e as letras da mãe da Isabel.

Curso grátis de Direção de Arte para Cinema será oferecido na São Luís

Estão abertas até o próximo dia 14 inscrições para o curso Direção de Arte para Cinema, que acontecerá de 24 a 28 de setembro, das 14h às 18h, na Faculdade São Luís.

As inscrições serão avaliadas por uma comissão formada por representantes da faculdade, da Fundação Municipal de Cultura e do Museu da Memória Audiovisual do Maranhão. O resultado será divulgado 18 de setembro.

O curso será ministrado pela professora Vera Hamburguer e é um oferecimento do Centro Audiovisual Norte-Nordeste (Canne), numa parceria com Fundação Joaquim Nabuco/MEC, Secretaria do Audiovisual/MinC, com apoio da Faculdade São Luís, através do Curso de Comunicação Social e Cineclube, Func, Fundação Nagib Haickel e Mavam.

As inscrições e o curso são gratuitos e os interessados em participar devem preencher a ficha de inscrição e enviá-la para o e-mail cursoscanne.ma@gmail.com