Para reconhecer nossa identidade

A fotógrafa Marcela Bonfim revela outra Amazônia em 33 imagens impressas em madeira. Abertura da exposição acontece hoje (22), na Galeria de Artes do Sesc Deodoro

A fotógrafa Marcela Bonfim conversou com Homem de vícios antigos durante a montagem da exposição. Retrato: Zema Ribeiro

Marcela Bonfim formou-se em Economia na PUC-SP em 2008. Vivia numa bolha, como ela mesma conta a Homem de vícios antigos, em entrevista concedida durante a montagem de sua exposição, (Re)conhecendo a Amazônia negra: povos, costumes e influências negras na floresta, cuja vernissage acontece hoje, às 18h30, na Galeria de Artes do Sesc Deodoro (Praça Deodoro, Centro). Na ocasião haverá apresentação da performance Corporeira, de Ana Regina Arcanjo, com participação de Shamach Pacheco.

“Eu acreditava na meritocracia, eu achava, por estar naquele lugar [a PUC-SP], aquele lugar é uma redoma, você se sente aceito. Nessa saída pro mercado de trabalho meu castelo começou a ruir, os conceitos que eu tinha. Eu nem abordava minha negritude, era uma questão muito delicada para mim”, lembra. “Eu cheguei a participar de um debate com o [hoje vereador em São Paulo Eduardo] Suplicy, ele a favor das cotas e eu contra. Ali podia ter surgido um novo [o também vereador Fernando] Holiday, olha o perigo!”, confessa, arrependida.

Após formada, Marcela ficou durante um ano procurando trabalho e esbarrando no racismo. “Você se inscreve pela internet; quando chega, tem um grupo de pessoas e quem vai contratar fica falando apenas para algumas, não adianta você mudar de lugar. As pessoas diziam que eu era uma pessoa capaz, mas eu fui descobrir isso quando eu fui para Rondônia: uma amiga percebeu que eu já não me sustentava em São Paulo, não tinha emprego, não conseguia nada, e ela falou: “meu pai tem passagem de ida e volta; você vai; se gostar, fica, se não gostar, beleza!”. E eu fui, em 2010. Chegando lá enfrentei uma terra que eu nunca imaginei visitar. Rondônia não existia no meu imaginário. Chegando lá enfrentei o que todo mundo enfrenta, o fluxo migratório, era uma nova coisa. Eu não esperava que a fotografia fosse surgir. Eu comprei uma câmera fotográfica por que eu comecei a perceber que tinha muitos negros e a questão mais central dessa história é que eu andava nas ruas e as pessoas perguntavam se eu era barbadiana. E eu perguntei: o que é barbadiana? E começaram a perguntar se eu era Johnson, e a perguntar por vários sobrenomes em inglês, quando me disseram que eram as famílias negras tradicionais de Rondônia. Na hora eu entrei em parafuso: família tradicional não combina, nesse esteio social, com negro. Isso começou a me trazer uma autoestima, até eu conhecer um barbadiano de verdade. Foi um choque. Os barbadianos são os negros do Caribe”, ela relembra sua ida a Rondônia, onde acabou fixando residência à beira do Rio Madeira.

Algumas imagens da exposição. Fotos: Marcela Bonfim. Reprodução

Em 33 fotografias, Marcela Bonfim registra diversas diásporas, migrações internas e externas, a fotografia funcionando também como um espelho para a paulista de Jaú. A exposição fica em cartaz até 18 de junho e integra a programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes.

“Na verdade, houve uma diáspora muito grande, não só de Barbados, como de Granado, várias ilhas, lá por 1909, 1910, eles começaram a chegar à Amazônia. Uns ficaram no Pará, outros no Amazonas, e um grande contingente em Rondônia. Esse grande contingente foi aproveitado pela [estrada de ferro] Madeira Mamoré. Isso são teses: uns dizem que foram para trabalhar na Madeira Mamoré, outros dizem que já era uma diáspora e quando esses negros chegam, de colonização inglesa, eles já chegam engenheiros, professores, telégrafos, na época era uma profissão necessária para aquele empreendimento. Segundo as pessoas dizem, pode ser a primeira mão de obra assalariada negra, com dignidade, os barbadianos. Antes de eu conhecer um barbadiano, uma amiga minha, artista plástica, me pintou uma barbadiana. O mais interessante é que é um pescoço gigante, o que você percebe a princípio é o pescoço. Eles têm um senso de pertencimento muito grande em relação à história deles. Eles mesmos se diferenciam por ter a forma de colonização inglesa e a nossa que foi a portuguesa. Isso me trouxe uma coisa aos olhos que nunca tinha trazido: esse aspecto de beleza. Pela primeira vez eu acho que achei um negro bonito. Eu comecei a me sentir, poxa, se estão me chamando de barbadiana, isso me trouxe uma autoestima muito grande, e também me trouxe uma dignidade. A partir desse momento eles me levaram para a casa deles, da família Johnson, eu pude participar da família. E quando eu entrava, eu me sentia diferente do que eu me sentia em São Paulo. Eu me sentia um pouco reduzida na PUC, me protegia”, comenta sobre ressignificar sua própria negritude.

“Quando eu comecei a andar na cidade, conheci o primeiro barbadiano, senti a autoestima elevada, comecei a sentir o trânsito de muitos negros: esse aqui é maranhense, a família é do Maranhão, paraense, eu comecei a olhar as configurações da imagem dessas pessoas, e junto com tudo isso me trouxe uma necessidade de conhecer a própria história de Rondônia: o fluxo da seringa, da Madeira Mamoré, os ciclos econômicos, o garimpo, a hidrelétrica”, comenta o processo de aproximação com aqueles que retrata.

Homens e mulheres, velhos e crianças em sua vida cotidiana: os vincos do tempo no close de um rosto, sorrisos, pés que caminham, mãos que preparam uma farofa de tartaruga. As fotografias de (Re)conhecendo a Amazônia negra são impressas em madeira.

Marcela continua: “Uma questão que ficou na minha cabeça: o que você quer fazer com isso? Transformar isso num produto? Isso me trouxe uma relação: onde é que eu posso expor essas pessoas? A gente está numa terra onde a madeira é fundamental e, além disso, onde ela diariamente é consumida de forma predatória. Isso é muito parecido com nosso próprio corpo dentro da Amazônia. É muita gente, em Guaporé [rio que deu nome ao extinto território, hoje Rondônia], é incrível, o número de maranhenses, o Maranhão também está lá. Eu conheci o Maranhão em Rondônia. Era outra terra que eu não tinha acesso. Quando a gente está em São Paulo a gente pensa no Rio de Janeiro, até Minas, ou mais pra baixo. Só! Eu ralei quando eu comecei a me colocar na parede”.

A ideia de imprimir em madeira veio da fala de uma de suas personagens. “Tinha uma cidade chamada Barbadian Town, onde os barbadianos se aglomeraram, a população local começou a hostilizar: bonito era um francês falando francês, um negro falando inglês era bastante desafiador na época. Uma pessoa que eu estava querendo fotografar, o pai dizia que era barbadiano, mas não era. Era um status dos negros, ser barbadiano naquela época. A mãe era branca. A primeira pergunta que eu faço para a pessoa que eu estou interessada em fotografar é como ela se reconhece. É essa pergunta que o Brasil tem que começar a se fazer. Ela disse: “ô, minha filha, eu sou negra [imita seu gesto, batendo a palma da mão direita no braço esquerdo], isso aqui é madeira de bater em doido! São 300 anos e nós ainda estamos aqui, plantados e de pé”. Começou a me dar essa onda: vou botar isso na madeira. Estou aprendendo esse processo de expor essa montagem agora. Essa aqui é a 16ª. abertura. Nós já caminhamos por 10 estados. A escolha tem esse significado, perto da minha realidade”, revela.

Para Marcela, “não tem como pedir desenvolvimento de um país, não tem como pedir prosperidade, não tem como pedir “chega de violência!” se a gente não reconhecer nossa identidade e ela é muito negra e muito indígena. É um processo de militância, eu me sinto uma militante”, se identifica.

Ela continua, situando o lugar do negro ao longo do tempo, a resistência e as lutas pela superação do racismo: “é um processo de invisibilização. O meu corpo é invisível. A sociedade só me enxerga nas situações em que eu esteja vulnerável, para me apontar, me culpar. O negro no Brasil nasce negro e embranquece para ser aceito. Hoje faz três anos que a mostra está circulando. A população negra brasileira, em sua maioria, vai embranquecendo, é uma questão de necessidade. Antigamente, na colônia, quando eles alforriavam o negro, praticamente eles assinavam um termo de negação de cor. Você via o uso de pó de arroz, hoje não se usa mais, mas nosso comportamento é como se fosse um pó de arroz na cara. Isso é uma coisa natural no Brasil, a criança nasce no Brasil com 300 anos, nasce num corpo destruído, praticamente se anula, se invisibiliza, passa a ter comportamentos que não são seus. A cultura do capitão do mato está enraizada na sociedade brasileira como um todo, não é uma questão do negro, como uma vez um certo candidato proferiu, até o Holiday. A história do capitão do mato é uma cultura brasileira, do oprimido oprimir o próprio oprimido. Isso é um movimento muito complicado. A gente chegou onde chegou por que esse processo ainda existe, está enraizado, esse momento é a oportunidade de a gente olhar para isso”.

Rondônia segue sendo um aprendizado para Marcela Bonfim. “Nós estamos falando de uma terra onde nasceu Teresa de Benguela. Aliás, ela foi deslocada. Ela é como se fosse um Zumbi, mas mulher. A história de Teresa de Benguela aconteceu em Rondônia. Para você ver como não era qualquer negro que eles traziam. Ela organizou um quilombo com regime de parlamento, organizou a questão da produção, tinha tudo muito organizado, é uma figura que poderia estar nos livros, poderia estar me ajudando a me sentir melhor na minha própria pele. A gente não tem referência, acaba ignorando nossa própria história. Aí vêm falar que negro é racista? Não existe: ele pode ser ignorante. Ele foi condicionado a essa ignorância”, ensina.

“Ocupar o lugar de economista, ocupar esse outro lado, o lado de trás da fotografia, me ajuda a dignificar meus pares. Se você for olhar a fotografia de 500 anos atrás no Brasil e a de hoje é praticamente a mesma. A própria história da violência dos nossos corpos foi chancelada por esse processo fotográfico. Ninguém sabia que Machado de Assis era negro. A história do capitalismo é a própria história da fotografia, de botar o negro num lugar bem longe desse lugar de protagonista. Nossos corpos sempre estiveram expostos da maneira que a branquitude quis: na favela, morto. As condições de exposição do negro continuam sendo as mesmas. É um corpo jogado para quem quiser ver, mas nas piores condições. Estou falando com meus pares, me reconheço nisso. Por mais que existam histórias tristes, vou dar dignidade. É onde me encontro comigo todo dia”, finaliza.

Cliques firmes e posição clara

“Começa matando a guavira e depois pra continuar desenvolvendo tem que matar o próprio índio. E mata mesmo”. Foto: Pablo Albarenga
Enterro do agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, 23 anos, Reserva Te’ykue, município de Caarapó. Foto: Ana Mendes
Indígenas Guarani Kaiowá realizam vigília em frente ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília, durante um protesto contra o Marco Temporal, uma interpretação da Constituição que busca modificar as regras para a demarcação de terras indígenas no Brasil. Foto: Ana Mendes
Indígenas Guaraní Kaiowá. Foto: Pablo Albarenga

 

Não se sabe o que restará aos/dos indígenas numa eventual nova intervenção militar, conforme ameaçou um general da reserva em uma rede social. O Brasil deixou de fazer muitas lições de casa: não puniu sequer um agente da repressão, ao contrário de outros vizinhos latino-americanos que também viveram sob a égide de uma ditadura, e indígenas, infelizmente, ainda são lembrados apenas no 19 de abril quando nossas crianças têm o rosto pintado na escola.

Uma antológica reportagem de Laura Capriglioni, publicada no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, em 11 de novembro de 2012, dá conta da violência ao quadrado praticada pela ditadura militar contra indígenas: a criação da Guarda Rural Indígena obrigava indígenas à prática da tortura entre si, com demonstrações públicas do pau de arara, brasileiríssima contribuição ao arsenal mundial de técnicas de tortura. O volumoso Os fuzis e as flechas – História de sangue e resistência indígena na ditadura [Companhia das Letras, 2017, 518 p.], do jornalista Rubens Valente, aprofunda a abordagem da relação do Estado brasileiro com os indígenas – foram centenas de mortes – durante os anos de chumbo.

O tempo passa e nada mudou. É o que demonstra a exposição conjunta Mantenho o que disse, da fotógrafa brasileira Ana Mendes e do fotógrafo uruguaio Pablo Albarenga, que será inaugurada no próximo dia 14 de abril (sábado), em Montevidéu, no Uruguai. Os 80 painéis fotográficos da dupla contam a vida dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Ao lado das imagens, 15 frases de políticos brasileiros sobre a questão indígena, ditas publicamente.

“Vamos parar com a essa discussão sobre terra. A terra enche barriga de alguém?”; “Temos que produzir sustentabilidade. Ensinar a pescar”; e “Estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta, estão aninhados ali”, são algumas das “pérolas” proferidas por quem legisla e fala sobre o que não entende.

Realização do Centro de Fotografia de Montevidéu (CDF), Mantenho o que disse fica em cartaz até 11 de junho na Fotogaleria Prado. A programação da exposição inclui bate-papo com os autores e oficina de fotografia com João Roberto Ripper [que assina o texto de abertura da exposição; leia tradução ao fim do post] – veja a programação completa no site do CDF.

Ana Mendes está cursando Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e é coautora de Ostreiros [Pitomba, 2016, 120 p.], com Bruno Azevêdo. Ela falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

Ana Mendes em campo, na Aldeia Laranjeira Nhanderu, com o cacique Guarani Kaiowá Faride Mariano. Foto: Pablo Albarenga

Mantenho o que disse é fruto de três anos de trabalho. Suas idas às aldeias já imaginavam uma exposição ou você esteve lá por outro motivo e o material realizado acabou tornando-se esta exposição?
​​​Eu estive nos territórios por conta de reportagens que fiz pra alguns veículos, em especial a Amazônia Real, que em 2016 e 2017 se dedicou a acompanhar a questão dos Guarani e Kaiowá​. Mas como estratégia pra dar continuidade às documentações que estou fazendo, sempre aproveito o embalo de trabalhos e fico um tempo a mais nos locais. No Mato Grosso do Sul cada vez que ia ficava dois, três meses. E em duas dessas ocasiões estive nas aldeias com o Pablo. A gente se conheceu lá, na verdade, dividindo angústias, compartilhando medos e coragens. Ele é um fotógrafo uruguaio que nunca tinha documentado o Brasil, mas entrou de cabeça. E o convite pra fazer uma exposição partiu dele. Eu não acho que o trabalho esteja concluído, ao contrário, acho que é só o começo. Costumo dizer que faltam ainda 13 anos de documentação nos Guarani e Kaiowá. Isso porque fui formada enquanto documentarista pelo fotógrafo João Roberto Ripper e ele fotografou esse povo durante 16 anos.

Recentemente Walter Firmo esteve em São Luís, ministrando uma oficina. Em uma palestra inaugural, comentou a liberdade que passou a ter quando abandonou o fotojornalismo em 1985. Você é fotojornalista, atuando em veículos independentes. Como você avalia o cenário, nestes tristes tempos de fake news?
​Eu acho que na roupagem tradicional o jornalismo reprime mesmo as possibilidades de comunicar histórias múltiplas. Mas a reinvenção recente do jornalismo, que vem a partir da internet e da falência de certos jornalões, não nos permite mais pensar o jornalismo como prisão. Eu sou uma entusiasta da comunicação! E me encantam as experiências concretas de comunicação popular – quando os narradores das histórias são o próprio povo. Sobre fake news, acredito que isso não é novo, certo? Novas são as ferramentas. Mas os pregadores da moral e bons costumes sempre estiveram aí difamando as cabeças rebeldes e livres.

Na exposição que você divide com o Pablo, há um atrito entre as imagens e as legendas, estas retiradas de falas de políticos, em tese representantes do povo brasileiro, mas sempre negando direitos dos indígenas, ao contrário das fotografias, que re-afirmam estes mesmos direitos. Como surgiu a ideia e como foi desenvolvê-la até chegar a este resultado?
​Eu acho que certas experiências só têm porta de entrada. E esse é o nosso caso com a questão indígena. Uma vez que você testemunhou coisas profundamente tristes e coisas profundamente felizes ao lado de um povo, você troca as lentes com as quais vê o mundo. O sentido das coisas se inverte. A Dona Miguela, uma índia de quase 80 anos, nunca mais comeu guavira – porque a monocultura é o único horizonte da Terra Indígena Guyraroká, onde ela vive, no município de Caarapó. A saudade de um pé de planta, do gosto de uma fruta, nunca vai ter importância pra uma política de Estado. Mas o apagamento das memórias é o primeiro passo do genocídio de um povo. Começa matando a guavira e depois pra continuar desenvolvendo tem que matar o próprio índio. E mata mesmo. Prova disso são essas frases de cunho racista que incitam o ódio. Isso gera morte real, concreta. Por conta da gravidade dessa campanha anti-indígena que ocorre no país nos pareceu necessário trazer as frases, apontar quem disse o quê e quando. Não me lembro como a ideia surgiu, eu sei que o acervo de frases só cresce desde que começamos a pesquisar. Na exposição colocamos 15, mas existem muitíssimas mais, infelizmente.

O cenário ainda é bastante incerto no Brasil, mas há uma pré-candidatura à presidência da República que conta com a indígena Sônia Guajajara como candidata a vice, na chapa. O que você pensa a respeito?
Eu acho que Sônia pode fomentar o debate sobre a questão indígena, trazer o assunto finalmente pra pauta.  Mas eu sou bastante cética com a política partidária. Eu me afino mais com movimentos contra-hegemônicos. E acredito que alguns povos indígenas vêm ganhando autonomia, criando novos jeitos de fazer política. Os Ka’apor, também do Maranhão, são um exemplo. Não significa que não vá haver bons frutos pra se colher nesse momento de debate eleitoral com Sônia, uma liderança importante, uma mulher indígena. Com certeza estarei atenta aos passos de Sônia e vou vibrar se a candidatura dela causar incômodo e minimamente abalar as estruturas ocupadas há tantos séculos pelos mesmos nomes.

Verso do postal da exposição. Reprodução

MANTENHO O QUE DISSE

POR J. R. RIPPER

“Ana Mendes e Pablo Albarenga são fotógrafos com grande domínio técnico e conhecimento tanto do jornalismo quanto do documental. Estudam o tema que fotografam e tomam uma posição clara. Não ficam atrás das cercas nem empregam essa hipócrita imparcialidade que tanto se ensina nas escolas de jornalismo. Suas fotos proclamam a defesa dos direitos humanos e, em particular, dos direitos das comunidades indígenas.

Seu trabalho rende homenagem à história de grandes fotógrafos. “As pessoas são mais importantes que as fotos”, dizia [o fotógrafo Henri-Cartier] Bresson. Seu compromisso me recorda [os fotógrafos] Eugene Smith e Lewis Hine. Às vezes suas câmeras fotografam com o coração, noutras, colocam a cabeça em frente à câmera e não atrás, como dizia [o fotógrafo] Oliverio Toscani.

O trabalho que apresentam é fantástico. Desnuda o bruto e vigente genocídio que se está levando a cabo no Brasil e, com ele, a postura assassina que toma os poderes em meu país”. (Tradução: Zema Ribeiro)

Um fotógrafo na contramão

Pixinguinha em Ramos/RJ, em 1968, fotografado por Walter Firmo, uma das imagens de O Brasil que o Brasil merece. Reprodução

 

O apagão que se abateu sobre 13 estados brasileiros na tarde de quarta-feira passada (21) atrapalhou, mas ainda que no escuro e no calor, tem algo de mágico ver esse conjunto de 170 imagens, de famosos e anônimos.

O título da exposição deve trazer alguma ironia: será que o Brasil merece um fotógrafo como Walter Firmo? A treta virou esporte nacional, o ódio uma religião e a corrupção uma espécie de câncer que nos consome. Será que merecemos Walter Firmo e sua obra?

O fato é que há uma ancestralidade no que ele capta com suas lentes, ainda mais em uma exposição dedicada à negritude (outra ironia, num tempo em que ódio, preconceito, intolerância e o desrespeito à memória de mortos/as são soprados aos quatro ventos). Dá uma espécie de intimidade.

Quando ela, a meu lado, disse apontando para um biombo com um conjunto de fotografias, “essas são famosas”, indaguei-me se de fato as fotografias eram conhecidas ou se é a impressão que Walter Firmo é craque em nos fazer íntimos dos retratados que escolhe.

É claro que há fotografias, eu ia dizer por demais conhecidas, mas devo dizer conhecidas por aqueles que se interessam por música popular, como as que viraram capas de discos de Pixinguinha, Paulinho da Viola e Clementina de Jesus, mas mesmo entre os anônimos temos a sensação de conhecer as pessoas, os lugares, as circunstâncias em que cada foto foi feita.

O Brasil que o Brasil merece, este o nome da exposição, é abrangente, tem fotos desde 1957 (Garrinha tomando banho num vestiário do Maracanã), até fotos realizadas nesta década (a festa do bumba-meu-boi no São João maranhense). No meio disso tudo, a Festa do Divino, em Alcântara/MA, na década de 1970, e o compositor Cartola no Morro de Mangueira no ano de seu falecimento.

Walter Firmo trabalhou em veículos importantes do jornalismo brasileiro. Citarei apenas a mítica O Cruzeiro. Abandonou o fotojornalismo em 1985. Displays na exposição, ao situar sua relevância, enumeram uma infinidade de prêmios conquistados em décadas de carreira.

É o homem certo, no lugar certo, na hora certa, munido do equipamento e sensibilidade ideais. Walter Firmo está com 80 anos. É carioca filho de paraenses e foi casado com uma maranhense por mais de 20 anos.

O apagão atrapalhou o primeiro dia de uma oficina de três que ele ministrou na programação de abertura da exposição (em cartaz até 20 de junho no Centro Cultural Vale Maranhão – Av. Henrique Leal, 149, Praia Grande. Entrada franca). No escuro e no calor, falou a uma plateia lotada (o CCVM destinou 40 vagas, para desespero do fotógrafo, que disse que o ideal, para a ida ao campo, era trabalhar com no máximo 20) e interessada. Respondeu perguntas, deu opiniões sobre curadoria (atualmente, infelizmente, há curadores que querem ser mais importantes que os fotógrafos) e sua carreira, entre o fotojornalismo e a independência.

Acabei não participando da oficina, por conta de uma viagem: só podendo participar do primeiro dia, preferi abrir mão da inscrição que já havia realizado, para não tirar a vaga de outro/a interessado/a que pudesse participar integralmente.

Simpático, Walter Firmo usava uma camisa com motivos de janelas de São Luís, dessas que se vendem em lojinhas de lembranças para turistas – que com certeza seriam fotografadas na atividade extraclasse.

Serviço:

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Reinventando o cinema e a cidade

Diversas exposições foram inauguradas ontem (26) em São Luís. Entre o bom público presente em dois espaços mais ou menos recentes da cidade, o comentário de alguém falando em algo como uma renovação da força das artes visuais por estas bandas. Faz sentido.

O ET de Spielberg recriado pelo traço de Davi Coelho. Reprodução

Na Sala de Exposições do Condomínio Fecomércio Sesc Senac, Edifício Guimarães e Souza (Av. dos Holandeses, Calhau), a exposição Cinema em cartoon, de Davi Coelho, desenhista talentoso, mais conhecido no cenário cultural maranhense como crítico de cinema, entre outras frentes de atuação.

80 desenhos, alguns já vendidos, recriam, no traço de Davi, 80 filmes. O que logo me chamou a atenção foi o descompromisso em traçar ali qualquer “linha evolutiva” à guisa de uma história do cinema ou o destaque a filmes cult. Citando de memória, passa por O Máskara, Três homens em conflito, Laranja mecânica, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, Táxi driver, O poderoso chefão, Matrix, Central do Brasil, Star wars e La La Land, entre muitos outros.

Há de tudo, num recorte possivelmente movido à curiosidade e aos gostos pessoais do cartunista, faceta que aliás eu não conhecia. O repórter casmurro anda meio sem paciência para redes sociais, onde ele vez por outra publica algum desenho – inclusive alguns que ficaram de fora, na escolha difícil do processo de montagem da exposição, como o vi comentar, entre fãs, amigos e a imprensa.

Ela, aliás, já conhecia o trabalho e revelou, respondendo à assessoria do Sesc, que a entrevistava para uma matéria sobre a vernissage, que ansiava pela reunião daquele material em livro. Visto a camisa e integro-me à torcida: vai ser bonito.

No Centro Cultural Vale Maranhão, na Rua Henrique Leal, 149, nos limites entre a Praia Grande e o Desterro, iniciou ontem a mostra coletiva Ocupa CCVM. Não conhecia ainda o casarão, uma atração com pátio interno, por si só. “Abaixo a caretice”, disse a ela, de uma janela do segundo andar, observando o movimento do público com suas latas de cerveja na mão: é sempre interessante quando as casas entendem a dinâmica de seu público e do que acontece ali dentro, longe da lógica daqueles que ainda enxergam museus e espaços do tipo como algo parado no tempo.

Algumas das mobgrafias de Vicente Martins projetadas no CCVM. Foto: Daniele Moreira/ Ascom/CCVM

Em seus dois pisos, salas ocupadas por obras de Tácito Borralho (celebrando a Coteatro), João Ewerton (as flâmulas de Vazante, com seus caranguejos e guarás), Ribaxé, Wilka Sales (28 Bocas instigantes e o vídeo Corpocriação) e Vicente Martins (De passagem).

É sobre esta última que quero me ater: velho conhecido do instagram, onde atende em @vicentemartinsjr, um dos perfis mais interessantes daquela rede social sediado nestas plagas. Vicente retira da invisibilidade aqueles que insistimos em não ver, mesmo que eles cruzem nossos caminhos todos os dias – ou nós cruzemos os deles, tanto faz.

Vicente é outro egresso do cinema: conheci-o, como metade da torcida do Sampaio Correa, trabalhando na Backbeat e escrevendo críticas para o Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante. Mais que retirar esta gente simples da invisibilidade, ele lhes dá (e a seus objetos e à paisagem que compõem) um verniz de beleza, a que nossos olhos comumente também não estão habituados, na maior parte das vezes por conta dos padrões impostos pelos meios de comunicação e a ditadura da indústria de cosméticos – no fundo, quase uma coisa só.

Onde há gente, Vicente saca seu celular e clica, não à toa sua exposição é anunciada como mobgrafia, aquela fotografia realizada com instrumentos móveis, ou mobiles, isto é, telefones celulares comuns, smartphones, iphones e toda essa geringonçada a que um homem de vícios antigos roots conhece só de ouvir falar.

Enquanto víamos as 12 mobgrafias que compõem De passagem, todas elas feitas nos arredores da Fonte do Bispo, também conhecida como Terminal do Anel Viário, um rapaz, talvez estagiário do CCVM, aproximou-se da gente e passou a legendar verbalmente as fotos. Passamos a prestar ainda mais atenção aos detalhes e enquanto ele contava a história de uma Kombi retratada, o proprietário do veículo com bancos estampados de oncinha casado com a senhora que vende lanches em uma barraca que também compõe a imagem, eu apontei um pombo sobre um telhado numa foto em que Vicente perfilava outra senhora dentro de outra barraca, sob o lindo céu azul de São Luís do Maranhão.

Certamente ao passarmos novamente por aquela paisagem, de carro ou a pé, veremos o cenário com outros olhos. Eternizá-lo num retrato de beleza particular, no entanto, é para poucos, entre os quais Vicente Martins.

Serviço: Cinema em cartoon fica em cartaz até 27 de outubro; a coletiva Ocupa CCVM, até 12 de novembro.

Beleza silenciosa para deleite e superação de preconceitos

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Se uma imagem vale mais que mil palavras, como diz o ditado, quantos sinais de Libras valerão uma imagem?

Há algo de inestimável na escrita da luz das pessoas surdas que puseram seu talento e sua arte à prova nesta Impressão do silêncio, muitos/as deles/as envolvendo-se com fotografia pela primeira vez.

A proposta em si já foge do óbvio e os fotógrafos foram além, revelando detalhes que poderiam passar despercebidos a olhares menos atentos. Deus e o diabo moram nos detalhes, para quem crê num ou noutro. Ou em ambos. Ou em nenhum.

Alcântara, Raposa, São José de Ribamar e São Luís são vistas por outros ângulos. Pedra de cantaria, paralelepípedo, piçarra, asfalto, cimento e mar, entre isto e o céu infinitas possibilidades.

Gente, paisagem, religiosidade popular, patrimônio cultural, gastronomia. Tudo é inspiração e tema para o olhar atento e sui generis dos artistas aqui revelados e reunidos.

Em tempos de instagram e da instantaneidade de um narcisismo em que a exposição e o número de likes quase sempre são preocupações maiores que a qualidade da fotografia, este livro prova que fotografar é bem mais que apertar um botão.

Eternizar o efêmero, uma das traduções da arte fotográfica. O resultado poético que temos em mãos é fruto de trabalho e persistência. Temos aqui 15 novos artistas da fotografia – é mais coerente falar em artistas que em profissionais, embora eles estejam aptos para atuar no mercado – revelados pela disposição de Veruska Oliveira em ensinar o que sabe e aprender o que muitos de nós ainda precisamos: deficiência não é um limite. Ao menos não deveria ser.

Portanto, além do deleite, além de apreciarmos a beleza e a diversidade capturadas pelas lentes desta turma, sua contribuição primeira está para além do que vemos, contribuindo para a superação de preconceitos.

Este livro revela ao mundo o talento de novos fotógrafos, mas é muito mais que um belo cartão de visitas. Transpondo Leminski para a ocasião, seu poema poderia afirmar: “vai vir o dia em que tudo que eu veja seja poesia”. Eis que este dia chegou.

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Baita honra fazer parte deste belo e necessário projeto, a convite da querida, talentosa e imprescindível Veruska Oliveira. O texto acima é um dos que escrevi pro livro, que será lançado na próxima sexta-feira, conforme o serviço da imagem abaixo.

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Do Maranhão ao Arizona

Sobrenatural. Capa. Reprodução
Sobrenatural. Capa. Reprodução

Em Sobrenatural: Impressões sobre os Lençóis Maranhenses e o Grand Canyon [2016], o fotógrafo Meireles Jr. volta às paisagens dos Lençóis Maranhenses, já abordado por suas lentes em Descobrindo os Lençóis Maranhenses [2003]. Desta vez, o maranhense viajou também até o Grand Canyon americano e os dois parques, dois dos cenários naturais mais impressionantes do mundo, são o objeto deste seu novo livro.

Conhecemos causos (verídicos) em que o clássico Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, foi parar nas estantes de botânica, ou que os poemas do Manual de pintura rupestre, de Fernando Abreu, foram parar em artes plásticas. Convém, portanto, alertar o leitor: Sobrenatural é basicamente um livro de fotografias de paisagens. Obviamente, em se tratando do Grand Canyon americano e dos Lençóis Maranhenses, estamos diante de algo sobrenatural, isto é, “superior à natureza”, em uma das acepções do termo. Mas isto não explica tudo.

“No Canyon, ora perdido, uma índia nativa sugeriu que nós […] a seguíssemos até o lugar de meu destino naquela noite fria no estado do Arizona. Não hesitei. Pareceu-me um gesto seguro e generoso. Seguimos seu carro sem perdê-lo de vista um só instante até pararmos, mas, para o nosso espanto, quando fomos lhe agradecer, inacreditavelmente não era mais a índia que nos oferecera ajuda, mas sim um senhor velho e soturno que saíra do carro. Arrepiamo-nos todos, pensativos e silenciosos. Senti, a partir desse evento inusitado e até agora inexplicável, que o livro só poderia se chamar Sobrenatural”, explica o autor, em texto no livro.

Realizado com patrocínio da Fribal através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, Sobrenatural começou a ser produzido em 2013, quando o autor participou da Wedding and Portrait Photography Conference & Expo, a WPPI, na sigla em inglês, Conferência e Exposição de Fotografia de Casamento e Retrato, em tradução livre – entre um livro e outro, Meireles Jr. é um dos fotógrafos maranhenses mais requisitados para casamentos, batizados e eventos similares.

Sobrenatural traz encartado um dvd, documentário/making of, dando ideia da dimensão do trabalho. Para chegar ao resultado final, Meireles Jr. fez mais de 54 mil imagens entre o Maranhão e o Arizona.

Veja o documentário:

Poema sujo: vivo, atual, visual

Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos
Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos

 

Quando Diógenes Moura desceu do táxi, na Praia Grande, de madrugada, deparou-se com o Poema sujo diante dos olhos, vivíssimo: “vi aquele homem agachado, despido, ali, sozinho, tornando públicas as suas entranhas antes de os dois bêbados me abordarem descendo ladeira abaixo e pedindo dinheiro porque precisavam de um pouco mais de loucura”, escreve em Carta número um para uma coisa de fato, seu texto em Visões de um Poema sujo [Vento Leste, 2016], uma carta a seu autor, Márcio Vasconcelos, no livro que ele lança hoje (30) – o terceiro em 2016 –, às 19h30, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro).

“O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ e a cidade está no homem/ que está em outra cidade”, anota o então exilado Ferreira Gullar no Poema sujo, escrito entre maio e outubro de 1975 em Buenos Aires, Argentina.

Cada homem ou mulher lê e percebe a cidade de modo diferente. Diógenes Moura, que assina a curadoria e concepção editorial de Visões de um Poema sujo, percebeu, após Márcio Vasconcelos vencer o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia em 2014, que ele já fotografava o Poema sujo há pelo menos 10 anos, expondo, como Gullar fez em versos, com o mesmo talento e olhar sensível, a beleza e a podridão – e nesta, a beleza – da cidade, do itinerário percorrido pelo poeta naquela que é considerada por muitos sua obra-prima.

A perspectiva de Márcio Vasconcelos é interessante: a algumas fotos realizadas antes de vingar a ideia de uma releitura fotográfica do Poema sujo, ele passou a imaginar-se exilado em Buenos Aires para fotografar a obra de Gullar. Este resenhista confessa: quando ouviu falar em Visões de um Poema sujo, antes de o livro existir, pensou tratar-se de uma espécie de Poema sujo ilustrado. Ainda bem que estava errado.

Não espere o leitor, portanto, uma tradução imagética da obra em versos. Quem leu o Poema sujo ora verá fotografias que remetem a determinados trechos do poema, ora se perguntará, talvez, por que determinada fotografia foi incluída no livro. A única constante no livro de Márcio Vasconcelos é a beleza, das imagens, cada uma por si e, obviamente, do conjunto – como o livro de Gullar, que teve trechos musicados e tem uns mais lembrados que outros, mas que é bonito por inteiro, mesmo quando chafurda no horrendo.

O poeta maranhense radicado no Rio de Janeiro prossegue: “mas variados são os modos/ como uma coisa/ está em outra coisa:/ o homem, por exemplo, não está na cidade/ como uma árvore está/ em qualquer outra/ nem como uma árvore/ está em qualquer uma de suas folhas/ (mesmo rolando longe dela)/ O homem não está na cidade/ como uma árvore está num livro/ quando um vento ali a folheia”.

Márcio Vasconcelos fotografa o livro-poema de Ferreira Gullar, mas uma chave de leitura errada, ou melhor, uma chave de olhar errado, é imaginar algum tipo de fidelidade entre as imagens e o poema, como minha crença inicial.

Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução
Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução

Visões de um Poema sujo é uma contribuição importante e, por que não dizer, poética, ao reconhecimento da força e atualidade do Poema sujo, recém-relançado pela Companhia das Letras [2016, 112 p.], “livro que é um dos mais importantes da língua portuguesa da segunda metade do século XX”, conforme atesta o poeta e jornalista Celso Borges em Outra cidade e a mesma, o outro texto do livro de Márcio Vasconcelos.

“Há um relâmpago nos versos gullarianos, mesmo quando ele fala do lado obscuro da cidade, sua lama e podridão, seus cheiros e mangues. O fotógrafo procura e desnuda essa sujeira luminosa”, prossegue Celso Borges, para arrematar: “Algo permanece eterno, independentemente do tempo. Este o milagre: reencontrá-la e reinventá-la”.

Márcio Vasconcelos confessa uma de suas intenções ao realizar Visões de um Poema sujo – título também da exposição com que ganhou o Marc Ferrez: chamar novamente as atenções para o poema de Gullar, deixando livres os sentidos dos leitores para suas próprias interpretações.

É Gullar quem arremata: “cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas”.

Fotografeministas

A fotógrafa Maria Thereza Soares, uma das organizadoras do evento. Foto: Neto Vasconcelos
A fotógrafa Maria Thereza Soares, uma das organizadoras do evento. Foto: Neto Vasconcelos

 

Daqui a pouco, entre 15h e 18h30, de graça, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), acontece o I Encontro de Fotógrafas de São Luís, com o objetivo de dar visibilidade às mulheres na profissão e denunciar o machismo ainda presente no ofício.

Maria Thereza Soares e Julyane Galvão são as organizadoras do encontro, que dá continuidade e dialoga com um evento do tipo ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 6, iniciativa da fotógrafa carioca Wania Corredo. Lá a atividade aconteceu em frente à escadaria do Theatro Municipal, na Praça da Cinelândia.

Em São Luís será realizado o registro fotográfico da reunião do grupo, além da exposição dos trabalhos em um varal fotográfico. A ideia, segundo as organizadoras, é projetar o trabalho das profissionais que já estão no mercado e incentivar a participação de outras mulheres no universo fotográfico.

“Há sexismo e outros preconceitos. Os dados das disparidades podem ser obtidos em pesquisas na literatura histórica fotográfica, nos festivais de fotografia, nos prêmios etc. Muitas fotógrafas seguem na invisibilidade mesmo produzindo trabalhos de qualidade. Esse contexto desigual pode ser observado em nível mundial”, afirma Maria Thereza Soares no release enviado à imprensa.

Para Julyane Galvão, “a mulher em seu convívio social tem uma exclusão de diversas funções perante a sociedade. Esse momento de união mostra a garra e competência que qualquer uma de nós é capaz de fazer ou desenvolver atividades. Em relação à fotografia, mostraremos destaques locais que em muitos casos não possuem oportunidades para demonstrar seu trabalho, ou mesmo daremos espaço para que relatem seus depoimentos vividos em seu meio pessoal e profissional”.

O evento deve agregar a presença de brechós e foodbikes.

A poética geografia do cangaço

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução
Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução

 

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou [Vento Leste, 2016, 104 p.] é um encontro único: as elegâncias das fotografias de Márcio Vasconcelos e do texto de Frederico Pernambucano de Melo, a exuberância das paisagens, a grandeza dos personagens e o imenso legado cultural deixado pelo bando liderado por Virgulino Ferreira da Silva.

O maranhense Márcio Vasconcelos embrenha-se na geografia sui generis do Nordeste para refazer os caminhos percorridos por Lampião e seus cangaceiros, da invenção do bando à execução de seu líder, em 1938, na Grota do Angico, em Poço Redondo/SE, ao lado de Maria Bonita e outros nove homens.

Apenas duas fotos não são de sua autoria, espécie de tributo ao fotógrafo Benjamim Abraão, que retratou o bando de Lampião em vida, saga contada por Paulo Caldas e Lírio Ferreira em Baile perfumado [1996], com imagens do acervo do fotógrafo sírio-libanês e trilha sonora puxada pela turma do manguebit.

A trilha por que o fotógrafo nos conduz ao longo das páginas do livro, finalista do prêmio Conrado Wessel de Fotografia 2011 e vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, passa por cinco estados e entre os personagens que ele encontra estão Dona Minó (1923-) – filha de Zé Saturnino, tido como o inimigo número um de Lampião –, Elias Matos Alencar (1914-2013) – membro da volante do Tenente João Bezerra, responsável pela execução de Lampião e seu bando –, e Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro (1916-2013), cangaceiro do bando de Lampião, além de atuais habitantes dos lugares.

As paisagens remontam à rima involuntária beleza/pobreza, com vantagem para a primeira, eterna sina de grande parte do Nordeste e sua população. É particularmente comovente uma sequência de fotos em que uma mulher comum chora a morte de um jumento, abraçando-o como a um ente querido. A devoção (sobretudo a Padre Cícero, mas não só) também é elemento importante ao olhar de Márcio Vasconcelos.

O trunfo do encontro entre palavras e imagens está justamente em umas não quererem explicar as outras: enquanto o fotógrafo percorre hoje caminhos pisados por Lampião há quase um século, Frederico Pernambucano de Mello, historiador, membro da Academia Pernambucana de Letras, reivindica ao ícone do cangaço o status de artista: “pelo orgulho, pela sobranceria, pela vaidade, pelo desassombro da imagem ostensiva, pela força de formação de uma subcultura à base de derivações nada desprezíveis na música, na poesia, na dança, na culinária, no artesanato, na medicina, nos costumes, na moral, na religiosidade, na arte militar intuitiva e mesmo na arte de expressão plástica, a partir da herança pastoril, o cangaço sumaria, aos olhos do brasileiro de hoje, a franja de todas as insurgências, sua saga confundindo-se com a própria ideia de resistência contra poderosos”, anota.

Outra grandeza que merece destaque é não quererem tirar conclusões. Muito já foi dito sobre o cangaço e particularmente Lampião é fartamente biografado. “Os cangaceiros não foram heróis nem bandidos. Foram homens que disseram não à situação”, anota Vasconcelos na legenda da foto da Grota do Angico.

Veja algumas imagens do livro. Para mais acesse o site de Márcio Vasconcelos.

Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

Serviço – Márcio Vasconcelos lança Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou hoje (27), às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073 – Piso do Teatro, SP).

Para continuar sendo floresta

O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)
O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)

 

Mais de 30 fotografias compõem Já fui floresta, do fotógrafo sul-mato-grossense José Medeiros, que inaugura a edição 2016 do Sesc Amazônia das Artes. A vernissage aconteceu ontem (8), na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a exposição fica em cartaz até o dia 6 de maio.

Medeiros foi o primeiro fotógrafo a registrar o ritual de passagem dos indígenas Ikpeng, no Parque Indígena Médio Xingu, no Mato Grosso. O ritual fotografado por ele dura um ano inteiro e acontece a cada cinco. Marca a entrada dos indígenas na idade adulta – para eles não há adolescência. É quando aprendem a caçar, casam-se cedo.

O conjunto de fotografias de Já fui floresta retrata os costumes, alegrias, alimentos consumidos, o convívio harmonioso com a natureza na bela paisagem. Mais que fotografando e filmando, Medeiros passou um ano convivendo com os indígenas e observando o quanto ainda são explorados e estigmatizados, o que lhe causa indignação.

“Quando os indígenas vão à Cuiabá”, onde ele mora há vários anos, conta, “eu os hospedo em minha casa. Nada mais justo, já que eu me hospedo com eles, não levo comida quando vou às aldeias. Meus filhos os recebem com abraços. Outro dia, um indígena, fazendo doutorado, foi em uma escola e as crianças o receberam u u u [imita o som colocando e tirando a mão da boca várias vezes]. Isso me deixa bem triste”, confessa.

Comento que pouca coisa parece ter mudado desde 1500, vendo, na sala contígua à principal da Galeria, diversos espelhos, daqueles baratos, de moldura alaranjada, comumente vendidos em feiras. “Resolvi botar estes espelhos para provocar a reflexão. Os espelhos ficaram velhos, quebrados. O que restou aos índios? As molduras, que não servem para nada”, comenta, ao lado das únicas quatro fotografias coloridas da exposição, em que curumins emolduram seus próprios rostos.

Instantes antes, após ser entrevistado por uma emissora de tevê, comentou com a repórter: “esses pataxós que estão bem aí na praça [Deodoro] dão uma ótima pauta. É uma forma de eles viverem de seu próprio trabalho. Eles estão aí vendendo ervas, trazendo seu conhecimento popular”.

Pergunto se o homônimo José Medeiros, lendário fotógrafo que fez fama na idem O Cruzeiro, lhe influenciou o trabalho. “Sim, sem dúvida. Eu fiz vários cursos com Walter Firmo, que foi aluno de José Medeiros, não tem como não ser influenciado”, revela, citando outra lenda da fotografia brasileira, este ainda na ativa.

E ilustra com uma história interessante. Uma vez publicou a foto de um menino indígena dando uma bicicleta em uma bola sobre uma superfície de água. Ele saca o celular e me mostra a fotografia, perfeito exemplo de “instante decisivo”, o que por um instante me faz pensar algo como “se Henri Cartier-Bresson tivesse vindo ao Brasil”. Quando seu nome saiu, como autor da foto, começaram as contestações: José Medeiros não fotografava colorido, chegou a ouvir, de quem pensava ser a imagem de autoria do fotojornalista de O Cruzeiro, e não dele mesmo.

Indagado sobre o nome da exposição, ele não titubeia: “Já fui floresta sou eu. Eles continuam sendo e é importante que a gente se una a eles para garantir os meios para que continuem assim, apesar de que nas aldeias já há televisão, telefone, indígenas usando celular, computador. Isso não é necessariamente ruim, o convívio tem que ser saudável”.

Ele está oferecendo um curso de fotografia a indígenas. “Quero perceber como eles mesmos veem a floresta. E que maravilhoso deve ser um indígena fotografando São Paulo, por exemplo?”, indaga-se.

José Medeiros trocou o fotojornalismo por um exercício fotográfico mais documental. Autor do belo O pantanal de José Medeiros [2014], cujas fotografias valorizam a figura do pantaneiro, fugindo dos clichês, ele pode em breve mostrar ao público outra faceta: a de curador, revelando ao Brasil as fotografias frutos do curso que vem ministrando aos indígenas mato-grossenses.

Com curadoria de Wania de Paula e texto crítico de Nadja Peregrino e Angela Magalhães, Já fui floresta, de José Medeiros, pode ser visitada em dias úteis, das 9h às 17h, na Galeria de Arte do Sesc Deodoro (Av. Gomes de Castro, 132, Centro), até o dia 6 de maio.

Veja três fotografias da exposição:

Olhar poético sobre a degradação

Algumas imagens da exposição Tombamento, de Vicente Jr.

 

Em Tombamento o fotógrafo Vicente Jr. volta ao cenário-objeto de sua primeira exposição: Desterro: a cara da comunidade, que integrou a programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), em 2014, no Convento das Mercês.

Se na primeira, gente e pedra dialogavam em imagens que já evidenciavam o ambiente decrépito, nesta o olhar se volta às construções, “aqui tudo parece construção e já é ruína”: Tombamento trocadilha o tombo do patrimônio arquitetônico com o tombo iminente dos mal conservados casarões da Praia Grande, Desterro e Portinho, os três bairros que compõem o Centro Histórico ludovicense, que podem desabar a qualquer momento.

A exposição fotográfica individual de Vicente Jr. é também um diálogo de técnicas, entre o digital e o analógico, em que antagoniza a instantaneidade destes tempos virtuais, ele mesmo usuário contumaz de redes sociais como o Instagram – cuja conta (@vicentefjunior) dá pistas do tipo de imagem que veremos na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a vernissage de Tombamento acontece nesta quinta-feira (18), às 18h30. A exposição pode ser visitada até 29 de março, em dias úteis, das 9 às 17h, com entrada franca.

Vicente Jr. conversou com o Homem de vícios antigos sobre a exposição.

O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação
O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação

Sua primeira exposição teve o Desterro como cenário-objeto. Agora você volta ao Centro Histórico da ilha. O que te instiga nestes ambientes degradados?
Enquanto produzia as imagens para a minha primeira exposição foi inevitável pensar a respeito do lamentável estado de abandono dessa área dita tombada. Foi quando surgiu a ideia de utilizar as possibilidades poéticas da ambiguidade do verbo tombar. Vi nessa ambiguidade do tombo uma possibilidade poética, uma caminho para desenvolver esse trabalho. Meu olhar é atraído por essas camadas sobrepostas de tempo, que cria uma textura nas imagens. Essa decadência possui um charme e é impregnada de história. Gosto também de partir de alguns clichês inerentes ao Centro Histórico, como por exemplo, o de cidade turística, cidade dos azulejos e dos casarões, e desconstruí-los. Às vezes fico extasiado diante de algumas imagens que mais parecem paisagens de algum filme cyberpunk.

Quantas fotos compõem a exposição?
A exposição consiste em oito fotografias analógicas e 11 digitais, totalizando 19 fotografias. Também deixei exposta a câmera analógica de plástico simples e precária com que fiz essas imagens.

Por que a opção em fotografar em analógico?
A princípio o projeto era para ser exclusivamente analógico, mas achei melhor utilizar as duas tecnologias. Proponho um diálogo entre elas. É evidente a hegemonia do digital em nossos dias hipermodernos e sua velocidade tanto de produção, quanto de divulgação das imagens. A opção pela tecnologia analógica foi de ir contra a corrente. Resgatar esse outro tempo, mais lento e os processos químicos da revelação que têm mais a ver com a natureza das imagens que mostro. Assim uma tecnologia não exclui a outra, mesmo com toda a dificuldade de trabalhar com o analógico. Eu mesmo não possuía mais uma câmera dessas. Perguntei aos amigos se alguém ainda tinha e um deles me presenteou com uma. O próprio filme quase não se consegue encontrar aqui em São Luís e existe apenas um laboratório que ainda resiste e faz a revelação dos negativos. É realmente remar contra a maré.

Sua relação com a fotografia é profissional, hobby ou ambas as coisas?
Cara, começou como um hobby e não deixará nunca de ser. Mas as coisas estão acontecendo e adquirindo outros contornos. E tenho me dedicado somente à fotografia ultimamente.

Em Desterro: a cara da comunidade, sua exposição inaugural, o elemento humano era presença constante no conjunto de fotografias, convivendo com o elemento pedra. Nesta, Tombamento, os humanos desaparecem. Você acredita fazer um jogo de futurologia, denúncia social ou ambas as coisas através de sua arte?
Então, na minha exposição anterior eu quis mostrar que apesar de todo descaso e por que não dizer, “desterro” daquele bairro que apesar dos estigmas, como por exemplo, a violência, a prostituição e o tráfico de drogas, possui um sentimento de comunidade muito forte e foi inevitável o enfoque nas pessoas inseridas ali. Em Tombamento, as pessoas somem! Surgem os animais de rua vagando sem destino, carros e motos que não deveriam circular ou estacionar por ali. Como falei antes, algumas imagens lembram filmes cyberpunk, desabitadas, devastadas. Assim, futurologia. Não tem como fugir da denúncia social! Acaba fazendo as pessoas pensarem um pouco acerca do tema e reflitam. Será que esse patrimônio está realmente tombado? Será que as gerações futuras terão acesso a ele?! Acredito no poder das imagens de instigar o pensamento, a reflexão. Esse poder não é uma exclusividade da palavra escrita ou oral.

Voduns de luz

Quando Cesar Teixeira lançou, em 2004, seu primeiro (e até aqui único) disco, Shopping Brazil, anotou em O lixo é nosso!, o texto de apresentação: “é pouco espaço pra tanto vodum”. Referia-se a mestres que reverencia, de um modo ou de outro, ali presentes e homenageados. O autor das fotos de capa, contracapa e encarte era Márcio Vasconcelos.

Pai Euclides em imagem do livro Zeladores de voduns do Benin ao Maranhão. Foto: Márcio Vasconcelos

Quando Pai Euclides faleceu busquei uma foto para ilustrar seu obituário. E não poderia ter encontrado uma melhor. O eterno líder espiritual da Casa Fanti-Ashanti sentado diante de um altar, em pose que deixa transparecer sabedoria, experiência, seriedade. “O hábito não faz o monge”, diz o dito popular, mas as vestes aproximam-no de um deus. Novamente o fotógrafo era Márcio Vasconcelos.

Agaxosa - Gloku Kosu Naeton (Ouidah - Benin), a fotografia usada na capa do livro. Foto: Márcio Vasconcelos
Agaxosa – Gloku Kosu Naeton (Ouidah – Benin), a fotografia usada na capa do livro. Foto: Márcio Vasconcelos

O retrato de pai Euclides e tantos outros Zeladores de voduns do Benin ao Maranhão [Pitomba!, 2016, 124 p.] integra o conjunto de fotografias de Vasconcelos reunido no livro, em que percorre casas de culto afro no Maranhão e no Benin – veja outras imagens no site do fotógrafo.

Dando valiosa contribuição para a preservação da memória dos voduns, o próprio Márcio Vasconcelos acaba se configurando também um zelador, dado o capricho com que exerce seu ofício e com que reúne o belo e o sagrado, para além do exótico a que são costumeiramente reduzidas estas manifestações que aliam religiosidade e cultura popular, campos em que tem vasta experiência e diversos prêmios nacionais – o próprio livro Zeladores de voduns foi contemplado no 1º. Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura (MinC), o que viabilizou sua publicação.

Mãe Elzita (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos
Mãe Elzita (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos

Os textos que precedem as fotografias, do editor Bruno Azevêdo e dos antropólogos Sergio Ferreti e Hippolyte Brice Sogbossi, facilitam a compreensão, sobretudo para não iniciados, das configurações que aproximam Benin e Maranhão e tornaram nosso estado um dos principais centros das religiões de matriz africana no Brasil.

“O catolicismo está muito presente nesta religião uma vez que os escravos eram obrigados a tornar-se católicos e que o catolicismo era a religião oficial do país até fins do século XIX e oficiosa em grande parte do século XX”, anota Ferreti em A terra dos voduns, um dos três textos que abrem o volume. Com Sogbossi, beninense radicado no Brasil, Vasconcelos percorreu, ao longo de quase um mês, em 2009, diversas cidades do Benin. Além de São Luís, outras cidades maranhenses também foram visitadas pelo fotógrafo, fechando o conjunto. Nas fotografias, sobretudo as do lado de cá, é possível perceber este sincretismo, com imagens de santos da Igreja Católica frequentando os terreiros, um retrato do Papa João Paulo II pendurado na parede, “folhinhas” com imagens de santos, caixas do Divino, parelhas do tambor de crioula, a decoração típica dos festejos de São João e o bumba meu boi.

Mãe Mundica Estrela (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos
Mãe Mundica Estrela (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos

Além de registrar diversas personalidades importantes para a perpetuação da religiosidade de matriz africana nas geografias em que se concentra, os cliques certeiros de Márcio Vasconcelos em Zeladores de voduns são uma homenagem a Pai Euclides e Mãe Deni Prata Jardim, última vodunsi da Casa das Minas, falecida há um ano. É também uma ótima oportunidade a interessados em geral de conhecer um pouco mais desta história e suas personalidades.

Sempre envolvido em vários projetos simultaneamente, o fotógrafo lançará este ano dois novos livros: Na trilha do cangaço, em que refaz os caminhos de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, no sertão nordestino, com curadoria e concepção da fotógrafa inglesa radicada no Brasil Maureen Bisiliat, será editado pela Vento Leste; pela mesma editora ele publicará, com curadoria de Diógenes MouraVisões de um Poema Sujo, conjunto de fotografias inspirado no famoso livro-poema do maranhense Ferreira Gullar.

O dial da memória sintonizando o FM Abissal

Em 2014, contratado como assessor de comunicação da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, me vi diante de um dilema: o show principal da noite de abertura do evento teria a banda pernambucana mundo livre s/a (que eu nunca havia visto ao vivo) tocando de graça na Praça Nauro Machado, mesma data em que o baiano Elomar Figueira de Mello se apresentaria, ao lado do filho João Omar, no Teatro Arthur Azevedo, com ingresso pago.

Imaginei que a apresentação de Elomar começasse praticamente sem atraso, que o show durasse algo entre uma hora e hora e meia e que o show do mundo livre atrasasse, em virtude do que sempre acontece quando um show principal fecha uma noite de programação, precedido por outras apresentações. Isto é, eu conseguiria ver ambos os shows. Mas meus cálculos estavam errados, matemática nunca foi meu forte, e Fred Zeroquatro e companhia continuam praticamente inéditos ao vivo para mim.

Digo “praticamente inéditos” por que ao chegar à praça, voltando do teatro, ainda ou/vi as últimas palhetadas do jornalista e compositor ao cavaquinho, encerrando o bis.

Não me arrependi da escolha e sei que a hora de ver/ouvir o mundo livre s/a chegará. Profissionalmente não me penitencio: a pequena equipe de assessoria com que eu contava deu conta do recado, isto é, de contar o que foi a noite de abertura daquela edição da Aldeia.

Antes do show de Elomar começar, enquanto enxugava umas latinhas com o amigo Otávio Costa no bar do Arthur Azevedo, recebi um telefonema: Fernando Matos – cujo aniversário, hoje (20), me fez lembrar essa história –, o lendário DJ Abissal, estava em São Luís e me convidava para “molhar a palavra”. Informei-lhe que estava no teatro para assistir Elomar e avisei-o do show do mundo livre s/a, a que ele acabou assistindo. “Eu não esperava tanta opção”, revelou-me o amigo pernambucano, que baixou na Ilha numa quinta-feira útil, a trabalho.

Elomar e sua produção proibiram fotos – regra que dei um jeito de desrespeitar, mas o resultado foi tão tosco que joguei todas fora, depois. Uma amiga, com uma máquina melhor, teve melhor sorte.

O mundo livre s/a posou para fotos com fãs. Levei Fernando ao camarim e acabei por promover, em plena São Luís, seu reencontro com Zeroquatro, o Montenegro que foi seu contemporâneo de “científico” e UFPE. Daniel Sena clicou e ainda tivemos pique para ir até A vida é uma festa!, capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, àquele ano integrada à programação da Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

FM, 04 e o blogueiro no camarim, após o show do mundo livre s/a. Foto: Daniel Sena
FM, 04 e o homem de vícios antigos no camarim, após o show do mundo livre s/a. Foto: Daniel Sena

EP Descostura marca estreia de Valéria Sotão

Artista disponibilizou três faixas, antecipando o álbum que gravará em 2016. Também já está no ar o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das faixas de Descostura

 

Este é o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das três faixas de Descostura, EP que Valéria Sotão acaba de disponibilizar na internet. Compositora e cantora – é ela quem prefere ser chamada nesta ordem – que acrescenta um “de voz miúda” ao se apresentar nas redes sociais.

Descostura. Capa. Reprodução
Descostura. Capa. Reprodução

Chocolate meio amargo tem direção de Emilio Andrade e atuação de Luciano Teixeira e Larissa Ferreira. Descostura, o EP, está disponível para audição no soundcloud da artista, que promete para ano que vem o álbum completo de estreia. Apesar de jovem, Valéria já deu algumas guinadas na vida.

Primeiro, abandonou o jornalismo. “Fiz jornalismo porque queria mudar o mundo, mas aprendi logo a falta de autonomia na área. Sempre quis música; mas minha família queria uma garantia, então fiz faculdade e adiei a música”, conta. Dedicou-se por algum tempo à fotografia, profissionalmente. Com Descostura alça, agora, voo musical.

“Acho que o jornalismo me trouxe uma bagagem cultural única, que posso usar na música, e a fotografia é uma arte e todas as artes são relacionadas”, afirma, costurando suas áreas de atuação.

Valéria Sotão, compositora e cantora "de voz miúda". Foto: divulgação
Valéria Sotão, compositora e cantora “de voz miúda”. Foto: divulgação

Ela compõe desde os 15 anos, mas só recentemente fez sua estreia num palco, durante o evento Lição de moda, no recém-inaugurado Shopping Passeio, no Cohatrac. “O produtor do evento me chamou sem nunca ter me ouvido, pois disse que confiava no meu bom gosto. Moda é arte, forma de expressão assim como a música”, acredita.

Descostura tem uma pegada pop, cujas influências, ela mesmo confessa, são Caetano Veloso, Rita Lee, Secos & Molhados, Placebo e David Bowie. Ela, no entanto, não renega a cultura popular – o clipe de Chocolate meio amargo tem trechos rodados num de seus principais palcos no Maranhão, a Praia Grande. “Eu adoro a cultura popular maranhense. Já vivi muitas coisas na Praia Grande, já fiz faculdade de música – que não terminei – por ali… Adoro bumba meu boi”, revela.

Raflea (nome artístico de Rafael Cunha França, integrantes de bandas como Torre de Papel e Casaloca), um exército de um homem só, tocou todos os instrumentos do disco, exceto a bateria, assinada por Carlos Silva, e o violão da faixa-título, tocado pela própria Valéria. A capa do EP é um desenho de Ksyfux (nome artístico de Agnaldo da Silva Jr.).

As três faixas são ótimo aperitivo. É esperar, em 2016, pelo início da gravação do álbum completo, que incluirá as faixas de Descostura e outras inéditas e, após isso, por shows de lançamento.

Imagem é tudo. Tudo é imagem

Uma das "imagens descartáveis" que compõem a exposição
Uma das “imagens descartáveis” que compõem a exposição. Foto: Layo Bulhão

 

Já há algum tempo este blogue usa a categoria “fotosca” para se referir a retratos que faço – jamais usaria um trocadilho desses para me referir a imagens alheias –, em geral com o celular.

Às vezes as “fotoscas” são o único recurso de que posso me valer para ilustrar um texto meu sobre um show, por exemplo. Do ponto de vista estético, a grande maioria delas deveria ter sido apagada. Algumas nem deveriam ter sido clicadas.

É mais ou menos esta discussão, sobre o que merece a publicação ou o lixo como destino, o que provoca a exposição Imagens descartáveis (ou: Um diálogo com o erro), da fotógrafa, pesquisadora, videoasta e professora Carolina Libério e do artista e estudante de artes Layo Bulhão, em cartaz na Galeria de Artes do Sesc Deodoro (Praça Deodoro), das 9h às 17h, até 30 de outubro, com entrada franca.

A exposição conta com cerca de 800 imagens, a metade de cada autor. É um mergulho em “um universo de imagens que permanece sempre não-visto: aquele das imagens descartadas. Imagens imprestáveis, que sobram e inundam pastas, cartões de memória, cds, pen-drives e hds”, conforme o texto distribuído pela Assessoria de Comunicação do Sesc/MA.

O debate proposto é bastante pertinente, num mundo em que a imagem ganha cada vez mais força, contrariando a propaganda do refrigerante, dominado por selfies – o autorretrato que conta até com um “pau” próprio para isso – e plateias em que parte do público já não assiste a espetáculos com os próprios olhos, mas pelas lentes por onde registram a experiência.