Chorografia do Maranhão: Paulinho Oliveira

[O Imparcial, 29 de março de 2015]

Flautista, professor da EMEM e membro da primeira formação do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 50º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Seu cartão de visitas é certeiro: “Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Ouvi muita música, batucada, Fuzileiros [da Fuzarca, bloco carnavalesco sediado no bairro], Turma do Quinto [escola de samba idem], os terreiros, [Casa das] Minas, [Casa de] Nagô”. Ainda no bairro boêmio em que nasceu, Paulo Oliveira dos Santos Filho começou a soprar em flautas feitas por seu pai com taboca de mamoeiro.

Seus pais eram operários da fábrica de Cânhamo, nos arredores, onde hoje estão instalados o Ceprama e o Museu do Tambor de Crioula. Paulinho Oliveira nasceu em 26 de julho de 1965, filho do pernambucano Paulo Oliveira dos Santos e Maria José Ribamar Silva.

Sorridente e descontraído, Paulinho deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 50º. da série, na Sala Turíbio Santos, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM], onde leciona. A entrevista foi ilustrada musicalmente por Corrupião, de Sérgio Habibe [compositor].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Em sua infância, você se lembra do movimento do operariado em torno da fábrica Cânhamo? Não tenho muita lembrança, mas vagamente alguma coisa. Eu ia levar marmita, quando criança, junto com minhas irmãs mais velhas, eu sou o caçula de quatro, dois homens e duas mulheres.

Você tem outra profissão, além de músico? Eu trabalho só lecionando. Estudei no Senai [o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], fiz curso na área técnica, mas não quis exercer a profissão. Na Escola Técnica [hoje Instituto Federal do Maranhão – IFMA] eu estudei na banda, com Maestro Nonato, que foi meu primeiro professor de música, assim em um curso regular, sistemático, né? Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Eu sou uma pessoa que ouvi muita música, batucada, Fuzileiros, Turma do Quinto, os terreiros, Minas, Nagô.

E na sua casa? Teus pais tocavam algum instrumento? Minha mãe participou de baralho, brincadeiras carnavalescas, populares. Meu pai não teve isso. Papai tinha muitos amigos, gostava de encontrar.

Ele conviveu com os boêmios da Madre Deus, de algum modo? Sim, [os compositores] Cristóvão [Colombo da Silva, popularmente conhecido por Cristóvão Alô Brasil], Sapo [Henrique Martiniano Reis], Tabaco [Hermanegildo Tibúrcio da Silva], Bibi [Silva], Patativa [Maria do Socorro Silva], trabalhou na Cânhamo com ele.

A Madre Deus sempre foi um ambiente propício. Eu sou filho da Madre Deus, aquele ambiente, tambores, tinham alguns comércios próximos de minha casa, músicos amadores iam até ali, meu irmão mais velho era músico amador, violonista, tocou muito em bailes. Uma influência muito grande ali que eu tive foi a de conviver com grandes ritmistas, como Welllington [Reis], Amauri, Prio, finado Tião, Eloy, Biné do Banjo [banjoísta, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], outros que eu esqueci o nome.

Você lembra com que idade começou a tocar? Vem de criança. Eu lembro que na Madre Deus tinha um senhor, ele trabalhava e fazia algumas flautas, pífanos, aquilo foi me levando. Meu pai fabricava instrumentos para mim de cano de mamoeiro, brincadeira de criança. Eu comecei mesmo com flauta doce, houve um tempo aqui em que os jovens tocava muita flauta doce, eu fiz parte de movimento de Igreja, a gente tocava de ouvido, tinha uma musicalidade, eu fui me envolvendo. Na oportunidade em que eu conheci o Gilson [César, ator e mímico], ele me levou para o Laborarte [Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão], eu fiz parte do Departamento de Música do Laborarte, ali pela década de 1980.

Quando você fez parte do Laborarte já tinha passado pela Escola Técnica? Pela Escola! Nessa época eu estava estudando flauta transversa. Nesse período, que eu encontro o Gilson, que me apresenta o Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Eles foram a ponte para eu chegar até a Escola [de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], onde eu cheguei como aluno. Eu já tocava um pouco de flauta doce. Tive aulas com professor Vanilson [Lima], Wolf Clemmens [Hilbert], alemão, foi o cara que trouxe a flauta doce para cá para o Maranhão, para São Luís. Eu tive aulas particulares com ele, ele já não era mais da Escola.

Teus principais mestres seriam estes? Sim, na área de flauta doce. Eu tive aulas com Lisiane [Nina], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], este é o pai dos flautistas daqui. Comecei a estudar teoria musical, eu já tinha começado na Escola Técnica, mas a Escola de Música é que foi mesmo o grande alicerce.

Quando você escolheu seguir a música, teus pais te apoiaram? Naquele período, aqui no Maranhão, não era uma coisa tão bem vista. Tinha aquela coisa, “você vem de uma família de negros, pobre, mora na periferia, olha teu irmão”. As pessoas queriam que eu exercesse uma profissão que me desse um lucro financeiro.

Que músicos você citaria entre suas principais influências, aqueles que te levaram a ser o músico que és hoje? Lisiane foi uma grande figura, Zezé, Raimundo Luiz, Tomaz [de Aquino Leite], muita gente, muita gente.

Como é que você enveredou pelo choro naquele período? A minha linha musical, eu comecei na Madre Deus, ritmista, percussão, a minha linguagem era dentro disso, o samba. Quando eu entrei na Escola de Música foi que eu fui descobrir a música clássica, erudita, comecei a percorrer esse caminho. Meus estudos de flauta doce eram mais relacionados à música erudita. Nesse período, quando eu entrei na Escola de Música, ela não era direcionada à questão da música popular. Essa minha relação com o choro começou através de Zezé, eu comecei a ter aulas com ele. E no Laborarte, no Departamento de Som, a coisa da cultura popular, mesmo.

Você então vivenciou aquele ambiente laborarteano de pesquisa. Sim, tive contato com tambor de crioula, divino, cacuriá, Mestre Felipe, era um laboratório, a gente fazia um trabalho inovador para a época. Foi um período divino! Se eu pudesse voltar eu voltaria.

Apesar das preocupações iniciais de tua família, hoje é possível viver de música? Sim, dá para viver com dignidade. Há poucos dias eu estava conversando com uma aluna, prestes a fazer vestibular, meio em dúvida, ela querendo saber como estava a situação. Hoje nós temos várias escolas, faculdades, o mercado vai se abrir.

Além do [Instrumental] Pixinguinha, de que grupos musicais você fez parte? Do Laborarte, o Departamento de Som, fizemos vários shows, peças de teatro, Jorge do Rosário era o cabeça, Marco Cruz [compositor], Saci Teleleu [bailarino]. Depois eu comecei a trabalhar com o pessoal do choro, antes disso fiz alguns trabalhos com Rosa [Reis].

E o ambiente daqueles shows [Homenagem a Velha Guarda] do [Instrumental] Pixinguinha no [Teatro] Arthur Azevedo? O Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], essa história de vir estudar com o Marcelo [Moreira, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de dezembro de 2014], ali surgiu essa ideia de se fazer um grupo, tanto que o grupo começou com eles e a vontade de fazer a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Eles perguntaram se eu não queria fazer parte, alguns números com eles. Foi aí que eu me integrei, fiz parte da primeira formação.

Como era a rotina daquela formação? A gente ensaiava diariamente, à noite. O pessoal trabalhava, Correios, o Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014], Solano tem a empresa dele, o Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], aliás, começou conosco o Quirino, Carbrasa [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 19 de outubro de 2014] e Marcelo. Passamos praticamente um ano ensaiando para esse trabalho, muita partitura. O objetivo maior do grupo era a Suíte Retratos, e foi quando o Biné entrou. O show foi no [Centro de Criatividade] Odylo Costa, filho [no Teatro Alcione Nazaré, então Teatro Praia Grande, que integra o Centro]. Algumas pessoas [em entrevistas à Chorografia do Maranhão] falaram em Arthur Azevedo, mas foi no Odylo. Foi início de 1990.

Depois você saiu do Pixinguinha? Algum motivo em especial? Não, eu continuei tocando. Depois foi que Zezé entrou, eu tive um problema, tive que fazer um tratamento de saúde, me afastei, Zezé foi e assumiu.

Atualmente você integra algum grupo? Não. Atualmente estou só lecionando. Já integrei grupos de câmara aqui na Escola.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? É compositor? Não. Só instrumentista. Nessa praia eu ainda não enveredei.

Você toca algum outro instrumento? Não. Flauta doce e flauta transversa. Violão eu estou estudando na Licenciatura da UEMA [Universidade Estadual do Maranhão], percussão um pouco, mas meus instrumentos mesmo são a flauta doce e a flauta transversal.

Além de Rosa Reis [cantora], com que outros artistas você já tocou? Toquei com Cesar Teixeira [compositor], Josias [Sobrinho, compositor] e outros.

Você participou do Rabo de Vaca? Não. O Rabo de Vaca era Zezé, Omar [Cutrim, compositor], aquela turma.

E participação em discos? Já fiz. Fiz com Cláudio Pinheiro, não lembro agora o nome do CD, fiz a primeira gravação do Cacuriá de Dona Teté, foi um vinilzão, eu fiz aquela flauta. Eu ia gravar com Rosa, mas teve algum problema lá no estúdio. Fiz com Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], aquele disco produzido pelo marido da Zelinda [o falecido folclorista Carlos de Lima], de carnaval das antigas.

Na sua opinião, o que significa o choro? O choro é a grande música brasileira, a música genuinamente brasileira, podemos dizer assim. Uma música já mais elaborada, que vem do século XIX, com Callado [Joaquim Callado, flautista, considerado um dos pais do choro], que foi o cara que formou o primeiro regional de choro, tem uma contribuição imensa.

Entre as linhas você tem uma preferência, erudito ou popular? Ou está tudo misturado? Não, eu não faço distinção. Eu tenho uma formação, o começo, aqui na Escola de Música, foi clássica, tocando música barroca, gosto muito, gosto de fazer, de tocar, [sou] um negro que tem uma veia por essa música, mas não é só esse caminho, eu gosto muito da música popular também.

Você escuta muito choro, hoje? Ouço, ouço bastante.

Você tem acompanhado as mudanças que o choro tem experimentado? Sim. Há poucos dias eu estava ouvindo o Maurício Carrilho [violonista], aquele trabalho que ele fez há uns anos, com choros com compassos alternados, de cinco, de sete, é um trabalho interessante. Eu tenho visto as correntes, vão se modificando, existe uma linha de Brasília, com uns choros mais acelerados, São Paulo, mais cadenciado, Curitiba, Pernambuco, a gente [no Maranhão] já faz um choro mais tradicional.

No disco do [Instrumental] Pixinguinha a gente percebe, por exemplo, entre outras, uma influenciazinha do lelê. É, o nosso choro traz essas informações. O Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], por exemplo, o violão dele já traz informações jazzísticas.

Quem são os grandes flautistas brasileiros, aqueles que você gosta de ouvir, que te tocam? Eu sou um cara que sou apaixonado pela pessoa do Toninho Carrasqueira, é um guru, um cara de uma simplicidade, um coração, um puta músico.

Em que lugar você coloca o Altamiro CarrilhoO Altamiro Carrilho podemos dizer que é um papa, né?, da flauta. É um papa da flauta! A flauta do século XX. A escola brasileira de flauta é uma escola rica, grandes flautistas. David Ganc, o Antonio Rocha, da Escola Portátil, Dirceu Leite, a Odete [Ernst Dias], a mãe dos flautistas brasileiros.

A forma de consumir música mudou muito de uns tempos para cá. Como é que você consome música, hoje? Compra discos, ouve rádio, baixa, vê no youtube, ou tudo isso? Eu compro, continuo comprando. Tem coisas que, baixar, essa parte tecnológica eu ainda sou meio que um dinossauro [risos], eu ainda não sei muito vasculhar. Sei que tem muitos sites, tem muita coisa, eu gosto de ouvir música erudita, eu compro cds, mando buscar em São Paulo, Rio, a gente vai garimpando.

E aqui no Maranhão, quem são os flautistas que te chamam a atenção? Hoje nós estamos com uma safra de bons flautistas. Mestre Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] é uma memória, muito bom, fiz um trabalho com ele ano passado, foi um trabalho que nós fizemos os dois grupos, o Pixinguinha e o Tira-Teima [um show na programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, em 2013, promoveu o encontro dos grupos no mesmo palco, na praça Nauro Machado, na Praia Grande], um trabalho bacana, eu nunca tinha tocado com o mestre, eu me senti muito lisonjeado. Ele é um autodidata, toca de memória. Tem o Lee Fan [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de setembro de 2014], está com um grupo, fazendo um trabalho, teve outros, a Suellen Almeida promete.

O professor fica feliz quando vê essas figuras despontando? Ô! É o que nos alimenta. Tem o Elton, Erivan, Gabriel foi para o Rio, morar com uns parentes. Tem o Neto [João Neto, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Neto agora é quem tá na parada!

Você se considera um chorão? [Pensativo] Eu gosto de choro! Se eu disser pra ti que sou um chorão, um chorão, eu não sei. Eu gosto muito do choro. Taí! Pra ser um chorão, precisaria o quê? Ficou uma pulga [atrás da orelha], o que é ser chorão? [risos]

Hoje nós temos uma escola de música, a escola municipal, que está parada, duas faculdades. Como você vê esse cenário da música, do estudo da música, hoje, no Maranhão? As coisas estão evoluindo, crescendo. Há tempos só tínhamos a Escola de Música, e agora já temos a escola do município, temos a banda do Convento das Mercês, grande formadora de jovens, em sopro, cheguei a fazer parte, dei aula, lá eu tive a oportunidade de deixar um pouco, passar minha semente para algumas pessoas, o Elton é fruto dessa escola, os Carafunim [Hugo e Nelma, primos, trompetista e saxofonista, respectivamente], estes dois cursos que nós temos aí, Pixixita [o músico José Carlos Martins] quando era vivo sonhava com este curso superior, infelizmente não chegou a ver.

Você acha que esse ambiente novo favorece a uma cena melhor, da música instrumental, especialmente do choro, em São Luís? Você gosta do nível do choro praticado em São Luís? A gente trabalha com o que tem, a gente faz o que pode. Eu te digo com certeza: está caminhando. Antigamente não havia escola de choro. O professor Zé Hemetério [multi-instrumentista] foi orientador de muita gente, Elinaldo [Gordo Elinaldo, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Ubiratan Sousa. Mas foi com a história do [Instrumental] Pixinguinha que essa história do choro começou a se disseminar. O Pixinguinha foi talvez o primeiro grupo de música popular dentro da Escola.

O choro tem essa capacidade de construir unidade. A Escola tinha um perfil mais erudito, ele acabou agregando grande parte dos alunos nesse movimento do choro. Exatamente! Hoje eu tenho muitos alunos aqui, a Suellen, é apaixonada por choro. Minha classe de flauta, eu trabalho com música erudita. Mas não tem como focar só nessa parte erudita, os alunos querem estudar outra coisa, a linguagem, mudar um pouco. A gente procura ir ajudando-os a ir por estes caminhos. As pessoas gostam muito de música popular, a gente tem que se desdobrar. Não há como desfiliar a flauta do choro.

Serra de Almeida recebe homenagem de amigos por seus 80 anos

O flautista durante sua entrevista à Chorografia do Maranhão, que inaugurou a série. Foto: Rivanio Almeida Santos
O flautista durante sua entrevista à Chorografia do Maranhão, que inaugurou a série. Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O flautista Serra de Almeida completa, nesta sexta-feira 13, 80 anos de idade, metade deles dedicados à flauta, que aprendeu a tocar já quarentão, como revelou à Chorografia do Maranhão, no depoimento que abriu a série, publicada entre março de 2013 e maio deste ano no jornal O Imparcial.

Há 26 anos o são-bernardense integra o Regional Tira-Teima, mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, prestes a lançar (finalmente) seu (aguardado) disco de estreia – incluindo, no repertório, alguns choros de autoria de Serrinha, como é carinhosamente chamado pelos colegas de grupo e por uns mais chegados.

Não poderia haver melhor forma de comemorar a data que com uma roda de choro à altura do talento do mestre. É o que acontecerá hoje (13), às 20h, no terraço do Hotel Brisamar, onde o Tira-Teima costumeiramente se apresenta às sextas-feiras. Mas esta tem sabor especial, por razões óbvias.

Ao grupo, cuja formação atualmente se completa com Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro e voz), Luiz Jr. (violão sete cordas), Henrique (percussão) e Zé Carlos (percussão e voz), se somarão as participações especiais de Anna Claudia, Augusto Pellegrini, Carlinhos da Cuíca, Carlinhos Veloz, Fátima Passarinho, Celson Mendes, João Pedro Borges, Juca do Cavaco, Zequinha do Sax, Zé Luiz do Sax e Osmar do Trombone, além da presença de Bernardo Serra, irmão do homenageado.

Fisicamente, Serrinha lembra o lendário Copinha, mas sua predileção é por Altamiro Carrilho. Merece destaque sua memória prodigiosa: é capaz de tocar incontáveis choros sem qualquer estante à sua frente. Quem quiser comprovar, eis aí uma ótima oportunidade.

A produção não informou o valor do couvert artístico.

Chorografia do Maranhão: Danuzio Lima

[O Imparcial, 5 de outubro de 2014]

Filho de Carlos e Zelinda Lima, Danuzio Lima, flautista maranhense radicado em Miami, é o 41º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Danuzio Lima é filho dos folcloristas Carlos de Lima e Zelinda Lima. Ainda cedo enveredou pelas artes, tendo passado, ainda criança, pelo teatro e pelo rádio, antes de dedicar-se à música. “Eu comecei tarde, só fui ter minha primeira flauta aos 29 anos”, revela, modesto.

Doutor em Desenvolvimento Urbano formado em Paris Carlos Danuzio de Castro e Lima nasceu em São Luís do Maranhão em 22 de maio de 1953. Está radicado nos Estados Unidos há 28 anos. Thiago Lima, filho do primeiro casamento, é formado em Cinema. Hoje Danuzio é casado com a gaúcha Ana Freire e integra o Clube do Choro de Miami, grupo que na terra do Tio Sam dedica-se ao mais brasileiro dos gêneros musicais.

O flautista concedeu entrevista à Chorografia do Maranhão, a 41ª. da série, no vasto terraço da casa de sua mãe, onde se hospedou na mais recente passagem pelo Maranhão. Para lá dirigiram-se os chororrepórteres, em sua companhia, após ele ter sido entrevistado ao vivo e tocado algumas peças no dominical Chorinhos e Chorões, apresentado por Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Na ocasião, na emissora, Danuzio estava acompanhado de parte do Regional Tira-Teima, com quem havia tocado na sexta-feira anterior: Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Léo Capiba [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de abril de 2014] e Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você é filho de dois dos maiores folcloristas do Maranhão. Qual a influência deles nessa tua veia artística, nesse caminho musical? Eu diria que 99%, por que eu muito criança, ainda, fiz teatro com meu pai. Ele e minha mãe foram dos fundadores do Tema, o Teatro Experimental do Maranhão. Eu quando criança fiz peça de Gianfrancesco Guarnieri, Gimba. Eu era o Tico, filho do malandro do morro que queria ser ele, uma peça muito bonita. Fiz outras peças. Fiz, quando a televisão Difusora se instalou aqui, meu pai e minha mãe trabalhavam lá, naquela época, Parafuso, grande Parafuso!, sonoplasta. Eu fiz um seriado lá, era um programa para crianças. Fiz rádio, lia com Regina Telles, lia histórias no rádio. Tudo foi uma influência muito grande. Minha mãe sempre gostou muito de cultura popular, bumba meu boi, casa de mina, tambor de crioula, tudo isso sempre foi muito presente na minha vida, num tempo em que não era uma coisa muito bem vista. Inclusive amigos do meu pai no Banco do Brasil diziam, “rapaz, você anda com esse povo de teatro?” [risos], não era uma coisa muito boa.

Então antes de você se dedicar à música você teve uma passagem por outras linguagens artísticas. Sim, eu fui me dedicar à música, eu comecei a tocar com 29 anos. Foi a primeira vez que eu comprei uma flauta para mim. A admiração pela música, pela arte, pelo teatro, pelo cinema, literatura, é muito mais antiga. Eu tocar música veio muito mais tarde.

Como era o ambiente musical em sua casa? O que vocês ouviam? Você tinha vivência com grupos musicais? Não, eu não tinha vivência. Mas meu pai, eu me lembro dos LPs que tinha lá em casa, eu ouvia até furar. Eu lembro, por exemplo, é uma mostra do que eles ouviam. Meu pai gostava muito de música, ouvia muito bolero, esse tipo de coisa. Mas eu me lembro, por exemplo, minha primeira influência de música, de eu sentar e ouvir um LP: Chico Buarque. Eu ouvi  tudo de Chico Buarque. Tinha um disco americano, chamava The Platters, cantavam Only you, acho que era o único disco estrangeiro que a gente tinha, talvez tivesse Edith Piaf, eu não lembro agora. Tinha um disco de Geraldo Vandré, eu achava muito bonito também, Caetano Veloso, ele cantava umas coisas que eu nunca mais ouvi: “é de manhã, é de madrugada, é de manhã”, eu nunca mais ouvi. Essas foram mais ou menos as minhas primeiras influências musicais.

Na tua casa não se ouvia choro, por exemplo? Não tinha discos de choro? Quando é que essa música começa a fazer parte de teu imaginário? [Pensativo] O choro… Na casa da minha vó tinha uma coleção que se perdeu, daqueles discos antigos, que vinham dentro de uns álbuns que se fechavam, tinha Ivon Cury, tinha milhares de coisas, Ângela Maria, e tinha também o choro. Tinha essas coisas mais conhecidas, Tico-tico [no fubá, de Zequinha de Abreu], Brasileirinho [de Waldir Azevedo], muita valsa, eu me lembro de Branca [de Zequinha de Abreu], como é o nome do outro? Uma porção de valsas. O choro começou mais por esse lado aí. Era na verdade minha introdução à música instrumental. Essa música instrumental brasileira eu ouvi antes de sinfonia, naquela época pra mim não existia. Música instrumental eu ouvi nesses discos grossos e pequenos da casa da minha vó.

Teatro, música, cultura popular. E rádio? Vocês ouviam rádio em casa? Eu fiz rádio! Eu fiz esse programa de rádio, contava histórias, eu, Regina Telles. Eu não lembro direito quais eram as histórias, mas eram diálogos que a gente lia.

Sua casa sempre foi muito frequentada por artistas, não é? Sempre foi. E também o pessoal que vinha de fora, para fazer cinema, por exemplo, A faca e o rio, passavam lá por casa, mamãe dizia onde eram os lugares mais interessantes para filmar, as pessoas que deviam falar. Queriam um pote de barro, “ah, é aqui”. Ela era meio contrarregra. Na verdade, meu irmão Álvaro acabou sendo contrarregra de um desses filmes, não lembro qual foi. A faca e o rio, ou Uirá, um índio a caminho de Deus. Eles [seus pais] apareceram em vários filmes desses, andando, assim como personagens.

Quem dessas figuras importantes te marcou? De contato eu vou falar da pessoa que toca meu coração. Pra mim é o meu poeta [Luiz Algusto] Cassas. Eu adoro tudo o que Cassas escreve. É de um humor, uma leveza, um retrato. Uma coisa que era sempre importante em meu pai, você não pode falar Carlos Lima sem falar em São Luís do Maranhão. Quando meu irmão morreu nós vivemos no Rio, fomos para Brasília, fechamos a casa. Quando voltamos, as lembranças todas voltaram. Ele nunca se sentiu bem, em casa, sem ser em São Luís do Maranhão. Tudo o que ele escreveu é São Luís do Maranhão, a música, a literatura, novela se passa em São Luís do Maranhão, a cidade. Cassas para mim é isso. Ele traz essa cidade que está longe de mim, não só fisicamente, mas também longe no tempo.

E a tua relação com teu pai, como era? Outro dia alguém me perguntou. Meu pai e minha mãe eram duas pessoas completamente diferentes. Minha mãe era uma pessoa que sempre estava um pouco na frente do tempo dela, usava calça comprida no tempo que não se usava, mulher que trabalhou o tempo inteiro. Nossa casa nunca foi aquele ambiente familiar, fechado. A nossa casa sempre foi a extensão da rua, sempre entrando e saindo gente. Até hoje é assim. Isso em função da minha mãe. Meu pai, que todo mundo acha que é um cara mais aberto, fala muito, contava história, é um cara muito mais fechado. Não tinha muito contato físico com a gente, vinha de uma família muito rígida. Até quando ele entrou na Academia Maranhense de Letras, foi uma coisa que me marcou profundamente, quando ele disse “quisera minha mãe estar aqui”. Ele estava acertando uma conta antiga: cheguei. A pressão era muito grande na família dele. Ele era muito mais tímido, muito medroso, nesse sentido. Zelinda sempre foi de meter os peitos e vamos lá. Ele era mais retraído, mais tímido. Gostava de gente, gente alegre, mas pouca gente. Ela sempre teve as ideias, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo, vamos visitar isso. Na verdade ele escreveu sobre cultura popular por que ela, quando foi para o interior, para Codó, quando foi transferido pelo Banco do Brasil, ela se interessou, não estava fazendo nada, era a esposa de um bancário, se interessou para ver o que o pessoal fazia, em termos de artesanato. Aí ele começou a acompanhá-la e a gravar as coisas, ele escrevia bem, ela empurrou ele. Era uma coisa intuitiva, desde criança, filha de espanhol, neta de índia, tinha que sair para a rua, ver o que era.

Você falou que só foi se dedicar à música com quase 30 anos. Você tem outra profissão? Eu sou engenheiro civil, formado aqui em São Luís do Maranhão. Daqui eu saí, fui para a França, trabalhei nos Correios, fui diretor de engenharia dos Correios e Telégrafos daqui do Maranhão por pouco tempo. Aí ganhei uma bolsa do Rotary Internacional, fui para a França. Era pra ficar um ano, fiquei mais, voltei, pedi uma bolsa para o CNPq, fui para a França, fiz um curso de mestrado e doutorado em Planejamento Urbano, lá em Paris. Já no último ano eu entendi que um doutorado não era uma coisa que assim, entendeu? Eu não ia ser professor, pelo menos não professor de urbanismo, engenharia, então eu andava, Paris eu ia sempre num café que tinha lá e tinha um argentino que tocava bossa nova. Era um duo, violão e flauta. Eu achava muito bonito. Depois de um certo tempo, eu ia toda semana vê-lo tocar, ficou amigo, um dia eu falei pra ele: “eu gostaria de tocar, é bonito flauta”. Ele falou: “e por que não aprende?”. E eu disse que eu achava que estava muito velho para aprender a tocar. Aí ele me disse: “depende. Você quer ser o quê? Concertista? Se for, realmente está velho”. “Eu quero chegar em casa, ficar sozinho, tocar um pouquinho”. Aí ele me ajudou a comprar uma flauta, que foi o que me salvou dessa depressão pós-doutoral [risos]. Herdei um pouco de meu pai, isso, essa coisa muito inquisitiva, de querer saber mais, aprender mais, não bastou, até hoje estou aí caçando alguma coisa na música. Não me considero músico. Eu me considero muito mais um amante e incentivador do choro. Da música brasileira em geral, mas principalmente do choro. Eu tenho um prazer muito grande em ouvir as pessoas que tocam. Sou mesmo um entusiasta da música. Toco por que, sei lá, sou teimoso, tento fazer uma coisa que talvez não devesse fazer.

A partir de quando o choro passou a ganhar essa tua preocupação e predileção? Quando eu voltei de Paris, voltei para o Rio de Janeiro, fiquei no Rio de Janeiro, trabalhei no Patrimônio Histórico durante dois anos. Eu fui num encontro que depois eu fui saber que foi um encontro histórico. Teve uma oficina de choro no Rio de Janeiro, na Unirio.

Nos anos 1980 ou 90? Entre 82 e 84, eu diria. Teve um grande encontro, workshops, distribuíram umas partituras. Fiquei treinando em casa, nunca havia tido a oportunidade de tocar choro com ninguém. Depois eu fui saber que essa reunião foi o que deu o início, era um experimento para ver qual o interesse no choro. Depois, dali saiu a ideia de formar a Escola Portátil. Era o pessoal que estava lá, Luciana [Rabello, cavaquinista]. Eu não conhecia ninguém, não conhecia Luciana, não sei se Raphael [Rabello, violonista sete cordas, irmão de Luciana] estava lá, depois eu li isso em algum lugar e lembrei: “eu estive nessa reunião” [risos]. O Tira-Teima é muito importante para mim. Quando eu vim à São Luís eu conheci o Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], fiquei encantado com o cavaquinho. Convidei-o a vir aqui em casa, ele veio, depois veio com Solano, com o pessoal do Tira-Teima. Eu tocava um pouquinho de bossa nova, eles tocavam choro. A partir daí ele começou a me incentivar. Eu fui para os Estados Unidos, morei em Chicago, trabalhei na prefeitura de Chicago durante oito anos, sempre ouvindo choro, ouvindo música, tentando tirar alguma coisinha. Quando eu mudei para Miami, existia um grupo lá chamado Aquarela, e o flautista vinha embora para o Brasil, tinha terminado o curso de flauta dele na Universidade de Miami. O pessoal do choro me convidou para tocar, eu nunca tinha tocado, fui tirando de ouvido, toda semana tinha uma roda, eu ia, fui tirando o repertório, fui tirando as partituras, aí foi realmente que eu comecei a tocar mais, a me interessar mais, pesquisar, ler tudo sobre choro, entender que é um movimento muito maior, que é um movimento de afirmação nacional, de transformação da música europeia para a música brasileira, até se transformar na voz nacional. Da mesma maneira que foi o movimento nos Estados Unidos com o ragtime, em Cuba com o danzón, o mesmo processo, o processo de afirmação nacional.

Esse processo todo de aprendizado foi de forma autodidata? Ou teve alguém que desempenhou um papel importante? Não, foi, eu nunca tomei aula, nunca estudei assim, com uma pessoa. Agora tem até um cara que toca na sinfônica em Miami, eu estou tendo umas aulas com ele, tocando uns duetos. No Rio de Janeiro, por exemplo, eu tive aula com David Ganc [flautista], ele tem um duo com Mário Sève [saxofonista e clarinetista]. Sabe como é: eu trabalho, esposa, filhos nascendo.

A flauta entrou como um hobby, um escape para o que você chamou de depressão pós-doutorado. Ela continua cumprindo esse papel, já que você não teve uma atuação, digamos, profissional, na música. Você nunca viveu de música? Não é bem um escape, era um amor muito grande pela música. Eu estava programado para fazer um doutorado e seguir essa carreira, tive um pouco uma desilusão. Passou a ser importante eu vivenciar [a música], não só ouvir, mas vivenciar isso. Hoje em dia a minha frustração é exatamente essa, até agora eu não pude me dedicar a isso, é uma frustração muito grande. Eu acabo de me aposentar e agora quando eu voltar eu espero me dedicar um pouquinho mais.

Agora aposentado há a perspectiva de voltar para o Brasil? Há a perspectiva de estudar música. Voltar para o Brasil, não sei. A minha esposa está trabalhando ainda e eu adoro o Brasil, mas eu acho o momento muito complicado. Não só politicamente, mas tudo me choca um pouco. Não é aquela de “voltei americanizado”, não. Me choca um pouco o desrespeito pelas pessoas, isso é uma coisa que realmente me deixa muito triste. Acho que piorou bastante. Eu lembro no tempo de meu pai, meu tempo de criança, as praças floridas, sem lixo no chão, sem balbúrdia. Não é só no Brasil, é um negócio mundial, a falta de respeito, a falta de consideração. Achei isso numa cidade aqui no Brasil: em Gramado, as pessoas dão bom dia, param para as outras atravessarem na rua. Eu se voltasse para o Brasil teria que arrumar um lugar onde eu não me contrarie muito.

No Brasil os cachês em geral são muito pequenos. Como é isso nos Estados Unidos? Nos Estados Unidos também. Em Nova Iorque, que a concorrência é muito grande, tem gente que toca de graça, se toca por pouco. Em bares, boêmia, esse tipo de coisa. Falando de músico sem um nome, e tal. Em festas particulares o cachê é bem maior. O que é positivo nos Estados Unidos é que tudo, não só na música, é uma escada, você vai subindo, vai subindo, não tem vão. O vão depende de você, se você desliza. Você vai montando os degraus, criando seu nome, você chega lá. O Paulo Moura, que eu encontrei no Rio de Janeiro, me disse que a diferença daqui pros Estados Unidos é que lá o cara passa e diz, “olha, esse cara aí já matou um leão; aqui no Brasil tem que matar um leão todo dia”, quer dizer, amanhã não interessa se você é Paulo Moura, se você já tocou com quem, é uma coisa meio chata.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? Compõe, arranja? Não, eu devo ter uma musiquinha, mas não, não tenho capacidade para isso.

Você gravou um disco. Fale um pouco dele. Ave rara, tem uma foto da pomba do divino na capa. Esse cd não era uma coisa para vender, nem nada. Eu tinha vontade de fazer, nós fizemos em um dia, um violão, Claudio Spielvan, que é um músico profissional maravilhoso, que era o dono do estúdio, eu e o Felipe, que faz a percussão. Nós gravamos, eu tinha muita vontade de gravar duas músicas de meu pai, gravei Ave rara de Edu Lobo, Carolina de Chico Buarque, gravei Doce de coco [de Jacob do Bandolim] tipo bossa nova, não em choro por que não tinha regional, e tinha um choro também do Evandro [do Bandolim], Elegante, que nós gravamos. Era uma coisa para dar para os amigos, onde eu tocasse eu pudesse dar para as pessoas para tocar em outros lugares. É uma coisa muito cara, hoje em dia cd é muito difícil de fazer. Tá todo mundo fazendo uma música e botando na internet, ninguém está mais fazendo cd inteiro. Eu ainda compro. Eu não vou comprar uma faixa do Zé da Velha, quero o cd inteiro, quero ver a capa [risos].

De que grupos musicais você participou e participa hoje? Em Chicago eu participei de coisas de jazz, me chamavam para tocar, tinha duo, tinha um grupo que o nome era Rio Thing. Era um trocadilho com real, que é real. Tinha muita gente tocando bossa nova como rumba [risos] e eu botei esse nome bem pretensioso. Fiz muitos duetos com violão. Praticamente isso. Depois esse grupo. Em Miami tinha um triozinho que tocava bossa nova, botava uns choros no meio. Depois comecei a tocar choro, fiquei no Aquarela. Eu tenho viajado, não tenho tocado muito. O que me fascina não é tocar em público, o que me fascina é a roda de choro. Isso para mim é o meu objetivo. É um pouco o espírito do Six [o advogado e cavaquinista Francisco de Assis Carvalho da Silva], que nunca tocou em público [risos], de sentar na roda, tocar uma música, ouvir o outro tocando, esse é meu fascínio. O começo são os saraus na casa dos ricos, mas essa roda é a escola do choro, onde você aprende, erra, vê quem tá tocando o quê.

O que significa essa música, o choro? Significa tudo. Em primeiro lugar, só falando da música, eu acho uma música sem defeito. Minha opinião pessoal, e depois, de novo, quem sou eu para falar sobre música? Jazz, gosto muito, vi e ouvi todo mundo, de Miles Davis… depois todo mundo querendo improvisar, eu perdi um pouco o interesse. A música clássica eu acho que você tem que se dedicar mais ainda para entender, tem a história da coisa, para você realmente usufruir, é uma coisa mais difícil, mais complicada, não que o choro não seja. Eu acho o choro uma música perfeita, existem vários gêneros dentro do choro, pegadas diferentes, um toca de uma maneira, outro de outra, a formação, os instrumentos, a harmonia, é uma música perfeita. Fora isso, a importância da música. É nossa cultura, é quem eu sou. Você não pode negar isso. Às vezes as pessoas acham que eu sou meio radical por que eu não ouço outras coisas. Eu ouço, mas eu não tenho tempo para ouvir tudo [risos].

Você acha que o choro tem sido mais valorizado nos Estados Unidos de uns tempos para cá? Eu não sei. Entre os brasileiros que moram lá e os americanos, não há a menor dúvida que os americanos sentam, ouvem, vêm depois e perguntam: “que música é essa?”. Os brasileiros que moram lá, a maioria não está muito interessada. O choro nos Estados Unidos, do tempo que eu estou lá, não há a menor dúvida. Esse ano passaram por lá 20, 30 músicos brasileiros, passou o Choro das Três, Alessandro Penezzi [violonista], Teco Cardoso [flautista e saxofonista], Hamilton de Holanda [bandolinista], Alexandre Ribeiro [clarinetista], Pablo Fagundes [gaitista], Dudu Maia [bandolinista], Duo Brasileiro, com Douglas Lora [violonista], Rogério Caetano [violonista sete cordas]. [O choro] está ganhando um espaço muito grande, de costa a costa, concerto de choro, todo dia você vê, tem um. Vocês me perguntaram nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro. Existe o Clube do Choro de Londres, Toulouse, Bordeaux, Paris, Amsterdã. No Japão, todo ano, o Época de Ouro vai, tem um grande festival de choro em Osaka. Eu participei de um festival de choro da Escola Portátil em São Paulo, São Pedro da Aldeia, tinha gente de todo mundo.

Você se considera chorão? Não. Absolutamente. Não. Eu não me considero nem músico de choro. Eu me considero um amante de choro. Vou dar um exemplo, dá para entender melhor o que eu quero dizer. Quando eu estive em São Paulo eu sentei do lado do Proveta [Nailor Proveta Azevedo, clarinetista e saxofonista], onde ele ia eu ia atrás, às vezes a mesa já estava ocupada. Num dia eu cheguei cedo, fiquei com meu prato pra me servir o almoço, onde ele sentasse eu ia atrás, sem ele saber. Eu fui. Sentei, ri, “oi, tudo bom?”, “tudo bom”. Aí eu perguntei, “queria fazer uma pergunta, posso?”, “pode, tudo bem”. E eu: “mestre Proveta, e esse negócio de improvisação no choro, como é que é? Eu tocava um pouquinho de bossa nova e conseguia ludibriar o público, as notas saíam bonitinhas, parecia um negócio arrumadinho”, eu já tinha lido acordes, escalas, harmonias. Eu pensava que ele ia me dar um método. Ele olhou pra mim e disse “quantos choros você sabe decorados?”. “Olha, agora eu tou quase chegando em 40”. Aí ele disse: “no dia que tu souber 250 tu vai improvisar”. Chorão é esse cara. Chorão é Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], que você canta ele toca 300 mil choros, Proveta, esse pessoal é chorão.

Chorografia do Maranhão: Lee Fan

[O Imparcial, 7 de setembro de 2014]

O flautista e saxofonista “bossa nossista” Lee Fan é o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O flautista e saxofonista Lee Fan foi apresentado ao choro através de um cavaquinho que ganhou de presente de uma tia, professora de música. Na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo ele concluiu os cursos de cavaquinho e flauta transversal. O saxofone foi consequência.

Lee Jun Fan Santos de Sousa herdou o nome de Bruce Lee, astro de filmes de artes marciais de quem seu pai é fã e resolveu batizar o filho, homenageando-o. O menino Lee chegou a enveredar pelas artes (marciais), mas temendo algum acidente com as mãos, optou pelas artes (musicais). Impossível não lembrar os versos de Caetano Veloso, em sua Um índio: “tranquilo e infalível como Bruce Lee”. “Minha vó era índia”, revelou-nos o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão, cujo depoimento foi colhido no pátio comum entre La Pizzeria e a Pousada Portas da Amazônia, na Praia Grande, espaço onde ele mesmo, então um garoto com entre 14 e 15 anos, chegou a tocar, durante a breve temporada em que o espaço abrigou o saudoso projeto Clube do Choro Recebe, de que ele lembra com carinho e saudade.

Lee Fan nasceu em 19 de março de 1993, em São Luís. Desde então mora na Cidade Operária. “Moro com meus pais”, conta o filho de José de Ribamar Ferreira de Sousa, técnico em informática, e Conceição de Maria Matias Santos, ex-cobradora de ônibus, que deixou a função após ser vítima de nove assaltos. “Ela contraiu fibromialgia, não pode mais trabalhar na profissão. Mas sempre foi muito guerreira, não gosta de ficar parada, sempre teve um pulso administrativo muito grande, então montou lá em casa uma lan house, uma xerox, que ela mantém e com que paga nossas contas. Lá em casa todos somos autônomos”, admite o garoto prodígio.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você está cursando faculdade? Faço Música, sétimo período da Licenciatura na UFMA [Universidade Federal do Maranhão].

Você chegou a procurar outra coisa? Os pais chegaram a recomendar fazer outra coisa por que música não dá futuro ou sempre teve apoio? Graças a Deus, lá em casa eu sempre tive muito apoio. Minha mãe sempre me instigou a estudar o que eu queria. O que ela sempre me diz é que para o bom profissional não falta trabalho. Esse é o lema que a gente carrega. Minha família é de músicos, essa nova geração. Tudo começou com minha tia, Maria Zélia, que é professora da Escola de Música, é minha tia legítima, irmã de minha mãe. Eu sempre tive esse total apoio.

Mas teu pai não quis que você fosse lutador de artes marciais? [Risos]. Na verdade eu cheguei a praticar, eu lutei alguns anos tae-kwon-do, cheguei até a competir, estava tendo um bom desempenho, ganhando medalhas. Só que nessa época, mesmo novo, eu já fui obrigado a tomar uma decisão: ou música ou arte marcial. Eu lutando era um risco grande de machucar minha mão. Como eu já tinha esse foco, de trabalhar com música, eu não quis correr esse risco. Então abri mão da luta.

Além de músico você desenvolve alguma outra atividade para ganhar dinheiro? Ou vive de música? Não. Eu sobrevivo, não é “nossa, como eu ganho dinheiro!”, mas eu ganho dinheiro, procuro rendas em vários ramos da música. Eu não sou um cara que “ah, eu só quero tocar, meu cachê vai ser tudo pra mim”. Não, eu não penso assim, tanto que estou fazendo uma faculdade. Eu dou aulas, trabalho com gravações, além dos shows. A gente tem no Bossa Nossa um pouquinho da parte empresarial, a gente consegue ganhar um pouquinho mais. A gente tenta de todas as formas aumentar a nossa renda trabalhando com o que a gente gosta, sem precisar ir para outros ramos, outras profissões. Eu tento com música pagar as minhas contas, estou conseguindo. Pela faculdade já consegui algumas coisas, já estou dando aula no Sesc [Serviço Social do Comércio] de carteira assinada. A profissão de professor, mais o artista da noite, mais o cara que trabalha com gravação, quer dizer, estou juntando tudo para montar o profissional, o músico.

Para sobreviver de música, figurativamente, tem que rebolar, não é? [Risos]. É, não é fácil. Quem achar que é fácil está enganado. Muita gente, até amigos nossos, colocam a música muito pra baixo, como se fosse uma coisa. Dizem “Deus me livre que meu filho estude música”. Eu já não penso assim. Se quiser estudar música, vou apoiar, vai ser a escolha dele. Lógico que cada escolha é uma renúncia, você vai ter que saber que você vai ter que passar por uma fase que não vai ser fácil, abrir mão de vários finais de semana com sua família, até ter uma situação favorável onde você possa selecionar os trabalhos, mas até aí é uma trajetória que não é fácil, nem pequena. Dependendo do mercado em que você vai trabalhar, se é no Rio de Janeiro, se é no Maranhão, você vai ter que manter uma rotina de estudos de alto nível.

Antes de ingressar na UFMA você estudou na Escola de Música, não é? Sim. Estudei na Escola de Música flauta transversal e cavaquinho. Flauta transversal eu estudei com o professor Paulo Santos, o grande Paulinho, e o cavaquinho eu estudei com o Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], o Emilson Pires [nome de batismo de Juca do Cavaco], e com o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], sendo que eu entrei na Escola de Música no cavaquinho. Aprendi flauta doce em casa, através de minha tia. Quando eu entrei na Escola de Música eu já tinha um cavaquinho, que ela me presenteou, e eu comecei a estudar cavaquinho. Logo após eu fui para a flauta transversal. Lá na Escola de Música eu vi uma apresentação do grupo Instrumental Pixinguinha, foi quando eu vi pela primeira vez alguém tocando flauta transversal ao vivo, aquilo me encantou muito. No semestre seguinte eu me inscrevi para flauta transversa. A partir de então não parei mais de estudar o instrumento. Até deixei, na verdade, um pouco o cavaquinho de lado para poder me dedicar à flauta transversa.

Você chegou a concluir o curso na Escola de Música? Sim, todos dois. Fiz os 10 períodos.

Além de tua tia Zélia, que com certeza te influenciou bastante, como era o ambiente familiar em relação à música? O que se ouvia? Meus pais gostavam muito de samba. Meu pai sempre ouvia aquelas músicas bem retrô, Alphaville, bem antigas, brega também rolava muito. Eram pessoas que ouviam coisas normais, não era bossa nova, não era jazz, não era blues, não tinha seleção. Minha mãe não tem o perfil de ligar o som para ouvir música. Meu pai, sim, ligava, ficava ouvindo. Eu fui aprendendo ouvindo, hoje eu sei tocar muita música antiga de ouvir quando meu pai ligava e botava para tocar.

Além de flauta e cavaquinho você toca algum outro instrumento? Toco sim. Atualmente os instrumentos a que me dedico são a flauta transversal e saxofone. Por que o saxofone? Eu trabalhei em um grupo chamado Pagode do Ivan. Em vários grupos, mas o Pagode do Ivan foi o principal. Hoje em dia, não só na música, as pessoas têm que ser polivalentes, têm que ser versáteis, na música principalmente. Eu não poderia ficar tocando só a flauta transversal por que o mercado pede que o músico de sopro toque também saxofone. Houve uma tendência para que eu começasse a aprender esse instrumento. Não foi uma obrigação. Eu experimentei, gostei muito e hoje eu me dedico a esses dois instrumentos com o maior prazer.

O cavaquinho está meio largado. Isso! Eu ainda toco cavaquinho. Como eu trabalho com as mãos, a música está direto, todo dia em mim. Quando eu pego o cavaquinho, eu ainda sei tocar as mesmas coisas, eu só não vou pra frente. Mas pra trás, graças a Deus, eu ainda não fui [risos].

A busca pelo saxofone foi autodidata ou você teve professor? Foi autodidata. Eu não fui para um lugar pegar aula, mas eu sempre pesquiso muito, converso muito com quem toca. Quer dizer, eu acabo pegando aulas com várias pessoas, que é uma aula de conversa, não é uma aula de didática, com roteiro. Como eu já tocava flauta, eu tive muita facilidade de migrar para o sax, a digitação é bem parecida, a diferença maior é na embocadura. Quando eu comprei o sax, não sabia nada, fui tocando e metendo a cara.

A escolha dos sopros deve-se à influência de tua tia? Como é que a flauta aconteceu? Não. Ela me deu um cavaquinho. Eu aprendi a tocar flauta doce e tocava até relativamente bem, zerei os métodos todos. Fui pra Escola de Música, estudei cavaquinho e simultaneamente estudava flauta doce. Um dia fui ao [Teatro] Arthur Azevedo e o Pixinguinha era um dos grupos da programação. Se não me engano, era até o João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] que estava tocando, não era o Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] que estava nesse dia. E a música que me marcou muito foi André de sapato novo [de André Victor Correia]. Eu ouvi aquela música, fiquei, “nossa, é isso que eu quero para mim”. No semestre seguinte eu me matriculei, ganhei minha flauta estudante, comecei a estudar. Como minha família é de músicos, desde cedo começou a aparecer trabalho para mim. “Nossa, ele é criança!”, eu comecei a ir juntando uns trocados para comprar essa flauta aqui [aponta para seu instrumento, sobre a mesa], que eu já consegui comprar com os meus trabalhos.

Além do Bossa Nossa e do Pagode do Ivan, de que outros grupos musicais você fez parte? Participei do grupo Vamu di Samba, antes do Pagode do Ivan. Antes do Vamu di Samba eu participei do grupo Som Brasil, só que foi uma passagem rápida. Simultaneamente, nessa época, era até com Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], o grupo Som Brasil, lá na Escola a gente tinha uma brincadeira, a gente tocava samba e pagode, que era o grupo Pagodez. Era uma brincadeira, mas foi lá que eu comecei a entender a linguagem do samba, como colocar a flauta no samba. Apesar de ser música brasileira, ser ligado ao choro, a forma como você vai colocar, para não atrapalhar quem está cantando, é uma forma delicada, o chamado contracanto. Lá foi onde eu comecei assim, de fato. Simultaneamente também estava na Segunda sem lei [evento semanal, às segundas-feiras, na Associação Atlética do Banco do Estado do Maranhão, AABEM]. A primeira vez que eu toquei samba foi lá. Lá eu conheci João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a proposta era de samba, mas como a gente gosta muito de choro, o quanto a gente podia a gente tocava. Lá iam também Wendell Cosme [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], era uma festa muito legal.

E os grupos de choro? Toquei durante algum tempo no Chorando Callado, logo depois da saída do Tiago Silva [clarinetista e saxofonista], ele foi para Manaus. Toquei também algum tempo no Um a Zero, mas já não foi como membro do grupo. Eu substituía João Neto em algumas vezes que ele não podia ir. Em participação eu toquei em quase todos os grupos, o Instrumental Pixinguinha, Urubu Malandro, Os Cinco Companheiros. Eu cheguei a tocar com eles, em várias festas. O que durou mais tempo foi o Chorando Callado.

Atualmente você só integra o Bossa Nossa? Sim, só o Bossa Nossa.

O que significou para você, para os outros membros do Bossa Nossa, participar do Festival de Jazz e Blues de Barreirinhas [o VI Lençóis Jazz e Blues Festival]? Foi um presente! Eu considero. Foi um convite feito pelo [produtor] Tutuca Viana. Como a gente tem uma agenda fixa, ele nos viu tocando em um restaurante, gostou muito e convidou. Nós mesmos nem acreditamos, um festival onde só toca a galera fera, de fora. A gente encarou com muita seriedade e tentamos fazer nosso melhor. Graças a Deus o público gostou muito. Foi realmente um presente e uma honra muito grande, pra gente, poder fazer parte desse evento de grande relevância para o cenário musical do Maranhão e do Brasil.

Tuas primeiras aparições públicas tocando choro foram no Clube do Choro Recebe, no Chico Canhoto. Isso! Lá, inclusive, eu estava substituindo o João Neto. Foi um show com a [cantora] Tássia Campos, outro com Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] e também com o Um a Zero.

O que significaram aquelas apresentações? Quais as tuas lembranças do período? Aquele palco faz falta para a cena choro de São Luís? Eu tinha acabado de comprar essa flauta, é de prata, é um instrumento para a vida, a gente só faz manutenção. Eu pensava, “agora eu tenho uma flauta bacana, tenho que tocar em lugares melhores, para um público melhor me ver tocando”. O Clube do Choro era um desses locais, eu tinha um sonho, uma vontade grande de tocar. O Clube do Choro do Maranhão está fazendo muita falta. Eu fico triste quando alguns artistas vêm de fora, instrumentistas, principalmente, me perguntam onde está rolando choro aqui na cidade e eu fico sem saber o que responder [os chororrepórteres passam ao músico a agenda do Regional Tira-Teima, que toca às sextas-feiras, a partir das 20h, no Brisamar Hotel]. Atualmente não tem um local onde a galera vá para valorizar essa música. A gente faz uns trabalhos paralelos, toca um pouquinho de choro, mas não é a principal atração. Está fazendo uma falta tremenda!

Além de instrumentista, você desenvolve outras habilidades na música? Estou iniciando esse aprendizado. Para a gente que estuda instrumento de sopro é um desafio estudar harmonia. Para eu compensar essa dificuldade eu procuro entender um pouquinho de teclado, só que eu não digo que eu toco teclado. Eu estudo um pouquinho, como eu posso, quando eu posso. Como eu estudei cavaquinho, tenho uma boa base dos acordes, eu tenho essa vantagem em relação a quem não toca instrumentos harmônicos, quem estudou cedo, na verdade. Quando eu toco, eu já identifico as cores dos acordes, se é um acorde maior, se é um acorde menor, isso fortaleceu muito meu ouvido. Atualmente, estudo de arranjo, eu estudo devagar. Estou iniciando, na verdade, inclusive estou até pegando aula com Robertinho Chinês, que está me ajudando muito. Também já peguei aulas com Israel Dantas [violonista], Moisés Ferreira [guitarrista]. Eu estudo como eu posso.

Você já gravou em discos? Eu tenho muito na área do samba. Gravei o disco do Argumento, do Feijoada Completa. Gravações de músicas com Lena Machado [cantora], que ela faz para participar de projetos, por exemplo o Exposamba. Com Wendell gravei vários, o do Andrezinho Valois, o do grupo Madrilenus, alguns grupos de pagode, grupo Pura Simpatia, grupo Tô Di Mais. Geralmente quando pinta um trabalho para Wendell e tem sopro, a gente tá junto!

Você falou há pouco do impacto que te causou ouvir João Neto tocando André de Sapato Novo no Arthur Azevedo. Que flautistas te chamam a atenção, hoje? Atualmente o Eduardo Neves. É um músico excepcional. Ele mora no Rio de Janeiro. Eu ainda não tive contato com ele. Apesar de ele ser novo, ele não mexe em facebook, então eu ainda não pude trocar uma ideia. Eu ouço muito os discos dele. Como multi-instrumentista, flautista inclusive, tem o Dirceu Leite, me inspira muito. Me vêm logo à mente esses dois caras, até por que estão em atividade. Que já passaram, vamos dizer assim, tem o Altamiro Carrilho, incomparável. Eu ouvia muito os discos dele, tocava junto, foi assim que eu assimilei melhor a linguagem do choro. Ainda ouço, na verdade, os discos do Altamiro Carrilho. Em São Luís, a referência de som é o Paulinho [Santos]. É um cara que, embora não esteja em atividade, tocando por aí, pra mim o som do Paulinho é um som lindo.

Você afirmou que muito provavelmente teus pais vieram a conhecer choro depois que te ouviram tocar. E como é que você conheceu o choro? Já foi na Escola de Música? Como é que foi essa aproximação com esse gênero? O choro eu conheci nas aulas de cavaquinho. Como eu estudava com Juca, o Juca toca muito choro, é um chorão. A primeira música que eu lembro que a gente tocava muito era Feitiço da Vila [de Noel Rosa e Vadico], inclusive essa música me acompanhou durante vários recitais. Não era uma coisa muito programada, era “ah, amanhã tem um recital, vamos lá tocar”, e a gente tocava Feitiço da Vila, Carioquinha [Waldir Azevedo]. Eu comecei com Feitiço da Vila, mas também as músicas do Waldir Azevedo, eu ouvia muito, tocava muito, Flor do cerrado [Waldir Azevedo], Luz e sombra [Waldir Azevedo], todas eu tocava muito e gostava muito, eu pedia pro Juca me ensinar, dava muito certo. Foi assim que eu conheci o choro.

O que significa o choro para você? Qual a importância dessa música? Eu dou graças a Deus por ter conhecido o choro. A música brasileira, as síncopes, todo suingue, toda malícia, tudo aquilo está no choro. O músico que toca choro está apto para tocar toda música brasileira, tirando as regionais, bumba meu boi, maracatu. A bossa, a improvisação, o choro está em tudo. Até para tocar outras músicas de outros países, o jazz, o blues, também me ajudou, na concepção rítmica, principalmente. Como eu participei de grupos de samba, quando eu fiz essa passagem do choro para o samba, eu já estava um passo à frente de muita gente, já tive muita facilidade. Muita gente gosta de mim tocando samba, acho que por isso, por que eu passei pelo choro.

Você escuta muito choro, hoje? Como é tua relação com o consumo de música? Compra discos, baixa na internet? Ainda escuto. Geralmente, não vou mentir, compro discos quando o artista vem e eu tenho oportunidade de comprar dele. Até por que os artistas que eu compro, não vende o disco deles aqui. Como o Dirceu Leite, por exemplo, Toninho Carrasqueira [flautista], nas vezes que ele veio, sempre trouxe um cd diferente, sempre compro. Zé da Velha [trombonista] também, fiz questão de comprar o cd dele. Fora isso eu baixo, ouço muita coisa pelo youtube, até por que hoje, tudo é muito rápido. A galera que toca lança um trabalho no youtube, depois outro, o ciclo vai rodando. Às vezes eu chego a nem conhecer, quando eu chego já passou, aí eu baixo.

Você prefere o choro tradicional ou o moderno, mais inventivo? Eu estou mais ligado nessa vertente mais inventiva, a galera de Brasília que está inovando muito. O choro tradicional eu ouço, eu curto. A gente começa a estudar improvisação, quer improvisar, quer aplicar o que está estudando. O espaço que a gente tem para fazer isso é quando estamos tocando. Temos que ouvir quem está fazendo isso, Eduardo Neves, Hamilton de Holanda [bandolinista] também.

O que significou para você tocar com Zé da Velha e Silvério Pontes [trompetista]? Foi outro presente. Eu achei que não estava preparado. Eu estava tocando muito com o Pagode do Ivan, muita festa. Wendell comentou que tinha um show, falou que era Zé da Velha. Depois ele comentou já faltando uma semana. Ele me mandou o repertório, algumas músicas eu já conhecia, outras não. Eu fui procurar pegar para aprender. Nós fizemos um ensaio sem ele na sexta, o show foi no sábado. Terminou o ensaio, Wendell me ligou dizendo que o show era o lançamento do cd deles [Zé da Velha e Silvério Pontes], ele conseguiu as partituras, João Eudes foi deixar para mim no samba, ele chegou lá duas da manhã, eu estava tocando. Acordei cedaço no dia, fui ler, o show foi mais do que eu esperava. Eu imaginava que eu ia ficar de canto e eles sendo a atração, mas eu acabei ficando lado a lado com os caras. Zé da Velha tocou com Pixinguinha. Rolou espaço para improvisação, foi muito bom. Conversamos depois do show, fiquei feliz por eles terem ficado satisfeitos.

Na sua entrevista à Chorografia do Maranhão, Henrique [Cardoso, violonista, membro do Bossa Nossa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de agosto de 2014] afirmou que um dos hits do Bossa Nossa é Boi de lágrimas [de Raimundo Makarra]. Em outros estados, por exemplo, Pernambuco, o frevo dialoga diretamente com o choro, no Rio de Janeiro, o choro dialoga com o samba. Aqui, fora algumas iniciativas como o Choro Pungado, ainda percebemos uma timidez de misturar o choro aos ritmos da cultura popular do Maranhão, e parece que vocês estão retomando essa proposta. Você acha que é possível? Esse casamento é legal? A gente tem a prova que é possível. Em nossos shows o Boi de lágrimas é nosso trunfo. A gente toca o Boi de lágrimas quando a gente percebe que não está chamando muito a atenção. “Vamos quebrar o clima!”, aí a gente toca. Todo mundo vira logo pra gente. Isso é em qualquer lugar: no shopping [da Ilha, o Bossa Nossa se apresenta aos sábados, ao meio dia], no Manu [restaurante na avenida dos Holandeses, o grupo se apresenta semanalmente, às quintas e sábados, alternadamente], em um aniversário. Isso é a prova que a música maranhense é muito admirada e tem espaço. Nós aproveitamos o Boi de lágrimas e acabamos tocando outras músicas: Dente de Ouro, do Josias [Sobrinho, compositor], Bela Mocidade [de Donato Alves], o Coxinho [o cantador e compositor Bartolomeu dos Santos] também, “Urrou, urrou” [cantarola trecho do Urro do Boi, de Coxinho, considerada o Hino do Folclore Maranhense] e outras músicas maranhenses, a gente viu que dá certo. Partindo da grande aceitação do público a gente desenvolveu o show Trupiada, todo de repertório de autores maranhenses, que apresentamos recentemente no Sesc Amazônia das Artes, e também no São João, no Arraial Balaio de Sotaques, também do Sesc.

Vocês consideram o Bossa Nossa um grupo de choro? Também. Quando nós estávamos na UFMA já tínhamos muitas reuniões. Dessas reuniões saiu o nome do grupo. Mas ainda não sabíamos o que éramos. Vamos tocar o quê? Vamos tocar onde? Infelizmente não dá para tocar só o que a gente gosta, só choro, se quisermos um trabalho rentável. A gente não toca só choro, não toca só bossa. O que nosso cliente pedir… a gente tenta selecionar as balas de cada gênero, as mais conhecidas do choro, as mais conhecidas da bossa, música internacional. É difícil, mas está dando certo até agora.

Você se considera um chorão? Eu me considero. Se for para vestir a camisa eu visto. É claro que eu toco várias outras coisas, mas eu me considero um chorão, sim. Até por que é minha infância, o choro é minha infância, eu ouvia Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho. O choro está na minha infância, eu ficava mudando o cd, um atrás do outro, eu ficava sempre tocando cavaquinho e a flauta também. Meus vizinhos todos me conhecem por isso, eles gostavam também da música, passaram a gostar. Eu me considero um chorão, sim.

Chorografia do Maranhão: João Neto

[O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]

Tendo integrado praticamente todos os grupos de choro de São Luís, o flautista João Neto é o 25º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um chuvisco anunciava a noite em São Luís do Maranhão. A tradicional e pacata quitanda de Seu João, na Rua do Ribeirão, já abrigara, aquele dia, um ensaio fotográfico da cantora Alexandra Nicolas – o casarão lhe serviu de cenário ao encarte de Festejos, disco de estreia lançado ano passado. Ao fim dos trabalhos, ela degustava uma cerveja gelada por ali, na companhia da amiga e designer Raquel Noronha.

Era mais uma feliz coincidência das tantas que a Chorografia do Maranhão já proporcionou aos chororrepórteres que logo se juntariam a elas, mais próximos do balcão. O entrevistado da ocasião era o flautista João Neto, de passagem pela Ilha para curtir as férias de virada de ano – atualmente o músico mora em Belo Horizonte/MG, onde cursa mestrado em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Alexandra Nicolas preparava a primeira edição da temporada de Festejos na Praça, show que apresentou 18 de janeiro no coreto da Praça Gonçalves Dias. João Neto deu uma canja na abertura, compondo o grupo Cantinho do Choro, que tem ocupado aquele logradouro em fins de tardes de sábado.

Raimundo João Matos Costa Neto nasceu em São Luís em 3 de julho de 1978, ano em que seu tio Josias Sobrinho [compositor] teve gravadas suas quatro primeiras músicas por Papete, no antológico Bandeira de Aço, lançado pela Discos Marcus Pereira. Ainda criança João Neto engatinhava entre instrumentos musicais na casa da avó Ingrácia, onde aconteciam os ensaios do grupo Rabo de Vaca, formado por Josias e outros bambas.

Ao tio Josias ele afirma dever as maiores influências, desde antes de ter se decidido pela flauta – passou por violão e toca também flautim, pífano, clarinete, cavaquinho e percussão. É filho do dentista Francisco Carlos Guterres Costa e da dona de casa Francisca Tereza Morais Silva.

Ano passado graduou-se no curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) com a monografia Um panorama histórico-cultural sobre vida e obra de compositores de Choro da Baixada maranhense: breve análise musical de obras já editadas.

A entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão foi musicalmente ilustrada por Língua de preto (Honorino Lopes), André de sapato novo (André Victor Correia) e Rosa (Pixinguinha/ Otávio de Souza), que começou com a voz de Alexandra Nicolas e terminou com um coral formado por todos os presentes à quitanda, que aquela noite teve o expediente aumentado.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa, na tua infância? Minha infância, de zero aos seis, sete anos, ela foi meio assim, dinâmica, em relação à casa em que eu estava. Eu ficava um tempo na casa da avó, um tempo na casa da outra avó. Uma dessas avós é dona Ingrácia, mãe de Josias. E lá rolavam os ensaios do Rabo de Vaca. Então eu já estava ali com dois anos, fui conhecido por Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], por Beto Pereira [cantor e compositor], desde criança eu estava ali naquela história. A família, muito musical, além de Josias, meu tio Armando tocava clarinete, meu tio Paulo toca violão, nada profissionalmente. Só quem seguiu profissionalmente foi Josias, compositor. Mas sempre em casa teve música, desde a infância até hoje, as festas são regadas a muita música. Sempre teve esse contato, em casa, minha mãe escutando Elis Regina, Chico Buarque.

Quando foi que você percebeu que iria encarar a música profissionalmente? Foi em Campina Grande. Fui morar em Campina Grande e lá tem um cara que hoje está nascendo aqui, o Madian [cantor e compositor], estudava lá. Eu fui pra lá, sabia que ele morava lá, morei numa república, pra fazer vestibular pra João Pessoa, um vestibular mais ou menos, na malandragem, já tocando violão. Eu fui pra Campina Grande pra tentar o vestibular para Odontologia em João Pessoa, meu pai é dentista e eu queria ser igual papai. Ele não queria. Eu cheguei e comecei a tocar violão pra caramba, Djavan, Chico Buarque, e foi uma escola muito legal. Foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro tocando, foi com Madian e uma ex-mulher dele, uma grande cantora, de uma família de músicos lá da Paraíba. Eu tocava um tempo e Madian tocava outro tempo. Eu falei: “pô, dá pra ganhar dinheiro!”, tomando uísque, puta churrascaria lá, buffetzão. “Eu quero é isso pra mim!” Fiz vestibular, não passei, voltei pra cá, depois de seis meses em Campina Grande, vi o surgimento do [grupo] Cabruêra, um movimento musical muito forte.

Aí você voltou para São Luís. Veio fazer o quê? Eu tinha que estudar alguma coisa, acabei entrando no Ceuma, fiz dois anos de Direito. E paralelo, depois de um ano de Direito, passei em Filosofia na UFMA, e ao mesmo tempo tocando violão.

Você concluiu Filosofia? Que nada! Nenhum dos dois. Abandonei e fui para São Paulo, essa época já tocando flauta.

Significa dizer que tua profissão mesmo é a música? Não tem outra profissão? Não. Ter, tem outras coisas, meu pai tem uma clínica, eu trabalhei na parte administrativa coisa de cinco, seis meses, só. É difícil falar em profissão músico, pra mim, principalmente. Eu nunca toquei pra ganhar dinheiro. O dinheiro vem em consequência de minha arte. Eu vejo minha carreira como uma coisa da minha vida. Se eu for displicente com minha carreira eu estou sendo displicente com minha vida.

Mas cada vez mais você é cobrado para tocar profissionalmente. Isso! É uma consequência.

Não dá para dizer que você não é músico profissional. Não dá. Eu vivo da música.

Quando você fez essas outras tentativas. Odontologia, chegou a fazer vestibular, depois Direito, depois Filosofia. Elas eram, de algum modo, uma imposição da família? Eram. Eu tinha que corresponder a alguma coisa, eu não podia ficar ali. A gente deve uma satisfação. Músico é [visto como] vagabundo, né, cara? Principalmente flauta, flauta é luxo, entre aspas. O grupo tem violão, o grupo tem baixo, tem bateria, cavaquinho, mas a flauta vem muito depois. E depois que eu conheci flauta, eu larguei violão assim de uma forma. Virou meu amigo, parceiro, vez ou outra eu falo com ele.

Quando e como é que se deu a passagem do violão para a flauta? Há 12 anos, quando eu peguei a flauta transversal.

O que te motivou? Quem foi a pessoa que fez com que você se decidisse a tocar flauta? Foi um cara chamado Fabiano, que já tá lá com papai do céu já. Morreu muito novo, um cara que eu conheci em Campina Grande, era de Maceió. Era um cara surpreendente, tocava violão, baixo, teclado, bateria, trabalhava com tudo isso, e flauta também. Certa vez a gente na casa dele, eu e Madian, tocando lá, Djavan, um monte de música, ele pegou a flauta, começou a destruir, tocando um monte de coisas, tinha várias flautas doces na casa dele. Eu fiquei encantado e falei: “pô, Fabiano, como é que a gente faz aqui?” Ele falou: “não tem segredo, é só ouvido”. Eu fiquei mais encucado ainda, meio com raiva dele. Eu pensei: “esse cara toca pra caramba, não quer ensinar, dar um toque pros amigos”. Quando eu peguei a primeira flauta doce, que eu fui entender o que ele quis dizer lá atrás. Esse cara, esse encontro, esse dia foi que [interrompe-se]. Depois disso eu cheguei, fui pesquisar os flautistas, fui ajudado por muita gente.

Quem são os mestres que você considera essenciais? Na música, em primeiro lugar, para mim é Josias. Quando viu que eu estava tocando já chegou, me abraçou, eu tava tocando violão, me botou no palco, num show dele, eu já toquei violão com Josias, quando viu a flauta a mesma coisa. Musicalmente foi um cara que eu devo até hoje, até hoje é um parâmetro que eu tenho. Em relação à flauta o primeiro foi Zezé.

A família sempre te apoiou na decisão de buscar a música como caminho? A família da minha mãe sim. É muito musical, minha avó, que é um lance matriarcal forte pra caramba na família, meu avô morreu muito novo, com cinquenta e poucos anos, ela que segurou a onda toda. Lê muito, 86 anos, não assiste novela, passa o dia lendo, fazendo crochê. Escreve, no aniversário de 80 anos ela deu um presente à família, fez um livro de poemas. Toda uma espiritualidade muito forte. Tenho tios que me apoiam financeiramente, compram instrumentos, dão força, “taí, pega essa grana”, não é só “ah, é lindo!”, apoiam, investem. Tem incentivo da família.

Você falou de uma fase violão que rolava muito Djavan, Chico Buarque. Como é que foi a aproximação com os grupos de rock, principalmente a Mandorová? A Mandorová nem é um rock, a gente tocava rock. Tinha umas músicas que eram rock, mas a gente misturava, bumba boi, Josias, muita música nossa. A gente misturava isso por causa das influências de todo mundo. Veio uma galera de Campinas, Madian fez parte um tempo. Ela começou meio que um monte de gente, a gente conseguiu gravar umas coisas, eu já não tocava violão, já tocava flauta, pífano e percussão. Violão eu não tinha como meu instrumento, eu tinha como meu amigo. Eu gostava de cantar, mas essa voz, só nariz [risos]. Tudo que eu tocava eu cantava. Teve uma época que eu tinha o songbook de Chico Buarque, eu tocava mais de 60 músicas do Chico Buarque, aquelas melodias empenadas, ficava em casa, estudava. Mas a flauta veio e chegou e “peraí”, ela que me capturou, eu não escolhi.

Como é que foi a tua chegada ao universo do choro? Logo depois da flauta transversal, que eu comecei a tocar, Zezé pirou. Eu morei ali na época do Rabo de Vaca, ele “pô, sobrinho de Josias, tocando flauta!”. Não, vem aqui, vem aqui, me botou na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], eu nem tinha feito prova, fiz Escola de Música, todas as percepções, ele me dava aula, “traz a flauta aqui”, me dava aula. Teve um tempo que se passava um ano e meio pra pegar em instrumento, só tendo aula de teoria, era algo meio maçante, o cara doido pra pegar no instrumento, hoje mudou isso. Então, Zezé foi um cara fundamental, até hoje é.

A música pra você é uma importante fonte de renda? Dá pra viver de música? O viver de música, viver de tocar. Eu não penso mais num futuro artístico pra mim. Eu penso num futuro acadêmico, que é uma coisa que vai me segurar, eu vou poder escolher o que quero tocar.

O professor pagando as contas do músico. Mais ou menos isso, mas pra mim é muito difícil separar o professor do músico. Tem gente que é um puta músico e não sabe ser professor, tem gente que é um puta professor e não toca porra nenhuma. Essas duas coisas são muito ligadas, eu amo ensinar, um projeto do Sesc que eu fazia parte, eu me coço todinho lá em casa, sem poder ensinar pra garotada, eu olho as fotos, aquilo era muito importante, 10 alunos tocando flauta. Minha vontade de estar lá é tão grande quanto minha vontade de voltar para cá e ir dar aulas na UFMA, na UEMA, crescer. Essa coisa da educação musical é uma coisa fundamental pra gente, pra definir um gosto musical. É tão grande essa nossa riqueza cultural, ao mesmo tempo a gente se submete a outras culturas impostas. Chega pra juventude, ninguém sabe quem é Coxinho, Mestre Felipe, Dona Teté [mestres da cultura popular, representantes, respectivamente, do bumba meu boi, tambor de crioula e cacuriá]. Isso é uma coisa que eu tenho como objetivo, além da vida artística, que é um sonho, uma coisa utópica, viver, ter filho, só tocando como flautista. O professor é um pé no chão, uma coisa palpável pra caramba, é uma coisa que eu estou construindo e com o choro, choro no Maranhão, na Baixada maranhense.

Houve um tempo aqui em que você tocava em 11 dos 10 grupos de choro que existiam. Teve um período em que o choro estava na crista da onda. Como é que você avalia o mercado de trabalho para o músico instrumentista em São Luís e em Belo Horizonte, se é que é possível algum tipo de comparação? Teve uma época que, por conta de uma efervescência do ritmo, ou uma influência do que estava acontecendo no Rio de Janeiro, do choro na Lapa, essa coisa de eu estar em vários grupos aconteceu exatamente concomitantemente com o projeto Clube do Choro Recebe, que propiciou a formação de outros grupos, além dos bares, cerca de cinco anos atrás, tinha o Por Acaso que tinha choro toda terça, o Antigamente toda segunda, o Feijão de Corda, na Ponta d’Areia, sexta-feira tinha no Tropical Shopping Center, o Clube do Choro Recebe todo sábado, vários lugares tinham choro. O fato de eu tocar com um monte de gente, quando eu estava chegando do Rio de Janeiro, Zezé fez um viaduto de safena, três pontes, ele falou, “ó, te vira aí”. Eu já fiquei no lugar dele no [Instrumental] Pixinguinha, na Escola de Música dando aulas no lugar dele, na Escola Municipal, e com o Xaxados e Perdidos.

Você está onde quer, fazendo mestrado hoje em Minas. Dá pra falar em saudade dessa cena de São Luís? Lógico! Faz com que surja os grupos, o movimento. Hoje, onde é que a gente tem choro? Só no Brisamar [hotel]. Fixo, só no Brisamar, pra reunir o pessoal que toca choro. Se não tem movimento, não tem avanço, não tem jeito. A efervescência desse movimento em São Luís fez surgir o Choro Pungado, Os Cinco Companheiros, os Madrilenus, que foi formado para acompanhar seu Eudes [Américo, compositor]. Em relação a Belo Horizonte, lá tem choro todo dia. Todo dia tem lugar onde tem choro, de segunda a segunda. O dia em que eu cheguei foi uma segunda-feira que eu fui pro Salomão [bar]. Nesse mesmo dia ele falou: “ó, toda segunda-feira vem pra cá!”, a galera na roda. Lá são dois dias, segunda e quinta. Toda segunda eu tenho ido. Pedra Azul [o cantor e compositor mineiro Paulinho Pedra Azul] tá toda segunda lá com a gente, já levou Fabiana Cozza [cantora], Silvério [Pontes, trompetista]… é um bar que a galera vai mesmo.

Além do Mandorová e do Choro Pungado de que outros grupos musicais você já participou, de choro ou não? Mandorová, Xaxados e Perdidos. Artistas que já toquei: Josias, toco até hoje, Rosa Reis, Cacuriá de Dona Teté, Omar Cutrim, Carlinhos Veloz, Alexandra Nicolas… De choro, o grupo Um a Zero, toco no [Instrumental] Pixinguinha, estou de férias nessa temporada, Tira-Teima, uma temporada, de reserva, de substituto, Choro Pungado, Urubu Malandro, Quartetaço, Os Cinco Companheiros eu fiz uma participação, o Não Chora que eu Choro, que era meu, Azeite Brasil.

E discos que têm tua flauta? Tem alguns. Que eu lembre assim, tem a Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, 2010], Rosa Reis [Brincos, 2009], agora o que saiu do Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013; Cinco Gerações, 2013], Gildomar Marinho [Olho de Boi, 2009]. Tem algumas produções de bumba meu boi daqui, muita coisa, “pô, vem gravar uma faixa”, às vezes sai, os caras nem me dão o disco. Grupo de samba tem o Vamu di Samba, que eu gravei os dois dvds dele, tem algumas produções que eu já fiz parte. O cd do Cláudio Leite, não sei se já saiu.

Há um grupo no cenário chorístico que deu o que falar, tanto do ponto de vista estético quanto das relações internas. O que significou para você o Choro Pungado? Não significou: significa. O Choro Pungado é mais ou menos assim um ideal. Eu acho que tanto pra mim quanto pra maioria dos que participavam, eu levo a sério mesmo. A gente conseguiu, assim de uma forma legal, descontraída, conseguimos compor, brincar com a música maranhense e choro, fundidos, de uma forma legal, livre, pelos integrantes terem uma desenvoltura musical muito avançada, eu acho, as coisas ficam mais fáceis, fluem mais rápido. Tanto que em pouco tempo de grupo a gente já tinha conseguido, pela crítica, vocês, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] falou da gente, conseguimos vários elogios. Mas como você falou das relações, dentro do grupo, acontece, foi uma coisa muito rápida, o grupo teve uma vida curta, fatores extramusicais, agenda, por exemplo, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], trabalha muito em estúdio, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] toca com todo mundo, eu também toco com muita gente, então foi assim desgastando a história dos compromissos. Mas eu acredito que musicalmente falando foi um passo à frente nesse cenário musical do choro no Maranhão. Foi uma experiência muito válida em relação à inovação, à fusão, à hibridação, tentar misturar essas coisas que estão muito dentro da gente. Pra mim é uma pena ter acabado, ter terminado cedo assim. A gente podia construir mais coisa, avançar muito mais. Teve meio que uma pressa em fazer sucesso, faltou uma perseverança, faltou mais trabalho, mais sentar e conversar, não querer logo fazer um dvd, por exemplo. Foi uma coisa legal, mas não foi legal, em relação a produto. O amadurecimento já estava vindo justamente nas nossas composições, sentados, ensaiando, e compondo.

Hoje em dia você participa de algum grupo? Lá em Minas você está só nas rodas? Não. É muito prematura minha chegada em Minas. É muito difícil você chegar e já conquistar um espaço. Eu cheguei há quatro meses e vou ficar só mais quatro. Tem muitos flautistas bons, os caras tocam pra caramba. Você chegar e já pegar um espaço, se inserir no mercado, é muito difícil, tem que ser extraordinário.

Como é que você tem conciliado a atividade acadêmica com a atividade musical? Tá sendo muito difícil. É uma transição bem peculiar. A parte acadêmica exige muito tempo, parar para ler, lá na UFMG não brincam, os professores são alto nível, minha orientadora é formada em Sorbonne, tem doutorado em Sorbonne. Eu suei a camisa pra conseguir conciliar.

Qual a discussão da tua dissertação? Eu vou tentar fazer uma mescla da musicologia histórica com a etnomusicologia. Isso da etnomusicologia eu fiz agora, numa cadeira que eu fiz, fiz etnografias da III Semana Seu Geraldo [de Música], em São Paulo, do Bandão [da Escola Portátil de Música], lá no Rio, eu fiquei meio que apaixonado por etnomusicologia.

Fala um pouco de tuas pesquisas, tanto na graduação como no mestrado. O que você fez e o que vai fazer? Na graduação, no trabalho de conclusão, eu tentei mostrar que na Baixada maranhense tem compositores de choro. Peguei alguns compositores de choro, o Josias, o Osmar, um cara que eu descobri, que ninguém conhece, que eu descobri lá em Guimarães, seu Moisés Ferreira, um cara que era teatrólogo. Esse cara é que foi assim a válvula, o estopim, de dizer, “pô, tem!”. Eu estava meio em dúvida sobre o que fazer. Eu pensei também nessa fusão do choro com a música maranhense, nos arranjos de Ubiratan no disco do Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013; Visitação, 2011], que ficaram muito interessantes, eu pensei em falar deles. Eu percebi que a dimensão do choro, dos compositores de choro na Baixada maranhense é muito maior que um trabalho focado. É um trabalho que eu posso levar, posso pesquisar a minha vida toda. No meu TCC eu peguei o escopo de que existe, uma comprovação, fiz entrevistas com Osmar, Josias, seu Raimundo Abreu, lá de Cajari, um grande professor de música de lá. Tive como suporte teórico, suporte de pesquisa, a obra de João Mohana [padre, médico e escritor], aquele livro A grande música do Maranhão. Ele começou em Viana. É o único registro que a gente tem escrito disso. Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] colaborou. Osmar, o avô dele, seu Macico [Marcelino Fernandes Furtado, flautista] foi um puta mestre de banda, fez arranjos de choro, foi um cara que recebia as partituras e fazia arranjos. Essa parte do mestrado eu quero justamente fazer isso, além da continuação do que eu fiz no TCC eu quero pegar material, do acervo João Mohana também.

Além de multi-instrumentista você desenvolve outras habilidades no campo da música? Arranjos, composição? Eu tenho composições. Na Mandorová a gente tocava umas duas, no Choro Pungado a gente gravou uma, um baião chamado Vim de lá, pá-pá-ri-ra-ri-pá-rá-rá [cantarola o ritmo], que eu fiz no pífano, depois a gente adequou para a flauta.

A Mandorová foi uma experiência boa? Foi fundamental. Com ela eu fui para São Paulo, passamos dois anos tocando, abrimos shows, saímos em jornal, passamos em matéria nacional do Jornal Hoje [da Rede Globo de Televisão], fizemos coisa de 10 interiores em São Paulo. Tocamos muito aqui no Canto do Tonico [extinto bar, na Rua Portugal, Praia Grande].

Pra você, o que é o choro? Se a gente vir pela história do choro, ele já começa importante. Começa como uma maneira de tocar, uma coisa que foi trazida, aquele amálgama da brasilidade no século XIX, meio que fez surgir aquela história toda de uma forma brasileira de tocar, depois virou dança, depois virou maxixe, depois virou tudo isso. Eu encaro isso como uma identidade brasileira, musical, mas além, social: uma identidade social, o choro. Se você leu O Choro [O Choro – Reminiscências dos Chorões Antigos], do Alexandre Gonçalves [Pinto], que fez o primeiro registro, em 1936, ele falou dos caras que tocavam, que faziam parte daquela história, que estavam na roda. Pra mim o choro é essa identidade brasileira, que por mais que mude a moda, que venha dessa transição de uma coisa pra outra, do violão pra isso, da jovem guarda pr’aquilo, o choro está sempre ali de alicerce. Desde a sua gênese, de sua aparição, seu apogeu, 1920, 1930, desde ali, ele pode ter caído mercadologicamente, financeiramente, tudo, esse campo artístico em volta do choro, mas ele nunca deixou de ser produzido. Se a gente falar na década de 1980, o rock’n roll, os melhores discos de Raphael Rabello [violonista sete cordas] foram lançados na década de 80, Baden Powell [violonista], Camerata Carioca.

Há quem ache que o choro é uma coisa estática, estagnada. Você acha que o choro é uma música fechada ou uma música aberta? A música em si é aberta. O que fecha é a cabeça das pessoas. Eu posso chegar numa roda de choro falando de choro, tocando do jeito que eu gosto, a galera pode não gostar. Yamandu Costa [violonista sete cordas], Hamilton de Holanda [bandolinista], Pixinguinha [Alfredo da Rocha Viana Filho, compositor e multi-instrumentista], na época dele, “esse cara é doido!”.

Você se considera um chorão? Não. Eu amo o choro, amo tocar choro, mas eu não me enquadro numa especificidade, num estereótipo. Mesmo dentro do choro, da linguagem choro, do gênero, você vê o ritmo baião, maxixe, tango, flamenco, é um universo. Como é que se vai dizer que é só uma coisa? É o mesmo que dizer “eu sou roqueiro”, eu acho que limita. Eu sou músico!

Chorografia do Maranhão: Zezé Alves

[O Imparcial, 9 de junho de 2013. Cá no blogue um tantinho maior

Oitavo entrevistado da série Chorografia do Maranhão, Zezé da Flauta tornou-se Zezé Alves e investe na formação para a continuidade da cena.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Estavam enganados os que pensavam que uma cirurgia cardíaca diminuiu a atividade e/ou a intensidade musical de Zezé Alves: ele apenas mudou o foco, trocando os palcos pelas salas de aula. Trocando, não, que o professor já dava aulas enquanto o artista apresentava-se nos bares e bailes da vida.

É o próprio músico, nascido no Maracanã, em São Luís, em 8 de dezembro de 1955, “dia de Nossa Senhora da Conceição”, ele emenda à data, quem faz a distinção entre o Zezé Alves de hoje e o Zezé da Flauta de outrora. Filho do paraibano José Alves da Nóbrega e da doméstica Inês Alves da Costa, ele chegou a morar em Bacabal, onde lembra de ter ouvido choro pela primeira vez na vida, ainda criança: “Palito, mestre Palito, José de Brito, que era dono de um conjunto em Bacabal. Saxofonista, dono do Brito Som Seis. Chegou a ser um dos maiores do nordeste. Era meu vizinho, morava de frente a minha casa. Eu saía, chegava na porta, ele estava tocando Saxofone, por que choras? [de Ratinho].

Sua mãe “fazia aqueles reisadinhos, aqueles autos, tocava cabaça, gostava muito de cantar, talvez esta seja a origem familiar”, afirma, sobre sua musicalidade. “Sempre fui muito musical”, continua. “Quando comecei, criança, eu cantava, eu era cantor, cantava Waldick Soriano. Talvez a coisa da minha musicalidade seja a seguinte, tem uma história muito interessante. Quando eu era criança eu era muito fraquinho das pernas, cheguei a ir a médicos, tomar remédios, pra ficar mais forte. E tinha um rádio e eu ficava sentado debaixo desse radio, num caixotezinho, um banquinho, um tamborete, ouvindo todas as músicas do rádio da época, da década de 1950, virando pra 60, Orlando Silva, Waldick Soriano, eu repetia todas essas músicas”, começa a contar antes mesmo da primeira pergunta.

Além de flauta, Zezé toca violão, para compor e estudar harmonia. Depois de ter ajudado a formar muitos músicos que hoje tomam conta da cena local, o professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo considera-se uma espécie de “Bota pra Moer”, apelido de Antonio Lima, folclórico personagem ludovicense que carregou uma bandeira numa passeata contra o governador Eugênio Barros, em 1951. “Até aqui eu vim, mas daqui pra frente arranjem outro que seja mais doido do que eu”, teria afirmado, conforme relata Lopes Bogéa no raro Pedras da Rua (1988).

Zezé Alves recebeu os chororrepórteres em casa. Isto é, na Sala Leny Cotrim Nagy, na EMEM, a mesma que serviu de cenário para uma das fotografias do encarte de Choros Maranhenses, disco de estreia do Instrumental Pixinguinha. Estudantes de música em aula em duas salas contíguas garantiram a boa trilha sonora da conversa.

Além de músico, qual a tua outra profissão? Eu fui criado por outra família e essa família não queria que eu fosse músico, pois o pai desse pai que me criou não se deu bem, era saxofonista. Eles não queriam, eu tive que sair de casa. Eu comecei a tocar, tocar mesmo, com 22 anos já. Mas eu só vivia cantando. Na realidade me formei em contabilidade, sou contador, técnico em contabilidade. A outra profissão seria essa, por que eu trabalhei com meu pai por muito tempo num comércio, eu sei muito de comércio.

Você exerceu a profissão? Não, não exerci a contabilidade. Mas trabalhei junto no escritório dele muito tempo, ajudava nessa área. Aqueles irmãos do Six [o cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva] eu conheci todos do Banco do Brasil por que eu ia pagar as duplicatas do comércio do meu pai e os via lá.

Quando tu falas que começaste a tocar com 22 anos, isso tu falas profissionalmente? É, por que eu cantava, eu já arranhava um violãozinho, tocava Eu só quero um xodó [de Dominguinhos e Anastácia, sucesso na voz de Gilberto Gil], tocava flauta doce, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo [repete enfatizando]. Quando chega em 77, em 76 eu saí de casa, em 77 é que aí eu digo que é o meu marco: eu participei de um show chamado Boca do Lobo, de [o compositor] Sérgio Habibe. Esse show foi o primeiro com características de show, com banda, com [o violonista] Joaquim Santos, [o compositor] Ronald Pinheiro, e eu na flauta começando. Por que na realidade, meu professor de música, meu primeiro mestre de música, é o Sérgio Habibe, é meu mestre mesmo! Quando [o violonista] João Pedro [Borges, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] volta à São Luís, em 97, eu já o conhecia, ele de certa forma passou a ser o meu mestre, me convidou para trabalhar no Musiceuma junto com ele, aí foi que eu comecei a reforçar mais a ideia de ser educador musical. Ele reforçou isso. Eu comecei essa carreira, de 77 pra cá, comecei no show dele [de Sérgio Habibe], ele trouxe uma flauta do Rio de Janeiro, daqui a pouco eu tava tocando com todo mundo. Eu é que fui o “Bota pra Moer”, até enquanto surgiu o [flautista João] Neto, Paulinho, Lee Fan. O que eu quero agora é a função de educador. Até por que eu gosto de ensinar, sempre gostei de ensinar, eu ficava dando aula em mesa de bar [risos].

Se tu pudesses citar três músicos que foram bem influentes pra ti, do começo até agora… Palito foi o primeiro cara que eu ouvi tocar. Mas, claro: Sérgio Habibe, Chico Maranhão e João Pedro Borges. Por que Chico Maranhão também influenciou muito na minha vida, estive em São Paulo, acompanhando-o no Lances de Agora [1978]. As pessoas às vezes dizem [imita um cochicho] “ah, por que Chico Maranhão é um cara chato” [volta ao tom normal], quem é amigo dele não acha. Eu sou amigo dele, de ele ligar “vem comer aqui um tabule comigo”.

Esses três nomes que tu citaste, de João Neto, Lee Fan e Paulinho, seriam os nomes de destaque, na flauta, hoje, no Maranhão? Sim, sim. A gente não pode negar o Serra [de Almeida, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], o grande Serra, pelo tempo, pela história dele, aquela qualidade que ele tem de tocar, lembrando Copinha, lembrando Carrilho, inclusive o Sérgio me disse isso uma vez, “Zezé presta atenção, toca igualzinho”.

Você vive de música? Vivo de música como professor de música. Sou funcionário do Estado e hoje, depois de uma pós-graduação, estou professor substituto na UEMA. Como instrumentista, o que eu ganhava era pra pagar a passagem no outro dia e tomar uma e tal. Então, sobrevivo de música, como professor, dou aulas particulares.

Tu tens uma preocupação muito grande com o registro da obra de chorões, seja no disco [Choros Maranhenses, de 2006] do Instrumental Pixinguinha, seja no Caderno de Partituras [2012]. A gente percebe que o registro ainda é uma fraqueza, mesmo com todas as tecnologias hoje disponíveis. A que tu creditas essa pobreza de registro? O pouco registro se deve a certo descaso nosso mesmo. Nós admiramos muito o que é dos outros, muita besteira. Se você ver pessoas como Cleômenes [Teixeira, compositor], Tomaz de Aquino, eram grandes professores, saxofonistas, mas não houve nenhum registro. As condições técnicas não havia, agora é que estão surgindo gravadoras com nível, mas na década de 70 não havia onde, edição de partituras era raridade. Agora é que a Escola de Música vai ter um banco de partituras, quer dizer, quase 40 anos depois [da fundação da EMEM]. O Rabo de Vaca foi um grupo que eu sempre disse que é uma escola, muita gente passou por ele: Ronald Pinheiro, [o compositor] Josias Sobrinho, [o compositor] Beto Pereira, [o contrabaixista] Mauro Travincas, todo mundo passou, mas tem pouco registro. Josias deve ter uns k7s. A gente não ligava para registrar, não havia recursos tecnológicos, nem apoio.

O Rabo de Vaca foi importante para o desenvolvimento da música do Maranhão. De que outros grupos você participou? O mais importante foi o Rabo de Vaca. O Rabo de Vaca é a cabeça de Josias. Ele tinha saído do Laborarte e eu entro no Laborarte, era muito amigo de Nelson Brito [ator e diretor teatral, ex-diretor do Laborarte], que trabalhava numa loja de discos de um tio dele, tava todo mundo debandando, e havia um departamento de artes, eu entrei, o período em que fiquei no Laborarte, Josias saiu, mas o [a peça] Cavaleiro do Destino ainda estava sendo encenado. Eu entrei para tocar violão nas peças. Em outubro [de 77] o Aldo Leite monta uma peça chamada Os Saltimbancos, e se não me engano, foi o segundo lugar em que foi feito com músicos ao vivo. No Rio de Janeiro era feito com músicos, depois no Maranhão. Nos outros lugares era playback. Na do Maranhão o Aldo Leite convidou Josias, “monta um grupo”, e se fez ao vivo. Josias convidou Beto Pereira, Mauro Travincas, acho que [o percussionista] Manoel Pacífico e Vitório Marinho, um cara que pouca gente fala, um moço cego que tocava violino. A gente tinha público. Foi um grupo muito importante para a música maranhense. Depois disso, Beto Pereira fez um grupo para tocar música maranhense em barzinhos, tocou muito, o Amor de Canela, era eu, [o percussionista] Carbrasa, Mauro, [o percussionista] Jeca e Beto, o banda líder [aportuguesa o band leader]. E no Maçaroca [1986], disco dele, ele gravou uma música nossa [Campo Cidade, parceria de Zezé Alves e Paulinho Lopes]. Depois teve outro grupo, eu, Omar Cutrim, Fazendo Mel, que era uma música dele…

E o [Instrumental] Pixinguinha? Aí sim, aí é que vem o Pixinguinha. A gente já era professor da Escola de Música, eu, Marcelo [Moreira, violonista], [o bandolinista] Raimundo Luiz, quando [Francisco] Padilha chegou, começou a ser diretor da Escola, teve essa ideia, junto com Marcelo, que era carioca, a escola precisava criar um núcleo de música popular, criaram a Big Band junto com Tomaz e Marcelo encabeçou, de certa forma, a criação de um grupo de choro. Por que um grupo de choro? Por que é a nossa música, com raiz no samba. Por que Instrumental Pixinguinha? Por que foi o maior arranjador e não sei o quê e não sei o quê. O Instrumental Pixinguinha vingou, tocamos em muitos lugares, fez um trabalho belíssimo, aquele cd, Choros Maranhenses, pioneiro, que esse caderno [aponta para o Caderno de Partituras] é uma continuidade dele, aqueles dez choros e mais alguns. Pra não falar dos compositores que eu acompanhei. Com [o cantor, compositor e violonista] Chico Nô e Lazico [o percussionista Lázaro Pereira] a gente teve um trio chamado Trio Tom, tocávamos Bossa Nova, é outro grupo de que participei. Toquei muito no Cacuriá de Dona Teté. De início era só caixa, depois tiveram a ideia de botar flauta, depois eu fiquei tocando, viajei o Brasil todo por conta do Cacuriá de Teté.

E atualmente? Atualmente eu sou titular, fundador do Pixinguinha. Emérito [risos]. Atualmente o que eu quero mesmo é essa coisa de educador musical.

Quando tu começaste a dar aulas na Escola de Música? Essa coisa da Escola de Música é interessante. Teve um governo, na época da Olga Mohana, ela foi ao Rio de Janeiro, e alguém escolheu para ela, uma porção de professores. Estes professores moravam no Seminário Santo Antonio, ela era irmã do padre João Mohana. Os caras ganhavam uma grana, na época coisa de 10 salários mínimos. Nós tivemos Watanabe, grande violinista, Emanoel Martinez, hoje regente do coral de Curitiba, Mércia Pinto, Cidinho Ornelas, então foi um naipe incrível. De repente foi todo mundo embora. Dessa leva o cara que ficou e hoje é uma figura importante é o Marcelo Moreira. Quando Padilha chega, pegou os alunos mais avançados e transformou em professores. Era eu, Raimundo Luiz e alguns outros.

Uma das críticas recorrentes à Escola de Música é a erudição, o distanciamento da pulsação de São Luís, uma coisa mais de cultura popular. Isso parece que vem sendo equacionado nos últimos anos. Vem sim. A Escola, quando ela foi lançada, na época da professora Olga, ela foi pensada nesses moldes, de formar músicos de orquestra. Ela era meio mãe, e dizia “tu vai estudar viola e tu vai estudar piano”, ela era quem dizia. Por um bom tempo ela ficou nisso, ficou nessa insistência. A primeira aluna formada aqui, grande pianista, com [o então governador do estado] João Castelo entregando diploma e tudo, foi a professora Rosimary Fontoura. Hoje em dia se forma muito aluno na área popular, violonista, baterista, cavaquinhista. Quando chega a música popular na escola, que é quando a direção chama Jayr [Torres] pra dar aula de guitarra, Diógenes pra dar aula de contrabaixo, Jeca chegou a dar aula de percussão, abriu concurso, hoje em dia Rogério Leitão é professor de bateria da casa. Essa vertente, chamada núcleo de música popular, ainda hoje em formação, com isso a escola se tornou uma coisa mais popular, encheu. O Jayr Torres faz toda sexta uma coisa chamada Sexta Musical, Sexta Jazz, enche. 90% dos alunos da escola são evangélicos. Isso mudou, se não a escola estaria do mesmo jeito.

Tu tocaste em alguns discos importantes, como Lances de Agora, Pedra de Cantaria [disco coletivo gravado em Belém, reunindo diversos compositores maranhenses, entre eles Chico Maranhão, Josias Sobrinho e Giordano Mochel], Maçaroca, Choros Maranhenses. Eu queria que tu lembrasses outros discos que têm tua flauta. O de Fátima [Passarinho, Voos, 2007] eu fiz uma flauta lá. Com Joãozinho Ribeiro eu participei daqueles shows do Samba da Minha Terra [temporada de 18 shows em bairros ludovicenses produzida por Vanessa Serra] e agora da gravação do Milhões de Uns [estreia de Joãozinho Ribeiro em disco, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, a ser lançado em breve], em que ele gravou uma parceria nossa [a música Rua Grande, interpretada por Lena Machado]. De Sérgio eu nunca toquei em nenhum disco dele, ele gravava quase tudo no Rio. Fiz pontas em outros.

O que é o choro pra ti? Que importância tem para a música feita no Brasil? A visão que eu tenho é a que todo mundo tem: o choro como raiz dessa música popular urbana. Tem essa história toda que vocês já conhecem, da década de 30 pra cá, com Noel Rosa, com Pixinguinha. Como raiz dessa música, a mistura do batuque com a música que veio com o colonizador europeu, que criou a escola nacional, tocaram juntos com os músicos que vieram nas caravelas, e daí, teve o momento de renascimento, a partir do momento em que os caras vão estudar em Berkeley, depois a chegada da Odete Ernst Dias, que é uma mãe de todos os flautistas. O choro, a importância dele é inconfundível, inegável. Tem que estudar o choro para compreender a música brasileira. Aquela máxima de que tudo é choro, de repente vale, tudo é choro, tudo é baião. Luiz Gonzaga quando chegou no Rio, chegou tocando choro. Aliás, Gonzaga é nosso primeiro músico pop.

Como tu observas o choro hoje? Já está começando a se universalizar. Já está tendo outras influências, já estão fazendo choros mais modernos. Se você pegar o [violonista] Guinga, já faz choros mais elaborados, com a influência do jazz – Influência do Jazz [Carlos Lyra] é o nome de uma música da bossa nova [risos] – ele não tá parado, ele tá evoluindo. A pessoa hoje em dia já não estuda choro só pra tocar choro como antigamente. Ele está enriquecendo. O cara pega, estuda, vai atrás, vai fazer uma boa música.

Que nomes tu destacarias nessa cena? Gostei muito do [saxofonista] Eduardo Neves. Alguns que eu nunca mais ouvi falar, mas são muito interessantes, o [saxofonista] Zé Nogueira, o [saxofonista Mauro] Senise, assim, que eu conheço mais. Atualmente, que eu conheço, o Guinga, que a gente pode considerar um cara do choro. Tem aqueles já mais tradicionais, [o trombonista] Zé da Velha, [o trompetista] Silvério Pontes. É tanta gente que não dá para dizer um ou dois só, tem muita gente fazendo choro.

Tu disseste que tua obra como compositor é pequena. Saberias precisar em números? Quantas composições? Ah, poucas. Por que na realidade eu fiz esse choro, Candiru [parceria com Omar Cutrim gravada em Choros Maranhenses], tenho duas músicas só, mais, assim. O resto tudo tá no baú, eu toco quando me lembro. Choro é só essa. O resto são baladas, são músicas seis por oito. Com Paulinho Lopes eu tenho umas coisas que nunca foram gravadas.

Independentemente de compor choro, tu te consideras um chorão? [Pensativo, demora a responder] Não. Não. Essa resposta é meio doída, mas eu não me considero um chorão, não. Por que eu me interessei pelo choro quando foi criado esse grupo que eu tive que aprender a tocar, a mergulhar. Por que com o Rabo de Vaca eu tocava era os bois da gente, os baiões, frevo, xote, xaxado. Quando era criança, o primeiro cara que eu ouvi tocando Saxofone, por que choras?, mestre Palito, todos aqueles discos de Pixinguinha, Altamiro Carrilho na banda do Palhaço Carequinha, tudo aquilo eu ouvia.

Como tu observas o atual momento do choro no Maranhão? O choro no Maranhão, se for pegar na raiz, a gente tem sempre os antigos, por que eles tocavam choro mesmo, todo mundo tocava, tocou-se muito choro. Se você pegar, todo mundo, Cleômenes, Palito, seu Raimundo Amaral. Aqui em São Luís, a referência que eu tenho é o [Regional] Tira Teima, é Ubiratan [Sousa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Paulo Trabulsi. O Pixinguinha foi o segundo grupo. Depois do Tira Teima e do Pixinguinha, não demorou muito, o Pixinguinha reinou um pouco, aí começaram a surgir, por exemplo, o Chorando Callado, com Tiaguinho [o saxofonista e clarinetista Tiago Souza], hoje tem Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista], que tá um figura, indo gravar em Brasília, São Paulo, tem esse menino do bandolim, o Robertinho Chinês [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], tem o João Eudes, os filhos de Osmar, tem Osmar [do Trombone], que eu fico muito feliz por ele, foi visitar o filho, os colegas adoraram, ele virou estrela, está gravando o disco lá em Minas. Quer dizer, continua aquela coisa, Clube do Choro sem sede, o povo se reunindo aqui, aqui, ali, mas tem uma geração boa tocando. Meus alunos, quando eu falo, dou o caderno pra todo mundo, “ah, tocar choro” e tal. Tá todo mundo tocando choro.

Nesse processo de pesquisa para o Caderno de Partituras, quais foram as principais dificuldades? Não houve muitas dificuldades. As 10 partituras do disco eu já tinha. Minha ideia foi recolher mais uma de cada. Eu editei, fui nos autores pra corrigir. Escolhi algumas que achava muito importantes. Cesar Teixeira não podia deixar de ter. Algumas partituras eu escrevi, mas a maioria os autores já me deram.

Quem são os teus compositores preferidos da música popular no Maranhão? Aí vão entrar as paixões. A ordem é aquela mesminha: Sérgio Habibe é um cara maravilhoso, o Chico, Josias, tem um cara que eu tenho lembrado muito dele agora, por causa dessa história do Bandeira de Aço, que é o Mochel. Cesar Teixeira inegavelmente, tem características muito próprias, de samba, tem aquela consciência política dele muito forte. É um cara muito especial.

Quais os teus próximos projetos no campo da música? Me aprofundar mais. Fazer um mestrado, se der. Aprofundar.

Qual é a diferença entre o Zezé da Flauta e o Zezé Alves? O Zezé da Flauta surgiu a partir do momento em que eu peguei uma flauta e comecei a tocar em shows, com todo mundo. É a história do “Bota pra Moer”, eu chegava e o pessoal, “olha Zezé!”, e eu onde chegava tirava, e tocava, de graça, toquei muito, tava aprendendo, toquei muito romanticamente. Esse é o Zezé da Flauta. O Zezé Alves é o educador, que começa a racionalizar mais as coisas. Todos dois são legais [risos]. As pessoas me chamam de Zezé da Flauta, gente que me reencontra depois de não sei quantos anos. As pessoas que me conhecem hoje já me chamam de Zezé Alves.

Essa distinção entre um Zezé e outro tem a ver com o consumo de álcool? Não. Por que Zezé Alves ainda bebeu pra poxa [risos]. Todo mundo que passa por essa cirurgia do coração muda muito. Eu acho que é por que o cara vai lá e volta [risos]. Mas não tem a ver não.

Você vê algum futuro para o choro no Maranhão? Não só para o choro. Teu programa [o Chorinhos e Chorões que Ricarte Almeida Santos apresenta aos domingos, às 9h, na Rádio Universidade FM, 106,9MHz], uma iniciativa como a do Alê Muniz, lembrar os 35 anos de um disco [o show em que o projeto BR-135 homenageou o Bandeira de Aço no Teatro Arthur Azevedo]. A música do Maranhão precisa se organizar. Elizeu Cardoso, Bruno Batista, há uma moçada nova muito boa, são mais organizados. A gente era mais romântico.

Tu hoje estás mais concentrado na função de professor. Mas o que te tiraria de casa para um palco ou um estúdio? O convite de grandes amigos, participar de um projeto interessante, com minha turma. Mas mesmo para pessoas de hoje eu não me nego. É só me ligar e marcar que eu vou.

Chorografia do Maranhão: Serra de Almeida

[Primeira entrevista da série Chorografia do Maranhão, publicada em O Imparcial, 3/3/2013]

 

 

O flautista Serrinha inaugura série de entrevistas com grandes instrumentistas do Choro maranhense. Chorografia do Maranhão será publicada quinzenalmente aos domingos em O Imparcial.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Mais conhecido pela alcunha de Serrinha, Serra de Almeida é um senhor tranquilo e elegante. Naquela tarde quente, típica de São Luís, estava mais à vontade, de bermuda, camisa e boné. E flauta em punho, tocada em alguns momentos do bate-papo, a ilustrar musicalmente a conversa, acontecida no bar e restaurante Cumidinha de Buteko (Cohajap, São Luís/MA). Sua imagem, uma espécie de Copinha timbira, contrastava o senhor de camisa e calça sociais, sempre muito bem alinhadas, quando de apresentações em espaços como a Serenata Caixa Alta, o Clube do Choro Recebe e as mais recentes rodas com o Regional Tira-Teima que têm ocupado as sextas-feiras do Hotel Brisa Mar.

Aos 76 anos, diz ser um velho sem muito tempo dedicado ao choro – para ele a música maior. Isso apenas para explicar que passou a maior parte da vida trabalhando com petróleo. Mas só no Tira-Teima já está há quase um quarto de século.

José Serra de Almeida nasceu em São Bernardo/MA, em 13 de novembro de 1936, filho de Francisco Coutinho de Almeida, comerciante que chegou a prefeito do município, flautista diletante, e da dona de casa Maria Magnólia Serra de Almeida. Ainda na infância o menino se apaixonou pela música. A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Fale um pouco de suas experiências profissionais, além da música, com o petróleo e hoje trabalhando em cartório. Nesses 70 e poucos anos que eu tenho, já fiz muita coisa. Mas o trabalho que eu perdurei mais na vida foi quando eu fui petroleiro, petrolista, não sei como é que chama. Eu era auxiliar técnico de petróleo. A empresa investiu muito em mim, fiz vários cursos de petróleo: refinaria, terminal. Houve uma época em que eu passava muito tempo naqueles navios.

Você trabalhava no Maranhão? Não. Eu trabalhei na Bahia, todo esse tempo. 21 anos. De fevereiro de 1960 até 1980. Voltei novamente ao Maranhão, aí saí da empresa. Eu digo 21 anos, mas incompletos.

E quando o senhor saiu do ramo do petróleo, foi fazer o quê? Vim pra cá, fui ser comerciante, comércio de madeira, exploração de madeira, aqui em São Luís. A maior burrice que já fiz. Peguei um ramo errado na minha vida. Foi onde eu gastei quase tudo o que eu ganhei na minha vida, lá na Bahia. Terminei indo à falência. Aquela recessão de 1983, 84, eu comprei uma serraria ali no Anil. A maior serraria de São Luís era a minha, mas eu não tinha experiência. Passei a vida toda trabalhando na Petrobrás, cheguei aqui, fui me meter nisso, arranjei um sócio quebrado, meu irmão, o mais novo, que me induziu a esse tipo de coisa. Sempre muito humilde, eu aceitava tudo aquilo. Nunca tive a impressão que aquilo estivesse errado, sempre tocava pra frente, pagava tudo à vista, pagava os impostos rigorosamente como manda a lei, tinha empregados além do que precisava. Se eu precisava de oito, eu tinha 16. Tinha um caminhão trucado que eu puxava tora do interior pra cá, pra serrar.

E hoje, está aposentado? Eu tive que me aposentar. Foi aí que eu comecei minha vida de novo. Essa flauta aqui [está com o instrumento nas mãos], que eu tocava muito fraco [tinha pouco conhecimento] nesse tempo, ainda, que me ajudou a manter inclusive meus filhos no colégio.

Você se tornou um flautista respeitado em São Luís. Teu pai era flautista. Além do teu pai, qual era o universo musical de tua cidade? Tu conviveste com bandas? Como era o universo musical na tua infância e adolescência? Isso aí sempre teve muita influência por que eu era apaixonado por música. O padre de lá, Padre Nestor, que mataram lá em São Bernardo, não sei se você soube dessa história, ele era formado em música e conseguia tudo pra lá, instrumentos, tudo. A banda tocava em festas, em cidades vizinhas. Lá, só tinha mais do que em São Bernardo, só em Brejo. Brejo sempre foi uma cidade muito musical, histórica. Teve uma época que teve o Pedro Ambrósio, um grande músico, nascido em São Luís, que era muito amigo desse padre.

Havia algum músico, além desse padre, do Pedro Ambrósio, que tu observava em São Bernardo e tinha admiração por ele? Tinha. Não só um, mas vários. Tinha Chico Vaz, que tocava clarinete, o Assis, que tocava trompete e trombone, o Elpídio tocava cavaquinho, o Péricles tocava violão. Essa turma toda, eu menino ainda, convivia com eles. Eles gostavam muito de mim, eu só andava pelo meio.

O fato de tu ter um pai flautista foi o que te levou pra flauta? Nunca teve vontade de aprender outro instrumento? Em parte foi. Em parte foi essa herança de meu pai. A flautinha dele era uma flautinha de ébano, de sete chaves.

E ele foi quem te deu as primeiras aulas? Não, pelo contrário. Eu depois que comprei uma flauta na Bahia, que eu trouxe uma flauta dessas, ainda dei umas aulas para ele [risos].

Tu tinha que idade? Eu já era coroa, já tinha mais de 40 anos.

Teus pais, então, nunca apoiaram, essa iniciativa de tocar? Meu pai nunca desapoiou. Pelo contrário, ele gostava demais disso. Agora, ele não tinha bagagem assim, pra me ensinar. Ele foi aluno desse padre, do maestro Pedro Ambrósio, e lia música. Melhor do que eu. Eu leio muito mal.

O rádio teve alguma influência? Muita! Eu gostava daqueles programas americanos, jazz, aquele Benny Goodman, eu era louco por aquele cara. Eu tenho um dvd em casa que a maior parte é com ele. É um tributo a Louis Armstrong que parece muito com aquela época. A Orquestra Tabajara. Severino Araújo saiu aqui da Paraíba muito novo, mas já formado.

Fora esses, quem são os músicos que te influenciaram, flautistas ou não, brasileiros ou não? Depois que eu comecei a tocar flauta, Altamiro Carrilho. Minha maior referência sempre foi Altamiro Carrilho. Onde eu via qualquer coisa dele eu comprava. Até hoje é assim. Tudo o que passa [na tevê] dele eu gravo. O bom humor dele. Eu tenho um programa que eu gravei já perto de ele morrer, em que ele começava a tocar [imita o som da flauta com a boca] Mozart, um arranjo que ele fez [toca o trecho de abertura na flauta]. Isso ele começou a tocar e no meio da música parece que faltou alguma coisa na memória. Aí ele botou a flauta assim [põe a flauta no colo] e “quiá, quiá, quiá” [imita], caiu na gargalhada [risos]. Aí ele voltou e começou a explicar que a paixão dele era Mozart.

E hoje tu estando aposentado e tendo mais tempo para te dedicar à música, dá para dizer que tu vive ou já viveu de música. Ou é só prazer? Como aposentado eu não tenho muito tempo para música. Já tive. Mas aí eu saturei e tive que arrumar algo para fazer, se não ia ficar estressado, ia adoecer. Há muito tempo vinham me oferecendo uma vaga no cartório, e eu resolvi pegar, já tinha trabalhado com isso. Ele [o proprietário] morreu e eu assumi um compromisso com a filha dele. Sobre a questão de me sustentar com música, isso só nessa época que te falei, que a flauta me ajudou. Eu tava quebrado mesmo. Mas eu, pela ajuda de Deus, eu tive muita sorte, e na Caixa Econômica [Associação do Pessoal da Caixa] tinha uma seresta [Serenata Caixa Alta], e quem fazia, não deu certo. Paulo Trabulsi, Sadi, esse pessoal, não deu certo. Aí eu entrei. Entrei e como eu sempre respeitei muito tudo aquilo que eu pego pra fazer, eu não gosto de falhar, eles não ligavam para nada e eu comecei a mostrar que eu tinha interesse pela coisa. Aí os diretores me chamaram. “Serra, você é que vai ser o chefe do grupo”. E eu digo, “mas rapaz, Paulo é meu amigo”. “Não senhor, é você quem é o chefe do grupo, ou então nada feito”. Me encostou na parede, né?

Como era o nome do grupo? Era Chão de Estrelas. Anos 80. Durante três anos aquilo ali foi dinheiro. Era organizado. Sempre vinham grupos de fora. Eu conheci muita gente boa. Dominguinhos, por exemplo. Sempre que chegava gente, me diziam: “toma conta desse cara”. Aí eu ia andar com Dominguinhos, com outros.

De que grupos musicais você já fez parte? Você disse ainda há pouco que já tocou com Agnaldo [Sete Cordas, lenda vida do instrumento em São Luís]. Agnaldo era do grupo lá da Caixa. Paulo, cavaquinho, Agnaldo, violão [não consegue lembrar de outros nomes]. Ivone cantava, muito boa, Paulo deve ter alguma coisa dela gravada…

Esse era o Chão de Estrelas. Antes, tu já tinha tocado em outro regional? Antes disso aí eu tocava com Paulo mesmo. Era eu, Paulo e Zé Carlos [percussão]. Era esse trio.

Tinha nome esse trio? Não. Era o Tira-Teima mesmo. Por que ele [o regional Tira-Teima] varia muito a formação. O único original que ainda está no grupo é Paulo.

De que grupo você participou por mais tempo? O Tira-Teima mesmo. Do Chão de Estrelas foram quatro anos. No Tira-Teima eu estou desde 89.

Qual a sua opinião sobre o Tira-Teima? O que você acha desse grupo? É muito cheio de caracol, é muito enrolado [risos]. Mas pra mim, não é por que eu participo do grupo não, mas pra mim ainda é um dos grupos que toca tudo. Tudo o que você pensar o Tira-Teima toca. É um grupo genuinamente de choro, o nosso forte é choro, mas se você quiser valsa, baião, música clássica, se toca. Esse que eu toquei agora é um clássico. De Mozart. Minueto do divertimento, o nome dele.

Além de instrumentista, você desenvolve outros tipos de habilidades na música? Compositor, arranjador… Eu me meto a tudo, a compor, a arranjar, a ler música, que eu não sei. Mas quando eu quero eu faço. Faço e escrevo. Paulo fica admirado: “rapaz, como é que tu escreveu isso?” Quando eu tinha tempo, né? Agora…

Tu tens quantos choros, quantas composições? Três. Dom Chiquinho, um choro amaxixado. Eu fiz um choro, e eles [os músicos do Regional Tira-Teima] mudaram. Zé Carlos, com a batida dele, terminou ficando um maxixe. Tem o Choro nobre, que é o segundo. E tem Chorinho embolado, um choro muito bonito [toca um trecho na flauta]. Por aí você já vê que é um choro bonito. Mas mais bonita é a terceira parte [toca novamente; e a pedido de Ricarte, um trecho de Dom Chiquinho]. Eu comecei a cismar com ele [o choro Dom Chiquinho] por que quando eu fiz esse choro eu não conhecia um choro chamado Cheguei [de Pixinguinha], e a segunda parte dele tem muito disso aqui [toca um trecho de Cheguei]. Tem alguma coisa diferente, mas é quase todo igual. Parece demais! Mas eu nem conhecia esse choro. Depois que eu conheci, eu comecei a querer aleijar o Dom Chiquinho, mas já tinha pegado.

Serra, tu já participou da gravação de algum disco? Já. Tem um disco aí, Na palma da mão [verso de Uns e alguns, de Jorge Aragão, que dá título ao primeiro disco do grupo Serrinha & Companhia], que eu participei, no Tributo a Zé Hemetério [outra faixa do disco, de Gordo Elinaldo, executada pelo Regional Tira-Teima, em participação especial] e em Das cinzas à paixão [de Cesar Teixeira, cantada no disco por Zeca do Cavaco, membro do Tira-Teima; Serra de Almeida toca um trecho na flauta]. No cd de Anna Cláudia, num do Festival da Caixa na Paraíba, tem até uma música de Paulo [Trabulsi].

Quem são os compositores do Maranhão que tu mais admira? Da música em geral. Aqui do Maranhão Cesar Teixeira para mim é o melhor. Gosto muito de Ubiratan [Souza], também é um cara muito inteligente.

Na tua opinião, qual a importância do choro para a música brasileira? O choro é a única música brasileira, genuinamente brasileira. Se não fosse tão boa não era tão admirada lá fora. Não era invejada. Causa inveja em algumas partes do planeta. Alemanha, França, Espanha. E difícil! O choro é isso: ninguém consegue dominar com facilidade.

Tu acha que o choro, enquanto linguagem, influencia a música popular brasileira? Não deixa de influenciar. O samba, por exemplo.

Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil? Tem desenvolvido demais. Pelos contatos que tenho, alguns amigos, televisão, a gente vê. O [clarinetista brasiliense] Fernando Machado me conta muita coisa sobre a evolução do choro lá em Brasília, as novas gerações, todo mundo, os jovens entusiasmados tocando choro. Esse Dom Chiquinho ele levou a partitura. Depois esteve aqui e disse: “Serra, teu choro tá sendo tocado lá pelos garotos”.

Isso te alegra? Não deixa de me alegrar, né? Eu já tou mais pra lá do que pra cá e vou levar uma coisa que eu sei que agradou alguém.

Tu participou daquele show de Zé da Velha e Silvério Pontes [lançamento do cd Só Pixinguinha, da dupla, no Circo da Cidade, em 2006, produzido por Ricarte Almeida Santos, com participação de diversos nomes da cena local]. O que foi pra você dividir o palco com aquelas figuras nacionalmente reconhecidas? Foi um verdadeiro banho de orgulho, por estar tocando ali. Aquilo foi um orgulho pra mim. Esse orgulho que tenho não me diminui, não faz mal. Acho que sou capaz de fazer algo semelhante ao que eles fazem.

Eles disseram isso. Compararam com Copinha, que é um dos maiores. Isso também Turíbio Santos já me disse. “Rapaz, você até parece com o Copinha!” Apesar de eu não zelar como devia, pela desenvoltura ao instrumento. Se eu pegasse todo dia no instrumento, como músico tem que fazer.

Tu acha que o choro hoje é diferente de antigamente? Houve algumas modificações, mas em se tratando de choro, na essência, é a mesma coisa. Isso aí ninguém pode mudar.

Qual a tua avaliação do choro praticado no Maranhão hoje? Eu vejo muito pouca coisa. No Maranhão nós somos poucos. Destaque tem você [Ricarte], que é um homem que se dedica, tem que respeitar. Depois tem grupos como o nosso [o Regional Tira-Teima], o [Instrumental] Pixinguinha. Tem muita gente aí que toca choro, mas não é com a alma. Não é como nós, que tocamos e admiramos outras músicas, mas o choro é a principal.

Tu acha que falta, no Maranhão, um espaço de valorização da cultura do choro? Fora o programa de Ricarte [Chorinhos e Chorões, aos domingos, às 9h, na Rádio Universidade FM, 106,9MHz], o [projeto] Clube do Choro Recebe, que aconteceu no bar do Chico Canhoto. Eu acho. O negócio vai mudando muito devagar. Não é como em Brasília que a gente vê o entusiasmo. O Chico Canhoto foi importante, mas o vento levou. Aquilo deixou um resultado. A gente [o Regional Tira-Teima] tá tocando no Hotel Brisa Mar [Ponta d’Areia], toda sexta-feira, de sete e meia às 10 e meia da noite. O rádio tá divulgando, de vez em quando chega gente que era de lá [frequentadores do Chico Canhoto].

Quem são os maiores instrumentistas de choro no Maranhão hoje? Essa pergunta é um pouco difícil. Flauta, eu e João Neto. João Neto é um músico que toca choro. Eu sou chorão. Eu toco choro por prazer, não troco por nada, não desisto. João Neto não é um entusiasta do choro. A pessoa que eu admiro tocando choro aqui é Paulo Trabulsi. Ele é um entusiasta do choro. E não é por que seja meu colega, não.

O Tira-Teima é o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão. O grupo não já devia ter um disco gravado? O que falta para isso? Sim. Isso é um descaso. Uma falta de responsabilidade nossa, até. Falta unificar o pensamento e o interesse do grupo. Eu nunca perdi o ânimo, continuo na esperança de a gente gravar um disco. Quando o negócio tá pra se encaminhar, todo mundo esquece. Não é falta de condição financeira, é falta de responsabilidade mesmo.

Tu arriscaria dar um chute sobre como estará a cena daqui a alguns anos? Eu faço votos de que a gente esteja muito melhor. Nomes novos estão surgindo, mas não é a essência do choro. Eles mudam as coisas. Outro dia eu ouvi o Luizinho [Sete Cordas, músico paulista] dizendo: “gente, vamos respeitar o choro! Vocês estão querendo colocar o carro adiante dos bois”. É isso mesmo!