Um corpo estendido no chão

Uma lembrança por ocasião do aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, hoje

Foto: Zema Ribeiro

Vi o corpo estendido no chão, coberto por um lençol ou coisa que o valha. Um engarrafamento estava se formando, passei em marcha mais lenta que o normal, curiando a cena, como o faziam todos os motoristas. Havia um ônibus parado e uma motocicleta encostada no canteiro central me fez imaginar em um motoqueiro morto num acidente, mais um para as estatísticas. Embrutecido pelo dia a dia e pela pressa, segui adiante.

Na volta de um compromisso, ouvi o comentário de outros flanelinhas. Inclusive dos conselhos dados por estes a familiares da vítima, quando ouviram falarem em “se vingar” do motorista, convencendo-os da inocência do chofer e evitando outra tragédia.

Não sabia seu nome, mas quem havia morrido era um dos mais simpáticos entre estes moleques aos quais a gente dá tanta atenção que, mesmo encontrando-os praticamente todos os dias, sequer sabe o nome.

Nunca o vi de mau humor ou praguejando contra quem não dispunha de moedas para pagar-lhe o serviço: a limpeza dos vidros dianteiro e traseiro do carro e, de cortesia, um “cheirinho”, como ele chamava o “bom ar” ou equivalente que fazia invadir o carro – ao menos aos que se dispunham a baixar o vidro e encarar o sorriso que a lida não havia sido capaz de sequestrar, apesar da dureza.

Ele sofria de epilepsia e num ataque caiu e o ônibus passou sobre seu corpo, levando-o a óbito. Ninguém conhece o histórico familiar, se era beneficiário de algum programa social e, em caso positivo, se o valor a que fazia jus era suficiente para não precisar encarar sol e chuva em busca de moedas para inteirar a renda. Ninguém sabe e na real pouca gente se importa.

Hoje a senhora Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos e eu lembro do flanelinha, cujo nome eu não sabia, não sei, que ficava no semáforo em frente ao Corpo de Bombeiros e penso nele como um símbolo, uma síntese daqueles que têm seus direitos negados e violados.

E lembro-me da história bonita de um motorista de ambulância do Samu que, ao socorrer-lhe durante um de seus ataques epiléticos, guardou 50 centavos que caíram do bolso do flanelinha, devolvendo-lhe a moeda na primeira ocasião em que tornou a encontrá-lo.

No local de sua morte foi improvisada uma cruz, como a simbolizar sua via crucis terrena. Que a homenagem tenha melhor sorte que a placa com o nome da vereadora carioca Marielle Franco, brutalmente assassinada em março. Requiescant in pace.