Em primeira mão: conheça os vencedores do Maranhão na Tela 2018

Mavi Simão anuncia os vencedores do Maranhão na Tela 2018. Foto: Ascom/ Maranhão na Tela

 

Terminou ontem o 11º. Maranhão na Tela. Este ano o festival concentrou suas atividades de exibição em duas salas do complexo Kinoplex, no Golden Shopping, Calhau, em cuja praça de alimentação aconteceram debates, como “Lugar de mulher é no cinema”, de que participaram a atriz e diretora Aurea Maranhão, a diretora e produtora Mavi Simão, e a diretora Rose Panet, sob mediação da jornalista e escritora Andréa Oliveira, e o bate-papo com os diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, mediado pelo poeta e jornalista Celso Borges, após a sessão que exibiu versão remasterizada de Baile perfumado (1996).

Esse deslocamento geográfico gerou críticas ao festival nas redes sociais. De minha parte, gosto de pensar em duas questões: a comprovada qualidade das exibições e a possibilidade, a um estudante de escola pública ou a um morador de periferia, sobretudo quem nunca esteve em um cinema, fazer sua estreia logo em uma sala luxuosa, sem pagar ingresso, o que se tornou realidade para muita gente.

Idealizadora e produtora do Maranhão na Tela, Mavi Simão canta uma vez por ano, justamente na festa de encerramento do festival, que ontem ocupou o Fanzine, na Av. Beira-Mar, Centro. Antes, ela mesmo anunciou e entregou os troféus aos vencedores das mais diversas categorias.

Fiz um esforço para tuitar em tempo real, mas por lerdeza, algum grau de mouquidão, lentidão na internet, por vezes, e às vezes tudo isso junto, vacilei na cata de alguns nomes.

A atriz e diretora Patrícia Niedermeir e o diretor e montador Christian Caselli formaram o júri para longa-metragem; videoclipes foram julgados pelo diretor Lírio Ferreira e a produtora cultural Luciana Adão; e curta-metragem pelo curador e produtor Breno Lira Gomes e o técnico Carlos Henrique Santos, da equipe de formação audiovisual do Centro Técnico Audiovisual (CTav), órgão vinculado à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC).

Além dos troféus, baseados na obra do artista Walter Sá, em que se apoiou toda a identidade visual do festival este ano, os melhores filmes e videoclipes ganharam horas de aluguel de equipamentos e mixagem no CTav. Eis a relação completa dos vencedores:

MOSTRA NOSSO CINEMA

Longa-metragem

Melhor atriz: Keila Gentil, Para ter onde ir

Melhor ator: Aldo Leite (homenagem póstuma), No palco com Aldo Leite

Melhor atriz coadjuvante: Joelma Maestrini, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor direção de fotografia: Beto Martins, Para ter onde ir

Melhor ator coadjuvante: Fabio Lima, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor som: João Simas, A tribo do reggae

Melhor roteiro: Rose Panet, Manuel Bernardino: o Lénin da Matta

Melhor direção de arte: Dida Maranhão e Geovane Camargo, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor montagem: André Garros, Manuel Bernardino: o Lénin da Matta

Melhor filme: Para ter onde ir

Melhor direção: Jorane Castro, Para ter onde ir

Curta-metragem

Melhor direção: Al Danúzio e Thiago Kistenmacker, Aquarela

Melhor filme: Foi-se

Melhor roteiro: Adriano Pinheiro, Foi-se

Melhor som: Foi-se

Melhor direção de fotografia: Roman Lechapelier, Farol

Melhor direção de arte: Jeff Cecim, Raimundo Quintenela – O caçador de vira porco

Melhor montagem: Arturo Saboia, Farol

Melhor ator: Diego Bauer, Obeso mórbido

Melhor atriz: Luna Gandra, Aquarela

Melhor ator coadjuvante: Francisco Gaspar, Raimundo Quintenela – O caçador de vira porco

Melhor atriz  coadjuvante: Rosa Ewerton Jara, Aquarela

Videoclipe

Melhor videoclipe: Cabelo, Liége

Melhor direção: Arthur Rosa França, A menina do salão, do Criolina

Melhor direção de fotografia: Thiago Pelas, Deusa da lua perigosa, de Sammliz e Dona Onete

Melhor montagem: Lucas Domires e Alexandre Nogueira, por Lança (Até morrer), de Juliana Sinimbú

Melhor direção de arte: Neile Albertina, Frimes – Fadinha

Melhor performance: Pratagy, Búfalo

Premio especial do júri: Lucas Sá, Boy, de Butantan e Only Fuego

MOSTRA MARANHÃO DE CINEMA

Melhor filme: 3x melhor

Prêmio especial do júri: Alberto Greciano, Divino Pato

Menção honrosa: Roberto Augusto, Cantiliana e os herdeiros do mal de Lázaro

Menção honrosa: Maria Thereza Soares, José Louzeiro – Depois da luta

Black friday talk show

Foto: Zema Ribeiro

 

Era uma sexta-feira de black friday e estávamos na praça de alimentação de um shopping center. Por conta de uma das promoções típicas da data, a fila do Burger King era enorme e obviamente não passou despercebida a Lírio Ferreira, um dos diretores do clássico Baile perfumado, lançado há 22 anos, em Pernambuco. Com ele, no bate-papo, seu par de direção do filme Paulo Caldas, e o mediador, o poeta e jornalista Celso Borges.

Película importante da chamada fase de retomada do cinema nacional, após o desmantelo da Embrafilme no governo Collor, Baile perfumado foi o precursor de tudo o que viria depois em se tratando de cinema pernambucano, o Árido movie, que não à toa intitulou outro filme de Lírio Ferreira 10 anos depois, o estado nordestino um dos mais importantes celeiros do cinema nacional desde então.

Uma versão remasterizada de Baile perfumado foi exibida ontem (23) na programação do Festival Maranhão na Tela, em uma sala do Kinoplex Golden, no Golden Shopping, Calhau. “É interessante estarmos aqui. Embora seja estranho fazer isso em um shopping center. Mas quem diria, 22 anos depois do Baile perfumado, nós estarmos debatendo o filme aqui, em uma praça de alimentação, diante da fila enorme do Burger King”, disparou Lírio Ferreira.

Na plateia eu pensava que rever Baile perfumado na ocasião era uma espécie de atestado afetivo de velhice: eu tinha visto o filme na finada MTV Brasil. A trilha sonora, impactante, funciona como uma espécie de coletânea do MangueBit, o último movimento musical organizado de grande repercussão no Brasil, à época então se firmando: Chico Science, Fred 04, Mestre Ambrósio, Stela Campos e companhia.

“Quando gravamos o filme, já tínhamos 80 por cento da trilha sonora gravada”, revelou Lírio. “É muito bom poder ouvir o filme antes de rodá-lo”, repetiu Paulo Caldas.

Com Luís Carlos Vasconcelos e Duda Mamberti interpretando respectivamente Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Benjamim Abrahão, Baile perfumado tinge de ficção vermelho sangue a história real do fotógrafo libanês que conseguiu fazer imagens do cangaceiro em vida. Ao filme, aliás, comparecem as imagens em preto e branco da época de Lampião e seu bando.

“Havia várias imagens de vários arquivos. A gente juntou, recuperou, e está tudo na Cinemateca Brasileira”, comentou Paulo Caldas, revelando uma espécie de contrapartida histórica da dupla ao país – são imagens fabulosas, um documento valioso, sobretudo num tempo em que museus pegam fogo e pouca gente se importa.

O cangaço é algo muito forte no imaginário coletivo nordestino. “Lampião é, ao lado de Padre Cícero e Antonio Conselheiro, um dos maiores símbolos do Nordeste”, provocou Celso Borges. “E Luiz Gonzaga”, completou Lírio.

O nome de Luiz Inácio Lula da Silva não foi dito, talvez por terem citado apenas os que já se foram. Mas o descontentamento com os rumos do país ficou claro em suas falas. “Fazer cinema não é fácil, mas imagino que ser professor de escola pública também não seja fácil”, atacou Lírio. “Ainda mais num espaço sem liberdade, escola sem partido ou escola de partido único”, emendou Caldas.

“Uma coisa fica evidente, se estamos aqui 22 anos depois falando desse filme: o que fica é a arte, a coisa mais importante de um país é sua arte, sua cultura, não é a política”, completou, para aplausos dos poucos que assistiam ao bate-papo, infelizmente menos gente sentada que em pé na fila da citada lanchonete.

Aquarela será exibido hoje em São Luís

Curta-metragem maranhense venceu dois kikitos em Gramado e é um dos favoritos na mostra competitiva do festival Maranhão na Tela

Aquarela. Cartaz. Reprodução

Por detrás da fragilidade e inocência de uma criança (Clarinha, interpretada por Maria Helena De Dea), que envia um desenho para o pai, os diretores e roteiristas Al Danuzio e Thiago Kistenmacker estabelecem a trama alicerçada em flashbacks do curta-metragem Aquarela [drama, Brasil, 2018, 15 minutos].

As tintas da delicadeza para pintar um retrato do em geral trágico e brutal sistema penitenciário brasileiro. Inspirado em fatos reais, avisam, de início, dando ares de documentário à ficção.

“Uma denúncia revela que mulheres de detentos estão sendo abusadas dentro da penitenciária nos dias de visita. Líderes de facções criminosas obrigam as mulheres a manter relações sexuais com eles sob ameaças de matar os outros detentos, parentes ou maridos das vítimas”, uma locução de telejornal nos esfrega a triste e trágica realidade ao final.

Al Danuzio (que interpreta o detento Marcelo, pai de Clarinha) e Thiago Kistenmacker abordam o horror do sistema prisional por um ângulo inusitado. Quem não ler a sinopse e cair em uma sessão poderá se dizer enganado pelo título, que remete ao que o filme tem de poético, embora seja impossível escapar da violência.

A cena em que Ana (Luna Gandra) é enquadrada através dos cobogós é de uma beleza ímpar, em metáfora (também presente no cartaz) que sintetiza a opinião de muitos agentes de segurança pública, sobretudo policiais: mulher de malandro é malandra, filha de malandro é malandra, sentenciam, às vezes justificando a pena de morte a que os mesmos condenam sumariamente quem quer que orbite um detento.

A pergunta de Ana a Marcelo, durante a visita, é emblemática sobre o inchaço dos presídios brasileiros: “e o advogado? Disse quando é que vão te julgar?”. O que o filme tem de poético não disfarça os problemas do sistema nem joga tintas de pieguice em um dos maiores dramas não só do Brasil, mas com que, particularmente aqui, muito pouca gente se importa, apesar de seus reflexos para muito além dos muros de penitenciárias e que tais.

Cabem destacar ainda as atuações de Rosa Ewerton Jara (Dolores, mãe de Marcelo) e Urias de Oliveira (Diabão). Aquarela voltou do Festival de Gramado com dois kikitos na bagagem: melhor desenho de som (Fabio Carneiro Leão) e melhor montagem (Thiago Kistenmacker).

Serviço

Aquarela será exibido hoje (19) no festival Maranhão na Tela e certamente é um dos favoritos na mostra competitiva de curtas-metragens. As sessões acontecem às 19h (Kinoplex Golden Sala Platinum) e 21h15 (Kinoplex Golden Sala Kinoevolution), no Golden Shopping (Calhau). Toda a programação do festival é gratuita.

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Veja o trailer:

O beijo no asfalto terá exibição hoje em São Luís

Adaptação de Nelson Rodrigues, filme marca estreia de Murilo Benício como diretor. Sessão abre festival Maranhão na Tela

Lázaro Ramos em cena de O beijo no asfalto. Frame. Reprodução

Ator consagrado, Murilo Benício estreia na direção com O beijo no asfalto [Brasil, drama, 2017, 101 minutos; classificação indicativa: 12 anos], adaptação – de que assina o roteiro – da peça de Nelson Rodrigues. Filmado em preto e branco, a opção do diretor não esbarra no óbvio, contrariando quem eventualmente pensar na escolha como uma busca das facilidades ao refazer um texto consagrado. Ao contrário, o diretor parece guiar-se justamente por essa preocupação: o que pode ainda atrair espectadores em um texto tantas vezes adaptado e encenado?

Para começar, Murilo Benício cerca-se de grandes nomes – Lázaro Ramos (Arandir), Débora Falabella (Selminha), Luiza Tiso (Dália), Otávio Muller (Amado Ribeiro), Stênio Garcia (o sogro de Arandir) e Fernanda Montenegro, entre outros – da televisão, do cinema e do teatro, e nos apresenta um filme, de atmosfera noir (a fotografia é de Walter Carvalho), híbrido dessas linguagens, no caso do cinema transitando com desenvoltura entre a ficção, o documentário e o making of.

Todo o grupo de atores está sentado ao redor de uma mesa, repassando o texto, a que são acrescidos comentários, sobre a grandeza rodrigueana, a hipocrisia social reinante desde sempre ou a monumentalidade de outros atores e atrizes que já encarnaram os papéis naquela peça – o próprio diretor aparece, sentado e discreto. O filme mescla esse ambiente de ensaio com bastidores de teatro e de set, com câmeras, microfones boom e outros equipamentos dividindo a cena com o dream team da dramaturgia de Nelson Rodrigues repaginada por Murilo Benício.

O enredo é por demais conhecido: um homem (Arandir), na Praça da Bandeira carioca, vê outro ser atropelado por um lotação e atende seu último desejo: um beijo na boca, visto por toda sorte de transeuntes, entre homens comuns, meros curiosos, e um jornalista inescrupuloso (Amado) que ganha a vida com o sensacionalismo nosso de cada dia. A partir daí este homem tem a vida devassada, num conluio entre a mídia, a polícia e a sociedade conservadora.

Qualquer semelhança entre a ficção sessentista de Nelson Rodrigues e a realidade brasileira de 2018 não é mera coincidência. A adaptação de Murilo Benício coloca em debate temas infelizmente ainda bastante atuais: a homofobia, a manipulação das pessoas por meios de comunicação (ou por redes sociais, em nossos tristes tempos) e um sentimento de culpa baseado em uma moral cristã. “Nelson Rodrigues tem um teatro da culpa; embora em busca de redenção, mas esta se dá pela culpa”, afirma categoricamente Fernanda Montenegro – que afinal de contas, era a Selminha da montagem original e aqui aparece como dona Matilde, uma vizinha fofoqueira.

Outra fala da atriz nos traz à triste realidade: passado tanto tempo, o Brasil segue atrasado em matéria de “moral e bons costumes”, no que imagino que a opção de Benício pelo preto e branco, mais que estética, seja também um modo de dizer: de nada adiantaram as cores e a tecnologia se um texto que se passa em 1960 pode ser encenado como atual no Brasil em pleno 2018.

Serviço

O beijo no asfalto será exibido hoje (15), às 20h, no Kinoplex (Golden Shopping, Calhau), na sessão de abertura do 11º. Festival Maranhão na Tela, com a presença do diretor Murilo Benício. A sessão é gratuita e aberta ao público, como toda a programação do festival.

Amado para sempre

O cineasta Orson Welles em ação. Netflix. Reprodução

 

Orson Welles (1915-1985) foi, como ele mesmo admitia, vítima de uma espécie de maldição, causada por sua própria genialidade: aos 25 anos lançou Cidadão Kane [Citizen Kane, 1941, 119 minutos], considerado por muitos o melhor filme da história do cinema em todos os tempos. Até o fim da vida, sempre que lançava um novo filme, as expectativas em torno eram acrescidas da inevitável comparação com sua obra-prima ou pela ansiedade em torno da superação do cineasta por si próprio. Qualquer outro realizador, americano ou não, poderia também ser considerado genial (muitos deles merecidamente) sem ter precisado fazer um Cidadão Kane, portanto livres de cobranças do gênero.

O outro lado do vento [The other side of the Wind, 2018, 122 minutos] joga luzes sobre esta espécie de maldição: filme de montador (Bob Murawski), o inédito deixado por Orson Welles acaba de ser lançado pela Netflix. Metacinema, cinema sobre cinema, cinema para cineastas, cinema para cinéfilos, seu fã-clube, nada desprezível, comemora. Fragmentário, entrecortado. Uma sátira cinematográfica, uma contundente crítica à indústria cinematográfica, mas também um comovente tributo à sétima arte – sua polifonia impressiona. Cinema, simplesmente.

Ao mesmo tempo a plataforma disponibiliza também Serei amado quando morrer [They’ll love me when I’m dead, 2018, 98 minutos], dirigido por Morgan Neville, documentário sobre a feitura de O outro lado do vento, este, sobretudo, uma aula de cinema. Aliás, ambos são verdadeiras aulas de cinema: a mensagem final de O outro lado do vento é certeira: “filmem tudo, filmem até morrer”, recomenda o diretor, antes que as pessoas deixassem de ver espetáculos com os próprios olhos para vê-los através das telas de seus smartphones – certamente não era disso que falava, mas como todo grande artista era também um visionário.

Mas estará enganado quem pensar que Serei amado quando morrer é mero making of, manual de instruções, chave de leitura ou “os extras do dvd” de O outro lado do vento: o documentário ajuda a entender a figura plural (em todos os sentidos) de Orson Welles.

O outro lado do vento é uma espécie de cinebiografia de um alter ego de Welles, um obcecado por cinema, que apesar da grandeza, nem sempre teve vida fácil para realizar este ou aquele projeto – palavrinha surrada hoje em dia –, um dos motivos pelos quais acabaria se “exilando” de Hollywood. Com trilha de Michel Legrand, o filme é cheio de referências cinematográficas e literárias (sobretudo Ernest Hemingway) e tem uma das mais bem feitas cenas de sexo da história do cinema.

Orson Welles escreveu e dirigiu O outro lado do vento ainda nos anos 1970 e nele trabalhou até morrer. Falta de financiamento, batalha judicial, mais de 100 horas de material bruto filmado, inúmeras anotações e diretrizes compõem a saga do lendário filme inacabado do cineasta. Mais de três décadas depois sua genialidade é posta à prova. O par de filmes prova que ele segue merecedor do epíteto.

Garrincha do Brasil

Garrincha, a alegria do povo. Cartaz. Reprodução

 

Nada mais simbólico que neste domingo de missa, praia, céu de anil, sangue no jornal e bandeiras e adesivos nas avenidas, o Canal Brasil exibir Garrincha, alegria do povo [documentário, Brasil, 1962, restaurado em 2006; 58 min.], tributo cinematográfico de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) ao anjo das pernas tortas – de carioca para carioca, de craque pra craque, tabela perfeita, um gol de cinema. O filme tem roteiro do diretor com Luiz Carlos Barreto, Armando Nogueira (1927-2010), Mário Carneiro (1930-2007) e David Neves (1938-1994).

Personagem emblemático do futebol brasileiro, Garrincha (Manuel Francisco dos Santos, 1933-1983) é até hoje adorado não só por botafoguenses: seus dribles desconcertantes encantavam até mesmo os adversários – e seguem encantando, em videotapes ou no filme de Andrade. Eis aí um brasileiro capaz de unir o Brasil.

Acervo Cinemateca Brasileira. Reprodução

Eram outros tempos, em que um futebol tinha uma dimensão menos espetacularizada (e monetizada, através da publicidade, sobretudo) e a gente humilde (onde vez por outra surge um Garrincha) tinha condições de frequentar estádios, antes de estes passarem a ser chamados de arenas.

A homenagem de Andrade a Garrincha, prestada ainda em vida, como advogavam Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Guilherme de Brito (1922-2006), acertadamente não se prende a ser uma espécie de “melhores momentos” do craque (o que qualquer produtor de tevê faz na segunda-feira, após a rodada do fim de semana), nem adentra a tragédia do alcoolismo que o vitimou, talvez por ter sido realizado no auge do futebolista, em 1962 – e já que falamos em música, à trilha sonora comparecem as escolas de samba Portela e Império Serrano.

Andrade equilibra a montagem entre o delírio das torcidas e o silêncio das fotografias em preto e branco com que também ilustra seu filme, antológico qual um drible do homenageado, a reação do craque à fama (uma câmera escondida acompanha o ídolo pelas ruas do Rio de Janeiro) e a dimensão humana do personagem: pai de sete filhas, a casa humilde, na Pau Grande natal, decorada quase completamente com temas futebolísticos – retratos, flâmulas –, e o aparelho de som, diante do qual aparece dançando e botando as filhas para dançar, numa coleção que tinha Nat King Cole, sambas e marchinhas, o próprio Garrincha personagem de alguns clássicos da música popular brasileira.

É cinema, mas contém teatro (o espetáculo das jogadas individuais de Garrincha e as vitórias alcançadas pelo Botafogo e pela Seleção Brasileira nas copas de 1958 e 62), dança (não apenas na sala de casa: Garrincha bailava ao deixar adversários – os joões, como ele mesmo se referia a seus marcadores – no chão), pintura (cada fotografia de um drible de Mané merece moldura) e poesia: adaptando Leminski (1944-1989, que posteriormente se referiria a Zico, com essa pergunta), “como explicar um gol de Garrincha?”. Tarefa impossível: quem explica um milagre? Em se tratando de Garrincha, é simplesmente disso que se trata.

Uma história curiosa que comparece à película narrada por Heron Domingues é a de que Garrincha chegou a se empregar na fábrica de tecidos em torno do qual girava a vida em Pau Grande. Conseguia a proeza de dormir em pleno expediente, apesar do barulho ensurdecedor das máquinas. Sua demissão ficava adiada para a próxima segunda-feira e nunca se concretizava, pois no fim de semana ele fazia os gols das vitórias do Sport Club Pau Grande, o time da fábrica, ampliando o respeito dos colegas – e garantindo a sobrevida no emprego.

Criador de passarinhos, entre os bichos de sua “coleção”, havia um mainá, ave reconhecida pela capacidade de aprender algumas palavras, quando em cativeiro. Duas ou três vezes ao longo do filme ouvimos o bichinho de estimação de Garrincha gritar: “Vasco!”.

É vendo Garrincha, alegria do povo que entendemos a resposta de Vinicius de Moraes (1913-1980) a um superior no Itamaraty, quando perguntado se não gostaria de prolongar sua função no estrangeiro: “e você sabe lá o que é um choro de Pixinguinha, o que é torcer pelo Botafogo?”.

A classe média no espelho

Karine Telles e Otávio Müller em cena de Benzinho. Frame. Reprodução

 

Sem firulas ou grandes intrigas, Benzinho [coprodução Brasil/Uruguai, 2018, drama, 95 min.; direção: Gustavo Pizzi; em cartaz no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença)] é um retrato da típica classe média brasileira, para irmos direto ao ponto, como o próprio enredo do filme.

Conta a história de uma família que vive em Petrópolis (o filme foi rodado lá e em Araruama), numa casa caindo aos pedaços – apesar de ter uma casa de veraneio –, enquanto seus membros se viram nos trinta para conseguir pagar as contas.

Klaus (Otávio Müller) é um livreiro romântico – redundância intencional –, a típica profissão em extinção. Irene (Karine Teles), sua esposa, é a mãe batalhadora, o retrato da mulher enquanto heroína, que se divide entre os afazeres domésticos, criar os quatro filhos, estudar e ajudar no orçamento doméstico, entre a venda de roupas de cama e quentinhas.

Há discordâncias entre o casal apaixonado, sobretudo quanto ao convite a Fernando (Konstantinos Sarris), o filho mais velho, para ir jogar handebol na Alemanha e a venda da casa de praia – Klaus sonha em terminar uma nova casa para morarem e abrir um novo negócio com o dinheiro da venda.

Se o filme não adentra questões políticas, pauta de qualquer família, não apenas classe média, no Brasil polarizado de hoje, a trama comporta a abordagem a um tema infelizmente ainda não superado, com estreitas relações com o golpe jurídico-político-midiático em voga desde 2016: a violência contra a mulher.

Ao longo da película, descobriremos que Irene foi explorada em situação de trabalho doméstico infantil. Quando ela abriga a irmã (Sônia, vivida por Adriana Esteves) e o filho, após uma agressão do marido (Alan, vivido por César Troncoso), manda um recado cristalino ao espectador: está ultrapassado o dito popular de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

O filme guarda ainda uma surpresa: a discreta participação especial do compositor Ivor Lancellotti, pai do incensado Domenico e autor de sucessos de, entre outros, Alcione, Beth Carvalho, Clara Nunes, Nana Caymmi e Roberto Carlos.

Benzinho, no fundo, é uma história de amor, longe de resvalar na pieguice.

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Veja o trailer:

Cinemateca Lume estreia hoje (6), com sessão seguida de debate com diretores

Divulgação

 

“Meus pais [os poetas Nauro Machado (1935-2015) e Arlete Nogueira da Cruz] foram os grandes responsáveis por eu ser um apaixonado pelo cinema. O fato de ir quase diariamente para uma sala de projeção foi o que me moldou a ser hoje um cineasta”, declarou-me em entrevista, em 2011, Frederico Machado.

Mais que cineasta, Fred, como é carinhosamente chamado pelos mais próximos, é um homem de cinema, na acepção mais ampla da expressão, tendo ao longo destes anos de dedicação à sétima arte colecionado monumentos de resistência, mesmo quando acossado por dívidas: a locadora Backbeat (a maior do Nordeste e certamente uma das maiores do país, num momento em que o setor perde a batalha para os serviços de streaming), o Cine Lume (com três estreias semanais, ponto fora da curva em relação a qualquer outra sala em São Luís), a Lume Filmes (por onde realiza suas próprias obras e projetos em que acredita) e a Escola Lume de Cinema (que colaborou na formação de toda uma geração de diretores/as, atores/atrizes e técnicos/as).

Hoje (6), Frederico Machado inaugura mais uma pedra fundamental nesta trajetória ímpar: às 20h, no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença), com entrada gratuita, acontece a primeira sessão da Cinemateca Lume, que pretende ser uma referência em se tratando de acervo fílmico produzido por diretores/as locais.

Serão exibidos seis filmes, sendo o sexto um filme surpresa, cujo título não foi anunciado. Os outros cinco são Jardins suspensos, de Euclides Moreira, Amniogênese, de Rose Panet, Carnavalha, de Ramusyo Brasil e Áurea Maranhão, Marina, de Taciano Brito, e Você é diferente, de George Pedrosa.

Após a exibição haverá debate com os diretores.

Está nos planos de Frederico Machado realizar uma sessão mensal da Cinemateca Lume, prestigiando as diversas vertentes do cinema local, sem distinção de gênero, metragem ou outras de qualquer natureza, sempre seguida de debate com os realizadores, e com entrada franca. Nomes como Breno Ferreira (Walter do 402), Francisco Colombo (Avesso) e Maria Thereza Soares (José Louzeiro: depois da luta) já confirmaram participação em edições vindouras da Cinemateca Lume.

Documentário reverencia Humberto de Maracanã e contribui para a manutenção de seu legado

O mestre Humberto de Maracanã. Foto: Diana Gandra
O batalhão pesado de Maracanã. Foto: Diana Gandra

 

É necessário reconhecer a importância do trabalho empreendido pelo grupo A Barca, ao longo de 20 anos de existência – um novo disco celebrando a marca deve ser lançado até o fim do ano –, no registro de manifestações da cultura popular brasileira. Guardadas as devidas proporções, seu trabalho se irmana a mapeamentos fundamentais como as pioneiras Missões de Pesquisas Folclóricas empreendidas por Mário de Andrade ainda nos anos 1930 e todo o catálogo da gravadora Discos Marcus Pereira, do publicitário aficionado por música popular, realizado entre os anos 1960 e 70.

Dito isto, merece especial destaque a paixão da contrabaixista Renata Amaral pela cultura popular do Maranhão. Com o grupo, ela foi responsável pelo lançamento de discos como os do Baião de Princesas, Tambor de Crioula de Taboca, Tambor de Mina Raiz Nagô, Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestações da Casa Fanti Ashanti, do Bumba Meu Boi de Costa de Mão Brilho da Sociedade, Tenda São José e Estrela Brasileira, do Bumba Meu Boi de Maracanã.

Renata também assina direção e roteiro do documentário musical Pedra da Memória (2013), que acompanha uma viagem do babalorixá Euclides Talabyan ao Benin.

Guriatã. Capa. Reprodução

No último dia de São João (24 de junho), Renata Amaral lançou, durante a cerimônia do batizado do Bumba Meu Boi de Maracanã, na sede do grupo homônimo, na comunidade idem, no interior da Ilha de São Luís, o documentário Guriatã [Brasil, 2018, 90 min.], com direção e roteiro também assinados por ela – o projeto foi selecionado pelo edital Rumos Itaú Cultural.

A musicista e cineasta conviveu com Humberto por cerca de duas décadas, inclusive como integrantes do Ponto BR, coletivo que reúne mestres de cultura popular de várias regiões do Brasil. O que se percebe no filme é um misto de intimidade, comunhão e devoção.

Estrela de primeira grandeza, interpretado por vozes como Alcione e Maria Bethania, Humberto Barbosa Mendes (1939-2015) era um homem simples, do povo. Lavrador. Sobretudo de versos. Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura.

O guriatã do título é uma alcunha adotada pelo próprio Humberto, assim reconhecido por pessoas próximas e pelos milhares de seguidores e seguidoras de seu batalhão pesado. Curioso é que o passarinho que lhe deu apelido é conhecido por imitar o canto de outros pássaros, embora Humberto de Maracanã fosse dono de um canto e uma poesia extremamente originais – não à toa vários depoimentos apontem-no como único, maior.

É impactante ver a emoção causada por seu canto e sua capacidade de liderança. É comovente o relato de Walter França – mestre de maracatu, também seu companheiro no coletivo Ponto BR – sobre a primeira vez que ouviu uma toada do maranhense e sua vontade imediata de conhecer o compositor. É curiosa a revelação da porção sambista do protagonista. É sublime o registro de Humberto junto a Pai Euclides e Mestre Apolônio, todos já falecidos. É engraçado compartilhar de momentos descontraídos, a diretora transformando qualquer espectador em íntimo do ídolo.

A lembrança de toadas de pique – equivalentes aos repentes de violeiros no universo do bumba meu boi – também garante boas risadas, com Humberto em geral vencendo os desafios. Mesmo quando se fala em seu falecimento, a reverência com que é tratado atenua a dor da perda e aponta para a perpetuação de seu legado – a grande família, consanguínea e comunitária, de Mestre Humberto tem mantido viva e acesa a tradição do Bumba Meu Boi de Maracanã, para o que também o documentário de Renata Amaral dá contribuição inestimável.

E não é o Domingão do Faustão!

O vazio do domingo. Frame. Reprodução

 

Como muitos podem pensar ao ler o título O vazio do domingo [La enfermedad del domingo, drama, Espanha, 2017, 113 min., classificação indicativa: 16 anos; disponível no Netflix].

O belo filme de Ramón Salazar explora de maneira poética, emoldurado por belas paisagens, os limites da ética e do amor.

Começa com ares de filme policial, a trama a envolver o espectador em uma espécie de jogo de gato e rato.

As atuações de Bárbara Lennie e Susi Sánchez, que interpretam a filha Chiara e Anabel, a mãe que a abandonou décadas antes, são estonteantes – nelas se concentra o enredo, numa curta temporada em que passam juntas, a partir de um pedido da primeira.

Anabel tornou-se rica e poderosa e ao ver a reaproximação da filha, imagina mesquinhamente tratar-se de alguém que quer dinheiro. É aí que há uma guinada para um convívio durante o qual é forçada a sair de sua zona de conforto, entregando-se a tarefas domésticas simples, lembranças, feridas que não cicatrizam e um tempo que ameaça consumir a (re)descoberta de laços – no que o título em português é mais sutil que o original, ao não entregar o ouro de cara, ao contrário deste resenhista que não se importa em dar spoiler.

O atrito entre as protagonistas é permanente, apesar do atavismo que as une – “quem herda aos seus não degenera”, diz o dito popular. Em determinada cena, mãe e filha veem slides e aquela se surpreende com uma memória impossível: em uma imagem aparece grávida de Chiara, mas com a mesma idade desta, a seu lado. A filha explica tratar-se de uma colagem, algo simples, elogiada pela mãe quase como uma obra de arte, enquanto surge uma nova revelação sobre o passado da adolescente abandonada. Um drama familiar comovente.

Extras

Tungstênio. Cartaz. Reprodução

 

Estreia hoje (21) em diversas salas de cinema no Brasil Tungstênio, adaptação de Heitor Dhalia para a graphic novel de Marcello Quintanilha. Em São Luís o filme será exibido no cinema do Shopping da Ilha.

Conversei com o diretor e o quadrinhista para a coluna mensal Emaranhado, que assino no site do Itaú Cultural.

A seguir, a íntegra das conversas.

O cineasta Heitor Dhalia e o quadrinhista Marcello Quintanilha. Foto: divulgação

ENTREVISTA: HEITOR DHALIA

Entre outros feitos você possui no currículo a adaptação de O cheiro do ralo, romance do quadrinhista Lourenço Mutarelli, para citarmos outra bem sucedida adaptação. Você se sente mais à vontade dirigindo um roteiro original, uma adaptação ou tanto faz?
Na verdade, pra mim tanto faz. São dois caminhos diferentes, são duas vertentes e sensações completamente distintas, quando você cria uma obra do zero e aí consegue construir todo aquele universo a partir de uma ideia original, mas também tem um sabor muito grande você adaptar uma obra que já existe, mergulhar no universo de um autor e traduzir esse universo pro mundo, fazer esse universo que já está construído de alguma maneira encontrar ressonância na realidade, em personagens, atores, locações de verdade, traduzir nos figurinos, nos conceitos da dramaturgia. É um desafio, por que você tem a referência do autor de origem e a obra de origem, que você tem que de alguma maneira respeitar. Toda adaptação é de alguma maneira uma traição e ao mesmo tempo uma homenagem à obra original. É um prazer muito grande poder adaptar, eu adaptei duas obras integralmente, O cheiro do ralo e agora o Tungstênio e fiz alguns roteiros originais também. Então as duas coisas têm igual sabor, são desafios diferentes, mas igualmente tentadoras, quando você acha uma obra que você quer adaptar ou tem uma ideia original e quer levar essa obra a cabo. São jornadas distintas, mas ambas muito recompensadoras.

Tungstênio é bastante fiel aos quadrinhos de Marcello Quintanilha, cuja graphic novel já é, em si, bastante cinematográfica. Como foi a decisão de levar essa história à telona?
Na verdade a decisão de fazer o Tungstênio se deve ao fato dos temas propostos pelo filme. O Tungstênio é uma tradução do Brasil 2018, ele toca em questões muito relevantes do nosso tempo. Por exemplo, esse acúmulo de tensões sociais, o esgarçamento da malha social, que tem levado a uma polarização política muito grande e é tudo meio à flor da pele. A gente viu, por exemplo, agora na greve dos caminhoneiros, um exemplo disso: como um evento aleatório consegue detonar uma série de tensões que estão submersas e que atingem todo mundo de uma maneira muito forte, muito violenta. Tungstênio é um pouco isso, esse momento de tensões acumuladas, que no caso, uma pescaria-bomba deflagra uma série de eventos numa espiral de caos. Eu acho que é bem o momento do Brasil atual, essa tensão acumulada que a gente está sentindo. O filme aborda também questões como o saudosismo da intervenção militar. Quando a gente filmou era uma ironia, uma sátira, e tristemente isso parece se tornar o sentimento de uma parcela grande da população, meio absurdo. Aborda também a questão da violência policial, da questão da discussão de gênero, tem uma relação abusiva entre esse policial e a mulher dele. O racismo estrutural que a gente vive, nas periferias, nos subúrbios brasileiros, quando você tem uma grande parte da população que vive ali abaixo da linha da sobrevivência ou lutando por ela de uma maneira muito difícil e essas tensões são mostradas no filme de alguma maneira. O filme não abarca todas elas, por que a história se passa num recorte de tempo muito curto, mas ele toca em temas muito atuais, o racismo, a discussão de gênero, a violência policial, e essa tensão social que a gente vê muito nas redes sociais e que agora explode também no tecido social de um jeito muito violento.

O próprio Quintanilha integra o time de roteiristas. Isso ajudou a manter essa citada fidelidade?
Claro que ter o Quintanilha na nossa equipe de roteiristas foi um facilitador, uma honra, um luxo pra gente, tê-lo no processo de roteiro, e também um pouco na filmagem, mas eu acho que a fidelidade, a busca por ela, se deve a uma decisão conceitual de tentar nos aproximar o máximo possível da obra de origem. Tem gente que adapta histórias pegando essas histórias como ponto de partida e não como ponto de chegada. Aqui no caso a gente quis que Tungstênio fosse um ponto de chegada e não só um ponto de partida. A obra original estava presente o tempo inteiro, a gente tentou ser fiel ao máximo à estrutura narrativa proposta naquele quadrinho e o que a gente tentou fazer foi traduzir esse universo pro audiovisual, tentar elucidar e trazer essa dramaturgia pra frente, enfim, foi essa a nossa busca, a nossa tentativa de adaptar essa obra tão instigante pro cinema. Foi uma adaptação que eu acho bem sucedida nesse sentido, por que ela é muito fiel aos conceitos especialmente propostos pelo Quintanilha na realização do quadrinho e a gente tentou traduzir, levar o máximo possível isso pra tela do cinema.

Serra Pelada é outro filme teu que mostra a realidade nua e crua de um Brasil subterrâneo, como a violência que permeia a trama de Tungstênio. É um tema instigante?
Eu acho que a violência é um tema seminal do Brasil, o Brasil é um país que vive em guerra civil, não se dá conta disso e faz de conta que ela não está acontecendo. A gente vê, por exemplo, o Rio de Janeiro, hoje.

Há todo um pano de fundo que aponta para diversas questões sociais em Tungstênio, com a trama quase se confundindo com um documentário, no que o Brasil é um manancial riquíssimo de temas para serem explorados. A seu ver, o cinema é um campo privilegiado para a abordagem dessas questões?
Eu acho que o cinema é uma das formas de expressão mais eficazes para traduzir a realidade. Apesar de ser uma representação do real, o cinema parece real. Eu tenho uma filha de seis anos, ela foi ver uma peça de teatro, e ela falou “ah, eu não gostei, não é o fantasminha, é um ator. Eu gosto mais de cinema, por que o cinema é de verdade”. Então as pessoas têm essa sensação de que o cinema é real, apesar de ser uma construção artística, mas ela consegue traduzir, abarcar a realidade de uma maneira muito forte. Você consegue ter a cor, o tom, o suor, o som, os personagens, a paisagem, então eu acho que o cinema é um grande instrumento de investigação social, é um grande instrumento de compreensão do mundo que a gente vive, e num momento em que a gente está tão sensível, com tantas questões importantes a serem debatidas no Brasil, eu acho que o cinema é sim um instrumento de reflexão, de compreensão e de possibilidade de transformação disso através da crítica, da compreensão do que a gente vive, das questões que a gente vive e também propondo de alguma maneira um lugar de ação. Acho que a partir de uma tomada de consciência ou uma compreensão maior do real a gente é capaz de agir melhor sobre ele. O cinema, sim, é um grande tradutor do Brasil, é um fator de construção da nossa identidade como povo e é também esse lugar de tradução mesmo do Brasil pra ele mesmo e pro mundo também.

Como você avalia o cenário brasileiro, no geral, a partir da destituição de Dilma Rousseff do poder e a tomada da presidência por Michel Temer e companhia?
O Brasil vive um momento muito complexo, a gente viveu uma ruptura democrática e o país tá um pouco perdido nisso. Eu acho que todos os eventos que aconteceram nos últimos anos vão ter efeitos muito marcantes na nossa formação enquanto povo, com nosso pacto social, de alguma maneira ele foi rompido de várias maneiras. Eu acho que a gente vai levar muitos anos pra se recuperar e ter de novo um otimismo enquanto nação, enquanto país. A gente vive um momento muito difícil em nosso momento social, a gente vive um governo que realmente é ilegítimo e que ainda bem que está no fim. A gente vive tensões muito grandes no cenário político, onde não se sabe para que caminho o país está indo, o pacto que se formou durante algum tempo, o bipartidarismo que a gente viveu durante 20 anos se esgotou e agora o Brasil vai ter que repensar seus caminhos e achar uma busca de retomada assim de um caminho democrático, mais inclusivo para a população, torcer para o Brasil voltar a crescer, mas o momento atual é de muita preocupação. A gente tem ameaças reais, com candidatos de extrema direita com apoio expressivo da população. O campo progressista, as pessoas que têm um pouco mais de sensibilidade social têm que tentar se juntar num projeto de país mais justo, mais moderno, que traga conquistas para a maioria da população, que infelizmente vive há 500 anos à margem disso. Por algum tempo houve uma evolução econômica e social e parece que a gente deu passos pra trás. Eu torço pra que o Brasil consiga achar um rumo, que a gente consiga repactuar um mínimo de nação possível, pra que a gente saia dessa polarização extrema e burra em certo sentido, que a gente possa através do diálogo, do conflito e da contradição, por que eles existem, estão aí para serem superados, que a gente consiga achar um caminho pra esse país, que é tão bacana, tão cheio de possibilidades, a gente tem uma economia muito grande e tem tudo pra conseguir florescer. Esse país só vai se reagrupar se a gente seguir o interesse da maioria da população, atuar nas causas que são mais urgentes, que são inclusão social, combater o racismo, discutir questões de gênero e tentar fazer uma economia mais moderna, que consiga produzir riqueza e fazer com que essa riqueza seja dividida pras pessoas que a produzem de uma maneira interessante. O momento político é difícil, é complexo, é assustador em algum sentido, mas eu tenho esperança que a gente vai prevalecer no caminho correto, mais justo e torço pra que a gente não volte atrás mais do que a gente já voltou. O Brasil precisa andar pra frente, superar esse ciclo negativo em que a gente entrou, precisa voltar a ser o país que a gente mostrou que a gente pode ser.

O quadrinhista Marcello Quintanilha e o cineasta Heitor Dhalia. Foto: divulgação

ENTREVISTA: MARCELLO QUINTANILHA

Tungstênio, o filme, é bastante fiel à HQ, que quando lemos, já pensamos inevitavelmente em cinema, como de resto toda tua obra. Quando você a escreveu e desenhou, já imaginava uma adaptação?
Não, eu não imaginava uma adaptação. Eu trabalho sempre dentro das premissas que se referem ao quadrinho, se referem à experiência da leitura de quadrinhos como um todo. Acredito que o efeito cinematográfico que muitas vezes é atribuído às minhas obras em particular e a muitas obras de quadrinhos em geral, se deve a própria experiência da leitura do quadrinho como um meio que tem características próprias.

Você integra o time de roteiristas, o que certamente ajudou a manter essa fidelidade aos quadrinhos. Houve essa intenção ou preocupação?
A principal preocupação de todas as pessoas envolvidas no roteiro foi a de encontrar a melhor maneira de traduzir o que era relatado no quadrinho pro expectador. Acho que o quadrinho foi uma grande base pra esse trabalho de tradução. Eu particularmente estou muito satisfeito com a forma com que isso foi feito.

Tuas graphic novels expõem as vísceras de um Brasil periférico de modo um tanto brutal, pois muito realista. No entanto, há sutilezas e delicadezas, no caso de Tungstênio, desde o título. Esse equilíbrio é algo premeditado ou simplesmente acontece enquanto você desenvolve a trama?
Acho que nem uma coisa nem outra, por que todas as histórias que eu tive oportunidade de trabalhar até hoje refletem aquilo que eu trago comigo como pessoa, trazem uma experiência vivida tanto por mim como por pessoas muito próximas a mim, de maneira que acredito que tudo o que está transcrito nas histórias, tudo o que está exposto nas histórias reflete aquilo que eu sou capaz de sentir como pessoa. Acho que por isso essa sutileza pode ser tão bem identificada.

Tungstênio, a HQ, foi premiada em Angoulême, o mais prestigiado prêmio quadrinhos do mundo. Qual a sensação? E quais as expectativas quanto a prêmios em festivais de cinema para o filme?
A sensação é a melhor possível, por que é fantástico quando um quadrinho que expressa tanta brasilidade é tão bem acolhido fora do contexto brasileiro, ou seja, quando um trabalho que representa uma visão tão específica sobre uma realidade brasileira consegue transcender o universo no qual ele está circunscrito de alguma maneira e é capaz de chegar a públicos tão distintos, como pode ser o público europeu, por exemplo. É fascinante quando isso acontece. Sobre as expectativas em relação ao filme, eu não trabalho no terreno das expectativas, mas seria muito interessante se conseguíssemos nos comunicar com os espectadores de uma maneira tão direta e tão honesta como ocorreu com o quadrinho. Eu acho que vamos por um muito bom caminho nesse sentido.

Heitor Dhalia tem no currículo a adaptação de O cheiro do ralo, romance do quadrinista Lourenço Mutarelli. Como foram as negociações para essa adaptação? A escolha dele foi proposital?
Sobre as negociações a respeito da adaptação, tudo foi muito direto e muito objetivo desde o começo. Eu já conhecia o trabalho do Heitor e já admirava muito o trabalho dele. Quando ele me propôs trabalhar na adaptação eu achei fantástico e uma semana depois já tínhamos tudo concretizado, já tínhamos começado a trabalhar na adaptação. Foi um processo relativamente simples, na verdade.

Você mora na Espanha já há algum tempo, mas percebemos em teu trabalho toda uma brasilidade, coisa de quem conhece a fundo o que está retratando. A internet certamente ajuda, mas como você faz para manter estreitos os laços com sua terra natal?
Eu não faço nada para manter os laços com a minha terra natal, por que eu não me sinto distante da minha terra natal, não existe nenhum trabalho específico nesse sentido. Eu realmente não me sinto distante do Brasil, eu não me sinto sequer a 10 centímetros de distância. Não existe nada que seja necessário pra que essa proximidade seja mantida. Eu sei que pode parecer estranho pra muitas pessoas, mas realmente não me sinto distante do Brasil, nunca me senti distante do Brasil. Cada vez que tenho oportunidade de voltar ao Brasil o sentimento que eu tenho é de que nunca saí daí. Não me sinto estranho, absolutamente nada. É simples assim, é simples assim.

Como você tem observado e acompanhado o cenário político que se abateu sobre o Brasil desde a destituição de Dilma Rousseff e a tomada de poder por Michel Temer e companhia?
Tenho observado como um dos momentos mais interessantes de toda a história da vida política brasileira no sentido de que muitas pessoas, ou uma imensa parcela da população, parece que vem se dando conta cada vez mais da importância de sua participação no processo político. Acho que é um momento fundamental da nossa história democrática. Estou muito ansioso para acompanhar os próximos desdobramentos, vamos ver o que acontece.

Por ocasião de lançamento do filme Tungstênio você virá [veio] ao Brasil e aproveita para lançar nova HQ. O que pode adiantar sobre ela?
Sim, estou lançando um novo livro, que se chama Todos os Santos [Editora Veneta, 2018, 112 p., R$ 84,90]. O livro é uma compilação de trabalhos feitos pra imprensa, trabalhos publicados em revistas do Brasil, trabalhos publicados em jornais do Brasil, jornais da Europa, quadrinhos publicados nas primeiras revistas onde eu comecei a publicar, na antiga Editora Bloch, no Rio de Janeiro, um apanhado de vários momentos da minha carreira. Estou muito feliz de ter podido reunir esse material em livro. Também há algumas histórias que nunca foram publicadas, também está incluída a história Acomodados acomodados, que foi a história que foi vencedora da I Bienal Internacional de Quadrinhos, em 1991, que até hoje permanecia inédita e eu estou muito ansioso de que esse material finalmente chegue ao público. É isso, realmente espero que as pessoas gostem.

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Veja o trailer de Tungstênio:

Entre drama e comédia, novo filme de Helena Ignez discute o Brasil

Djin Sganzerla é A moça do calendário. Frame. Reprodução

 

Grande vencedor da 41ª. edição do Festival Guarnicê de Cinema, A moça do calendário [Brasil, 2017, 86 min., classificação indicativa: 14 anos], de Helena Ignez, é, antes de tudo, um belo tributo ao cinema marginal, que tem como um de seus expoentes Rogério Sganzerla (1946-2004), autor do roteiro original, de 1987, baseado em contos de Luiz Antonio Martins Mendes, a que a diretora acrescentou suas pitadas.

Entre as referências, aparecem, por exemplo, Carmen Miranda (1909-1955) e Zé Bonitinho – personagem de José Loredo (1925-2015), que contracenou com Helena Ignez em Sem essa, Aranha (1970), de Sganzerla –, além do vestido vermelho usado por Djin Sganzerla, filha de Helena e Rogério (foram casados até a morte do diretor), que interpreta a personagem que dá título ao filme, que evoca o usado por sua mãe em Copacabana, mon amour (1970), também de Sganzerla.

O resultado é um filme fragmentário e desgraçadamente atual, sobretudo ao discutir relações de trabalho, não a única bandeira levantada por Helena Ignez, desde sempre feminista e transgressora. O fato de o filme ter levado várias estatuetas no Guarnicê, que este ano teve como tema “tElas – Protagonismo feminino no audiovisual”, diz muito sobre o atual momento vivido não só no cinema e não só no Brasil, em que se intensificam as reivindicações contra o machismo e o racismo vigentes em determinadas estruturas.

Para resumir a questão, uma fala da cineasta Rose Panet, na mesa “A mulher no cinema”, na programação do evento: “Nosso corpo não é de musa, é um corpo funcional”. Helena Ignez, atriz talentosa, transpõe a barreira e firma-se como diretora idem – no entanto, não resistindo à magia de atuar, torna-se personagem de seu próprio filme: senta-se para beber no Bar do Bigode paulista, nos arredores do Teatro Officina (que infelizmente em breve será emparedado por um empreendimento do grupo Silvio Santos), e dá o recado, levantando outra bandeira: “velhos que fumam maconha tomam menos remédio”. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra também é retratado com honestidade, algo raro em telas brasileiras – de qualquer tamanho.

Na narrativa entrecortada e no revezamento do uso de colorido e preto e branco, entre a crueza e crueldade do urbano e a delicadeza do onírico, A moça do calendário evoca O bandido da luz vermelha (1968), outro clássico da filmografia de Sganzerla – em que Ignez também atuou. Em 2010 ela lançou, como diretora, Luz nas trevas: a volta do bandido da Luz Vermelha, espécie de continuação do clássico marginal, com Ney Matogrosso no papel do bandido, originalmente interpretado por Paulo Villaça.

Helena Ignez não faz nenhum esforço para esconder a influência do ex-marido sobre sua obra: narração em off, personagens encarando diretamente o espectador e um quê de teatral – Inácio (André Guerreiro Lopes), o mecânico (filho de pai latifundiário com quem corta relações) que sonha com a moça do calendário enquanto come o pão que o diabo amassou na mão do patrão, é dançarino nas horas vagas.

É um filme sobre sonhos e contradições – a pinup inatingível é militante do MST, o que a afasta duplamente do empregado que na oficina mecânica adentra com o corpo os motores com a cabeça nas nuvens –, misto de drama e comédia, com limite tênue entre seriedade e bom humor. Uma maneira inteligente de debater o Brasil onde os memes estão perdendo o jogo para a tragédia política.

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Veja o trailer de A moça do calendário:

Os herdeiros de José

Júlia Konrad, Erasmo Carlos e Jaloo em cena de Paraíso perdido. Frame. Reprodução

 

A princípio, é a trilha sonora que tem garantido bom público a Paraíso perdido [drama/musical, Brasil, 2018, 110 min.; classificação indicativa: 14 anos; em cartaz no Cine Lume, Sessão Vitrine Petrobras], novo filme de Monique Gardenberg, diretora do exitoso Ó paí, ó [2007] e do subestimado Benjamim [2003, baseado no livro homônimo de Chico Buarque]. Mas é preciso dizer: à frente da ótima trilha sonora há um enredo múltiplo, com diversas histórias se cruzando, em um roteiro muito bem urdido.

Paraíso perdido é uma boate com ares de cabaré e certa sofisticação perdida ao longo do tempo neste tipo de ambiente – falo do luxo do lugar e do capricho dos números musicais. A casa é administrada por uma família, cujo patriarca é José, na interpretação papo firme de Erasmo Carlos. Neste ambiente familiar sui generis os artistas da noite são os próprios filhos e netos de José.

“Esqueçam a vida lá fora e sejam felizes aqui no Paraíso perdido, o lugar para aqueles que sabem amar”, José faz o convite aos frequentadores de sua boate – e este se estende a nós, espectadores, que por quase duas horas nos emocionamos, contemos as lágrimas (ou não) e por vezes seguramos o ímpeto de cantar junto e aplaudir ao final de cada número.

A partir daí, diversas histórias se cruzam, costuradas por uma trilha sonora que funciona como uma espécie de antologia sentimental que vai de Reginaldo Rossi a Roberto Carlos, de Raul Seixas a Waldick Soriano, de Odair José a Carly Simon, de Ângela Maria a Márcio Greyck, de Paulo Sérgio a Belchior, entre outros, desfiladas entre (poucas) versões originais e (muitas) releituras por um elenco de híbridos: Seu Jorge, ator e cantor cujo talento já foi posto à prova em vários discos e filmes, o cantor Jaloo, que dá conta do recado ao interpretar Ímã, e Júlio Andrade, ator que se sai bem fazendo covers no papel de Ângelo. A direção musical é de Zeca Baleiro.

O tributo à música cafona não se encerra no soundtrack: personagem central na trama, o policial vivido por Lee Taylor chama-se Odair.

Amores perdidos (e re/encontrados) são o pano de fundo de um filme que joga holofotes sobre temas urgentes como a violência contra a população LGBTI, os direitos de idosos, pessoas com deficiência e detentos, os “bicos” de policiais, a covardia e brutalidade da ditadura militar brasileira, instalada com o golpe de 1964, e o momento político conturbado que vive o Brasil desde o golpe de 2016.

Tantos temas são encaixados com maestria no roteiro de Monique Gardenberg sem o menor risco de o filme tornar-se panfletário desta ou daquela causa, e inteligentemente propor o debate sobre todas elas, ao menos a quem procurar ir além da superfície. Mas mesmo a quem se contentar com ela, perceberá tratar-se de um filme sobre amores e afetos, artigos tão em falta no Brasil de hoje.

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Veja o trailer de Paraíso perdido:

O mais importante é o verdadeiro amor

Timothée Chalamet e Armie Hammer em cena de Me Chame Pelo Seu Nome. Frame. Reprodução

 

“Me chame pelo seu nome”, a frase que dá título ao filme de Luca Guadagnino, é um código entre um adulto e um adolescente que descobrem a amizade e o amor, nessa ordem.

A ação se passa no interior da Itália, no início da década de 1980, mas poderia ser em qualquer país, a qualquer tempo: os pais de Elio (Timothée Chalamet), o adolescente protagonista, são, infelizmente, exceções. Mentes abertas, libertários, os pais que todo filho gostaria de ter – longe de isso significar um salvo-conduto para eventuais irresponsabilidades.

Garoto prodígio, Elio tem 17 anos, lê partitura, toca piano e violão, para deleite dos mais velhos, lê bastante, conhece um pouco de tudo e conversa sobre qualquer assunto, entre o próprio esforço, herança genética e o ambiente familiar favorável, de pais ligados à ciência e à arte.

Curtindo as férias de verão na casa dos pais, a rotina, meio preguiçosa, meio animada, entre nadar, andar de bicicleta, muitas visitas e encontros furtivos com garotas, é interrompida pela chegada de Oliver (Armie Hammer), acadêmico que veio encontrar o pai de Elio, um professor universitário.

Elio e Oliver são bonitos e este, estrangeiro, desperta a curiosidade das garotas que frequentam a casa, com o próprio Elio sugerindo contatos, preocupado em ser bom anfitrião.

Baseado no livro homônimo de André Aciman, Me chame pelo seu nome [drama/romance, França/Itália/EUA/Brasil, 2018, 131 min.; em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande)] muito provavelmente será rotulado apenas como um romance gay, pelo envolvimento de seus protagonistas, embora o filme não levante nenhuma bandeira em si.

É um filme delicado, bonito, bem realizado – com cenas de sexo idem. Se há uma lição é o “qualquer maneira de amar vale a pena”, que infelizmente ainda nos recusamos a aprender. Aliás, triste pensar que atualmente ainda exista gente que não pense como os pais de Elio.

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Veja o trailer:

Uma lição de vida

Tomás Vidiella e Jaime McManus em cena de La memoria de mi padre. Frame. Reprodução

 

Peguei por acaso, ontem, no Canal Brasil.

La memoria de mi padre, drama chileno [2017, 90 min.], estreia do diretor e roteirista Rodrigo Bacigalupe Lazo, conta uma história familiar cada vez mais próxima de qualquer um de nós.

Ficção baseada no drama real vivido pelo próprio diretor, filmada pelas lentes da delicadeza, La memoria de mi padre trata de laços familiares, de vínculos perdidos e reatados.

Alfonso (Jaime McManus) é um roteirista de televisão insatisfeito com o trabalho. Seu pai, Jesus (Tomás Vidiella), acometido de Alzheimer, não suporta a perda da esposa, Ester (María Izquierdo), vitimada por um câncer. Com uma viagem a trabalho por um mês de sua irmã, Claudia (Tamara Tello), Alfonso acaba se vendo obrigado a assumir a tarefa de cuidar do pai.

O que a princípio ele aceita a contragosto e enxerga como um fardo é a oportunidade de reatar laços com o pai, cuja doença acaba por expor ambos a situações perigosas – e vez por outra engraçadas, como o talento de galanteador não perdido pelo velho.

Jesus não aceita a morte de Ester, que crê estar esperando por ele, num hospital, sem dinheiro. É em busca deste encontro irrealizável que ele tira literalmente o sono de Alfonso, que tem dificuldade em compreender a doença do pai. No meio disso tudo, Alfonso tira lições para sua relação com o próprio filho, distante, fria e desinteressada – quase protocolar –, talvez temendo um replay na vida.

Um filme sobre altruísmo, uma lição para nós, espectadores.

La memoria de mi padre reprisa esta madrugada, às 2h, no Canal Brasil (150 na Net).