Gol de letra!

A cobrança. Capa. Reprodução

 

Antes da resenha propriamente dita, uma confissão de dois arrependimentos: o primeiro, não ter lido A cobrança [Record, 2018, 207 p.; R$ 38,00; leia um trecho], de Mário Rodrigues, antes da Copa do Mundo e das eleições; o segundo, não ter escrito sobre, idem.

Vencedor do prêmio Sesc de Literatura em 2016, com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record], finalista do Jabuti ano passado, o pernambucano de Garanhuns lançou este ano seu romance de estreia.

Ficção alicerçada na realidade, o livro cuja capa evoca o patriotismo à guisa de “os corações nas pontas das chuteiras”, tem enredo construído em um bem trabalhado jogo de flashbacks, entre tragédias pessoais e coletivas.

A ação se dá entre o exato instante em que seu protagonista se dirige para cobrar um pênalti, o último da série inicial de cinco, na final da Copa do Mundo da Rússia, contra a Alemanha – cabe lembrar que o romance foi publicado antes da Copa do Mundo de 2018 –, enquanto um filme inteiro se passa em sua cabeça enquanto se dirige à marca de cal.

Professor de literatura, português e redação e crítico literário, Mário Rodrigues tem domínio absoluto da linguagem, equilibrando-se entre a vida trágica de seu personagem, citações bíblicas e da Constituição Federal de 1988 – cujo artigo 5º. desdobra-se nas epígrafes ao longo do livro –, promulgada em 5 de outubro daquele ano, mesma data de nascimento do protagonista.

No “país do futebol” não faltam livros sobre o esporte: de À sombra das chuteiras imortais [Companhia das Letras, 1993], do cronista Nelson Rodrigues, passando pelo belo tributo A pátria em sandálias da humildade [Realejo, 2016], do também cronista Xico Sá, passando por Veneno remédio [Companhia das Letras, 2008], ensaio sociológico de José Miguel Wisnik, e Páginas sem glória [Companhia das Letras, 2012], de Sérgio Sant’Anna.

A maioria está ancorada nas alegrias e tristezas de vitórias e derrotas reais, entre grandes clássicos e partidas sem importância (o que chamaríamos cumprir tabela). Apesar da derrocada do futebol ao longo dos anos, com a profissionalização, a publicidade tomando conta de tudo, os apelidos em desuso, dando lugar aos nomes compostos, estádios transformando-se em arenas, frequentadas não mais por quem ama o futebol acima de tudo, mas por quem, acima de tudo (e de todos) tem dinheiro para comprar os ingressos, entre uma série de outros aspectos também abordados pela prosa de Mário Rodrigues.

Sua ficção também se baseia em fatos reais: a humilhação do 7×1, diversos lances que poderiam ter mudado o rumo de partidas e, consequentemente, de campeonatos, a não efetivação na vida prática do conjunto da população de diversos direitos constitucionalmente garantidos, escândalos e tragédias da arena política.

Ao conduzir seu protagonista a um acerto de contas com sua própria história, seu passado, e o Brasil que tanto lhe subtraiu, a ficção de Mário Rodrigues conduz seu leitor a um acerto de contas com o passado (d)e um país em um momento decisivo de nossa história.

Serviço

O escritor Mário Rodrigues participa de duas mesas hoje (21) na 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). Às 16h, com mediação da jornalista e escritora Talita Guimarães, no projeto Literatura Mútua, no Espaço Juventude. Às 19h30, com este que vos perturba, no Auditório Graça Aranha, em mesa com o tema “A taça não foi nossa”. A FeliS acontece no Multicenter Sebrae (Cohafuma), com entrada franca.

2019, uma microfábula distópica

Ilustração: Paulo Stocker. Reprodução

 

Os índices de acidentes de trânsito nas cidades cresceram assustadoramente, apesar de o fato não preocupar os governantes. Os semáforos operam apenas com as cores verde e amarelo, já que o vermelho foi proibido pelo decreto presidencial número 1.

Um setor do comércio severamente atingido por uma crise inédita e nunca imaginada foi o das floriculturas: com a proibição do vermelho, rosas deixaram de ser cultivadas e vendidas. Símbolos do amor e da paixão desde sempre, casais tiveram que reinventar o jogo da conquista, e os sentimentos tornaram-se clandestinos.

Armas de fogo levaram guarás à extinção. “Onde já se viu? Aves vermelhas? É proibido!”, bradou uma autoridade, eufórica, pouco se lixando para a beleza das revoadas e o equilíbrio ambiental.

A coca-cola mudou as cores de suas embalagens e faturou em cima, tornando tudo mais uma jogada de marketing e ironizando o velho jargão de que “comunista não bebe o líquido símbolo do capitalismo”.

A Cruz Vermelha teve que retirar-se do país, pois, ao contrário da marca de refrigerantes, não teve como investir pesado em publicidade, além de avaliar que não faria sentido modificar uma marca e um nome consolidados há mais de 150 anos.

Os caminhões dos Corpos de Bombeiros espalhados pelo país perderam sua cor padrão. Não fossem as sirenes, seria mais difícil identificá-los no trânsito e abrir passagem para evitar que o fogo consumisse algo mais em um incêndio – embora o fogo não agisse sozinho em sua sede de destruição.

Em Parintins, no Amazonas, o Boi Caprichoso foi declarado campeão. O Garantido, vermelho, foi proibido de desfilar no Festival Folclórico. No Rio Grande do Sul, o Internacional foi proibido de disputar o campeonato gaúcho – e outros certames.

De vermelho sobrou apenas o sangue derramado de negros, indígenas, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência. Mas vermelho é modo de dizer, imaginação baseada em lembrança: como uma imensa máquina do tempo nos levou de volta a um passado de pouco mais de 50 anos, a televisão em cores ainda não havia chegado ao Brasil.

Romance de jornalista revê governo Médici a demonstrar a atualidade da tragédia brasileira

Tempos de cigarro sem filtro. Capa. Reprodução

A prosa de José Maschio, seca, mas com ginga, de frases curtas, a incorporar o espírito das ruas e dos botecos, encontra pares em autores como João Antonio (1937-1996) e Marcelino Freire.

Autor experimentado em redações e salas de aula, praticando e ensinando o jornalismo em que se formou na Universidade Estadual de Londrina/PR e com o qual percorreu o país inteiro como repórter de jornais como Paraná Norte e Folha de S. Paulo.

Paulista de Echaporã, em seu Tempos de cigarro sem filtro [Kan Editora, 2017, 150 p.] entrecruzam-se diversas histórias de vida, em um Brasil sob a égide do golpe militar de 1964, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, apelidado Carrascoazul por um personagem.

Maschio é elegante e tem domínio absoluto da linguagem ao abdicar de travessões ou aspas para marcar as falas de suas personagens, que acabam fundidas às do narrador, sem fundir a cuca do leitor, que ligeiro se vê fisgado pelo enredo, seus vários núcleos e suas mazelas particulares.

Ficção alicerçada em fatos e personagens reais – de cujo destino Maschio é também senhor –, trama política e policial com cheiro de povo: toda a sorte de relações mediada por afetos, traições, dinheiro miúdo, o equilíbrio na corda bamba da sobrevivência, falso moralismo, hipocrisia, politicagem, corrupção, a crueldade da ditadura militar, com torturas, desaparecimentos e assassinatos, e tudo o que acabou virando sinônimo de Brasil para o bem e para o mal, parte disso a reverberar ainda nos tristes tempos atuais, em que o país vive sob a égide de outro golpe.

Nem na ficção ditadura é solução, como se percebe em Tempos de cigarro sem filtro, o título a fazer trocadilho com o que se propõe: revelar um Brasil brasileiro, sem filtro, desde a coloquialidade da prosa até a escolha dos protagonistas, trabalhadores, gente simples que poucos se dispõem a enxergar, quanto mais a retratar.

O Brasil golpeado de hoje é resultado de uma redemocratização frágil, que nunca puniu sequer um agente da repressão. O problema é que os que pedem intervenção militar não leem sequer ficção.

Mais com menos

Still: Evandro Filho. Divulgação

 

De algum modo acompanhei a feitura de Avesso, novo curta-metragem de ficção do premiado diretor Francisco Colombo.

Digo de algum modo por não ter estado no set no dia da filmagem, e simplesmente por isso. De resto, acompanhei o amadurecimento do roteiro, as primeiras versões brutas do filme, um dia de edição etc.

Avesso foi filmado em um dia, durante as férias de Colombo, então residindo temporariamente em Portugal, onde cursava mestrado, valendo-se da “dramaturgia da pobreza”, um tema sobre o qual, conforme anunciou em entrevista, um dia escreverá. Mas que consiste basicamente no seguinte: fazer o máximo com o mínimo.

Impossível não ligá-lo ao neorrealismo italiano e particularmente ao Vittorio De Sica de Ladrões de bicicleta (Ladri di Biciclette, 1942), bonito filme rodado na bombardeada Itália do pós-guerra. Colombo lembra que tanto o neorrealismo italiano quanto o por ele influenciado cinema novo brasileiro lhe inspi(ra)ram.

Entre Reverso, seu filme anterior, e Avesso, nove anos. Entre um e outro, filmes feitos às próprias custas s/a, como diria Itamar Assumpção. Entre aquele e este, a violência, tema que permeia a obra de Colombo como um todo: de sua estreia, No fiel da balança (2002), que abordava a sofrida por quilombolas em Alcântara com o deslocamento para as agrovilas após a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara, passando por O incompreendido (2008), que toca na violação de direitos de crianças e adolescentes, ao citado Reverso (2009), sobre a violência urbana, até este Avesso.

Escrever sobre curtas-metragens é sempre correr o risco de spoilers. O que posso afirmar é que não é um filme fácil, no sentido de entregar de bandeja as coisas ao espectador, o ouro ao bandido, como no linguajar popular. O espectador precisa pensar – e repensar, diante das reviravoltas contidas em seu enredo. É outro filme em que o diretor e roteirista não hesita arriscar-se ao não rezar pela cartilha do politicamente correto, outra característica marcante de seu trabalho: Colombo vem da escola de Murilo Santos e sua veia de documentarista permeia a faceta ficcionista, neste caso, o vídeo imita a vida, contrariando a banda gaúcha oitentista.

Avesso marca ainda a estreia de Beto Ehongue como ator. O músico, autor das trilhas sonoras de Avesso e Reverso, convence ao interpretar Mathias. O elenco, enxuto como exige a citada dramaturgia da pobreza, se completa com Daniel Sam e Gil Maranhão.

Avesso foi selecionado para a Mostra Competitiva de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema, promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão (DAC/UFMA). O festival acontece entre 9 e 16 de junho, no Centro Histórico da capital maranhense.

O novo filme de Francisco Colombo está concorrendo, por voto popular online, para participar do 13º. Festival de Cinema de Taguatinga, no Distrito Federal. Avesso pode ser assistido e votado no site do festival.

Ficção barata

 

Os efeitos especiais são inversamente proporcionais à qualidade do roteiro. Como se uma dose exagerada daqueles pudesse sustentar a fragilidade deste.

De Uma dobra no tempo [Fantasia/ficção científica, EUA, 2018, 120 min.], megaprodução da Disney, salva-se apenas a mensagem para que crianças e adolescentes acreditem em seu potencial. E olhe lá! De resto, é uma mistura de ficção científica barata, aventura juvenil e autoajuda.

O argumento é frágil: o cientista Alex Murry (Chris Pine) desaparece ao descobrir a tal dobra no tempo do título do filme e fazer uma viagem no tempo e no espaço. Some sem deixar rastro, passando por pai desnaturado, deixando os filhos à mercê da gozação de colegas no colégio e diante do próprio sofrimento e da mãe, a também cientista Kate Murry (Gugu Mbatha-Raw).

É aí que, “acreditando em si próprios”, após visitas de estranhos seres mágicos dotados de erudição barata e nomes estranhos (Sra. Qual, interpretada por Oprah Winfrey; Quequeé, por Reese Witherspoon; e Sra. Quem, por Mindy Kaling), os filhos – Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe), um superdotado de seis anos –, mais o colega Calvin (Levi Miller), partem em busca do próprio pai embarcando também na tal dobra do tempo.

Baseado no livro homônimo de Madeleine L’engle, ao filme da diretora Ava DuVernay não faria mal meia hora a menos. Para quem ainda não descobriu dobras no próprio tempo, melhor aproveitá-lo de maneira mais útil.

Novo curta de Rose Panet estreará no Festival Internacional Lume de Cinema

[release]

Amniogênese é o primeiro filme de ficção da cineasta

Amniogênese. Frame. Reprodução

Em meio à vasta e rica programação do Festival Internacional Lume de Cinema, a cineasta Rose Panet lança seu novo filme. Trata-se da estreia da diretora no universo da ficção, com o curta-metragem Amniogênese, que integrará a sessão de abertura do festival, ao lado do curta espanhol Ainhoa, de Ivan Sainz-Pardo, e do longa Bandeira de retalhos, de Sérgio Ricardo, autor de trilhas sonoras de filmes de Glauber Rocha, famoso por quebrar um violão e atirar pedaços do instrumento contra a plateia num festival de música popular brasileira.

Amniogênese, de Rose Panet, foi filmado na Biblioteca Pública do Estado do Maranhão Benedito Leite, como atividade de um curso na Escola Lume de Cinema de que a diretora e roteirista participou. O filme apresenta espíritos no limbo, em diálogo sobre nascer e não nascer, viver e morrer.

“Eu fiz a partir de um sonho que tive quando estava grávida de meu segundo filho. A ideia permaneceu comigo e levou anos até eu materializar”, revela Rose Panet. Sem diálogos, o filme tem trilha sonora do compositor russo Kai Engels – cuja música já comparecia à trilha sonora de Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, documentário da diretora, que estreia em abril na TV Senado.

Amniogênese, segundo os dicionários médicos, é a formação do âmnio, a bolsa membranosa que contém o líquido amniótico onde flutua o bebê. “É um filme que também discute as dores e as delícias de ser mulher, com decisões às vezes difíceis, que precisam ser tomadas. Curioso também é que de forma não intencional, agora em uma ficção, a gente torna ao terreno do espiritismo, tema presente no documentário Manuel Bernardino: o Lenin da Matta”, revela.

Aminiogênese traz no elenco Daniel Costa, Dida Maranhão (assistente de produção e maquiagem), Domingos de Jesus, Fabíola Rocha, Fred Egyto, Guilherme Verde, Thiago Santos (assistente de direção) e Wilka Sales. Rose Panet assina direção, roteiro, produção e fotografia (com Beto Matuk e Denis Carlos). O filme tem montagem e sonorização de André Garros.

Serviço – A sessão inaugural do Festival Internacional Lume de Cinema acontece nesta quinta-feira (15), às 19h, no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Os ingressos custam R$ 12,00.

Um romance de terror

As perguntas. Capa. Reprodução

As perguntas [Companhia das Letras, 2017, 177 p.; R$ 39,90; leia um trecho], novo romance do gaúcho Antônio Xerxenesky, é um thriller psicológico recheado de referências ao cinema, literatura, música e ocultismo. Tem ares de romance policial, por conta do envolvimento de sua protagonista, Alina, graduada em História com mestrado em religião comparada que, afinal de contas, ganha a vida como editora de vídeos em uma agência de publicidade e, no desenrolar da trama, acaba dando uma de detetive particular, tentando dar algum sentido à sua vida besta, mas que acabará pondo à prova suas convicções. “Não era você a descrente? A acadêmica?”, pergunta-lhe, com ironia, a certa altura, o magíster da estranha seita que se propõe a investigar.

O livro praticamente se passa entre o amanhecer de um dia e outro, com uma pequena lembrança de alguns anos atrás, quando eventos sobrenaturais começaram a assaltar a menina Alina, o que voltaria a acontecer após ela se envolver na aventura que se desenvolve em As perguntas. As referências de Xerxenesky não são gratuitas: ajudam a dar verossimilhança à trama, algumas dialogando diretamente com seu desenrolar. Não à toa a epígrafe, do cineasta sueco Ingmar Bergman.

A paranoia desenvolvida pela protagonista é acompanhada pelos leitores, em ritmo frenético. Impossível fugir do clichê e dizer que As perguntas é um livro cinematográfico, uma espécie de roteiro que está apenas aguardando algum/a diretor/a levá-lo à telona, inclusive nas descrições, por vezes irônica, das paisagens paulistanas. Da mesma escola de Sérgio Sant’Anna, mestre absoluto noutro gênero, o conto, o autor também foi residente do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

Xerxenesky é daqueles que exigem dos leitores para além do óbvio: certamente alguns poderão reclamar que o livro termina sem fechar alguns pontos – o que é feito da delegada e da ação da polícia, por exemplo? –, e aí reside um trunfo: ler é um exercício de imaginação (ainda mais num livro cheio de sombras) para além do que está escrito. Dizer mais sem (mais) spoilers é impossível.

Anacronismo para retratar o Brasil

Mensur. Capa. Reprodução

 

O bullying transformou o protagonista de Mensur [Quadrinhos na Cia., 2017, 208 p.; R$ 54,90; leia um trecho] em Gringo. Filho sem pai de uma dona de casa, ele ganhou o apelido na escola. São seus dramas que o leitor acompanha ao longo das páginas da nova graphic novel de Rafael Coutinho, que já dispensa apresentações.

A luta de espadas que dá título ao álbum se parece com a esgrima, mas tem o claro objetivo de produzir ferimentos no rosto do oponente e estas cicatrizes serão motivo de orgulho para seus praticantes. Era uma prática de estudantes universitários alemães no século XV e o autor traz para o Brasil, entre Caxambu, Ouro Preto e São Paulo, cidades que dão nome às partes do livro.

Engana-se, no entanto, quem acredita que espadas ferindo rostos são a maior violência nas páginas de Mensur. É uma obra de ficção, mas Rafael Coutinho retrata um Brasil violento e desigual, em que tudo, por mais grave que seja, é banalizado e dado como absolutamente normal – vide a sequência de golpes perpetrados no ambiente político.

Gringo é ao mesmo tempo um personagem anacrônico e um brasileiro comum. E ao mesmo tempo também, para alguns, um herói. Lida com fantasmas do passado, busca tornar-se um ser humano melhor, valoriza a palavra e a honra – instituições que em geral funcionam mal, como tantas no Brasil –, busca ganhar a vida honestamente, mesmo em subempregos, apaixona-se e tem o CPF negativado apesar de já ter pagado a fatura – experiências comuns de tantos brasileiros comuns.

O letramento de Mensur utiliza a caligrafia do autor em resultado charmoso. Rafael Coutinho não se limita ao quadrinho: por vezes determinadas cenas – e particularmente as “danças” dos espadachins – escorrem, tornando-se páginas inteiras, transformando-as em verdadeiras obras de arte – o que de resto, Mensur é, desde a capa.

Entre o cômico e o trágico, a prosa inteligente de Sebastião Nunes

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução
Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

 

Não deve ser fácil a vida de ficcionistas na república da delação premiada. É difícil concorrer com o enredo que se descortina no Brasil, sobretudo desde há pouco mais de um ano.

No texto de apresentação de Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo [Edições Dubolsinho, 2017, 176 p.], novo livro de Sebastião Nunes, o jornalista e poeta Fabrício Marques aponta Joaquim Silvério dos Reis como o patrono da delação premiada. Não à toa o traidor é personagem de um dos contos do livro: Quando Tiradentes arrancou um dente a Joaquim Silvério e o que aconteceu depois. O autor classifica os textos como crônicas, mas já que, como diria Mário de Andrade, “conto é tudo a que chamamos conto”, opto por esta classificação.

Os textos do volume são todos dedicados a encontros improváveis, a maioria absoluta fruto da fértil imaginação do escritor mineiro, um dos mais originais de nossas letras. Foram originalmente publicados em 2015 no jornal online GGN – ele continua colaborando periodicamente com o portal, quem sabe em breve não pinta um volume dois?

Escritor, editor e artista gráfico, Sebastião Nunes é responsável por tudo no volume, desde a invenção dos encontros, passando pela diagramação e ilustração das histórias, reunidas em volume da editora Dubolsinho, brava e resistente como o autor, um dos cotistas-fundadores de uma experiência fundamental para a (boa) literatura brasileira.

O escritor já desferiu petardos certeiros contra nossas ridículas publicidade e classe média, em livros tão fundamentais quanto pouco conhecidos: Somos todos assassinos e Decálogo da classe média.

Sebastião Nunes coloca seu arsenal a serviço das ideias que quer transmitir. Suas personagens são pinçadas de diversos campos artísticos, de literatura a música, passando por pintura, cinema e dança, além de mitologia, política e crime, áreas que mais do que nunca andam se atritando. Sua erudição – conhece a fundo diversos episódios da história do Brasil e do mundo – não aparece de forma gratuita nem torna enfadonhas suas narrativas, prestando-se a garantir-lhes verossimilhança.

A grande maioria das histórias é hilariante, com o sorriso do leitor penetrando na imaginação do escritor diante da (im)probabilidade de esta ou aquela cena ter mesmo acontecido. Por vezes nos pegamos pensando no quão reais são determinados diálogos. Ou poderiam ser.

Em O jantar de José Olympio em homenagem a Guimarães Rosa, o famoso editor, ao erguer uma taça para brindar, busca provocar uma intriga entre Clarice Lispector e Rachel de Queiroz, presentes ao evento. Em Machado de Assis recebe, na ABL, o poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage, este não fala em poesia, mas conta uma piada de brasileiro que faz rir confrades da Academia e leitores de Começa a envelhecer a mulher mais bonita do mundo.

Poucos são os momentos trágicos do livro, como em Machado de Assis colhe versos no túmulo de Carolina, O poeta Carlos Drummond de Andrade se despede da filha morta, Debaixo do pijama azul, uma camisa do Fluminense respingada de vômito, que acompanha os últimos dias de vida dos escritores maranhenses Coelho Neto e Humberto de Campos, e “Em que logar irás passar a infancia, tragicamente anonymo, a feder?!…”, em que o poeta Augusto dos Anjos lamenta a perda do filho.

O “rir pra não chorar”, o “seria trágico se não fosse cômico” da realidade atual também comparece à prosa elegante de Sebastião Nunes. Na seara política, Pedro Malasartes decide ser prefeito, com todas as regalias e vantagens da função, e JK, Chateaubriand e Zé Maria Alckmin divagam sobre a construção de Brasília.

Talvez seja fácil ser ficcionista no Brasil, onde abunda matéria-prima. O problema é que nem todo ficcionista se chama Sebastião Nunes (ou Nuvens).

As galerias de Kucinski

Os visitantes. Capa. Reprodução
Os visitantes. Capa. Reprodução

 

Assinando simplesmente B. Kucinski, Bernardo Kucinski só estreou na literatura de ficção quando já contava 74 anos. Já era um professor bastante respeitado, graduado em física, jornalista e cientista político, reconhecido como autor de livros fundamentais em currículos acadêmicos nas áreas de jornalismo, economia e política.

K: relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014; Companhia das Letras, 2016, 176 p.; leia um trecho], a estreia, é uma autoficção em que o autor narra o desaparecimento da própria irmã entre os horrores da ditadura militar brasileira. A obra bastou para colocar-lhe entre nossos grandes ficcionistas, tendo sido traduzida para oito idiomas e finalista de seis prêmios literários, no Brasil e no exterior. O autor voltaria ao tema nos contos de Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.].

Não é à toa ou mera jogada de marketing o anúncio ao pé de Os visitantes [Companhia das Letras, 2016, 85 p.; leia um trecho], o título na capa de seu novo livro: “do autor de K: relato de uma busca”. É que, magro, mas consistente, este volume não existiria sem aquele – embora a leitura do primeiro não seja imprescindível à compreensão deste.

Trata-se de misto de mea-culpa e making of em que o autor, modesto, assume erros e confessa vacilos, num jogo envolvente com o leitor: o título da novela alude aos que vão até sua casa, quase sempre com o pretexto de criticar o livro ou o autor.

Citações interessantes ao longo de Os visitantes – os escritores Chico Buarque, Enrique Vila-Matas, Fiódor Dostoievski, Franz Kafka, Juan Rulfo, Primo Levi – não fazem de Kucinski um “escritor de escritores”, nem é arroto gratuito de erudição.

Kucinski desfila uma rica galeria de personagens para construir uma espécie de errata em forma de novela. Personagens e situações tão consistentes que, a despeito da magreza do livro, acabam por explicar melhor determinadas passagens de K: relato de uma busca. Se a estreia já alçara o autor ao status de grande entre nossos ficcionistas, este Os visitantes é uma espécie de carimbo de confirmação de seu lugar nessa galeria.

A saga de Graciliano

Vencedor de um grande prêmio literário, de repente Graciliano se vê entre os dilemas de quem passa a ter todo o tempo do mundo para gastar com apenas uma preocupação: escrever. O problema é uma espécie de bloqueio, criado também, talvez, justamente pelo excesso de tempo livre – e a consequente dificuldade para administrá-lo. A escrita, que deveria garantir a entrega de um próximo livro a um editor em determinado prazo, é dividida entre festas, álcool e sexo, tudo em doses exageradas.

O ano em que vivi de literatura. Capa. Reprodução
O ano em que vivi de literatura. Capa. Reprodução

Graciliano é o protagonista de O ano em que vivi de literatura [Foz, 2015, 251 p.], de Paulo Scott, criador, como sua criatura, premiado: a Bolsa Petrobrás de Criação Literária garantiu-lhe a escrita de Habitante irreal [Alfaguara, 2011, 264 p.], com que venceu o prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional em 2012, e o volume de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo [Companhia das Letras, 2014, 80 p.] venceu em 2014 o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

O ano em que vivi de literatura poderia ser facilmente etiquetado como “autoficcção” – discussão e rótulo pelos quais Scott não nutre interesse. No volume não é possível distinguir que fatos foram realmente vividos pelo autor dos inventados por ele para sua personagem, que vive em geral rodeado de gente, mas constantemente sente-se solitário.

Parece contraditório, mas o que Graciliano busca é aplacar o vazio dessa solidão através de relacionamentos fugazes – alguns encontros são marcados pelas redes sociais. Os momentos de convívio com os pais não são bons e a aventura dele é também a busca de uma irmã que sumiu no mundo. Em alguma medida, o livro expõe ainda as entranhas do mercado editorial brasileiro.

O título brinca com outra contradição: justo no ano em que vive de literatura, Graciliano perde prazos e gasta o tempo com outras questões e simplesmente não escreve – embora a quem lhe fizesse a infalível pergunta sobre livro novo, sempre tinha uma desculpa, um enredo na ponta da língua, no que diferem criador e criatura.

Paulo Scott conversou com o Homem de vícios antigos. A entrevista foi além de O ano em que vivi de literatura. Ao anunciar, no chat de uma rede social, a intenção de realizá-la, antes de enviar-lhe o bloco de perguntas por e-mail, ele comentou: “o livro ficou pronto em 2014 e revisitá-lo em face de novos questionamentos é instigante”.

“Estou muito envolvido com o Marrom e amarelo, que é sobre racismo no Brasil”, antecipou. Seu próximo livro sai em 2017 pela Alfaguara.

Paulo Scott: "Um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar". Foto: Foz Editora/ Divulgação
Paulo Scott: “Um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar”. Foto: Foz Editora/ Divulgação

 

Em uma reportagem para a Revista da Cultura [Eu, eu mesmo e eu também, #100, novembro de 2015], que conta com depoimento seu, o jornalista Ronaldo Bressane aborda a questão da autoficção, no que você declara não acreditar. Talvez o charme seja a dúvida, a não distinção, mas o quanto há de autobiográfico e de invenção em O ano em que vivi de literatura?
O que posso dizer a você, meu caro, é que não busquei com esse livro – que para mim é sátira (talvez intrincada demais, admito) – concretizar teoria, leitura acadêmica ou experiência estética sobre a confusão entre vida do autor e possíveis desdobramentos contidos na trama para induzir semelhança (e disso curiosidade) em relação à sua biografia, sua realidade. Suponho que leitores que acompanham minha trajetória – e tenham informação sobre o que significou eu ter colocado a produção literária e a leitura de obras literárias como prioridade durante um pouco mais do que sete anos – possam, em algum momento, antes da leitura do O ano em que vivi de literatura, imaginar (e esperar) a existência de revelação relacionada ao que foram esses dias, esses anos para mim. Contudo, não se trata disso. Não é também minha intenção – sobretudo em um projeto de romance executado em primeira pessoa – glamorizar aposta pessoal (que, no fundo, não passa de aposta pequeno-burguesa, mesmo se tratando, ou especialmente em razão disto, de escritor brasileiro, escrevendo em português em um país como o Brasil, onde as pessoas, no cômputo geral, nem sequer leem os seus escritores contemporâneos) que é escolha só minha e interessa só a mim.

Aliás, cabe o elogio: baita título! O livro narra o período em que o protagonista pode literalmente viver a partir de um prêmio recebido. Infelizmente, mesmo num universo literário mais profissionalizado, ainda é preciso esperar um prêmio para poder “viver de literatura”, já que a venda de livros ainda não o permite?
Antes quero dizer que é uma grande alegria receber esse retorno positivo da sua leitura do livro. Pois é. Não temos um mercado literário forte no Brasil, um mercado que, em decorrência de quantidade expressiva de leitores, sustente um projeto de longo prazo de um escritor bancado exclusivamente pela venda de seus livros. Estou longe de conseguir me sustentar unicamente com os royalties obtidos pelas vendas dos livros que escrevi. Consegui me manter, de maneira simples, comedida mesmo, sem ter de recorrer a atividades fora do meio literário, por quase seis anos – nesses quase oito anos de exílio carioca. Isso aconteceu graças a um contexto (de sorte) de bolsas, prêmio, adiantamentos, de pagamentos advindos da venda dos direitos de adaptação de livros meus para o cinema, de convites para festas, feiras, festivais, viagens, programas literários que remuneram os autores, de convites para oficinas de criação literária, para palestras em universidades – isso tudo em um panorama econômico bastante favorável, ao menos aqui no Brasil. Não é algo com que se possa contar para sempre. Um prêmio literário que pague um valor importante, esteja-se falando ou não de autor profissionalizado, pode garantir alguns meses de vida integralmente voltada à produção literária, talvez um ano e alguns meses, se houver uma boa programação, dificilmente assegurará mais do que isso; e isso, entretanto, é muito melhor do que nada. Gosto de pensar que o livro trata do fim de um ciclo e do início de outro, de uma realidade no relacionamento entre leitores e autores que se transformou radicalmente com o avento da internet e das redes sociais (e, a partir disso, de uma época de decadência, mediata e imediata). Quando o programei e quando o escrevi, para tratar apenas de um dos aspectos possíveis dessa realização, ainda estávamos vivendo a onda de muitos eventos literários, eventos em grande quantidade e podendo bancar boa remuneração aos autores convidados, recebendo-os e paparicando-os, muitas vezes, de maneira como não se vê nos melhores eventos literários da Europa e da América do Norte, que são realidades que conheço um pouco.

É possível dizer que atualmente você vive de literatura? – não necessariamente de apenas escrever, mas de participar de eventos literários, ministrar oficinas, palestras etc.
Não tenho mais como bancar esse meu “vivendo na corda bamba do mundo literário” sem comprometer a tranquilidade mínima que preciso para produzir, para ler tudo que preciso ler e para existir (especialmente em um país em crise). Ano passado peguei um trabalho fora do mundo literário para poder equilibrar as contas – penso que não é inoportuno o registro: moro no Rio de Janeiro, uma cidade que está se tornando cara demais e violenta demais. Neste ano que está iniciando, priorizarei uma vida com melhor qualidade, com doses menores de ansiedade no gerenciamento das incertezas financeiras, assumirei compromissos fora do universo literário anunciado na sua pergunta. No fundo, parece, será uma guinada drástica, embora não tão drástica como a cometida em 2008, quando deixei Porto Alegre e me transferi para o Rio de Janeiro. A ver.

Você tem formação em Direito. Atua ou atuou na área? O quanto ter que buscar a sobrevivência noutro campo atrapalha a produção literária e vice-versa?
Só quem passou, de fato, pelo planejamento de buscar uma rotina de tempo integral para conseguir ler e escrever poesia e prosa ficcional na hora do dia que lhe parecer mais conveniente sabe o que significa uma ruptura dessa natureza, o que é ter de negociar com todo o tempo livre que você um dia idealizou. Nessa perspectiva, quase tudo que rompe esse estado ideal acaba atrapalhando sim, mas não é o fim do mundo. Ter um emprego paralelo, uma profissão paralela, não é necessariamente ruim – não acredito em regras absolutas, resisto sempre a fórmulas e receitas fechadas –, há muitos autores que para produzir com qualidade precisam ter tranquilidade, estabilidade profissional, mesmo que isso lhes custe uma redução grande do tempo disponível para ler e escrever textos literários. A produção literária poderá ser boa e relevante esteja o autor submetido, ou não, à rotina de um trabalho diverso da literatura. A vida, no grande arco da existência, e esta realidade não pode ser negligenciada, precisa ser viabilizada da maneira mais inteligente possível. Fora do meio literário, respondendo à primeira parte da pergunta, atuei profissionalmente na área do Direito, como advogado, consultor e professor.

O protagonista de O ano em que vivi de literatura chama-se Graciliano, nome de seu autor predileto. Fora o fato de serem gaúchos vivendo no Rio de Janeiro, quanto há de Paulo Scott na personagem Graciliano e o que mais te chama a atenção e/ou você admira e/ou persegue no alagoano Graciliano Ramos?
Levei bom tempo para encontrar a personagem Graciliano. Era importante não concebê-lo como um modo de retransmitir (um truque para retransmitir) minha voz, minhas ideias, meu itinerário. Não me vejo nele, não me vejo no olhar de historiador dele, na solidão dele, nos excessos e idealizações dele, na impassibilidade dele quando retorna ao passado, quando refaz (relata) um ano específico da sua vida sem o temor de encarar o que fez de bom e o que fez de ruim (para si e para outros). Não costumo criar altares, tento não me fazer refém das cristalizações, dos espelhos, das certezas; mesmo que inicialmente isto pareça algo descabido, procuro dispensar o mesmo cuidado a texto de um escritor novato e desconhecido que dispenso a texto escrito por um Graciliano Ramos, por um Machado de Assis, por um Érico Veríssimo, por um Guimarães Rosa (que são figuras que admiro demais). Há, porém, nessa lógica de não canonizar, as afeições inexplicáveis, incontornáveis, os diálogos mentais, que desenvolvemos em relação a certas figuras; isso é forte quando penso em Graciliano Ramos – tem aquele modo de escrever e tem aquela impetuosidade complexa. Penso que, na linha da pergunta (possivelmente escapando da pergunta), a grande personagem, o grande centro da narrativa deste romance, seja a área imensa, purgatório da beleza e do caos (parafraseando Fausto Fawcett), chamada Rio de Janeiro conflitando com o rumo, não exatamente localizado, do protagonista, a mosca que caiu na armadilha da planta.

O livro aborda também a questão das redes sociais como palco do escritor, como forma de manter contato mais direto com leitores, editores, parentes e paixões. Como você observa a autopromoção se valendo destes canais?
Disse em entrevista que foi publicada em novembro do ano passado em jornal brasileiro que as redes sociais aprisionaram a alma – o lado indômito da alma – dos poetas, porque acabamos, poetas e prosadores, cedendo à lógica da quantidade de likes; as editoras, a mídia e todos acabam cedendo a essa contabilidade. Se temos um estádio Maracanã de likes nas telas dos nossos computadores, nos visores dos nossos celulares, estamos bem, não importa a ousadia, a originalidade, a qualidade do que se produziu. Isso é bem fraco. Não há santos nas redes sociais; se você está nas redes sociais, você está sim se autopromovendo. Se você está nas redes sociais, você tem noção de que as “informações dos fatos” precisam ser aquecidas/reaquecidas a todo o momento para não serem esquecidas, para não perderem o peso, nesta avalanche diária de “informações dos fatos”. Não é de graça que as editoras no mundo todo estão induzindo (para não dizer obrigando) seus autores a terem contas no Twitter, no Facebook, no Tumblr, no sei lá onde, porque sabem que a constância, a presença constante na web, está se tornando a grande exigência para que algo se afirme, não desapareça na grande, e ininterrupta, corrida de cavalos na qual se transformou o contemporâneo. Tive, até agora, um número importante de retornos, por mensagens eletrônicas, destacando o decorrer da narrativa a partir do fenômeno das redes sociais – o editor da caixa de comentário do Facebook se tornou mais importante do que o editor Word –; penso que os leitores entenderam o que não está explicitado no livro (já que é um livro de lacunas). Estamos todos mais caretas e desfocados por conta disso, dos editores de texto das redes sociais serem mais importantes do que os editores de textos tradicionais; é um sonho de liberdade, porque, na realidade, estamos embarcados em um elevador que está nos levando cada vez mais para o fundo de uma prisão. Claro, não há dúvida de que estamos vivendo os primórdios de uma situação que mais para frente, mais para o futuro, deverá ser mais bem vivenciada, deverá ser assumida de forma mais madura.

Seu livro narra a vida desregrada de um autor com um fabuloso prêmio literário na conta bancária, em uma aventura regada a doses cavalares de sexo, álcool e festas, revelando também as entranhas do círculo literário/editorial brasileiro. Pode ser lido como sua contribuição para desglamorizar a “vida de escritor” como imaginada por leitores “reles mortais”?
Penso que o livro narra o cotidiano de quem passa a ter todo o tempo livre para escrever – não é fácil negociar com esse espaço tão amplo. Ele está perdido e leva um tempo para perceber que está perdido, porque tem o deslumbre e tem a incapacidade de lidar com a nova situação, com a escolha, com os olhares e expectativas dos outros. É certo que a personagem Lenara, a jurada do concurso que colocou no bolso de Graciliano os 300 mil reais que mudariam sua vida, é a presença desencadeadora de certos questionamentos cruciais à trama do livro, mas a verdade é que todos os questionamentos, todas as buscas já estavam na cabeça de Graciliano, muito por conta da sua falta de resignação diante da sua rotina de professor de História, do seu relativo sucesso como escritor gaúcho, do seu relacionamento com o pai, com a ausência da irmã mais velha que, atrás de mais liberdade, desapareceu na vida. Escuto muito sobre os excessos do livro. Bem eles estão lá para acentuar algo, estados emocionais, pequenas tragédias – talvez a mais evidente seja a solidão. Não é gratuito isso dele fazer sexo demais, de se entregar a toda possibilidade que as redes sociais entregam de bandeja no seu colo; como já disse, ele está perdido. O próprio fato dele – um homem de 40 anos, portanto no auge da sua virilidade física e no auge da sua agressividade “bestial” adulta – estar sempre “pronto”, sempre tão facilmente excitado, faz parte dessa composição narrativa, dessa ênfase, dessa solução. Ele – homem, branco, hétero, com ótima educação, inteligente e sortudo – está eufórico, permanentemente excitado, isso é evidente, porque, sem desconsiderar o quanto está perdido, tem nas mãos o passe vip e está, por conta disso, solto feito um cachorrinho recém-nascido que ainda não compreendeu que não passa de um cachorrinho, na Disneylândia dos escritores brasileiros. Evidente que por ser tratar de uma sátira, de uma ficção, há ênfases que estão longe de certas realidades, da minha realidade e da realidade de tantos outros escritores e escritoras; prefiro pensar que essa realidade do livro, essa realidade constituída, é um dos seus méritos, haja, ou não, críticas agudas por trás de tudo que se apresentou. Quanto à desglamorização, o que posso dizer é: nunca acreditei nela, nunca me portei como alguém que aposta nela. No entanto, não pretendi (e não pretendo) fazer dessa minha postura uma cruzada – tenho receio enorme dos paladinos. Sei que todo escritor se deixa levar pelo canto da sereia – em altura ou outra, inebria-se com o próprio trabalho, com o próprio sucesso, com o próprio discurso, com a própria ambição –, e sei que depois a tendência é a de que ele consiga se recompor (alguns, raros, não conseguem abandonar a igreja da vaidade, mas eles e os seus egos, por si só, não são importantes). Nesses 15 anos que se passaram desde a publicação do meu primeiro livro, o História curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros [Sulina, 2001, assinado sob o pseudônimo Elrodris], vi muita gente boa surgir, brilhar e desparecer, gente que desapareceu porque não tinha a determinação necessária. Não quero realizar diagnóstico, juízo, quero, talvez, é “transfigurar” um tantinho para mostrar como, às vezes, tudo que nos cerca é tão patético, e nós somos patéticos também. Para mim, em resumo, é uma questão de teimosia, um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar, tendo que negociar o tempo inteiro com a solidão. Certa vez conversando com jovem jornalista, pessoa tomada pelo deslumbramento de estar em um grande veículo da imprensa brasileira, pelo falso poder que a posição projeta, justo por estar naquele autoencantamento, falei algo como: cuidado que o teu super hype de jornalista especialista em literatura vai passar (a imprensa brasileira sempre demite) e os escritores que não vieram a passeio, independente de aplauso, continuarão carregando suas pedrinhas, continuarão escrevendo seus livrinhos.

A ditadura militar brasileira em original abordagem ficcional

K. Capa. Reprodução
K. Capa. Reprodução

Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Bernardo Kucisnki é cientista político e jornalista, e neste último campo, autor de ao menos uma obra fundamental: Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa [Página Aberta, 1991].

Assinando simplesmente B. Kucinski, bastou um livro para que ele passasse a ser também reconhecido como “escritor” ou “autor de ficção” – o que no fundo deve servir apenas a quem organiza as obras nas estantes, em livrarias, bibliotecas ou coleções particulares.

K. – Relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014, 190 p.], primeiro romance do autor, foi finalista dos prêmios Portugal Telecom e São Paulo de Literatura em 2012.

Você vai voltar pra mim. Capa. Reprodução
Você vai voltar pra mim. Capa. Reprodução

O tema era urgente, embora o autor o tenha maturado por quase 40 anos: K. é o relato autobiográfico, embora o livro seja classificado como ficção, sobre o desaparecimento, em 1974, 10 anos após o início da ditadura militar brasileira, da irmã e do cunhado de Kucinski – Ana Rosa Kucinski e Wilson Silva –, ela química, professora da USP; ele físico, funcionário de uma empresa.

Como o assunto exigia mais, o autor não se contentou e, na sequência, lançou o volume de contos Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.] e o romance policial Alice: não mais que de repente [Rocco, 2014, 191 p.], o único que não se passa durante a ditadura, totalmente ficcional, sobre o assassinato de uma professora da USP.

Alice. Capa. Reprodução
Alice. Capa. Reprodução

Kucinski revela que os 28 contos de Você vai voltar pra mim foram selecionados de um universo de 150 – os que tinham a ditadura militar como tema/ambiente –, escritos entre 2010 e 2013. “Embora o autor não nos explique nada a respeito da veracidade, ou não, dos episódios, alguns deles são muito conhecidos das vítimas e dos estudiosos do período. Minha memória sugere que todos eles sejam, como se afirma nas legendas finais de alguns filmes, inspirados em fatos reais”, a psicanalista Maria Rita Kehl nos coloca a boa e quase óbvia pulga atrás da orelha no prefácio. O conto-título, aliás, é frase dita por um torturador a uma vítima.

Os muitos anos de jornalismo e magistério certamente ajudaram Kucinski com a forma: narrativas bem estruturadas, doses de ironia, a cumplicidade do leitor com a urgência dos personagens – o que lhes/nos espera nas linhas seguintes? – e a dúvida não incômoda: autobiografia? Invenção? Ou um mix? O conteúdo, mesmo que com pitadas de ficção, é, por vezes, fruto de seu próprio sofrimento, transformado em literatura da melhor qualidade. De um modo ou outro, ele dá uma bela contribuição à discussão sobre o direito à memória e à verdade no Brasil, um debate infelizmente tardio e por vezes enviesado e sem a profundidade necessária.

Por que O Brasil é bom é tão bom

O Brasil é bom. Capa. Reprodução
O Brasil é bom. Capa. Reprodução

 

O André Sant’Anna é filho do Sérgio Sant’Anna, mas querer explicar todo seu talento pela genética pode diminuí-lo. Os dois são dois dos maiores contistas brasileiros em atividade, o que mostra que Deus é injusto: como pode tanto talento numa só família? Coisa assim só se viu, talvez, na família do Caetano e da Bethânia. Ou na família Sarney, mas esta não fez nada de útil pelo Brasil ou pelo Maranhão, apesar de tanto tempo no poder. Esta última família seria uma espécie de família de anti-talentosos. Mas o que importa mesmo, aqui, agora, são os Sant’Anna. Na verdade, o Sant’Anna, o André. E seu livro novo, nem tão novo assim, já com quase um ano de lançado, O Brasil é bom [Companhia das Letras, 2014, 190 p., leia um trecho] – o título do livro –, o Maranhão é uma província e às vezes o, digamos, crítico, pode demorar a ler e resenhar coisa ou outra. Está lá, embalado por aquele prato com uma banana espetada por um garfo, o Campo de batalha 5, óleo sobre tela de Antonio Henrique Amaral, de 1974, a prosa elegante e mui característica de um, repito, dos maiores contistas brasileiros em atividade. Sim, o André, que já havia provado isso em livros como Inverdades [7Letras, 2009], Sexo e amizade [Companhia das Letras, 2007] e O paraíso é bem bacana [Companhia das Letras, 2006], mesmo este último sendo um romance. O André, que é escritor, mas também mexe com música e publicidade, sabe utilizar muito bem a ironia, ou vocês não notaram isso a começar pelo título? O Brasil é bom tem um conto chamado O Brasil não é ruim, que ele enxerta o texto inteiro com vários “nãos” para terminar por dizer a verdade. Começa assim: “Os deputados brasileiros não são vagabundos, não ganham quase vinte e cinco mil reais por mês mais uma série de ajudas de custo como passagens aéreas, casa, comida, roupa lavada etc., não passam só três dias da semana em Brasília, onde não atuam somente em causa própria, comprando e vendendo favores e outras paradas que não os tornariam cada vez mais ricos ilicitamente”. E termina assim: “Por isso é que o Brasil é bom”. O primeiro conto do livro, Deus é bom Nº 8, começa tirando uma onda com Lula e a guinada à direita dos governos petistas. O presidente é Cristo e Judas negocia com o centrão e o livra da crucificação, mas o afasta de todos os ideais que moviam o partido antes do mesmo chegar ao poder. É claro que o André Sant’Anna adverte que “os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles” e aí está outra coisa muito interessante na prosa de Sant’Anna, o André, de mesclar ficção e realidade e tornar pessoas reais personagens de ficção, tipo a Glória Peres, no conto inicial, que quando “Jesus nasceu num barraco bem pobrinho […] falou: esse menino vai se chamar Jesus. Jesus Cristinho”. Ou o George Harrison que ele foi. Todo mundo foi, um dia, na infância, um ídolo. O beatle aparece em vários contos, os últimos do livro, A história da revolução, A história do rock, A história do futebol e A história da Alemanha. No penúltimo, dedicado a Sérgio e Ivan Sant’Anna, “quando o futebol foi inventado, em 1969, o George Harrison era de Belo Horizonte, e no prédio dele, na escola dele, na rua dele as pessoas ou eram Atlético ou eram Cruzeiro. O primo do George era Atlético. O George era o Tostão do Cruzeiro”. Há ainda contos intitulados O futuro vai ser bom, Nós somos bons, O brasileiro é bom e Amor à pátria. Tudo ironia pura, fina ironia. Duas aspas, o começo e o fim deste último: “Porque eu sou assim: a nível de futebol, a pátria em primeiro lugar”. “A nível de futebol, o que importa é o sangue”. Comentário na rede sobre tudo o que está acontecendo por aí ironiza o discurso de ódio da classe média e da polícia sobre militantes e movimentos de defesa dos direitos humanos. Antológico, este conto mereceria transcrição integral, mas fiquemos com uns trechos, apenas, até para vocês se interessarem pela parada, digo, a prosa do André Sant’Anna, e comprarem o livro – e lerem, que é o que realmente importa: “A culpa é toda do direitos humanos, que vem aqui se meter no Brasil e não cuida dos problemas deles mesmos, desses países que se acha. Porque lá todo mundo faz o que quer, faz terrorismo, fuma drogas, anda pelado com os seios de fora e até faz sexo com homens do mesmo sexo. […] Aí, quando vem um bandido e pega o seu carro no farol e dá um tiro na sua cara, você que é um cidadão de bem, com a sua família, o que é que acontece? Vem o direitos humanos e protege os bandidos e quer que a gente que é homens de bem, que não temos direitos humanos nenhum, fique quieto vendo os estupradores todos levando boa vida lá na cadeia, comendo comida que a gente paga e até levando mulher lá prá dentro, prá fazer sexo. […] Brasileiro não precisa nada desses gringos. Esses gringos é que fazem esses terrorismos. Pode ver que aqui no Brasil não tem terrorismo, não tem terremoto nem nada disso. […] Os gringos vêm aqui e ficam querendo botar esse direitos humanos aqui prá soltar os bandidos todos da cadeia. Mas eles lá prendem bandido de menor. Lá na terra deles pode até pena de morte. Só aqui é que não pode porque os gringos do direitos humanos não deixa. […] Eu sou igual o velho lobo Zagallo, totalmente verde e amarelo”. Na história mais longa do livro, Lodaçal, um par de amigos tem várias vezes seu futuro interrompido, sempre de maneira trágica, tudo narrado com a categoria futebolístico-literária de André Sant’Anna, mineiro que hoje vive em São Paulo e talvez não torça pelo Fluminense, como o pai dele, não sei. Toninho e Chiquinho, os personagens, se alimentam, entre outras coisas, de papel higiênico usado. Há sexo, drogas, violência, “o Toninho engolindo os próprios dentes, a visão toda turva, mas pelo menos não saiu pedaço de cérebro pela orelha, coisa que ia acontecer se o Chiquinho deixasse o Toninho nas mãos dos cidadãos de bem”. É irônico, e talvez por isso engraçado, que a ficção de André Sant’Anna revele tão bem o Brasil cotidiano, com seus problemas, sua ignorância, seus preconceitos, o que deveria ser papel da imprensa, mas esta, na maior parte do tempo e das vezes, prefere praticar ficção para agradar aos patrões, e o André é competente também ao escrever não-ficção, que eu já li, aqui e acolá. “Vou dizer uma coisa pra você, uma coisa que, no país da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos e das instituições de espancar crianças seria considerado uma blasfêmia absoluta: a Alemanha é muito melhor do que o Brasil. Pode crer.”, termina o livro A história da Alemanha, o livro escrito e publicado antes da Copa do Mundo de 2014, antes da reeleição de Dilma Rousseff, antes, portanto, do panelaço e do “impítima”. Qual a capa de seu livro – quem vê de longe e ligeiro pensa em retrato, mas é uma pintura – o que André Sant’Anna faz é pintar um quadro – futurista? – do Brasil, um Brasil em que a Lei de Murphy devia ser artigo da Constituição. É por isso que a literatura de André Sant’Anna é tão boa!

O homem-mulher reafirma Sérgio Sant’Anna como um grande mestre das histórias curtas

O homem-mulher. Capa. Reprodução
O homem-mulher. Capa. Reprodução

Sérgio Sant’Anna é o melhor contista brasileiro em atividade. A quem porventura discordar da afirmativa, recomenda-se urgentemente a leitura de O homem-mulher [Companhia das Letras, 2014, 183 p.; leia um trecho], seu mais recente volume dedicado às histórias curtas.

“Conto é tudo aquilo que chamamos conto”, diz a célebre definição de Mário de Andrade. Daí que esta obra de Sérgio tenha contos de duas páginas até O homem-mulher II, que encerra a antologia, com suas 44 páginas, na linha tênue entre o conto e a novela. Ou o roteiro cinematográfico.

Eis aí, aliás, uma espécie de baliza particular para avaliar a qualidade de um livro de contos: quantos deles dariam bons filmes? Sérgio que é autor, por exemplo, de Um crime delicado [1997], romance que originou Crime delicado [2005], de Beto Brant, tem ao menos quatro contos cinematográficos em O homem-mulher: os contos-títulos, que abrem e fecham o volume (o primeiro uma organizada versão cut-up do segundo, como se Sant’Anna guardasse o melhor – e mais trágico – para o final), Lencinhos – comovente sem perder o erotismo, uma das marcas de sua literatura – e As antenas da raça – que seria ainda melhor se terminasse no “suicídio” da protagonista, sem o autor (tentar) entrar na “psicologia” de uma barata.

Os contos-título contam a história de Adamastor Magalhães – ou Fred Wilson, ou ainda Zezé –, paraense que se veste de mulher no carnaval e vai ao Rio de Janeiro tentar a vida como ator, para terminar de forma trágica. Lencinhos narra a paixão de um cinquentão por uma vendedora de lenços cujo marido definha vítima de câncer. As antenas da raça relata o suicídio acidental da embaixatriz Berenice Azambuja, que resulta da vaidade e orgulho bestas da dita grã-finagem. Em O conto maldito e o conto benfazejo e Prosa Sant’Anna reflete sobre o ofício de escritor. Clandestinos revela um adultério. O torcedor e a bailarina relata a paixão instantânea de um torcedor cujo time é derrotado na final de um campeonato por uma bailarina que toma a tela após uma zapeada deste torcedor – que logo esquece a derrota e o mundo ao redor. E há ainda 11 outras histórias, para deleite do leitor, iniciante ou mais acostumado à pena elegante do mestre carioca.

O sexo, a violência, o futebol e a morte, obsessões deste torcedor do Fluminense, estão presentes. E há mesmo um conto – Amor a Buda – em que o autor comenta a “escultura Tentação (Tangseng e Yaojing), de 2005, do chinês Li Zhanyang”, que ilustra a capa e O homem-mulher.

Autor profícuo e consagrado, Sant’Anna iniciou sua premiada carreira literária há 45 anos, com os contos de O sobrevivente (1969), a que se seguiram quase vinte livros entre contos, novelas, romances, peças de teatro e um de poesia [Junk box, de 1984]. Venceu quatro vezes o prêmio Jabuti e é pai do também escritor André Sant’Anna – que a julgar pela qualidade da obra que vem construindo, herdou muito do pai.

A pergunta que não cala ao encerrarmos um livro monumental como O homem-mulher é: como um autor há tanto tempo na estrada consegue soar original? Determinados temas são como marcas de sua prosa, mas a forma como Sant’Anna os aborda soará sempre singular. Para ele, parece, a literatura é a própria vida, que começa com sexo e termina com morte – longe de querer, aqui, entregar o ouro ao bandido. Repete-se a recomendação com que se abre esta resenha: a quem não conhece, o volume serve também como uma bela porta de entrada à obra do autor.

Mesclando realidade e ficção, Chico Buarque lança seu melhor livro

O irmão alemão. Capa. Reprodução

 

O irmão alemão [Companhia das Letras, 2014, 237 p., leia um trecho] é, de longe, o melhor romance de Chico Buarque. A começar pelo mote: a procura por um filho que Sergio Buarque de Holanda, seu pai, teve na Alemanha, em 1930, antes do casamento.

Compositor consagrado, Chico Buarque – que completou 70 anos neste 2014 – já é também, há algum tempo, nome prestigiado no universo literário, dentro e fora do Brasil. Em O irmão alemão ele mescla memória e autobiografia à pesquisa e ficção.

Notas ao fim do livro dão conta de quem foi Sergio Günther, o irmão alemão de Chico Buarque, “filho de Sergio Buarque de Holanda e Anne Ernst”, que “gravou um número incerto de discos, hoje fora de circulação”.

O livro é narrado por um professor de literatura – alter ego do autor –, que se diverte com o cometimento de pequenos delitos – Chico Buarque chegou a ser detido por um furto de automóvel na adolescência –, a boemia, em fazer a corte a moças desvirginadas por seu irmão mais velho e em fuçar cartas ocultas no interior dos livros da vasta biblioteca de seu pai.

As cartas, reais – com reprodução fac-símile de algumas ao longo da obra –, algumas escritas em alemão, dão conta da existência do personagem-título do livro, o que instiga a porção detetivesca de Ciccio, como é chamado o filho mais famoso de Sergio, a cujo amor pelos livros O irmão alemão presta merecido tributo – lê-lo é como mergulhar nas altas estantes do sociólogo, espalhadas pela casa inteira, cujas “paredes eram feitas de livros”. É quase correr os dedos nas lombadas dos incontáveis títulos de sua coleção.

Não à toa o novo romance de Chico Buarque é oferecido a Sergios: o pai e o irmão, ambos já falecidos, de quem o compositor-escritor se reaproxima, permitindo a seus leitores uma espiadela em sua vida privada – mas só o quanto ele mesmo permite ao descortiná-la, senhor absoluto da situação.

O resto é um piano ecoando ao longe, gemidos no quarto vizinho ou o cochilo do pai com um livro no colo e um charuto em uma das mãos.