A nordestinidade de Alexandra Nicolas

Fotosca: ZR (10/12/2016)
Fotosca: ZR (10/12/2016)

 

Não há nada que Alexandra Nicolas faça sem capricho e verdade. Talvez isso explique a demora de sua estreia no mercado fonográfico, acontecida apenas em 2013, com Festejos [Acari], inteiramente dedicado ao repertório de Paulo César Pinheiro, quando já contava quase 20 anos de carreira.

Aquele disco, inconscientemente talvez, já apontava na direção do Nordeste, região à qual ela dedica o repertório de Eu vou bulir com tu, show com que tem percorrido praças públicas de São Luís. Ela faz questão de afirmar(-se), logo no início do espetáculo: “Para quem não me conhece, eu sou Alexandra Nicolas, cantora ma-ra-nhen-se!”, diz, escandindo as sílabas.

É tamanho o cuidado e o carinho com que a cantora prepara seus espetáculos que a coisa não acaba – tampouco começa – no espetáculo em si. Quem já viu, percebe isso em “detalhes” como o figurino – dela e da banda que a acompanha – o palco, a luz, o som. Parece óbvio dizer isso, mas não é.

Sua entrega no palco é total, valendo-se de recursos aprendidos em formações em canto – no que a formação acadêmica em fonoaudiologia certamente ajuda –, dança e teatro. O verbo-mote do show, do título da música de Antonio Barros e Cecéu, é traduzido ao longo do espetáculo, quando ela bole com músicos, com público, com o marido-produtor, dedicado, jogando nas 11, atento a cada detalhe, vendendo discos, trabalhando desde muito antes e até muito depois do show, para que tudo aconteça com perfeição.

Era a sexta apresentação da temporada, espécie também de testes para o repertório do disco. A banda, cada vez mais afiada: Wendell Cosme (cavaquinho, guitarra e direção musical), Nataniel Assunção (bateria), Wanderson Silva (percussão), Carlos Raqueth (contrabaixo), David Ginja (sanfona), João Neto (flauta), Rony e Gil (vocais) – lenda viva da música brasileira, o maestro Zé Américo Bastos subiu ao palco e assumiu um teclado em Bulir com tu, quando Alexandra continuou cantando, agora dançando com Carlinhos de Jesus, outra lenda viva do Brasil. Este agradeceu a oportunidade de voltar a São Luís, lembrando a importância de Zé Américo no início de sua carreira.

Ontem (10), Alexandra transformou o Espigão Costeiro da Ponta d’Areia em pista de dança, com boa parte do público “bulindo” o esqueleto em um tapete vermelho estendido em frente ao palco – havia bailarinos profissionais para quem quisesse se arriscar, mas dançaram casais, crianças e, em determinada altura do espetáculo, o bailarino Carlinhos de Jesus desceu para dançar com a plateia. “Eu estou cumprindo minha promessa, trouxe Carlinhos de Jesus para dançar com vocês”, declarou Alexandra, após anunciar a participação especial – ele protagoniza com ela o videoclipe de Bulir com tu, primeira música de trabalho de seu novo disco, a ser gravado e lançado ano que vem.

Com seu carisma e bom humor, Alexandra Nicolas provou, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, que todo mundo tem o direito de ser feliz. E quem passou pelo Espigão na noite de ontem o foi, ao menos na cerca de hora e 15 minutos de sua apresentação. 10 de dezembro é também o dia do palhaço e ao cantar Leque moleque (Alceu Valença), ela trocou o “Valença-ça” da resposta à pergunta, na letra: “e o palhaço quem é?/ Alexandra!”.

Outros destaques da noite foram Maria, Mariazinha (Aloísio Ventura), Espumas ao vento (Accioly Neto), Forró do beliscão (João do Vale/ Ary Monteiro/ Leôncio), O segredo do coco (João Madson) e, como o Maranhão se espraia entre o Nordeste e o Norte, numa deliciosa “confusão” geopolítica e cultural, No meio do pitiú (Dona Onete) e o Carimbó do macaco (Pinduca), a saideira, em que botou a banda para tocar – e Carlinhos de Jesus para dançar – a música paraense em ritmo de reggae, samba e arrocha. “Me arrocha, Carlinhos! Martin, eu te amo!”, declarou, para diversão da plateia.

Alexandra Nicolas promete bulir com o público em guinada rumo ao Nordeste

A cantora Alexandra Nicolas conversou sobre a nova empreitada artística com Homem de vícios antigos. Foto: Veruska Oliveira
A cantora Alexandra Nicolas conversou sobre a nova empreitada artística com Homem de vícios antigos. Foto: Veruska Oliveira

 

Os ritmos nordestinos já estavam presentes em Festejos [Acari Records, 2013], disco de estreia de Alexandra Nicolas, mais identificado com o universo do samba e do choro, seja pelo time de instrumentistas que a acompanha ali, bambas dos gêneros, ou pelo compositor que gravava: o repertório era inteiramente dedicado à obra de Paulo César Pinheiro.

Em temporada que inicia nesta sexta-feira (2 de setembro), às 21h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), o Nordeste deixa a periferia para ocupar o centro das atenções. Na ocasião, a cantora realiza o primeiro de sete shows gratuitos com que percorrerá diversas praças públicas de São Luís, além de lançar o videoclipe de Bulir com tu (Antonio Barros e Cecéu), repescada do repertório de Marinês e, já em sua voz, um hit em rádios locais e redes sociais. O videoclipe tem participação especial do bailarino Carlinhos de Jesus, que virá à São Luís para a apresentação de encerramento da temporada, marcada para 10 de dezembro (sábado), no Espigão Costeiro da Ponta d’Areia.

A temporada passa ainda por Praça da Saudade (Madre Deus, 16 de setembro), Igreja de Santa Teresinha (Filipinho, 1º. de outubro), Largo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Monte Castelo, 15/10), Praça da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré (Cohatrac, 4 de novembro) e Parquinho da Avenida Litorânea (11/11).

“Meu coração sempre bateu mais forte para os ritmos da minha região. Tenho certeza que nasci pra cantar o meu Nordeste. É bem simples, quando eu ouço meu corpo responde”, revela a cantora ao Homem de vícios antigos. “Tudo mexe e remexe aqui dentro e minha alegria e orgulho ficam estampados no rosto. Adoro o jeito de fazer música dos nordestinos. Eles são faceiros, entusiastas e compartilham alegria, abundância, conquista e até quando se fala de dor, nostalgia e saudade tem humor. E eu vivo assim, desse jeito, vendo o lado bom de tudo. E pra ser bem honesta de fato e de direito, eu me encanto com o jeito que eles falam da mulher. Ela tem cheiro de erva, tem gosto de fruta e tem a cor do sertão”, continua.

Patrocinada pela Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, a temporada servirá para mostrar este outro lado da versátil Alexandra Nicolas, mas será também um teste para o repertório do disco novo, cujo título também é Bulir com tu, a ser lançado em 2017. Ela confessa que a escolha não tem sido fácil, mas duplo sentido inteligente, de que o dial anda tão carente, tem presença garantida. Os testes, aliás, começaram no período junino: “a resposta foi forte!”, celebra.

“Escolha complicada e difícil, pela quantidade de música boa que chega pra mim. Já tenho material pra gravar disco por toda a vida. Não existe nesse mundo homem pra falar de sexo de forma mais inteligente do que o nordestino. Não tem! Primeiro o desejo, é aquele que dá água na boca e tem até forma, dá pra ver na música, é cinematográfico. Antigamente, a censura fazia com que eles arrodeassem o assunto de todo jeito e isso deu passagem para o duplo sentido inteligente, sagaz e cheio de malícia refinada, campo no qual João do Vale era rei”, afirma, citando um dos autores escalados para a seleção, ou devo dizer “bulição”? Outros nomes já definidos são os também maranhenses Betto Pereira, João Madson e Ronaldo Mota.

Outro maranhense que comparecerá é Zé Américo Bastos, com longo currículo de bons serviços prestados à música brasileira, durante muito tempo produtor de Elba Ramalho, com talento posto à prova também em discos de Alceu Valença, Alcione, Ednardo, Gilberto Gil e Vicente Barreto, outros ícones nordestinos que dispensam apresentações.

Ela conta como se deu o re-encontro: “Zé Americo, antes de maestro, é tio de minha infância, amigo do meu pai, parte integrante das festas na casa de minha avó. Papai sempre disse que Zé , era o maestro certo pra mim. A vida deu muitas voltas, até que Betto Pereira, meu amigo de fé, meu irmão camarada, repetiu essa frase de meu pai. Aí se tornou imperativo pra mim. Segui o conselho do amigo e fomos juntos até a casa dele no Rio. O encontro foi emocionante. Como tenho juízo, tomo a benção pra Zé, até hoje. Esse detalhe eu acho que já revela tudo”.

Bulir com tu, primeira música de trabalho do novo disco, vem dando a tônica do que serão disco, videoclipe, shows e as aparições surpresa em que aparece cantando, acompanhada de Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho), seu diretor musical, que vem angariando inúmeras curtidas e compartilhamentos nas redes sociais – a banda que a acompanhará ao longo da temporada se completa com Carlos Raqueth (contrabaixo), David Ginja (sanfona), Edson Reis (percussão), Gil Costa (vocal), Jonny Wekner (teclado), Lee Fan (sax e flauta), Nataniel Assunção (bateria), Rony Cravo (vocal) e Wanderson Silva (percussão).

“Tenho muitos mestres na vida, graças a Deus! Essa escolha eu devo a um deles: Arlindo Carvalho. É o grande culpado dessa escolha. Ele me deu de presente de aniversário em 2013 uma cópia do CD de Marinês e sua Gente, 50 anos de Forró, idealizado por Elba Ramalho e produzido por Marcos Farias em 1999, no qual Marinês faz duetos com grandes ícones da música nordestina, gente da gente. É um disco pra se ter pro resto da vida e passar de gerações pra gerações”, comenta o achado. “Ali estava o filme da minha infância, da minha vida de menina, que nasceu e foi criada na batida do forró. Lá estava meu novo xodó, Bulir com tu, que por sinal Marinês divide com o próprio produtor. Nascia ali minha frase de trabalho: “eu vou bulir com tu”, revela. É mais que uma promessa: ela bole mesmo, este repórter atesta.

Carmen Miranda será homenageada no RicoChoro ComVida

[release]

Repertório chorístico imortalizado pela cantora será lembrado por Alexandra Nicolas, acompanhada do grupo Urubu Malandro. O DJ Joaquim Zion também é convidado da terceira edição do projeto

Foto: divulgação
Foto: divulgação

 

“Carmen Miranda é minha maior inspiração como cantora. Eu escuto Carmen Miranda desde menina, mamãe era muito apaixonada por ela, e sempre me dizia que ela era alegria pura, que cantava com os olhos, além das mãos, além da voz. Quando eu pensei nessa alegria de retomar um trabalho com Ricarte, eu pensei nela, em associá-la a essa vida, desse RicoChoro ComVida”.

A cantora Alexandra Nicolas [leia entrevista] emociona-se ao referir-se a Carmen Miranda, a quem homenageia no palco do projeto RicoChoro ComVida, e ao convite para participar de sua próxima edição, que acontecerá dia 3 de outubro (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).

Alexandra Nicolas será acompanhada pelo grupo Urubu Malandro, formado pelos músicos Arlindo Carvalho (percussão), Juca do Cavaco, Osmar do Trombone e Domingos Santos (violão sete cordas). À formação do grupo somam-se, em participações especiais, Fleming (bateria) e Rui Mário (sanfona).

O Urubu Malandro se notabilizou à época do projeto Clube do Choro Recebe, também produzido por Ricarte Almeida Santos, entre 2007 e 2010. Até seu falecimento, o grupo foi integrado por Antonio Vieira (voz e percussão, 1920-2009), também fundador, na década de 1970, do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão.

“A minha relação com os integrantes do Urubu Malandro vem através de Arlindo Carvalho, que é um percussionista que eu costumo dizer que é meu mestre. É alguém que escuta as batidas de meu coração desde a escolha de meu repertório, até a hora em que eu canto a última frase em um show meu. É o músico que mais me acompanhou em shows até hoje”, revela Alexandra Nicolas. O percussionista é o único maranhense em seu disco de estreia, Festejos [2013], gravado com grandes nomes do choro brasileiro, a exemplo de Luciana Rabello (cavaquinho), Maurício Carrilho (violão) e João Lyra (violão e viola), entre outros.

Sem perder a alegria típica da homenageada, numa das características fundamentais que mantêm vivo seu legado até os dias atuais, Alexandra Nicolas centrará o repertório de seu tributo em músicas mais voltadas ao choro, principal gênero – mas não o único – do cardápio musical oferecido por RicoChoro ComVida. “Urubu malandro [Pixinguinha, João de Barro e Louro] eu não poderia deixar de fora. Ah, tem tanta coisa. Tem uma música chamada Diz que tem [Vicente Paiva e Aníbal Cruz], que é fantástica! É isso aí, a mulher brasileira, quando ela se propõe, ela tem tudo isso, “tem cheiro de mato, tem gosto de coco, tem samba nas veias, e ela tem balangandãs” [recitando trecho da letra]”, adianta.

“Eu me identifico muito com tudo o que ela fez. Tem Camisa listada [Assis Valente], Disseram que eu voltei americanizada [Vicente Paiva e Luiz Peixoto] não pode faltar. Na verdade eu estou montando uma história sobre as épocas de Carmen como cantora. Ela não é uma cantora só que canta, ela conta uma história muito boa, e por isso me identifico tanto com ela. Ela conta tanto, que ela modificou a maneira de cantar. Quando você olha para os olhos dela, ela está te contando alguma coisa e você tem que prestar atenção”, continua.

Foto: Claudia Marreiros
Foto: Claudia Marreiros

 

Quem também recebeu com alegria o convite da produção foi o DJ Joaquim Zion [leia entrevista]. Ele junta-se ao coro de Alexandra em elogios ao produtor e idealizador do projeto. “Pra mim é uma honra. Tenho imensa admiração pelo Ricarte e o projeto RicoChoro ComVida é de fundamental importância para o desenvolvimento da boa musica em nosso país”, declarou.

Clementina de Jesus, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Gilberto Gil, Dominguinhos, Di Melo, Paulo Moura, Jorge Ben, Caetano Veloso, Djavan, Pixinguinha e Donga, além de surpresas que ele só revelará na hora, estão no set list preparado por Joaquim Zion para abrir e encerrar a festa.

O DJ também destacou a importância da homenageada da noite. “Carmen Miranda foi a primeira cantora brasileira a ter reconhecimento nos Estados Unidos, o que de alguma maneira abriu portas para a nossa música lá fora. O pioneirismo dela fez com que o mundo abrisse os olhos para o Brasil e para a nossa música”, afirmou.

Produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, e apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas.

Serviço

O quê: RicoChoro ComVida – 3ª. edição
Quem: DJ Joaquim Zion, grupo Urubu Malandro e Alexandra Nicolas
Onde: Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande)
Quando: 3 de outubro (sábado), às 18h
Quanto: R$ 30,00. Vendas antecipadas de mesas (R$ 120,00 para quatro pessoas) pelo telefone (98) 988265617

Um roteiro inteligente e divertido

Fotosca: ZR (23/6/2015)
Fotosca: ZR (23/6/2015)

 

Durante muito tempo certa repetitividade era ingrediente inevitável na programação dos arraiais juninos em São Luís do Maranhão. Desde que, há mais de 20 anos, Roseana Sarney monetizou a coisa em definitivo e fez disso moeda de troca eleitoral, num tempo em que showmícios e que tais ainda eram permitidos por lei.

Explico: até bem pouco tempo – e talvez isto ainda aconteça, em maior ou menor escala – inchava-se a programação junina mesmo com artistas sem nenhuma relação ou intimidade com o período, longe de algo parecido, guardadas as devidas proporções, com o carnaval multicultural do Recife, por exemplo.

O que acontecia: o turista ou nativo que optasse por passar a noite inteira em um mesmo arraial, invariavelmente ouviria a mesma música repetidas vezes, no show deste ou daquele artista, por repertórios montados a toque de caixa ou quaisquer outros motivos, sem qualquer preocupação ou (maior) ambição estética.

O show apresentado ontem (23), às 21h, na praça da Casa do Maranhão (Praia Grande), por Alexandra Nicolas, artista das mais simpáticas e talentosas surgidas em nossa terra nos últimos 20 anos, dá pistas de como superar um modelo falido de São João. Sua apresentação dá várias pistas disso.

Primeiro, Alexandra Nicolas tem público cativo, independentemente de palcos sazonais oferecidos pelo poder público. Segundo, não é forçar a barra a artista integrar a programação junina da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão: sua obra, mesmo que fiquemos apenas em Festejos (2013), seu único disco gravado até aqui, mostra sua intimidade com o forró, o xote, o coco, o bumba meu boi e o tambor de crioula, para ficarmos em algumas nordestinidades em um disco em geral rotulado como de samba – pelo repertório, todo de autoria de Paulo César Pinheiro – ou de choro – pelos músicos acompanhantes.

Alexandra tem os pés (descalços) no terreiro e os olhos e ouvidos nas janelas do Brasil. Seu repertório demonstra um trabalho de pesquisa, não se dissociando, mesmo para o que poderia ser um mero show de São João, de sua carreira fonográfica, não se limita ao óbvio nem ao local, erro comum em artistas em busca de, digamos, legitimidade junina.

Como o turista que anda por São Luís, e havia vários na praça ontem, empunhando suas máquinas fotográficas, “entra em beco, sai em beco”, Alexandra chega chegando com Madalena (Isidoro), hit de Gilberto Gil, para depois passear pela Feira de mangaio (Sivuca e Glorinha Gadelha). Depois decreta: É proibido cochilar (Antonio Barros). Mas disso todo mundo já sabe, atento que está o público para a ginga, o rodar da saia, a empatia da artista com a plateia, de gente que dança agarrada ou só, entre um selfie e outro.

Depois das escamas da Serpente da lua cheia (Ronald Pinheiro), ela pega carona nas asas da Pipira (João do Vale e José Batista) e, continuando o passeio pelo Maranhão, desvenda O segredo do coco (João Madson). “Esta eu aprendi a cantar com Didã”, revela, referenda. “Vai estar no próximo disco”, anuncia. Depois do Maranhão, volta a Festejos, disco que (quase) dá nome ao show, Festejo no Arraial. Emenda o coco do maranhense radicado em São Paulo ao Coco de Paulo César Pinheiro, levando a plateia a arriscar-se no trava-língua, que ela canta acelerando, ao final, sem correr risco nenhum, a esta altura, acompanhada apenas pelo pandeiro frenético de Marquinhos: “peguei no taco/ com o taco bati no coco/ que o coco deu um pipoco/ por pouco o coco não cai/ galo, no oco/ do toco, que ronda o choco/ o galo tá no sufoco/ dá soco que o galo sai”.

A banda, aliás, merece destaque à parte: além do citado percussionista, Fleming (bateria), Carlos Raqueth (contrabaixo), Rui Mário (sanfona) e Robertinho Chinês (cavaquinho), todos senhores de si em seus instrumentos – dispensariam ensaios, mas disto a artista não abre mão, para a coisa fluir da maneira mais descontraída e com a melhor qualidade possível.

Feito o destaque, voltemos ao repertório. “Os meninos da banda brincam comigo que tem muita Madalena no meu disco, que dava pra fazer um disco só com Madalena. Tem alguma Madalena aí?”, indaga à plateia. E canta Bisavó Madalena (Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves). Depois pede licença para bulir com a plateia: “quero ver se vocês conhecem. Essa eu pesquei do fundo do baú do baú do baú”, avisa, dando a devida ideia da profundidade do guardado que ela re-revela. “As pessoas tendem a achar que fuleiragem é coisa ruim. Eu gosto muito de uma fuleiragem. Fuleiragem, catrevagem, sacanagem, tudo é coisa boa”, provoca, entre risos seus, dos músicos e da plateia contagiada. E canta Bulir com tu (Cecéu), lançada por Hermelinda em 1988: “Se você pensa que chega de madrugada/ assim como quem não quer nada/ meu bem se enganou/ não adianta se deitar na rede/ por que a minha sede/ você não matou/ mas se você dormir/ eu vou bulir, eu vou bulir, bulir com tu”.

Do repertório de Jackson do Pandeiro pesca Sebastiana (Rosil Cavalcanti), para depois voltar a João do Vale com o Forró do beliscão (João do Vale, Ary Monteiro e Leôncio Tavares), antes de despedir-se com o bumba meu boi São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro), que passeia pelo tambor de crioula, fecha seu disco e fechou seu show.

A dinâmica dos arraiais não permite bis, já que após o show de Alexandra Nicolas os brincantes do bumba meu boi de costa de mão de Cururupu já se preparavam para sua hora de apresentação. “Se pudesse seria bom demais”, resignou-se o mestre de cerimônias oficial, rendendo-se aos encantos da artista.

Agenda

Alexandra Nicolas volta a apresentar Festejo no Arraial nesta sexta-feira (26), às 21h, no Arraial Terreiro de Maria (Praça Maria Aragão, Centro).

Hoje (24), às 21h, na praça da Casa do Maranhão (Praia Grande), quem se apresenta é o compositor Cesar Teixeira.

Teatro, cinema e música para festejar os 20 anos do Colégio São Marcos

[release]

Teatro João do Vale sediará comemoração. Noite contará com apresentação do show Festejos, de Alexandra Nicolas

Fundado em 1994 o Colégio São Marcos completa, na próxima sexta-feira (14), 20 anos de atividades. A comemoração acontecerá sábado (15), às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande).

A noite incluirá a encenação da peça Papo Furado, baseada em um roteiro de uma cartilha do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e Administrativa, com que os alunos do 3º. ano venceram, ano passado, a Mostra Científico-Cultural da escola. Será exibido também o documentário curta-metragem São Marcos: 20 anos de educação com excelência, de Paulo Malheiros, que reconstrói a história do colégio através de depoimentos de ex-diretores, professores e alunos. Por fim, os convidados terão ainda a oportunidade de assistir ao espetáculo musical Festejos, de Alexandra Nicolas, cantora vencedora do prêmio Universidade FM 2013 na categoria Revelação.

São Marcos – Tendo como mantenedora a Cooperativa Educacional do Maranhão (Cooped), o Colégio São Marcos funciona ao lado da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), próximo à praia de São Marcos, tendo iniciado suas atividades para atender à clientela bancária, logo expandindo suas atividades.

O São Marcos tem hoje mais de 200 alunos, da educação infantil e ensinos fundamental e médio; entre professores, técnicos e direção, são mais de 60 profissionais.

“Precisamos festejar a data, e nada melhor que fazê-lo valorizando os estudantes que estão na escola, os que passaram por lá e o que nossa cultura tem de melhor a oferecer. Há algum tempo já nutríamos a vontade de realizar alguma atividade com a participação desta talentosa artista. Chegada a hora de comemorar nossos 20 anos nem pensamos duas vezes”, afirmou José Ribamar Tocantins, um dos membros da direção do Colégio, fazendo referência ao cardápio cultural que será oferecido aos convidados por ocasião das comemorações de 20 anos de atividades do São Marcos.

“É uma imensa honra poder cantar para esta plateia, uma alegria enorme participar de uma comemoração que, através da cultura, celebra a educação”, declarou a cantora Alexandra Nicolas, cujo show Festejos será apresentado na ocasião.

Serviço:
O quê/ quem: 20 anos do Colégio São Marcos. Encenação da peça Papo Furado, por alunos da escola; exibição do documentário curta-metragem São Marcos: 20 anos de educação com excelência, de Paulo Malheiros; e apresentação do espetáculo musical Festejos, de Alexandra Nicolas.
Quando: dia 15 de março (sábado), às 19h.
Onde: Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande).
Quanto: grátis. Para convidados.
Maiores informações: (98) 8257-7472.

Quando a praça é palco e plateia todos festejam

A cantora em sua entrada triunfal, inusitada e colorida

A lua cheia já enfeitava o céu quando a cantora surgiu ao longe, sentada numa carroça, batizada de Mironga de Madá (alusão a Mironga, de Paulo César Pinheiro, e Bisavó Madalena, parceria dele com Wilson das Neves, músicas do repertório do disco de estreia). O condutor do veículo, que percorreu a lateral da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, guiava o jumento a pé. Dali ela acenava aos fãs, que aguardavam sua subida ao palco após a apresentação do Cantinho do Choro, misto de grupo e projeto que vem ocupando já há algum tempo a praça Gonçalves Dias nos fins de tarde de sábado.

Por detrás do palco, todo enfeitado e florido como a carroça, a bela paisagem da Ponte do São Francisco por sobre a maré cheia e o outro lado da capital, a São Luís vertical, a cidade nova. Um amigo me perguntou quem estava bancando a festa. A vontade de fazer música, de formar plateias, de fazer a arte circular. Em termos de patrocínio, respondi-lhe, os bolsos da cantora e do marido, que assinava a direção geral do espetáculo.

Festejos na Praça, o show, ficou no fogo cruzado entre um evento gospel realizado na praça vizinha, a Maria Aragão, e os olhares enfezados dos convidados de um casamento que teria lugar dali a pouco na Igreja defronte – talvez reclamassem da falta de vagas no estacionamento, já que o espetáculo musical em si não atrapalharia padre, noivos e convidados.

Uma plateia expressiva formou-se para ver o espetáculo. Sem um centavo de patrocínio, seja do poder público ou da iniciativa privada, penso que os objetivos foram alcançados e era possível ver a alegria estampada nos rostos dos que deixavam a praça após conferir o resultado.

A cantora já havia afirmado que o lugar de seu show é na rua, é na praça. “Eu ficava incomodada, no Teatro [Arthur Azevedo, onde lançou o disco Festejos em shows 7 e 8 de março passado], de dançar sozinha, vendo as pessoas ali sentadinhas. Eu quero ver o povo dançando junto”, declarou. E viu. E gostou. E vai repetir a dose. Outras praças serão ocupadas ao longo de 2014, antes de ela partir para a turnê nacional, que incluirá o Rio de Janeiro em que o disco foi gravado e outras capitais.

Nas próximas paradas de Festejos na Praça espera-se que o poder público dialogue melhor, entre si e com a Igreja, quando necessário: em logradouros vizinhos não deve haver competição entre eventos, nem para que um atrapalhe o outro, nem para que os frequentadores de outro achem o seu mais importante que o um. Assim se constrói a tal diversidade cultural que adoramos arrotar por aí ao salientar as belezas e vantagens de nossa terra.

O show? Crianças e senhoras se divertiram dançando em frente ao palco, Alexandra Nicolas, escoltada por uma superbanda, mesclou músicas de seu disco de estreia a experimentos, coisas que gosta de ouvir e cantar, talvez (certamente?) já testando repertório para seu próximo disco. Destaque para a participação especial da filha Monique, no trava-língua Coco (Paulo César Pinheiro).

Se você, caro leitor, cara leitora, esteve na praça sábado passado (18), não pense em abandonar a turnê da cantora pela capital: os shows só serão iguais entre si no quesito qualidade. Paisagem, repertório e emoção, cada um, cada um. Quem não esteve, fique ligado: em breve divulgaremos a rota da Mironga de Madá, que carrega em si a própria festa.

O Ministério da Boa Música adverte

“Alexandra queria fazer um disco louvando as mulheres brasileiras, trabalhadoras e festeiras, do sertão e do litoral, da roça e do subúrbio, da capital e do interior”, anuncia Paulo Cesar Pinheiro, autor de todas as canções do repertório de Festejos, seu disco de estreia. Foi o que ela fez.

Também é dedicado a elas, as mulheres, Festejos na Praça, show cujo repertório é uma mescla do que gravou com o que vem experimentando, pensando em próximos shows e, obviamente, no próximo disco, que deve lançar ano que vem.

São várias as mulheres personagens das canções que escolhe, a própria Alexandra Nicolas encarnando várias características, “sambando parece uma soberana”, entre o trabalho, o canto – que nela se confundem – e a beleza.

É por isso que o Ministério da Boa Música adverte: Festejos na Praça faz bem para a alma e para o corpo. Mulheres, vistam suas saias rodadas, botem uma flor no cabelo e entrem na roda!

Festejos na Praça inicia temporada musical de Alexandra Nicolas em 2014

[release]

Show gratuito na Praça Gonçalves Dias celebrará conquistas de 2013 e marcará início de turnê por palcos ludovicenses e em outras capitais brasileiras

POR ZEMA RIBEIRO

Vencedora do Prêmio Universidade FM 2013 na categoria Revelação, a cantora Alexandra Nicolas volta a se encontrar com seu público fiel no próximo dia 18 de janeiro (sábado), às 18h, no coreto da Praça Gonçalves Dias, também conhecida como Largo dos Amores, no centro da capital maranhense.

A artista apresentará o show Festejos na Praça, em que celebrará os bons momentos de 2013 – ano em que lançou seu disco de estreia, Festejos, inteiramente dedicado ao repertório de Paulo César Pinheiro – e dará início à temporada 2014, em que já estão previstos shows no Rio de Janeiro e em outras capitais brasileiras.

Festejos foi todo gravado no Rio de Janeiro, com o repertório de Paulinho e direção, arranjos e execução de grandes mestres do choro. No entanto, preferimos começar por aqui, por isso o lançamento do trabalho foi realizado em São Luís. Este ano nos dedicaremos a tornar o disco mais conhecido noutras praças, literalmente”, anuncia a cantora.

Os shows de lançamento a que ela se refere aconteceram no Teatro Arthur Azevedo, em duas apresentações, 7 e 8 de março do ano passado. Para o show do dia 18, Alexandra Nicolas mesclará ao repertório do disco, músicas que gosta de cantar. “Festejos na Praça vai ser vibrante, pra cima. O repertório está bem animado, passeia por samba, xote, forró, coco”, promete. A escolha das músicas é também um experimento: ela já está selecionando material para o próximo disco, que deve lançar em 2015. Mas sobre o assunto a cantora não dá nenhuma pista. “No fundo, eu estou sempre selecionando repertório”, afirma.

Festejos, o disco, não será tocado na íntegra e a noite terá ainda Sereia de Água Doce, de Vanessa da Mata, Xirê, de Roque Ferreira, Aguadeira e Saubára, parcerias de Roque com Paulo César Pinheiro, além de Pipira, de João do Vale (parceria com José Batista), Coco sem Azeite, de Pinduca, e Homem de Saia (Marcelo Reis e Enéas de Castro), sucesso do Trio Nordestino.

Para acompanhá-la em Festejos na Praça, Alexandra Nicolas cercou-se de um competentíssimo time de músicos: Rui Mário (sanfona e direção musical), Marcus Lussaray (violão e viola), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho), Carlos Raqueth (contrabaixo), Fleming Bastos (bateria), Arlindo Carvalho (percussão), Marcos Alves (percussão), Josafá Alves (coro) e Teresa Rachel (coro). “São todos grandes músicos, me dão segurança, me deixam à vontade”, elogia.

A cantora e a banda têm vontade de, depois da estreia no coreto da Gonçalves Dias, apresentar Festejos na Praça em outros logradouros de São Luís. “Tudo vai acontecer no momento certo. Este primeiro show aberto é fruto da vontade de fazer, de comemorar, da parceria da equipe de produção e dos músicos. A depender dos frutos que colhermos, vamos ocupar outras praças”, aposta a cantora.

Sem falsa modéstia, Robertinho Chinês acredita que este show será “o melhor entardecer musical que o Maranhão já viu e ouviu”. A abertura fica por conta do Cantinho do Choro, grupo que é o tradicional ocupante do coreto. Para este sábado (18), o grupo tem a seguinte formação: Osmar do Trombone, Nonato Oliveira (pandeiro), Márcio Guimarães (cavaquinho), Carlos Reis (violão), Osmar Junior (saxofone) e Zezá Alves (flauta).

Ficha técnicaFestejos na Praça tem direção geral de Martin Messier, direção musical de Rui Mário, produção executiva de Raydenisson Sá, projeto gráfico de Raquel Noronha, fotografia de Veruska de Oliveira e Edu Aguiar, assessoria de imprensa de Zema Ribeiro, figurino de Julienne Santos e sonorização, palco e iluminação da Master Áudio e Luz.

Serviço

O quê: show Festejos na Praça.
Quem: Alexandra Nicolas e banda. Abertura: Cantinho do Choro.
Onde: coreto da Praça Gonçalves Dias.
Quando: 18 de janeiro (sábado), às 18h.
Quanto: gratuito e aberto ao público.

Chorografia do Maranhão: Arlindo Carvalho

[O Imparcial, 18 de agosto de 2013]

“Eu nasci pra tocar tambor”. A frase é do engenheiro, professor de artes e percussionista – não necessariamente nessa ordem – Arlindo Carvalho, 13º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão. Ela resume bem o espírito de quem encara a música como um ofício, um prazer.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Filho dos piauienses Caio José de Carvalho e Margarida Pinho de Carvalho, ele de Teresina, ela de Parnaíba, Arlindo José Pinho de Carvalho é o caçula de uma família de cinco irmãos: Michol, Alba, Célia, Caio e ele.

A mais velha, a folclorista Maria Michol, falecida em novembro passado, grande incentivadora do irmão, presenteou-lhe com a primeira bateria, comprada a prestações no Armazém Paraíba.

Arlindo nasceu em 2 de agosto de 1954, na Maternidade Benedito Leite, e desde então mora na mesma casa, na Rua dos Afogados, em frente à Padaria Santa Maria, no Centro da capital maranhense, onde ele recebeu a chororreportagem.

Durante a conversa, o percussionista que já tocou “com todo mundo aqui” lembrou a grande amizade com o compositor Antonio Vieira e revelou a vontade de escrever a biografia do pai, um guarda livros que fundou em São Luís o Centro Caixeiral, a Santa Casa de Misericórdia e a Liga Maranhense de Combate à Tuberculose.

Com o Regional Tira-Teima ele tira onda: “eu sou do original, não do genérico”, afirma sorrindo, para depois revelar a admiração, carinho e respeito que tem por todos. Formado em engenharia e artes, Arlindo nunca estudou música formalmente, mas é certamente um dos instrumentistas que mais aparece em créditos de discos e shows no Maranhão.

Você chegou a atuar na área de engenharia? Eu atuo na área de engenharia. Sou engenheiro do estado. Fui da Cohab, meu primeiro emprego, Companhia de Habitação Popular. Quando a Cohab mudou de nome, depois foi extinta, foi criada outra empresa, e todos nós que somos CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] fomos para lá. De lá eu fui pra onde quis: Secretaria de Trabalho e Urbanismo, Ceprama, até chegar na Secretaria de Cultura, Dona Zelinda [Lima, folclorista] me levou pra lá. Depois fui ser diretor do Teatro Alcione Nazaré, quando ainda era TPG, Praia Grande.

Tua família hoje, Michol, você, Alba, vocês são referências na área de cultura. De onde vem essa relação? Eu sempre vi isso e Michol sempre falou isso: papai era uma pessoa que gostava muito de bumba meu boi. Ele trazia muito bumba meu boi, muito tambor de crioula, ele levava Michol. Michol sempre acompanhou papai. Eu muitas vezes não fui, quando papai morreu eu tinha seis anos. As referências minhas são muito poucas, ela já tinha 10 anos, a memória afetiva de Michol é muito maior do que a minha, eu não lembrava muito.

Michol é quem cumpriu um papel central nessa história? Exato! Michol é quem foi a pessoa central. Eu quando comecei a tocar, Michol é que me deu a primeira bateria. Sempre apoiou. Michol, sim, era a pessoa que estava na linha de frente. Fez Serviço Social, depois fez Mestrado em Cultura Popular. Aí ela desenvolveu um trabalho de cultura popular, embora antes ela tenha trabalhado na Universidade, foi diretora do DAC [Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão]. Quando veio do Mestrado no Rio, ela começou no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e fez as casas de cultura todas.

Além da engenharia, você dá aulas. Depois de engenharia, formei em 1980, logo depois, trabalhando com a professora Nerine [Lobão], na Secretaria de Educação, como diretor da parte de engenharia, me deu vontade de fazer outra coisa. Aí eu fiz artes, educação artística na Universidade, me formei na especialidade de teatro. Fiz concurso para o estado e estou hoje no Liceu [Maranhense], dando aula de Artes. Da engenharia estou mais esperando me aposentar.

Então sempre houve outra profissão pra te sustentar, a música sempre foi uma diversão? Não era uma diversão. Mamãe sempre dizia “você quer ser o que quiser, eu apoio; agora peço pra você estudar uma profissão, ter uma profissão”. Por que isso dá uma base muito grande, você não fica tão refém da fragilidade da arte da música. Eu sempre toquei. Eu me formei, antes de me formar era músico, tocava com [os compositores] Chico Maranhão, Sérgio Habibe, toquei com o Coral [São João], com quem estou até hoje.

Qual era o universo musical da tua casa? Uma música que tem na minha memória, que eu nunca esqueci, é Cigarro de Paia [de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas], de Luiz Gonzaga, que não é dele, mas que ele canta. Essa música eu ouvia. A gente tinha uma coisa de ouvir rádio, o rádio era o grande lance. A gente ouvia o rádio dia de domingo, e eu me lembro de Cigarro de Paia, mas fora disso nenhuma relação de música. Fora o rádio aos domingos, nada.

Ele não era de comprar discos? Que eu me lembre não. Embora eu tenha uma coleção inteira de discos de [cera de] carnaúba. Tá tudo ali. Deve ser dele, eu não lembro, ele morreu eu era muito pequeno. Mas Caio, meu irmão, que tem uma memória de elefante, se lembra. Mas eu fiquei com a coleção de discos dele, de carnaúba. O primeiro disco de Jackson do Pandeiro tá bem ali guardado.

Quando você começou a se interessar por aprender música? Mamãe ganhou de presente no casamento dela uma bandeja de prata que eu quebrei de tanto tocar. Eu fazia como se fosse uma bateria, intuitivamente, sem ter uma noção do que era uma bateria. Mas eu fazia a mão esquerda de um jeito, a mão esquerda do outro, batia nos copos com os lápis que Michol me dava. Eu tinha minha bateria, mas não sabia que aquilo era música e que eu um dia fosse ser músico. Mas era uma coisa muito forte, embora eu nunca tenha visto ninguém tocar. Eu sempre aprendi minhas coisas sozinho.

Você não teve nenhum estudo formal de música? Nenhum! O estudo formal vem ser agora, com meu professor [Chico] Pinheiro que está me ensinando a escrita da percussão. Entrei na Escola de Música por dois anos, depois larguei, por que a professora Olga Mohana [ex-diretora da EMEM, famosa por determinar que instrumento o aluno tocaria] queria que eu tocasse piano e eu queria tocar era percussão.

O percussionista demonstra o “um, dois, três, quatro” que aprendeu com Mascote para a chororreportagem

Mesmo você não tendo o estudo formal de música, teve pessoas que foram referenciais pra ti. Dá pra citar algumas? [O compositor Antonio] Vieira foi uma pessoa que me ensinou a tocar afoxé e reco-reco. E ele me levou para aprender pandeiro com Mascote [o percussionista e violonista Antonio Sales Sodré]. Vieira disse “olha, Mascote, Arlindo é amigo meu e quer aprender a tocar pandeiro”. Mascote perguntou “meu filho, tu tem um pandeiro? É um, dois, três, quatro” [pega um de seus nove pandeiros e demonstra, acelerando rapidamente a batida]. Aí eu vim pra casa, botava o disco na radiola e acompanhava. Errava, acertava, e assim eu fui. Aprendi ouvindo, tentando imitar o disco.

Então você aprendeu instrumentos soltos? Instrumentos soltos. Eu, no meu tempo de Universidade, tinha um grupo chamado Terra e Chão. E a Universidade comprou alguns instrumentos: uma conga, um bongô, um surdo. Eu nunca tinha visto aquilo, mas intuitivo eu fui batendo as congas, o bongô. Tanto que, por exemplo, eu aprendi a tocar bongô pelo som do disco. Depois é que eu fui ver o pessoal tocando bongô, a técnica do bongô. O som que eu tirava, que eu tiro, é igual, mas o movimento não.  Tudo aquilo é intuitivo, eu aprendi intuitivamente.

Quando foi que começou tua convivência com Mestre Vieira? Vieira foi aluno de meu pai no Centro Caixeiral. Não sei quem me convidou, me parece que Adelino [Valente, pianista], morava aqui no [edifício] Caiçara. “Vai no Caiçara, tem um grupo de chorinho”. Aí eu encontrei Vieira, bate papo, já tinha uma atração mútua, Vieira e eu, depois que ele soube que papai foi professor dele, aí foi que ele gostou de mim mesmo. Aí sim, ele começou a pegar o afoxé, o reco reco, “meu filho é assim”. E eu deslanchei. Eu comecei a tocar bateria no [Colégio] Marista, o professor Celso Raposo, até hoje eu digo o nome dele, foi a pessoa que me desemburrou. Tá-tum-tum-tá, tá-tum-tum-tá [imita o som da bateria com a boca]. Bateria você erra, erra, é igual pandeiro, é igual andar de bicicleta: um dia você acerta e não erra mais.

Quem fazia parte do Terra e Chão? Eu, Wellington Reis, Joaquim, um garoto chamado Magno, depois passou o irmão dele, Frias. Aí tem Eliezer, que era flautista, Celso Raposo, nesse tempo não era mais baterista, era tocador de viola.

Isso era que ano? Foi antes do Tira-Teima? O Terra e Chão foi antes, 74, acho. O Tira-Teima é outra história.

E o repertório? Era autoral, a maioria [das músicas] de Wellington. Tinha um lance de um jazz nordestino, Luiz Gonzaga, aqueles grupos de pau e corda, Jackson do Pandeiro, minha referência.

Teus pais e irmãos te impediram de alguma coisa, em algum momento? Não. Pelo contrário. Mamãe sempre me deu muito apoio. Quando eu viajava, que acabava o dinheiro, ela mandava as passagens para eu vir. Sempre me deu muita força, sempre pedia pra eu estudar, pra eu não ficar refém de uma coisa que podia dar certo ou não. Michol me deu congas, bateria, ela tirava à prestação no Armazém Paraíba. Foram grandes incentivadores da minha carreira.

Em que mais Michol te inspira? Leitura. Ela me inspirou a ler, a perceber que você tem que ter uma bagagem literária muito grande, até para você pensar a música. Se você não tem sentimento, a gente não pensa à toa, tem que ter bagagem. Ela me inspirou nesse sentido.

Ser irmão de Michol, extremamente mergulhada no estudo da cultura popular, você um artista do ritmo. Há uma influência muito estreita aí, não é? Eu acredito que sim. Não vejo outra explicação. Até essa coisa intuitiva. Quando eu chegava em casa, que eu era mais garotinho, a primeira vez que eu peguei as congas e transmiti para as congas o tambor de crioula.

Você já viveu de música? Quando eu era estudante, no tempo do Terra e Chão, tinha uma bolsa, que eu dividia com Wellington, era muito boa. Agora viver, de no fim do mês esperar ter algum dinheiro…

De sustentar a casa, a família? Não, não. Eu sempre vivi música, engenharia, trabalhos de arte, que eu desenhava muito bem, pintava, essas coisas. Nunca vivi especificamente de música. Gostaria de ter vivido essa experiência.

De algum modo isso te frustra? Se a gente pensar numa perspectiva de carreira do Arlindo Carvalho percussionista. De jeito nenhum! Eu, por exemplo, quando fui tocar com Chico Maranhão, [a cantora] Diana Pequeno que era o grande nome daquele tempo, ela gostou tanto da gente, que ela foi 16 vezes ao show. Chamou a gente e convidou eu, Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] e Ubiratan [Sousa, compositor e instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ubiratan ficou ainda com ela, Zezé veio embora. Eu lhe pedi perdão, “Diana, você me perdoe”, faltava um semestre pra eu terminar engenharia. Eu não ia abandonar tudo por um sonho. Mas não me arrependo. Eu construí uma carreira aqui, e falei uma vez num seminário desses de música, que sucesso é isso: é você na sua terra desenvolver um projeto. Até hoje eu sou uma pessoa respeitada, tenho o meu lugar garantido dentro da história da música popular maranhense.

Você chegou a tocar com Diana Pequeno? Não. Eu toquei aqui uma vez com Sérgio Ricardo [compositor, autor de trilhas do Cinema Novo, parceiro de Glauber Rocha]. A gente fazia a abertura do show dele aqui no Teatro Arthur Azevedo. Quando acabou o show, eu estava guardando meus instrumentos quando chegou um recado para eu ir falar com ele. “Olha, gostei imensamente de você. Eu quero que você toque comigo pelo menos quatro músicas”, aí eu toquei. Toquei com aquele [grupo] Água de Chile, que gravou com Milton Nascimento. Mas pra mim o mais importante é tocar com o pessoal daqui.

Entre nacionais e locais, sabemos que a lista é grande. Ah, toquei com tudo mundo aqui [gargalhadas dos chororrepórteres]. Não tem nenhum. Faltava Papete, outro dia eu toquei com ele. Antigos, novos, novíssimos e geração nova que é Caio [Carvalho, percussionista, filho de Arlindo], que já toquei com ele, muito.

Além do Terra e Chão de que outros grupos você participou? Terra e Chão, o Tira-Teima original. Eu sou do Tira-Teima original, o genérico não [risos]. Do genérico, Paulo [Trabulsi, cavaquinhista] era. É o único remanescente. Todos eles são excelentes. Eu vou ver o Tira-Teima lá naquele hotel, eu adoro ver Paulo tocar.

Urubu Malandro. Urubu Malandro eu fiz com Vieira. Eu fundei também o Sururu no Galinheiro.

O Surra Curuba? O Surra Curuba foi Vieira quem deu esse nome. Vieira foi uma pessoa importantíssima na minha vida.

A última cena dele em palco foi lá no Clube do Choro Recebe. Foi. Quando eu deixei ele em casa, ele sempre dizia “até o outro se nós vivo for” [sic]. Deixei na casa, sempre esperava ele abrir o portão. O mesmo procedimento. Eu sempre passo agora, a hora que eu passo, eu grito “ê, seu Vieira!”, e vou muito na sepultura dele. Eu sempre digo “seu Vieira, reze por mim”. A pessoa mais digna que eu vivi na minha fase mais adulta. Na fase de criança a minha meta era meu pai. Mamãe sempre falava muito bem, estudei muito a vida dele depois, pretendo lançar um livro sobre a vida dele, o que ele fez aqui dentro [de São Luís].

Dá pra dizer que teu pai foi tua maior inspiração enquanto homem e seu Vieira enquanto músico? Isso. Por que Vieira era uma pessoa que não deixava a gente criar nenhum tipo de soberba. Ele sempre colocava a gente no patamar da humildade. A referência de homem é meu pai, de dignidade, honestidade, de ser uma pessoa batalhadora, respeitadora. Vieira é uma figura que eu vejo como músico. Me inspirei muito nele.

Além de instrumentista, você desenvolve alguma outra habilidade na música? Arranjador, compositor… Não. Se algum dia eu compus alguma coisa eu escondi muito bem [risos]. A gente tem que saber o que a gente faz bem. Eu faço bem tocar tambor. Violão eu comprei, toco, mas nunca serei um bom violonista. Agora, tocar tambor, eu nasci pra isso.

Você não tem disco solo, mas já tocou em inúmeros discos. Os de Rosa [Reis], quando ainda eram vinis. O primeiro cd de Sérgio [Habibe], os discos de Chico Maranhão, Lances de Agora [1978] e Fonte Nova [1980]. Eu gravei com muita gente boa. Outra referência agora é [a cantora] Alexandra Nicolas, gravei uma única faixa [São Luís do Maranhão] do disco dela [Festejos, 2013], que foi gravado no Rio. É um bumba meu boi meio estilizado.

Ela fez aquele disco dentro do universo do choro. Os grandes nomes do choro. Como é que foi pra ti estar ali no meio? Eu toquei muito com Alexandra, o último show que ela fez aqui. Eu fiz uma amizade muito grande com Luciana Rabello [cavaquinhista, esposa de Paulo César Pinheiro, compositor]. Aí Luciana me ligou junto com Alexandra e queria que eu participasse desse disco tocando essa música. Fui para o Rio e tive a honra de ser dirigido no estúdio por Paulo César Pinheiro. Lógico que tinham os músicos que assinavam a direção, mas tudo eles se reportavam a Paulinho. Nada que ele não quisesse sairia no disco.

Ele foi uma espécie de supervisor. Ele foi uma espécie de supervisor geral. Ele dizia “é isso que eu quero”. Eu entrei com uma ideia de uma gravação mais lenta, um boi de sotaque de Pindaré. Ele disse “eu quero mais rápido”, mudou algumas coisas, pra mim foi uma honra. A própria Luciana, [o violonista] Maurício Carrilho também.

Você acompanha os grandes nomes da percussão no Brasil? Eu tenho loucura por Naná [Vasconcelos, percussionista]. Eu nasci no mesmo dia dele. A grande loucura que eu vivi foi quando eu ouvi o disco de Santana, Carlos Santana, guitarrista. A base dele era percussiva.

Qual foi o disco? O primeiro dele, que tem uma joia na capa. Quando eu ouvi aquele disco, Celso Raposo botou lá no Marista, eu pirei. Eu não consegui entender o que era aquilo, mas era aquilo que eu queria. Eu tenho discos e discos de percussionista. Escuto, tenho discos de percussão de todo o mundo. Robertinho Silva, adoro ouvi-lo tocar. Tem um cara da bateria que eu digo que eu incorporo, eu adoro: Edson Machado. Dois caras: Jackson do Pandeiro é minha grande paixão. Esse ano eu quero ir ao memorial, na terra dele, Alagoa Grande [Paraíba].

Na tua opinião, o que é o choro? O que significa este gênero? Se a gente for ver é a primeira música genuinamente brasileira. Carioca. Mas não ficou só no Rio. Hoje em dia a nova geração está voltando a ouvir chorinho, embora as rádios não toquem. Quando eu comecei a ouvir chorinho, a gente não percebe, mas se torna apaixonado, vai comprar discos. Você pode nem saber o que é, mas se torna apaixonado por chorinho. É uma coisa de alma, chorinho tem isso.

Você se considera um chorão? Eu sou um profissional. Profissional é você se dedicar. Eu não sei se sou chorão por que eu gosto de tudo. Eu gosto daquelas músicas do tempo da colônia, lançaram agora quatro discos, as músicas no tempo de D. João VI, eu gosto de ouvir uma coisa africana anterior a choro, lundu, eu escuto tudo. Eu escuto um choro de Anacleto de Medeiros, eu choro. Se ser chorão é ter essa alma, se identificar, você chorar até ouvindo. Mas choro também no lundu, no blues, no jazz.

Você passeia com a mesma desenvoltura por ritmos brasileiros, pelos ritmos de nossa cultura popular, por jazz. Em que praia você se sente mais à vontade? Eu me sinto à vontade em todas. Eu só toco bateria no Quarteto Insensatez. Chorinho, eu adorava tocar com Vieira. Era uma brincadeira! A gente nunca ensaiava. Era um ensaio, um dia antes do show, aqui em casa, a gente passava os tons e o resto era brincadeira. Eu quero é estar onde eu me sinta feliz, dentro da música. É ali que eu quero estar.

Você acha possível falar em um choro genuinamente maranhense? Maranhense, paulista, carioca, qualquer um é choro, é samba. É a mesma coisa do samba genuinamente maranhense. O que é o samba genuinamente maranhense? É a batucada dois por um, dos Fuzileiros [da Fuzarca, imita o som da batucada com a boca]. O grande erro nosso foi a gente tentar imitar as escolas de samba do Rio. Uma vez [o compositor baiano] Riachão estava numa discussão com [a cantora e compositora] Dona Ivone Lara, se o samba nasceu no Rio ou na Bahia. Eu, calado, chamaram Vieira. “Vieira, o samba nasceu aonde? No Rio ou na Bahia?” Ele disse “nem um nem outro, nasceu no Maranhão!” [gargalhadas]. E acabou a discussão.

Alexandra Nicolas cantará em homenagem a Tom Jobim em São Luís

Festejos, seu disco de estreia, foi pré-selecionado para a 24ª. edição do certame. Em São Luís o autor de Corcovado será interpretado ainda por Adriana Calcanhotto, João Bosco, Roberta Sá, Zé Renato e Zélia Duncan

“Vou te contar”, semana que vem, mais precisamente terça-feira (18), é o show do Prêmio da Música Brasileira, o mesmo criado em 1987 com o nome de Prêmio Sharp, hoje patrocinado pela mineradora Vale, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura.

“E cada verso meu será pra te dizer” que o Teatro Arthur Azevedo terá como atrações, sob regência do maestro Jacques Morelenbaum, os seguintes artistas, que farão releituras de obras do “maestro soberano”: Adriana Calcanhotto, João Bosco, Roberta Sá, Zé Renato e Zélia Duncan. A convidada local do evento que terá o ator Murilo Rosa como mestre de cerimônias é a cantora Alexandra Nicolas.

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”: para ela, “as músicas do Tom tem tom e cheiro carioca. É puro amor e por tabela uma reverência à cidade mais linda do mundo”.

“Te ligo afobada e deixo confissões no gravador”. Para Alexandra Nicolas a pré-seleção de Festejos, seu disco de estreia, ao Prêmio da Música Brasileira, foi uma grande surpresa – o disco não ficou entre os finalistas, mas a indicação, entre tantos álbuns ouvidos pelo júri, teve sabor de vitória. “Foi uma surpresa muito grande. Nem acreditei quando recebi o e-mail de minha diretora Luciana Rabello com a notícia com o link da seleção, “olha Festejos aí!”. O coração foi na boca!”, revela.

“Vem ouvir esse segredo escondido num choro canção”: a música que vai cantar, escolhida pela produção do espetáculo, não revela. Indagada se o convite para o show em São Luís teve a ver com a pré-seleção de seu trabalho, ela diz acreditar que sim. “Uma feliz coincidência o disco de uma maranhense selecionado e a turnê passando por aqui. Acho que foi meu prêmio pela pré-seleção”.

“Tristeza não tem fim, felicidade sim”, é o que muita gente vai pensar quando acabar o espetáculo, que tem tudo para ser inesquecível. O show acontece às 21h, exclusivamente para convidados.

Club Cult em ritmo de Festejos

No geral, tenho gostado do que tenho visto no Club Cult: pautas interessantes, competência na abordagem dos temas, boa edição, um capricho que diferencia o caçula dos programas independentes da tevê maranhense de seus “pares” de horários comprados.

Em se mantendo o nível, desejo vida longa ao programa apresentado pela simpática e talentosa Letycia Oliveira.

Abaixo, matéria que a trupe fez sobre Festejos, par de shows de lançamento do disco homônimo, estreia de Alexandra Nicolas no mercado fonográfico. E que estreia!

Quem perdeu o programa na tevê [Guará, aos sábados, às 13h30min], pode revê-lo a seguir. Quem perdeu o show vai ter que se ligar nas datas da turnê nacional que a cantora anuncia e inicia em breve.

Festejos, o início de um duradouro voo

[Sobre Festejos, de Alexandra Nicolas, 7 e 8 de março de 2013, Teatro Arthur Azevedo]

A artista esbanjou talento, simpatia e sinceridade em Festejos

Na condição de assessor de comunicação, talvez o conflito de interesses pudesse me impedir, mas não podia deixar, ainda que tardiamente, de dizer algumas palavrinhas sobre Festejos, o par de shows com que a cantora Alexandra Nicolas lançou seu disco homônimo em São Luís, 7 e 8 de março passados.

Acompanhar o processo de dentro deixa-nos em posição privilegiada, mas não quero aqui simplesmente dizer as músicas que ela cantou e/ou seus autores, as mesmas do maravilhoso disco, que gravou no Rio de Janeiro, acompanhada de grandes mestres do choro brasileiro, interpretando 13 obras assinadas por Paulo César Pinheiro, sozinho ou em parceria – foi dica dele, aliás, o “gosto de quero mais” que ela deixou a quem assistiu a um ou aos dois dias de espetáculo.

Alexandra Nicolas protagonizou um espetáculo musical de alto nível, seja por sua própria qualidade artística, indiscutível – é uma de nossas grandes cantoras, embora estreie em disco apenas agora, após 20 anos de carreira, e daí? –, seja pela qualidade do repertório escolhido, seja pelos exímios instrumentistas escolhidos, seja por outros aspectos que contam: sonorização, cenário, luz. Tudo estava “na medida” para a plenitude da artista no palco. De emocionar!

Nada lhe faltava, nada lhe sobrava, embora a artista não seja um robô de gestos meramente ensaiados. Contradigo-me: sobrava-lhe sinceridade, aquela era a sua verdade, como bem disse em diversas entrevistas antes dos shows, por vezes justificando sua demora em estrear no mercado fonográfico.

Em arte não há isso de cedo ou tarde: podem existir momentos certos e errados. Alexandra Nicolas estreou em boa hora, presenteando o público sempre ávido de boa música com um repertório que valoriza as mulheres brasileiras, e em que, qual João do Vale, outro gênio de nossa composição, também canta sua terra.

Alexandra Nicolas veio parir Festejos em sua terra natal, mas feito ave cantadeira voará para sacudir a poeira de sua saia, noutros terreiros em que reinará soberana. Por que seu disco, repertório, talento e carreira terão vida longa, a começar pela turnê anunciada para breve, por diversas capitais brasileiras, terminando no Rio de Janeiro.

E isso é só o começo da festa, abram alas, como bem recomendou Paulinho, do alto de sua experiência, sabedoria e intimidade de compositor-padrinho.

A menina que conquistou o coração dos mestres do choro

[Release para Festejos, estreia em disco de Alexandra Nicolas]

Festejar é o destino de Alexandra Nicolas e de seus ouvintes

Maranhense estreia em disco com repertório de Paulo César Pinheiro

Festejos sai pela Acari, maior gravadora especializada em choro do Brasil

Márcio Vasconcelos

TEXTO: ZEMA RIBEIRO

“Eu cheguei sem ninguém saber que eu vinha”. Desde antes de nascer Alexandra Nicolas já era uma surpresa. Filha de mãe solteira, foi cúmplice da genitora, que escondeu a gravidez enquanto pode. O pai, músico e boêmio, ela só viria a conhecer aos cinco anos de idade. Foi criada por três mulheres – a mãe, a tia e a avó.

Sua mãe gostava de cantar e foi em uma tertúlia que seus pais se conheceram. Desde cedo a menina pegou gosto pela coisa. “Eu cantava desde criancinha. E eu não podia sair das rodas, que eles me chamavam: “agora é a vez da menina!”. E eu me lembro, muito nova, de cantar músicas de Nelson Gonçalves, Silvio Cesar, Elizete Cardoso, Clara Nunes, Rita Lee, Novos Baianos, Genival Lacerda, Elba Ramalho”, cita entre gostos passageiros e referências que permanecem até hoje.

Acreditando nos sonhos, a adolescente Alexandra chegou a largar o curso de Pedagogia e foi ao Rio de Janeiro estudar canto, dança e teatro. Sua mãe hospedou-a num pensionato, à época inviabilizando a carreira: “Todos os lugares em que eu podia cantar eram à noite e eu tinha que voltar para casa antes da meia noite”, lembra a cinderela de então.

Do pensionato para a música? Nem pensar! Alexandra só pode mudar-se para um apartamento quando passou no vestibular para Fonoaudiologia, profissão em que se formou e exerceu por pouco mais de 10 anos – a música sempre em paralelo, nunca de menor importância, a vida entre o consultório e os palcos. Após coordenar o curso de fonoaudiologia em uma faculdade particular em São Luís, ela deixou a profissão. Da música, afastou-se apenas para dedicar-se às primeiras infâncias de seu casal de filhos, hoje com sete e seis anos. Uma parada apenas temporária, embora ela não viva, ainda hoje, exclusivamente de música.

“Tudo o que fiz até hoje foi por necessidade, por amor, por que eu não consigo fazer nada que eu não pense em fazer bem feito”, diz, talvez explicando a demora em gravar o primeiro disco, Festejos. Mas nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Eu já gostava muito do Paulo César Pinheiro, principalmente suas parcerias com Mauro Duarte, Sivuca, João Nogueira. Vinha de alguns shows por aqui e estava com a ideia de fazer um em homenagem a Clara Nunes. Numa viagem ao Rio, meu amigo Celson Mendes mandou um e-mail para Luciana Rabello. Segundo ele, ela poderia me dar algumas dicas. De início não acreditei muito que ela fosse responder. Ela respondeu e me convidou para ver e ouvir o bandão da Escola Portátil. Algo incrível! Todos os alunos da Escola Portátil, 40 pandeiros, 15 cavaquinhos, 10 flautas etc., juntas, sob uma árvore, tocando ao mesmo tempo com [o baterista] Bolão de maestro”. Terminada a apresentação, Luciana levou-a para tomar um chopp na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Era a rua em que ela tinha morado, e Amélia Rabello, irmã de Luciana, morava no mesmo apartamento que Alexandra ocupou em seus dias e noites cariocas. Sem saber, a anfitriã acabou escolhendo ainda a mesma mesa em que a maranhense costumava sentar vindo da faculdade.

Nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Então você quer homenagear a Clara Nunes? Mas você gosta da cantora ou do compositor?”, indagou Luciana Rabello ao notar que nove das 16 músicas do roteiro eram de Paulo César Pinheiro. “Eu tenho certeza que Clara Nunes ia adorar este show se você pudesse transcender isso. Você precisa se mostrar como artista, sair de detrás dela. Eu recebo 80 e-mails por dia de gente querendo homenagear Clara”, aconselhou-a. “Paulinho [forma carinhosa como se referem ao compositor maiúsculo] tem mais de 2.000 canções. Se quiser eu te dou tudo inédito”, ofereceu.

Luciana Rabello acabou por descobrir a voz autoral de Alexandra Nicolas, mesmo esta não sendo compositora, e assumiu a função de diretora musical de Festejos. Mais que isso, se tornou amiga íntima, uma irmã querida e escolhida. “Ela foi uma bênção de Deus na minha vida”, diz a maranhense.

Tudo começou em Senhora das Candeias, show que ela apresentou duas vezes no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, e que batiza o projeto patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, que permitiu a feitura de Festejos, que sai pela Acari Records, a maior gravadora de choro no Brasil. Inicialmente ela recebeu uma fita com 20 composições de Paulo César Pinheiro: era o repertório do espetáculo. Para o disco, a amostra aumentou para quase 60 músicas, das quais 13 foram escolhidas, entre inéditas – a maioria – e regravações.

“Eu quero essas mulheres da festa!”, escolheu. “Todas as que Paulinho canta, elas são fascinantes, lindas e sensuais. É um amor puro! Elas possuem uma beleza que ninguém consegue ver. Quase ninguém consegue ver a beleza de uma lavadeira. Aí eu vi a verdade. Não era fantasia. Era palpável”. Alexandra começava a eleger o repertório de seu disco. Entre idas e vindas foram quase dois anos só na seleção do repertório, mergulhada de cabeça, corpo e alma.

“Paulo César Pinheiro é a pessoa mais leve que eu já vi na vida. Não sei de onde tira tanta simplicidade. Nem parece que existe, me deu o maior presente. Ele me deu a bênção e disse: “se você tiver que gravar um disco, quero que você grave aqui [no Rio de Janeiro]. Foi a partir daí que eu descobri verdadeiramente meu caminho”.

A partir de então, muitas idas e vindas na ponte aérea São Luís – Rio de Janeiro. Com ela festejam Adelson Viana (sanfona), Celsinho Silva (percussão), Dirceu Leite (flauta, picolo), Durval Pereira (percussão), João Lyra (arranjos, violão, viola), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho e produção musical), Magno Júlio (percussão), Marcus Tadeu (percussão), Maurício Carrilho (arranjos, violão sete cordas), Paulino Dias (percussão), Pedro Amorim (bandolim) e Zé Leal (percussão).

Ao final de um processo de aprendizado, amadurecimento, risos, lágrimas e muita emoção, o próprio Paulo César Pinheiro definiu a ordem das músicas no disco e, acima de qualquer suspeita, escreveu sua apresentação: “acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou”, para ficarmos com apenas um trecho.

Embalada pelo capricho do design de Raquel Noronha, a bolachinha é ilustrada por fotos de Márcio Vasconcelos, que captam Alexandra Nicolas, risonha e faceira, no sobrado em que nasceu o dramaturgo maranhense Arthur Azevedo, em 1855, uma segunda coincidência literária – a primeira é que Paulo César Pinheiro, apesar de nunca ter estado em São Luís do Maranhão, conhece-a bem a partir da obra de Josué Montello, e escreveu uma música que leva o nome da capital maranhense, faixa que fecha o disco.

Alexandra Nicolas sonha: “Eu quero fazer o Brasil cantar”. Nada na vida dela acontece por acaso.

FAIXA A FAIXAMárcio Vasconcelos. Festejos. Capa. Reprodução

1. Mironga (Paulo César Pinheiro): “É uma música que abrange todas elas [as mulheres], uma espécie de resumo
do disco. São os homens tocando tambor para as mulheres dançarem e festejarem. É uma música completamente
masculina, mas eu consigo ver a mulher nela, as mulheres que dançam ao som do tambor. Ele descreve, na verdade, a maneira de tocar, como se aprende a tocar um tambor. No final ele diz que tem mironga aí, ou seja, tem algo muito especial na maneira de tocar. “Tem quem bate e faz zoeira/ tem quem toca como quê/ quem comprou tambor na feira/ esse não sabe bater./ Foi no couro e na madeira/ que me disse um alabê/ tocador de capoeira/ não é de maculelê”. Então ele começa a fazer uma série de pontuações no ato de tocar tambor e as mulheres, como ele diz no texto que me apresenta, estão mirongando ao som do tambor. Mironga é uma festa!”

2. Balacoxê de Iaiá (Paulo César Pinheiro): “Na hora em que eu li o título eu fiquei imaginando um bumbum enorme de Iaiá. Na verdade, Balacoxê veio por essa sensualidade, de cortar cana, da mulher, e eu fiquei fascinada, por que a maneira como Paulo cantou essa canção, o que eu ouvi, é como se estivesse na fala dele, essa mulher, Iaiá, que corta cana, que “bota a roda pra rodar/ eu só vejo esse desenho na cintura de Iaiá”. Foi uma canção em que eu me vi. Me perguntei, meu Deus, será que eu vou cantá-la eu vendo Iaiá ou eu sendo Iaiá? Eu acho que de todas que eu cantei, eu era a Iaiá. Tava em mim, passava por mim, essa história de “como eu vejo, com o punho nas cadeiras/ Iaiá fazer”. Essa descrição pra mim, essa mulher, essa Iaiá, ela é incrível”.

3. Passista (Paulo César Pinheiro): “Foi o primeiro refrão que me chamou muito a atenção: “seu povo já foi do cativeiro/ mas hoje que o samba é uma nobreza/ é ela que reina no terreiro/ do samba outra vez virou princesa”. Achei muito forte ele ter trazido como o povo dela sofreu e como hoje ela é uma rainha, comanda o samba na escola. Isso me fascinou, saber que tem muita gente que vai pra vê-la. O samba trouxe essa majestade pra ela”.

4. Coqueiro novo (Paulo César Pinheiro): “Foi a praia daqui. Uma homenagem à minha praia, à praia em que eu cresci, em que eu brinquei na areia e, lógico, às morenas do Cabedelo, na Paraíba, às quais ele se refere, que fazem acessórios com a palha do coqueiro, vivem disso. São mulheres sofridas, mas quando escuto, eu me vejo na praia, sombra, vento nos cabelos e água fresca. Uma valorização do trabalho dessas mulheres, transformando a palha em objetos, bolsas, cintos, acessórios femininos”.

5. Presente de Iemanjá (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Quando Luciana me mostrou ela falou de uma pessoa que tinha que dirigir os arranjos do disco, chamada João Lyra [que assina parte dos arranjos, violões e viola do disco]. A primeira vez que o ouvi cantando, fiquei fascinada por ele, com a alegria que ele põe na canção. E eu ouvi Presente de Iemanjá com ele cantando e me remete à fartura. Quando fala de “jogar a rede pro céu/ e a rede cai no mar/ o que cai na rede é peixe/ é presente de Iemanjá”, isso me vem como abundância, as mulheres tendo o que comer, os homens saem para pescar e trazem o pão de cada dia, o peixe para fazer o almoço. Eu me vejo numa vila de pescadores. Ele trouxe um arranjo fantástico com Toré de índio pra canção, ficou muito forte. Tem o canto pra sereia, por trás de tudo isso, que é muito marcante. Eu não cantei orixás no disco, mas cantei pra Iemanjá, que pra mim sempre foi uma mulher encantadora, embora eu de início não soubesse bem o que era um orixá. Eu sabia que ela vivia no mar e eu sempre lembro da Iemanjá da Ponta D’Areia toda vez que eu canto”.

6. Lavadeira (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Paulinho me mostrou essa canção, eu já fascinada pelas mulheres, e ele não me contou que ia me mostrar. Eu tava na cozinha da casa dele, comendo, e ele colocando músicas, que ele adora. Quando eu ouvi isso na cozinha eu saí correndo pra sala, “Paulinho, o que é isso?”, e ele já com o sorrisão aberto, por que sabia que eu ia me interessar pela música. Pedi pra ele botar de novo, ele botou. Eu ouvi na voz da Andréia, que é uma cantora que gravou a música. A Luciana perguntou, “mas Alexandra vai gravar? Já gravaram!” E ele disse “não importa. A Andréia sumiu. É ela [Alexandra] quem vai fazer essa música aparecer”. É a canção mais cinematográfica do disco, descreve tudo o que uma lavadeira faz. É de uma sensualidade, de uma sensibilidade tão profunda. A lavadeira passa a ser uma deusa em vez de uma simples lavadeira. Luciana faz um cavaquinho que dói na alma, Mauricio Carrilho fez o arranjo perfeito e ainda criou um canto para a lavadeira: “Lá lá lá ia lá ia/ Madalena foi lavar” e vai embora”.

7. Roda das sete saias (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro): “Eu ouvi cantada por Roque Ferreira, em uma das minhas viagens ao Rio, me apaixonei pela festa. Ela tem oito minutos, é um samba de roda fantástico. Fala das festas populares, tudo o que é cantado nas rodas das festas. Imagina um festejo acontecendo num terreiro, numa casa de festa… os grupos se formam a partir das afinidades: uma roda de samba aqui, uma caixeira tocando ali. Versos que surgem dessas afinidades da festa compondo um samba de roda com a música de Roque Ferreira, a letra de Paulo César Pinheiro e o arranjo de Maurício Carrilho. Eu costumo dizer que não sinto os oito minutos. Termino de cantar e pergunto: “vixe, já foi?” Ela foi uma música muito eleita aqui na minha terra. Fiz uma sessão com os compositores para ouvirmos o disco e muita gente gostou dela, por que ela é forte, ela lembra a gente, ela é muito Maranhão, é nossa…”

8. Coco da canoa (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Eu sou apaixonada por coco. Eu fui atrás de outro coco. Eu já tinha um coco no disco, acho um ritmo que mexe muito comigo. Quando eu era pequena, eu ia para a Rua Grande, e tinha uma cega que cantava um coco com um chocalhinho. Eu cresci com o coco muito presente na minha vida, mamãe sempre cantava em casa. Eu busquei mais um coco e como eu já tava encantada com o trabalho do João Lyra, com a alegria que ele emprega nas coisas, foi uma das canções que eu trouxe. Ela fala de um flerte na praia, de uma mulher faceira que não sabemos bem se é uma mulher ou uma sereia encantada. Gostei muito desse coco meio embolado, gostoso demais”.

9. Coco (Paulo César Pinheiro): “O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… e lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

10. Bisavó Madalena (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Foi outra pescaria. Paulinho já atrás dos seus tesouros guardados e ele tentava falar para mim como era a canção. Mas como não vou me apaixonar por uma música que fala da bisavó de Wilson das Neves? Que rodou o Brasil inteiro, que era dançarina de primeira e rodou o país dançando todos os ritmos e era boa de gogó, de samba, de bumba meu boi… quando ouvi fiquei encantada pela música. Wilson já gravou e eu não resisti, por que ela dá um resumo dessa matriarca que recebe esse festejo. E eu pretendo abrir o show com ela”.

11. Soberana (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Wilson das Neves novamente. Essa música eu me lembro de Paulinho, ele não só me mostrou, mas ele dançou, me mostrando como eu devia fazer no palco com minha saia. Foi a maneira mais poética, mais romântica, mais soberana que eu vi um homem falar de uma mulher. Eu acho que qualquer mulher no mundo dava qualquer coisa para ser essa mucama à qual ele se referiu. Ela “nunca foi mucama de qualquer laia”. É a música que mais mexe comigo no disco. É a minha música! Eu sou apaixonada… As pessoas perguntam “qual é a música de trabalho?” Eu só digo Soberana. Eu sei que existe essa mulher, até por que eu sei de muitas mulheres que são soberanas. Mas você chega a duvidar, de tão incrível que ela é, você se pergunta, “é tudo isso?”, por que sempre escapa algo, ela é incrível”.

12. Ava Canindé (Paulo César Pinheiro): “Foi um Divino Espírito Santo que foi trazido para mim. Luciana mandou propositalmente, pois sabia que eu fui imperatriz na infância [em festejos do Divino, em Pinheiro, pagando promessas de sua mãe]. Eu sempre falo que vejo as mulheres indo para as festas do divino, as caixeiras, as arrumadoras da bandeira, e ela fala da simplicidade e da organização dessa festa. O dia a dia, como as pessoas se vestem, como chegam, descreve a cidade, a igrejinha. E João Lyra trouxe o que há de mais surpresa no disco, o arranjo dessa música. Para quase todos os músicos ela é a mais forte. João não conhecia a batida do Divino Espírito Santo, e no entanto ele trouxe sopros, viola. Ficou muito linda, simples, nostálgica. Para eu conseguir cantá-la do jeito que eu cantei eu me imaginava com João e Paulinho, em um morro bem alto, olhando lá de cima para esta cidade e cantando”.

13. São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro): “A maneira como Paulo descreve o Maranhão, a impressão que a gente tem é a de que ele estava aqui, e de uma maneira também muito cinematográfica. Você consegue ver o boi de uma forma tão simples. Cantar minha terra foi uma honra, com a letra dele, então. E ele não conhece. Conhece através de Josué Montello e é capaz de conhecer até mais que eu, por que Paulinho quando vai em um assunto, ele vai fundo, vai além, muito além… Pra mim foi um presente, ele interferiu nesse arranjo, ele estava presente nessa gravação, acompanhou de perto [o saudoso parceiro João Nogueira era, até então, o último artista visitado por Paulo César Pinheiro em estúdio durante a gravação de um disco]. E nada como o nosso mestre Arlindo Carvalho para dirigir e dar esse toque de Boi de Pindaré. Ela fecha o disco, fecha com minha terra, fecha onde nasci, fecha com São Luís”.