Ferreira Gullar: um vazio impreenchível

O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress
O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress

 

“Um vento velho e urgente/ sobrevoa a tarde que embala/ o rio Bacanga em São Luís do Maranhão/ um vento, um pedaço dele, um susto, um sopro, um barulho,/ passa sobre mim e desarruma os cabelos/ que penteei em casa hoje de manhã cedo/ em frente ao espelho, testemunha do meu zelo inútil/ Enquanto isso, na Academia Maranhense de Letras/ velam o que sobrou do poeta Ferreira Gullar”.

Com ecos de Uma fotografia aérea, o poeta Celso Borges escreveu o poema acima em 2001. Gullar post mortem foi publicado em seu livro-disco Belle Epoque, lançado em 2010 no Cine Praia Grande, com show do autor, acompanhado da banda Restos Inúteis. Ao fim do poema, uma vela acesa no palco, a voz de Gullar ecoava, recitando trechos de Notícia da morte de Alberto Silva, outro poema de Dentro da noite veloz: “Eis aqui o morto/ chegado a bom porto/ Eis aqui o morto/ como um rei deposto/ (…)/ De barba feita, cabelo penteado/ jamais esteve tão bem arrumado/ (…)/ Enfim este é o morto/ agora homem completo:/ só carne e esqueleto/ Enfim este é o morto/ totalmente presente:/ unha, cabelo, dente”. A gravação está no sublime Antologia poética, em que Gullar é acompanhado por Nivaldo Ornelas e Egberto Gismonti.

Naquela noite de autógrafos, o próprio Celso Borges contou a ocasião em que escreveu o poema: “Novembro de 2001. Este é o cenário: estou sentado diante da televisão, ligo a TV e olho de frente o poeta Ferreira Gullar, abrindo o programa político do Partido da Frente Liberal [o então PFL, hoje Democratas, tinha à época a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney – hoje no PMDB – como pré-candidata à presidência da República]. Ele dizia: “ela pertence a uma nova geração de políticos, não só por ser mulher, então ela está se colocando diante do país como uma mulher que tem a capacidade de administrar a coisa pública, mas ela é de uma outra geração, de uma outra experiência de vida, de uma outra experiência social, e é o que a gente percebe, que é uma geração que não vem à procura de usar o Estado em seu benefício, que é uma geração com o sentido social de interesse público”. Levanto, desligo a televisão e escrevo este poema”, contou.

O poema de Celso Borges revela, antes de tudo, sua admiração por Ferreira Gullar (10/9/1930-4/12/2016), cujo Poema sujo [1975] acabou por empurrá-lo para a poesia. Ex-militante do PCB, o hoje imortal da Academia Brasileira de Letras acabou dando, nos últimos anos de vida, uma guinada à direita. Prova disso foi a coluna dominical que manteve desde 2004 na Folha de S. Paulo, desde sempre uma trincheira anti-Dilma (de quem foi contra o impeachment), anti-Lula, anti-PT, anti-esquerda. Particularmente incluí-o no rol de artistas de que era preciso separar vida e obra para não cair no ódio burro e cego das “pessoas de bem” que boicotaram Aquarius [filme de Kléber Mendonça Filho] por recomendação de outro jornalista de direita.

Resumindo: independentemente de suas opções ideológicas, Gullar fez grande poesia até falecer, hoje (4), no Rio de Janeiro, onde vivia desde os anos 1950. Foi merecedor de todos os prêmios e honrarias com que foi laureado em vida – e com que certamente continuará sendo a partir de agora. Chamá-lo simplesmente poeta é insuficiente, tamanha foi sua importância no campo das artes no Brasil: além de poeta, foi crítico de arte, ensaísta, cronista, dramaturgo, tradutor, artista visual, letrista de música popular. É dele a voz que narra Cabra marcado pra morrer [1984], filme de Eduardo Coutinho batizado por poema seu. A película foi perseguida pela ditadura militar – como seu locutor – e só foi finalizada 21 anos após seu início.

Na música, fundamental para tornar sua obra mais popular, foi parceiro de Heitor Villa-Lobos [O trenzinho do caipira, trecho do Poema sujo cuja Bachianas brasileiras nº. 2 ditava o ritmo da leitura], Milton Nascimento [Meu veneno, Bela, bela], Fagner [Traduzir-se, Contigo, Me leve (Cantiga para não morrer)], Caetano Veloso [Onde andarás?], Paulinho da Viola [Solução de vida (Molejo dialético)] e Moacyr Luz [Poema obsceno], entre outros. Seu maior êxito é Borbulhas de amor (Tenho um coração), sua versão para Borbujas de amor, do dominicano Juan Luis Guerra.

Recentemente reli o Poema sujo, por ocasião do lançamento (na última quarta-feira, 30/11) de Visões de um Poema sujo [2016], a última grande homenagem a Gullar em vida: uma releitura fotográfica de Márcio Vasconcelos para o livro que muitos consideram a obra maior do poeta – em janeiro o fotógrafo inaugura exposição em São Paulo. Encontrei um trecho em que ele cita a Rádio Timbira, onde atualmente, com a queridamiga Gisa Franco, produzo e apresento o Balaio Cultural – Márcio e Celso Borges foram os entrevistados do programa na última terça-feira (29/11).

O trecho diz: “(Se tivesse me casado com Maria de Lourdes,/ meus filhos seriam dourados uns, outros/ morenos de olhos verdes/ e eu terminaria deputado e membro/ da Academia Maranhense de Letras;/ se tivesse me casado com Marília,/ teria me suicidado na discoteca da Rádio Timbira)”. Celso Borges imediatamente lembrou que Gullar havia sido locutor da rádio, antes de ir embora de São Luís, de onde foi demitido por ter se negado a ler um editorial contra determinada greve.

Era atualmente o nome mais importante da poesia de língua portuguesa no mundo. Sua morte deixa um vazio impreenchível. “Tu de nada suspeitas/ e te preparas para mais um dia no mundo./ Pode ser que de golpe/ ao abrires a janela para a esplêndida manhã/ te invada o temor:/ “um dia não mais estarei presente à festa da vida”./ Mas que pode a morte em face do céu azul?/ do escândalo do verão?”, escreveu em Morrer no Rio de Janeiro [2001].

“Mas sobretudo meu/ corpo/ nordestino/ mais que isso/ maranhense/ mais que isso/ sanluisense/ mais que isso/ ferreirense/ newtoniense/ alzirense/ meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres/ ao lado de uma padaria/ sob o signo de Virgo/ sob as balas do 24º. BC/ na revolução de 30/ e que desde então segue pulsando como um relógio/ num tic tac que não se ouve/ (senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)”, escreveu durante o exílio em Buenos Aires.

Antes, no mesmo Poema sujo: “Corpo meu corpo corpo/ que tem um nariz assim uma boca/ dois olhos/ e um certo jeito de sorrir/ de falar/ que minha mãe identifica como sendo de seu filho/ que meu filho identifica/ como sendo de seu pai/ corpo que se para de funcionar provoca/ um grave acontecimento na família:/ sem ele não há José Ribamar Ferreira/ não há Ferreira Gullar/ e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta/ estarão esquecidas para sempre”.

Vivo para sempre em sua obra monumental, Ferreira Gullar está morto – o Governo do Maranhão publicou nota de pesar e decretou luto oficial – e infelizmente não é apenas mais um poema.

Ouça Ferreira Gullar em Notícia da morte de Alberto da Silva:

Poema sujo: vivo, atual, visual

Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos
Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos

 

Quando Diógenes Moura desceu do táxi, na Praia Grande, de madrugada, deparou-se com o Poema sujo diante dos olhos, vivíssimo: “vi aquele homem agachado, despido, ali, sozinho, tornando públicas as suas entranhas antes de os dois bêbados me abordarem descendo ladeira abaixo e pedindo dinheiro porque precisavam de um pouco mais de loucura”, escreve em Carta número um para uma coisa de fato, seu texto em Visões de um Poema sujo [Vento Leste, 2016], uma carta a seu autor, Márcio Vasconcelos, no livro que ele lança hoje (30) – o terceiro em 2016 –, às 19h30, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro).

“O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ e a cidade está no homem/ que está em outra cidade”, anota o então exilado Ferreira Gullar no Poema sujo, escrito entre maio e outubro de 1975 em Buenos Aires, Argentina.

Cada homem ou mulher lê e percebe a cidade de modo diferente. Diógenes Moura, que assina a curadoria e concepção editorial de Visões de um Poema sujo, percebeu, após Márcio Vasconcelos vencer o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia em 2014, que ele já fotografava o Poema sujo há pelo menos 10 anos, expondo, como Gullar fez em versos, com o mesmo talento e olhar sensível, a beleza e a podridão – e nesta, a beleza – da cidade, do itinerário percorrido pelo poeta naquela que é considerada por muitos sua obra-prima.

A perspectiva de Márcio Vasconcelos é interessante: a algumas fotos realizadas antes de vingar a ideia de uma releitura fotográfica do Poema sujo, ele passou a imaginar-se exilado em Buenos Aires para fotografar a obra de Gullar. Este resenhista confessa: quando ouviu falar em Visões de um Poema sujo, antes de o livro existir, pensou tratar-se de uma espécie de Poema sujo ilustrado. Ainda bem que estava errado.

Não espere o leitor, portanto, uma tradução imagética da obra em versos. Quem leu o Poema sujo ora verá fotografias que remetem a determinados trechos do poema, ora se perguntará, talvez, por que determinada fotografia foi incluída no livro. A única constante no livro de Márcio Vasconcelos é a beleza, das imagens, cada uma por si e, obviamente, do conjunto – como o livro de Gullar, que teve trechos musicados e tem uns mais lembrados que outros, mas que é bonito por inteiro, mesmo quando chafurda no horrendo.

O poeta maranhense radicado no Rio de Janeiro prossegue: “mas variados são os modos/ como uma coisa/ está em outra coisa:/ o homem, por exemplo, não está na cidade/ como uma árvore está/ em qualquer outra/ nem como uma árvore/ está em qualquer uma de suas folhas/ (mesmo rolando longe dela)/ O homem não está na cidade/ como uma árvore está num livro/ quando um vento ali a folheia”.

Márcio Vasconcelos fotografa o livro-poema de Ferreira Gullar, mas uma chave de leitura errada, ou melhor, uma chave de olhar errado, é imaginar algum tipo de fidelidade entre as imagens e o poema, como minha crença inicial.

Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução
Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução

Visões de um Poema sujo é uma contribuição importante e, por que não dizer, poética, ao reconhecimento da força e atualidade do Poema sujo, recém-relançado pela Companhia das Letras [2016, 112 p.], “livro que é um dos mais importantes da língua portuguesa da segunda metade do século XX”, conforme atesta o poeta e jornalista Celso Borges em Outra cidade e a mesma, o outro texto do livro de Márcio Vasconcelos.

“Há um relâmpago nos versos gullarianos, mesmo quando ele fala do lado obscuro da cidade, sua lama e podridão, seus cheiros e mangues. O fotógrafo procura e desnuda essa sujeira luminosa”, prossegue Celso Borges, para arrematar: “Algo permanece eterno, independentemente do tempo. Este o milagre: reencontrá-la e reinventá-la”.

Márcio Vasconcelos confessa uma de suas intenções ao realizar Visões de um Poema sujo – título também da exposição com que ganhou o Marc Ferrez: chamar novamente as atenções para o poema de Gullar, deixando livres os sentidos dos leitores para suas próprias interpretações.

É Gullar quem arremata: “cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas”.

Voduns de luz

Quando Cesar Teixeira lançou, em 2004, seu primeiro (e até aqui único) disco, Shopping Brazil, anotou em O lixo é nosso!, o texto de apresentação: “é pouco espaço pra tanto vodum”. Referia-se a mestres que reverencia, de um modo ou de outro, ali presentes e homenageados. O autor das fotos de capa, contracapa e encarte era Márcio Vasconcelos.

Pai Euclides em imagem do livro Zeladores de voduns do Benin ao Maranhão. Foto: Márcio Vasconcelos

Quando Pai Euclides faleceu busquei uma foto para ilustrar seu obituário. E não poderia ter encontrado uma melhor. O eterno líder espiritual da Casa Fanti-Ashanti sentado diante de um altar, em pose que deixa transparecer sabedoria, experiência, seriedade. “O hábito não faz o monge”, diz o dito popular, mas as vestes aproximam-no de um deus. Novamente o fotógrafo era Márcio Vasconcelos.

Agaxosa - Gloku Kosu Naeton (Ouidah - Benin), a fotografia usada na capa do livro. Foto: Márcio Vasconcelos
Agaxosa – Gloku Kosu Naeton (Ouidah – Benin), a fotografia usada na capa do livro. Foto: Márcio Vasconcelos

O retrato de pai Euclides e tantos outros Zeladores de voduns do Benin ao Maranhão [Pitomba!, 2016, 124 p.] integra o conjunto de fotografias de Vasconcelos reunido no livro, em que percorre casas de culto afro no Maranhão e no Benin – veja outras imagens no site do fotógrafo.

Dando valiosa contribuição para a preservação da memória dos voduns, o próprio Márcio Vasconcelos acaba se configurando também um zelador, dado o capricho com que exerce seu ofício e com que reúne o belo e o sagrado, para além do exótico a que são costumeiramente reduzidas estas manifestações que aliam religiosidade e cultura popular, campos em que tem vasta experiência e diversos prêmios nacionais – o próprio livro Zeladores de voduns foi contemplado no 1º. Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura (MinC), o que viabilizou sua publicação.

Mãe Elzita (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos
Mãe Elzita (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos

Os textos que precedem as fotografias, do editor Bruno Azevêdo e dos antropólogos Sergio Ferreti e Hippolyte Brice Sogbossi, facilitam a compreensão, sobretudo para não iniciados, das configurações que aproximam Benin e Maranhão e tornaram nosso estado um dos principais centros das religiões de matriz africana no Brasil.

“O catolicismo está muito presente nesta religião uma vez que os escravos eram obrigados a tornar-se católicos e que o catolicismo era a religião oficial do país até fins do século XIX e oficiosa em grande parte do século XX”, anota Ferreti em A terra dos voduns, um dos três textos que abrem o volume. Com Sogbossi, beninense radicado no Brasil, Vasconcelos percorreu, ao longo de quase um mês, em 2009, diversas cidades do Benin. Além de São Luís, outras cidades maranhenses também foram visitadas pelo fotógrafo, fechando o conjunto. Nas fotografias, sobretudo as do lado de cá, é possível perceber este sincretismo, com imagens de santos da Igreja Católica frequentando os terreiros, um retrato do Papa João Paulo II pendurado na parede, “folhinhas” com imagens de santos, caixas do Divino, parelhas do tambor de crioula, a decoração típica dos festejos de São João e o bumba meu boi.

Mãe Mundica Estrela (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos
Mãe Mundica Estrela (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos

Além de registrar diversas personalidades importantes para a perpetuação da religiosidade de matriz africana nas geografias em que se concentra, os cliques certeiros de Márcio Vasconcelos em Zeladores de voduns são uma homenagem a Pai Euclides e Mãe Deni Prata Jardim, última vodunsi da Casa das Minas, falecida há um ano. É também uma ótima oportunidade a interessados em geral de conhecer um pouco mais desta história e suas personalidades.

Sempre envolvido em vários projetos simultaneamente, o fotógrafo lançará este ano dois novos livros: Na trilha do cangaço, em que refaz os caminhos de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, no sertão nordestino, com curadoria e concepção da fotógrafa inglesa radicada no Brasil Maureen Bisiliat, será editado pela Vento Leste; pela mesma editora ele publicará, com curadoria de Diógenes MouraVisões de um Poema Sujo, conjunto de fotografias inspirado no famoso livro-poema do maranhense Ferreira Gullar.

Júlia Emília lança livro com vivências do Teatrodança como parte das comemorações dos 30 anos do Grupo

Vivendo Teatrodança - Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução
Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução

 

A história do Grupo Teatrodança se confunde com a própria vida da artista – difícil enquadrá-la em apenas um ramo das artes – Júlia Emília, que o fundou em 1985 e o dirige desde então. Mas seu envolvimento com as artes começa bem antes.

Hoje (26), às 19h, no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (Rua do Giz, 59, Praia Grande, próximo à Praça da Faustina), ela lança Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade [2015, R$ 20,00 no lançamento], publicado através da seleção no edital de literatura de 2014 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), em que (re)conta parte dessa história. No lançamento Eline Cunha, Luciana Santos, Sandra Oka e Victor Vieira apresentarão intervenções originais sobre suas relações afetivas com o Grupo Teatrodança e temáticas da nova investigação em processo.

A própria Júlia Emília se apresenta, na orelha da obra: “Filha de família intelectualizada tive um pé na sapatilha clássica e outro nos terreiros das culturas populares maranhenses, sem populismo postiço”. Bem lhe traduz também um poema, não por acaso citado no livro, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “Eu era filho de pessoas que tinham posses./ Meus pais puseram um colarinho engomado ao redor de meu pescoço/ E me educaram no hábito de ser servido/ E me ensinaram a arte de dar ordens./ Mas, mais tarde, quando/ Olhei ao redor de mim,/ Não gostei das pessoas de minha classe/ Nem de dar ordens, muito menos de ser servido./ E abandonei as pessoas de minha classe/ Para viver ao lado dos humildes”.

Sobre ela, assim se refere o poeta Ferreira Gullar: “Júlia é uma artista muito autêntica, trabalhando no resgate de um tipo de aproximação da cultura popular de maneira muito sensível”. O cantor e compositor Zeca Baleiro endossa: “É uma artista muito intensa, muito verdadeira”. O segundo musicou os versos de cordel do primeiro e ambos assinaram a trilha de Bicho solto buriti bravo, uma das investigações abordadas em Vivendo Teatrodança – longe de soar pedante, é realmente difícil classificar o trabalho de Júlia Emília como espetáculo de dança ou espetáculo de teatro. Simplesmente os rótulos não lhes comportam.

No livro, a autora remonta brevemente os 30 anos de história do Grupo Teatrodança, antes passeando por sua trajetória artística, confessando influências – Angel e Klauss Viana, Teresa D’Aquino, Stanislavski e Grotowski, entre outros – e vivências – o Teatro Ventoforte, o Centro de Criatividade do Méier, além do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e do Estúdio Pró-Dança, entre outros. A obra se completa com os textos das investigações O baile das lavandeiras e Meninos em terras impuras e aborda desde a fundamentação das peças, elencos, apresentações, dramaturgias e partituras. Na música se misturam nomes como Apolônio Melônio – do bumba meu boi da Floresta, atualmente internado em estado grave –, Carlinhos Veloz, Chico Maranhão, autos do pastor maranhense e do pastoril pernambucano e, entre muitas outras referências, as bandas de pop rock R.E.M. e Coldplay. Também soam pelas páginas de Júlia Emília e palcos frequentados pelo Teatrodança, também devidamente listados na obra, os tambores de mina e crioula, o lelê de São Simão, a dança de São Gonçalo, a poesia da escritora Maria Firmina dos Reis e a lenda da serpente (ou a serpente da lenda), para citar algumas de nossas melhores tradições.

Mas não é – ou ao menos não deveria ser – só ao “povo” do teatro e da dança que interessa a obra de Júlia Emília (e do Grupo Teatrodança): ao longo destes 30 anos e, especificamente nas vivências abordadas em Vivendo Teatrodança, estão colocadas, de forma mais ou menos sutil, preocupações políticas e ambientais – a terceira investigação, “Meninos em terras impuras, dentro da noção de corpo ambiental foi escrito em 2011, para denunciar a degradação a que a área metropolitana da Grande Ilha está submetida”.

Retornamos ao texto da orelha, em que Júlia Emília admite não ter “vergonha de nascer em terra espoliada, de expor meus exercícios de aculturação, de registrar dramaturgias que nem sei se serão publicadas exatamente por acreditar que o texto eterniza a cena”. O lançamento de Vivendo Teatrodança é parte das comemorações de 30 anos do Grupo homônimo, que continuam ao longo de todo 2015 (e sobre as quais este blogue voltará, em momentos oportunos). Os que conhecem os trabalhos e batalhas do Teatrodança e de sua fundadora-diretora lhes desejarão vidas longas. Aos que não, terão hoje mais uma oportunidade. Cabe a pergunta: estão esperando o quê?

Cecília Leite: equilíbrio e consistência

Enquanto a chuva passa. Capa. Reprodução
Enquanto a chuva passa. Capa. Reprodução

 

Cecília Leite demorou cerca de 10 anos entre um disco e outro. Em Enquanto a chuva passa, repete a opção de misturar compositores locais a nomes nacionais, dando sua contribuição para o fim das barreiras geográficas impostas pelo mercado fonográfico – o disco foi gravado no Rio de Janeiro.

A faixa-título é sua estreia como compositora e narra a vida de um casal que enquanto se separa e um tenta esquecer do outro, mais se lembram de momentos vividos a dois. “Enquanto me esqueço de ti/ lembro do amor/ tingindo as tardes do Rio/ com as cores da nossa leveza/ sorrisos, certezas/ dos meus nos teus passos/ lembro dos beijos de braços/ abraços de pernas/ nas horas eternas”, canta, no refrão.

A chuva que ajuda a batizar o disco volta a aparecer noutras faixas. Em Maré cheia, inspirado samba de Bruno Batista, o compositor veste uma persona feminina ao compor pensando na intérprete. “Por isso se eu mostrar minha alma/ levantem os olhos com calma/ e batam palmas para mim”. A dobradinha merece os aplausos, emoldurada – como de resto a voz de Cecília ao longo do disco – por Luís Filipe de Lima (violão sete cordas), Marcos Nimrichter (piano), Ney Conceição (contrabaixo), Edu Neves (sax) e Marcos Suzano (percussão).

Também chove em Tempo afora (Fred Martins), sucesso de Ney Matogrosso: “Onde mora a ternura/ onde a chuva me alaga/ onde a água mole perfura/ dura pedra da mágoa/ eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora”, começa a letra. Cecília Leite recria ainda outra música já gravada por Ney Matogrosso: Noite Severina, parceria de Pedro Luís e Lula Queiroga. A água ganha destaque no projeto gráfico de Claudio Lima, cantor e designer talentoso em ambos os ofícios, outra dobradinha do primeiro disco que se repete.

Ela recria ainda Por um fio (Marcelo Segreto), de O hábito da força (2011), primeiro disco da Filarmônica de Pasárgada, De todas as maneiras (Chico Buarque), hit de Maria Bethânia (de Álibi, de 1978), Seule, de Pixinguinha, com letra em francês de Vinicius de Moraes, trilha do filme Sol sobre a lama (de Alex Viany, de 1963) e, num medley emenda dois grandes nomes da poesia brasileira, maranhenses, um de adoção, outro de nascimento: Palavra acesa, de José Chagas, e Traduzir-se, de Ferreira Gullar. A primeira, musicada por Fernando Filizola, sucesso do Quinteto Violado; a segunda, por Fagner.

Falecido ano passado, é de Chagas, a propósito, a honrosa apresentação da cantora no encarte: “O canto em Cecília é tão visceral quanto nos pássaros, que cantam porque nisso está uma das razões da vida”.

Completam o disco Tem dó (Paulo Monarco e Zeca Baleiro), que o abre, falando na dor da despedida de maneira original; Arrastada (Patrícia Polayne), um martelo sobre o sofrimento e a emancipação feminina; Ainda mais (Eduardo Gudin e Paulinho da Viola), um samba sobre a esperança de reconciliação, com a típica elegância do portelense; Enquanto a chuva passa termina com Lembranças, outra vez Bruno Batista vestindo a persona feminina, competente qual um Chico Buarque, para citarmos dois dos compositores preferidos de Cecília, a propósito, os únicos que comparecem em ambos os discos – este, na estreia, fez uma versão em francês para Eu te amo (Dis-mois comment) e cantou com ela. “As lembranças que inventei…/e já gasta de mim, quis poder confessar/ o que me faz amarga e nua/ não sou minha… sem ser tua!”, termina a letra de Bruno.

Cecília equilibra-se com desenvoltura entre músicas (mais ou menos) consagradas e material inédito, num grandioso exercício de seleção de repertório – prévio, portanto, à gravação. Ela canta o que gosta, sem se prender a rótulos e gêneros. O resultado é o consistente trabalho que apresenta agora aos fãs e aos que certamente virão a tornar-se.

*

Cecília Leite apresenta hoje (10), às 19h30, no São Luís Shopping (segundo piso) um pocket show de pré-lançamento de Enquanto a chuva passa, com entrada franca. A noite contará ainda com exposição de fotos, exibição de videoclipe e lançamento de remix da faixa Arrastada, com os djs Alex Palhano e Macau. Confiram o teaser.

Gente, livro e pedra

O blogueiro, de latinha na mão, com os poetaços Ademir Assunção e Marcelo Montenegro (Foto: Igor de Sousa, o DP)

Como se árvores brotassem por entre os paralelepípedos, a 7ª. Feira do Livro de São Luís rendeu bons frutos. A começar pelo convite, prontamente aceito, de assumir uma página mensal neste Atual, imensa honra. É o Maranhão falando para o Brasil, depois de ter ouvido o mundo falar durante a #7FeliS.

Sérgio Cohn é poeta-autor-editor cujo trabalho acompanho há bastante tempo, proprietário da editora Azougue, responsável por tanta coisa boa no mercado editorial brasileiro nos últimos anos, da coleção Encontros, das entrevistas do Bondinho, de beats e Mautner e tantos outros, ele, um dos convidados da #7FeliS, ocasião em que falou justamente sobre o tal mercado editorial.

Este ano a Feira do Livro expandiu-se: continuou com a função de vender livros, mas foi além, e em 10 dias trouxe à São Luís alguns personagens fundamentais para o fazer literário brasileiro. Tendo como patrono o poeta Nauro Machado, quase oitentão com 40 livros publicados, e como homenageados Aluísio Azevedo, Catullo da Paixão Cearense, Salgado Maranhão e Zelinda Lima, a Feira fez valer ainda a máxima de outro homem das letras, centenário em 2013: Vinicius de Moraes. “A vida é a arte do encontro”, dizia.

A literatura deixou de ser do gueto, algo para iniciados, e encontrou a cidade. Uma na outra, outra na uma, e esbarrões entre sorrisos e abraços. Esquinas, becos, ruas, ladeiras, praças, auditórios, teatros, galerias, sacadas, escadarias e azulejos, tudo havia sido ocupado pela poesia, como num velho poema de Gullar.

Escritores se encontraram com a gente do lugar, a Praia Grande finalmente revivida, como um lugar propício aos fazeres artísticos, com seu acervo arquitetônico entre o que merece ser chamado patrimônio e suas ruínas cinematográficas, o espaço finalmente valorizando, após umas poucas iniciativas, as pessoas, verdadeiro patrimônio maior de qualquer lugar.

Manhãs, tardes, noites e madrugadas tomadas pela programação da Feira e pela “hora extra” que se fazia entre o Mundico – para provar sua deliciosa anchova na brasa –, o Chico Discos e o Bar do Léo, com seus incríveis acervos e o conhecimento artístico, sobretudo musical, dos proprietários. As histórias engraçadas de Josoaldo Rego e a comanda infalível de Marília Oliveira, os autógrafos de Benjamin Moser a Andréa Oliveira e Rita Luna Moraes – que Talita Guimarães pegou em sua Programação, o que não a fez se emocionar menos. Ambientes que também encantaram Sérgio Cohn, Fabiano Calixto, Ademir Assunção, Marcelo Montenegro, Marcelo Watanabe, Xico Sá, Rodrigo Garcia Lopes, Bráulio Tavares, Caco Pontes e outros.

Admirador do trabalho de todos e de alguns outros que não consegui ver ou encontrar, o calçamento da Praia Grande parecia ter se transformado em feito de nuvens, eu perambulando entre o trabalho e o prazer – aqui plenamente conciliáveis – como O sonhador insone: “tudo é nascente/ o sol pleno de setembro (e outubro, permita-me adulterar o poema)/ traz da mão/ do garoto que passa/ um cheiro de fruta (…)// (a vida já é um tempo/ por demais interessante)”.

A busca idílica de Marcelo Montenegro pela Fonte do Bispo – e outras paisagens do Poema Sujo – e a conquista de novos leitores de poesia: “não pude resistir quando ele disse que era um punk do ABC”, revelou Igor de Sousa, assumidamente um desajustado punk no apelido DP, ao adquirir o belo exemplar dA canção do vendedor de pipocas, de Fabiano Calixto.

A visita de Ronaldo Bressane à Fundação da Memória Republicana, nome pomposo do museu, ou antes, da catacumba do Sarney, “único museu de São Luís com ar condicionado”, onde clássicos da literatura produzida no Maranhão ficam em “aquários”. “Vamos quebrar os aquários, vamos quebrar a fundação, vamos quebrar o Sarney!”, convidou encerrando sua fala na mesa mais transgressora da Feira, dividida com Allan Sieber, Bruno Azevêdo e Iramir Araújo. Gente que sabe o que fala.

Fracasso da Raça, o nome da banda com que Ademir Assunção lançará em novembro seu novo disco, Viralatas de Córdoba, virou jargão anticapitalista. Os atendentes de telemarketing das operadoras de telefonia ou internet ou tv a cabo ou cartão de crédito ou loja ou banco não resolvem o seu problema? É o Fracasso da Raça. Você chega a um estabelecimento a fim de resolver um problema e é direcionado a um telefone, “retire do gancho e siga as instruções”, é o Fracasso da Raça.

Os poemanchetes de Caco Pontes, tornando pura poesia o que nosso jornalismo tem de pior. Letra de música é poesia e vice-versa? Ricardo Corona e sua poesia étnica, sons ganhando sentido, em diálogo com Bráulio Tavares, multiartista consciente de seu próprio fazer, sua fala ilustrada por canções, 35 anos desde a primeira gravação de Elba Ramalho para uma delas, Caldeirão dos mitos.

“Embora haja tanto desencontro nessa vida” você perde a palestra de Alice Ruiz, “A poesia muda o mundo?”, e levanta da mesa pouco antes de ela chegar. Não se pode ter tudo. Alguns autógrafos que te acompanharão pra sempre, a emoção cravada num livro de sua modesta coleção, para uns um orgulho bobo, a vida não foi feita para ser entendida, “a vida já é um tempo/ por demais interessante”, um eco.

A Feira também fez sentido por estar localizada ali nos arredores da Feira da Praia Grande, uma das mais famosas e charmosas da cidade. A Feira virou uma verdadeira festa e deixa saudades. Deixou muita gente com a cabeça ainda mais cheia e a pilha-fila de livros por ler aumentada. A Feira ainda será assunto em rodas reais ou virtuais durante muito tempo.

Sua mais perfeita tradução é o sorriso enérgico do poeta Celso Borges, seu curador. O seu nunca cansaço, a sua eterna capacidade de se emocionar com cada dia e acontecimento, feito criança de brinquedo novo. A serpente pode até não ter acordado ainda. Mas seu sono foi certamente incomodado com tanto barulho.

[Textinho que escrevi pro Atual, “o último jornal da Terra”, do grande Sérgio Cohn, da Azougue. Balanço sentimental da 7ª. Feira do Livro de São Luís, cuja equipe de curadoria tive o prazer e a honra de integrar, escrito imediatamente após a hora da xepa, em outubro passado]

A retórica do ódio na cobertura

POR JAIME AMPARO ALVES*
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Os brasileiros no exterior que acompanham o noticiário brasileiro pela internet têm uma impressão de que o país nunca esteve tão mal. Explodem os casos de corrupção, a crise ronda a economia, a inflação está de volta e o país vive imerso no caos moral. Isso é o que querem nos fazer crer as redações jornalísticas do eixo Rio-São Paulo. Com seus gatekeepers escolhidos a dedo, Folha de S. PauloEstado de S. PauloVeja e O Globo investem pesadamente no caos com duas intenções: inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e destruir a imagem pública do ex-presidente Lula da Silva. Até aí, nada novo. Tanto Lula quanto Dilma sabem que a mídia não lhes dará trégua, embora não tenham – nem terão – a coragem de uma Cristina Kirchner de levar a cabo uma nova legislação que democratize os meios de comunicação e redistribua as verbas governamentais para o setor. Pelo contrário, a Polícia Federal segue perseguindo as rádios comunitárias e os conglomerados de mídia Globo e Abril celebram os recordes de cotas de publicidade governamentais. O PT sofre da síndrome de Estocolmo (aquela em que o sequestrado se apaixona pelo sequestrador) e o exemplo mais emblemático disso é a posição de Marta Suplicy como colunista de um jornal cuja marca tem sido o linchamento e a inviabilização política das duas administrações petistas em São Paulo.

O que chama a atenção na nova onda conservadora é o time de intelectuais e artistas com uma retórica que amedronta. Que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso use a gramática sociológica para confundir os menos atentos já era de se esperar, como é o caso das análises de Demétrio Magnoli, especialista sênior da imprensa em todas as áreas do conhecimento. Nunca alguém assumiu com tanta maestria e com tanta desenvoltura papel tão medíocre quanto Magnoli: especialista em políticas públicas, cotas raciais, sindicalismo, movimentos sociais, comunicação, direitos humanos, política internacional… Demétrio Magnoli é o porta-voz maior do que a direita brasileira tem de pior, ainda que seus artigos não resistam a uma análise crítica.

Jornalismo lombrosiano – Agora, a nova cruzada moral recebe, além dos já conhecidos defensores dos “valores civilizatórios”, nomes como Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro. A raiva com que escrevem poderia ser canalizada para causas bem mais nobres se ambos não se deixassem cativar pelo canto da sereia. Eles assumiram a construção midiática do escândalo, e do que chamam de degenerescência moral, como fato. E, porque estão convencidos de que o país está em perigo, de que o ex-presidente Lula é a encarnação do mal, e de que o PT deve ser extinto para que o país sobreviva, reproduzem a retórica dos conglomerados de mídia com uma ingenuidade inconcebível para quem tanto nos inspirou com sua imaginação literária.

Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro fazem parte agora daquela intelligentsia nacional que dá legitimidade científica a uma insidiosa prática jornalística que tem na Veja sua maior expressão. Para além das divergências ideológicas com o projeto político do PT – as quais eu também tenho –, o discurso político que emana dos colunistas dos jornalões paulistanos/cariocas impressiona pela brutalidade. Os mais sofisticados sugerem que, a exemplo de Getúlio Vargas, o ex-presidente Lula se suicide; os menos cínicos celebraram o “câncer” como a única forma de imobilizá-lo. Os leitores de tais jornais, claro, celebram seus argumentos com comentários irreproduzíveis aqui.

Quais os limites da retórica de ódio contra o ex-presidente metalúrgico? Seria o ódio contra o seu papel político, a sua condição nordestina, o lugar que ocupa no imaginário das elites? Como figuras públicas tão preparadas para a leitura social do mundo se juntam ao coro de um discurso tão cruel e tão covarde já fartamente reproduzido pelos colunistas de sempre? Se a morte biológica do inimigo político já é celebrada abertamente – e a morte simbólica ritualizada cotidianamente nos discursos desumanizadores – estaríamos inaugurando uma nova etapa no jornalismo lombrosiano?

O espetáculo da punição – Para além da nossa condenação aos crimes cometidos por dirigentes dos partidos políticos na era Lula, os textos de Demétrio Magnoli, Marco Antonio Villa, Ricardo Noblat, Merval Pereira, Dora Kramer, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Cantanhêde, além dos que agora se somam a eles, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira. Seus textos serão utilizados nas disciplinas de deontologia jornalística não apenas como exemplos concretos da falência ética do jornalismo tal qual entendíamos até aqui, mas também como sintoma dos novos desafios para uma profissão cada vez mais dominada por uma economia da moralidade que confere legitimidade a práticas corporativas inquisitoriais vendidas como de interesse público.

O chamado “mensalão” tem recebido a projeção de uma bomba de Hiroshima não porque os barões da mídia e os seus gatekeepers estejam ultrajados em sua sensibilidade humana. Bobagem. Tamanha diligência não se viu em relação à série de assaltos à nação empreendida no governo do presidente sociólogo. A verdade é que o “mensalão” surge como a oportunidade histórica para que se faça o que a oposição – que nas palavras de um dos colunistas da Veja “se recusa a fazer o seu papel” – não conseguiu até aqui: destruir a biografia do presidente metalúrgico, inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e reconduzir o projeto da elite “sudestina” ao Palácio do Planalto.

Minha esperança ingênua e utópica é que o Partido dos Trabalhadores aprenda a lição e leve adiante as propostas de refundação do país abandonadas como acordo tácito para uma trégua da mídia. Não haverá trégua, ainda que a nova ministra da Cultura se sinta tentada a corroborar com o lobby da Folha de S.Paulo pela lei dos direitos autorais, ou que o governo Dilma continue derramando milhões de reais nos cofres das organizações Globo e Abril via publicidade oficial. Não é o PT, o Congresso Nacional ou o governo federal que estão nas mãos da mídia. Somos todos reféns da meia dúzia de jornais que definem o que é notícia, as práticas de corrupção que merecem ser condenadas e, incrivelmente, quais e como devem ser julgadas pela mais alta corte de Justiça do país. Na última sessão do julgamento da Ação Penal 470, por exemplo, um furioso ministro-relator exigia a distribuição antecipada do voto do ministro-revisor para agilizar o trabalho da imprensa (!). O STF se transformou na nova arena midiática onde o enredo jornalístico do espetáculo da punição exemplar vai sendo sancionado.

Coragem de enfrentar o monstro – Depois de cinco anos morando fora do país, estou menos convencido por que diabos tenho um diploma de jornalismo em minhas mãos. Por outro lado, estou mais convencido de que estou melhor informado sobre o Brasil assistindo à imprensa internacional. Foi pelas agências de notícias internacionais que informei aos meus amigos no Brasil de que a política externa do ex-presidente metalúrgico se transformou em tema padrão na cobertura jornalística por aqui. Informei-os que o protagonismo político do Brasil na mediação de um acordo nuclear entre Irã e Turquia recebeu atenção muito mais generosa da mídia estadunidense, ainda que boicotado na mídia nacional. Informei-os que acompanhei daqui o presidente analfabeto receber o título de doutor honoris causa em instituições europeias e avisei-os que por causa da política soberana do governo do presidente metalúrgico, ser brasileiro no exterior passou a ter uma outra conotação. O Brasil finalmente recebeu um status de respeitabilidade e o presidente nordestino projetou para o mundo nossa estratégia de uma América Latina soberana.

Meus amigos no Brasil são privados do direito à informação e continuarão a ser porque nem o governo federal nem o Congresso Nacional estão dispostos a pagar o preço por uma “reforma” em área tão estratégica e tão fundamental para o exercício da cidadania. Com 70% de aprovação popular e com os movimentos sociais nas ruas, Lula da Silva não teve coragem de enfrentar o monstro e agora paga caro por sua covardia. Terá Dilma coragem com aprovação semelhante, ou nossa meia dúzia de Murdochs seguirão intocáveis sob o manto da liberdade de e(i)mpre(n)sa?

*Jaime Amparo Alves é jornalista e doutor em Antropologia Social, Universidade do Texas, Austin

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Cheguei a este texto via Ademir Assunção.

Poesia não é acessório

Poesia é necessário!

Há alguns dias li no blogue de Ademir Assunção este poema:

Homem-homenagem

Excelentíssimo senhor
Com diplomas,
comendas e louvor.
Aplaudido de pé,
todo condecorado.
Nos palanques
sempre um bom lugar
A ele é reservado.
Cidadão honorário
Verbete de dicionário
Patrono da turma
Já é nome de rua.
Na galeria de retratos
sua foto avulta.
Em suma, um grande
filho da puta.

É de Fabrício Marques, no recém-lançado A fera incompletude (Dobra Editorial). Como diria Flávio Reis, “bateu”. Escrevi, há alguns anos, sobre Dez conversas – diálogos com poetas contemporâneos, livro em que ele entrevista 10 do subtítulo, ele mesmo um (não, não tem uma autoentrevista lá).

Ainda no blogue de Ademir, leio este, dele, de seu novo livro, A voz do ventríloquo (Edith), que recebi ontem, via Celso Borges, que encontrei na plateia de Chico Saldanha e Josias Sobrinho, no Chico Discos:

Bang bang no sábado à noite

um olho dois olhos um eco
um estampido morcego
estranho tiroteio de cego

garrafas estilhaçadas no saloon
caubóis saltando de lugar nenhum

balas chegando em câmera lenta
perfurando vísceras sem pedir licença

alguém vai tombar atrás do balcão
outro no banheiro não passa do chão

a face caída na poça de mijo
o jorro de sangue na testa um nojo

maluco faroeste ao vivo e em cores
sábado que vem num mocó da Travessa das Dores

leve a namorada e não esqueça das flores

Aí eu vejo o anúncio do lançamento de Garagem lírica e do relançamento de Orfanato portátil, de Marcelo Montenegro, de capas lindas e conteúdos idem. E lembro deste poema, que já postei aqui no blogue:

Gerúndio Jazz

Agora mesmo algum maluco
deve estar postando qualquer treco
genial na internet,
alguém deve estar pensando
em como melhorar aquele texto
enquanto lota o Especial
de vinagrete, perseguindo
obstinadamente um acorde
voltando da padaria.

Agora mesmo alguém
pode estar pensando
que guardamos só pra gente
o lado ruim das coisas lindas –
assim, trancafiado a sete chaves
de carinho – Alguém
pode estar sentindo tudo ao mesmo tempo
sozinho, assim brutalmente
sentimental, feito coubesse
toda a dignidade humana
num abraço tímido.

Agora mesmo alguém deve estar limpando
cuidadosamente o CD com a camisa,
pulando a ponta do pão pullman,
sentindo o baque da privada gelada,
perguntando quanto está o metro
daquela corda de nylon, trepando
no carro, empurrando o filho
no balanço com uma das mãos
e na outra equilibrando
a lata e o cigarro – Agora mesmo
alguém deve estar voltando,
alguém deve estar indo,
alguém deve estar gritando feito um louco
para um outro alguém
que nem deve estar ouvindo.

Agora mesmo alguém
pode estar encontrando sem querer
o que há muito já nem era procurado,
alguém, no quinto sono,
deve estar virando para o outro lado;
alguém, agora mesmo, no café da manhã
deve estar pensando em outras coisas
enquanto a vista displicentemente lê
os ingredientes do Toddy.

Marcelo é este grande poeta que faz poesia com qualquer coisa do dia a dia, já o chamaram “Manoel de Barros urbano”. Dá uma imensa alegria saber dos lançamentos, eu que acompanho à distância os trampos do cara, e me somo ao coro dos que ao longo do tempo se tornam chatos, com a mesma pergunta de sempre, “e o próximo livro, quando?”, desde que ainda se chamava Hemingway Hotel. Grande honra ter um exemplar autografado do esgotadíssimo Orfanato portátil, que me chegou num envelope junto com alguns poemas inéditos, em papeis que ainda tenho guardados. Já fiz encomenda da nova edição, seja, meras desculpas para justificar a aquisição de um livro que já se tem, pela capa ou pelo texto de apresentação da querida Angélica Freitas. Pra mim Angélica Freitas é Marcelo Montenegro de saias. E Marcelo Montenegro é Angélica Freitas de calças.

Uma vez quase nos trombamos, eu e ele, em Imperatriz, numa Feira do Livro em que a poeta Lília Diniz aceitou umas sugestões minhas e a gente levou pra lá nomes como Artur Gomes, Celso Borges, João Paulo Cuenca e Marcelo Montenegro. O trabalho me obrigou a voltar antes à São Luís e acabei não vendo, por exemplo, a leitura que CB e Marcelo fizeram de Fotografia aérea, de Ferreira Gullar.

Há tempos, aliás, Marcelírico me fala da vontade de trazer suas Tranqueiras líricas à Ilha. Livros novos são ótimo mote para trazê-los, ele, Ademir, Fabrício e tanta gente boa que tá se mexendo por aí, fazendo coisas bonitas como a que você, caro leitor, cara leitora, leu, só neste post. Imaginem as outras páginas dos livros! Sobre eles, aliás, volto a falar em breve. Por enquanto fiquem com Marcelírico dizendo o poema acima:

O ron-ron do gatinho

Pagu

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.

Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito
não é doença – é carinho.

O poeta Ferreira Gullar em Um gato chamado Gatinho (Ed. Salamandra, 2000). Sincera homenagem deste blogue à Pagu, nossa gatinha linda que ilustra este post.

Pagu caça um besouro

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Hoje é aniversário de meu irmão Netto e do amigo Bruno, a quem dedicamos também o post. Muitos anos de vida, cabras bons!