Quantas vidas cabem numa só?

Lou. Frame. Reprodução

 

Quantas vidas alguém precisará viver para viver uma vida como a de Lou Andreas-Salomé [1861-1937]? Esta é uma das perguntas possíveis ao término de uma sessão de Lou [drama/histórico/biografia, Alemanha/Suíça; 113 min.; em cartaz no Cine Lume], de Cordula Kablitz-Post, cinebiografia da escritora e psicanalista que influenciou Sigmund Freud [interpretado por Harald Schrott], o pai da psicanálise – só dizer isto já dá ideia da grandeza da personagem.

Bem realizado na reprodução de cenários e figurinos da época, o filme parte da decisão da protagonista de escrever sua biografia, aos 72 anos. Entra em cena a figura de Ernst Pfeifer [Matthias Lier], então desempregado, que acabará por virar o administrador do espólio de Lou Andreas-Salomé [Nicole Heesters interpreta a personagem aos 72 anos; Katharina Lorenz, dos 21 aos 50; Liv Lisa Fries, aos 16; e Helena Pieske, aos seis], até sua própria morte, responsável pela redescoberta da mulher que se insurgiu contra os padrões então vigentes.

A história tem início em 1933, no período entre-guerras. Lou  é uma senhora reclusa que já havia parado com os atendimentos. O filme se equilibra bem entre os diálogos entre a protagonista e seu datilógrafo – que acaba assumindo um papel misto de repórter e confidente –, que também acaba se apaixonando por ela, e no vaivém das histórias que conta, remontando à infância em São Petesburgo e ao mundo que ganhou ao desafiar a mãe e o status quo, após a morte do pai.

Numa época em que às mulheres não era dado o direito de estudar, é isto o que Lou faz, simplesmente por não aceitar a condição subalterna imposta ao sexo feminino. Seu primeiro livro é publicado com um pseudônimo masculino: os editores de então não acreditavam no sucesso de um livro escrito por uma mulher. Acabou por tornar-se pioneira da psicanálise e do feminismo; no primeiro campo dedicou-se à sexualidade feminina; no segundo, antecipou-se a sistematizações acadêmicas que só aconteceriam no século XX.

Em suas conferências é seguida por um devotado René Maria Rilke [Julius Feldmeier] que, por sugestão dela, adota o pseudônimo Rainer e vem a ser o poeta que conhecemos hoje, tantos anos depois. É ele quem irá quebrar sua repulsa ao casamento, que acreditava ser um sinônimo de perda de liberdade, após a dispensa de pretendentes do naipe dos filósofos Paul Rée [Philpp HauB] e Friedrich Nietzsche [Alexander Scheer].

Sua luta por liberdade tinha um quê de egoísmo, ela mesmo admite a determinada altura. “O que mudou para as mulheres?”, pergunta a seu privilegiado interlocutor noutro momento. Mas certamente inspirou a insurgência de outras mulheres e a (r)evolução que vemos, infelizmente ainda, mais lenta do que gostaríamos e do que o necessário.

A cinebiografia certamente ajudará a jogar luzes sobre esta personagem tão importante quanto desconhecida do grande público. O silêncio sobre ela e sua obra ajuda a compreender as relações de poder estabelecidas, contra as quais Lou dedicou toda a sua vida e obra.

Merecem destaque os grafismos em que Lou movimenta-se por estáticos cartões postais. Piegas é a forma como se apresenta o deus com quem conversa na infância e de quem se lembra no divã de Freud, o que nem de longe tira o brilho do filme, ousado como sua protagonista, ao decidir abarcar tantos aspectos da vida – ou das vidas? Quantas ela viveu numa só? – de Lou Andreas-Salomé.

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Veja o trailer de Lou:

O poder de Karina Buhr

Cantora se apresenta hoje (22) em São Luís e conversou com exclusividade com o blogue

Karina Buhr é dona de uma das mais coerentes trajetórias artísticas do Brasil. A artista está acostumada a multiplicidades: é cantora, compositora, atriz, ilustradora e escritora. Com a infância passada entre o Recife natal e Salvador, hoje radicada em São Paulo, é cidadã do mundo. Vida, obra e militância confundem-se, não se sabe onde acaba uma e começa outra, tão impregnadas estão entre si, retroalimentando-se.

Com três discos solo na bagagem, ela já conta mais de 20 anos de artes, embora setores mais preguiçosos da grande mídia tenham saudado seu “aparecimento” como “novidade”, quando ela lançou o disco solo de estreia, Eu menti pra você, em 2010. Em 2015, com Selvática, o mais recente, Karina teve a capa, em que aparece com os seios à mostra, censurada por uma rede social. Se a vida te der limões, faça uma limonada: o tiro saiu pela culatra, o disco e diversos temas caros à artista acabaram ganhando ainda mais visibilidade.

Naquele ano ela esteve em São Luís em duas ocasiões: autora de Desperdiçando rima [Fábrica 231/Rocco, 2015], participou da Feira do Livro; pouco depois voltou para apresentar Selvática durante a Aldeia Sesc Guajajara de Artes. Hoje (22), ela volta à ilha para um show no Festival Elas, evento idealizado e realizado majoritariamente por mulheres que desde quinta-feira (20), ocupa o sempre simbólico Convento das Mercês (Desterro). Sua apresentação acontece no pátio interno, às 23h30.

De acordo com seu slogan, o Festival Elas “promove cultura e poder feminino”. Mais que apropriada a presença de Karina Buhr. Por e-mail, ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Priscilla Buhr

Cantora, compositora, atriz, ilustradora, escritora. Ser artista multimídia é um imperativo destes tempos? É possível separar as várias Karinas? Em que faceta você se sente mais realizada?
Pra mim isso não é “desses tempos” nem uma necessidade no sentido de “tenho que fazer mais coisas pras coisas rolarem mais”. Sempre fiz essas coisas todas e a cada hora uma se destaca mais, embora a música tenha acabado ficando de frente mesmo. Não tem como separar uma coisa da outra e não vejo muito como realização, no sentido de me sentir bem com o êxito de uma ou de outra. Não são várias, é tudo eu, na saúde e na doença [risos].

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo. O cosmopolitismo parece ser outra necessidade, hoje em dia. O quanto ajuda e atrapalha ser mais pássaro que árvore?
Isso é uma realidade da minha vida desde sempre, não sei como é ser de outro jeito. Meu pai nasceu na Bahia, minha mãe em Pernambuco e eu sempre pulei de Recife pra Salvador, sentindo as duas como minhas cidades. São Paulo veio pelo Teatro Oficina e acabei adotando como minha também. Não acho que ajude nem atrapalhe, só é assim. E gosto muito assim.

Quando do lançamento de Eu menti pra você [2010] você foi saudada como “revelação”, com parte da crítica ignorando sua participação, para citar apenas o campo musical, em grupos como o Eddie e o Comadre Florzinha. Como você avalia o episódio?
“O que era velho no norte se torna novo no sul” [risos]. Tem a ver com Rio e São Paulo serem considerados O Brasil e o resto ser “regional” e também tem machismo aí. Essa coisa de “novas cantoras”, de não saberem muito bem como tratar mulheres que cantam e compõem, de uma necessidade de colocar todas as cantoras no mesmo balaio – com recorte social também, afinal as cantoras de funk são tratadas como setor à parte, como se os outros setores todos tivessem também relação uns com os outros –, de me tratar como “nova cena”. Não sou nova cena, tenho 43 anos e comecei a tocar (nos maracatus Piaba de Ouro e Estrela Brilhante) em 1994. Enfim, tenho muita história antes de 2010, mas tem esse fetiche ainda de “São Paulo descobriu agora então existe a partir de agora”.

Sua obra e atitudes têm engajamento: letras de música, conteúdo de textos e ilustrações, engajamento presencial e virtual em causas, por exemplo, o feminismo e o movimento Ocupe Estelita, no Recife, para citar apenas dois. Nestes tempos duros, caretas e conservadores, é impossível ser diferente, não?
Pra mim isso também sempre foi uma realidade, de acompanhar de perto essas coisas e de dar opinião e botar mão na massa. Na verdade gostaria de botar bem mais a mão na massa, faço bem menos do que gostaria. Acho que, de um modo geral, somos muito apáticos na ação. Falamos demais e fazemos pouco de fato. Fosse diferente a polícia não tava exterminando pretos e pobres.

Capa de Selvática, censurada pelo Facebook. Reprodução

Quando do lançamento de Selvática [2015], seu disco mais recente, a capa foi censurada por uma rede social. A que você credita a caretice e o ridículo do episódio? Como reagiu?
Ao machismo, de novo. Mulheres estão nuas em todos os lugares, mas sob um olhar machista. Se elas resolvem ficar nuas do jeito que querem aí já é vandalismo. Na verdade essa censura, que é uma grande merda violenta e cafona, acabou alavancando não só a capa do disco como começaram discussões maravilhosas em torno dela e sobre liberdade dos corpos das mulheres e isso foi precioso. Uma coisa ruim gerou uma maravilhosa. Fiquei muito emocionada com esse desfecho e vendo questões que eu colocava nas músicas que ninguém tinha escutado ainda sendo levantadas a partir da capa. O que aconteceu depois é que foi bem ruim. Se você procurar na imprensa o que saiu sobre meu disco vai ler basicamente sobre meus peitos na capa. Dos meus três discos foi o mais fraco de imprensa a respeito do conteúdo mesmo, das letras e tal. Tem sempre o “o disco tem temática feminista”, que é uma frase que não diz absolutamente nada a respeito das composições. No caso, a frase correta seria “é um disco de temática feminista comentado por uma imprensa machista” [risos]. A sorte é que as músicas tocaram as pessoas e o público sacou tudo a fundo e de uma forma linda.

Selvática tem uma pegada mais punk, longe, no entanto, de rotulá-lo e/ou à tua obra. Essa guinada é sinal da urgência dos tempos?
Acho que não. Não sei [risos]. O tempo sempre foi urgente.

Em 2015 você esteve duas vezes em São Luís. Participou da Feira do Livro e pouco depois cantou na Aldeia Sesc Guajajara de Artes. Quais as impressões e lembranças da cidade e do público?
Foi maravilhoso, apesar de corrido. Fico triste de só ir aí correndo, dessa vez vai ser de novo assim. Quero voltar com calma, me devo isso, quero muito, sempre quis, chegar, ficar, respirar São Luís e essa maravilha toda, os tambores, a dança, que me ligam tanto a esse lugar.

Qual a expectativa para o show no Festival Elas?
Espero que seja massa, que vá um monte de gente e quem for fique feliz também e a gente faça junto esse show. É sempre junto, né, o que fazemos no palco reverbera em quem assiste e o que quem assiste sente e faz toca na gente também. Essa é a mágica da brincadeira. E que maravilha ser no Elas, com esse mote de feminismo, de mulheres ocupando todos os espaços, como deve ser.

Como você avalia a importância de um festival desse nível, feito principalmente por mulheres, destacando o protagonismo feminino?
É muito importante! Que a ideia se espalhe sempre! Quanto mais mulheres juntas falando, realizando, se encontrando e trocando mais a gente avança, mas a gente se fortalece.

Do golpe que tirou Dilma Rousseff do poder passando pela escalação do ministério, gestos, atitudes e declarações, o governo do ilegítimo é muito machista. O Brasil retrocedeu bastante. Há luz no fim do túnel?
A luz do túnel são as mulheres todas se organizando e agindo. É sintomático a primeira mulher presidente ser arrancada do poder. Mesmo enquanto ela estava lá isso era muito visível, o machismo todo, acompanhamos tudo, né, os discursos contrários a ela eram sempre com uma carga machista que impedia até de se ter contato com o que queria o problema real. Temos que lembrar também que mesmo com Dilma na presidência o machismo era reinante. Retrocedemos em muitas coisas e uma coisa muito grave foi ela sempre ter se colocado contrária a legalização do aborto, por exemplo. Uma tristeza muito grande vê-la se resignar e tratar o assunto dessa forma. Estamos falando de direitos humanos das mulheres e uma presidente mulher foi totalmente incapaz de tratar isso da forma que merecia e que é urgente. As mulheres seguem morrendo.

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Veja Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr) no Cultura Livre:

Fotografeministas

A fotógrafa Maria Thereza Soares, uma das organizadoras do evento. Foto: Neto Vasconcelos
A fotógrafa Maria Thereza Soares, uma das organizadoras do evento. Foto: Neto Vasconcelos

 

Daqui a pouco, entre 15h e 18h30, de graça, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), acontece o I Encontro de Fotógrafas de São Luís, com o objetivo de dar visibilidade às mulheres na profissão e denunciar o machismo ainda presente no ofício.

Maria Thereza Soares e Julyane Galvão são as organizadoras do encontro, que dá continuidade e dialoga com um evento do tipo ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 6, iniciativa da fotógrafa carioca Wania Corredo. Lá a atividade aconteceu em frente à escadaria do Theatro Municipal, na Praça da Cinelândia.

Em São Luís será realizado o registro fotográfico da reunião do grupo, além da exposição dos trabalhos em um varal fotográfico. A ideia, segundo as organizadoras, é projetar o trabalho das profissionais que já estão no mercado e incentivar a participação de outras mulheres no universo fotográfico.

“Há sexismo e outros preconceitos. Os dados das disparidades podem ser obtidos em pesquisas na literatura histórica fotográfica, nos festivais de fotografia, nos prêmios etc. Muitas fotógrafas seguem na invisibilidade mesmo produzindo trabalhos de qualidade. Esse contexto desigual pode ser observado em nível mundial”, afirma Maria Thereza Soares no release enviado à imprensa.

Para Julyane Galvão, “a mulher em seu convívio social tem uma exclusão de diversas funções perante a sociedade. Esse momento de união mostra a garra e competência que qualquer uma de nós é capaz de fazer ou desenvolver atividades. Em relação à fotografia, mostraremos destaques locais que em muitos casos não possuem oportunidades para demonstrar seu trabalho, ou mesmo daremos espaço para que relatem seus depoimentos vividos em seu meio pessoal e profissional”.

O evento deve agregar a presença de brechós e foodbikes.

Um relato humano sobre uma tragédia nacional

Nana Queiroz não temeu envolver-se com personagens. O resultado é uma narrativa leve contando as histórias de um sistema brutal – e covarde

Presos que menstruam. Capa. Reprodução
Presos que menstruam. Capa. Reprodução

A tragédia e os dramas particulares e coletivos vividos no sistema penitenciário brasileiro são, em alguma medida, bastante conhecidos. Sobretudo em tempos de rebeliões e mortes em massa, quando o tema, vez por outra, pauta o noticiário nacional.

A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz mergulhou na realidade de diversas prisões do Brasil, abordando-as com um recorte inusitado: a vida de mulheres – inclusive gestantes e parturientes – tratadas como homens em prisões. O resultado é o comovente Presos que menstruam [Record, 2015, 292 p.], em que a própria autora torna-se personagem: chegou a ser presa por algumas horas diante da intransigência das autoridades penitenciárias.

Nana enfiou literalmente o pé na lama, envolveu-se, meteu a mão no bolso, emocionou-se. E conta diversas histórias a um só tempo brutais e emocionantes. Não é à toa o subtítulo “A brutal vida das mulheres – tratadas como homens – nas prisões brasileiras”.

A autora não torna nenhuma personagem santa, tampouco faz julgamentos – papel da Justiça, não de jornalistas, é sempre bom lembrar. Mergulha nas histórias, contando-as da melhor forma possível, utilizando-se de memória privilegiada (quase sempre era proibida de entrar com gravadores nas prisões) e texto leve (apesar da dureza e crueza do assunto abordado).

Mas engana-se quem pensa que a história acaba aí: Presos que menstruam deve virar filme ou minissérie em breve e tem levado Nana Queiroz a diversos debates país afora: quem sabe não seja o início de um novo momento da discussão sobre a realidade carcerária no Brasil? Leitura fundamental para gestores e operadores do sistema e aos que teimam em propagar a velha e surrada cantilena do “bandido bom é bandido morto”.

Nana Queiroz conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos sobre o livro, jornalismo independente, ativismo e a citada cantilena, reflexo do “ódio social”.

Nana Queiroz em foto de João Fellet
A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz em foto de João Fellet

 

Presos que menstruam é um livro que garante dimensão humana a mulheres encarceradas, algo que falta na prática cotidiana do jornalismo que cobre esta pauta. A seu ver, onde reside o problema?
Eu acho que isso não é um problema do jornalismo, é um problema cultural brasileiro. Eu até entrevistei a responsável pelo sistema penitenciário do Brasil, do Ministério da Justiça, há uns tempos, pr’uma reportagem para a revista Superinteressante sobre bebês encarcerados, e ela falou: “olha, você me desculpa, mas eu nem posso investir muito nesse setor, para melhorar a vida dessas crianças, por que o brasileiro tem tanto ódio no coração, que eles vão pegar pesado em cima do poder público se investir no sistema carcerário”. Por que existe um ódio social mesmo, a velha ideia do “bandido bom é bandido morto”. Essa, pra mim, é a raiz de todos os problemas, que se refletem, claro, na realidade das prisões, se reflete na mídia, se reflete na literatura. Não é à toa que só em 2015 a gente viu o primeiro livro com uma grande reportagem sobre o sistema carcerário brasileiro feminino. É uma questão a ser pensada, é uma questão de ódio mesmo, social.

Um dos grandes trunfos do livro é seu envolvimento com as personagens. De certo modo, você acaba tornando-se uma, por exemplo, no episódio em que ficou retida por algumas horas em uma penitenciária que visitava. O jornalismo precisa enfiar mais o pé na lama, sobretudo ao abordar temas tão difíceis?
Olha, os jornalistas sempre enfiaram o pé na lama, nisso eu não tenho nenhum mérito a mais do que as outras pessoas que fizeram grandes reportagens por aí. O que eu acho que faço de diferente, e não sou precursora – Eliane Brum já vem fazendo isso há anos, por exemplo –, é a conclusão de que sentimento faz parte da realidade. Antes o jornalista tentava transmitir uma realidade fria, em que ele era ausente. Eu entendo, como entende, imagino, a Eliane Brum, que é minha grande ídola [risos], que jornalismo tem fatos, opiniões e sentimentos e cheiros e tatos e paladares e tudo isso. Então, isso foi o que eu tentei transmitir com a minha presença no livro, eu tou presente só pra falar de sentimentos, é só pra eu me botar no lugar do leitor que vai estar lendo. Eu também nunca cometi um crime, e estou me relacionando com mulheres que cometeram, eu tentei pensar como as pessoas poderiam se sentir como eu estava me sentindo. Isso faz parte dessa realidade, isso tem que ser discutido, principalmente quando você tá falando, tratando de uma questão que é praticamente invisível por conta do ódio social. A minha capacidade de chegar lá, ter empatia e amar essas mulheres é importante para que o leitor perceba que se ele estivesse lá, talvez ele também as amasse. E talvez valha a pena recuperar em vez de se vingar. Mesmo do ponto de vista puramente egoísta é mais inteligente para a sociedade. Uma mulher presa custa de 2 a 5 mil reais por mês, dependendo do estado. Uma mulher empoderada, capacitada, custa, sei lá, um curso no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] de mil reais por mês, durante um ano, e depois não custa nada. Sabe? É uma questão do tipo: será que a gente não quer recuperar e prevenir o crime em vez de punir, castigar e só se sustentar enquanto sociedade na base do olho por olho e dente por dente?

Como você custeou as despesas para realizar o livro e qual a maior dificuldade em escrever a obra?
Como eu custeei as despesas? Com meu dinheiro, trabalhando [risos]. Ninguém me deu dinheiro nenhum. Eu fui fazendo essa pesquisa nas minhas folgas, férias, finais de semana, com meu próprio dinheiro. Quando a editora entrou eles me deram um pequeno adiantamento, mas a maior parte do livro já tava escrita, a apuração já tava feita. Claro que o adiantamento da editora superajudou, a editora é ótima, tem profissionais ótimos, a Record, mas grande parte foi tirada do meu bolso, como um ato de fé no projeto.

Seu livro deve virar filme ou série de televisão. Como estão as negociações?
Sim. A gente viu já um edital em Brasília, de 100 mil, para fazer o piloto, agora a gente tá negociando para possíveis patrocinadores. A ideia é produzir o piloto primeiro, com toda liberdade criativa, de ideal e ética que a gente quiser ter, e depois ver que canais topam comprar o projeto do jeito que ele é. Esse ano a gente está investindo muito dinheiro pra que ele cresça, fazendo várias negociações com vários canais, e a ideia é começar a gravação lá pro fim do ano que vem, mesmo.

Seu relato humanizado é escoltado por pesquisas acadêmicas e obras em geral sobre a questão carcerária, embora ainda insuficientes. Em que medida você acredita que seu livro preenche uma lacuna importante sobre o assunto?
Poxa, cara, relato humanizado. Eu sempre acredito que antes de ser jornalista eu sou ser humano e eu não acredito naquele mito de que eu tenho que tirar minha roupa de ser humano pra ser jornalista, sabe? Eu acho que, como aquele jornalista que eu conheci a história dele na época da faculdade, me marcou muito e eu decidi que nunca ia deixar de ser humana antes de ser jornalista. É um fotógrafo famoso [o sul-africano Kevin Carter, vencedor do Pulitzer em 1994], tava cobrindo a fome na África e fotografou uma criança no momento em que ela morria e um urubu descia sobre ela pra comê-la, e ele depois se suicidou de culpa por não ter ajudado aquela criança. Eu decidi que eu sempre ia ser o tipo da jornalista que põe a mão na lama, ajuda a criança e perde a foto, e depois, se der tempo, eu conto a história. Eu acho que seria uma história muito mais incrível, de como esse cara salvou essa criança, do que a fotografia da morte e da força da morte. Eu acho que é isso, esse é o relato que eu tento fazer, o relato do ser humano que acontece de ser jornalista e não do jornalista que eventualmente é ser humano.

Em torno de seu livro, campanhas têm sido deflagradas em diversos estados do Brasil em favor de mulheres apenadas. Em São Luís, o Coletivo Fridas realizou a campanha Ciranda de Afetos, em que arrecadou doações, sobretudo de kits de higiene e absorventes, e doaram a detentas, além de lhes proporcionarem momentos lúdicos. Ao escrever o livro você vislumbrava este engajamento? O que acha deste tipo de iniciativa?
Nunca, jamais, nenhuma atitude que eu tive como jornalista ou como ativista eu pensei que as pessoas fossem se engajar o tanto que elas se engajaram. O Eu não mereço ser estuprada [campanha contra a culpabilização das vítimas de estupro] foi uma puta surpresa pra mim, o Presos que menstruam, por toda essa mobilização ao redor do mundo foi uma surpresa igual. Eu nunca imaginei, mas foi um acalento tão gostoso. Produzir esse livro me deixou derrotada, desesperançada. Ver que o mundo se preocupa, ver agora as pessoas se preocupando com as crianças presas, é para mim um acalento sem igual.

Você é editora da revista Az Mina, de temática feminista. A revista online também amarga suas dores e delícias. A importância da iniciativa compensa as dificuldades?
Engraçado cê perguntar isso: hoje eu acabei de fazer um post, eu nunca trabalhei tanto, fui tão mal paga e fui tão feliz [gargalhada]: ô, se compensa! E compensa por que a gente tem um grupo de leitores crítico que não deixa a gente em paz. Eu adoro isso, sabe? Eu adoro esse clima de, tipo, “eu tou em cima, vocês não vão fazer merda!”. Isso é que devia ser o jornalismo em todo lugar, entendeu? Isso devia ser o jornalismo na grande mídia, isso é jornalismo! É tipo você fiscalizar o poder público, mas você ter o povo fiscalizando você, entendeu?. A gente não é o quarto poder pra ser o quarto poder, que é onipotente. A gente é o quarto poder fiscalizado pelo quinto, que é o povo. Eu acho incrível! A nossa redação é uma redação amorosa, em que o conceito de sororidade, que é esse conceito da irmandade entre as mulheres, chega a seus limites. A gente está sempre aberto a críticas, a gente fala umas com as outras, às vezes até para apontar defeitos, mas de maneira muito amorosa, então a gente tá construindo uma coisa especial, acima da média.

Seu depoimento à campanha #primeiroassedio, do coletivo feminista Think Olga, relatou um abuso sofrido aos cinco anos de idade, de um colega de infância praticamente da mesma faixa etária. Em que medida o sofrimento com a situação levou você ao ativismo em defesa dos direitos das mulheres?
Eu nunca tinha tido coragem de falar desse sofrimento antes, em nenhuma outra entrevista, mesmo durante o Eu não mereço ser estuprada, e é duro pra mim. Eu acho que em muitos momentos eu não quis falar por que eu não queria que a minha história pessoal tivesse mais destaque do que a causa em si. E eu continuo não querendo. Mas eu partilhei o meu relato no Primeiro assédio, por que eu achei que o Primeiro assédio merecia engajamento, merecia que as pessoas contassem histórias que iam muito além do assédio para chegar ao estupro e ao abuso sexual severo, como foi meu caso, que me marcou a vida inteira e foi misturado com um quê de culpa cristã mal administrada e um pouco de fanatismo religioso, foi bem grave. Por que eu conto isso? Por que muita gente não sabe que se você for abusada por uma criança não significa que você não foi abusada. Você foi, as características de estupro estão todas lá. É como se você for assassinado por uma criança de sete anos não significa que você não morreu. Então, o estupro por uma criança de sete anos não significa que você não foi estuprada, é o meu caso. Eu, hoje, avalio que a culpa não foi dessa criança, mas dos adultos que estavam ao redor e educaram essa criança pro abuso, por conta de uma cultura extremamente machista, de uma casa que era muito machista, a dele, eu conheço a família dele. Eu [pausa] não sei, eu sei que essa pessoa se tornou um homem difícil de lidar, mas eu tento encontrar [algo] dentro do meu coração para transformar essa dor em construtividade, assim, na vontade de querer que isso não aconteça com outras pessoas, e isso me consola, sabia? Isso me consola.

Bem-vind@s ao século XXY!

Começa hoje no Cine Praia Grande a II Mostra de Cinema Trans; veja programação completa e leia entrevista exclusiva com a ativista transfeminista Hailey Kaas

XXY. Capa. Reprodução

 

A literatura e o cinema argentinos não poupam suas personagens. Tudo é cru, quase cruel – mas antes de tudo, verdadeiro. Em XXY [2007, Argentina/França/Espanha, drama, 90 min., direção: Lucia Puenzo], Alex enfrenta o drama de ter nascido com características de ambos os sexos e a consequente – pois naturalizada, infelizmente – vontade de parte da sociedade e de sua própria família mudá-la/o – e grafo ambos os gêneros para falar da escolha que ela/e (não necessariamente) terá que fazer, sem querer soar spoiler.

O cinema argentino não poupa sequer a própria Argentina: os pais de Alex (Inês Efron), de 15 anos, mudam-se para o Uruguai tentando fugir da arrogância de gente que acha que sabe de tudo – como dizem as personagens –, para os quais a/o menina/o seria uma aberração que deve ser corrigida a qualquer custo. Caso do cirurgião Ramiro (Germán Palacios), durante cuja visita à família se desenrola este comovente drama.

Durante a visita, Alex e Alvaro (Martín Piroyansky), 16, este, filho do cirurgião, sentem-se ambiguamente atraídos. São momentos de descobertas e revelações cruas e, talvez por isso mesmo, poéticas. O pai de Alex, o biólogo Kraken, interpretado por Ricardo Darin, merecidamente um dos melhores e mais conhecidos atores argentinos em todos os tempos, até então desconhecia as reais intenções de seus visitantes, chegados a convite de sua esposa (Suli, interpretada por Valeria Bertuccelli), o que tornará mais forte a ligação entre pai e filha/o, na altura em que a vida lhes dá novas lentes para enxergar o que é “normal”.

O filme é baseado em um conto de Sergio Bizzio, que assina o roteiro com a diretora, filha de Luis Puenzo, cujo A história oficial, de 1985, foi o primeiro filme latino-americano a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro – curiosamente, o segundo (e são os únicos até aqui) seria o também argentino O segredo de seus olhos (2010), de Juan José Campanella.

XXY integra a programação da II Mostra de Cinema Trans, organizada pelo Fórum de Mulheres Maranhenses, que será aberta hoje (22), às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Os ingressos, a preços promocionais, custam R$ 5,00, à venda no local, e a atividade integra o mês da Campanha Internacional pela Despatologização das Pessoas Trans. A programação acontece até sábado (24, veja completa ao final do post).

O blogue conversou com exclusividade com a ativista transfeminista Hailey Kaas. Após a sessão inaugural da mostra, ela participa de debate com a ativista trans Andressa Sheron. Além da exibição do filme Teste da vida real, a noite contará ainda com performance de Andrezza Maranhão.

Hailey Kaas, que também é tradutora, está em São Luís desde a tarde de ontem (22), quando participou de reunião do Fórum Maranhense de Mulheres. Indaguei-lhe o porquê de ela sempre grafar um asterisco após usar a palavra trans e tive este link recomendado. Leia a conversa.

A ativista trans Hailey Kaas, em foto de seu perfil no facebook
A ativista trans Hailey Kaas, em foto de seu perfil no facebook

 

ENTREVISTA: HAYLEY KAAS

O que é transfeminismo?
Resumidamente, transfeminismo é uma corrente feminista orientada para as questões das pessoas trans*. Ele nasce da necessidade das pessoas trans* para se organizar em torno de pautas feministas, assim como para demandar inclusão e participação e no feminismo mainstream que historicamente só representou e representa um único tipo de mulher considerado universal, a mulher branca, heterossexual, magro, de classe média, cisgênera. Percebemos que havia necessidade de nos organizarmos em uma corrente separada que desse conta de discutir nossas questões específicas ao mesmo tempo que seríamos aliadas das pautas hegemônicas do feminismo, que, inclusive, ressoam muito com as nossas próprias, como direito ao próprio corpo, igualdade de gênero, combate ao machismo e ao binarismo de gênero etc.

O conceito é recente e você uma das primeiras teóricas do assunto. Isso torna tudo mais difícil?
É difícil na medida em que você se vê sozinha lutando contra uma grande resistência dentro e fora da academia e dos espaços militantes que acreditam que o transfeminismo é desnecessário ou separatista. Além disso, é sempre mais difícil falar de algo que ninguém nunca ouviu falar e que consequentemente não consegue perceber ou entender como necessário.

O que é mais difícil: lutar contra o machismo generalizado ou contra a transfobia partindo de feministas?
Eu poderia dizer que é igualmente difícil lutar contra o machismo dentro da esquerda, por exemplo. Temos uma tendência a pensar os movimentos sociais e a esquerda como isentas de homofobia, bifobia, lesbofobia, transfobia, machismo, racismo etc., quando na realidade, como parte da sociedade, também somos influenciados ideologicamente para todos esses comportamentos e pensamentos preconceituosos. Parte da esquerda se acha eticamente infalível e impassível de reproduzir preconceitos. O mesmo vale para certos setores do feminismo que são não somente transfóbicos, mas também racistas, homofóbicos, bifóbicos, lesbofóbicos etc. O problema está em não discutirmos isso achando que o “inimigo” está só “lá fora”, na bancada evangélica, por exemplo. Na realidade, quando discutimos e problematizamos esse tipo de coisa na esquerda só temos a ganhar e a aperfeiçoar a forma como militamos e como compreendemos os outros. Por outro lado, estar em espaços teoricamente seguros e da militância onde eu sei que serei hostilizada simplesmente por ser trans* por algumas feministas é de fato bastante desempoderador.

Em que medida o “cross-dressing” da cartunista Laerte contribui com a luta trans no Brasil? O que você acha da postura dela?
Acho que Laerte não pode ser regra e nem exemplo, afinal ela parte de uma posição que de longe não é o padrão da população trans*: branca e classe média. Por outro lado, sempre ganhamos quando temos representações de pessoas trans* que são mais críticas em relação às questões de gênero na mídia. Laerte tem mais bagagem feminista e de gênero porque também tem fortalecimento e estrutura econômica para tal. Isso não é errado ou uma crítica, apenas uma constatação de que a situação corrente das pessoas trans* é bem diferente da de Laerte.

O escritor João Paulo Cuenca em artigo na Folha de S. Paulo defende o “outing” de usuários de drogas e compara: “Ativistas costumam justificar a evasão da privacidade alheia por combater a hipocrisia num mundo onde gays são alvo de preconceito e violência”. Na sua opinião, pessoas famosas, sobretudo artistas e políticos, declarando publicamente sua orientação sexual ajudaria a combater o preconceito? Você concorda com o escritor neste aspecto?
Acho representatividade importante. Para as minorias marginalizadas é muito fortalecedor ver que existem pessoas como você lá fora, ganhando a vida sem estar nos empregos precarizados que a sociedade nos reserva. Por outro lado, representatividade não deve e nem pode ser o objetivo da militância, afinal temos uma presidenta e pouco se avançou nas questões feministas nesses últimos anos; ao contrário, há enormes retrocessos com a anuência do governo, inclusive.

A Lei Maria da Penha é um avanço na proteção à mulher, mas muitas vezes, mulheres sequer conseguem registrar queixas em delegacias, por conta do péssimo atendimento e da revitimização – em casos de estupro, por exemplo, é comum, infelizmente, a culpabilização da vítima. Em que medida essa legislação específica é importante no combate à transfobia e ao feminicídio?
As legislações são importantes, a meu ver, mais ou menos como a questão da representatividade: são importantes como marcos, como elemento de fortalecimento, de reconhecimento, mas são inócuas sem uma estrutura por trás e sem trabalho de base nas escolas e nos espaços de formação dos sujeitos. O machismo não é uma doença que acomete o sujeito, mas sim um projeto social ensinado às pessoas em todos os espaços de convivência e de formação.

Qual a sua opinião sobre a recente fusão dos ministérios de Direitos Humanos, Igualdade Racial e Mulheres em uma única pasta no âmbito do governo federal?
Sem dúvida alguma um retrocesso, fruto de um governo traidor de classe que governa com o capital. Os bancos continuam lucrando com recordes trimestrais e, no entanto, as medidas que atacam os trabalhadores e a austeridade vieram com força no primeiro ano do governo que havia prometido exatamente o contrário. Acredito que isso só vem provar que, de fato, não se pode ter um governo conciliador de classes porque no fim somente a classe dominante rica é privilegiada. Sou socialista e bastante crítica ao atual governo Dilma e aos movimentos que a defendem. Não podemos continuar a defender uma militância LGBT, feminista, antirracista ou o que quer que seja, senão por uma perspectiva socialista, uma vez que, dentro do capitalismo, estaramos sempre sujeitos a sermos “rifados” em prol do “bem maior”: o capital e seus mantenedores.

Outubro é o mês da Campanha Internacional pela Despatologização das Pessoas Trans. Em que consiste a campanha? Poderia falar um pouco sobre ela?
A campanha existe faz alguns anos e veio para divulgar o assunto e combater a patologização das identidades trans* materializada principalmente pela revisão do DSM que estava prevista para 2012. O DSM é um documento da Associação de Psiquiatria Americana (APA), que classifica e patologiza os comportamentos, incluindo a transexualidade. Esse documento tem uma força regulatória quase sempre soberana sobre as políticas de atendimento à saúde de pessoas trans*.

Você participa da Mostra de Cinema Trans em São Luís. Após a sessão de abertura, com a exibição de Teste da Vida Real, você debate o filme. Poderia falar um pouco sobre ele?
O filme é muito importante para ilustrar o impacto da patologização sobre nossas vidas. Ele traz uma abordagem bastante empírica de como os estereótipos trans* e o estigma que recaem sobre nós atrapalham nossas vidas, nos desumanizam e previnem nosso acesso aos espaços e principalmente ao sistema de saúde. Também mostra como os profissionais psi desconhecem completamente a questão da transexualidade e se guiam por estereótipos pré-estabelecidos sobre o que é ser homem ou mulher socialmente.

Programação

Hoje (22)
19h: Exibição do documentário Teste da vida real, de Florencia P. Marano | Performance de Andrezza Maranhão | Debate com Hailey Kaas (ativista e teórica transfeminista) e Andressa Sheron (ativista trans)

Sexta (23)

9h: Minha vida em cor de rosa (exibição para alunos de escolas públicas), de Alain Berliner
14h: Minha vida em cor de rosa

18h30: XXY, de Lucia Puenzo

20h: Hedwig – rock, amor e traição, de John Cameron Mitchell

Sábado (24)

18h30: Meninos não choram, de Kimberly Peirce

20h: Para Wong Foo, obrigada por tudo! Julie Newmar, de Beeban Kidron