Em São Luís, Mário Rodrigues antecipa novo romance

Foto: Windisley Thiago. Ascom/Secult

 

Há diversas maneiras e razões pelas quais alguém se torna escritor. Inclusive, de uns tempos pra cá, após cursos de escrita criativa, laboratórios, oficinas, cursos superiores de Letras e que tais.

Há quem acredite em dom ou talento inato. Ou destino. Ou acaso.

Na tarde de ontem (21), no Espaço Juventude da 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), o bem-humorado escritor garanhuense Mário Rodrigues conversou com a jornalista e escritora Talita Guimarães em mais uma edição do Literatura Mútua.

Ele contou uma história bonita, que me deixou, como diria Paulo Mendes Campos, “comovido como o diabo”, que tento reproduzir aqui.

O pai do menino Mário foi demitido e o patrão não tinha como lhe pagar indenização. Entre o prejuízo completo, o ex-empregador resolveu dar-lhe, em compensação, cinco máquinas de escrever. Ao então desempregado de nada serviriam, mas era melhor que nada. Tinha quatro filhos, deu uma máquina de escrever a cada um.

A Mário restou uma Olivetti vermelha, daquelas que ao serem fechadas se transformam em uma maletinha. Diante da máquina, o menino colocou uma folha de papel a4 no cilindro e começou a batucar um conto, nada original, nada inspirado, segundo o relato do autor de A cobrança [Record, 2018], relatando a situação: um menino que ganha uma máquina de escrever do pai.

“Meu pai era aquele homem de pedra, nordestino autêntico, daqueles que nunca se viu rir ou chorar”, lembrou. “O macho-jurubeba no dizer de Xico Sá”, pensei na plateia, mas não quis interromper a história. “Mas eu gosto de imaginar que ao ler, na minha frente, aquele conto que lhe entreguei, vi seus olhos marejarem”, continuou. Anos depois, quando da morte do pai, descobriu que ele havia guardado o texto pelo resto da vida.

Os anos se passaram e Mário se tornou professor de português, literatura e redação e autor merecidamente festejado: com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record, 2016] venceu o prêmio Sesc de Literatura e foi finalista do Jabuti.

O autor continua morando na Garanhuns natal, tida como Suíça brasileira, pelo frio que faz à noite, terra que também deu ao Brasil Luís Inácio Lula da Silva. Fui vê-lo à tarde numa espécie de preparação para a mesa que eu mediaria à noite, com o tema “A taça do mundo não foi nossa”.

Mário Rodrigues discorreu sobre influências – Cormac McCarthy, Raymond Carver, Rubem Fonseca e principalmente Graciliano Ramos, com quem mais se identifica graças à dicção. Lembrou-se do zumbido dos minutos iniciais da adaptação cinematográfica de Vidas secas, por Nelson Pereira dos Santos, a dizer que é o tipo de detalhe que persegue ao fazer literatura.

Ao comentar seu processo criativo, revelou primeiro eleger um assunto. Depois mergulhar em uma meticulosa pesquisa sobre. E só depois colocar tudo no papel. No intervalo entre uma mesa e outra conversamos um pouco. E o que ele me revelou, me deixou curioso e ansioso de tal modo, que não pude evitar pedir-lhe que compartilhasse aquela novidade com o público presente.

Mário Rodrigues era, para mim, um autor recém-descoberto, ainda estou sob o impacto da leitura de A cobrança, assunto do post anterior deste blogue. Não li (ainda) Receita para se fazer um monstro, que é um livro de contos que versa sobre a formação de um ser humano repugnante – o monstro do título.

A mesa da noite também transcorreu em clima descontraído, entre aspectos do futebol e (da história) do Brasil abordados por sua ficção ancorada na realidade. As semelhanças nos messianismos de Fernando Collor em 1989 e Jair Bolsonaro em 2018, a vingança coletiva, contra o país que tudo lhe negou, tramada pelo protagonista de A cobrança, seu gracejo ao responder uma curiosidade da plateia: seria, necessariamente, um escritor que escreve tão bem sobre futebol, um bom jogador de futebol? “Há uma característica raríssima em jogadores de futebol que os diferenciam de todos os outros: escanear o campo. O jogador sabe exatamente onde estão seus companheiros e seus adversários. Eu só conheço quatro, com essa capacidade: Pelé, Tostão, Lionel Messi e eu”, revelou, esbanjando bom humor, para gargalhada geral dos presentes.

E discorreu em detalhes sobre o futebol-arte, lembrando partidas antológicas de diversas seleções brasileiras, de 1930, ano da primeira Copa do Mundo, no Uruguai, até o Brasil inventar sua própria maneira de jogar bola, em 1950. “Depois, em 1958, o Brasil vence sua primeira Copa do Mundo. Era o Brasil sendo o melhor no que todo mundo queria ser. É fácil o Brasil ser bom em samba: só tem samba no Brasil”, comparou.

Lembrou os campeonatos mundiais conquistados em 1962 e 1970. Descreveu à perfeição lances antológicos, como o drible que Pelé dá, sem tocar na bola, em Mazurkiewicz, goleiro uruguaio, na semifinal da Copa de 1970. “Após o passe de Tostão, na medida, Pelé surge do nada, feito um raio, e após tirar o goleiro com o corpo, por milímetros a bola vai pra fora”, relembrou o não-gol mais bonito da história do futebol.

Depois algumas seleções memoráveis, sobretudo a de 1982, “com o melhor meio-campo de todos os tempos: Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo. Vejam a diferença, Zico do Flamengo, Sócrates do Corinthians, Falcão do Internacional, e Cerezo do Atlético Mineiro. Não apenas clubes brasileiros estavam representados, mas estados”, comentou, antes de discorrer sobre a derrocada do futebol brasileiro, tema também de A cobrança. “Nos perdemos querendo imitar os europeus, graças à nossa síndrome de vira-latas, como diria o grande Nelson Rodrigues”.

Já havíamos falado do presente (A cobrança, publicado este ano) e do passado (Receita para se fazer um monstro, de 2016). Eu não podia, diante do impacto, perder a oportunidade. Repeti-lhe, diante do público, a pergunta-clichê, inevitável, que já havia feito em off, instantes antes da mesa: e o livro novo?

O argumento incrível e o inusitado de como a história lhe caiu no colo, até agora ribombando em minha cachola, me fez novamente pensar no que faz de alguém um escritor – acaso? Sorte?

Sem firulas, Mário Rodrigues não se fez de rogado e revelou o mote e parte do enredo: “eu estava, no carnaval, almoçando com umas tias setentonas, que comentavam sobre um tio, já falecido, que trabalhava no serviço secreto. Era um tio sensível, escrevia versos, tocava acordeom, me ensinou a dirigir, era aquele a quem todos da família recorriam quando tinham problemas. Quando eu era mais jovem e ouvia falar nesse serviço secreto, imaginava algo meio James Bond; fui pesquisar e descobri que ele era um agente da repressão, um torturador que trabalhou no Doi-Codi, sob o comando de Carlos Alberto Brilhante Ustra, nos anos mais pesados da ditadura militar. Ou do regime militar, como queiram. Era no governo Médici, tido como o mais duro do período. Meu tio cresceu tanto na hierarquia do exército que quando Médici ia até São Paulo, ele era escalado para ser seu motorista particular. O livro vai se chamar O motorista de Médici”, antecipou.

Cá estou, ansioso por ler, a esperar este seu novo livro, certamente uma das grandes obras da literatura brasileira em 2019.

Gol de letra!

A cobrança. Capa. Reprodução

 

Antes da resenha propriamente dita, uma confissão de dois arrependimentos: o primeiro, não ter lido A cobrança [Record, 2018, 207 p.; R$ 38,00; leia um trecho], de Mário Rodrigues, antes da Copa do Mundo e das eleições; o segundo, não ter escrito sobre, idem.

Vencedor do prêmio Sesc de Literatura em 2016, com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record], finalista do Jabuti ano passado, o pernambucano de Garanhuns lançou este ano seu romance de estreia.

Ficção alicerçada na realidade, o livro cuja capa evoca o patriotismo à guisa de “os corações nas pontas das chuteiras”, tem enredo construído em um bem trabalhado jogo de flashbacks, entre tragédias pessoais e coletivas.

A ação se dá entre o exato instante em que seu protagonista se dirige para cobrar um pênalti, o último da série inicial de cinco, na final da Copa do Mundo da Rússia, contra a Alemanha – cabe lembrar que o romance foi publicado antes da Copa do Mundo de 2018 –, enquanto um filme inteiro se passa em sua cabeça enquanto se dirige à marca de cal.

Professor de literatura, português e redação e crítico literário, Mário Rodrigues tem domínio absoluto da linguagem, equilibrando-se entre a vida trágica de seu personagem, citações bíblicas e da Constituição Federal de 1988 – cujo artigo 5º. desdobra-se nas epígrafes ao longo do livro –, promulgada em 5 de outubro daquele ano, mesma data de nascimento do protagonista.

No “país do futebol” não faltam livros sobre o esporte: de À sombra das chuteiras imortais [Companhia das Letras, 1993], do cronista Nelson Rodrigues, passando pelo belo tributo A pátria em sandálias da humildade [Realejo, 2016], do também cronista Xico Sá, passando por Veneno remédio [Companhia das Letras, 2008], ensaio sociológico de José Miguel Wisnik, e Páginas sem glória [Companhia das Letras, 2012], de Sérgio Sant’Anna.

A maioria está ancorada nas alegrias e tristezas de vitórias e derrotas reais, entre grandes clássicos e partidas sem importância (o que chamaríamos cumprir tabela). Apesar da derrocada do futebol ao longo dos anos, com a profissionalização, a publicidade tomando conta de tudo, os apelidos em desuso, dando lugar aos nomes compostos, estádios transformando-se em arenas, frequentadas não mais por quem ama o futebol acima de tudo, mas por quem, acima de tudo (e de todos) tem dinheiro para comprar os ingressos, entre uma série de outros aspectos também abordados pela prosa de Mário Rodrigues.

Sua ficção também se baseia em fatos reais: a humilhação do 7×1, diversos lances que poderiam ter mudado o rumo de partidas e, consequentemente, de campeonatos, a não efetivação na vida prática do conjunto da população de diversos direitos constitucionalmente garantidos, escândalos e tragédias da arena política.

Ao conduzir seu protagonista a um acerto de contas com sua própria história, seu passado, e o Brasil que tanto lhe subtraiu, a ficção de Mário Rodrigues conduz seu leitor a um acerto de contas com o passado (d)e um país em um momento decisivo de nossa história.

Serviço

O escritor Mário Rodrigues participa de duas mesas hoje (21) na 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). Às 16h, com mediação da jornalista e escritora Talita Guimarães, no projeto Literatura Mútua, no Espaço Juventude. Às 19h30, com este que vos perturba, no Auditório Graça Aranha, em mesa com o tema “A taça não foi nossa”. A FeliS acontece no Multicenter Sebrae (Cohafuma), com entrada franca.

O vírus linguagem e a imensidão de Ramon Nunes Mello

Ramon Nunes Mello e Celso Borges, ontem (19) na FeliS. Foto: Zema Ribeiro

 

Vi ontem, pela manhã e à noite, as duas mesas de que Ramon Nunes Mello participou na Feira do Livro de São Luís. E se não disse o poeta Ramon Nunes Mello é simplesmente por que epítetos não lhe comportam: além de poeta, dos bons, é jornalista, ator, militante de direitos humanos. E está soropositivo, para usar sua própria expressão.

Impressiona-me a força de Ramon, cuja poesia, e sua força, conheci há quase 10 anos quando lançou seu primeiro livro, Vinis mofados [Língua Geral, 2009] – depois ele publicaria Poemas tirados de notícias de jornal [Móbile, 2012] e Há um mar no fundo de cada sonho [Verso Brasil, 2016]. A consistência de sua poesia e de seu refletir sobre poesia, imaginação e crítica caminhando lado a lado – “linguagem é um vírus”, no dizer de William S. Burroughs com que o próprio autor dialoga, ele cuja dissertação de mestrado versou sobre a obra poética de Adalgisa Néri (de cuja obra é curador, bem como do poeta Rodrigo de Souza Leão). Para quem quiser mais credenciais, foi ele quem organizou, com o cantor, Vira-lata de raça [Tordesilhas, 2018], a recém-lançada autobiografia de Ney Matogrosso.

Ramon descobriu estar com o vírus HIV às vésperas de uma viagem, em 2012, para Londres, onde passaria um mês em uma residência literária. Encarou a travessia do oceano deixando para depois pensar no que fazer com a notícia. Ao voltar e conversar com amigos próximos e familiares, resolveu ser um dos poucos entre os 800 mil brasileiros soropositivos a falar abertamente sobre o tema (no mundo são 37 milhões de pessoas infectadas).

“Tente entender o que tento dizer” era o tema da/s mesa/ (mediada/s pelo poeta Celso Borges) – pela manhã, o Café Literário estava repleto de estudantes aparentemente do ensino médio, que não lhe pouparam de perguntas, digamos, extraliterárias; à noite, no Auditório Graça Aranha, o principal da 12ª. FeliS, o público ligeiramente maior foi mais tímido.

O tema da mesa é o título do livro, organizado por ele, lançado este ano pela editora Bazar do Tempo – a mesma que publicou Tudo em volta está deserto, de Eduardo Jardim, outro autor que per/segui na Feira (em uma fala que, como sua obra, busca recolocar o maranhense Graça Aranha, patrono desta FeliS, no seu devido lugar no Modernismo brasileiro) e antes (no lançamento do citado livro em uma agradável noite de afetos no Chico Discos).

Ramon reuniu 96 poetas que escreveram sobre “poesia + HIV/Aids”, como indica o subtítulo do livro que tem desde poetas muito jovens, ainda sem livro lançado, até nomes consagrados como Antonio Carlos Secchin, Chacal, Silviano Santiago e Viviane Mosé, entre muitos outros, além do próprio organizador – somente três dos autores são soropositivos e o fato de sua opção não fazer este recorte leva em conta a necessidade de todos lidarmos com o assunto, escritores ou leitores.

O livro é dividido em três partes, linguagem, memória e corpo, e há uma impressionante diversidade de representações: homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais e transexuais, jovens e velhos, brancos, negros e indígenas, soropositivos e soronegativos.

Ao fazer a opção de falar abertamente sobre o tema, o próprio Ramon personifica a desmistificação de um destino trágico, cruel e rápido, cretinamente ilustrado pela capa da revista Veja do início da década de 1990, com a agonia de Cazuza – um dos vários nomes a quem o livro é dedicado, todos vítimas do vírus, quando este ainda era uma incógnita e os remédios eram, além de inacessíveis, em geral agressivos.

Tente entender o que tento dizer. Capa. Reprodução

A poesia selecionada por Ramon em Tente entender o que tento dizer não é panfletária, tampouco ele se torna um poeta ativista – embora as duas coisas, como dito, convivam nele. Apesar de vida e obra se confundirem, uma coisa é uma coisa.

O título do livro foi retirado de uma carta do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu publicada no jornal O Estado de S. Paulo – outro nome a quem o livro é dedicado, foi uma das primeiras personalidades brasileiras a falar abertamente sobre o assunto, ainda na década de 1990, que também levou Renato Russo (outro a quem o livro é dedicado), ambos também vítimas de complicações decorrentes do vírus HIV.

A bonita capa do livro traz o título sobre uma obra do artista plástico Leonilson (mais um!), cuja reprodução da obra original aparece na orelha, conforme autorização e exigência da família. Não li o livro (ainda), conheci alguns poemas ditos por Ramon e Celso, e o esforço deste texto é tentar reter algo da participação iluminada de seu organizador na FeliS.

Digo iluminada aqui, não no sentido de ungi-lo – nem eu tenho este poder, nem é seu desejo. Digo iluminada em oposição a trevosa, como muitos ainda querem o tema HIV/Aids – inclusive com declarações desastrosas do presidente eleito, que sinalizou ameaças ao tratamento de soropositivos no Brasil, pensamento tacanho de alguém cuja cabeça ainda vive no mundo da época da epidemia. Ou antes.

Os recursos obtidos com a venda do livro, com a cessão dos direitos autorais por parte dos autores, são revertidos em favor da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), fundada por Betinho, o sociólogo Herbert de Souza – que também fundou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida –, e Herbert Daniel, outros dois nomes a quem o livro é dedicado.

Ao longo de sua/s fala/s, Ramon discorreu também sobre os bastidores da feitura do livro, da ideia, do recrutamento dos autores, do interesse da editora – a maioria das etapas resolvida através de contatos por redes sociais, demonstrando o poder desta ferramenta também para o bem (perdoem aqui o inevitável maniqueísmo).

Ramon não fugiu de nenhuma pergunta, entre literatura, política, HIV/Aids ou mesmo sua vida pessoal. Não é oportunista, no entanto: não faz de sua condição um caça-níqueis. Mas como bom “antena da raça”, pauta o debate sobre o tema, acreditando, com razão, que o melhor remédio para o preconceito e a ignorância são o amor, o diálogo e a solidariedade.

Convivendo com o HIV, Ramon colocou-o em seu devido lugar: o vírus não é protagonista, não é seu próprio corpo, é apenas um inquilino. Sua lição, poética, é aprender a dar valor ao que merece. Antes do HIV, Ramon já havia sido infectado pelo vírus da poesia, da literatura, das artes, da linguagem, este, para sorte sua e nossa, o vírus protagonista de sua história.

São Luís em palavras hoje (17) na FeliS

São Luís em palavras. Capa. Reprodução

 

Em suas 11 edições, já participei da Feira do Livro de São Luís (FeliS) em várias condições: comprador compulsivo de livros, repórter, compondo mesas de debates, ou como integrante de sua equipe de curadoria.

Hoje, pela primeira vez, participo como autor: integro o time de 33 vozes de São Luís em palavras [Aquarela Brasileira, 2017, 195 p.], organizado por Celso Borges e Wagner Merije, que será lançado hoje (17), às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Baita honra dividir o volume com, entre outros/as, Andréa Oliveira, Bruna Castelo Branco, Celso Borges, Eduardo Júlio, Ed Wilson Araújo, Félix Alberto Lima, Fernando Abreu, José Reinaldo Martins, Lissandra Leite, Marilda Mascarenhas, Otávio Rodrigues, Talita Guimarães e Wilson Marques, para citar apenas os/as colegas de profissão.

Compareço às páginas com Contradições ilhéus, que é uma versão atualizada deste texto que publiquei em 2008 na bilíngue-francesa Brazuca, a convite do jornalistamigo Daniel Cariello, que conheci nos tempos do Overmundo.

Apareçam!

Bumba meu boi, poesia, literatura infantil e direitos humanos

Bumba, nosso boi. Capa. Reprodução
Bumba, nosso boi. Capa. Reprodução

 

Jornalista de ciência, Diego Freire parte da mais conhecida manifestação da cultura popular do Maranhão, o bumba meu boi, para discutir a questão do bullying. O resultado é o belo livro-poema Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016, 40 p.], verdadeira obra-prima da literatura infantil, ilustrado por Rogério Maroja, com trabalhos espalhados por revistas como Superinteressante, Recreio, Placar, Saúde e Playboy.

A dedicatória a Papete, um dos maiores embaixadores da cultura maranhense mundo afora, evoca o Boi de lágrimas, clássico de Raimundo Makarra, gravado pelo próprio Papete e tantos outros: “também sente dor, e boi também chora”, diz a letra. É um mote para entrar no debate.

O poema conta a história de Bumba, o boi preferido do fazendeiro, cuja língua desejada por Catirina, é arrancada por Pai Francisco para satisfazer o desejo da esposa grávida, tal qual no auto do bumba meu boi.

Mas no poema de Diego Freire, em vez de morrer e ser ressuscitado pela pajelança de índios e cazumbás, “Bumba acabou sem língua” e “passou por poucas e não tão boas com os outros bichos da fazenda, que caçoavam do jeito diferente como ele passara a falar”.

O autor extrapola o universo do bumba meu boi do Maranhão e propõe o diálogo da lenda central do auto da manifestação com outras lendas bastante conhecidas em todo o Brasil: o Saci, a Mula sem Cabeça e o Boitatá, “que, bem, nem boi é”.

As criaturas, que a princípio deviam assustar o protagonista Bumba, acabaram por se afeiçoar a ele, que afinal havia encontrado sua turma: “Mas Bumba sorriu em vez de gritar./ “Parece que enfim achei meu lugar!”/ É que Bumba viu que toda aquela “gente”/ era como ele: diferente”.

O poema conta uma história de superação, por um viés sui generis, o que demonstra que o auto do bumba meu boi é fonte inesgotável de metáforas para compreendermos melhor o mundo, nosso lugar nele e lutar pelo fim das injustiças sociais – afinal, não é disso que tratou o enredo junino desde sempre?

Para ser lido em qualquer época, não apenas por crianças, Bumba, nosso boi é um livro, no fundo, sobre “direitos humanos”, expressão em geral detratada pelos que insistem em sua abstração como uma espécie de entidade sobrenatural, generalizando órgãos e instituições como “defensores de bandidos”.

O grande trunfo do livro de Diego Freire reside bem aí: escolhe um tema, apresenta sua necessidade de debate e faz isso de maneira leve, longe, muito longe de soar panfletário. Sobra até para a hoje onipresente Galinha Pintadinha.

O autor, em foto de divulgação
O autor, em foto de divulgação

Serviço

Diego Freire autografa Bumba, nosso boi na programação da 10ª. Feira do Livro de São Luís. Dia 13 de novembro (domingo), às 19h, na Casa do Escritor Maranhense, na Vila dos Livros (Praça da Casa do Maranhão). Toda a programação da FeliS tem entrada franca.