Jornada poética

Como falar com garotas em festas. Capa. Reprodução

 

Como falar com garotas em festas [How to talk to girls at parties; Quadrinhos na Cia., 2017, 80 p.; R$ 44,90; leia um trecho] não é, ao contrário do que o título porventura possa sugerir, um manual com fórmulas para serem seguidas à risca ou com desconfiança, tampouco um guia politicamente incorreto.

Em primeiro lugar, é o encontro de três artistas geniais, que dispensam apresentações: Neil Gaiman [Sandman e Coraline, entre outros], autor do conto, e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá [10 pãezinhos, Daytripper e a adaptação aos quadrinhos de Dois irmãos, de Milton Hatoum, entre outros], responsáveis pela adaptação da história aos quadrinhos.

É redundante dizer que uma graphic novel é cinematográfica, já que os conceitos se confundem um tanto entre a sétima e a nona artes. Além do mais, Como falar com garotas em festas ganhou também adaptação para a telona, com direção de John Cameron Mitchell e elenco com Elle Fanning e Nicole Kidman, que estreia este ano (ainda sem data para chegar ao Brasil).

É um álbum sobre amor e amizade, as confusões destes e outros sentimentos no período turbulento chamado adolescência. Enn e Vic são amigos na Londres dos anos 1970, durante a explosão do punk rock. Um é tímido e não tem sorte com as garotas; o outro é bonitão e espalhafatoso e sempre desperta a inveja do amigo.

O traço de Moon e Bá já é um clássico há tempos e a atmosfera do conto de Gaiman o envolve em poesia, não que eles não já tivessem, mas aqui a questão é particular e direta. Numa casa, em uma festa a que o par de amigos chega por acaso, Enn conhece Triolet, a “garota-poema”. “Você não consegue ouvir um poema sem que ele te transforme”, ela lhe diz em determinada altura.

Há várias metáforas colocadas: nada é apenas o que parece ser e perde quem se contentar com a/s aparência/s, do título ao caderno de rascunhos ao final do volume (que permite perceber detalhes do processo de desenvolvimento da obra).

A hq aborda esse turbilhão de sentimentos adolescentes com um pé na ficção científica, como se a adolescência não fosse um período complicado por si só. Um período de descobertas, experiências, aventuras. De quebrar a cara. De transição. De diversão e de começar a se preocupar com novas responsabilidades. No texto de Gaiman e no traço e nas cores de Moon e Bá tudo se torna mais poético e com poesia é menos duro seguir a jornada.

São Luís em quadrinhos

Ao contrário do que parte da imprensa ilhéu noticiou, ainda na semana passada, não são Osgemeos que vêm à São Luís: são os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá.

Os primeiros, Gustavo e Otávio Pandolfo, internacionalmente famosos por diversas intervenções urbanas espalhadas around the world, assinam o projeto gráfico do excelente Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar (2007), que o ex-Mestre Ambrósio Siba gravou com a Fuloresta do Samba, capa aí à esquerda; os segundos, também internacionalmente famosos, trazem na bagagem um Jabuti e um Eisner (a mais importante premiação de HQs nos Estados Unidos).

As duas figuras da foto aí à direita, Moon e Bá já estão na Ilha, de onde levarão nas memórias, as suas, as das máquinas fotográficas, em rascunhos, imagens da capital maranhense, que usarão para ilustrar mais um volume da série Cidades ilustradas, da editora carioca Casa 21. Os volumes já lançados, com outras cidades, estão disponíveis para download gratuito e legal no site Quadrinho.com. O volume dedicado à São Luís será lançado em 2012, quando a cidade completa 400 anos.

Os quadrinistas ficam em São Luís por todo o resto de maio. Nesta quinta (26), eles participam do Papoético, em debate-papo que terá mediação de Bruno Azevêdo. Acontece às 19h, no Chico Discos (Rua de São João, 389-A, Centro; esquina com Afogados – a do semáforo, sobre o Banco Bonsucesso), com entrada franca. Presentes pagam apenas o consumo.