Um brasileiro

 

O personagem de Cláudio Marconcine já está sentado, num canto, numa das quatro malas com que divide a cena em Extrato de nós, quando o público adentra a sala de espetáculos da Pequena Companhia de Teatro.

Quando a peça se inicia, ele, espécie de palhaço, demonstra impaciência, batendo o pé, depois tamborilando os dedos contra a bagagem, acompanhando o ritmo do tic tac frenético de um relógio que anuncia a chegada do trem.

O monólogo, teatro quase mudo, foi idealizado e encenado há alguns anos, mas como a melhor arte, tem algo de assustadoramente premonitório, a se concretizar no Brasil de 2019, sob a égide de uma nova ditadura, desta feita deflagrada pelo voto popular.

Os que compartilharem a impaciência inicial do personagem poderão enganar-se, ao fazer comparações com clássicos televisivos como Chaves e Os Trapalhões, com seu humor em parte inocente, de quedas e tropeços que despertam gargalhadas no público.

Boa parte do tempo de Extrato de nós se passa nesse vai e vem, na correria de alguém que tem medo de perder o trem, que foge da chuva, fuma, sente fome e tenta ler uma revista a matar o tempo. O brasileiro comum. Ameaçado pelo próprio Brasil. Com suas cores sequestradas e sua alegria idem. Em que mais que o aeroporto, a morte parece ser a única saída. Infelizmente não de causas naturais, nem a cumprir a expectativa de vida, que deve diminuir muito em breve.

Cláudio Marconcine interage com a plateia, mas sem a vulgaridade típica das comédias que buscam o constrangimento alheio diante do vazio de um humorismo que nem mereceria assim ser chamado. Ele tem elegância e tato: sente o clima e o público.

É um dos maiores atores que já vi em cena na vida. Até o aparentemente mais simples esgar, nele é minuciosamente estudado e ensaiado. Qualquer gesto seu é milimetricamente calculado e tudo aparenta naturalidade. Não à toa integra uma das maiores companhias de teatro do Brasil, a despeito do nome – que faz referência ao número pequeno de integrantes.

Extrato de nós traduz o Brasil – e os brasileiros – que insiste/m em rir, mesmo com a tragédia batendo a porta e a desgraça invadindo a casa. A nação.

Ria se/quem puder, chore quem quiser, aplauda e peça bis. O ator em cena e sua Pequena Companhia fazem jus.

Serviço

Extrato de nós terá outras duas apresentações hoje (25) e amanhã (26), às 19h, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Os ingressos custam R$ 30,00 (casadinha: R$ 40,00; estudantes e nomes na lista amiga pelas redes sociais da companhia pagam meia).