Um rasante na Ilha magnética

Foto: ZR

 

É inevitável: a poética de Estrela Leminski é impregnada de seu DNA. Filha de ninguém menos que Paulo Leminski e Alice Ruiz, suas composições, com parceiros diversos, entre os quais a mãe e o marido guitarrista Téo Ruiz, com quem divide discos, palcos e a vida, dão continuidade à melhor tradição (re)inventada pelo casal que agitou Curitiba nas décadas de 1970 e 80, quando a capital paranaense chamava a atenção de todo o Brasil por motivos mais poéticos.

Acompanhados por um power trio da pesada, Diego Perin (contrabaixo), Ruan Castro (guitarra) e Doug Vicente (bateria), Estrela Leminski (voz e efeitos) e Téo Ruiz (voz e guitarra) fizeram uma apresentação meio que de surpresa, na noite de ontem (12), no Reocupa (Rua Afonso Pena, Centro), em mais uma demonstração prática do conceito da casa, de ocupação artística do Centro da capital maranhense.

Vontade de fazer e brecha na agenda, entre um show em Teresina/PI e outro em Belém/PA (amanhã, 13, no Festival Se Rasgum), artistas dispostos a fazer sua arte chegar a mais gente, o cachê no melhor esquema “pague o quanto puder”.

O repertório do show é o do recém-lançado Tudo que não quero falar sobre amor, título longo e bonito, que embala 12 faixas, todas cantadas no show, a que Estrela, “desde sempre estudante de astrologia”, como declarou, acabou atrelando, cada uma a um signo – os poucos mas fiéis leitores que me perdoem, mas não vou conseguir lembrar que música corresponde a que signo.

Começaram o show por Quase feliz, parceria de herdeiras, Estrela Leminski e Anelis Assumpção, filha de Itamar, outro nome cuja poesia e melodia são evocadas no caldeirão de referências de Estrela e Téo. Depois foi a vez de Hit agressivo (Alice Ruiz/ Estrela Leminski/ Jossane Ferraz/ Téo Ruiz): “Tudo anda meio agressivo/ brigo com as ideias sem motivo/ não sou do tipo que se joga/ nem que fica para baixo/ quando tá indignado”, diz a letra.

Biografia (Bernardo Bravo/ Estrela Leminski/ Téo Ruiz) evoca o “vazio agudo/ ando meio/ cheio de tudo”, haicai da lavra de Paulo Leminski: “eu tô vagando na vida/ ando vivendo no vácuo/ minha cabeça tá cheia/ de tanto esvaziar”, cantam num trecho. O vento não ajudava, a noite estava quente. “Eu não sabia que aqui era mais quente que Teresina”, gracejou Téo. Adiante, perguntou: “a gente ouviu todo mundo falando que aqui é a Ilha magnética. Por quê?”. Da plateia alguém respondeu: “é por que depois que você vem você não consegue mais sair”. “Então já estamos todos magnetizados, pois estamos adorando”, retribuiu Téo.

Ruiz de mãe e Leminski de pai, Estrela se casou com um Ruiz. “A gente consegue explicar tudo, só não consegue explicar que não é irmão”, brincou. Eu, ué (Estrela Leminski/ Téo Ruiz), título palíndromo, é mais uma canção a demonstrar a alta voltagem poética da dupla-casal: “se tá confuso assim, sem saída,/ eu vou chamar meu outro eu/ se você duvida/ fui conviver comigo/ eu sei, isso é difícil/ até eu me confundi/ no início/ eu é osso/ eu é ócio/ eu é isso/ e foi virando vício”.

Uso da palavra (Bernardo Bravo/ Estrela Leminski/ Lívia Lakomy/ Mayara Santarem/ Renato Negrão/ Téo Ruiz) brinca com a própria língua portuguesa e suas contradições, de forma bem humorada, com ecos da Isca de Polícia: “vou dirigir a palavra mas não vou atropelar”, começa. O Blues do encanto (Luiz Rocha/ Téo Ruiz) preparou o terreno para Gostável (Estrela Leminski/ Lívia Lakomy/ Rogéria Holtz/ Téo Ruiz), facilmente um hit, tocassem a tevê e o rádio o que realmente vale a pena, a letra passeando entre diversas situações em que alguém lembra de outro alguém: “a culpa é sua se te esquecer é inviável/ você é que é uma pessoa tão gostável”.

Quando cantaram Novela das seis (Estrela Leminski/ Téo Ruiz), Estrela agradeceu: “obrigado por terem vindo. Obrigado por não estarem em casa assistindo tevê”. O título da faixa é o lugar em que alguma/s faixa/s do disco deveria/m estar, talvez não ela própria, seria pedir demais, uma crítica aos meios de comunicação: “entre a idade média e a idade mídia/ fogueira das vaidades distraída/ um argumento sem lógica/ contando sempre a mesma história”. No rodapé de cada faixa, no encarte do disco, uma observação sobre a música ou sua feitura. Nesta, diz o seguinte, vale refletir: “Muitos não leem a notícia mas já formulam sua opinião pela chamada. Já passamos pela idade média e agora parece que chegamos na idade mídia. Vamos ter que substituir o termo “jornalismo” pelo “manchetismo”?”.

É duro ter coração mole (Alice Ruiz/ Estrela Leminski) é trocadilho delicioso, enquanto Nosso livro (Estrela Leminski/ Téo Ruiz) é inspirada declaração de amor. A vida não é justa (Estrela Leminski/ Líria Porto/ Téo Ruiz) é tecida a partir de apetrechos de costura, metáfora da própria vida, esse zig-zag.

A próxima parada de Estrela e Téo é o Pará, amanhã (14), no Festival Se Rasgum. Em ritmo de carimbó, Poliamor (Estrela Leminski/ Téo Ruiz) cita o próximo destino: “esse amor não é gaiola/ você pode sair e voltar qualquer hora/ de Paris até o Pará/ esse amor tem passe livre/ é vip, gif, pra uns é fetiche/ um pinhão no tacacá”.

“Eu ouvi um mais um aí?”, riu Téo Ruiz, antes do bis. Alguém gritou “essa noite vai ter sol”, pedindo Luzes (Paulo Leminski). “Essa banda já toca com a gente há um tempão, mas essa a gente não ensaiou”, Estrela saiu pela tangente. Atacaram de Hard feelings (Itamar Assumpção/ Paulo Leminski), com a letra em inglês misturada a Vinheta I, que abre o disco de estreia de Itamar Assumpção: “Benedito João dos Santos Silva, Beleléu/ vulgo Nego Dito/ Nego Dito, cascavel”.

Referências explícitas, recado dado, não a poucos privilegiados, mas aos curiosos, que se dispõem a sair de casa para sacar um som, mesmo, às vezes, sem conhecer, como o próprio Téo Ruiz elogiou a disposição da plateia. “Ah, eu já sei por que tá tão quente. É o calor de vocês”, reiterou os agradecimentos ao público presente. A noite afinal teve sol, talvez por isso fizesse tanto calor em São Luís.

A música de Paulo Leminski

[O Estado do Maranhão, 1º. de setembro de 2013]

Digitalização de acervo e livro de partituras mostrarão outra porção de um múltiplo Leminski, cuja poesia foi recentemente reunida em livro

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

A coleção de poemas que Paulo Leminski publicou em livros, inclusive póstumos, reunida em Toda Poesia [Companhia das Letras, 2013, 421 p.], bateu recordes: alcançou os 50 mil exemplares vendidos, soma nada desprezível para o mercado livreiro, e particularmente de poesia, no Brasil.

Leminski foi vários: poeta, publicitário, jornalista, tradutor, professor, judoca, romancista, contista. E músico. Revoltava-lhe, aliás, ser reconhecido apenas como letrista. Tinha razão: embora compusesse em parceria, e muito de sua obra musical ter surgido pelas mãos de parceiros que musicaram versos publicados em livros, o samurai malandro compunha letra e música.

Casos de Verdura, gravada por Caetano Veloso em Outras palavras [1980], e Luzes, gravada por Suzana Salles e Arnaldo Antunes, ela uma das Orquídeas do Brasil, banda de mulheres que acompanhou Itamar Assumpção – parceiro de Leminski – no triplo Bicho de Sete Cabeças [1993].

Não à toa, antes dos apêndices – orelhas, prefácios e tais – de Toda Poesia, lemos Notas sobre Leminski cancionista [p. 385], breve artigo assinado por José Miguel Wisnik – que já musicou tradução de Leminski. Entre as histórias que conta, aliás, está a de como Luzes chegou, através de recados ao telefone, aos ouvidos e mãos de Suzana e Arnaldo, num episódio que envolve, além dele, Alice Ruiz e Zé Celso Martinez Correa.

Wisnik diz que se o projeto de um Leminski músico não se concretizou plenamente, encontra na obra do ex-Titã sua mais perfeita tradução: a combinação entre o poema grafado na página do livro e a canção gravada no disco. Canção pop.

Através de sua obra, Leminski permanece vivíssimo hoje. É inegável que a gravação de Verdura por Caetano tenha colaborado para sua popularidade na década de 1980, quando Caprichos e relaxos [1983] esgotou edições na saudosa Brasiliense, que teve como editor Luiz Schwarz, que devolve Leminski às estantes em Toda Poesia, e que lançou no Brasil autores fundamentais como Jack Kerouac e John Fante – este, aliás, traduzido por Leminski.

Leminski músico – No campo musical Leminski tem obra curta, mas nada desprezível. Só as duas aqui citadas já lhe garantiriam lugar no panteão de nossos grandes compositores, merecendo mais espaço no dial. Entre outras de sua lavra poderíamos citar rapidamente Custa nada sonhar, Dor elegante, Filho de Santa Maria, Vamos nessa (as quatro com Itamar Assumpção), Mudança de estação, sucesso dA Cor do Som, Promessas demais (com Moraes Moreira e Zeca Barreto), gravada por Ney Matogrosso, Polonaise (com José Miguel Wisnik, gravada pelo próprio), Além alma (com Arnaldo Antunes), O velho León e Natália em Coyoacán (com Vitor Ramil), Reza (com Zeca Baleiro) e O Deus (com Ademir Assunção e Edvaldo Santana).

Leminski com Caetano Veloso e Alice Ruiz, em Curitiba (1976)

Leminski colecionou histórias engraçadas envolvendo sua produção musical. Uma delas a citada revolta confessada quando queriam rotulá-lo simplesmente letrista. “Eu sou músico!”, bradava, revoltado. E sonhava com o dia em que todas as pessoas fossem músicos, tocassem algum instrumento.

Com a grana dos direitos autorais da gravação de Verdura, por Caetano Veloso, comprou um fusca verde, justamente batizado de… Verdura. Detalhe: Leminski não dirigia. Foi Leminski quem deu ao xará Paulo Diniz o título de uma de suas mais famosas músicas: Ponha um arco-íris na sua moringa. Era uma frase do Catatau, que estava escrevendo quando os dois moravam no Solar da Fossa. Diniz usou-a para intitular a música e o poeta, em homenagem ao amigo, retirou-a do livro.

Também é famosa a correção que o poliglota Leminski aplicou ao mesmo Paulo Diniz na construção da letra de Quero voltar pra Bahia, cujo refrão é em inglês: “I don’t want to stay here/ I wanna to go back to Bahia”. Mexer na letra e retirar o verbo duplicado, como queria Leminski, iria acabar com a métrica e a homenagem do baiano ao conterrâneo exilado acabou saindo com o erro com que a conhecemos.

A obra musical de Paulo Leminski será sua próxima porção a chegar ao público. Aprovado pelo Programa Petrobras Cultural, o projeto A obra musical de Paulo Leminski – um patrimônio cultural do Paraná e do Brasil prevê a digitalização das fitas cassetes deixadas por Leminski (contendo dezenas de canções inéditas) e a posterior organização de um livro de partituras com sua obra musical completa.

Sobre este e outros assuntos, em entrevista por e-mail, uma das responsáveis pela empreitada, a musicista Estrela Ruiz Leminski, filha de Alice Ruiz e Paulo Leminski, deu detalhes sobre a produção.

Poeta, musicista, professora: Estrela Leminski seguiu os passos do pai

“NÓS JÁ SABÍAMOS DA FORÇA DA POESIA DELE”
ENTREVISTA: ESTRELA RUIZ LEMINSKI

A compositora, escritora e professora Estrela Leminski, filha do poeta, é responsável pelo resgate da obra do pai. Na entrevista, ela comenta essa fase da redescoberta do público em relação a grandiosa obra do pai.

O Estado do Maranhão – A Companhia das Letras publicou recentemente Toda Poesia, que reúne a obra poética publicada em livro por Paulo Leminski. A editora anunciou para breve a reedição de Vida, livro que reúne as quatro biografias que o poeta escreveu, de Bashô, Cruz e Souza, Jesus Cristo e Trotsky. Agora, a digitalização de fitas com músicas de Leminski e a produção de um livro de partituras com sua vasta obra musical foi recentemente selecionada num edital da Petrobras. Qual a importância de fazer Leminski, sempre vivo entre nós, voltar a circular?
Estrela Ruiz Leminski – Acho que a resposta se justifica na tua pergunta. Tudo também se deve ao fato da gente ter se mobilizado para segurar as rédeas da obra dele. Resolvemos ir atrás de tudo que faltava fazer para a obra dele, tão múltipla, vir à tona! Nessa tua lista ainda falta pontuar a exposição Múltiplo Leminski, realizada em Curitiba, no MON [o Museu Oscar Niemeyer], que vai circular o país.

Quando o projeto foi apresentado já se tinha dimensão do tamanho da obra musical de Leminski? Ou as coisas foram sendo descobertas ao longo da jornada? O aspecto musical dele é uma empreitada minha. Eu cresci ouvindo essas músicas, ele cantava muito em casa, e depois sempre curti o que foi gravado. O público vai se surpreender com a variedade e com o lado cancionista da obra dele.

Lembro-me de uma entrevista [ao jornalista Aramis Millarch] em que Leminski mostrava-se indignado quando as pessoas o chamavam letrista, já que ele compunha letra e música. Na mesma entrevista, ele afirmava sonhar com o dia em que todas as pessoas fossem músicos, isto é, que tocassem algum instrumento ou cantassem. Você, que acabou seguindo os passos de seu pai, na música e na poesia, acredita que esse dia vai chegar? Sonha com isso? Além de ser compositora e escritora sou professora de música. É isso que eu busco. É uma inquietação minha. As pessoas têm que ter pelo menos o direito de compreender os contextos culturais musicais, ter ferramentas críticas ao que escutam. Isso não acontece e se agravou muito com a falta do ensino da música nas escolas.

O que achou da poesia de Leminski desbancar os tons cinzentos de uma literatura pobre em uma rede de livrarias? O boom do livro não foi surpresa, foi alívio. Nós já sabíamos da força da poesia dele, da atualidade. Para a gente é a sensação de que ele está começando a ocupar um espaço merecido há tempos.

O retorno de Leminski às livrarias dá um gás no culto ao poeta, mas ele sempre teve um grande número de leitores, admiradores, fãs, seguidores. Enfim, de gente que consome e faz circular sua obra. O poeta e jornalista Ademir Assunção, que já organizou uma exposição sobre a vida e a obra de Leminski, teve dificuldades, por exemplo, para publicar uma entrevista de Raul Seixas em Faróis no Caos [Edições Sesc-SP, 2012, 407 p.], coletânea de entrevistas que ele fez ao longo de quase 30 anos de atividade jornalística. A entrevista de Leminski está lá. Como você, enquanto herdeira, lida com a obra de seu pai? Tem um aspecto de ser herdeira que é o fato de ser artista. E ainda por cima artista auto-produtora. Por um lado batalho mesmo que cada vez mais gente tenha contato com a obra dele como um todo, mas por outro não faço isso na ingenuidade. Conheço o caminho da roça e como negociar as coisas. A burocracia que isso envolve é chata, mas é necessária. Não vou julgar as famílias que por algum motivo causem entraves. De qualquer forma, sei que essa dinâmica, sendo parceira na empreitada com minha mãe e irmã [Aurea Leminski], dividindo as tarefas, tem dado cada vez mais certo.

Semana Paulo Leminski 3

AINDA A MÚSICA (POPULAR)

Lembro de uma entrevista em que Leminski dizia algo mais ou menos como sonhar com o dia em que todas as pessoas fossem músicos, isto é, que cantassem, compusessem, tocassem algum instrumento. Era mais ou menos isso.

Na mesma entrevista, ou noutra, não lembro bem, ele se dizia chateado quando o chamavam de letrista. Que ele era compositor, letra e melodia, que muita coisa gravada por aí era completamente dele.

Outra história deliciosa, essa quem conta é Toninho Vaz na biografia cujo trecho ilustrou o post anterior, é a de quando Caetano Veloso gravou Verdura, no Outras palavras. Com a grana dos direitos autorais, Leminski, que não dirigia, comprou um fusca verde, a que batizou com o título da música.

Abaixo, ela e outros dois exemplos da lavra musical de nosso homenageado, letras e músicas dele.

Verdura, com Caetano Veloso

Mudança de estação, sucesso d’A Cor do Som, com a filhota Estrela Leminski e Os Paulêra (ao vivo)

Luzes, com Arnaldo Antunes (ao vivo)