As ruas do mundo como escola

Retrato: Zema Ribeiro

 

Vini de Vici literalmente corre o chapéu. Ele está se apresentando semanalmente às quartas-feiras, entre 18h30 e 20h, no calçadão em frente ao Cafofo da Tia Dica, no Beco da Alfândega, Praia Grande. Seu cachê é o que consegue catar no chapéu defronte a si e o dinheiro que consegue vendendo seu primeiro cd, de que desenhou capa, contracapa e selo.

A arte que ilustra a capa de seu primeiro disco. Reprodução

Conheci-o por acaso: estava sentado na calçada oposta à em que ele se preparava para ocupar, quando seus acordes ao violão chamaram minha atenção e de Tião Carvalho, que eu entrevistava na ocasião. O repertório era fino e brasileiríssimo: peças de Baden Powell, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth, Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes.

Comprei o disco para puxar conversa e conseguir o contato. Americano de Minnesota, Vincent James DeRasmi tem 37 anos, é filho de músico e roda o mundo tocando na rua. “Eu não vou tocar na rua para sempre”, diz como que para si mesmo durante a entrevista, embora considere a rua uma escola.

Trabalhou em restaurantes, bares, construção, sindicato, “construindo palcos, em teatros, fiz qualquer coisa para apoiar minha música”, revela.

O artista é um incansável e obstinado pesquisador, procurando sempre beber da fonte. É literalmente uma enciclopédia ambulante das sonoridades do mundo, um viciado em descobrir o novo. Uma semana depois de nosso primeiro encontro, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Zema Ribeiro

Teu nome tem origem italiana?
Na verdade meu nome é Vincent. Esse nome vem de um dito em latim, “veni, vidi, vici”, que significa “vim, vi e venci”. É um jogo de palavras, por que o apelido de Vincent é Vini. Eu tentei pegar Vini Vidi Vici, mas alguém já pegou, então Vini de Vici.

Você é natural dos Estados Unidos. De onde, de que região?
O meio oeste. Tipo, Minnesota, um estado bem ao norte, fronteira com o Canadá. O Rio Mississipi começa lá.

Então você tem um sangue meio blueseiro?
Meu pai toca trompete, ele viajou pela Europa e todos os Estados Unidos, fazendo blues, jazz, folk, Joseph DeRasmi. Ele começou a obter um nível de sucesso e eu vi que era possível viajar o mundo com música. Ele não é como famoso, mas por um momento viveu de música. Por isso eu comecei a seguir meu caminho, a dedicar minha vida à música.

Você já passou por outros países? Pergunto por que teu disco tem 12 faixas e tem muito essa temática de viagem. Fala um pouco dos lugares por onde você já passou e se foi sempre a música que te levou a esses lugares.
Sim. A primeira viagem eu fiz em 2010 e fui à Espanha. Eu sou roqueiro e tive grupo de heavy metal por muitos anos. Rock, heavy metal, funk, groove. Cansei. Ter uma banda é como estar casado com quatro outras pessoas, é complicado. Tenho saudades, mas enfim, cansei de tudo isso. Fui à Espanha para estudar flamenco, pegar as técnicas do violão. Essa foi a minha primeira viagem e abriu minha mente. Para verdadeiramente aprender uma música você tem que ir à fonte. Qualquer país, qualquer região onde tem qualquer ritmo que você queira aprender. Depois disso minha mente começou a virar, fui à Costa Rica, conheci algumas pessoas viajando por muito tempo e abriu ainda mais minha mente sobre viajar, tocando na rua, nos restaurantes. Em qualquer lugar que eu tocar, a gente apoia [as pessoas apoiam]. Aprendi isso com outros amigos que conheci no Peru, tenho muitos amigos no Peru. Eu aprendi a trabalhar com a música, como artista da rua. Depois do Peru eu fui ao Equador, Colômbia, toda América Central, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, El Salvador, Belize, México. Então voltei a meu país e vendi tudo o que tinha para pagar dívidas e voltei ao Peru para seguir ao sul. Passei por Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Brasil, Uruguai, voltei à Argentina e estou aqui. Mas todo tempo estudando os ritmos do lugar. Quando estava na Bolívia, eu toquei música boliviana nos mercados. Para pegar o ritmo do povo da terra onde estava no momento.

Dá para dizer que musicalmente você procura se adaptar à cultura local? Por exemplo, você nunca fez música americana fora dos Estados Unidos, música espanhola fora da Espanha?
Sim, eu fiz. Muita gente fala, como aqui no Brasil, “você poderia ganhar muita grana tocando música americana”. Pode ser assim, mas eu não viajei tão longe para tocar a música que já toquei lá. Pode ser um caminho um pouco mais difícil, mas eu quero tocar, como agora estou no Maranhão, tentei pegar alguns bois, Papete, eu não posso aprender tudo, mas eu creio no repertório, na viagem do som. Se tem uma hora e posso tocar música do México até aqui, essa é a minha ideia, por isso eu fiz a arte [do cd] com o mapa do mundo.

O que me chamou a atenção te ouvindo tocar semana passada foi justamente o repertório. Eu ouvi cerca de meia hora em que você passeou por Zequinha de Abreu, Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Ernesto Nazareth. E agora, você já até antecipou uma pergunta que eu tinha, que era se você já conhecia os compositores do Maranhão e você falou de Papete, que tinha algumas composições, mas era mais intérprete e percussionista. Você conhece o trabalho de outros artistas daqui?
Eu vim aqui para encontrar um amigo que conheci no Rio de Janeiro, tocamos juntos, ele toca um pandeiro na linha rap, se chama Pensativo do Pandeiro, é o nome artístico dele. Tocamos bastante aqui também, temos uma química muito boa quando tocamos, nem sempre dá. Através dele conheci [a obra de] Papete, alguns bois, como “se não existisse o sol” [cantarola]. Eu fiz a minha própria versão, por que em boi não há violão. Vários ritmos, como o coco em Pernambuco, não há violão, a salsa, na Colômbia, não há violão. Vários ritmos eu tenho que criar uma versão no violão, por que esse é meu instrumento, para adaptar a melodia.

No disco você toca vários instrumentos, mas o violão é teu instrumento principal.
[Além de violão] Eu toco berimbau no disco e um pouco de pandeiro na faixa oito [Renew]. Meu mestre de capoeira, que conheci no Rio de Janeiro, mestre do samba também, ele falou que se eu precisasse de ajuda com a percussão… Ele se chama Mestre Duda Pirata.

Esse é teu primeiro disco?
Sim, é o volume um. Está disponível no spotify, é possível fazer o download em todas as plataformas digitais. O volume dois já está pronto, mas vou divulgar apenas em novembro.

Está gravado? Vai prensar e distribuir como um cd físico ou só digital?
Desse disco eu fiz mil cópias, é mais barato se você imprime mais. Cd ainda faz parte da indústria musical, mas a maior parte das pessoas, eu incluído, nem tem máquina de [tocar] cd mais. Notebook nem tem mais entrada pra cd. Volume dois, por enquanto, não tenho tanta grana, faz seis anos que estou viajando, vou divulgar primeiro digital, só na internet.

São Luís é mais uma parada, já tem uma pretensão de outro ponto?
O Brasil tem muita riqueza, é enorme, é incrível como muda o som em qualquer lugar. Eu vi tambor de crioula uma vez e chega aqui tem quase todo dia, se procurar, vai encontrar, pelo menos em junho, no São João. Para mim foi uma bomba cultural. Tenho vontade de ir ao Pará, terra do carimbó, quero conhecer mais o Norte, o Amazonas, os ritmos indígenas. Quando estive em Pernambuco fiquei numa tribo, os Xucuru, no sertão, lá eles só tocam maracá, cantam, batem palmas. Maracá está atrás, não sei todo o ritmo, mas coco, capoeira, boi, o maracá é um instrumento muito forte. Estou procurando as raízes da música, do folclore. Meu interesse vem dos indígenas e da África.

Se a gente tentasse definir esse teu interesse, essa tua busca permanente por um som novo, pelas raízes, a gente poderia dizer que você está sempre em busca de um aprendizado, uma busca eterna por um aprendizado?
É quase um vício, aprender algo novo, como a alimentação, minha alma, minha mente, minha arte também. Eu tenho um som que vem de dentro, componho, você viu no meu cd, e não penso “eu vou compor uma música como baião, vou compor um samba”. Sai. Aprendendo vários ritmos assim, o som que sai de mim fica mais eclético, por causa das coisas que estou absorvendo em meu caminho. Eu gosto.

No teu disco a gente percebe uma inclinação para a música instrumental, mas há faixas cantadas e em vários idiomas. É um pouco também uma maneira de demonstrar esse acúmulo, essas passagens por várias regiões do mundo?
No Volume um eu fiz um grande trilogia, The trip, El viaje, A viagem, essas três últimas músicas do cd são a primeira trilogia que eu compus para violão. Eu coloquei a maioria das minhas músicas como instrumental, mas às vezes nem precisa letra, às vezes a melodia tocada fala sem precisar cantar alguma coisa.

No volume um você gravou o Odeon, de Ernesto Nazareth. Por que essa escolha?
Eu lembro a primeira vez que ouvi essa música, era uma festa, o Mimo, um festival que passa por Olinda, Rio, cidade patrimonial de Paraty, eu estava lá por um tempo e uma banda tocou isso. Eu fiquei cativado. De repente eu saí do Brasil, voltei, conheci vários amigos, estudei numa escola de chorinho no Rio, chama Escola Portátil, voltei ao Brasil para ir lá para pegar um semestre para aprender a tocar chorinho, aprender a estrutura e tudo isso. Estudei Odeon. Para mim Odeon é como o Brasil. Eu sinto, é uma música bem complexa, harmonia, melodia descomunal. Essa música para mim tem muito sentido, por isso a escolha e nunca cansei dela.

Você falou em um ponto da conversa que cada lugar que você chega você procura se aprofundar na música daquele lugar, nas raízes. Você falou dos indígenas aqui, na porção africana da música brasileira. Como é que surge o teu interesse por música brasileira?
A bossa nova, o Brasil está mais conhecido por bossa nova. Eu canto chorinho, eu canto jazz. Chorinho, para mim, é quase tipo o jazz brasileiro, tem outra estrutura. Por isso eu viajo. Se não há muitas músicas que você nunca vai conhecer. Eu estava para aprender, pegar o suingue do samba não é tão fácil para o gringo, para aprender, conheci [a obra de] Baden Powell na Argentina, um amigo tinha o disco, e pensei: eu tenho que estudá-lo. Peguei partituras, eu não gosto muito de partituras, mas é uma boa maneira para tocar exatamente o que ele está tocando. Ouvindo, lendo a partitura, para entrar na cabeça dele. Baden Powell foi o primeiro violonista brasileiro em que tentei entrar na cabeça. De qualquer músico eu pretendo entrar na cabeça, pegar o jeito que ele está pensando.

Além destes nomes que a gente já citou e que eu te ouvi tocando semana passada, que outros nomes da música brasileira te chamam a atenção?
Caramba! Aqui no Nordeste Luiz Gonzaga, Dominguinhos, ainda não toco tanto, tipo forró, baião. Jackson do Pandeiro eu gosto da cadência. Ele é tipo hip hop, antes do rap ele já estava fazendo isso, como ele canta. Gosto como ele toca baião, forró, mas ele também toca samba, é quase uma ponte entre os dois ritmos. Ele é um grande nome para mim, uma grande figura. Mas também, por exemplo, em Pernambuco há tantos mestres de coco, maracatu. Eu tenho muita vontade de voltar por Pernambuco. Só estive lá dois meses.

Você está há quanto tempo em São Luís?
Só um mês. Pouco tempo.

A rua é uma escola?
Sim. Faço cinco anos tocando na rua. Uma bomba pode explodir a meu lado [enquanto eu estiver] tocando e vou seguir tocando. Sempre há distração, crianças, gente gritando. É uma escola.

Você falou há pouco, particularmente do samba, e da dificuldade da ginga do samba para o gringo, mas semana passada eu percebi a desenvoltura com que você faz o repertório brasileiro. Você consegue se adaptar, na minha avaliação. Como você se sente, um gringo fazendo música brasileira, mas fazendo como um nativo?
Tenho sorte, conheci muitos mestres, ainda estudo muito. Fico muitas horas praticando. É uma das melhores coisas que me ajudam, foi meu mestre Duda Pirata, lá no Rio. É um mestre do samba, sempre toca em rodas de samba, me deu um grande braço, “vai pra roda, pra brincar com a gente”. Comecei a tocar com a galera, duas vezes por semana. Às vezes o violonista não chegou, eles só falam o tom, “dó maior” e “tchec, tchec, tchec” [imita o som da batida do violão]. É uma galera sambista que viaja o mundo tocando samba.

A língua foi uma barreira, é uma barreira?
Ainda é um pouco, no início foi bem complicado. Não tanto. As pessoas querem ajudar você. Tem que estudar também, eu estudei muito. Com a tecnologia há várias maneiras para melhorar seu idioma. Música eu estudo muito, a música brasileira ajuda a pegar o sotaque, embora eu ainda tenha o sotaque forte, está melhorando.

Você falou que não vai tocar na rua para sempre. Onde é que o Vini quer chegar?
No palco. Teatros, mas quero seguir fazendo o que estou fazendo, viajando, estudando e aprendendo, como tocar na rua, na América Latina, em todos os países, do México até aqui. Não sei se esse estilo de vida vai dar certo do outro lado do mundo. Mesmo aqui é uma luta, eu não ganho muito dinheiro. Mas quero chegar ao palco. Tem que escolher o caminho do coração e este é meu caminho do coração. Não vou voltar a minha vida como era antes no meu país. Sou músico agora e vou fazer qualquer coisa para seguir esse caminho.

Chorografia do Maranhão: Danuzio Lima

[O Imparcial, 5 de outubro de 2014]

Filho de Carlos e Zelinda Lima, Danuzio Lima, flautista maranhense radicado em Miami, é o 41º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Danuzio Lima é filho dos folcloristas Carlos de Lima e Zelinda Lima. Ainda cedo enveredou pelas artes, tendo passado, ainda criança, pelo teatro e pelo rádio, antes de dedicar-se à música. “Eu comecei tarde, só fui ter minha primeira flauta aos 29 anos”, revela, modesto.

Doutor em Desenvolvimento Urbano formado em Paris Carlos Danuzio de Castro e Lima nasceu em São Luís do Maranhão em 22 de maio de 1953. Está radicado nos Estados Unidos há 28 anos. Thiago Lima, filho do primeiro casamento, é formado em Cinema. Hoje Danuzio é casado com a gaúcha Ana Freire e integra o Clube do Choro de Miami, grupo que na terra do Tio Sam dedica-se ao mais brasileiro dos gêneros musicais.

O flautista concedeu entrevista à Chorografia do Maranhão, a 41ª. da série, no vasto terraço da casa de sua mãe, onde se hospedou na mais recente passagem pelo Maranhão. Para lá dirigiram-se os chororrepórteres, em sua companhia, após ele ter sido entrevistado ao vivo e tocado algumas peças no dominical Chorinhos e Chorões, apresentado por Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Na ocasião, na emissora, Danuzio estava acompanhado de parte do Regional Tira-Teima, com quem havia tocado na sexta-feira anterior: Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Léo Capiba [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de abril de 2014] e Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você é filho de dois dos maiores folcloristas do Maranhão. Qual a influência deles nessa tua veia artística, nesse caminho musical? Eu diria que 99%, por que eu muito criança, ainda, fiz teatro com meu pai. Ele e minha mãe foram dos fundadores do Tema, o Teatro Experimental do Maranhão. Eu quando criança fiz peça de Gianfrancesco Guarnieri, Gimba. Eu era o Tico, filho do malandro do morro que queria ser ele, uma peça muito bonita. Fiz outras peças. Fiz, quando a televisão Difusora se instalou aqui, meu pai e minha mãe trabalhavam lá, naquela época, Parafuso, grande Parafuso!, sonoplasta. Eu fiz um seriado lá, era um programa para crianças. Fiz rádio, lia com Regina Telles, lia histórias no rádio. Tudo foi uma influência muito grande. Minha mãe sempre gostou muito de cultura popular, bumba meu boi, casa de mina, tambor de crioula, tudo isso sempre foi muito presente na minha vida, num tempo em que não era uma coisa muito bem vista. Inclusive amigos do meu pai no Banco do Brasil diziam, “rapaz, você anda com esse povo de teatro?” [risos], não era uma coisa muito boa.

Então antes de você se dedicar à música você teve uma passagem por outras linguagens artísticas. Sim, eu fui me dedicar à música, eu comecei a tocar com 29 anos. Foi a primeira vez que eu comprei uma flauta para mim. A admiração pela música, pela arte, pelo teatro, pelo cinema, literatura, é muito mais antiga. Eu tocar música veio muito mais tarde.

Como era o ambiente musical em sua casa? O que vocês ouviam? Você tinha vivência com grupos musicais? Não, eu não tinha vivência. Mas meu pai, eu me lembro dos LPs que tinha lá em casa, eu ouvia até furar. Eu lembro, por exemplo, é uma mostra do que eles ouviam. Meu pai gostava muito de música, ouvia muito bolero, esse tipo de coisa. Mas eu me lembro, por exemplo, minha primeira influência de música, de eu sentar e ouvir um LP: Chico Buarque. Eu ouvi  tudo de Chico Buarque. Tinha um disco americano, chamava The Platters, cantavam Only you, acho que era o único disco estrangeiro que a gente tinha, talvez tivesse Edith Piaf, eu não lembro agora. Tinha um disco de Geraldo Vandré, eu achava muito bonito também, Caetano Veloso, ele cantava umas coisas que eu nunca mais ouvi: “é de manhã, é de madrugada, é de manhã”, eu nunca mais ouvi. Essas foram mais ou menos as minhas primeiras influências musicais.

Na tua casa não se ouvia choro, por exemplo? Não tinha discos de choro? Quando é que essa música começa a fazer parte de teu imaginário? [Pensativo] O choro… Na casa da minha vó tinha uma coleção que se perdeu, daqueles discos antigos, que vinham dentro de uns álbuns que se fechavam, tinha Ivon Cury, tinha milhares de coisas, Ângela Maria, e tinha também o choro. Tinha essas coisas mais conhecidas, Tico-tico [no fubá, de Zequinha de Abreu], Brasileirinho [de Waldir Azevedo], muita valsa, eu me lembro de Branca [de Zequinha de Abreu], como é o nome do outro? Uma porção de valsas. O choro começou mais por esse lado aí. Era na verdade minha introdução à música instrumental. Essa música instrumental brasileira eu ouvi antes de sinfonia, naquela época pra mim não existia. Música instrumental eu ouvi nesses discos grossos e pequenos da casa da minha vó.

Teatro, música, cultura popular. E rádio? Vocês ouviam rádio em casa? Eu fiz rádio! Eu fiz esse programa de rádio, contava histórias, eu, Regina Telles. Eu não lembro direito quais eram as histórias, mas eram diálogos que a gente lia.

Sua casa sempre foi muito frequentada por artistas, não é? Sempre foi. E também o pessoal que vinha de fora, para fazer cinema, por exemplo, A faca e o rio, passavam lá por casa, mamãe dizia onde eram os lugares mais interessantes para filmar, as pessoas que deviam falar. Queriam um pote de barro, “ah, é aqui”. Ela era meio contrarregra. Na verdade, meu irmão Álvaro acabou sendo contrarregra de um desses filmes, não lembro qual foi. A faca e o rio, ou Uirá, um índio a caminho de Deus. Eles [seus pais] apareceram em vários filmes desses, andando, assim como personagens.

Quem dessas figuras importantes te marcou? De contato eu vou falar da pessoa que toca meu coração. Pra mim é o meu poeta [Luiz Algusto] Cassas. Eu adoro tudo o que Cassas escreve. É de um humor, uma leveza, um retrato. Uma coisa que era sempre importante em meu pai, você não pode falar Carlos Lima sem falar em São Luís do Maranhão. Quando meu irmão morreu nós vivemos no Rio, fomos para Brasília, fechamos a casa. Quando voltamos, as lembranças todas voltaram. Ele nunca se sentiu bem, em casa, sem ser em São Luís do Maranhão. Tudo o que ele escreveu é São Luís do Maranhão, a música, a literatura, novela se passa em São Luís do Maranhão, a cidade. Cassas para mim é isso. Ele traz essa cidade que está longe de mim, não só fisicamente, mas também longe no tempo.

E a tua relação com teu pai, como era? Outro dia alguém me perguntou. Meu pai e minha mãe eram duas pessoas completamente diferentes. Minha mãe era uma pessoa que sempre estava um pouco na frente do tempo dela, usava calça comprida no tempo que não se usava, mulher que trabalhou o tempo inteiro. Nossa casa nunca foi aquele ambiente familiar, fechado. A nossa casa sempre foi a extensão da rua, sempre entrando e saindo gente. Até hoje é assim. Isso em função da minha mãe. Meu pai, que todo mundo acha que é um cara mais aberto, fala muito, contava história, é um cara muito mais fechado. Não tinha muito contato físico com a gente, vinha de uma família muito rígida. Até quando ele entrou na Academia Maranhense de Letras, foi uma coisa que me marcou profundamente, quando ele disse “quisera minha mãe estar aqui”. Ele estava acertando uma conta antiga: cheguei. A pressão era muito grande na família dele. Ele era muito mais tímido, muito medroso, nesse sentido. Zelinda sempre foi de meter os peitos e vamos lá. Ele era mais retraído, mais tímido. Gostava de gente, gente alegre, mas pouca gente. Ela sempre teve as ideias, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo, vamos visitar isso. Na verdade ele escreveu sobre cultura popular por que ela, quando foi para o interior, para Codó, quando foi transferido pelo Banco do Brasil, ela se interessou, não estava fazendo nada, era a esposa de um bancário, se interessou para ver o que o pessoal fazia, em termos de artesanato. Aí ele começou a acompanhá-la e a gravar as coisas, ele escrevia bem, ela empurrou ele. Era uma coisa intuitiva, desde criança, filha de espanhol, neta de índia, tinha que sair para a rua, ver o que era.

Você falou que só foi se dedicar à música com quase 30 anos. Você tem outra profissão? Eu sou engenheiro civil, formado aqui em São Luís do Maranhão. Daqui eu saí, fui para a França, trabalhei nos Correios, fui diretor de engenharia dos Correios e Telégrafos daqui do Maranhão por pouco tempo. Aí ganhei uma bolsa do Rotary Internacional, fui para a França. Era pra ficar um ano, fiquei mais, voltei, pedi uma bolsa para o CNPq, fui para a França, fiz um curso de mestrado e doutorado em Planejamento Urbano, lá em Paris. Já no último ano eu entendi que um doutorado não era uma coisa que assim, entendeu? Eu não ia ser professor, pelo menos não professor de urbanismo, engenharia, então eu andava, Paris eu ia sempre num café que tinha lá e tinha um argentino que tocava bossa nova. Era um duo, violão e flauta. Eu achava muito bonito. Depois de um certo tempo, eu ia toda semana vê-lo tocar, ficou amigo, um dia eu falei pra ele: “eu gostaria de tocar, é bonito flauta”. Ele falou: “e por que não aprende?”. E eu disse que eu achava que estava muito velho para aprender a tocar. Aí ele me disse: “depende. Você quer ser o quê? Concertista? Se for, realmente está velho”. “Eu quero chegar em casa, ficar sozinho, tocar um pouquinho”. Aí ele me ajudou a comprar uma flauta, que foi o que me salvou dessa depressão pós-doutoral [risos]. Herdei um pouco de meu pai, isso, essa coisa muito inquisitiva, de querer saber mais, aprender mais, não bastou, até hoje estou aí caçando alguma coisa na música. Não me considero músico. Eu me considero muito mais um amante e incentivador do choro. Da música brasileira em geral, mas principalmente do choro. Eu tenho um prazer muito grande em ouvir as pessoas que tocam. Sou mesmo um entusiasta da música. Toco por que, sei lá, sou teimoso, tento fazer uma coisa que talvez não devesse fazer.

A partir de quando o choro passou a ganhar essa tua preocupação e predileção? Quando eu voltei de Paris, voltei para o Rio de Janeiro, fiquei no Rio de Janeiro, trabalhei no Patrimônio Histórico durante dois anos. Eu fui num encontro que depois eu fui saber que foi um encontro histórico. Teve uma oficina de choro no Rio de Janeiro, na Unirio.

Nos anos 1980 ou 90? Entre 82 e 84, eu diria. Teve um grande encontro, workshops, distribuíram umas partituras. Fiquei treinando em casa, nunca havia tido a oportunidade de tocar choro com ninguém. Depois eu fui saber que essa reunião foi o que deu o início, era um experimento para ver qual o interesse no choro. Depois, dali saiu a ideia de formar a Escola Portátil. Era o pessoal que estava lá, Luciana [Rabello, cavaquinista]. Eu não conhecia ninguém, não conhecia Luciana, não sei se Raphael [Rabello, violonista sete cordas, irmão de Luciana] estava lá, depois eu li isso em algum lugar e lembrei: “eu estive nessa reunião” [risos]. O Tira-Teima é muito importante para mim. Quando eu vim à São Luís eu conheci o Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], fiquei encantado com o cavaquinho. Convidei-o a vir aqui em casa, ele veio, depois veio com Solano, com o pessoal do Tira-Teima. Eu tocava um pouquinho de bossa nova, eles tocavam choro. A partir daí ele começou a me incentivar. Eu fui para os Estados Unidos, morei em Chicago, trabalhei na prefeitura de Chicago durante oito anos, sempre ouvindo choro, ouvindo música, tentando tirar alguma coisinha. Quando eu mudei para Miami, existia um grupo lá chamado Aquarela, e o flautista vinha embora para o Brasil, tinha terminado o curso de flauta dele na Universidade de Miami. O pessoal do choro me convidou para tocar, eu nunca tinha tocado, fui tirando de ouvido, toda semana tinha uma roda, eu ia, fui tirando o repertório, fui tirando as partituras, aí foi realmente que eu comecei a tocar mais, a me interessar mais, pesquisar, ler tudo sobre choro, entender que é um movimento muito maior, que é um movimento de afirmação nacional, de transformação da música europeia para a música brasileira, até se transformar na voz nacional. Da mesma maneira que foi o movimento nos Estados Unidos com o ragtime, em Cuba com o danzón, o mesmo processo, o processo de afirmação nacional.

Esse processo todo de aprendizado foi de forma autodidata? Ou teve alguém que desempenhou um papel importante? Não, foi, eu nunca tomei aula, nunca estudei assim, com uma pessoa. Agora tem até um cara que toca na sinfônica em Miami, eu estou tendo umas aulas com ele, tocando uns duetos. No Rio de Janeiro, por exemplo, eu tive aula com David Ganc [flautista], ele tem um duo com Mário Sève [saxofonista e clarinetista]. Sabe como é: eu trabalho, esposa, filhos nascendo.

A flauta entrou como um hobby, um escape para o que você chamou de depressão pós-doutorado. Ela continua cumprindo esse papel, já que você não teve uma atuação, digamos, profissional, na música. Você nunca viveu de música? Não é bem um escape, era um amor muito grande pela música. Eu estava programado para fazer um doutorado e seguir essa carreira, tive um pouco uma desilusão. Passou a ser importante eu vivenciar [a música], não só ouvir, mas vivenciar isso. Hoje em dia a minha frustração é exatamente essa, até agora eu não pude me dedicar a isso, é uma frustração muito grande. Eu acabo de me aposentar e agora quando eu voltar eu espero me dedicar um pouquinho mais.

Agora aposentado há a perspectiva de voltar para o Brasil? Há a perspectiva de estudar música. Voltar para o Brasil, não sei. A minha esposa está trabalhando ainda e eu adoro o Brasil, mas eu acho o momento muito complicado. Não só politicamente, mas tudo me choca um pouco. Não é aquela de “voltei americanizado”, não. Me choca um pouco o desrespeito pelas pessoas, isso é uma coisa que realmente me deixa muito triste. Acho que piorou bastante. Eu lembro no tempo de meu pai, meu tempo de criança, as praças floridas, sem lixo no chão, sem balbúrdia. Não é só no Brasil, é um negócio mundial, a falta de respeito, a falta de consideração. Achei isso numa cidade aqui no Brasil: em Gramado, as pessoas dão bom dia, param para as outras atravessarem na rua. Eu se voltasse para o Brasil teria que arrumar um lugar onde eu não me contrarie muito.

No Brasil os cachês em geral são muito pequenos. Como é isso nos Estados Unidos? Nos Estados Unidos também. Em Nova Iorque, que a concorrência é muito grande, tem gente que toca de graça, se toca por pouco. Em bares, boêmia, esse tipo de coisa. Falando de músico sem um nome, e tal. Em festas particulares o cachê é bem maior. O que é positivo nos Estados Unidos é que tudo, não só na música, é uma escada, você vai subindo, vai subindo, não tem vão. O vão depende de você, se você desliza. Você vai montando os degraus, criando seu nome, você chega lá. O Paulo Moura, que eu encontrei no Rio de Janeiro, me disse que a diferença daqui pros Estados Unidos é que lá o cara passa e diz, “olha, esse cara aí já matou um leão; aqui no Brasil tem que matar um leão todo dia”, quer dizer, amanhã não interessa se você é Paulo Moura, se você já tocou com quem, é uma coisa meio chata.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? Compõe, arranja? Não, eu devo ter uma musiquinha, mas não, não tenho capacidade para isso.

Você gravou um disco. Fale um pouco dele. Ave rara, tem uma foto da pomba do divino na capa. Esse cd não era uma coisa para vender, nem nada. Eu tinha vontade de fazer, nós fizemos em um dia, um violão, Claudio Spielvan, que é um músico profissional maravilhoso, que era o dono do estúdio, eu e o Felipe, que faz a percussão. Nós gravamos, eu tinha muita vontade de gravar duas músicas de meu pai, gravei Ave rara de Edu Lobo, Carolina de Chico Buarque, gravei Doce de coco [de Jacob do Bandolim] tipo bossa nova, não em choro por que não tinha regional, e tinha um choro também do Evandro [do Bandolim], Elegante, que nós gravamos. Era uma coisa para dar para os amigos, onde eu tocasse eu pudesse dar para as pessoas para tocar em outros lugares. É uma coisa muito cara, hoje em dia cd é muito difícil de fazer. Tá todo mundo fazendo uma música e botando na internet, ninguém está mais fazendo cd inteiro. Eu ainda compro. Eu não vou comprar uma faixa do Zé da Velha, quero o cd inteiro, quero ver a capa [risos].

De que grupos musicais você participou e participa hoje? Em Chicago eu participei de coisas de jazz, me chamavam para tocar, tinha duo, tinha um grupo que o nome era Rio Thing. Era um trocadilho com real, que é real. Tinha muita gente tocando bossa nova como rumba [risos] e eu botei esse nome bem pretensioso. Fiz muitos duetos com violão. Praticamente isso. Depois esse grupo. Em Miami tinha um triozinho que tocava bossa nova, botava uns choros no meio. Depois comecei a tocar choro, fiquei no Aquarela. Eu tenho viajado, não tenho tocado muito. O que me fascina não é tocar em público, o que me fascina é a roda de choro. Isso para mim é o meu objetivo. É um pouco o espírito do Six [o advogado e cavaquinista Francisco de Assis Carvalho da Silva], que nunca tocou em público [risos], de sentar na roda, tocar uma música, ouvir o outro tocando, esse é meu fascínio. O começo são os saraus na casa dos ricos, mas essa roda é a escola do choro, onde você aprende, erra, vê quem tá tocando o quê.

O que significa essa música, o choro? Significa tudo. Em primeiro lugar, só falando da música, eu acho uma música sem defeito. Minha opinião pessoal, e depois, de novo, quem sou eu para falar sobre música? Jazz, gosto muito, vi e ouvi todo mundo, de Miles Davis… depois todo mundo querendo improvisar, eu perdi um pouco o interesse. A música clássica eu acho que você tem que se dedicar mais ainda para entender, tem a história da coisa, para você realmente usufruir, é uma coisa mais difícil, mais complicada, não que o choro não seja. Eu acho o choro uma música perfeita, existem vários gêneros dentro do choro, pegadas diferentes, um toca de uma maneira, outro de outra, a formação, os instrumentos, a harmonia, é uma música perfeita. Fora isso, a importância da música. É nossa cultura, é quem eu sou. Você não pode negar isso. Às vezes as pessoas acham que eu sou meio radical por que eu não ouço outras coisas. Eu ouço, mas eu não tenho tempo para ouvir tudo [risos].

Você acha que o choro tem sido mais valorizado nos Estados Unidos de uns tempos para cá? Eu não sei. Entre os brasileiros que moram lá e os americanos, não há a menor dúvida que os americanos sentam, ouvem, vêm depois e perguntam: “que música é essa?”. Os brasileiros que moram lá, a maioria não está muito interessada. O choro nos Estados Unidos, do tempo que eu estou lá, não há a menor dúvida. Esse ano passaram por lá 20, 30 músicos brasileiros, passou o Choro das Três, Alessandro Penezzi [violonista], Teco Cardoso [flautista e saxofonista], Hamilton de Holanda [bandolinista], Alexandre Ribeiro [clarinetista], Pablo Fagundes [gaitista], Dudu Maia [bandolinista], Duo Brasileiro, com Douglas Lora [violonista], Rogério Caetano [violonista sete cordas]. [O choro] está ganhando um espaço muito grande, de costa a costa, concerto de choro, todo dia você vê, tem um. Vocês me perguntaram nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro. Existe o Clube do Choro de Londres, Toulouse, Bordeaux, Paris, Amsterdã. No Japão, todo ano, o Época de Ouro vai, tem um grande festival de choro em Osaka. Eu participei de um festival de choro da Escola Portátil em São Paulo, São Pedro da Aldeia, tinha gente de todo mundo.

Você se considera chorão? Não. Absolutamente. Não. Eu não me considero nem músico de choro. Eu me considero um amante de choro. Vou dar um exemplo, dá para entender melhor o que eu quero dizer. Quando eu estive em São Paulo eu sentei do lado do Proveta [Nailor Proveta Azevedo, clarinetista e saxofonista], onde ele ia eu ia atrás, às vezes a mesa já estava ocupada. Num dia eu cheguei cedo, fiquei com meu prato pra me servir o almoço, onde ele sentasse eu ia atrás, sem ele saber. Eu fui. Sentei, ri, “oi, tudo bom?”, “tudo bom”. Aí eu perguntei, “queria fazer uma pergunta, posso?”, “pode, tudo bem”. E eu: “mestre Proveta, e esse negócio de improvisação no choro, como é que é? Eu tocava um pouquinho de bossa nova e conseguia ludibriar o público, as notas saíam bonitinhas, parecia um negócio arrumadinho”, eu já tinha lido acordes, escalas, harmonias. Eu pensava que ele ia me dar um método. Ele olhou pra mim e disse “quantos choros você sabe decorados?”. “Olha, agora eu tou quase chegando em 40”. Aí ele disse: “no dia que tu souber 250 tu vai improvisar”. Chorão é esse cara. Chorão é Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], que você canta ele toca 300 mil choros, Proveta, esse pessoal é chorão.

Lawrence Ferlinghetti recusa prêmio húngaro sobre Direitos Humanos

POR CAROLYN KELLOGG
DO LOS ANGELES TIMES BOOKS

TRADUÇÃO: ZEMA RIBEIRO

O poeta em frente à sua livraria em 2003

O poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, proprietário da City Lights Bookstore em San Francisco, declinou de um prêmio húngaro de mais de 64 mil dólares, alegando preocupações sobre direitos civis e liberdade de expressão.

Não é pequena a ironia de que o prêmio recusado por Ferlinghetti, o Prêmio Internacional de Poesia Janus Pannonius (Janus Pannonius International Poetry Prize) seja oriundo de uma divisão húngara do PEN (caneta em inglês, a sigla), organização internacional que apoia a liberdade de escrever e frequentemente realiza campanhas para ajudar escritores que foram presos ou silenciados.

Ao saber que o prêmio foi parcialmente financiado pelo governo húngaro, Ferlinghetti escreveu uma carta expressando suas preocupações. “Se o prêmio é em parte financiado pelo governo húngaro, e as políticas de direita deste regime tendem ao autoritarismo e o consequente cercear das liberdades de expressão e civis, penso ser impossível, para mim, aceitá-lo nos Estados Unidos. Assim, devo recusar o prêmio em seus termos atuais”, diz um trecho.

Ferlinghetti (93) serviu a Marinha na Segunda Guerra Mundial. Estava na invasão da Normandia e visitou Nagasaki uma semana depois da bomba atômica.  Ela “era como um par de quilômetros quadrados cobertos de nada, mas com cabelo humano e ossos saindo, algo horrível de se ver”, declarou ao PBS (Public Broadcasting Service) há 10 anos. A experiência relatada foi o início das convicções políticas do pacifista.

Mas Ferlinghetti é também um lutador. Em 1956 ele colocou sua jovem livraria e editora no centro dos debates sobre a liberdade de expressão ao publicar Uivo, de Allen Ginsberg. O editor chegou a ser preso, mas foi absolvido pela corte, após provar que o poema não era obsceno.

Ao rejeitar o prêmio, Ferlinghetti tentou doar o dinheiro a um fundo de apoio a casos de liberdade de expressão na Hungria, mas não ficou satisfeito com os esforços da PEN húngara em atender seu requerimento.

* O tradutor agradece a leituratenta e as dicas preciosas de Igor de Sousa e Reuben da Cunha Rocha.

Memória do Choro

Do álbum de Maria de Fátima Borges, esposa de João Pedro Borges, em seu facebook. Um 11 de setembro feliz para os Estados Unidos. Via Ricarte Almeida Santos.

O instante decisivo

[A reportagem vale a pena, embora a pergunta não queira calar: a Folha ainda acha que a ditadura foi ditabranda?]

A Folha localizou o fotógrafo do cadáver de Herzog

LUCAS FERRAZ

ilustração RAFAEL CAMPOS ROCHA

RESUMO A foto de Vladimir Herzog morto nas dependências do DOI-Codi em outubro de 1975 tornou-se um símbolo da repressão promovida pela ditadura (1964-85). A tentativa falhada de simular o suicídio do jornalista enfraqueceu a linha dura. Pela primeira vez, o fotógrafo Silvaldo Leung Vieira fala à imprensa.

HENRI CARTIER-BRESSON, fundador da mítica agência Magnum e mestre francês da fotografia, definiu num célebre ensaio de 1952 a arte do fotógrafo como a capacidade de captar um instante decisivo, para o qual deve estar alerta.

“Enquanto trabalhamos, precisamos ter certeza de que não deixamos nenhum buraco, de que exprimimos tudo; depois será tarde demais, e não haverá como retomar o acontecimento às avessas”, escreveu ele.

O instante decisivo na vida do fotógrafo santista Silvaldo Leung Vieira foi também um instante decisivo para a vida política brasileira. Aluno do curso de fotografia da Polícia Civil de São Paulo, Silvaldo fez em 25 de outubro de 1975, aos 22 anos, a mais importante imagem da história do Brasil naquela década: a foto do corpo do jornalista Vladimir Herzog, pendurado por uma corda no pescoço, numa cela de um dos principais órgãos da repressão, o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna).

Publicada na imprensa, a imagem corroborou a tese de que o “suicídio” de Herzog era uma farsa. No mesmo local, três meses depois, o mesmo fotógrafo testemunharia a morte do metalúrgico Manoel Fiel Filho. Assassinado sob tortura, ele também foi apresentado pelo regime como “suicida”.

Historiadores são unânimes: ambas as mortes foram decisivas para mudar os rumos da ditadura.

A Folha localizou Silvaldo em Los Angeles, onde vive desde agosto de 1979, quando saiu de férias do cargo de fotógrafo do Instituto de Criminalística para nunca mais voltar. Pela primeira vez, ele contou detalhes sobre sua atuação na polícia técnica de São Paulo. “Ainda carrego um triste sentimento de ter sido usado para montar essas mentiras”, afirmou, por telefone.

Sentindo-se ameaçado e perseguido pelo regime a que serviu, ele afirma não ter tido alternativa a não ser abandonar o emprego no serviço público e também o país.

CONCURSO O “Diário Oficial” do Estado de São Paulo de 6 de junho de 1975 informou, na página 59, o nome dos 24 aprovados no concurso de fotógrafo da Polícia Civil. Silvaldo era o de número 17. As aulas preparatórias, na Academia de Polícia, no campus da USP, começaram no dia 8 de outubro. Deixou a casa da mãe, em Santos, e juntou-se aos estudantes “forasteiros” no alojamento da escola, na Cidade Universitária.

Nascido em 1953, de pai chinês e mãe paulista, Silvaldo se envolveu com fotografia ainda criança, por influência da família. Foi fotógrafo da prefeitura e atuou no jornal “Cidade de Santos”. Em 1974, vislumbrou na fotografia científica a oportunidade de “desvendar crimes” e “produzir provas técnicas”, além de se aprimorar usando novos equipamentos.

Dezessete dias depois de iniciar o curso, Silvaldo foi convocado para sua primeira “aula prática” no último fim de semana do mês. “Disseram apenas que era um trabalho sigiloso e que eu não deveria contar para ninguém. A requisição veio do Dops”, afirma.

O Departamento de Ordem Política e Social, o principal centro de repressão da Polícia Civil, estava sob a influência do delegado Sérgio Paranhos Fleury, que tinha livre trânsito na linha dura das Forças Armadas.

Um motorista levou Silvaldo até um complexo na rua Tutoia, em São Paulo, cidade que até hoje ele diz não conhecer bem.

SUICÍDIOS No Brasil de 1975, os “suicídios” nos porões da repressão eram quase uma rotina. Um deles foi o do tenente reformado da PM paulista e militante do PCB José Ferreira de Almeida, o Piracaia, que morreu após ser detido no DOI-Codi, em agosto. Segundo o relato oficial, Piracaia se enforcou amarrando o cinto do macacão à grade da cela.

Os “suicídios” eram fonte de discussão no governo Geisel (1974-79) e de atritos entre militares e o governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins. Em 1975, segundo “Direito à Memória e à Verdade” (2007), livro editado pela Presidência da República, 14 militantes foram mortos por agentes do Estado.

A ditadura completava mais de uma década tendo aniquilado quase a totalidade da esquerda armada nas grandes cidades e engrossava a caçada aos militantes do Partido Comunista Brasileiro. Mais de 200 pessoas foram presas.

Entre os detidos na ofensiva contra o PCB estava Vladimir Herzog. Aos 38 anos, casado e pai de dois filhos, Vlado, como era conhecido, era diretor de jornalismo da TV Cultura. Profissional com experiência internacional e apaixonado por teatro, ele militava no partido, mas, segundo amigos, não exercia atividades clandestinas, nem poderia ser apontado como um quadro fixo do partido, que àquela altura já considerava a luta armada um grande erro.

Na sexta, 24 de outubro, Vlado foi procurado por agentes da repressão em casa e no trabalho. Decidiu se apresentar espontaneamente no DOI-Codi na manhã seguinte. Nas sete horas em que esteve detido na rua Tutoia, no Paraíso, onde ficava o centro do Exército, o jornalista prestou depoimento e passou por acareações. Segundo testemunhas, morreu após ser barbaramente torturado.

Quando Silvaldo chegou ao DOI-Codi para fotografar o cadáver de Herzog, a cena do “suicídio” estava montada. Numa cela, o corpo pendia de uma tira de pano atada a uma grade da janela. As pernas estavam arqueadas e os pés, no chão. Completavam o cenário papel picado (um depoimento que fora forçado a assinar) e uma carteira escolar.

Na mesma cela morrera Piracaia, segundo o livro “Dos Filhos deste Solo” (Boitempo), de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio.

VIBRAÇÃO Silvaldo chegou ali com uma Yashica 6×6 TLR, câmera tipo caixão, biobjetiva, com visor na parte de cima, semelhante a uma Rolleiflex.

“Eu estava muito nervoso, toda a situação foi tensa. Antes de chegar na sala onde estava o corpo, passei por vários corredores”, conta ele.

“Havia uma vibração muito forte, nunca senti nada igual. Mas não me deixaram circular livremente pela sala, como todo fotógrafo faz quando vai documentar uma morte. Não tive liberdade. Fiz aquela foto praticamente da porta. Não fiquei com nada, câmera, negativo ou qualquer registro. Só dias depois fui entender o que tinha acontecido.”

Ele diz ter começado a montar o quebra-cabeça no domingo, quando o jornalista foi velado, ao descobrir que tinha fotografado o corpo de Vladimir Herzog. Depois, viu a foto no “Jornal do Brasil”, o primeiro veículo da imprensa a publicar a imagem, ainda em 1975. No início dos anos 80, a revista “Veja” a publicaria creditando o autor: “Silvaldo Leung Vieira, Depto. de Polícia Técnica, Secretaria de Segurança Pública, São Paulo, 1975”.

“Tudo foi manipulado, e infelizmente eu acabei fazendo parte dessa manipulação”, lamenta-se. “Depois me dei conta que havia me metido em uma roubada. Isso aconteceu, acho, porque eles precisavam simular transparência.”

NOTA OFICIAL Já antes da divulgação da foto, a versão do suicídio, dada pelos militares em nota oficial, foi recebida com suspicácia. “Cerca das 16h, ao ser procurado na sala onde fora deixado, desacompanhado, foi encontrado morto, enforcado, tendo para tanto utilizado uma tira de pano. O papel, contendo suas declarações, foi achado rasgado, em pedaços, os quais, entretanto, puderam ser recompostos para os devidos fins legais”, dizia o texto do 2o Exército.

A nota não batia com o relato da mulher do jornalista, Clarice, que foi avisada por Vladimir de que se apresentaria espontaneamente para depor. Amigos dele, como os jornalistas Rodolfo Konder e Paulo Markun, presos no DOI-Codi no mesmo dia, afirmaram que era possível ouvir gritos e gemidos de Herzog enquanto era torturado.

O Exército afirmou que a tira de pano amarrada no pescoço de Vladimir Herzog, visto pela repressão como um agente da KGB, o serviço secreto da União Soviética, seria a cinta do macacão que usava. Mas os macacões do DOI-Codi não tinham cinta.

Embora o laudo do Instituto Médico Legal afirmasse que a causa mortis foi “asfixia mecânica por enforcamento”, Herzog não foi sepultado na ala dos suicidas do cemitério israelita do Butantã, conforme a tradição judaica. A decisão do rabino Henry Sobel foi considerada um desafio ao regime militar.

A foto de Silvaldo mostrava que Vlado “se enforcou” atando o nó na primeira barra da janela, a 1,63 metro de altura. A imagem divulgada à época, contudo, fora cortada: descobriu-se depois, nos arquivos do SNI (Serviço Nacional de Informações), uma versão sem corte, segundo o jornalista Elio Gaspari. Essa imagem mostra a barra superior da janela, que Herzog poderia ter usado se quisesse de fato se enforcar, subindo na carteira escolar e se projetando em vão livre.

Na semana seguinte à morte do jornalista, São Paulo continuava convulsionada. Além da agitação estudantil na USP (Universidade de São Paulo) que prenunciava as manifestações de 1977, a missa de sétimo dia de Vlado, na catedral da Sé, transformou-se num ato ecumênico de repúdio à ditadura.

Silvaldo conta que “uns dez colegas” seus da Academia de Polícia foram escalados para fotografar alguns dos presentes na Sé. Eles deviam atuar “como fotógrafos de jornal”, para identificar supostos subversivos.

Edson Wailemann, 57, formou-se na turma de Silvaldo. Ele ainda se lembra do colega, apesar de não conhecer a história da foto de Herzog. É fotógrafo policial há 37 anos, atuando exclusivamente em casos de homicídio. “Naqueles anos, a polícia técnica sempre atendia a esses chamados, inclusive para os trabalhos dentro das dependências do Exército”, confirmou à Folha. “Era comum”.

Um ex-agente do antigo SNI que atuava nessa época em São Paulo disse à Folha, sob condição de anonimato, que a história do fotógrafo não é verossímil.

Segundo ele, o DOI-Codi, sob comando do militar Audir Santos Maciel, era um dos lugares mais herméticos do aparato de repressão. Antes de Maciel, o DOI-Codi fora chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra. Parentes de desaparecidos que estiveram presos lá tentam responsabilizá-los judicialmente, até agora sem sucesso. Ustra e Maciel negam participação em torturas e assassinatos.

A colaboração dos profissionais do Instituto de Criminalística com a repressão, principalmente fotógrafos e peritos, era tão comum que, na virada dos anos 70 para os 80, foi criada uma equipe especial para atender exclusivamente os crimes ou casos políticos. Até ela ser formada, no entanto, vários profissionais foram requisitados.

A conexão da Polícia Civil (Dops) com o Exército (DOI-Codi), mais do que notória, era feita por intermédio de Fleury, entre outros.

“Havia um comando paralelo no Exército, e é bem provável que houvesse também um comando anarquista na Secretaria de Segurança Pública”, disse à Folha o ex-governador (1975-79) Paulo Egydio Martins, 84. “Esse era um problema absolutamente crítico, que infelizmente saiu do controle.”

AULA PRÁTICA Oitenta e quatro dias depois de fotografar o cadáver de Herzog, Silvaldo foi convocado para outra “aula prática” no DOI-Codi. Era janeiro de 1976, e ele ouviu as mesmas recomendações de que não falasse nada sobre o trabalho. Novamente, a ordem partira do Dops.

O objetivo era forjar outra farsa: a morte do metalúrgico Manoel Fiel Filho, também “enforcado” nas dependências do Exército. Nas contas que Elio Gaspari faz em seu livro “A Ditadura Encurralada” (Companhia das Letras), Fiel Filho “fora o 39º suicida do regime, o 19º a se enforcar. Como Cláudio Manuel da Costa, com as meias, sem vão livre”. (O poeta e inconfidente mineiro Cláudio Manuel da Costa foi o patrono dos “suicidas” nas prisões brasileiras. Morreu enforcado com uma meia comprida, em 1789.)

Segundo testemunhas Fiel Filho fora detido pelos agentes do DOI-Codi de sandálias e sem meias. “Fiz fotos do local onde o corpo foi encontrado, mas não me deixaram ver o cadáver. Antes de fotografá-lo, recebi uma ordem de que deveria deixar o local”, afirma Silvaldo.

Assim como ocorreu na morte de Vlado, o 2º Exército, responsável pelo Estado de São Paulo, divulgou nota atestando o “suicídio”. Mas não houve publicidade da imagem do morto no DOI-Codi.

“Eu sabia que eles tinham feito merda, mas nessa segunda vez eu estava mais relaxado, fiz até um comentário: ‘Aqui acontecem coisas estranhas'”, lembra Silvaldo. “Um oficial do Exército que me acompanhava, que parecia ser muito jovem, me ameaçou: ‘É melhor ficar calado e não comentar nada. Se você não calar, a gente te cala’.”

Não se sabe se o cadáver do metalúrgico foi fotografado dentro do DOI-Codi. “O que se conhece é uma imagem do corpo dele nu, no necrotério”, conta o jornalista e cineasta Jorge Oliveira, que a expôs no documentário que produziu, “Perdão, Mr. Fiel”, em que narra, como diz o subtítulo do filme, a história do “operário que derrubou a ditadura no Brasil”.

Separados por poucos meses, os assassinatos de Herzog e Fiel Filho expuseram o descontrole e a anarquia dos porões. A linha dura, que não aceitava a distensão “lenta e gradual” que o presidente Ernesto Geisel pretendia levar a cabo, resistia, com o argumento de que o Brasil ainda estava ameaçado pelo comunismo.

A queda de braço da linha dura com Geisel e seu ministro Golbery do Couto e Silva (1911-87), que levou à queda do general Ednardo D’Avila Mello, chefe da Força em São Paulo, em 1976, e do ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977, é narrada em detalhes por Elio Gaspari em “A Ditadura Encurralada”.

“Tenho para mim que esses acontecimentos foram a raiz das Diretas-Já”, avalia o ex-governador Paulo Egydio Martins.

TAREFAS Em abril de 1979, quando o país discutia a Lei da Anistia, Silvaldo recusou-se a participar de uma tarefa – da qual ele diz não se lembrar. Desde julho de 1976, já estava efetivado como fotógrafo da Polícia Civil de São Paulo, segundo seu registro funcional da Secretaria de Segurança Pública.

No documento, vê-se que passou pela delegacia de Santos, a de acidentes de trânsito e, por fim, a Darc, Delegacia de Arquivos e Registros Criminais, onde era responsável por registrar os presos condenados antes que fossem transferidos para os presídios.

“Mas o trabalho ia sempre além”, conta, “e muitas vezes tinha que fotografar também presos políticos, alguns que acabavam de sair das sessões de tortura. Eu não aguentava aquilo, reclamava que minha atribuição não me permitia fazer esse serviço. E quanto mais eu questionava, mais a situação ficava delicada.”

Silvaldo diz que os superiores passaram a fritá-lo por sua atitude questionadora: não podia tirar férias e chegou a ser suspenso.

Segundo registro da Polícia Civil ao qual a Folha teve acesso, Silvaldo foi afastado por três dias, nos termos da lei estadual nº 207, de 1979, por “descumprimento dos deveres e transgressão disciplinar”. Em agosto, finalmente tirou férias e deixou o Brasil.

EUA Em Los Angeles, onde está radicado desde então, Silvaldo conta ter feito um pouco de tudo: como imigrante ilegal, ganhou dinheiro jogando xadrez e até como aprendiz de ourives, emprego que conseguiu graças a um empresário grego radicado nos EUA que era casado com uma conhecida dele de Santos.

De lá, acompanhou o apagar das luzes da ditadura e viu a União ser condenada pela morte de Manoel Fiel Filho, em 1995 – no caso Herzog, a primeira condenação da União ocorreu ainda em 1978. (Ainda assim, setores das Forças Armadas frequentemente divulgam informações dando conta que Herzog e Fiel Filho se mataram, omitindo os assassinatos. Em 1993, um relatório da Marinha dizia que Vlado se suicidou no DOI-Codi.)

Em 1986, foi favorecido pela Lei da Anistia da Imigração Americana, promovida pelo governo de Ronald Reagan (1981-89); dois anos depois, ganhou o visto de residência temporária; em 1989, veio o selo de residente permanente. Hoje trabalha no Good Shepperd Center, instituição beneficente voltada para mulheres e crianças sem-teto.

O abandono do cargo público ainda lhe traz problemas. No governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), convidado a trabalhar no setor cultural do Consulado em Los Angeles, não pôde assumir o posto: a infração administrativa até hoje o impede de voltar ao serviço público.

Silvaldo protocolou pedido em 2008 na Comissão da Anistia do governo federal para tentar receber indenização pelo tempo de serviço como fotógrafo da Polícia Civil. Alega ter abandonado o cargo por causa da perseguição política.

“Infelizmente eu estava no meio do caldeirão, sempre foi muito difícil para mim entender todo esse processo”, conta. “O único conforto é pensar que a foto que fiz do Herzog ajudou a desmontar toda a farsa”. Separado e sem filhos, ele planeja voltar para o Brasil para ficar ao lado da mãe octogenária.

Ele não pretende voltar apenas para casa, mas também para a fotografia. Admirador dos fotógrafos Sebastião Salgado e Gale Tattersall (britânico que se especializou em fotos para o cinema), Silvaldo programa uma viagem ao Alasca com um grupo de Los Angeles, para registrar paisagens, em uma espécie de workshop.

“Preciso me atualizar, comecei na fotografia na era do preto e branco. Mudou muito.”

Folha de S. Paulo, Ilustrada, hoje (acesso mediante senha para assinantes).