Concerto de orquestras de violões abriu encontro em São Luís, ontem

Foto: Zema Ribeiro

 

Um bom público compareceu na noite do feriado de ontem (1º.) ao Teatro Arthur Azevedo para prestigiar o concerto de abertura do I Encontro Interinstitucional de Violões – cujas atividades já aconteciam desde a manhã, no Convento das Mercês. O espetáculo teve entrada franca.

Além de concertos, a programação inclui oficinas, workshops, masterclasses, palestras e curso de regência, numa realização da Orquestra de Violões da Uema-Emem, em parceria com instituições como a Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), Convento das Mercês, Teatro Arthur Azevedo, Escola de Música Municipal Maestro Nonato (de São José de Ribamar) e Orquestra Maranhense de Violões, além do apoio do Grand São Luís Hotel e do Restaurante Flor de Vinagreira.

O professor Roberto Fróes, que regeu a Orquestra de Violões da Uema-Emem, a segunda a se apresentar na noite de ontem, ressaltou a importância do encontro – São Luís não realizava um do tipo há pelo menos sete anos –, da valorização do instrumento e do destaque alcançado pelo violão na identidade musical nacional.

Os concertos – impossível falar no singular – de ontem foram oportunidades de ouvir um repertório quase sempre restrito às escolas de música ou para iniciados. O interesse do público presente demonstra que a plateia gosta do que é oferecido, para se jogar lenha na fogueira daquele velho debate sobre o porquê de a mídia insistir em oferecer apenas o que em tese é mais palatável.

Regida por Domingos Nélio Soares, a Orquestra Maranhense de Violões apresentou as seguintes peças: Camiño de Felanitx, Dança andaluza (ambas de Eythor Torlakson) e Em la playa (folclórica espanhola). Fechando sua apresentação foram de Bela mocidade (Francisco Naiva e Donato Alves), clássico do Bumba-meu-boi de Axixá, quando duas violonistas do grupo trocaram seus violões por ukulele e chocalho. O público cantarolou junto, numa demonstração de que erudito e popular podem ocupar o mesmo espaço. O grupo é formado por Alessandro Freitas, Kevin Wesley, Linda Yang, Mariana Morgana, Admary dos Santos, Carlos Felipe e Luana Gomes.

Na sequência foi a vez da Orquestra de Violões da Uema-Emem, formada por Tiago Fernandes, Uriel Ewerton, Davi Farias, João Marcos Costa, Gabriel Veras e Emanoel Gomes. Roberto Fróes, que cumpriu bem o ofício de mestre de cerimônias, com a dose certa de bom humor, dança enquanto rege, talvez a celebrar o sucesso do evento – merecida comemoração.

O grupo executou Brumas (da Suíte modal), de Paulo Porto Alegre, Schafe können sicher weiden, apresentada pelo regente pela tradução, As ovelhas podem pastar em segurança, de Johann Sebastian Bach, e três movimentos (dos seis da peça) de Variações sobre um tema de Brouwer: Tema, Dança e Final. O cubano Leo Brouwer é desde sempre uma das maiores referências contemporâneas em composição para violão e as peças executadas exploram diversas possibilidades do instrumento.

Bruno Cipriano solou uma máquina de escrever num dos momentos mais inusitados do concerto – dos concertos: A máquina de escrever, de Leo Wilczek. A plateia riu, em estado de graça. O grupo encerrou sua apresentação executando um arranjo inédito de João Pedro Borges para Boi da lua, de Cesar Teixeira, ao lado de Bela mocidade um dos maiores clássicos do período junino do Maranhão. Roberto Fróes contou uma curiosidade: integrava uma camerata com Domingos Nélio entre o fim da década de 1990 e início dos anos 2000, quando receberam o presente de Sinhô, à época seu professor, mas o grupo acabou antes e o arranjo permaneceu inédito até ontem.

As duas orquestras voltaram juntas ao palco, sob regência da professora Verónica Pascucci, “uma das responsáveis pela existência do curso de música da Ufma”, como destacou Fróes. Tendo por solista Davi Farias e contando com a participação especial de Joaquim Santos (contínuo), “uma referência nacional em se tratando de violão”, como também salientou Fróes, os grupos executaram o Concerto em D (RV 93), uma das peças mais conhecidas de Antonio Vivaldi.

A programação do I Encontro Interinstitucional de Violões segue até sábado (4), no Convento das Mercês, com as presenças de Alessandro Freitas, Cristiano Braga, Domingos Santos, Endro Fadell, João Pedro Borges, Joaquim Santos, Júnior Maranhão, Marcelo Moreira, Orlando Fraga, Roberto Fróes (coordenador do encontro) e Verónica Pascucci.

Metais em brasa hoje no Sesc Partituras

O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação
O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação

 

O auditório da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem, Rua da Estrela, Praia Grande) recebe hoje (29), às 19h, mais uma edição do Concerto Sesc Partituras – o espetáculo integra a programação de aniversário de 70 anos do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Daniel Cavalcante (trompete) regerá o sexteto Marabrass, formado, além dele, por Hugo Carafunim (trompete), Jairo Moraes (trompa), Daniel Miranda (trombone), George Campos (tuba) e Marcel Pereira (percussão).

“Quando eu recebi o convite, pensei em fazer uma formação diferente, mas ao me debruçar sobre o banco de partituras do Sesc, optei por tocar com o grupo que já existia, o Quinteto Marabrass, Mara de Maranhão e brass de metais, que já tem 13 anos tocando junto. É grande a responsabilidade”, contou Daniel Cavalcante ao Homem de vícios antigos.

Ele prometeu “mesclar o repertório [do acervo do Sesc Partituras] de forma que a gente possa transitar entre o erudito e o popular”, destacando, entre os compositores que estarão no repertório do Marabrass na noite de hoje, nomes como “Henrique Alves de Mesquita, Marcílio Onofre, Maestro Duda e Bonfiglio de Oliveira, dentre outros”.

A biblioteca virtual de partituras do Sesc tem acesso gratuito a qualquer interessado/a. O concerto de hoje à noite também.

Chorodança

O choro – ou chorinho, como também é conhecido – comporá a programação da 10ª. Semana Maranhense de Dança, que este ano homenageará a bailarina Ana Duarte, assassinada em São Luís em março passado.

Grupos que se dedicam ao gênero serão uma espécie de anfitriões para a programação no Teatro Arthur Azevedo, de cuja diretoria partiu o convite ao Clube do Choro do Maranhão.

A programação de choro dentro da Semana Maranhense de Dança tem início amanhã (6), quando às 17h, em palco na lateral da bilheteria do TAA (próximo ao bar), se apresenta o Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade na capital maranhense, na ativa desde a década de 1970.

Em vias de lançar seu primeiro disco, Gente do choro, prometido para este ano, o grupo é formado por Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Francisco Solano (violão sete cordas), Luiz Jr. (violão sete cordas), Serra de Almeida (flauta) e Zé Carlos (percussão). O primeiro é o atual presidente do Clube do Choro do Maranhão. Ele comemorou a parceria com o TAA e afirmou que a ideia é oferecer o choro enquanto música genuinamente brasileira a bailarinos e coreógrafos, para que estes se inspirem no gênero para pensar suas coreografias e performances. “Nossa proposta [do Clube do Choro do Maranhão] é, além deste espaço, levar saraus musicais a outros lugares da cidade para formação de plateia e difusão do gênero”, afirmou.

O Instrumental Pixinguinha nos jardins da EMEM. Foto: divulgação
O Instrumental Pixinguinha nos jardins da EMEM. Foto: divulgação

Na quarta-feira (7), no mesmo horário, é a vez do Instrumental Pixinguinha, formado no final da década de 1980 por professores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM). O grupo é pioneiro: foi o primeiro maranhense a lançar um disco inteiramente dedicado ao choro, Choros maranhenses, de 2005. João Neto (flauta), Juca do Cavaco, Domingos Santos (violão sete cordas), Raimundo Luiz (bandolim) e Nonatinho (percussão) são os integrantes de sua formação atual.

A programação continua na sexta-feira (9), após o aniversário da capital maranhense. Também às 17h será a vez da mais recente formação chorística da ilha: o Quinteto Samba Choro, formado por Zeca do Cavaco (cavaquinho centro e voz), Gabriela Flor (percussão) e Francisco Neis (violão seis cordas). A formação se completa com Paulo Trabulsi (cavaquinho solo) e Francisco Solano (violão sete cordas), ambos também membros do Tira-Teima, que já teve Zeca do Cavaco entre seus integrantes.

Sábado (10) o horário muda, mas a participação de grupos de choro continua: às 15h, no mesmo local, se apresentará o Núcleo de Choro da EMEM, formado em dezembro de 2014 por estudantes da instituição, sob a coordenação dos professores Nonatinho (percussão), Raimundo Luiz (bandolim) e Zezé Alves (flauta).

“Temos muitos talentos e percebemos isso no dia a dia da Escola de Música. Eles são o futuro, sendo fundamental a criação de espaços para as apresentações desse gênero musical, para que o choro possa ganhar mais espaço na cidade”, afirmou o professor Nonatinho no material de divulgação da programação.

Celso Brandão, diretor do TAA, comentou a parceria. “A proposta da programação dentro da Semana Maranhense de Dança é difundir o gênero musical mais brasileiro e divulgar o trabalho que vem sendo realizado pelo Clube do Choro do Maranhão, com ações de difusão cultural na realização de saraus musicais em espaços públicos da cidade”, afirmou.

As apresentações dos grupos de choro, bem como toda a programação da Semana Maranhense de Dança, têm entrada franca.

Mais Choro – Outros projetos que têm contribuído para a difusão do gênero musical, a formação de plateia e a ocupação de espaços públicos da capital e do interior, são o RicoChoro ComVida na Praça e o Samba e Choro na Praça, produzidos pela RicoMar Produções Artísticas e Máquina de Descascar’Alho, respectivamente. Com espetáculos gratuitos, os projetos são patrocinados através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão: o primeiro pela TVN; o segundo pela Companhia Energética do Maranhão (Cemar).

Choro em dose dupla para celebrar aniversário de Pixinguinha

Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
Celebração do Dia Nacional do Choro acontece na véspera, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Divulgação
"Jornada Chorística do Maranhão" acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação
“Jornada Chorística do Maranhão” acontece em dois tempos no São Luís Shopping. Divulgação

Como já é tradição nos calendários musical e cultural de São Luís, será comemorado o Dia Nacional do Choro, homenagem ao nascimento de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (23/4/1897-17/2/1973), um dos mais importantes nomes do gênero e da música brasileira.

A data é celebrada a cada 23 de abril. A novidade em 2016 é que haverá duas festas: uma, a oficial, promovida pela Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), cujos corredores, tendo professores e alunos em várias formações, foram berço de diversos grupamentos. A segunda festa acontecerá na nova praça de alimentação do São Luís Shopping. Nesta, os músicos abriram mão de seus cachês, em favor do livro Chorografia do Maranhão, a ser lançado em breve. Ambos os acontecimentos são gratuitos e abertos ao público.

“Parte dos recursos para fazer o livro estão garantidos por edital da Fapema [a Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão], outra parte foi arrecadada através de campanha de financiamento coletivo na internet, mais um pedaço está vindo da solidariedade dos músicos que se apresentarão no São Luís Shopping e há, ainda, promessas de empresas privadas. Ficamos muito felizes com a iniciativa do shopping e o gesto dos músicos. De pedacinho em pedacinho, a gente vai conseguindo contar estes importantes capítulos da história do choro e da música do Maranhão”, comenta Ricarte Almeida Santos, autor do livro, com este que vos perturba e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos.

A programação da Emem acontece dia 22 (sexta-feira), às 18h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Como em anos anteriores, a iniciativa homenageará um chorão local. Este ano será o bandolinista e cavaquinhista Roquinho, que curiosamente não está entre os 52 entrevistados pela Chorografia do Maranhão: o músico simplesmente negou-se a atender todos os insistentes pedidos de entrevista dos chororrepórteres – o que não lhe diminui o brilho, o talento e a importância para a cena choro local. O convite anuncia a “participação de instrumentistas, grupos de choro da cidade e artistas convidados”, destacando os grupos Instrumental Pixinguinha, Regional Tira-Teima, Chorando Callado e Os Cinco Companheiros.

No São Luís Shopping a comemoração acontece sábado (23), em dois turnos. A “Jornada Chorística do Maranhão”, como foi batizado o evento, terá o primeiro tempo ao meio dia, com Trio Feitiço da Ilha e Chico Nô, Suellen Almeida (flauta), Regional Deu Branco, Urubu Malandro e Instrumental Pixinguinha. O segundo tempo, que começa às 18h, contará com Os Cinco Companheiros, Quinteto Bom Tom e Anna Cláudia, Regional Camisa de Bolso, Trítono Trio, Danuzio Lima (flauta) e Regional Tira-Teima.

Do quintal ao municipal, como no título do livro de Henrique Cazes, e agora à praça de alimentação, o choro se renova e conquista novos espaços e público. Vida longa, com as bênçãos de São Pixinguinha.

Confira o encontro do Instrumental Pixinguinha com o Regional Tira-Teima em Cochichando [Pixinguinha/ João de Barro/ Alberto Ribeiro], durante a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes em 2013.

Correndo o chapéu

[release]

Campanha de financiamento coletivo lançada no último dia 1º. pretende garantir parte do orçamento para viabilizar a publicação; a outra parte do recurso está garantida através de edital da Fapema

Os chororrepórteres Ricarte, Rivanio e este que vos perturba, no Bar do Léo, um dos cenários da Chorografia do Maranhão. Foto: Murilo Santos
Os chororrepórteres Ricarte, Rivanio e este que vos perturba, no Bar do Léo, um dos cenários da Chorografia do Maranhão. Foto: Murilo Santos

O sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, o jornalista Zema Ribeiro e o fotógrafo Rivanio Almeida Santos aprovaram, em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico do Maranhão (Fapema), projeto que pretende publicar em livro as 52 entrevistas da Chorografia do Maranhão, realizadas pelo trio com instrumentistas de choro naturais de/e/ou radicados no Maranhão.

Porém, o recurso aprovado pela Fundação é insuficiente para as pretensões dos “chororrepórteres”, como eles se autodenominaram. “Foram mais de dois anos de trabalho árduo, publicando quinzenalmente as entrevistas em parceria com um jornal de São Luís, e o registro destas entrevistas em livro, além de uma vontade nossa, é também um desejo de pesquisadores, estudantes de música e interessados em música em geral, e em choro em particular, além dos próprios personagens da série”, revela Ricarte.

Para conseguir o que falta dos recursos para realizar seu intento, o grupo lançou uma campanha virtual de financiamento coletivo. “O crowdfunding é uma tendência mundial para a realização de projetos nas mais diversas áreas, hoje. É claro que estamos abertos a patrocinadores, a empresários eventualmente sensíveis à cultura, alguns dos quais têm colaborado para a realização dos projetos realizados por Ricarte nos últimos anos; mas se eles não se aliarem ao projeto, já estamos, literalmente, com o bloco na rua e o chapéu na mão”, comenta Zema.

A campanha, que pretende arrecadar 30 mil reais e tem dois meses de duração, foi lançada no último dia 1º. de fevereiro. “Realizamos um trabalho que buscou primar pela excelência na apuração dos depoimentos, revelando além das próprias histórias pessoais dos chorões, um pouco da própria história do choro e da música em geral produzidos no Maranhão, as dificuldades e avanços vividos pelo gênero no estado, além de a Chorografia ser também um mapeamento afetivo e sentimental de lugares que, de algum modo, têm relação com a música imortalizada por gênios como Pixinguinha e Ernesto Nazareth, entre outros. Pode parecer que estamos querendo dinheiro demais, mas queremos um livro com um padrão de qualidade, como a memória deste pedaço da história e da cultura do Maranhão merece”, defende Rivanio.

Lançamentos além da Ilha – Outra pretensão do trio – e para isso, outro projeto já está em fase de elaboração, para captação de recursos através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura – é lançar o livro em praças de choro pelo país. “O Clube do Choro do Maranhão sempre buscou proporcionar o diálogo entre músicos do cenário local e do cenário nacional, e os projetos que produzimos ultimamente, movimentando a cena chorística da capital maranhense, não fizeram diferente. Nossa ideia é levar este livro à Brasília, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, garantindo a ida de um grupo de choro maranhense até cada uma destas cidades, para as noites de autógrafos”, antecipa Ricarte.

Capricho editorialChorografia do Maranhão, o livro, tem prefácio de Luciana Rabello e produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, que tem investido na produção de obras sobre a cena musical do Maranhão. A editora de Bruno Azevêdo já publicou Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, Em ritmo de seresta – Música brega e choperias no Maranhão, de seu proprietário, e O reggae no Caribe brasileiro, de Ramusyo Brasil, os dois primeiros em parceria com a Edufma.

Personagens e cenários – Para se ter uma ideia da diversidade dos entrevistados, citamos os personagens da galeria da Chorografia do Maranhão: Os Irmãos Gomes – filhos do capitão Nuna Gomes, compositor e multi-instrumentista rosariense, o violonista Bastico, Zequinha do Sax e Biné do Cavaco –; os bandolinistas César Jansen, Chiquinho França, Raimundo Luiz, Ronaldo Rodrigues, Wendell Cosme e Wendell de La Salles; o banjoísta Biné do Banjo; os cavaquinhistas Ignez Perdigão, Juca do Cavaco, Márcio Guimarães, Paulo Trabulsi, Rafael Guterres, Robertinho Chinês e Zeca do Cavaco; os flautistas Danuzio Lima, João Neto, Lee Fan, Paulinho Oliveira, Serra de Almeida, Zezé Alves; os percussionistas Arlindo Carvalho, Carbrasa, Léo Capiba [in memoriam], Luiz Cláudio, Nonatinho, Vandico, Wanderson e Zé Carlos; o pianista Adelino Valente; o sanfoneiro Rui Mário; os saxofonistas José Luís Santos e Osmarzinho; o trombonista Osmar do Trombone; o tecladista Maestro Nonato; os violonistas Agnaldo Sete Cordas [in memoriam], Celson Mendes, Domingos Santos, Francisco Solano, Giovani Cavalcanti, Gordo Elinaldo, Henrique Cardoso, Hermelino Souza, João Eudes, João Pedro Borges, João Soeiro, Joaquim Santos, Luiz Jr., Marcelo Moreira, Monteiro Jr., Turíbio Santos e Ubiratan Sousa – alguns dos listados assumem mais de um instrumento.

As entrevistas também revelam uma paisagem diversa, afetiva do choro em São Luís. A Chorografia do Maranhão visitou as residências de Adelino Valente, Arlindo Carvalho, César Jansen, dona Zelinda Lima (para entrevistar seu filho Danuzio), Gordo Elinaldo e João Pedro Borges (para entrevistar seu amigo e parceiro Turíbio Santos, que ensaiava lá, para uma apresentação em São Luís), além de Bar do Léo, Barraca Paradise, Barulhinho Bom, Brisamar Hotel, Chico Discos, ECI Museum, Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, Estúdio de Júlio (Camboa), Feira da Praia Grande, Fonte do Ribeirão, Hotel Pestana, Kumidinha di Buteko, La Pizzeria, Praça da Saudade, Praça de Alimentação do São Luís Shopping, Quitanda de Seu João (esquina das ruas do Ribeirão e do Machado, Centro), Quitanda do Jósimo (esquina das ruas do Alecrim e Pespontão, Centro), Quitanda Rede Mandioca, Restaurante Chico Canhoto, Salomé Bar, Samba Sem Telhado e Sonora Studio.

Participações especiais – A série Chorografia do Maranhão contou ainda com chororrepórteres honorários: num encontro inusitado, em plena Feira da Praia Grande, o jornalista e compositor Cesar Teixeira – fundador do Regional Tira-Teima – ajudou a entrevistar Zeca do Cavaco, atualmente membro do grupamento de choro mais longevo do Maranhão; e Murilo Santos substituiu Rivanio, que não pode comparecer à entrevista com Os Irmãos Gomes no Bar do Léo.

Segunda etapa – Ricarte, Rivanio e Zema priorizam, agora, a publicação do trabalho em livro. Mas revelam uma vontade, para a qual já estão se preparando: revelar os chorões do interior do Maranhão. “Ao longo das entrevistas, diversas cidades maranhenses foram citadas como polos musicais importantes, embora praticamente desconhecidos. A Chorografia do Maranhão, por conta de todas as limitações, sobretudo pelo recurso zero que teve, ou melhor, não teve [risos], acabou se concentrando na capital e, quando entrevistou chorões radicados fora do Maranhão, foi aproveitando visitas suas à capital, por um ou outro motivo. Vamos trabalhar um projeto para garantir as viagens aos municípios do interior, as condições de trabalho, e continuar este mapeamento, do qual este livro encerra uma primeira etapa”, finaliza Ricarte.

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Chorografia do Maranhão: Paulinho Oliveira

[O Imparcial, 29 de março de 2015]

Flautista, professor da EMEM e membro da primeira formação do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 50º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Seu cartão de visitas é certeiro: “Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Ouvi muita música, batucada, Fuzileiros [da Fuzarca, bloco carnavalesco sediado no bairro], Turma do Quinto [escola de samba idem], os terreiros, [Casa das] Minas, [Casa de] Nagô”. Ainda no bairro boêmio em que nasceu, Paulo Oliveira dos Santos Filho começou a soprar em flautas feitas por seu pai com taboca de mamoeiro.

Seus pais eram operários da fábrica de Cânhamo, nos arredores, onde hoje estão instalados o Ceprama e o Museu do Tambor de Crioula. Paulinho Oliveira nasceu em 26 de julho de 1965, filho do pernambucano Paulo Oliveira dos Santos e Maria José Ribamar Silva.

Sorridente e descontraído, Paulinho deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 50º. da série, na Sala Turíbio Santos, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM], onde leciona. A entrevista foi ilustrada musicalmente por Corrupião, de Sérgio Habibe [compositor].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Em sua infância, você se lembra do movimento do operariado em torno da fábrica Cânhamo? Não tenho muita lembrança, mas vagamente alguma coisa. Eu ia levar marmita, quando criança, junto com minhas irmãs mais velhas, eu sou o caçula de quatro, dois homens e duas mulheres.

Você tem outra profissão, além de músico? Eu trabalho só lecionando. Estudei no Senai [o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], fiz curso na área técnica, mas não quis exercer a profissão. Na Escola Técnica [hoje Instituto Federal do Maranhão – IFMA] eu estudei na banda, com Maestro Nonato, que foi meu primeiro professor de música, assim em um curso regular, sistemático, né? Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Eu sou uma pessoa que ouvi muita música, batucada, Fuzileiros, Turma do Quinto, os terreiros, Minas, Nagô.

E na sua casa? Teus pais tocavam algum instrumento? Minha mãe participou de baralho, brincadeiras carnavalescas, populares. Meu pai não teve isso. Papai tinha muitos amigos, gostava de encontrar.

Ele conviveu com os boêmios da Madre Deus, de algum modo? Sim, [os compositores] Cristóvão [Colombo da Silva, popularmente conhecido por Cristóvão Alô Brasil], Sapo [Henrique Martiniano Reis], Tabaco [Hermanegildo Tibúrcio da Silva], Bibi [Silva], Patativa [Maria do Socorro Silva], trabalhou na Cânhamo com ele.

A Madre Deus sempre foi um ambiente propício. Eu sou filho da Madre Deus, aquele ambiente, tambores, tinham alguns comércios próximos de minha casa, músicos amadores iam até ali, meu irmão mais velho era músico amador, violonista, tocou muito em bailes. Uma influência muito grande ali que eu tive foi a de conviver com grandes ritmistas, como Welllington [Reis], Amauri, Prio, finado Tião, Eloy, Biné do Banjo [banjoísta, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], outros que eu esqueci o nome.

Você lembra com que idade começou a tocar? Vem de criança. Eu lembro que na Madre Deus tinha um senhor, ele trabalhava e fazia algumas flautas, pífanos, aquilo foi me levando. Meu pai fabricava instrumentos para mim de cano de mamoeiro, brincadeira de criança. Eu comecei mesmo com flauta doce, houve um tempo aqui em que os jovens tocava muita flauta doce, eu fiz parte de movimento de Igreja, a gente tocava de ouvido, tinha uma musicalidade, eu fui me envolvendo. Na oportunidade em que eu conheci o Gilson [César, ator e mímico], ele me levou para o Laborarte [Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão], eu fiz parte do Departamento de Música do Laborarte, ali pela década de 1980.

Quando você fez parte do Laborarte já tinha passado pela Escola Técnica? Pela Escola! Nessa época eu estava estudando flauta transversa. Nesse período, que eu encontro o Gilson, que me apresenta o Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Eles foram a ponte para eu chegar até a Escola [de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], onde eu cheguei como aluno. Eu já tocava um pouco de flauta doce. Tive aulas com professor Vanilson [Lima], Wolf Clemmens [Hilbert], alemão, foi o cara que trouxe a flauta doce para cá para o Maranhão, para São Luís. Eu tive aulas particulares com ele, ele já não era mais da Escola.

Teus principais mestres seriam estes? Sim, na área de flauta doce. Eu tive aulas com Lisiane [Nina], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], este é o pai dos flautistas daqui. Comecei a estudar teoria musical, eu já tinha começado na Escola Técnica, mas a Escola de Música é que foi mesmo o grande alicerce.

Quando você escolheu seguir a música, teus pais te apoiaram? Naquele período, aqui no Maranhão, não era uma coisa tão bem vista. Tinha aquela coisa, “você vem de uma família de negros, pobre, mora na periferia, olha teu irmão”. As pessoas queriam que eu exercesse uma profissão que me desse um lucro financeiro.

Que músicos você citaria entre suas principais influências, aqueles que te levaram a ser o músico que és hoje? Lisiane foi uma grande figura, Zezé, Raimundo Luiz, Tomaz [de Aquino Leite], muita gente, muita gente.

Como é que você enveredou pelo choro naquele período? A minha linha musical, eu comecei na Madre Deus, ritmista, percussão, a minha linguagem era dentro disso, o samba. Quando eu entrei na Escola de Música foi que eu fui descobrir a música clássica, erudita, comecei a percorrer esse caminho. Meus estudos de flauta doce eram mais relacionados à música erudita. Nesse período, quando eu entrei na Escola de Música, ela não era direcionada à questão da música popular. Essa minha relação com o choro começou através de Zezé, eu comecei a ter aulas com ele. E no Laborarte, no Departamento de Som, a coisa da cultura popular, mesmo.

Você então vivenciou aquele ambiente laborarteano de pesquisa. Sim, tive contato com tambor de crioula, divino, cacuriá, Mestre Felipe, era um laboratório, a gente fazia um trabalho inovador para a época. Foi um período divino! Se eu pudesse voltar eu voltaria.

Apesar das preocupações iniciais de tua família, hoje é possível viver de música? Sim, dá para viver com dignidade. Há poucos dias eu estava conversando com uma aluna, prestes a fazer vestibular, meio em dúvida, ela querendo saber como estava a situação. Hoje nós temos várias escolas, faculdades, o mercado vai se abrir.

Além do [Instrumental] Pixinguinha, de que grupos musicais você fez parte? Do Laborarte, o Departamento de Som, fizemos vários shows, peças de teatro, Jorge do Rosário era o cabeça, Marco Cruz [compositor], Saci Teleleu [bailarino]. Depois eu comecei a trabalhar com o pessoal do choro, antes disso fiz alguns trabalhos com Rosa [Reis].

E o ambiente daqueles shows [Homenagem a Velha Guarda] do [Instrumental] Pixinguinha no [Teatro] Arthur Azevedo? O Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], essa história de vir estudar com o Marcelo [Moreira, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de dezembro de 2014], ali surgiu essa ideia de se fazer um grupo, tanto que o grupo começou com eles e a vontade de fazer a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Eles perguntaram se eu não queria fazer parte, alguns números com eles. Foi aí que eu me integrei, fiz parte da primeira formação.

Como era a rotina daquela formação? A gente ensaiava diariamente, à noite. O pessoal trabalhava, Correios, o Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014], Solano tem a empresa dele, o Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], aliás, começou conosco o Quirino, Carbrasa [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 19 de outubro de 2014] e Marcelo. Passamos praticamente um ano ensaiando para esse trabalho, muita partitura. O objetivo maior do grupo era a Suíte Retratos, e foi quando o Biné entrou. O show foi no [Centro de Criatividade] Odylo Costa, filho [no Teatro Alcione Nazaré, então Teatro Praia Grande, que integra o Centro]. Algumas pessoas [em entrevistas à Chorografia do Maranhão] falaram em Arthur Azevedo, mas foi no Odylo. Foi início de 1990.

Depois você saiu do Pixinguinha? Algum motivo em especial? Não, eu continuei tocando. Depois foi que Zezé entrou, eu tive um problema, tive que fazer um tratamento de saúde, me afastei, Zezé foi e assumiu.

Atualmente você integra algum grupo? Não. Atualmente estou só lecionando. Já integrei grupos de câmara aqui na Escola.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? É compositor? Não. Só instrumentista. Nessa praia eu ainda não enveredei.

Você toca algum outro instrumento? Não. Flauta doce e flauta transversa. Violão eu estou estudando na Licenciatura da UEMA [Universidade Estadual do Maranhão], percussão um pouco, mas meus instrumentos mesmo são a flauta doce e a flauta transversal.

Além de Rosa Reis [cantora], com que outros artistas você já tocou? Toquei com Cesar Teixeira [compositor], Josias [Sobrinho, compositor] e outros.

Você participou do Rabo de Vaca? Não. O Rabo de Vaca era Zezé, Omar [Cutrim, compositor], aquela turma.

E participação em discos? Já fiz. Fiz com Cláudio Pinheiro, não lembro agora o nome do CD, fiz a primeira gravação do Cacuriá de Dona Teté, foi um vinilzão, eu fiz aquela flauta. Eu ia gravar com Rosa, mas teve algum problema lá no estúdio. Fiz com Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], aquele disco produzido pelo marido da Zelinda [o falecido folclorista Carlos de Lima], de carnaval das antigas.

Na sua opinião, o que significa o choro? O choro é a grande música brasileira, a música genuinamente brasileira, podemos dizer assim. Uma música já mais elaborada, que vem do século XIX, com Callado [Joaquim Callado, flautista, considerado um dos pais do choro], que foi o cara que formou o primeiro regional de choro, tem uma contribuição imensa.

Entre as linhas você tem uma preferência, erudito ou popular? Ou está tudo misturado? Não, eu não faço distinção. Eu tenho uma formação, o começo, aqui na Escola de Música, foi clássica, tocando música barroca, gosto muito, gosto de fazer, de tocar, [sou] um negro que tem uma veia por essa música, mas não é só esse caminho, eu gosto muito da música popular também.

Você escuta muito choro, hoje? Ouço, ouço bastante.

Você tem acompanhado as mudanças que o choro tem experimentado? Sim. Há poucos dias eu estava ouvindo o Maurício Carrilho [violonista], aquele trabalho que ele fez há uns anos, com choros com compassos alternados, de cinco, de sete, é um trabalho interessante. Eu tenho visto as correntes, vão se modificando, existe uma linha de Brasília, com uns choros mais acelerados, São Paulo, mais cadenciado, Curitiba, Pernambuco, a gente [no Maranhão] já faz um choro mais tradicional.

No disco do [Instrumental] Pixinguinha a gente percebe, por exemplo, entre outras, uma influenciazinha do lelê. É, o nosso choro traz essas informações. O Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], por exemplo, o violão dele já traz informações jazzísticas.

Quem são os grandes flautistas brasileiros, aqueles que você gosta de ouvir, que te tocam? Eu sou um cara que sou apaixonado pela pessoa do Toninho Carrasqueira, é um guru, um cara de uma simplicidade, um coração, um puta músico.

Em que lugar você coloca o Altamiro CarrilhoO Altamiro Carrilho podemos dizer que é um papa, né?, da flauta. É um papa da flauta! A flauta do século XX. A escola brasileira de flauta é uma escola rica, grandes flautistas. David Ganc, o Antonio Rocha, da Escola Portátil, Dirceu Leite, a Odete [Ernst Dias], a mãe dos flautistas brasileiros.

A forma de consumir música mudou muito de uns tempos para cá. Como é que você consome música, hoje? Compra discos, ouve rádio, baixa, vê no youtube, ou tudo isso? Eu compro, continuo comprando. Tem coisas que, baixar, essa parte tecnológica eu ainda sou meio que um dinossauro [risos], eu ainda não sei muito vasculhar. Sei que tem muitos sites, tem muita coisa, eu gosto de ouvir música erudita, eu compro cds, mando buscar em São Paulo, Rio, a gente vai garimpando.

E aqui no Maranhão, quem são os flautistas que te chamam a atenção? Hoje nós estamos com uma safra de bons flautistas. Mestre Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] é uma memória, muito bom, fiz um trabalho com ele ano passado, foi um trabalho que nós fizemos os dois grupos, o Pixinguinha e o Tira-Teima [um show na programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, em 2013, promoveu o encontro dos grupos no mesmo palco, na praça Nauro Machado, na Praia Grande], um trabalho bacana, eu nunca tinha tocado com o mestre, eu me senti muito lisonjeado. Ele é um autodidata, toca de memória. Tem o Lee Fan [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de setembro de 2014], está com um grupo, fazendo um trabalho, teve outros, a Suellen Almeida promete.

O professor fica feliz quando vê essas figuras despontando? Ô! É o que nos alimenta. Tem o Elton, Erivan, Gabriel foi para o Rio, morar com uns parentes. Tem o Neto [João Neto, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Neto agora é quem tá na parada!

Você se considera um chorão? [Pensativo] Eu gosto de choro! Se eu disser pra ti que sou um chorão, um chorão, eu não sei. Eu gosto muito do choro. Taí! Pra ser um chorão, precisaria o quê? Ficou uma pulga [atrás da orelha], o que é ser chorão? [risos]

Hoje nós temos uma escola de música, a escola municipal, que está parada, duas faculdades. Como você vê esse cenário da música, do estudo da música, hoje, no Maranhão? As coisas estão evoluindo, crescendo. Há tempos só tínhamos a Escola de Música, e agora já temos a escola do município, temos a banda do Convento das Mercês, grande formadora de jovens, em sopro, cheguei a fazer parte, dei aula, lá eu tive a oportunidade de deixar um pouco, passar minha semente para algumas pessoas, o Elton é fruto dessa escola, os Carafunim [Hugo e Nelma, primos, trompetista e saxofonista, respectivamente], estes dois cursos que nós temos aí, Pixixita [o músico José Carlos Martins] quando era vivo sonhava com este curso superior, infelizmente não chegou a ver.

Você acha que esse ambiente novo favorece a uma cena melhor, da música instrumental, especialmente do choro, em São Luís? Você gosta do nível do choro praticado em São Luís? A gente trabalha com o que tem, a gente faz o que pode. Eu te digo com certeza: está caminhando. Antigamente não havia escola de choro. O professor Zé Hemetério [multi-instrumentista] foi orientador de muita gente, Elinaldo [Gordo Elinaldo, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Ubiratan Sousa. Mas foi com a história do [Instrumental] Pixinguinha que essa história do choro começou a se disseminar. O Pixinguinha foi talvez o primeiro grupo de música popular dentro da Escola.

O choro tem essa capacidade de construir unidade. A Escola tinha um perfil mais erudito, ele acabou agregando grande parte dos alunos nesse movimento do choro. Exatamente! Hoje eu tenho muitos alunos aqui, a Suellen, é apaixonada por choro. Minha classe de flauta, eu trabalho com música erudita. Mas não tem como focar só nessa parte erudita, os alunos querem estudar outra coisa, a linguagem, mudar um pouco. A gente procura ir ajudando-os a ir por estes caminhos. As pessoas gostam muito de música popular, a gente tem que se desdobrar. Não há como desfiliar a flauta do choro.

Música para qualquer um/a

Rezende (de chapéu) exibe seus instrumentos artesanais no jardim da EMEM. Foto: divulgação
Rezende (de chapéu) exibe seus instrumentos artesanais no jardim da EMEM. Foto: divulgação

 

Há alguns anos entrevistei o poeta Antonio Rezende, por ocasião do lançamento de Acerto de contas, seu livro de estreia, coletânea de poemas escritos desde a década de 1980, quando o tocantinense morou em São Luís, onde chegou a integrar a Akademia dos Párias, movimento que fez barulho na cena da poesia local.

Poeta, jornalista e artesão, eis que Reza, como os amigos carinhosamente o chamam, está de volta à Ilha. Desta vez a bordo da Kombi Miliquinha, estacionada no pátio da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM, Rua do Giz, Praia Grande), onde o artista realiza, em parceria com a instituição, uma exposição de flautas artesanais, produzidas por ele. Amanhã (26), às 14h, a EMEM sediará uma tarde de oficinas de iniciação musical em sopro xamânico e produção artesanal de flautas. As atividades são gratuitas e abertas ao público em geral. Os instrumentos produzidos pelo artista poderão ser adquiridos pelos interessados.

O veículo é uma unidade móvel do Lar do Bardo, escola/oficina de produção artesanal de instrumentos e iniciação musical em sopro e percussão, que Rezende mantém em Taquaruçu, distrito de Palmas/TO, onde vive há alguns anos e desenvolve atividades de arte-educação nos campos da música, literatura, fotografia, artesanato e produção artesanal de instrumentos experimentais.

A passagem pela Ilha é fruto também de uma parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e incluirá, até domingo (29), oficinas livres. “Elas podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, dependendo da oportunidade e do interesse das pessoas. É uma iniciação rápida que demonstra a simplicidade das flautas nativas e a facilidade que qualquer pessoa encontra para tocá-las. São flautas para improvisos melódicos espontâneos e dispensam conhecimento teórico de música. É como assoviar dando asas à musicalidade interior. Pura viagem introspectiva, uma meditação/elevação pelo sopro. Simples e vital como o ar que se respira”, afirma.

A circulação do projeto é, como diria mestre Itamar, às próprias custas s.a.

Chorografia do Maranhão: Marcelo Moreira

[O Imparcial, 28 de dezembro de 2014]

Fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da EMEM, violonista é o 45º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

“Já tá valendo tudo?”, indagou Marcelo Moreira ao perceber o gravador ligado sobre a mesa. Radicado no Maranhão desde 1981, o violonista carioca, ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM] conversou com a Chorografia do Maranhão no Cafofo da Tia Dica, charmoso restaurante por detrás da Livraria Poeme-se (Praia Grande).

Modesto, adverte os chororrepórteres: “minha participação nessa história é pequena”, diz, sobre sua relação com o choro. Marcelo Moreira de Oliveira chegou à terra do bumba meu boi pelas mãos da cantora Olga Mohana, ex-diretora da EMEM. “Ela estava iniciando um projeto importante, inédito no Maranhão, em relação à educação musical”, conta o capricorniano nascido em 8 de janeiro de 1961.

Marcelo estudou violão clássico na Proarte, à época um curso livre. Filho de Benvenuto Batista de Oliveira e de Judite Moreira de Oliveira, ele se lembra da oposição dos pais entre si em relação à sua opção pela música. O pai não se opôs, chegando a conseguir-lhe uma bolsa na instituição. “Era um curso livre, Seminário de Música Proarte, ficou em questionamento no MEC, se iam reconhecer. Era uma escola que na época tinha grandes músicos, Nicolas de Souza Barros [violonista], Marcelo Caiate [violonista], minha primeira apresentação foi com ele, ganhou praticamente todos os prêmios internacionais”, lembra. “Papai era apaixonado por música, quando estava em casa estava ouvindo ópera, baiano, cozinheiro, maître, mão fantástica, cozinhava maravilhosamente bem, cozinhava para um magnata, o dono do Oton, uma cadeia de hotéis, a gente ouvia violão, Rádio MEC”, continua. Da mãe lembra-se da “voz bonita, cantava muito em casa, não gostava muito da ideia de eu fazer música”. O irmão Leonardo também era bastante musical, “tocava flauta e percussão, mas foi ser engenheiro”.

Casado com Cristine e pai do pequeno João Marcelo, Marcelo Moreira riu bastante ao longo da entrevista, despertando também os risos dos chororrepórteres. Depois ainda mandou um e-mail complementando informações: passou o ano de 1992, quando da realização da Eco 92, de licença no Rio de Janeiro, ocasião em que realizou um curso de arranjo com o lendário Ian Guest. Informou ainda que acompanha, ao violão, a esposa, que canta na missa aos domingos, além de dar aula de violão popular a crianças da comunidade católica a que pertence.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como se deu sua vinda para São Luís? Eu estudava na Proarte, fui aluno de de Léo Soares, violonista, já tinha uma carreira internacional, foi professor de Bertoldo Vaz [do Água de Moringa], de Nicolas de Sousa Barros, foi professor de muita gente importante. Eu tinha 20 anos, tinha começado meu curso de História e um belo dia o Léo me chamou e disse: “olha, tem uma pessoa lá no Maranhão que está fundando uma escola e eu quero saber se você quer ir dar aula lá”. Eu com 20 anos, doido para sair de casa, ter minha independência, com música, não pestanejei, o salário era bom, eram mil dólares na época, o dólar lá em cima, isso em 1980, meu pai não tinha nem condição de dizer nada, eu ia ganhar mais do que ele. Ele achava que eu tinha que concluir a faculdade para ir trabalhar, ele não queria que eu interrompesse.

Você chegou a concluir algum curso fora da música? Rapaz, não. Eu entrei no curso de História, quando eu vim eu trouxe o curso de História mas não terminei. Eu estudei na UFMA.

Essa formação, digamos, mais acadêmica, da Proarte, foi tua formação ou você chegou a continuar isso? Eu me considero um músico clássico, erudito. Minha formação é basicamente isso. Fora um professor que tocava rock e um amigo meu, que a gente improvisava, a minha formação basicamente foi essa, de partitura, com repertório erudito.

Mas a pergunta é: depois da Proarte você não teve um estudo formal de música? Não! Depois eu fui fazer isso agora, já depois de muitos anos, concluí a licenciatura. Em 2000 eu fui para Fortaleza, passei uns anos lá e finalmente fiz minha graduação. Isso, poxa, 20 anos depois de trabalhar, graças a uma política, um interesse da instituição de qualificar, existia um problema muito sério com o corpo de professores da Escola de Música por que ninguém tinha formação acadêmica, todo mundo era curso livre, autodidatas e tal, todo mundo era assim. então tinha essa necessidade. O primeiro cara que saiu da Escola para fazer assim foi o Ciro de Castro, foi para a Espanha, fez o curso de canto dele, depois foi Ana Neuza, foi para o Rio, fez a graduação dela em piano. Eu fui o terceiro. Depois de mim houve uma porção. De uns anos para cá, finalmente com a inauguração da graduação aqui, na UEMA, aí os professores aderiram, poucos professores não têm ainda a graduação.

Você veio para cá em 1981. Você continuou indo frequentemente para o Rio? Como é tua relação? Todo ano eu vou, até hoje. Há dois anos houve uma interrupção, meu filho nasceu, muito pequenininho, eu não queria viajar com ele.

Primeiro filho? É. Fui ter o primeiro filho [gargalha, interrompendo-se].

Você veio para o Maranhão trazido por Olga Mohana. Quem foi o primeiro amigo que você fez aqui? Pixixita [José Carlos Martins, professor da EMEM, falecido], claro! [gargalhadas]. Na Escola de Música os violonistas que eu encontrei eram muito poucos. O professor anterior, não lembro, quem conhece é Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], é luthier, violonista, mora numa cidade em Minas, era o professor que eu substituí. Ele ficou pouco tempo e o trabalho dele foi pequeno, tinha um menino que eu tava outro dia lembrando, não mora mais em São Luís. Dessa geração, os alunos que eu herdei dele, nenhum continuou músico. Os primeiros alunos formados na Escola de Música por mim, violonistas, são Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014] e o Raimundo Nonato Privado [violonista], que são professores da Escola. Numa segunda leva, são guitarristas hoje, Norlan [Lima], Diógenes Torres. A Escola de Música tinha um problema muito sério naqueles primeiros anos, com o programa, a concepção do curso, eu queria falar uma coisa a esse respeito. Olga Mohana tinha um projeto acabado de educação musical, tinha uma proposta concreta para por em prática. Ela queria resgatar aquela memória que havia sido esquecida, da tradição erudita maranhense, a obra do João Mohana, aquelas missas de Antonio Rayol, ela queria que aquilo fosse executado, que houvesse músicos capazes de tocar aquele repertório. Ela queria montar uma orquestra sinfônica, então a ideia da Escola era essa, trabalhar a música erudita. Ela tinha uma ideia de que a música popular, nessa época existia um conflito de concepções pedagógicas no Brasil todo, dos conservatórios, da música europeia, daquele sistema positivista de ensino, aquela coisa evolucionista, eurocêntrica, e tinha uma concepção mais nova se delineando, uma coisa que hoje se chama de abordagem sociocultural da pedagogia musical, era um conceito que estava se formando. Aqui o choque foi esse, eu não tinha uma formação assim muito grande, do ponto de vista didático, eu ensinava como eu tinha aprendido, eu não tinha passado pelo banco da universidade, com disciplinas específicas sobre didática, sobre essa discussão toda, que na época ainda era pequena, mesmo nas universidades ainda era uma coisa confusa, isso começo dos anos 1980. O que acontecia: eu, ao mesmo tempo em que não tinha uma concepção acabada sobre isso, tinha uma coisa que me incomodava no meu trabalho com os alunos, eles não ouviam música erudita, não tinham a mínima ideia de como diferenciar, tocar Bach e aquilo não parecer um samba, como tocar um compositor clássico e não transformar numa coisa esquisita, meio caricatural, por que não tinham referências estilísticas, estéticas. O Maranhão carecia demais disso. Na época ninguém ouvia música erudita.

Você lembra o que tentou fazer na época para superar esse dilema? Isso daí foram anos. Eu, na verdade, nunca consegui uma solução. Quando eu vejo meus colegas hoje se deparando com os mesmos problemas, que eu vou tentar dizer “vai por aí”, e as pessoas não ouvem, inclusive eu não dou aula mais de violão na Escola de Música, muito em função dessa dificuldade de compreensão dessa diferença, da necessidade de você ter um método que seja realmente sintético, que considere essa coisa viva. Você vai fazer um cara tocar música erudita, tocar Bach, estudar, tocar, é difícil, só fica bonita se for perfeito, tem um conceito, uma norma, o cara passa anos… você pega um garoto sem referência, não acontece. O que aconteceu foi que eu não tinha a teoria, mas eu tinha Koellreutter, da necessidade do novo, você ter honestidade para abarcar o problema, não fantasiar, ser sincero.

Durante muito tempo se ouviu uma crítica muito forte à Escola de Música por conta dessa erudição. Parece que de uns anos para cá, ela deu uma popularizada, necessária, eu diria, embora ela tenha sido pensada inicialmente para dar vazão a essa coisa do popular no Maranhão. Pois é, eu acho que a importância do grupo Pixinguinha [o Instrumental Pixinguinha] é essa: vamos trabalhar técnica, trabalhar música brasileira, popular. Foi a primeira vez que um grupo quebrou a coisa do clássico lá dentro da Escola. Mas ainda existia muito preconceito, e não era só eu, tinha outros professores, com outras cabeças. O fato é que na década de 80 estavam acontecendo umas coisas, globalização pesando, aqui em São Luís surgiram os primeiros estúdios de gravação. Quer dizer, existia Nonato. Depois surgiu Pitomba e papocou pela cidade toda, Edinho [Bastos, guitarrista] da guitarra veio, montou o estúdio dele, Duailibe [Henrique Duailibe, pianista], Marcelo Carvalho [tecladista]. Aí começou a acontecer outra coisa diferente daquilo que eu encontrei, que era Josias [Sobrinho, compositor] com o Rabo de Vaca, Cesar Teixeira tocando violão. Foi nessa época. Essas pessoas que estavam vindo, tinham um conceito do que era música popular e tinham certa força dentro da cidade. Eu lembro que Laura Amélia [Damous] era secretária de cultura e nomeou Marcelo Carvalho diretor da Escola de Música e ele tinha essa ideia de que era importante que a música popular fosse ensinada, que a Escola fosse um veículo para isso, mas ele não tinha uma coisa de didática, política de ensino, essa coisa mais técnica. Acabou não dando certo. Dessa época surgiu o Instrumental Pixinguinha e surgiu também a Big Band, que foi também uma guinada nessa ideia. Como Olga saiu, depois de uma transição, chegou à direção da Escola de Música o Padilha [Antonio Francisco de Sales Padilha, trompetista, ex-secretário de Estado da Cultura], ele é um músico de sopro, e pensou “não, orquestra de cordas, não, vamos formar banda, orquestra de sopro”, e começou a investir nisso, a orquestra de sopros precisava de uma cozinha, aí se abriu curso de bateria, aí começou a refrescar um pouco a coisa, mas a resposta para a cidade era pequena ainda.

Se você tivesse que indicar teus mestres, quem são essas figuras? Primeiro de tudo eu tenho um amigo chamado Fernando Garcia, músico, no Rio, compositor, violonista fantástico, um artista incrível, foi um alento antes de eu entrar na Escola. Depois eu tive o Léo Soares, foi meu mestre, me ensinou a ler partitura, me ensinou repertório erudito, me ensinou estética. Ele me dizia: “eu não sou professor de violão, eu sou professor de música”, era esse o bordão do Léo Soares. Ele me deu aquele livro, História Social da Arte e Literatura [Arnold Hauser], eu tinha de 15 para 16 anos. Depois do Léo Soares foi a época que eu vim para São Luís. O grande músico que eu encontrei aqui, Mércia Pinto, grande concertista, a importância da disciplina, a música é um sacerdócio, o cara que é músico, ela tinha uma concepção que diferia muito da música como, do músico boêmio, para ela o músico era um operário, trabalhador, alguém que ralava, foi uma pessoa importante. Em Fortaleza, em 2000, quando fui morar lá, conheci o Heriberto Porto, flautista, líder do Syntagma e do Marimbanda, que trabalha jazz e música brasileira. Eu viajava muito, conheci esses violonistas todos. Marco Pereira, quando eu conheci, era um professor da Universidade de Brasília, muito metódico, compositor muito sério, foi maravilhosa a minha convivência. Conheci o Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013]. Outro professor que foi importante para mim foi o João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013]. Ele quando veio para São Luís, eu achei muito legal, eu estava aqui sem pai e sem mãe, eu não tinha concluído meus estudos de violão clássico. As peças que eu toquei, eu fiquei num nível intermediário, não tocava as coisas mais cabeludas de violão. A ideia era ficar aqui dois anos, três anos. São Luís, eu não sei, tem uma coisa. A primeira vez que eu vi bumba boi, Pixixita me levou para a Vila Palmeira, eu fui lá, quando eu vi aquilo, eu não conseguia sair de dentro daquilo, eu fiquei completamente tomado.

Então você se considera um erudito mas tem uma paixão pela cultura popular. É. Eu não consigo ser insensível. Quando eu vi boi de orquestra, quando eu vi Leonardo, aí eu fiquei pirado, a polifonia, a ritmia daquilo, é incessante, é intenso, cada um fazendo uma célula. Tem um negócio que eu nunca entendi, tem uma hora que dá um barato. Aquelas partes individuais, quando eles estão tomados por aquela atmosfera, aquele transe, que aquelas dezenas de percussionistas entram em sintonia, um faz uma coisa, o outro completa o outro, o outro completa o outro, cara!, produz um efeito, meu Deus!

Antes de vir para o Maranhão você era frequentador de rodas de choro? Como era tua relação com essa música? Não. Eu vi choro, meu professor tocando choro, achei uma coisa ridícula, ele era um músico fantástico, mas não é músico de choro, pegou a partitura e tocou.

Mas você achou ridículo choro em si ou a execução dele? Eu não soube identificar, mas foi uma coisa que… eu vi ele tocando música espanhola, a música popular deles lá, aquela coisa, vi ele tocando Bach, depois vi tocando choro, não achei nada. Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] foi o cara que me apresentou realmente o choro. Solano e Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014].

E quando você ouviu com eles? Tua percepção mudou? Com certeza! Eram músicos autênticos, que tocavam choro com a alma, com propriedade, tocavam choro, aquilo era espontâneo. É diferente, passa, você tem um conteúdo. Por que música não é nota, não é instrumento, música é outra coisa, imaterial, impalpável. Você consegue exprimir ou não. Eu lembro, Vibrações [Jacob do Bandolim], eu ouvi com Solano e Jansen solando isso. Aí Solano: “tu gostou? Ouve isso aqui!”, aí me passou o disco Vibrações. Eu conhecia Pixinguinha, Carinhoso, essas coisas. Em música popular o que me chamava a atenção, que eu gostava, era Milton Nascimento, naquela época eu já ouvia Egberto Gismonti, já ouvia Hermeto [Pascoal].

Em todas essas referências há certa sofisticação, certa erudição. Sim, exato. Aquela música descompromissada.

Descompromissada com o mercado. Sim. E de fazer perfeito e tal, aquela alegria, aquela atmosfera, tipo “eu não estou aqui para sentar num palco e tocar com os melhores, ser comparado”.

Você sempre viveu de música? Graças a Deus! A minha primeira profissão foi como músico, me conservo até hoje. Eu tive uma sorte que muitos colegas talvez não tiveram, de ter um emprego, assim, com salário, professor de música. Isso me deu uma tranquilidade na minha vida pessoal.

Você chegou a tocar na noite? Aqui ou no Rio? Sim. Aqui! Eu vim do Rio muito novo.

Qual a tua relação afetiva com essa terra? Eu me considero maranhense. Eu não sei o que é isso. Eu adoro, gosto demais. Foi uma coisa que me tocou muito, a diferença das pessoas, aqui e lá, o jeito de ser. Aqui parecia que as pessoas eram mais humanas, ouviam mais. Lá parece que é cada um na sua e você é um inimigo em potencial, todo mundo desconfiado de todo mundo. Eu tive uma adolescência problemática no sentido da sociabilidade, muito introspectivo, muito tímido. Quando eu cheguei aqui eu desabrochei como pessoa, primeiro o pessoal da Universidade. Na UFMA conheci o pessoal do movimento estudantil, depois o pessoal do PT [Partido dos Trabalhadores], eu fui da primeira direção da CUT [Central Única dos Trabalhadores].

Conte um pouco de sua participação no Instrumental Pixinguinha. A gente tinha o seguinte objetivo: tocar Radamés [Gnattali, compositor, pianista, maestro e arranjador gaúcho]. Biné do Cavaco [Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014] tinha um amigo em Recife, Marcos César [bandolinista], conseguiu as partituras; Solano conseguiu várias partituras de outros arranjos de Radamés, arranjos de Wagner Tiso, aquele repertório da Camerata [Carioca, grupo liderado por Radamés Gnattali] a gente conseguiu. Durante um ano, mais ou menos, a gente ensaiou sistematicamente. O nome do grupo não é à toa: tinha a ideia de que o grupo era de choro mas não era um regional, a gente queria fazer música brasileira camerística, queria dar um salto, tinha Radamés como referência, Suíte Retratos [de Radamés Gnattali, em quatro movimentos – os retratos –, homenageia Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga], Choro de mãe [de Wagner Tiso], a gente tocava aquilo, aquilo é lindo demais! É uma obra-prima do choro. Solano, eu, a gente tinha essa coisa, quando falou Instrumental, vamos trabalhar música instrumental brasileira, era essa a ideia. Quando a gente fez o show, Homenagem à velha guarda, tocamos finalmente depois de um ano, notamos que criou uma ressaca violenta depois. Para continuar com aquela ideia era muito difícil para muito dos colegas manter um trabalho daqueles, muito ensaio, foram criadas algumas dificuldades. O grupo foi gravar seu primeiro disco muito tempo depois de eu ter saído, inclusive era ideia minha essa coisa do repertório maranhense, à época eu consegui música com Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], tinha umas coisas que eu fazia lá, Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] sabe. Depois que eu saí do Pixinguinha eu tive a felicidade de ao ir para Fortaleza, conhecer, lá na UECE [Universidade Estadual do Ceará] o Heriberto Porto, que era o líder do grupo Syntagma. Era um grupo que trabalhava o elo entre a música nordestina, dos cantadores, repentistas, aquela coisa modal, e a música europeia da idade média, dos menestréis, dos cantadores, das rabecas, dos alaúdes. Eles tocam música nordestina com viola da gamba, cravo, tem arranjo, por exemplo, de Asa Branca [Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira], pô! Conheci lá um grande músico, não pessoalmente, o trabalho, os arranjos, Liduíno Pitombeira. Ele é um gênio! Mas não tem uma produção que o promova, não é conhecido. Ele ganhou o prêmio da sinfonia do descobrimento do Brasil, o MEC fez um concurso quando o Brasil fez 500 anos, ele foi o ganhador.

E fora o Pixinguinha, você integrou algum grupo aqui? Eu acompanhei Rosa Reis [cantora], vez em quando as pessoas chamavam, acompanhei Anna Cláudia [cantora], fiz noite, participei de alguns festivais.

Você vem de uma formação mais erudita, de violão clássico, mas na sua opinião, o que significa o choro para a música brasileira? A gente está vivendo uma época de muitas tendências na música brasileira. Graças a Deus o choro ganhou uma força enorme dos anos 1980 para cá, com novos compositores, compondo coisas absolutamente inéditas, não é a coisa de pegar o modelo e fazer, mas linguagem nova, propor novas concepções para o choro, instrumentistas virtuoses incríveis. A música instrumental brasileira cresceu também com influências do jazz, do fusion com música modal, eletrônica. Eu andei ouvindo umas coisas de choro com guitarra, bateria, teclado. É música brasileira, tudo bem, mas choro é regional, cara!

Então você é tradicional? [Risos] Não, eu sou camerístico, eu adoro música eletrônica. Agora quando eu fico vendo bateria, guitarra, eu acho massa, mas é outra coisa. Tem muita coisa acontecendo. Eu acho que a renovação da linguagem no choro não tem a ver necessariamente com o abandono das formas tradicionais, e estou falando especificamente do instrumental, do tipo de instrumentos que produz, daquela sonoridade.

Além de O chá [registrada em Choros Maranhenses – Caderno de Partiruras, organizado por Zezé Alves], você tem outras composições? É, tenho umazinhas, até tenho um projeto com Zezé Alves, ele começou a editar [as partiruras], tem choros que eu compus na época, com o Pixinguinha, quero ver com ele se eu consigo editar, tirar do manuscrito.

Você foi diretor da Escola de Música. Como você avalia a experiência? Rapaz, eu saí de lá com depressão [gargalhadas]. Você tem uma instituição que você não tem recursos para botar a coisa pra frente, projeto, é uma dor de cabeça. Na época em que eu estive lá eu consegui colocar a nível interno uma discussão que talvez para a sociedade não importe muito, mas vai importar ainda, que foi a necessidade da modernização, de descartar aquele velho programa e ter um programa atualizado do curso de música. Eu não consegui fazer, mas consegui botar a semente naquelas cabeças, e fluiu depois. Falta ser aprovado. Eu sou feliz por isso, iniciei uma discussão que deu frutos. A questão política é muito frustrante.

Você acha que a Escola de Música deve estar, como está, vinculada à secretaria de Cultura ou deveria estar vinculada à secretaria de Educação? Do ponto de vista da gestão, da autonomia financeira, administrativa, eu acho que a Escola de Música deveria ser criado era uma fundação, uma coisa específica. Essa coisa de verbas é o problema central, problemas de contratação. Você abre um concurso para alunos novos, se inscrevem três mil jovens, cinco mil jovens. Quantas vagas? 200 vagas, 150 vagas. Isso não pode, é um desrespeito total. Uma instituição que tem essa demanda não pode ser tratada assim. Se não houver concurso para a Escola e dotação, esteja onde estiver vai ter problemas.

Você se considera um chorão? Considero. Me considero um chorão no seguinte sentido: amo música instrumental, amo música brasileira [enfático], gosto de ver performance. Quando eu vejo um instrumentista tocando bem música brasileira eu acho muito legal. Nesse sentido eu sou. Se eu tiver que fazer música eu quero fazer choro.

Chorografia do Maranhão: Nonatinho

[O Imparcial, 6 de julho de 2014]

Natural de Penalva, professor da Escola de Música e pandeirista do Instrumental Pixinguinha, o percussionista Nonatinho é o 35º. Entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Raimundo Nonato Soeiro Oliveira aparentava certa timidez quando a chororreportagem o encontrou na porta da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM]. Carregando o case com o pandeiro, o músico convida o primeiro chororrepórter a entrar e sentar. A tevê da recepção transmite Bélgica e Estados Unidos, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, e instrumentista e entrevistador dividem educadamente as atenções entre a partida e a conversa – não necessariamente nessa ordem.

No papo, Nonatinho, como é mais conhecido o percussionista do Instrumental Pixinguinha, professor da EMEM há 12 anos, revela ter lido algumas edições anteriores da série Chorografia do Maranhão, cuja 35ª. edição traria seu depoimento. O chororrepórter tranquiliza-o contando causos de entrevistas anteriores, informando-lhe que a conversa tem um caráter completamente informal.

Mas o penalvense nascido em 9 de julho de 1967 já parecia ter perdido totalmente a timidez. Com a chegada do restante do time, diga-se, o outro chororrepórter e o chorofotógrafo, o professor conduziu todos ao salão Leny Cotrim Nagy, o mesmo em que a série conversou com Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], seu colega de Escola e Pixinguinha.

Filho de José Oliveira, comerciante e músico, e da dona de casa Maria José Soeiro Oliveira, Nonatinho é o único homem entre os cinco filhos. Já apresentou monografia ao curso de graduação em Música da Universidade Federal do Maranhão. “Estou concluindo uns créditos que fiquei devendo”, disse ele, que pretende publicar o trabalho.

No dia seguinte à entrevista, pelo chat do facebook, ele complementou-a, destacando a importância da série e de Deus – é evangélico – em sua vida: “Hoje sou evangélico e tudo o que faço me sinto na obrigação de agradecer a Deus. Inclusive por um bom período atuei como ministro de louvor. Não fiz isso na entrevista. Como esse é um registro que vai permanecer na história do nosso estado não gostaria de perder a oportunidade de falar dEle”, registrou.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Teu pai sustentava a família com música? Eu não sei dizer. A partir de quando eu tinha uns cinco anos, ele sustentava com um comércio. Quando se desfez a história dos conjuntos, cada colega procurou seu rumo, uns foram ser alfaiates, sapateiros, comerciantes. Ele foi ser comerciante e também trabalhar numa terra herdada, ele foi tomar conta. Ele ainda chegou a trazer algum sustento, mas em épocas festivas, carnaval, ele parava o comércio para se dedicar um pouco à música. A vida dele era basicamente isso, ele gostava muito de pescar, chamava o pessoal, passava três dias, vinha, tudo ele comercializava.

Você lembra, na infância, de como era a atmosfera musical em tua casa? O que se ouvia? Geralmente essas festas que ele fazia eram de promessa. Ele gostava muito de fazer o Baile de São Gonçalo, tambor de crioula. Sempre que ele fazia, ele fazia o barraco ao lado e fazia o baile. Eu ouvia o que as bandas tocavam na época, forró, sempre instrumental, não tinha nada cantado, marchas. Depois eles começaram a tocar a própria discoteca [a disco music], imitando as radiolas.

Você acha que o fato de seu pai ser baterista e percussionista influenciou no teu fazer musical ou você só veio se interessar por isso depois? Essa influência foi total. A minha mãe tinha um problema muito sério, os primeiros filhos dela, ou ela abortava ou, quando nascia, geralmente com dois anos, no máximo, morriam. Eu sou de um grupo que entre três, um morria, dentre esses três eu escapei. Eu via que meu pai lutava muito comigo nesse sentido, de me mostrar as coisas, me mostrar a vida. Quando eu me entendi ele me levava pra festa, eu tava o tempo todo do lado dele. Quando ele ia tocar fora, ele levava, ele tinha a preocupação de tentar passar. Quando a festa ia ser lá, os colegas dele deixavam os instrumentos, então o meu brinquedo passou a ser esses instrumentos. Às vezes na própria quitanda ele montava a bateria e ficava tocando, o pessoal gostava de vê-lo tocando, e ele tocava muito bem, diziam isso. Hoje essa coisa de apreciar, de ver músico tocar, de ver performance, vai muito [da herança] dele. Depois, passado um tempo, ele viu que eu precisava estudar, eu tive que ir para a cidade, Penalva.

Você morava num povoado. Como era o nome? Bom Jesus, que era [onde ficava] a terra dele com os três irmãos.

Essa lembrança de você ir para festas acompanhando teu pai, você tem desde que idade? Acho que aos oito anos. É aquela coisa de garoto que vai sendo levado e de repente está ali envolvido.

Então sempre houve apoio por parte de teus pais para que você seguisse o ofício da música? Sim, da parte do meu pai. A minha mãe não gostava muito, pela própria questão, pra ela não era uma profissão, não trouxe muita coisa para ela, mesmo como esposa, tanto que quando ela viu que eu queria estudar música, ela disse “será que tu vai seguir o mesmo caminho do teu pai?”, aquela coisa. Ele mesmo, por essa questão de não ter aquele sucesso, dizia “vai depender de você, você tem outras opções”. Ele tinha um filho do primeiro casamento, esse filho fez concurso para a marinha, era enfermeiro, vivia bem. E ele vivia me apontando: “olha, segue o exemplo de teu irmão, teu irmão tá bem”. A vontade dele mesmo era que eu fosse militar.

Você chegou a tocar com ele nessas festas? Não cheguei a tocar. Cheguei a dar umas canjas, ele me botava, em determinado momento, ele dizia “olha meu filho aí”, e os músicos gostavam, ficavam elogiando.

Você tocava o quê? Pandeiro? Bateria. Tem uma coisa interessante que eu acho que marcou muito, era um senhor que tocava sempre do lado dele, muito bem. Ele ia muito lá pra casa, era muito amigo de meu pai. Quando era festa ele era o primeiro a chegar. Não consigo lembrar [o nome dele], eu era muito garoto. Eu lembro dessa pessoa, tocava muito bem, ele tinha uma forma, meu pai dizia [que ele] “jogava muito bem”. Ele não falava tocar, falava jogar.

Você chegou a estudar música em Penalva ou só depois de vir à São Luís? Quando eu saí de lá, eu perdi totalmente o contato com música. Fui mesmo [para a sede de Penalva] para estudar, morar com um padrinho, foi mesmo a questão de estudo, não tive mais oportunidade. Mas eu ficava assim, aquela coisa tava dentro do sangue. Quando eu saía do colégio, no meu caminho tinha uma casa que tinha um conjunto, eles ensaiavam. Às vezes eu saía da escola e ficava ali em frente ouvindo. Mas também não passava daquilo, não cheguei a me aproximar. Passei aquele tempo todo mais dedicado aos estudos, recuperar o tempo perdido. Eu só fui estudar mesmo a partir dos nove anos. Lá no interior as escolas não tinham muita base. Aí perdi totalmente o contato. Ele [seu pai] também deixou mais de fazer festa. Com 14 anos eu voltei pra lá [para o povoado Bom Jesus], e já fui ter outra vida, na roça mesmo. Passei aquela fase de adolescência, que eu não queria mais ficar, queria voltar para casa [dos pais]. Só vim retomar [o contato com música] quando eu vim pra cá [para São Luís].

Quando é que você veio para cá? Eu vim com 17 anos. A oportunidade que eu tive de vir para cá para São Luís foi o seguinte: na época tinha uma juíza, ela ia medir as terras e papai pegou amizade com essa juíza e um advogado. Uma dessas vezes, eu indo para lá, levar alguns documentos, ela disse: “rapaz, tu não quer ir para São Luís? Não quer trabalhar lá em casa? Você pode trabalhar de vigia, estou precisando de alguém”, ela vivia procurando. Eu disse “olha, vou falar com meu pai, se ele aceitar…” Aí fui falar com ele, ele disse “tu que sabe”. Quando ele disse “tu que sabe”, no outro dia eu já estava lá com a bolsa e foi uma nova fase. Eu via a possibilidade de retomar meus estudos. Mas não pensando na questão musical.

Você disse que passou um tempo afastado da música. Você chegou a ter outra formação, que não a musical? Não, só trabalhando lá mesmo. A princípio foi como vigia mesmo, depois eu comecei a trabalhar com documentos, levava documentos no tribunal eleitoral, ela era juíza eleitoral. Eu fiquei como uma pessoa de ir resolvendo as coisas, e morando na casa dela.

E a partir de quando você se interessou novamente pela música? Outra coisa interessante. Eu já estava querendo trabalhar, arrumar outro tipo de trabalho, procurar uma independência maior, até em termos de moradia, ajudar os pais. Aí um dia eu vi no jornal um anúncio que um escritório estava precisando de pessoas. Eu peguei o dinheiro, sempre fui de guardar, aí saí para comprar uma beca bacana, calça social, sapato social, para ir ao escritório. Na época era a Mesbla [extinta loja de departamentos], era ali na Rua Grande. Quando eu chego lá, eu não sei por que, no segundo andar, bem na prateleira, a primeira coisa que deu na vista foi um pandeiro, um pandeirinho vermelho. A princípio eu pensei que era decoração. Uma loja de roupa, vendia outras coisas, estava lá. Chamei o vendedor: “vem cá, esse instrumento aí está à venda?” Aí ele deu o valor. O que vocês acham? Eu comprei a roupa ou o pandeiro? [risos]. Comprei o pandeiro!

Aí você nem foi ao escritório? Nem fui. Aí depois bateu a depressão. O quê que eu vou fazer com isso? Aí era época de eleição, nessa época os candidatos pegavam os ônibus, levavam o povo em caravanas para votar. Eu fui numa, levei o pandeiro. Quando o ônibus parou bem em frente à casa de meu tio, sempre muito rígido, da Sucam [a extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, órgão do governo federal], mandava estudar, queria ver as coisas melhores. Quando ele me viu chegar com o instrumento, que eu fui cumprimentá-lo, ele disse: “ah, tu tá nessa bagunça?” Depois eu fui à casa de meu pai, pensei que ele também ia falar algo, ele disse: “agora você vai ser um músico, comprou seu instrumento”. Aquilo foi tão forte em mim que eu disse “rapaz, agora eu vou estudar”. Foi um incentivo. Voltei para São Luís, mas sem saber onde estudar, onde procurar. Um belo dia eu vi um jornal falando da Rita Ribeiro [cantora, hoje Rita Beneditto], foi quando eu soube que havia uma escola de música. Eu guardei esse jornal, já estava no Liceu Maranhense. E com esse pandeirinho já comecei a formar grupos, a gente fazia apresentações, mas já de olho na Escola [de Música]. Comecei primeiro no Liceu. Quando foi em 1992, eu passando por acaso na Rua de Santo Antonio, ouvi o som dos instrumentos, “ah, é aqui que é a Escola”. Foi uma entrada para nunca mais sair.

Quem te recebeu? Eu fiz o teste com Raimundo Luiz [bandolinista, hoje diretor da EMEM, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013] e tudo aconteceu muito rápido, por que eu já tinha essa experiência do interior, com o pai com banda. Eu comecei logo a participar de grupos. Meus primeiros parceiros foram a Java, que hoje está na Paraíba, é professora de sax, o Fernando, foi professor aqui, hoje está em Brasília. Começamos a nos apresentar no auditório.

Você entrou [na EMEM] para estudar percussão? Bateria. Havia uma bateria que ficava lá no mirante e ninguém usava. Havia um grupo de jazz, eu me entrosei com eles e comecei. Depois eu entrei nos grupos, tipo Big Band, depois Metal e Cia. Como eu já estava no Metal e Cia. com [Antonio] Padilha, foram contratados Rogério [Leitão, baterista] e Jeca [percussionista] e eu comecei a ter aulas com eles. O Jeca mais, o Rogério me influenciou muito na coisa da leitura, ele sempre estava pelos corredores lendo, com métodos.

Como é que o Instrumental Pixinguinha surge nessa história? Eu costumava ver o Instrumental ensaiando, as apresentações, mas eram só professores, na época. Eram [os instrumentos de] cordas, Garrincha [baterista] e Lazico [Lázaro Pereira, percussionista]. Me chamava a atenção, mas não me interessava na época, por que meu trabalho era a Big Band, o Metal e algumas coisas de MPB, eu comecei com Shirley, é uma cantora de coral, que resolveu cantar em algumas salas. Foram as primeiras apresentações que eu fiz fora, fizemos no DAC [o Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], éramos eu, Nonato Privado [violonista] e ela. Eu tinha vontade [de tocar no Instrumental Pixinguinha], mas tinha muito receio, pois tinha-os como mestres. Marcelo [Moreira, violonista], Lazico, eu considerava muito bom no pandeiro, “será que eu vou conseguir tocar?” Quando surgiu a oportunidade de ir para Brasília, fazer um curso de verão, eu me entrosei com a turma, Marcelo, Raimundo, e eles “vamos ali, tem uma turma de choro e tal”. Na época eu andava com um pandeiro 12 [polegadas], a turma se reunia lá, mas não tinha pandeirista. Eu cheguei com o pandeiro, comecei a tocar, eu sem saber com quem eu estava tocando [risos]. A gente passou 15 dias lá fazendo o curso de verão. Depois Raimundo chegou e disse assim: “rapaz, tu sabe quem tá tocando aí?” Eu: “quem?” E ele: “Henrique Cazes [cavaquinista]” Aí foi que caiu a ficha! Quando foi no outro dia, o pessoal se reunia, sempre muito brincalhões, um deles: “e aí, pandeiro? Vai hoje?” Aí aquela música começou a entrar. Eu sempre fui um cara muito inseguro, às vezes eu sabia que tinha aquela coisa dentro de mim, mas não sabia se eu queria ser músico. E entra outra figura, do interior, um senhor que sempre me deu muita força, falava de meu pai, dizia “olha, você vai ser um grande músico”, me incentivava. Uma vez eu organizei lá a questão do 7 de setembro [as comemorações alusivas ao Dia da Independência do Brasil] e ele se empolgou muito com isso, eu sempre gostei de participar das bandinhas, tocando tarol. Certo dia a gente tocando lá, eu vi esse senhor assistindo, montado no cavalo. Quando eu olhei para ele, o vi com aquele sorriso, como quem diz “eu não disse?” E por incrível que pareça, quando eu cheguei em Brasília me veio essa figura. Aí bateu o medo, mas eu lembrei dele dizendo “você consegue, você é capaz”. Quando eu voltei eu sabia que era o caminho que eu queria. Comecei a acompanhar o Pixinguinha onde eles iam, nos bares, na praia. Aí eu procurei ver uma oportunidade de estar dando canjas, pedia pra Lazico, nas primeiras oportunidades que não dava para Lazico eu já estava lá tocando.

Teu interesse por choro começa com esse curso de verão em Brasília ou já existia antes alguma relação tua com essa música? Eu acho que começa lá, quando eu vi os mestres, a forma como os vi tocando, eu me encantei. Foi muito forte. Raimundo ainda me levou, a gente saiu, e numa dessas, tinha acabado um concerto, “vamos ali que o cara vai estar lá”, o Henrique Cazes. Ficamos nós três, eu gravei a conversa toda, até hoje eu tenho pena dessa fita, que eu perdi. Só eu, ele e Raimundo. Ele começou a falar de Pixinguinha, do choro, de várias pessoas, contou várias histórias.

O Cazes, então, teve um papel importante nessa tua aproximação com o choro. Isso, com certeza!

Além do Pixinguinha, da Big Band e do Metal e Cia., você participou de outros grupos musicais? Não. Depois eu comecei a fazer uns trabalhos com [a cantora] Rosa Reis e MPB, bares, acompanhando cantores, comecei a ser conhecido. Até hoje toco com [a cantora] Laura Lobato, principalmente confraternizações, casamentos. Chegamos a tocar uma temporada num shopping, outra no Zanzibar [bar na Av. Litorânea, extinto] na época.

Você também fez o caminho de entrar na Escola como aluno e depois se tornou professor. Como é que se deu essa transição? Como foi que você se tornou professor da Escola? Exato! Professor eu só vim ser de fato quando eu entrei como concursado, em 2000. Eu sempre estive por ali, participando com os grupos. O Mestre Tomaz me levou para o Convento das Mercês, estavam iniciando um trabalho com os meninos, tinha uns meninos de percussão, ele era o maestro da banda, e eu fui, estava precisando. Foi o meu primeiro trabalho como professor, carteira assinada. Quando eu vinha do Convento das Mercês pra Escola de Música na Rua de Santo Antonio, eu passava aqui atrás [nos fundos da EMEM, na Rua do Giz], era a época em que estavam reformando este prédio. E eu dizia para mim mesmo que quando a escola viesse pra cá, eu tinha que ser professor aqui, meio que profetizava que ia ser professor. Era meu caminho todos os dias. Meus colegas também haviam se tornado professores, Fernando, Java, eles me incentivavam muito. Depois teve outra oportunidade, eu fui para Curitiba. Lá eu conheci o Bolão [Oscar Bolão, baterista e percussionista], já foi totalmente divisor de águas. Também tive a oportunidade de conhecer o Luiz Otávio Braga [violonista], um cara muito bacana mesmo! Dei sorte de chegar nos lugares e não ter pandeiro, “ah, você é pandeirista, chega aqui”. Aí teve o concurso, quando eu vim de lá eu já vim pensando, comecei a me preparar. Eu tava numa fase, ou seria professor ou ia desistir de música, foi uma fase complicada. Todo mundo estava buscando uma, digamos, estabilidade.

Você participou de um capítulo muito importante da música do Maranhão, que foi a gravação do disco do Instrumental Pixinguinha [Choros Maranhenses, 2005], o primeiro disco exclusivamente de choro gravado por aqui. O que isso significou para você? Pra mim, na época, foi oportunidade. De estar registrando um trabalho, era o primeiro cd maranhense de choro, de compositores maranhenses. Na época eu não sei se eu tinha noção do que eu estava fazendo, da importância. Hoje eu vejo isso. Foi um momento muito importante pra gente.

Quase 10 anos depois do lançamento do disco de vocês, os membros do Pixinguinha têm conversado, pensado sobre o lançamento do segundo cd? Tem-se pensado, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] tem falado. Teve uma fase que eu tava meio, “rapaz, tu está no Pixinguinha, não tá, como é?”. Cada um estava para um lado, independente, fazendo trabalhos. Sempre que tem um projeto é preciso reunir, o disco está ainda mais como um projeto, pelo menos para mim.

Você relatou que o choro veio depois do curso de verão em Brasília. Hoje você se considera um chorão? Pergunta difícil! [risos]. Primeiro eu teria que saber o que é um chorão, o que é ser chorão. Por que hoje na verdade eu faço de tudo, eu toco de tudo. Pra ser chorão, seria um cara que está participando de todos os movimentos, tudo o que é movimento estar lá, participando ativamente. Eu sou um músico que adquiri habilidades de tocar em qualquer estilo. Eu toco em big band, orquestra de jazz, MPB. Mas tenho um respeito muito grande pelo choro, foi onde encontrei maior oportunidade de trabalho. Como músico, foi o choro que me deu isso. Eu sempre tive medo do rótulo. Tipo: se o cara é roqueiro, ele pode tocar samba, mas ninguém vai chamá-lo para tocar, por que acha que ele só sabe tocar aquilo.

Qual a importância do choro? É uma música nossa, talvez onde a gente possa ter tudo o que a gente precisa para se desenvolver como músico. Em todas as áreas. Para desenvolver os ouvidos, você vai ouvir as mais lindas melodias, as mais lindas harmonias criadas, deixadas aí, permanecendo por mais de século, música com qualidade. O choro é uma escola. Todo músico, dentro do Brasil, que quer ser músico, tem que passar pelo choro. É uma fonte, uma fonte que hoje está vindo gente de todo lugar do mundo querendo beber dessa fonte.

Se ela é tudo isso, por que ter medo de se assumir como chorão? Exatamente por isso! [risos]

O choro praticado no Rio tem como base rítmica o samba. A ida dos nordestinos para o Rio de Janeiro levou outros ritmos que foram incorporados nas rodas de choro, como o baião, o calango, o frevo. Você acha que os ritmos do Maranhão, tão ricos e tão plurais, podem ser incorporados nas rodas de choro? Com certeza! Se você observar no disco do Instrumental Pixinguinha, tem uma levada naquela música [Candiru, faixa que abre o disco] do Zezé Alves [parceria com Omar Cutrim] que tem uma levada de lelê [imita com a boca a batida do pandeiro].

Mas isso ainda é muito tímido por aqui. É. O choro é uma música muito aberta, cabe tudo o que você colocar. Você pode botar o maracatu, o samba, o baião, ele pega de tudo. O choro na verdade é uma forma de tocar. Falta se assumir, “esse é meu ritmo” e colocar lá.

Chorografia do Maranhão: Rafael Guterres

[O Imparcial, 18 de maio de 2014; a 31ª. entrevista da série Chorografia do Maranhão, com o percussionista e cantor Léo Capiba (19/1/1947-1º/11/2014), publicada nO Imparcial em 4 de maio de 2014, pode ser lida aqui]

O cavaquinhista Rafael Guterres é o 32º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Rafael Guterres deu “a cara à tapa” pela primeira vez no saudoso Clube do Choro Recebe, projeto realizado semanalmente no Bar e Restaurante Chico Canhoto, como integrante do grupo Os Cinco Companheiros, formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM).

Filho de Josarnaldo Ramos Paulo, funcionário público – ex-Ibama, hoje Icmbio –, e da dona de casa e autônoma Lilian Guterres Pinto, Rafael Guterres Pinto Paulo nasceu em São Luís do Maranhão em 17 de março de 1987.

Crescido em meio a rodas de samba e batucadas organizadas pelo pai e por tios, em reuniões de família ou para comemorar o aniversário de algum parente, logo o menino pegou gosto pela música, influenciado sobretudo por nomes como Toquinho, João Nogueira, Tom Jobim, Vinicius de Morais, Martinho da Vila e Baden Powell.

Ainda criança, nas rodas, já se arriscava na percussão. Depois estudou cavaquinho na EMEM e aprofundou os estudos no curso de Música da UFMA. Hoje é professor de música, dando aulas particulares e em projetos sociais do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Rafael Guterres convidou a chororreportagem a prestigiar o Samba de Classe, grupo com o qual está envolvido atualmente, que se apresenta aos sábados no Quiçá [restaurante e pub no Renascença]. Acompanhado da namorada, a enfermeira Liana Taveira, ele conversou com os chororrepórteres na Quitanda Rede Mandioca.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O que te fez, dentro de casa, no ambiente familiar, optar pela música? A família de meu pai veio daquela região de São Benedito do Rio Preto, Belágua, Urbano Santos. Eles sempre estiveram em meio à música, sempre tiveram essa coisa bem forte, da música, essa parte da música. Meu avô eu não cheguei a conhecer, o pai do meu pai, mas dizem que ele tocava cavaquinho. Meu pai, meus tios, sempre tocaram violão, percussão, a maioria, então eu sempre tive isso.

Em casa ouvia-se música? Desde que eu nasci eu ouvia muita música.

E o que se ouvia? Sempre rolou muito samba, muito samba do João Nogueira, Martinho da Vila, desde os sambas tipo João Bosco e Tom Jobim, Vinicius de Morais, até o samba mais popularzão, do morro, do Zeca [Pagodinho, cantor e compositor], sempre houve essa mistura assim. Choro, também ouvi.

Isso rolava em disco ou com o pessoal tocando? Os dois, rolava os dois. Até hoje eu tenho o vinil do, eu tenho por que eu herdei, né?, vinil de choro, de samba, eu tenho lá em casa, coisas do Altamiro Carrilho, coisas do Waldir Azevedo.

Entre estes que você cita, você lembra algum que ao ouvir, foi possível dizer “é isso!”? Por incrível que pareça eu sempre gostei de muitos. Mas sempre me chamou muita atenção o Toquinho, eu sempre gostei dos sambas dele, do João Bosco também, desde moleque eu sempre gostei muito. Foi uma mescla mesmo. Junto com isso eu sempre tive muito contato com a MPB também, além do samba.

A partir de quando e o que te fez se interessar pela música, para aprender a tocar um instrumento? Você entrou direto para a Escola, ou antes já praticava? Para aprender foi assim: quando criança, eu sempre tive esse contato e aconteciam aniversários, reuniões da família e meu pai, meus tios, sempre tocavam, percussão, violão, e sempre tinha, por menor que fosse o aniversário ou a reunião, sempre tinha ali uma batucada, uma coisa. Eles nunca foram chorões, instrumentistas profissionais. Mas eles sempre tocaram, sempre tiveram essa coisa da música muito viva dentro da família. Desde moleque, estando no meio da roda deles, batucando um pandeiro, um tambor, um tantã, um tamborim. Aí eu acho que eu tinha mais ou menos uns 12 a 13 anos, estudava no Colégio O Bom Pastor, que é lá no Cohatrac, Cohatrac II. Aí eu vi um anúncio, tinha um anúncio espalhado por todo o colégio, de um professor que dava aula particular de cavaquinho e violão. Aí eu li e disse “rapaz, eu vou aprender a tocar cavaquinho”.

Você lembra o nome desse professor? O nome dele é Nato Araújo, o Nato Araújo que todo mundo conhece, ele é músico e cantor, nessa época ele dava aula de cavaquinho e violão. Eu entrei em contato com ele, ele residia no Cohatrac também, falei com meu pai, “ah, pai, eu quero aprender cavaquinho, compra um cavaquinho e tal”. “Ah, vamos falar com esse professor”. Ligamos, fomos na casa dele, combinamos, marcamos uma data para começar as aulas, meu pai pegou e comprou um cavaquinho. O primeiro cavaquinho que eu tive foi um Gianinni, série estudo, esse com que muitos cavaquinistas iniciam. Aí eu tive três meses de aula com ele e nos três meses eu desenvolvi muito rápido, eu assimilava muito rápido. E me veio a vontade de ir para a Escola de Música do Estado. Fiz o seletivo e comecei a estudar lá.

Isso foi em que ano? Tem uma parte que eu esqueci de falar. Voltando. Antes do Nato, como eu já participava dessas reuniões, batucando e tudo, meu pai falou “rapaz, tu tem aptidão pra música”. Ele já tocava, então percebeu, né? “Vou te matricular na Escola de Música do Estado”. Aí ele me matriculou, eu tinha uns 12 anos. Só que na época, o primeiro ano na escola era só teoria e flauta doce. Eu, bem moleque, não gostava. Eu queria bateria na época. Aí eu fiz seis meses, era um ano, só teoria e flauta doce, para no ano seguinte você escolher o instrumento. A Escola de Música ainda era ali na Rua de Santo Antônio. Eu fiz os seis meses, depois de seis meses eu não quis mais. Sabe como é criança, né? Aí que eu vi o anúncio. “Rapaz, eu quero é cavaquinho!”. Aí eu fui pro Nato, ele me passou alguns acordes iniciais, uma palhetada, coisa bem básica, e eu fiz três meses. Depois desses três meses eu não quis mais ter aula com ele, queria voltar para a Escola de Música, aí eu me rematriculei e consegui voltar. Aí continuei lá.

Você lembra das rodas em casa, com violão e percussão, e você começou nelas. É, batucando, uma coisa muito informal.

Você foi direto para o cavaco ou chegou a passar por violão? Não. O primeiro instrumento harmônico que eu toquei foi cavaquinho.

E hoje é o único que você toca ou você toca outros instrumentos? Não. Hoje eu toco violão, toco guitarra, bandolim eu estou estudando.

Hoje você vive de música? Não tem outra profissão? Só de música. Sou professor de música e músico profissional.

A tua família nunca teve resistência? Geralmente há muito preconceito em relação às carreiras artísticas. Nunca houve um pé atrás? Não. Eles sempre me deram forças, mas cobravam. “Olha, tu quer isso? Tem que ir pelo caminho certo, tem que estudar. Tu quer música, vai estudar música, vai pelo caminho correto”. Eles não queriam que eu fosse um músico da noite, sem formação, sem perspectiva de algo melhor, né? Como chegar a dar aula em alguma instituição, ou a nível técnico ou a nível superior, que é o que eu estou correndo atrás.

Você chegou a estudar alguma outra coisa, na perspectiva de a música não dar certo ou foi para a música direto? Não. Eu fiz três vestibulares para a UFMA. O primeiro eu fiz para Ciências Biológicas, que eu gostava na época. Eu tinha 18 anos. Aí não passei. O segundo eu fiz para Administração, não passei. Aí todo mundo: “rapaz, tu é louco! Por que tu não faz para Música?”. Eu já tocava. Tem um momento da vida que a gente tem essa indecisão. Aí eu acordei e fui estudar para fazer para Música.

O Nato foi teu principal mestre no cavaquinho? Não. O Nato ele iniciou comigo, coisa bem básica. Até por que eu nem tive tempo, foram três meses de aula. Ele me apresentou o instrumento, “ó, esse aqui é o cavaquinho”, um tipo de palhetada, uma palhetada de samba tradicional, que é aquela mesma do tamborim [imita o som do tamborim com a boca], tem no cavaco também, e me ensinou alguns acordes. Agora, com relação ao estudo realmente do instrumento, foi na Escola de Música.

Com quem você começou a estudar na Escola de Música? Eu iniciei o cavaquinho com João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], na época ele dava essa matéria, dava o curso de cavaquinho. Aí eu tive aula com Juca [do Cavaco, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] e também tive uma influência muito grande com Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], que hoje em dia é diretor de lá, mas era professor de bandolim, mas também toca cavaquinho e outros instrumentos.

Estes você destaca como os mais importantes? Sim, os mais importantes para mim. Essa parte do estudo da Escola foram eles três. Para o instrumento.

Hoje você toca vários instrumentos e tanto cavaquinho centro como cavaquinho solo. No cenário local você já falou, mas no cenário nacional, que cavaquinistas você tem como referência? O grande Waldir Azevedo, gosto do Canhoto [o cavaquinista Waldiro Frederico Tramontano], gosto do Arnaldinho [o cavaquinista Arnaldo Galdino da Silva], eu gosto do Henrique Cazes, do Dirceu [da Mangueira]. Tem uma série de outros, o filho do Monarco, o Mauro Diniz, e outros tantos. Às vezes a gente dá um branco, mas tem muita gente boa. Alceu Maia também é muito bom.

Durante muito tempo, e não está tão distante assim, a gente ouvia muito falar que não era possível viver de música, que o músico tinha que ter outra profissão. Hoje a gente fica feliz de ver tanto jovem vivendo de música. Quais as dificuldades para um músico jovem, feito você, poder bater no peito e dizer que vive de música, que vive bem, que vive com dignidade? Quais os caminhos, o que tem que fazer? Quais as estratégias? Como fazer isso? Não era possível. Eu acho que continua sendo muito difícil. A música continua sendo um exercício de perseverança aqui no Maranhão. É complicado. Tem que ter garra e amar trabalhar com música. Tem uma diferença entre o músico de show e o professor de música. Atualmente eu trabalho assim: de manhã eu dou aula de música e à noite eu toco.

Muitos de nossos entrevistados aliam as funções de músico e professor de música. O que é um espaço que está aumentando muito: a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas abre possibilidades de trabalho. É. O músico da noite, o cara que chega e “ah, eu vou ser músico, eu vou tocar, eu vou fazer show”. Tem aquele período em que ele faz bastante shows. Se ele for um cara organizado ele faz a reserva dele. E tem um período em que ele não tem tantos shows. Mas se ele tiver a reserva num período que ele fez, tipo um São João, ou um final de ano, que tem bastante coisa, muito evento, ele consegue ir levando. O cara que é professor de música já não precisa disso. Ele vai trabalhar o ano todo nas instituições em que ele dá aula e vai fazer os shows dele nos finais de semana, quando ele não tiver show ele não vai ficar aperreado por que ele tem os outros empregos dele com aula de música. Está acontecendo isso, isso é muito bom. Os músicos estão começando a ver que ao se fazer uma faculdade, um ensino superior, eles vão conseguir ter este tipo de vida mais tranquila, uma coisa mais segura, sem estar dependendo tanto só de show.

Hoje você canta também, se apresenta só, mas é multi-instrumentista. A história do instrumentista, que é como a gente te conheceu, como integrante de grupos de choro: como foi que se deu sua inserção nas rodas de choro? Nos grupos de choro eu comecei a ter contato mesmo lá pela Escola de Música quando eu comecei a estudar lá, acho que mais ou menos em 2002. 2000, 2002, por aí. Eu conheci o Juca, conheci o Raimundo Luiz, o Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], e toda a galera. E comecei a frequentar os locais em que eles tocavam. Eles fizeram muitos anos no Por Acaso [bar na Lagoa da Jansen], na terça, muitos anos no Antigamente [extinto bar na Praia Grande]. O Clube do Choro na Caixa Econômica [Associação do Pessoal da Caixa, APCEF], na [Serenata] Caixa Alta, fui lá algumas vezes, este período em que eu estava estudando, aprendendo. Eu também assistia muitos vídeos, documentários sobre choro. A vontade de montar um trabalho de choro e tocar partiu disso: de eu estar assistindo documentários e shows.

Você desenvolveu um gosto pelo choro. Eu desenvolvi um gosto pelo choro. Eu acho que isso foi uma continuidade do gosto que eu já tinha, pelo costume de ouvir música em casa, de ouvir o Tom Jobim, ouvir o Toquinho, ouvir o Baden Powell, essa galera, que meus tios e meu pai, a gente tinha esse costume, então foi fácil assimilar o gosto pelo chorinho. Eu ouvia o chorinho, mas eu não entendia. A pessoa, quando ela não conhece, eu lembro que quando moleque, eu ouvia o chorinho e não tinha noção daquilo ali.

Você se considera um chorão? [Pensativo] Em partes. Eu não sou um chorão profissional, daquela coisa. Por que tem pessoas que são assim: ou toca choro ou não toca nada. É o chorão! Pra mim o choro é uma escola, eu considero o choro uma escola. É a escola da música popular brasileira. Se você quiser estudar a linguagem musical brasileira você tem que passar pelo choro. Se tu não estudar choro tu não vai ter a essência, tu não vai saber tocar na essência a música popular brasileira. Eu não me considero um chorão [enfático], até por que eu não me considero um exímio instrumentista. Eu tento tocar, eu tento solar. Eu tenho amor pelo choro, é minha escola, entendeu?

Qual foi o primeiro grupo de choro que você fez parte? Foi Os Cinco Companheiros. Se não me engano Os Cinco Companheiros é de 2007.

Vocês surgiram para tocar no Clube do Choro Recebe, não é? O período do Clube do Choro. Foi até interessante você tocar nesse assunto, por que o interesse partiu de mim, aí eu falei com Osmarzinho [saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], a gente falou com João Soeiro, depois com Wanderson [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de outubro de 2013]. Aí a gente começou a se reunir lá pela Escola, nas salas lá, a ensaiar alguma coisa, e daí surgiu a ideia de fazer um choro dançante, tipo gafieira. Daí surgiu a ideia do Osmar do Trombone [trombonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. A gente eu acho que se reuniu duas vezes. Na terceira o Osmar já estava. Aí a gente passou a ensaiar na casa do Osmar e ele já começou a falar “olha, vamos fazer um bom trabalho, que tem show em Cajari, tem show não sei aonde”. E lá naquele clima dele ele já foi falando, tentando fechar algumas coisas, e apareceu a oportunidade de tocar no Clube do Choro [Recebe], foram vários shows lá.

O que significou aquele projeto para vocês? Para você, especialmente? Eu acho que foi a melhor época do choro aqui em São Luís. Eu não sei se chegou a ser melhor do que no tempo da Caixa, naquela época eu acho que eu nem tocava ainda. Mas do que eu vivi, do que eu participei, o melhor foi ali no Chico Canhoto.

Lá foi o teu primeiro palco? De choro, com certeza. A primeira vez que eu mostrei a cara.

Depois dOs Cinco Companheiros, de que outros grupos você fez parte, de choro e de samba? Do samba foram muitas participações, bem mais até do que do choro. Deixa eu lembrar do choro aqui, primeiro: eu participei dOs Cinco Companheiros, fiz participações com o Urubu Malandro, com o Instrumental Pixinguinha, com o grupo, tem um atual aí que é o Camisa de Bolso, é grupo de choro, com João Soeiro. No Chorando Calado eu fiz uma participação, no Clube do Choro e em outros locais também. Quê mais? Do samba eu participei do grupo Som Brasil, já fiz bastante coisa com Vandico [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de março de 2014], de samba. Tinha um grupo legal que a gente fazia no Panela de Barro, no Danado de Bom [extinto bar, na Cohama]. A gente fez samba no [bar] Cumidinha de Buteco com esse grupo. Grupos assim que eu cantei, que eu toquei cavaquinho, que a gente fez show, coisas fixas. Mas participação eu fiz com vários outros.

E atualmente, você integra algum grupo? Atualmente eu estou com o projeto Samba de Classe. É uma mistura, a gente está fazendo choro, samba, samba-rock, músicas da MPB, botando uma roupagem de samba, nessa linha. Lá no Quiçá [restaurante e pub no Renascença], aos sábados. Vão lá sábado agora, vou botar o nome de vocês na lista vip.

Além de instrumentista e cantor, que outras habilidades você desenvolve na música? Eu componho, tenho algumas músicas, nessa linha de MPB, samba, afoxé. Não sei dizer quantas.

Quando você compõe faz só instrumental ou faz com letra também? Faço com letra.

Você tem participação em gravação de discos? Tenho. Já participei. Já toquei em discos do [Bumba meu boi] Pirilampo, em discos de grupos de samba. Participei do Festival Viva 400 [2012], defendi uma música minha, chegou até a semifinal, não foi para a final.

Pra você o que é o choro? Qual a importância dessa música para você e, na tua percepção, para a música brasileira? É uma escola. É importantíssimo que a população tenha contato com essa música. Só assim ela vai conhecer a essência da música popular brasileira. A maioria dos ritmos, dos estilos, teve influência, partiu do choro. O choro tem uma influência muito grande, dentro da cultura brasileira. O choro foi uma mistura da polca mais batuques africanos e influência indígena. Foi se formando a partir disso.

Tem gente que pensa que o choro é só um gênero, uma música fechada. Você acha que o choro é uma música fechada ou aberta, que pode se misturar com outras coisas? Aberta total! Tanto é que tem no baião, tem polca, tem maxixe, tem choro-canção, tem samba-choro, tem uma série de coisas, tem Beatles tocado em ritmo de choro.

Você acha que o choro pode beber na fonte da cultura popular do Maranhão? Com certeza! Existem muitos compositores de música popular daqui que se utilizam de elementos do choro. Sempre fizeram. Tem o Biné do Banjo [banjoísta, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], antes do Biné teve o [multi-instrumentista] Zé Hemetério e muitos outros que sempre beberam nessa fonte. Dentro do choro há uma similaridade com a riqueza melódica e rítmica da música, da cultura popular maranhense. Um pode beber na fonte do outro tranquilamente.

Chorografia do Maranhão: Juca do Cavaco

[O Imparcial, 13 de abril de 2014]

Juca do Cavaco virou bordão em programa de choro. Cavaquinista do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 30º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Quando a realização de sua entrevista para a Chorografia do Maranhão foi previamente anunciada nas redes sociais, Juca do Cavaco foi saudado como um chorostar. Não é à toa: o músico virou um bordão no dominical Chorinhos e Chorões, apresentado há mais de 20 anos por Ricarte Almeida Santos na rádio Universidade FM (106,9MHz). “Eu sinto uma alegria muito grande, eu fico satisfeito em chegar o domingo, escutar o programa numa rádio de respeito, com um pesquisador fantástico, escutar o nosso nome. Já começo o domingo de uma forma 10. É uma honra!”, revela o torcedor do Fluminense, de longe o mais adjetivado de nossos instrumentistas, entre chorografados e chorografáveis.

Fora o instrumento que lhe deu o sobrenome artístico, Emilson Pires dos Santos não sabe a origem do apelido que ganhou na infância. “Eu perguntei várias vezes para mamãe, mas ela vacilava e nunca soube responder”, confessa. Titular do cavaquinho do Instrumental Pixinguinha, o músico nasceu em 26 de julho de 1958, em Bacuri, então Cururupu, “perto de Valha-me Deus, Lençóis. Da família sou o único que não conhece minha cidade”, conta o ex-bigodudo que veio ainda menino para a Ilha capital.

Formado em Medicina Veterinária, Juca do Cavaco é filho de Doralice Rodrigues Pires dos Santos, autonôma, dona de casa, e Cândido Machado dos Santos, com quem não teve convívio. É o mais novo de três irmãos, em time que se completa com os quase homônimos Edilson e Enilson. Casado com Maria da Conceição Souza, ele deu seu depoimento à chororreportagem, o 30º. da série, após a feijoada sabática do Hotel Pestana, onde toca com o Regional Feitiço da Ilha.

Regada a chopp, a conversa foi ilustrada musicalmente por Você, carinho e amor, Minhas mãos, meu cavaquinho, Chiquita e Pedacinhos do céu, todas de Waldir Azevedo, “o rei do cavaquinho”. Na última simulou o jargão de Ricarte ao apresentar o Chorinhos e Chorões: “Olá, são nove horas, está no ar Chorinhos e Chorões, o seu café instrumental de domingo”.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de músico, qual a tua outra profissão? Atualmente eu vivo só de música. Fiz um concurso nacional, aqui em São Luís, concorrendo a uma vaga para cavaquinho e tive a felicidade de passar nesse concurso, que fez com que eu abandonasse todas as minhas outras funções, de professor de inglês e matemática nos principais colégios daqui. Eu fiquei como tempo integral e dedicação exclusiva, tive que largar todas as outras coisas e estou até hoje, graças a Deus, na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

De onde vem o apelido Juca? Olha, nem mamãe soube me explicar. Eu andei perguntando pra ela. Ela vacilou e não soube me explicar, eu curioso… é uma pergunta que todos me fazem, principalmente os amigos íntimos, como vocês. Eu perguntava, ela não soube me responder direito. Eu não sei a origem desse apelido.

Quando você veio para São Luís, você veio morar onde? Eu lembro que morei num quarto com mamãe na Praia Grande, perto da Escola de Música. Às vezes eu passo lá, fico olhando, “eu morei aqui”, dá vontade de entrar, curiosidade mesmo. Depois desse quarto eu fui morar na [rua] Pereira Rego [também conhecida como Rua dos Craveiros], entre a Rua da Paz e a Rua do Sol, nunca asfaltaram até hoje, até hoje os paralelepípedos estão lá.

Qual era o seu universo de vivências musicais, o que fez você optar por essa carreira? Na verdade, quando eu morava nessa Rua Pereira Rego, meus irmãos, principalmente o mais velho, tinham amigos que tocavam violão, se encontravam, estudavam no mesmo colégio, aquela amizade. Eles se reuniam para tocar violão e eu ficava olhando. Nunca pensei na minha vida em ser músico. Eu os olhava tocando, achava bonito, o tempo foi passando. De repente quando me vi, estava morando na Rua do Norte, nº. 129, perto do Caneco Bar, até hoje existe, inclusive eu fui o bebedor da primeira cerveja do Caneco Bar, e o Martins [proprietário do bar] não deixou que eu pagasse a cerveja. Na Rua do Norte meus irmãos continuavam a tocar violão, por brincadeira, por hobby, nada profissional. Eu já fazia faculdade nessa época. Lá tinha uma roda de samba, e aí que eu comecei a entrar no âmbito da música sem eu saber.

Você fazia faculdade de quê? Primeiramente eu fiz a faculdade de Medicina Veterinária, formei. Depois eu fiz Matemática, incompleto. Larguei pela metade, não tinha mais tempo mesmo. Eu entrei na Escola de Música, tinha muita tarefa, estudava inglês, depois a Escola me contratou para ser professor e eu aceitei. Na Rua de São Pantaleão tinha uma roda de samba que eu gostava muito. Eu nem tocava cavaquinho nessa época. Dava final de semana, o pessoal se encontrava: Cotia [Jorge Henrique], que hoje mora em Natal, violonista, cavaquinista; Vadeco, que era a grande expressão daqui do Maranhão, me ensinou muita coisa, era solista e centrista, depois virou percussionista; era um exímio cavaquinho, tenho-o como um dos mestres, eu tenho muitos mestres, na verdade. Tinha essa roda de samba, que tinha o grande Armand como violonista, irmão de Gerude [cantor e compositor]. Aí eu comecei a tocar cavaquinho e aprender os acordes, pedia muita consulta pra Vadeco. Quando ele solava um choro eu ficava extasiado: que coisa bonita!

Falando em Bar do Caneco, é verdade aquela história de que você foi chamado de Juca dos Teclados? Essa história foi uma grande brincadeira do, se não me engano o nome dele é Alessandro. Uma vez na Rua de São Pantaleão, ele gostava de tocar saxofone, e eu virei para ele e disse: “grande baterista!” [risos]. E ele virou pra mim e disse “você é um grande tecladista!”. Depois eu estava no Clube do Choro [Recebe], quando ele contou essa história. Mas não tem nada a ver, eu nunca fui… não foi no Caneco, foi no CC, no Canto da Comunicação, ali onde tem uma funerária, em frente à antiga sede da [escola de samba] Flor do Samba, o grande reduto destes meus mestres. Essa história é brincadeira, uma brincadeira bem saudável, todo mundo gosta, eu gosto. Tudo isso é alegria, é saúde.

Você é uma das pessoas que mais enriquece esse anedotário, além do espírito didático-pedagógico, de cumprir uma função de interagir com o público, o que é, quem é, uma história sobre a música, sobre o compositor, você sempre cumpriu esse papel de maneira bem interessante. Eu fico feliz com estes adjetivos.

Por que você escolheu o cavaquinho? Por que é um instrumento que tem um timbre muito bonito, agradável. A beleza do próprio instrumento, a facilidade. Não por que ele é pequeno, eu poderia muito bem tocar piano, ou violoncelo, mas o cavaquinho está dentro da linha do samba, dentro da linha do choro, da música brasileira, apesar de sua origem portuguesa. Eu olhava meus amigos tocando e achava tão bonito que isso me influenciou, a beleza deles tocando. Quando eu fazia faculdade foi a época em que eu passei a tocar cavaquinho. Foi lá pelos anos de 1980, 81. Nessa época já rolava essa roda de samba e Vadeco era o único solista que eu conhecia aqui. Depois eu fui conhecendo outras pessoas, o Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], exímio solista, principalmente de choro, domina bem, depois vieram outras pessoas, Adelino Valente [bandolinista], foi meu professor [de matemática] no Colégio Batista. Eu fui me juntando com essas pessoas, sempre aprendendo, fazendo perguntas, tirando dúvidas. Eu comprava muitos vinis, principalmente do Waldir e do Jacob [do Bandolim]. Mais ainda do Waldir por que era o instrumento que eu me engracei por tocar. Os vinis quando chegavam em São Luís, era perto da casa da minha mãe, onde eu morava, tinha uma loja lá que eu comprava muito, Arpasão, eu era federal [frequentador assíduo] no Arpasão.

Com o advento da tecnologia e a facilidade que a internet proporciona, você continua um grande comprador de discos, de cds? Eu procuro muito cd, muitos vinis. Não tenho uma grande coleção. Os vinis que eu consegui comprar ainda estão na casa da minha mãe. Uma grande parte está na casa de um grande amigo meu, a gente fez um trabalho de transformação de vinil para cd. Eu uni meus vinis com os dele. Na minha casa, atualmente, eu não tenho nenhum, na verdade. Eu tenho já passado tudo para o computador. Mas é muito interessante as pessoas terem esses vinis como relíquias. Nos vinis é que estão as verdadeiras histórias dos músicos. Por isso é que eu sei contar muitos casos, hoje nos cds tem algumas histórias, mas nos vinis vinham as histórias de cada músico, sambistas, chorões, e muitos casos, na capa do vinil. Eu lia muito isso, relia, e se eu olhar um vinil hoje eu continuo lendo. É muita cultura!

Você falou há pouco de Vadeco e Adelino e disse que tinha muitos mestres. Quem são os outros? O Cotia também, [César] Jansen, bandolinista, Natan, violonista que me ensinou muita coisa de cavaco, tocava cavaquinho esporadicamente. É principalmente essa turma. Sem falar nos percussionistas, que acompanham os sambas, os choros. Até hoje, toda vez que eu vou tocar com qualquer pessoa que seja, eu sempre estou observando, aprendendo. Se eu toco um choro e a pessoa toca outro, são praias completamente diferentes. Eu sou muito observador, às vezes eu vejo o jeito de a pessoa tocar, a dinâmica. Eu fui conhecendo as pessoas ao longo da minha vivência. Primeiro Vadeco, depois Paulo Trabulsi, Cotia. Nessa roda de samba eles invertiam os instrumentos: quem tocava cavaquinho depois pegava violão.

Quando é que o [Instrumental] Pixinguinha entra na tua vida? O grupo Instrumental Pixinguinha foi criado e formado na Escola de Música. Quando eu entrei lá eu já conhecia muitos dos integrantes do grupo. Quando eu entrei para estudar, pra me aprofundar, pra aprender a ler, a escrever a música, tinha esse grupo de choro, com uma deficiência muito grande no instrumento cavaquinho. Ora passava um, ora passava outro, passou muita gente. Uma vez, eu dentro de um ônibus, encontrei Marcelo Moreira [violonista], grande músico, grande amigo meu, a gente começou a conversar. O grupo estava num momento de crise, aquela coisa de grupo, até os Beatles acabaram, não é? Ele sentado, eu em pé, eu perguntei: “Marcelo, no Pixinguinha eu vejo muita deficiência em termos de cavaquinho. Por que vocês não botam uma pessoa fixa pra tocar cavaquinho? Eu me disponho a tocar com vocês!”. Certo tempo depois, me convidaram: “Juca, tu não quer tocar no grupo?”. Eu já tocava alguma coisinha, depois daí não parei mais. Eu já tinha tido passagens pelo [regional] Tira-Teima, meus amigos de longa data, os do Pixinguinha eu fui conhecer na Escola de Música.

Quem tocava cavaquinho? Era Raimundo [Luiz, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], era Biné [do Cavaco], o Athos [Lima], houve muitas passagens. Quirino…

Athos virou roqueiro depois. Muitos roqueiros vêm do rock pro choro. Athos fez o movimento contrário. O Ronaldo [Rodrigues, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 1º. de setembro de 2013], sobrinho de Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], veio do rock pro choro, João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]. Tinha um aluno na Escola de Música, chamado Ricardo [Foca], toca um bandolim de prima, era roqueiro. Continua roqueiro, mas toca muito choro.

Não está na hora de o Pixinguinha gravar um disco novo? Essa é uma história sobre a qual eu tenho observações.

Eu soube que você não gosta de gravar. Essa história está totalmente errada. Vamos tirar isso a limpo [gargalhadas do entrevistado e dos chororrepórteres]. Quando eu me propus, como integrante do grupo, a gravar o primeiro cd [Choros Maranhenses, de 2005], eu disse, “olha, eu vou gravar com várias condições”. Eles: “quais?”. Primeiro, temos que ter um produtor, quando forem fazer o cd, capa, encarte, letras grandes, toda pessoa que se interessa, vai ter que ler. Eu vejo tanto cd com letra miudinha, letra preta em fundo azul, gente! Isso é uma falta de respeito com o leitor, com o ouvinte, o consumidor. Tem que ter uma foto bem produzida, realmente a foto foi bem produzida. Outra: depois que gravarmos o cd, vamos contratar alguém para gravar entrevistas, contratos musicais, trabalhar em cima do cd, fazer shows de divulgação em São Luís, no interior do Maranhão, e depois rodar o Brasil. Isso não aconteceu. O único show que a gente fez foi quando tocávamos no Por Acaso [bar na Lagoa da Jansen]. A gente lançou o cd ali. Depois disso não houve nada. Por isso quando se pergunta: “vamos gravar o cd?”. Eu posso gravar o segundo, o terceiro, o quarto e ficar encofado.

Tuas condições são plausíveis. Choros Maranhenses cumpriu um papel muito importante: é o primeiro disco de choro gravado no Maranhão, com repertório autoral, de membros do grupo e mestres do passado. Neste aspecto há alguma discussão, de um eventual segundo disco manter essa linha? Já houve conversas, de se manter a mesma linha. Pesquisar e fazer uma seleção.

O Caderno de Partituras de Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] seria um orientador da pesquisa de vocês? Eu falei pra ele também: “Zezé, esse teu caderno é muito bom, uma iniciativa muito boa, mas leva teu projeto pra frente, pega um apoio, um produtor, que te leve com esses cadernos para o interior, divulgar teu trabalho”. O trabalho está parado. Ele me convidou para gravar o caderno dele [um cd encartado, para que o estudante de música possa tocar acompanhando as partituras], eu, Carbrasa [percussionista] e Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], mas o caderno está parado! A única coisa que foi feita nesse livro, em termos produtivos, foi quando chega músico de fora, ele dá, entrega. Mas tem que ter um trabalho direcionado, estratégico, educacional, música nas escolas.

Pra você, o que é o choro? O choro é, como diz meu amigo João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], a espinha dorsal da música brasileira. É a música que abrange todos os gêneros. A pessoa que toca choro tem maior facilidade em tocar os outros ritmos, fica mais fácil. É a primeira música brasileira, tem que ser respeitado. É onde começa todo o desenvolvimento musical da história da música brasileira. O choro é a base.

Você se considera um chorão? Assim como eu me considero também um sambista, assim como eu gosto de vários estilos musicais. Ser chorão é como se eu estivesse dizendo que toco só choro. Eu toco outros estilos. Eu me identifico muito com a música de boa qualidade. Eu posso dizer que sou um chorão dentro das minhas limitações. Não conheço tudo, mas sinto muito prazer em tocar.

Além do Instrumental Pixinguinha, de que outros grupos musicais você participou? Eu toquei muitas vezes com o Tira-Teima, eu andava muito com eles. Fixo mesmo foi com o Pixinguinha. Em relação a grupos de samba toquei em muitos grupos: Amigos do Samba, que inclusive é um choro de Waldir Azevedo, toquei no Sambando na Praia, toquei com Serrinha [e Companhia]. Hoje em dia São Luís está cheia de grupos. O grupo Ébano até hoje me convida para tocar, de vez em quando eu toco com eles. De choro eu tenho vários grupos formados: o Duo Chora Cavaco, eu e Domingos Sete Cordas [Domingos Santos]; o Triângulo Escaleno, eu, Domingos e Lazico [o percussionista Lázaro Pereira]; grupo Éramos Seis, que era o Pixinguinha, Garrincha [baterista] saiu. Atualmente, fixo, eu estou tocando com o Feitiço da Ilha, que sou eu, Vandico [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de março de 2014] e Chico Nô [cantor, compositor e violonista], e com o Instrumental Pixinguinha.

Você esteve em duas iniciativas que ganharam prêmios Universidade, Choros Maranhenses e Rosa Secular [o show Noel, Rosa Secular, que celebrou o centenário do compositor de Vila Isabel, com vários artistas]. O que isso significou para você? Significou muito para mim. Houve muita produção, a gente estudou vários arranjos, a produção de cada música, tocar, ensaiar. Foi um ganho muito bom, me sinto recompensado, alegre e satisfeito de ter participado destes dois momentos. Quem não fica satisfeito em ser reconhecido? Em produzir um trabalho e ganhar determinado prêmio? Agora, o prêmio maior é a convivência com os envolvidos. Puxa, quando eu lembro que no primeiro Rosa Secular não tinha mais como entrar no Daquele Jeito [bar no Vinhais]. Foi apoteótico, essa é a palavra. A gente passou vários meses ensaiando, e nunca havíamos pensado em chegar a este patamar de sucesso.

Para você, o que é sucesso? Sucesso é o fruto de um trabalho bem feito, feito com muito esforço, com muito estudo e muita participação. Acima de tudo, estar tocando uma música bem tocada. No momento em que a gente começa a tocar errado, a gente já vira insucesso. Sucesso é a gente tocar bastante, se esforçar, ter gratidão às pessoas que ajudam a gente, de uma maneira geral. Isso gera o sucesso. Se fizer bem feito o sucesso chega. Tem que tocar por amor, mesmo. Dinheiro é consequência.

Ano passado você esteve envolvido em um episódio importante, quando o Tira-Teima e o Pixinguinha subiram juntos ao mesmo tempo em um palco da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, promovida pelo Sesc. O que aquele momento significou para você? Foi um encontro onde reunimos os grandes chorões e onde houve um encontro de muita musicalidade e entrosamento. Dois grupos tocarem o mesmo repertório juntos é complicado, mas conseguimos. Um detalhe interessante, muito difícil: no Pixinguinha eu me responsabilizei por montar o repertório, e Paulo Trabulsi por montar o do Tira-Teima. Fizemos os repertórios, mandamos um pro outro, eram músicas diferentes. Foi tão difícil fazer esse repertório, em cima da hora mudamos [risos]. Quando eu desci de lá, duas pessoas vieram: “gente, vocês devem ter ensaiado muito, saiu tudo perfeito”. Foi um reconhecimento a essa cultura instrumental.

Uma questão fashion: por que você tirou o bigode? É o seguinte: cabelo branco eu acho lindo, agora bigode branco, eu não acho legal. E eu fiquei mais jovem [risos]. Agora, esse lance de bigode, toda semana eu recebo comentários interessantes: “Juca, depois que você tirou o bigode, é tipo o cabelo de Sansão, tu não faz mais aquele negócio”; “Juca, agora tu tá o cara!”. Eu fico em cima do muro [risos].

Como você avalia o choro que se pratica no Maranhão hoje? Temos duas faculdades de música, a Escola, grupos de choro, grupos de estudo. Como você enxerga isso, comparando o hoje com o que era anteriormente? É uma evolução muito grande, acima de tudo do interesse pela música. Nas escolas, nas faculdades, a gente vê pessoas interessadas em aprender, não só para entrar no mercado de trabalho, mas produzir uma música que é estudada, a pessoa se esforça para fazer uma coisa bem feita. É altamente positivo. Vivemos um bom momento no choro, assim como no samba, que está num momento incrível em São Luís.

O choro do Maranhão tem futuro? Só tem! Basta a gente querer e ter o apoio de pessoas sérias.

Chorografia do Maranhão: João Soeiro

[O Imparcial, 30 de março de 2014]

Professor de violão popular da EMEM e músico de igreja, o violonista João Soeiro é o 29º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

João Soeiro trajava uma camisa de bolso e deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Pode até ser mera coincidência, mas nestas linhas iniciais já aparecem duas experiências suas com o choro: os grupos Camisa de Bolso e Choro de Quitanda, por que passou.

Nascido em Pinheiro/MA, em 4 de julho de 1972, João José Soeiro Pereira é professor de violão popular na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, filho da dona de casa Lucília dos Santos Soeiro Pereira e do boêmio – de profissão – Mário Pereira, “casado três vezes, estudou para ser padre, foi criado por três freiras. Largou a batina pela boêmia”.

Com cerca de 40 composições, algumas já registradas, o 29º. entrevistado da série transita bem entre dar aulas, tocar na noite e na igreja. “Fui um crente que revolucionou a igreja”, diz, sorrindo. Antes do violão, Soeiro tocou cavaquinho, que aprendeu com um pescador de Tutóia. Além da EMEM, dá aulas no Colégio Educator e em projetos sociais, incluindo o Musicar e a Orquestra Tocando o Choro, do Sesc.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de boêmio e de ter estudado para ser padre, teu pai fazia o quê? Meu pai foi detentor de muitas riquezas das três freiras [que o criaram], deixaram muito ouro, muita terra para ele. Ele não fazia nada, era boêmio. Por conta das grandes amizades, na política, arrumaram um emprego para ele no IPEM [o Instituto de Previdência do Estado do Maranhão], funcionário público, final de carreira já, arrumaram um serviço na Secretaria de Saúde.

Além de músico, você tem outra profissão? Eu fiz de tudo. Fui comerciante, balconista, farmacêutico, trabalhei em oficina mecânica, forrador de gesso, ajudante de pedreiro e encanador. [Hoje ajudo como] Zelador da igreja evangélica.

O que você ouvia em casa quando era pequeno? Eu ouvia muito [os cantores] Orlando Silva, muito Nelson Gonçalves, essa coisa da boêmia mesmo, Altemar Dutra, ouvia choro também, Waldir Azevedo [cavaquinista], Pedacinhos do céu, o disco Pedacinhos do céu tocava direto lá em casa, meu pai tocava esse choro.

Isso tocava em discos que ele comprava, no rádio, ele era um grande comprador de discos? A gente ganhou uma vitrola, uma vitrola da Philips, momento comercial [risos], então os amigos, meu pai tinha grandes amizades, eles traziam os discos para ele, a gente ouvia em casa, e ele tocava muito chorinho também. Meu pai tocava muito choro, meu irmão também.

Com que idade você veio para São Luís? Em 1981, quando minha mãe vem a falecer, meu irmão, que eu não conhecia, mais velho, o primeiro filho de meu pai, vai buscar meu outro irmão de 14 anos, para viver num comércio em Belém, ele tinha um comércio, tocava. Aí meu irmão não vai, não quer ir, e eu quis ir, “rapaz, eu vou”, com nove anos de idade, vontade de conhecer os novos horizontes, fui para Belém, com esse meu irmão. Esse meu irmão meu pai já tinha levado, meu pai já estava com Mal de Parkinson, já não tocava mais, já estava bem idoso. Meu irmão me leva para Belém, também boêmio, comerciante, sempre gostou de boa música, tocava, aprendeu uns choros que meu pai tocava. Aí eu começo a querer pegar no violão, mas ele não deixava, ele tinha um ciúme danado! Esse violão meu pai comprou em 58, já tinha 10 anos quando meu pai comprou, ele é de 1948, e meu pai tinha comprado em 58. Esse meu irmão tinha um bar, tocava no bar. Em 84 a gente veio para São Luís. Aqui a gente montou o Conjunto Vinagreira, lá no Angelim. Quando a gente chegou aqui ele montou um barzinho menor e a gente começou a tocar. Esse meu irmão, que eu chamo hoje de pai, seu Edson, todo domingo ouve o Chorinhos e Chorões [programa de rádio apresentado pelo chororrepórter Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Ele era um colecionador de chorinho, gosta muito de Saraiva [saxofonista], adora aquele choro Lágrimas de namorados [de J. Luna e Luiz dos Santos], me ensinou. Eu digo que esse foi o único choro que eu ensinei pra Juca [do Cavaco], Juca me ensinou todos os choros [risos]. Foi a partir daí, de 84, eu já com 12 anos, lá eu começo a tocar cavaquinho, lá na roda, os caras tocando pandeiro, eu tocava cavaquinho fazendo a base, só o centro mesmo, não solava. Quando dá em 87 começam a ir os grandes mestres da Escola de Música na minha casa: Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], eles começaram a frequentar lá o bar de seu Edson, lá em casa. Aí com essa influência eles “rapaz, bota esse moleque na Escola de Música”. Foi aí que eu fui para a Escola de Música.

Quem foram teus primeiros mestres de cavaquinho? Olha, meu primeiro mestre de cavaquinho foi seu Assis, um pescador, lá de Tutóia, analfabeto. Foi ele quem me ensinou os primeiros acordes de cavaquinho. Ele era frequentador de nosso bar, lá. Foi meu primeiro mestre de cavaquinho, eu comecei a tocar cavaquinho. Só que a minha grande paixão era o violão, meu pai tocava, meu irmão tocava.

E quando foi que o violão entrou na tua vida? O violão entra mesmo na minha vida por conta da igreja [Congregacional]. Eu entro na igreja em 1984. Só que eu fiquei dividido entre a igreja e o bar, eu não largava nem a igreja nem o bar. Eu fui o primeiro irmão revolucionário [risos], é verdade, isso é fato, verídico. [O primeiro] que revolucionou essa coisa de o pastor deixar tocar no mundo e estar na igreja. Eles [os pastores] viram que não tinha jeito: a minha musicalidade brasileira era muito forte e eu não aguentava tocar aquelas coisas americanas na igreja. Eu disse: “rapaz, eu gosto é de samba, é de chorinho, é de baião, é de bumba meu boi, essa música é nossa e é isso que me encanta”. O pessoal ficou “rapaz, esse moleque é doido”. O que eu achei legal é que eles não desistiram da minha pessoa, mesmo eu sendo assim. Eu fiquei no bar e na igreja, tocava no bar e tocava na igreja.

Quem te ensinou violão para você passar a tocar na igreja, as primeiras lições, o começo da história, o mestre principal? Rapaz, foi o seu Edson. Foi ele que me ensinou os primeiros acordes. Aí a galera da igreja foi me passando, começaram a me passar as músicas da igreja. Antes meu irmão brigava para eu não pegar violão e eu aprendia olhando. Ele dizia que eu conseguia decorar as posições sem ter o instrumento. Eu peguei um dia um pedaço de ripa, preguei umas cordinhas e comecei a treinar. Aí ele viu que eu tinha jeito pra coisa e começou a liberar o violão para eu tocar. Aí começou a história.

Qual era a formação do Vinagreira? O Conjunto Vinagreira era seu Buca, um taxista, no pandeiro, seu Maranhão na cabaça, o meu irmão, seu Edson, no violão, e o seu Assis no cavaquinho, ou eu, quando ele faltava. Aí tinham vários curiosos cantando, mas o grupo instrumental era esse aí.

Isso durou quanto tempo? E por que acabou? Isso vai de 85 a 93. Nossos amigos infelizmente foram falecendo, seu Assis faleceu, seu Buca foi embora. Meu irmão foi enfraquecendo, as condições financeiras para manter o bar, boêmio dono de bar é complicado, aí foi definhando. Mas eu digo que o Vinagreira não acabou, restou este que vos fala, uma raiz de lá do Vinagreira, que estava no empirismo, no senso comum. Foi a partir desses grandes mestres da Escola de Música que eu fui começar a saber o que era uma nota.

Depois do Vinagreira você participou de outros grupos? Há um interlúdio, um tempo de reflexão em que eu comecei a estudar e ser lapidado. Fui para a Escola de Música, comecei a tirar os vícios, os grandes mestres me ensinando. Como eu tocava, eu queria tocar, estar lá no meio, mas eu não tinha técnica apurada ainda para tocar com os grandes mestres, os caras estavam noutro nível. Eu tocava na base do “empurra, lá vai ele”. Quando foi em 2002, que eu passo no concurso para ser professor da Escola de Música, aí sim, eu começo a montar grupos lá dentro da Escola de Música, com meus alunos, grupos de choro, como eu queria ter feito. A partir de uma viagem, em 2004, com Osmarzinho [Osmar Jr., saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], nós fizemos umas apresentações juntos em Brasília, tocamos um choro chamado Confusão, Osmarzinho arrebentou, a gente fazendo a base, todo mundo chegou pra junto: “lá no Maranhão tem choro?”. “Tem choro sim!”. O primeiro grupo que eu toquei realmente choro, foi um grupo que foi até Ricarte quem botou o nome: o Choro de Quitanda. Formação: Zezé na flauta, João Soeiro no cavaquinho, Nonato Privado no violão e Lazico [Lázaro Pereira] no pandeiro. Foi o primeiro grupo em que eu toquei assim já mais lapidado.

Foi no Clube do Choro [Recebe]? Foi no Chorinhos e Chorões, nós fizemos um programa.

E a família sempre te apoiou nessa escolha de ser músico? Sempre houve um ambiente favorável ou as pessoas brecavam? “Olha, João, isso aqui não dá futuro”, ou coisa do tipo? Como todo músico sofreu essa pressão de que “música é coisa de vagabundo”, nesse período, em que não se via ainda o profissionalismo na música, era notório nas pessoas, na própria igreja que eu tocava, “rapaz, tu tem que estudar outra coisa, fazer outra coisa, isso é coisa de boêmio, tu vai acabar sendo cachaceiro que nem teu pai”, as pessoas já diziam que meu pai era cachaceiro. A partir daí eu comecei a fazer outras coisas também, por conta dessa pressão. Eu tinha que me manter, morava de favor, com meu irmão. Larguei os estudos da música para fazer outras coisas, fui fiscal de ônibus, trabalhei três anos na [empresa] São Benedito.

Hoje você vive de música? Hoje, graças a Deus, eu vivo de música. Sou realizado. Sou professor da Escola de Música, sou professor do Colégio Educator, trabalho para o Sesc [Serviço Social do Comércio], toco na noite, toco com meus amigos, e hoje eu tenho o prazer de dizer: do palito de fósforo à pizza mais gostosa, à comida mais gostosa eu pago com música, com os acordes. Meu filho quando era pequeno, eu dizia que ia tocar, ele achava que eu tocava e o dinheiro saia do violão [risos].

Além do Vinagreira e do Choro de Quitanda, quais outros grupos musicais você já integrou? Eu já integrei Os Cinco Companheiros, choro de gafieira, a partir dessa viagem com Osmarzinho, o Camisa de Bolso está com três anos, a gente já fez várias apresentações no shopping. Essa é uma história muito engraçada. O Camisa de Bolso começa lá no Antigamente [extinto bar na Praia Grande], eu, Roquinho [cavaquinista] e o filho dele [o percussionista Léo Caroço], e todo mundo que me conhece sabe que eu toco dançando, brincando, fazendo munganga ou gatimonha, como diz Raimundo Luiz [risos], e a gente tocando lá no Reviver, de repente vem um gringozão, mais de dois metros, na minha direção, na direção do grupo. Eu fiquei assim atônito, “rapaz, esse cara vai me dar uma bolacha!”. De repente ele tira alguma coisa do bolso e bota no meu bolso, na minha camisa. Aí, que eu olho para Roquinho, tá com a camisa lisa, e o filho dele com a camisa lisa, só eu com camisa de bolso. Que eu olho pra dentro, cem dólares! [gargalhadas dos chororrepórteres]. Aí eu disse: “nunca mais toco de camisa lisa, só de camisa de bolso”, batizei o grupo de Camisa de Bolso. Depois outras senhoras botaram mais uns 40 reais, e eu disse “olha, eu só toco de camisa de bolso, a partir de hoje”. É uma história verídica. Aí também tive o prazer de fazer participações com o [Instrumental] Pixinguinha, mas os grupos de choro que a gente integrou foram esses.

E grupos de samba? Eu tenho sido chamado pra fazer com Rafael Guterres [cavaquinista], toquei com o [grupo] Amigos do Samba.

Eu lembro que você participou daquele show em homenagem a Noel Rosa [o show Noel, Rosa Secular, de Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, com Cesar Teixeira na primeira edição, apresentado em 2010 e reprisado em 2011, vencedor de um Prêmio Universidade FM]. O que significou aquilo para você? Aquilo foi muito significativo para mim. O centenário de Noel Rosa, eu ser chamado para fazer o violão seis cordas, com o Domingos Santos no sete cordas. Mudou muita coisa na minha cabeça, culturalmente, harmonicamente, no que é Noel Rosa, a gente vai entender que era um gênio realmente do samba, com 26 anos deixar mais de 200 músicas. Nós tínhamos ali Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Célia Maria [a lista de participações especiais se completava com Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro], e instrumentistas como Juca do Cavaco, Domingos, o grande João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013], um trabalho maravilhoso.

E disco? Você gravou algum disco? Tem participação? Não. Eu tenho músicas gravadas. Um choro meu que está no cd [Made in Brazil] de Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Chorando de saudade. E tenho composições, a minha música O menino da feira foi agora para as eliminatórias finais do Festival Viva. Eu fiz essa música, eu indo para a Escola de Música, e tinha um menino dormindo no ônibus. Eu empurrei ele e disse: “o que é, rapaz, tu tá xilado uma hora dessas, oito e meia da manhã?”. E ele disse: “não, tio, é que eu junto verdura na feira pro meu pai, pra gente botar pros animais”. Depois ele desceu, saiu correndo e eu fiz uma canção pra ele assim [canta, se acompanhando ao violão]: “tão pouca vida/ e já cansado/ do estresse urbano/ da sacola da feira/ tão poucos sonhos/ todos frustrados/ (…)/ Lá vai o menino da feira/ chutando o repolho/ pensando que é bola/ pedindo pra alguém pra pegar a sacola/ sobrou o limão/ não deu pra ir pra escola// Lá foi o menino da feira/ sacola vazia/ não deu pra juntar/ cebola, tomate/ tá tudo caro/ não deu pra ninguém// Lá foi o menino sonhando, sonhando/ com a próxima feira/ será que algum dia ele come uma pera?/ será que tem feira?”. Essa música está no disco do Tony Soubler [cantor], ele gravou essa música com arranjo do Marquinhos Lussaray [o violonista e guitarrista Marcos Lussaray]. As duas músicas minhas que ele gravou, essa e Mulheres. Só um pedacinho pra ver se vocês aprovam. Essa música, na verdade, eu fiz pensando em como Adão se sentia nos dias em que ele estava sem mulher [canta, se acompanhando ao violão]: “Antes de você chegar/ havia tristeza, encoberta a beleza estava/ e no campo e nas florestas/ não se ouvia nenhuma festa/ (…)/ nem havia tão fácil sorrir/ sem você, mulher/ o mundo era menor/ foi então que o criador percebeu/ que a solidão o homem entristeceu/ e fez você, mulher/ harmonia, alegria pelo campo, e a fantasia”.

Você faz letra e música? É, letra e música. Até então eu só fazia música gospel, que é meu mundo, meu universo. Mas tudo assim, samba. Eu tenho um samba que foi gravado por uma galera de Goiânia, que é [canta, se acompanhando ao violão]: “essa força que vem lá de dentro do meu coração/ força tremenda, que não dá não, pra explicar/ mas se eu pego a viola, com todo carinho/ e ouço o gemido do meu cavaquinho/ se tenho um pandeiro/ na ginga, na bossa do samba que traz/ se é na poesia/ ou nos versos de uma linda canção/ eu tenho o Senhor como centro maior da inspiração/ (…)”.

Atualmente você está integrando algum grupo? Os Cinco Companheiros e o Camisa de Bolso são grupos que não acabam. A gente está sempre fazendo algum evento. Rapaz, eu esqueci aqui de um grupo maravilhoso que eu fiz parte durante dois anos, o Nós da Música, que é um grupo da Tania Rego. Era eu, Tania Rego, Adriana Soraya e Nonatinho na percussão. A gente tocava bossa nova, era muito gostoso.

Você também se envolveu em projetos sociais com a música. Hoje, na verdade, eu sou coordenador de um projeto de música chamado Musicar, em duas comunidades, na Divineia e no Maiobão. É desenvolvido pelo Sesc. Hoje eu sou regente. A partir de 2007 a gente criou uma orquestra de choro com os meninos. Tem um menino muito bom, tocando, Raul, fez recital na Escola agora. Estamos na ativa, uma orquestra tocando choro.

A cada ano tem alunos novos, que entram? Como é que funciona? Isso! E os alunos que vão se destacando a gente vai inserindo na orquestra. A orquestra hoje é no Maiobão, o sonho do Sesc é trazer para a Deodoro.

Qual a importância de contribuir com comunidades tidas como carentes, com este tipo de iniciativa? Eu me sinto muito feliz. Os relatos que a gente tem lá na comunidade são de benefícios diretos da música para estes jovens. Na escola, concentração, na família, o comportamento. A gente faz reuniões periódicas com os pais e eles trazem este depoimento pra gente. “Meu filho melhorou a concentração”, “meu filho está mais obediente em casa”, “meu filho está mais caseiro, por conta de estar estudando um instrumento”. E fora que no projeto nós já temos alunos na UFMA, alunos na Escola de Música, tudo isso é qualidade de vida que foi levada para eles através da música, e a gente é muito feliz com isso. Quando a gente começou a levar o choro, disseram: “mas choro com essa juventude?” O que ficou notório? O povo gosta de boa música, às vezes não tem é onde ouvir. Além disso, eu trabalho com musicalização infantil, sou o Tio João, na Companhia Vovó Beth, adoro trabalhar com isso, dou aula para a garotada, de dois anos de idade até…

Para você, o que é o choro? O choro é o ápice do estudo musical do instrumentista. Simplesmente por que ele é a música brasileira mais difícil de ser tocada. Pela sua complexidade rítmica, harmônica, melódica. Eu converso com meus amigos, olha, Pixinguinha faz cinco choros em fá, você analisa o campo harmônico dos cinco choros, é muito parecido, e as melodias são totalmente diferentes. Incrível, você vê Os cinco companheiros é em fá, vai pra ré menor e a terceira parte é em si bemol; Chorei, a mesma coisa; Cheguei, a mesma coisa; Proezas de Solon, a mesma coisa. E todas essas quatro músicas, não é por que você aprendeu a tocar uma que você sabe tocar as outras. Não! É a música mais complexa que existe, não desmerecendo os outros ritmos.

Quem é o chorão, de toda a história, que mais te fascina? Eu sou apaixonado por Waldir Azevedo. Foram as músicas que eu ouvi na infância, ouvi desde pequeno, acho o cavaquinho um instrumento belíssimo, maravilhoso.

Você se considera um chorão? [Pensativo] Sim. Eu me considero um chorão por que eu não sei viver sem o choro. Mesmo quando eu não estou tocando, eu tenho que ouvir, por que o choro faz parte da minha identidade. As minhas composições, o ritmo, é tudo com choro. A gente na Escola de Música, com esses grandes mestres, eu sempre balancei em criar esses eventos, assim, esse Dia do Choro, fui um dos primeiros a fazer, 23 de abril [data de nascimento de Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, em que se comemora o Dia Nacional do Choro], hoje é um evento grande, mas fomos um dos primeiros, eu e Nonatinho [percussionista]. Foi a partir dali que todo 23 de abril a gente faz um evento do choro em São Luís.

Entre as pessoas para quem você deu aulas, quem você destacaria? Eu tive a honra de dar aula para Robertinho [Chinês], é um exímio instrumentista, Rafael Guterres, fui agraciado agora com um show de Israel Costa [cantor], que foi meu aluno de percepção na Escola de Música, gravou cd agora. E outros, Lee Fan, foi meu aluno de cavaco, hoje é flautista, toca sax, está tocando piano também. É muita honra, e saber que hoje eles estão no meio musical. Os meninos do projeto lá do Maiobão, Raul, e Rardson e Adenardson, foram meus alunos do zero, começaram sem saber onde botar os dedos no violão e hoje estão aí.

Chorografia do Maranhão: Domingos Santos

[O Imparcial, 16 de março de 2014]

Violonista sete cordas do Instrumental Pixinguinha, o “miritibano” Domingos Santos é o 28º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Quando Domingos da Silva Santos nasceu, em 3 de julho de 1955, Miritiba já passara a se chamar Humberto de Campos, em homenagem ao escritor maranhense nascido ali. Miritibano, como se chamavam os que nasciam na cidade, dá nome à faixa de abertura de Choros Maranhenses [2005], disco de estreia do Instrumental Pixinguinha, do qual é titular do violão sete cordas.

O músico deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Sala Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], em que dá aulas na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM].

Filho do saxofonista e comerciante Raimundo Nonato Amaral dos Santos e da dona de casa Maria José da Silva Santos, o músico é bacharel em Geografia, mas nunca atuou na área. “A música bateu mais, não foi preciso andar atrás de emprego, me agarrei com ela”.

A seu lado, dos outros professores da EMEM com que forma o Pixinguinha, e de outros mestres já saudosos, seu falecido pai figura na lista de compositores de Choros Maranhenses. Seu grupo gravou Não se esqueça de mim.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo em casa, familiar, era propício à música? Eu morava numa casa de festa. Papai era músico. Ele tinha uma orquestra que tocava as festas de Humberto de Campos, das redondezas, não era só da cidade. Eram bateria, banjo, tuba, trombone, saxofone, trompete e pandeiro. Tocava a região inteira lá.

E o que se ouvia em casa? Papai tocava choro. Na verdade a gente não tinha nem rádio. A gente só escutava as festas. Mamãe fazia essa festa de Santo Antônio, lá o pessoal amanhecia. Amanhecia tocando choro, cantando.

Teu pai além de tocar era professor de música? Ele deu aulas para alguns lá. Já morreu com 94 anos, até 80 e pouco ainda andou dando aula para uma criançada lá. Nada foi assim pra diante.

A vida dele era só música ou ele tinha outra profissão? Ele tinha um comércio. Lá, Humberto de Campos, era uma região muito pobre, a história é farinha e peixe, só isso [A pedido do flautista Paulinho Oliveira, também professor da EMEM, Domingos Santos conta uma história:]. Eu estudava aqui na Escola de Música, tinha um professor de piano que falava assim pra mim: “rapaz, faz de conta que tu estás pegando uma laranja”. E eu: “rapaz, lá no interior só tem manga” [risos dos chororrepórteres e do entrevistado]. Mamãe fazia remédios caseiros, e comprava remédio em São Luís e revendia lá.

Teu pai era saxofonista? Saxofonista. Tocador mesmo! Lia partitura que era uma beleza. Inclusive quando o Pixinguinha, depois que acabou, a gente fez uma nova formação, eu, Marcelo [Moreira, violonista], Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Paulinho, a gente foi tocar na festa de Cururupu, e ele estava lá e tocou com a gente.

Com que idade você veio para São Luís? Eu vim fazer o ginásio no Liceu, em 1973.

Vocês são quantos irmãos? Nós somos nove. Morreu uma. São quatro homens e cinco mulheres. Aí morreu uma.

Quando teu pai ia fazer festas, você garoto, acompanhava ele nessas festas? Não. Eu vim acompanhar depois, nas rezas lá de casa. Tinha as ladainhas, aí eu passei a tocar. Ele tocava as ladainhas lá com esse grupo. Depois de muito tempo é que eu comecei. Eu tenho a [gravação da] ladainha tocada com eles, com essa formação. A gente estudava música lá em casa e outro dia descobrimos que papai tinha um violão dentro do guarda roupa. Alguém comprou no comércio, não tinha dinheiro para pagar e deu esse violão. E ele tocava um pouco de violão também. Aí ensinou um acorde para outro irmão meu, eu aprendi, ele que já me ensinou. Aí eu comecei a tocar. Passei a tocar no Ginásio Bandeirante, na época, festas de dia das mães, dia das crianças. Lá também funcionou o Clube Alvorada de Leôncio Rodrigues, e ele fazia show de calouros. E eu passei a tocar nesses shows, com 12, 13 anos.

Foi essa a idade com que você começou a tocar em ladainhas? Com 12, 13 anos eu comecei a estudar música com papai. Depois, com uns 13 anos, a gente descobriu que ele tinha um violão, ele sabia um pouco de violão, começou a ensinar pra gente, e a gente começou. Aí passamos a tocar, só de ouvido. Engraçado que o primeiro solo de violão que eu fiz, eu aprendi com minha vó, que tocava violão. Meu avô também tocava, a parte materna toda tocava.

Você vindo dessa linhagem musical, teu filho seguiu na música? Meu filho mora com a mãe dele, não mora aqui. A gente inclusive tem pouco contato.

Você vindo dessa tradição de família musical, seu pai tocava sax. Como é que você optou pelo violão? É por que todo mundo lá em casa tocava um pouquinho. Foi a época em que eu vim para cá para São Luís. Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] morava na casa da minha tia, na Rua do Ribeirão [Centro], era muito amigo de Viriato Gaspar [poeta maranhense radicado em Brasília], que é meu primo. Em 1981 eu vim estudar na Escola de Música. Aí eu participei em 1985 do Festival Viva [de Música Popular do Maranhão], Fátima Passarinho, que tem esse nome por causa da música [Canto de Passarinho]. Na época Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva] botou como se fosse minha e do irmão dele, ele participou com várias músicas e só podia parece que duas [pelo regulamento]. É minha e de Gerô, poucas pessoas sabem disso. Inclusive a gente participou de festival na UFMA, há poucos dias eu estava folheando uma revista e olhei uma música, minha e de Gerô, que eu nem sei como é, a melodia eu não lembro.

Essa música que Fátima [Passarinho] defendeu no [Festival] Viva, você tocou? Toquei no Festival. Na gravação é [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu que toca.

Quem foram teus principais mestres? De música foi papai. Partitura musical. Mas professor de violão mesmo foi Marcelo. Só tinha ele na Escola de Música quando eu cheguei.

Quando você deu o salto do seis cordas para o sete cordas? Foi uma necessidade. O Instrumental Pixinguinha, na primeira formação, era Carbrasa [percussionista], Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Marcelo, eu, Paulinho [flautista] e [o bandolinista César] Jansen. Era a primeira formação, ensaiamos seis meses para tocarmos dois shows [a Suíte Retratos, de Radamés Gnattali, maestro e compositor gaúcho]. Depois teve a gravação do disco de Rosa Reis, Estrela, música de Joãozinho [Ribeiro, compositor]. Aí começou uma história que Marcelo disse que o bandolim de Jansen estava desafinado, a flauta de Paulinho estava desafinada, tinha que refazer. Aí Jansen entregou a partitura dele para Marcelo. Inclusive Marcelo fez no violão a parte do bandolim nessa gravação de Estrela. Ah, esqueci do nome de Biné [do Cavaco], tocava cavaquinho. Aí acabou o grupo. Paulinho não foi refazer, Rosemary [Fontoura, pianista] fez no teclado, Jansen não foi refazer, Marcelo fez no violão.

Quem é o grande violonista que mais te inspira? Eu, na verdade, passava o ano todo esperando Turíbio e João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] virem tocar aqui. Eram só eles quem tocavam aqui. Eu não conhecia outra pessoa. Tudo o que eu aprendi de violão foi com Marcelo. Marcelo é um cara… mas eu fiz curso com João Pedro, com Joaquim, com Turíbio, e viajei. Eu fiz cursos em Londrina, em Brasília, com Eustáquio Grilo, aqueles cursos de verão, e Henrique Pinto. E as outras coisas é assistindo mesmo por aqui, o que aparece.

Teu pai, além de músico, instrumentista, mestre de banda, também era compositor. Papai tem cento e poucas músicas. Eu vou editar, até falei com Zezé. É um acervo significativo, muita música. Uma vez eu fui para Pindaré, fui tocar com Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. Papai tocava suas próprias músicas em festas. Ele tocava forró, tocava samba. O pai de Osmar [José Furtado, saxofonista] passou uma meia hora tocando uma música. Aí ele perguntou: “e o senhor não termina essa música?” Aí ele disse: “não, rapaz, acabou a música e eu fui inventando”. Outro dia Maurício Carrilho [violonista] veio aqui e disse que Pixinguinha fazia isso. As músicas tinham a primeira, a segunda e a terceira parte, e geralmente ele improvisava outra música. Papai faliu o comércio dele por que ele levava músicos para lá e ficavam tocando, eles tocavam dentro do comércio, faliu o comércio dele. As primeiras pessoas com quem eu toquei, aqui em São Luís, na noite, foi com Hamilton Rayol [cantor] e Antônio Vieira [compositor e percussionista]. Eu estudava com Hamilton na Escola de Música, a gente estudava na mesma turma. Um dia ele me viu tocando violão, Fernando Cafeteira [violonista] viajava e toda vez que ele viajava ele me levava. Era ali no Petisco, que era de Biné [Aranha], ali na Fonte do Ribeirão, tocando acústico.

Que linha predominava na composição de teu pai? Choro. E tinha música que tinha letra, letra dele.

E você compondo? Eu tenho 20 e poucas músicas. Eu faço choro e valsa, não sei fazer outra coisa.

A música de teu pai foi gravada pelo [Instrumental] Pixinguinha. Foi. Não se esqueça de mim. Essa música eu tenho uma gravação antiga, a gente tocando lá em Cururupu, ele mesmo tocando. Papai deixou de tocar por que mamãe morreu. Ele tava com 92 anos, não quis mais viver. Abandonou instrumento, perdeu a vontade de viver.

Dá para viver de música? Eu vivo de música. Eu não preciso de muito dinheiro para viver bem. O dinheiro que eu ganho dá pra viver legal. Eu dou aula aqui [na EMEM], eu dou aula particular, eu toco, não toco mais por que não quero. Carnaval, por exemplo, eu não quero mais tocar.

De que grupos musicais você já participou? O primeiro grupo foi quando eu fazia o bacharelado em Geografia, lá no grupo eu tocava cavaquinho, no Geosamba [risos dos chororrepórteres]. Eu abandonei total o cavaco, hoje em dia eu só pego. Eu participei do Amigos do Samba, do Cacuriá de Dona Teté e do Pixinguinha. Tinha dia que eu tocava nos três grupos no mesmo dia. O em que eu passei mais tempo foi o Pixinguinha.

O que significa esse grupo para você? Significa tudo. Na verdade eu sou o único componente da primeira formação, que fiquei. Tem uma pergunta que eu não respondi, né? O negócio do violão…

Sim, o pulo do violão de seis para o sete cordas. Quando a gente terminou os dois shows, acabou a história da primeira formação. Aí nós tentamos fazer, éramos eu, Zezé, Paulinho e Paulo Akomabu, tocou pandeiro na segunda formação. Sempre foi complicado pandeiro e cavaquinho. Era Athos [Lima] no cavaquinho, mas ele dormia até 12 horas e não tocava de manhã. Depois ele virou roqueiro. Quando a gente ia tocar de manhã, a gente ia sem cavaquinho. Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] também tem essa história. Uma vez eu pedi uma corda do violão sete cordas, Ubiratan mandou um recado por Paulinho. Aí eu liguei para ele, ele dormindo, a mãe dizia que ele não estava. Aí ele me disse: “rapaz, quando tu vier do pagode tu me liga”, era de madrugada, nessa época eu tocava num pagode.

O Pixinguinha já tem mais de 20 anos e demorou bastante a gravar o disco de estreia. Não há vontade do grupo de gravar um segundo disco? Já teve essa ideia, essa história. Nesse livro de Zezé [Choros Maranhenses – Caderno de Partituras, organizado pelo músico] era para ser feito, só que alguns componentes, Juca [do Cavaco], por exemplo, é um cara que não gosta de gravar. Eu não sei por que, ele é um cara que saca muita coisa de choro, é um cara que lê muito.

Além do disco do Pixinguinha e do de Rosa Reis, há outros discos que têm teu sete cordas? Toquei no de Zeca Tocantins [Terreiro de Todo Canto].

O que significa o choro para você? A melhor música brasileira. Eu quando chego em casa, eu não digo que é choro, é a música instrumental. A música instrumental é muito bacana.

Que nomes você admira nesse meio? Eu tenho admiração pelo Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], ontem encontrei-o, fazia tempo que não o via, é um baita dum flautista. Os violões vocês sabem, a primeira vez que eu vi Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] tocar eu fiquei admirado, os baixos que ele faz, não aprendeu com ninguém, aprendeu com Dino [o violonista sete cordas Horondino José da Silva, do Conjunto Época de Ouro]. Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] toca muito bem, Solano. A nossa música instrumental melhorou demais.

Isso deve-se a quê, esse avanço de grau, de qualificação? Ao estudo. Antigamente a gente não via o choro tocado bem aqui. O pessoal só olhava a televisão. Maurício Carrilho está vindo por aqui, sempre, na Escola. A gente conhecer as outras pessoas, a gente aprende olhando os outros tocarem.

Você acha que a internet também contribui para isso? Eu acho que tudo contribui, Youtube, aquela coisa toda.

Você é refratário à tecnologia? Você baixa música? Eu não sou muito da tecnologia, mas eu acho que é importante. Baixo. Até pouco tempo eu não sabia. Eu tenho um sobrinho que é craque, me ensinou.

Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A história do Radamés, aquele divisor, dali pra cá todo mundo passou a estudar. Antigamente era um solista e os outros acompanhando, também é bonito. Eu escuto umas coisas modernas, acho legal, mas o choro, eu quando escuto Vibrações [o disco de Jacob do Bandolim], com aquele [conjunto] Época de Ouro, eu fico arrepiado.

Há quem diga que é o melhor disco de choro da história. É uma das gravações que eu mais gosto, aquela gravação deles. O lado moderno eu acho bonito também, não pode ser todo tempo do mesmo jeito. Sem a tradição o moderno não existiria.

Você se considera, a si e ao Pixinguinha, moderno, tradicional ou as duas coisas? Eu me considero tradicional. Eu quando vou escrever uma música é muito romântico. Hermeto [Pascoal, compositor e multi-instrumentista] durante um ano escreveu uma música por dia. Eu passei um tempo com um caderno de partituras, tinha uma ideia, anotava. Tenho uma porrada de músicas que, se eu quisesse fazer hoje a segunda parte, eu podia fazer.

O que te inspira para compor? Às vezes eu penso numa música, eu acordo, naturalmente. Eu penso num tema e vou desenvolvendo ele. Qualquer coisa.

Como você observa o choro no Maranhão hoje? Se o Clube do Choro não tivesse parado estaria melhor. O projeto Clube do Choro [Recebe] deu um pontapé inicial na história. Se não tivesse, não tinha hoje um monte de garoto tocando choro.

Dessa gurizada quem te chama a atenção? Tem um monte de gente tocando bem. Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013].

Onde o Pixinguinha está tocando hoje? Só aqui na Escola. Temos viajado por projetos da Escola para o interior.

O que você ainda sonha em fazer com a música? Um cd com minhas músicas.

[O músico posa para fotos tocando, com arranjo de choro, Essas emoções, do recém-falecido Donato Alves, do Boi de Axixá] Você acha que o nosso repertório de música popular pode ser chorificado? Pode. Eu mesmo estou procurando isso. Nem tudo poderia virar choro, mas o lado instrumental sim, os arranjos para violão.

Você acha que ajuda o músico de choro tocar música popular e vice-versa? Acho que sim. O instrumentista tem que tocar a música popular. Tem muita música bonita, muita toada de bumba meu boi.

Chorografia do Maranhão: João Neto

[O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]

Tendo integrado praticamente todos os grupos de choro de São Luís, o flautista João Neto é o 25º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um chuvisco anunciava a noite em São Luís do Maranhão. A tradicional e pacata quitanda de Seu João, na Rua do Ribeirão, já abrigara, aquele dia, um ensaio fotográfico da cantora Alexandra Nicolas – o casarão lhe serviu de cenário ao encarte de Festejos, disco de estreia lançado ano passado. Ao fim dos trabalhos, ela degustava uma cerveja gelada por ali, na companhia da amiga e designer Raquel Noronha.

Era mais uma feliz coincidência das tantas que a Chorografia do Maranhão já proporcionou aos chororrepórteres que logo se juntariam a elas, mais próximos do balcão. O entrevistado da ocasião era o flautista João Neto, de passagem pela Ilha para curtir as férias de virada de ano – atualmente o músico mora em Belo Horizonte/MG, onde cursa mestrado em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Alexandra Nicolas preparava a primeira edição da temporada de Festejos na Praça, show que apresentou 18 de janeiro no coreto da Praça Gonçalves Dias. João Neto deu uma canja na abertura, compondo o grupo Cantinho do Choro, que tem ocupado aquele logradouro em fins de tardes de sábado.

Raimundo João Matos Costa Neto nasceu em São Luís em 3 de julho de 1978, ano em que seu tio Josias Sobrinho [compositor] teve gravadas suas quatro primeiras músicas por Papete, no antológico Bandeira de Aço, lançado pela Discos Marcus Pereira. Ainda criança João Neto engatinhava entre instrumentos musicais na casa da avó Ingrácia, onde aconteciam os ensaios do grupo Rabo de Vaca, formado por Josias e outros bambas.

Ao tio Josias ele afirma dever as maiores influências, desde antes de ter se decidido pela flauta – passou por violão e toca também flautim, pífano, clarinete, cavaquinho e percussão. É filho do dentista Francisco Carlos Guterres Costa e da dona de casa Francisca Tereza Morais Silva.

Ano passado graduou-se no curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) com a monografia Um panorama histórico-cultural sobre vida e obra de compositores de Choro da Baixada maranhense: breve análise musical de obras já editadas.

A entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão foi musicalmente ilustrada por Língua de preto (Honorino Lopes), André de sapato novo (André Victor Correia) e Rosa (Pixinguinha/ Otávio de Souza), que começou com a voz de Alexandra Nicolas e terminou com um coral formado por todos os presentes à quitanda, que aquela noite teve o expediente aumentado.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa, na tua infância? Minha infância, de zero aos seis, sete anos, ela foi meio assim, dinâmica, em relação à casa em que eu estava. Eu ficava um tempo na casa da avó, um tempo na casa da outra avó. Uma dessas avós é dona Ingrácia, mãe de Josias. E lá rolavam os ensaios do Rabo de Vaca. Então eu já estava ali com dois anos, fui conhecido por Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], por Beto Pereira [cantor e compositor], desde criança eu estava ali naquela história. A família, muito musical, além de Josias, meu tio Armando tocava clarinete, meu tio Paulo toca violão, nada profissionalmente. Só quem seguiu profissionalmente foi Josias, compositor. Mas sempre em casa teve música, desde a infância até hoje, as festas são regadas a muita música. Sempre teve esse contato, em casa, minha mãe escutando Elis Regina, Chico Buarque.

Quando foi que você percebeu que iria encarar a música profissionalmente? Foi em Campina Grande. Fui morar em Campina Grande e lá tem um cara que hoje está nascendo aqui, o Madian [cantor e compositor], estudava lá. Eu fui pra lá, sabia que ele morava lá, morei numa república, pra fazer vestibular pra João Pessoa, um vestibular mais ou menos, na malandragem, já tocando violão. Eu fui pra Campina Grande pra tentar o vestibular para Odontologia em João Pessoa, meu pai é dentista e eu queria ser igual papai. Ele não queria. Eu cheguei e comecei a tocar violão pra caramba, Djavan, Chico Buarque, e foi uma escola muito legal. Foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro tocando, foi com Madian e uma ex-mulher dele, uma grande cantora, de uma família de músicos lá da Paraíba. Eu tocava um tempo e Madian tocava outro tempo. Eu falei: “pô, dá pra ganhar dinheiro!”, tomando uísque, puta churrascaria lá, buffetzão. “Eu quero é isso pra mim!” Fiz vestibular, não passei, voltei pra cá, depois de seis meses em Campina Grande, vi o surgimento do [grupo] Cabruêra, um movimento musical muito forte.

Aí você voltou para São Luís. Veio fazer o quê? Eu tinha que estudar alguma coisa, acabei entrando no Ceuma, fiz dois anos de Direito. E paralelo, depois de um ano de Direito, passei em Filosofia na UFMA, e ao mesmo tempo tocando violão.

Você concluiu Filosofia? Que nada! Nenhum dos dois. Abandonei e fui para São Paulo, essa época já tocando flauta.

Significa dizer que tua profissão mesmo é a música? Não tem outra profissão? Não. Ter, tem outras coisas, meu pai tem uma clínica, eu trabalhei na parte administrativa coisa de cinco, seis meses, só. É difícil falar em profissão músico, pra mim, principalmente. Eu nunca toquei pra ganhar dinheiro. O dinheiro vem em consequência de minha arte. Eu vejo minha carreira como uma coisa da minha vida. Se eu for displicente com minha carreira eu estou sendo displicente com minha vida.

Mas cada vez mais você é cobrado para tocar profissionalmente. Isso! É uma consequência.

Não dá para dizer que você não é músico profissional. Não dá. Eu vivo da música.

Quando você fez essas outras tentativas. Odontologia, chegou a fazer vestibular, depois Direito, depois Filosofia. Elas eram, de algum modo, uma imposição da família? Eram. Eu tinha que corresponder a alguma coisa, eu não podia ficar ali. A gente deve uma satisfação. Músico é [visto como] vagabundo, né, cara? Principalmente flauta, flauta é luxo, entre aspas. O grupo tem violão, o grupo tem baixo, tem bateria, cavaquinho, mas a flauta vem muito depois. E depois que eu conheci flauta, eu larguei violão assim de uma forma. Virou meu amigo, parceiro, vez ou outra eu falo com ele.

Quando e como é que se deu a passagem do violão para a flauta? Há 12 anos, quando eu peguei a flauta transversal.

O que te motivou? Quem foi a pessoa que fez com que você se decidisse a tocar flauta? Foi um cara chamado Fabiano, que já tá lá com papai do céu já. Morreu muito novo, um cara que eu conheci em Campina Grande, era de Maceió. Era um cara surpreendente, tocava violão, baixo, teclado, bateria, trabalhava com tudo isso, e flauta também. Certa vez a gente na casa dele, eu e Madian, tocando lá, Djavan, um monte de música, ele pegou a flauta, começou a destruir, tocando um monte de coisas, tinha várias flautas doces na casa dele. Eu fiquei encantado e falei: “pô, Fabiano, como é que a gente faz aqui?” Ele falou: “não tem segredo, é só ouvido”. Eu fiquei mais encucado ainda, meio com raiva dele. Eu pensei: “esse cara toca pra caramba, não quer ensinar, dar um toque pros amigos”. Quando eu peguei a primeira flauta doce, que eu fui entender o que ele quis dizer lá atrás. Esse cara, esse encontro, esse dia foi que [interrompe-se]. Depois disso eu cheguei, fui pesquisar os flautistas, fui ajudado por muita gente.

Quem são os mestres que você considera essenciais? Na música, em primeiro lugar, para mim é Josias. Quando viu que eu estava tocando já chegou, me abraçou, eu tava tocando violão, me botou no palco, num show dele, eu já toquei violão com Josias, quando viu a flauta a mesma coisa. Musicalmente foi um cara que eu devo até hoje, até hoje é um parâmetro que eu tenho. Em relação à flauta o primeiro foi Zezé.

A família sempre te apoiou na decisão de buscar a música como caminho? A família da minha mãe sim. É muito musical, minha avó, que é um lance matriarcal forte pra caramba na família, meu avô morreu muito novo, com cinquenta e poucos anos, ela que segurou a onda toda. Lê muito, 86 anos, não assiste novela, passa o dia lendo, fazendo crochê. Escreve, no aniversário de 80 anos ela deu um presente à família, fez um livro de poemas. Toda uma espiritualidade muito forte. Tenho tios que me apoiam financeiramente, compram instrumentos, dão força, “taí, pega essa grana”, não é só “ah, é lindo!”, apoiam, investem. Tem incentivo da família.

Você falou de uma fase violão que rolava muito Djavan, Chico Buarque. Como é que foi a aproximação com os grupos de rock, principalmente a Mandorová? A Mandorová nem é um rock, a gente tocava rock. Tinha umas músicas que eram rock, mas a gente misturava, bumba boi, Josias, muita música nossa. A gente misturava isso por causa das influências de todo mundo. Veio uma galera de Campinas, Madian fez parte um tempo. Ela começou meio que um monte de gente, a gente conseguiu gravar umas coisas, eu já não tocava violão, já tocava flauta, pífano e percussão. Violão eu não tinha como meu instrumento, eu tinha como meu amigo. Eu gostava de cantar, mas essa voz, só nariz [risos]. Tudo que eu tocava eu cantava. Teve uma época que eu tinha o songbook de Chico Buarque, eu tocava mais de 60 músicas do Chico Buarque, aquelas melodias empenadas, ficava em casa, estudava. Mas a flauta veio e chegou e “peraí”, ela que me capturou, eu não escolhi.

Como é que foi a tua chegada ao universo do choro? Logo depois da flauta transversal, que eu comecei a tocar, Zezé pirou. Eu morei ali na época do Rabo de Vaca, ele “pô, sobrinho de Josias, tocando flauta!”. Não, vem aqui, vem aqui, me botou na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], eu nem tinha feito prova, fiz Escola de Música, todas as percepções, ele me dava aula, “traz a flauta aqui”, me dava aula. Teve um tempo que se passava um ano e meio pra pegar em instrumento, só tendo aula de teoria, era algo meio maçante, o cara doido pra pegar no instrumento, hoje mudou isso. Então, Zezé foi um cara fundamental, até hoje é.

A música pra você é uma importante fonte de renda? Dá pra viver de música? O viver de música, viver de tocar. Eu não penso mais num futuro artístico pra mim. Eu penso num futuro acadêmico, que é uma coisa que vai me segurar, eu vou poder escolher o que quero tocar.

O professor pagando as contas do músico. Mais ou menos isso, mas pra mim é muito difícil separar o professor do músico. Tem gente que é um puta músico e não sabe ser professor, tem gente que é um puta professor e não toca porra nenhuma. Essas duas coisas são muito ligadas, eu amo ensinar, um projeto do Sesc que eu fazia parte, eu me coço todinho lá em casa, sem poder ensinar pra garotada, eu olho as fotos, aquilo era muito importante, 10 alunos tocando flauta. Minha vontade de estar lá é tão grande quanto minha vontade de voltar para cá e ir dar aulas na UFMA, na UEMA, crescer. Essa coisa da educação musical é uma coisa fundamental pra gente, pra definir um gosto musical. É tão grande essa nossa riqueza cultural, ao mesmo tempo a gente se submete a outras culturas impostas. Chega pra juventude, ninguém sabe quem é Coxinho, Mestre Felipe, Dona Teté [mestres da cultura popular, representantes, respectivamente, do bumba meu boi, tambor de crioula e cacuriá]. Isso é uma coisa que eu tenho como objetivo, além da vida artística, que é um sonho, uma coisa utópica, viver, ter filho, só tocando como flautista. O professor é um pé no chão, uma coisa palpável pra caramba, é uma coisa que eu estou construindo e com o choro, choro no Maranhão, na Baixada maranhense.

Houve um tempo aqui em que você tocava em 11 dos 10 grupos de choro que existiam. Teve um período em que o choro estava na crista da onda. Como é que você avalia o mercado de trabalho para o músico instrumentista em São Luís e em Belo Horizonte, se é que é possível algum tipo de comparação? Teve uma época que, por conta de uma efervescência do ritmo, ou uma influência do que estava acontecendo no Rio de Janeiro, do choro na Lapa, essa coisa de eu estar em vários grupos aconteceu exatamente concomitantemente com o projeto Clube do Choro Recebe, que propiciou a formação de outros grupos, além dos bares, cerca de cinco anos atrás, tinha o Por Acaso que tinha choro toda terça, o Antigamente toda segunda, o Feijão de Corda, na Ponta d’Areia, sexta-feira tinha no Tropical Shopping Center, o Clube do Choro Recebe todo sábado, vários lugares tinham choro. O fato de eu tocar com um monte de gente, quando eu estava chegando do Rio de Janeiro, Zezé fez um viaduto de safena, três pontes, ele falou, “ó, te vira aí”. Eu já fiquei no lugar dele no [Instrumental] Pixinguinha, na Escola de Música dando aulas no lugar dele, na Escola Municipal, e com o Xaxados e Perdidos.

Você está onde quer, fazendo mestrado hoje em Minas. Dá pra falar em saudade dessa cena de São Luís? Lógico! Faz com que surja os grupos, o movimento. Hoje, onde é que a gente tem choro? Só no Brisamar [hotel]. Fixo, só no Brisamar, pra reunir o pessoal que toca choro. Se não tem movimento, não tem avanço, não tem jeito. A efervescência desse movimento em São Luís fez surgir o Choro Pungado, Os Cinco Companheiros, os Madrilenus, que foi formado para acompanhar seu Eudes [Américo, compositor]. Em relação a Belo Horizonte, lá tem choro todo dia. Todo dia tem lugar onde tem choro, de segunda a segunda. O dia em que eu cheguei foi uma segunda-feira que eu fui pro Salomão [bar]. Nesse mesmo dia ele falou: “ó, toda segunda-feira vem pra cá!”, a galera na roda. Lá são dois dias, segunda e quinta. Toda segunda eu tenho ido. Pedra Azul [o cantor e compositor mineiro Paulinho Pedra Azul] tá toda segunda lá com a gente, já levou Fabiana Cozza [cantora], Silvério [Pontes, trompetista]… é um bar que a galera vai mesmo.

Além do Mandorová e do Choro Pungado de que outros grupos musicais você já participou, de choro ou não? Mandorová, Xaxados e Perdidos. Artistas que já toquei: Josias, toco até hoje, Rosa Reis, Cacuriá de Dona Teté, Omar Cutrim, Carlinhos Veloz, Alexandra Nicolas… De choro, o grupo Um a Zero, toco no [Instrumental] Pixinguinha, estou de férias nessa temporada, Tira-Teima, uma temporada, de reserva, de substituto, Choro Pungado, Urubu Malandro, Quartetaço, Os Cinco Companheiros eu fiz uma participação, o Não Chora que eu Choro, que era meu, Azeite Brasil.

E discos que têm tua flauta? Tem alguns. Que eu lembre assim, tem a Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, 2010], Rosa Reis [Brincos, 2009], agora o que saiu do Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013; Cinco Gerações, 2013], Gildomar Marinho [Olho de Boi, 2009]. Tem algumas produções de bumba meu boi daqui, muita coisa, “pô, vem gravar uma faixa”, às vezes sai, os caras nem me dão o disco. Grupo de samba tem o Vamu di Samba, que eu gravei os dois dvds dele, tem algumas produções que eu já fiz parte. O cd do Cláudio Leite, não sei se já saiu.

Há um grupo no cenário chorístico que deu o que falar, tanto do ponto de vista estético quanto das relações internas. O que significou para você o Choro Pungado? Não significou: significa. O Choro Pungado é mais ou menos assim um ideal. Eu acho que tanto pra mim quanto pra maioria dos que participavam, eu levo a sério mesmo. A gente conseguiu, assim de uma forma legal, descontraída, conseguimos compor, brincar com a música maranhense e choro, fundidos, de uma forma legal, livre, pelos integrantes terem uma desenvoltura musical muito avançada, eu acho, as coisas ficam mais fáceis, fluem mais rápido. Tanto que em pouco tempo de grupo a gente já tinha conseguido, pela crítica, vocês, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] falou da gente, conseguimos vários elogios. Mas como você falou das relações, dentro do grupo, acontece, foi uma coisa muito rápida, o grupo teve uma vida curta, fatores extramusicais, agenda, por exemplo, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], trabalha muito em estúdio, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] toca com todo mundo, eu também toco com muita gente, então foi assim desgastando a história dos compromissos. Mas eu acredito que musicalmente falando foi um passo à frente nesse cenário musical do choro no Maranhão. Foi uma experiência muito válida em relação à inovação, à fusão, à hibridação, tentar misturar essas coisas que estão muito dentro da gente. Pra mim é uma pena ter acabado, ter terminado cedo assim. A gente podia construir mais coisa, avançar muito mais. Teve meio que uma pressa em fazer sucesso, faltou uma perseverança, faltou mais trabalho, mais sentar e conversar, não querer logo fazer um dvd, por exemplo. Foi uma coisa legal, mas não foi legal, em relação a produto. O amadurecimento já estava vindo justamente nas nossas composições, sentados, ensaiando, e compondo.

Hoje em dia você participa de algum grupo? Lá em Minas você está só nas rodas? Não. É muito prematura minha chegada em Minas. É muito difícil você chegar e já conquistar um espaço. Eu cheguei há quatro meses e vou ficar só mais quatro. Tem muitos flautistas bons, os caras tocam pra caramba. Você chegar e já pegar um espaço, se inserir no mercado, é muito difícil, tem que ser extraordinário.

Como é que você tem conciliado a atividade acadêmica com a atividade musical? Tá sendo muito difícil. É uma transição bem peculiar. A parte acadêmica exige muito tempo, parar para ler, lá na UFMG não brincam, os professores são alto nível, minha orientadora é formada em Sorbonne, tem doutorado em Sorbonne. Eu suei a camisa pra conseguir conciliar.

Qual a discussão da tua dissertação? Eu vou tentar fazer uma mescla da musicologia histórica com a etnomusicologia. Isso da etnomusicologia eu fiz agora, numa cadeira que eu fiz, fiz etnografias da III Semana Seu Geraldo [de Música], em São Paulo, do Bandão [da Escola Portátil de Música], lá no Rio, eu fiquei meio que apaixonado por etnomusicologia.

Fala um pouco de tuas pesquisas, tanto na graduação como no mestrado. O que você fez e o que vai fazer? Na graduação, no trabalho de conclusão, eu tentei mostrar que na Baixada maranhense tem compositores de choro. Peguei alguns compositores de choro, o Josias, o Osmar, um cara que eu descobri, que ninguém conhece, que eu descobri lá em Guimarães, seu Moisés Ferreira, um cara que era teatrólogo. Esse cara é que foi assim a válvula, o estopim, de dizer, “pô, tem!”. Eu estava meio em dúvida sobre o que fazer. Eu pensei também nessa fusão do choro com a música maranhense, nos arranjos de Ubiratan no disco do Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013; Visitação, 2011], que ficaram muito interessantes, eu pensei em falar deles. Eu percebi que a dimensão do choro, dos compositores de choro na Baixada maranhense é muito maior que um trabalho focado. É um trabalho que eu posso levar, posso pesquisar a minha vida toda. No meu TCC eu peguei o escopo de que existe, uma comprovação, fiz entrevistas com Osmar, Josias, seu Raimundo Abreu, lá de Cajari, um grande professor de música de lá. Tive como suporte teórico, suporte de pesquisa, a obra de João Mohana [padre, médico e escritor], aquele livro A grande música do Maranhão. Ele começou em Viana. É o único registro que a gente tem escrito disso. Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] colaborou. Osmar, o avô dele, seu Macico [Marcelino Fernandes Furtado, flautista] foi um puta mestre de banda, fez arranjos de choro, foi um cara que recebia as partituras e fazia arranjos. Essa parte do mestrado eu quero justamente fazer isso, além da continuação do que eu fiz no TCC eu quero pegar material, do acervo João Mohana também.

Além de multi-instrumentista você desenvolve outras habilidades no campo da música? Arranjos, composição? Eu tenho composições. Na Mandorová a gente tocava umas duas, no Choro Pungado a gente gravou uma, um baião chamado Vim de lá, pá-pá-ri-ra-ri-pá-rá-rá [cantarola o ritmo], que eu fiz no pífano, depois a gente adequou para a flauta.

A Mandorová foi uma experiência boa? Foi fundamental. Com ela eu fui para São Paulo, passamos dois anos tocando, abrimos shows, saímos em jornal, passamos em matéria nacional do Jornal Hoje [da Rede Globo de Televisão], fizemos coisa de 10 interiores em São Paulo. Tocamos muito aqui no Canto do Tonico [extinto bar, na Rua Portugal, Praia Grande].

Pra você, o que é o choro? Se a gente vir pela história do choro, ele já começa importante. Começa como uma maneira de tocar, uma coisa que foi trazida, aquele amálgama da brasilidade no século XIX, meio que fez surgir aquela história toda de uma forma brasileira de tocar, depois virou dança, depois virou maxixe, depois virou tudo isso. Eu encaro isso como uma identidade brasileira, musical, mas além, social: uma identidade social, o choro. Se você leu O Choro [O Choro – Reminiscências dos Chorões Antigos], do Alexandre Gonçalves [Pinto], que fez o primeiro registro, em 1936, ele falou dos caras que tocavam, que faziam parte daquela história, que estavam na roda. Pra mim o choro é essa identidade brasileira, que por mais que mude a moda, que venha dessa transição de uma coisa pra outra, do violão pra isso, da jovem guarda pr’aquilo, o choro está sempre ali de alicerce. Desde a sua gênese, de sua aparição, seu apogeu, 1920, 1930, desde ali, ele pode ter caído mercadologicamente, financeiramente, tudo, esse campo artístico em volta do choro, mas ele nunca deixou de ser produzido. Se a gente falar na década de 1980, o rock’n roll, os melhores discos de Raphael Rabello [violonista sete cordas] foram lançados na década de 80, Baden Powell [violonista], Camerata Carioca.

Há quem ache que o choro é uma coisa estática, estagnada. Você acha que o choro é uma música fechada ou uma música aberta? A música em si é aberta. O que fecha é a cabeça das pessoas. Eu posso chegar numa roda de choro falando de choro, tocando do jeito que eu gosto, a galera pode não gostar. Yamandu Costa [violonista sete cordas], Hamilton de Holanda [bandolinista], Pixinguinha [Alfredo da Rocha Viana Filho, compositor e multi-instrumentista], na época dele, “esse cara é doido!”.

Você se considera um chorão? Não. Eu amo o choro, amo tocar choro, mas eu não me enquadro numa especificidade, num estereótipo. Mesmo dentro do choro, da linguagem choro, do gênero, você vê o ritmo baião, maxixe, tango, flamenco, é um universo. Como é que se vai dizer que é só uma coisa? É o mesmo que dizer “eu sou roqueiro”, eu acho que limita. Eu sou músico!

Chorografia do Maranhão: Joaquim Santos

[O Imparcial, 8 de dezembro de 2013]

Violonista, ex-integrante da Camerata Carioca, autor das trilhas sonoras de mais de 20 filmes e professor da Escola de Música, Joaquim Santos é o 21º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Filho do comerciante português Camilo Gomes dos Santos e da dona de casa Raimunda Moraes dos Santos, nascida em Bequimão, Joaquim Antonio dos Santos Neto nasceu em São Luís em 20 de dezembro de 1951. Além dele e seus pais, a casa da infância que lhe habita a memória era dividida com quatro irmãos – entre os quais o cineasta Murilo Santos –, a avó portuguesa, primos e tias.

Desde criança Joaquim Santos demonstrou talento e vocação para as artes. Aos sete anos já se dedicava às artes plásticas – desenho, pintura e escultura –, tendo vencido alguns concursos. Com o dinheiro destes, aos 14 anos, comprou o primeiro violão, que escondia no guarda-roupa, por puro receio da opinião do pai, bastante rígido. O músico, no entanto, reconhece o apoio da família na continuidade dos estudos da música e posterior carreira que seguiu. De seus três filhos, Juliano Santos reside no Rio de Janeiro e também se dedica ao violão.

Professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, em cuja sala Santinha Vasconcelos recebeu a chororreportagem, Joaquim Santos é um dos nomes mais importantes do violão brasileiro. Integrou a Camerata Carioca, grupo fundamental para a revalorização e revitalização do choro no Brasil, entre o fim da década de 1970 e início da de 80. Com o grupo gravou o disco Tocar, além de ter acompanhado nomes como Elizeth Cardoso e Nara Leão.

Outra área em que se destaca é a composição de trilhas para cinema: já assinou mais de 20, tendo recebido diversos prêmios Brasil afora. São dele, entre outras, as trilhas sonoras de O testamento, de Euclides Moreira Neto, O incompreendido, de Francisco Colombo, Ódio, de Breno Ferreira, Infernos e O exercício do caos, de Frederico Machado, Bandeiras verdes, O crime da Ullen, O massacre de Alto Alegre e Quem matou Elias Zi?, do irmão Murilo Santos. No último citado, também assina os desenhos [nota do blogue: recentemente assinou a trilha de O camelo, o leão e a criança, de Paulo Blitos].

Misto de trabalho e diversão é a pesquisa que desenvolve sobre a música produzida no Maranhão no século XIX. Joaquim Santos tem editado partituras do período, às vezes baseando-se em manuscritos. Em seu vasto acervo há verdadeiras joias de nomes como Pedro Gromwell, Antonio Rayol [nota do blogue: no vídeo acima, Retoques, última faixa de Shopping Brazil, de Cesar Teixeira, uma das músicas cantadas por Dona Teté é a Ladainha de Nossa Senhora, de Antonio Rayol] e Inácio Cunha. “Há muito choro, muito schottisch, valsas, mazurcas, que ninguém conhece. Os músicos precisam ir aos arquivos, tem muita coisa bonita”, afirma. Privilegiados, os chororrepórteres encerraram a entrevista ouvindo alguns temas em seu laptop.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Dá pra dizer que a música trouxe teu avô ao Brasil? Eu não sei o que motivou essa viagem dele. Ele, chegando aqui, trabalhava como violinista e carpinteiro. Ele tocava violino no cinema mudo. Na Faculdade de Farmácia, eu vim descobrir depois, por documentos, ele foi o chefe da carpintaria.

Como era o ambiente musical em tua casa, na infância? Muito bom. Meu pai ouvia muito música clássica, música popular. Tinha disco de choro, disco de Pixinguinha, aqueles cantores e cantoras da época, todos, a chamada era do rádio. Tinha esse lado da música popular, meu pai curtia muito, mas predominantemente música clássica. Discos de fado, violino, e discos norte americanos, orquestra. Sábado, todo domingo, era música o dia inteiro. A questão da música na minha vida surgiu mais ou menos quando eu tinha uns 14 anos. Eu, desde criança, aos sete anos, desenhava muito, com o incentivo de minha avó portuguesa, que morava com a gente. Com sete anos eu ganhei um concurso de desenho do Sesi. Minha primeira exposição de pinturas e de escultura, eu tinha 10 anos. Eu fiz uma coletiva nessa época, o governador Newton Belo ofereceu um jantar, medalha, eu tenho até hoje. Nesse período todo até uns 14 anos, minha dedicação exclusive era com as artes plásticas, pintura, escultura, eu fazia muita exposição. Eu estudei com Telésforo Moraes Rego, com Nilton Pavão. Depois eu retomei quando fui morar em Minas, trabalhei na Casa de Gravura, trabalhei para [Carlos] Scliar, pra [José Alberto] Nemer, [Carlos] Bracher, eram artistas [plásticos]. Quando eu comecei minha experiência com violão, eu comprei um violão com o dinheiro dos quadros, ficava tentando tocar, e naquela época eu conheci Ubiratan [Sousa, músico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], não pessoalmente, ele tocava o Prelúdio de Bach, e eu ficava louco pra tocar daquele jeito, fiquei muito encantado. E também uma coisa que me influenciou bastante era um programa, logo que inaugurou a televisão, a Difusora, um programa, acho que era Panorama Panamericano, um filme em preto e branco, tinha a cena, uma das reportagens, [o violonista espanhol Andrés] Segovia tocando, e aí eu fiquei apaixonado pelo violão. Eu comecei a estudar escondido de meu pai, comprei o violão com meu dinheiro, mas escondia no guarda-roupa. No dia em que meu pai soube, eu já tocava alguns clássicos. Mas eu não tinha técnica. Eu aprendi a ler música sozinho. Quando eu cheguei para Lourdinha Lauande [a historiadora Maria de Lourdes Lauande Lacroix] eu já estava tocando violão. Ela era uma excelente pianista, eu morava do lado. Tinha um padre que tocava violino que almoçava lá, cônego Osmar Palhano de Jesus. Ele era pintor, foi meu professor de pintura também. Então eu comecei a tocar mesmo sozinho. Quando eu soube que João Pedro [Borges, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] estava na cidade, que tocava muito bem, aí eu fui estudar com ele. Quando eu fui estudar com ele, eu já estava tocando, mas sem técnica.

A tua primeira influência, vendo alguém tocar, foi Ubiratan? Foi. Eu vi Ubiratan, Segovia na televisão.

Ubiratan chegou a te dar aula? Nesse período, não. Depois eu tive acho que duas aulas com ele.

E Lourdinha Lacroix, chegou a te dar aulas? Exatamente. Eu chegava pra ela “e essa música aqui”, mostrava a música e ela dizia “isso aqui toca assim”. Ela dava umas orientações. Eu comecei a estudar bastante violão. E fiquei estudando com João Pedro no período de férias e fui avançando. Quando inaugurou a Escola de Música, em 1974, depois de um semestre, João Pedro sugeriu que eu ficasse não só como aluno dele, mas também como professor assistente, por que tinha uma procura muito grande de violão. Eu fiquei como assistente, depois ele foi embora e eu fiquei como titular. Em 1980, mais ou menos, 79, eu ganhei meu primeiro prêmio de trilha sonora, que foi do filme do Euclides [Moreira Neto, cineasta, ex-Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da UFMA e ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís], O testamento. Depois desse evento eu fui para o Rio estudar com o Ian [Guest, músico, professor de violão].

Teus pais sempre te apoiaram? Sempre! Inclusive, antes de ir pra Escola de Música, eu trabalhava como desenhista no Cema, a Fundação Maranhense da TV Educativa. Foi aí que o João Pedro sugeriu que eu largasse lá o emprego para ficar na Escola de Música.

Mas no começo você escondia o violão de teu pai. Era só um receio de ele não receber bem? Exatamente. Nós éramos cinco [irmãos], tinha muita gente na casa, ele era muito rígido, por que tinha os primos, as tias, enfim. Eu fiquei com medo de ele implicar com o violão, embora eu tivesse comprado com meu dinheiro.

Fora as formações em artes plásticas e música, você teve outra formação? Eu me empreguei como desenhista, depois como professor de música. Depois eu comecei a fazer luthieria. Eu faço muito restauro. Meu sonho era fabricar, mas é tanto instrumento para consertar, os alunos pedem para regular, violino, violão, o que eu tenho para terminar…

Quem foi teu mestre de luthieria? Eu considero dois grandes mestres: um foi o [luthier japonês Shigemitsu] Suguiyama, que foi o primeiro, e o outro foi Mário Jorge. Daí você vai pegando informação com várias pessoas. Eu frequentava muito a oficina do Mário Jorge, inclusive meu primeiro violão, que eu fiz, foi [o luthier] Sérgio Abreu quem me vendeu a madeira pra fazer.

Fala um pouco de tua ida pro Rio de Janeiro, como é que se deu? Eu fui para o Rio com uma bolsa, que era meu salário, aqui da Escola, em 1980. Depois, a Olga [Mohana, ex-diretora da EMEM], que era diretora, não queria que eu ficasse no Rio, queria que eu voltasse, e eu queria estudar mais um pouco. Acabou que eu perdi meu emprego. Chegando lá no Rio, eu continuei tendo aula com João Pedro e naquela época a Camerata Carioca ensaiava também na casa de João Pedro e eu ficava ouvindo ali. Coincidiu que o João Pedro se desligou da Camerata, queria investir na carreira solo, e me indicou. Tinha duas pessoas indicadas. Eu não sou chorão. Minha ligação com o violão sempre foi com a música clássica, sempre tive simpatia, mas eu aprendi muito sobre o choro quando entrei na Camerata. Pintou um concerto de última hora e eu tive umas duas semanas pra estudar, arranjos de Radamés [Gnattali, pianista e mastro gaúcho, fundador da Camerata Carioca]. Foi um concerto na Sala Cecília Meireles, com Joel Nascimento no bandolim, Henrique Cazes no cavaquinho, eu fiquei no primeiro violão, substituindo João Pedro, Maurício Carrilho no segundo, Luiz Otávio [Braga] no [violão] sete cordas e Beto Cazes no pandeiro. Nesse programa a gente tocou a Suíte Retratos [nota do blogue: no vídeo acima, a formação que executa a Suíte Retratos ainda tem João Pedro Borges ao violão], tocamos o Concerto de Vivaldi, com Radamés tocando, e tocamos também… tinha um repertório, eu não lembro, tinha Jacob do Bandolim e uns dois choros livres no final do concerto. Eu estava bastante tenso, era minha estreia, fiz o melhor possível, eu estava doente, um problema no dente que se agravou. Quando a gente estava no camarim, Henrique Cazes chegou todo contente: “sabem quem está aí? [Os violonistas] Sérgio e Odair Assad”. Aí foi que meu coração gelou, tocar pra esses caras! Mas foi legal, o concerto foi bom. Foi muito boa essa experiência. Daí a gente seguiu, foram várias apresentações. Gravamos o disco Tocar [1983] e outros discos também, com a Nara [Leão, cantora], a volta da Nara aos palcos foi com a gente, Teatro da Lagoa. Nós participamos de uma faixa do disco Nasci pra bailar [1982] e depois outro disco, Meu samba encabulado [1984].

Tocar foi o único disco que você gravou com a Camerata? Como grupo, sim. Esse disco foi muito bom, nós ganhamos o prêmio [da revista] Playboy de melhor disco.

Eu me lembro de um em que vocês acompanhavam Elizeth Cardoso, Uma rosa para Pixinguinha [1983]. Uma Rosa para Pixinguinha. A gente gravou o disco com a Nara, Meu samba encabulado.

Esse, vocês fizeram todo o disco com a Nara? A Camerata e a turma do Fundo de Quintal [grupo de samba e pagode]. Inclusive a gente fez o [a turnê do projeto] Pixinguinha com esse disco. Sem eles, a gente fez o Japão, com a Nara. Chegamos lá foi uma maravilha. Fizemos vários shows com a Nara, shows também com [o músico Roberto] Menescal. Fizemos um concerto só para jornalistas e críticos de música em Tóquio, alguém postou uma música no youtube, Jacaré de saiote, um frevo [de autoria de Antonio da Silva Torres, o Jacaré]. Depois eu produzi um disco, com a participação de Tom Jobim, chama-se Radamés [Gnattali, 1985], músicas que Radamés fez para alguns compositores e que alguns compositores fizeram para ele [o lado a tem seis faixas em que Radamés homenageia e é homenageado por Tom Jobim, Paulinho da Viola e Capiba; no lado b, três movimentos do Quarteto popular, de autoria do gaúcho].

E a convivência com Radamés, qual a importância, o que significou para você? Pra mim, aliás, pra todos nós que convivemos com Radamés, tivemos essa oportunidade, por várias maneiras: só como pessoa, você estar ao lado de um grande artista como Radamés, isso já é uma grande honra. Posso dizer que sou um cara de sorte e fico muito feliz com isso. Eu vi a Nara Leão na televisão aqui em São Luís, nunca imaginei que pudesse trabalhar com ela e fui até seu professor de violão. A mesma coisa com Paulinho da Viola, todos esses artistas. Radamés eu lembro de vê-lo tocando piano na televisão e, poxa, chegar, estar aqui do lado, na sala dele, tocando com ele, aprendi muito. Era super rígido, mas tinha um lado muito à vontade. Ele não gostava de ensaiar, fazia as coisas muito rápido. Não era o tipo de músico preocupado com detalhes, preciosista. Mas se aprendia muita coisa, de vida mesmo, de músico.

Qual a estatura de Radamés dentro da música brasileira? É pouco conhecido, não tem o reconhecimento merecido. A gente ouve mais as pessoas ligadas à música popular, principalmente ao choro, que conhecem, têm uma aproximação, mais que os compositores eruditos. Os compositores que colocam Radamés no programa geralmente são violonistas, que conhecem esse lado, que inclusive tocam o lado da música popular.

Os papeis que Pixinguinha exerceu durante quase cinco décadas, depois dele, quem assumiu essa tarefa no rádio, na televisão, nas gravadoras, foi Radamés, como arranjador, como um cara que deu rumo para a música brasileira durante tempo significativo. Exatamente. Foi um grande compositor. Foi editado há uns dois anos, um professor da UFMA, Ricieri [Carlini Zorzal, Dez estudos para violão de Radamés Gnattali: estilos musicais e propostas técnico-interpretativas; a dissertação foi defendida na UFBA, em 2005, e posteriormente publicada em livro], ele escreveu, foi a dissertação dele de mestrado, sobre os dez estudos de Radamés, eu até fiz o prefácio do livro, tem o pdf, está disponibilizado [para download]. É bem interessante, ele faz uma análise, embora o Radamés não aceitava essa questão do jazz, mas é interessante, por que ele começa a ver essa mistura da brasilidade, da música, com essa questão do jazz, que é presente na música do Radamés.

Na sua opinião, que papel exerceu a Camerata na trajetória do choro? Essa é uma boa pergunta. O choro surge exatamente dessa mistura dos ritmos brasileiros com a música da Europa, da África, toda aquela história que todo mundo conhece, vai pras ruas e pros salões. O choro é uma música erudita. Vamos dizer na linguagem de hoje, é uma música de concerto. A Camerata surgiu num período, ainda mais no formato em que ela veio, colocando e ressaltando esse lado refinado da música, camerístico. Foi muito importante e foi determinante, influenciou vários grupos. A gente pega vários grupos, como o Água de Moringa. Tem um muito interessante, que com certeza teve algum contato com a Camerata, chama Papo de Vento, é um conjunto de sopro. É muito bom. Eu acho que a Camerata teve esse papel importantíssimo. Dessa escola da Camerata, eu chamo até de escola, surgiram várias coisas. Depois que a Camerata acabou, infelizmente acabou no Japão, justamente no momento em que a gente recebeu todos os reconhecimentos e convites para tocar. Tinha o trabalho com a Nara, mas a gente foi convidado, só o conjunto, para fazer vários concertos, gravamos até com uma cantora pop japonesa, ela cantou Tom Jobim. Eu não queria que terminasse, mas foi uma decisão da maioria.

O fim da Camerata foi cercado de brigas? Como foi? Eu não vou dizer brigas, mas insatisfações. Já vinham se acumulando há um tempo.

Como é tua relação hoje com os remanescentes da Camerata? Excelente. O Henrique uma vez veio aqui, foi muito bom, Luiz Otávio, todos eles, Maurício. Eu gosto muito deles. Eu acho que na Camerata eu até consegui muitas vezes equilibrar essa balança das insatisfações e divergências, eu sempre conciliava. Acho que é o melhor caminho que tem. Depois acabou, Radamés morreu, nos reunimos, fizemos um concerto. Depois houve um segundo momento de reunião, não para continuar. Nessa ocasião, já o Maurício não quis ir. No lugar dele foi o [violonista] João Lyra e no lugar do Dazinho, que morreu, foi o [clarinetista] Paulo Sérgio Santos. A Camerata teve um papel muito importante, naquele momento, de abrir os caminhos. Eu aprendi muita coisa nessa vivência, de gravações.

Fora Tocar e os discos com Nara e Elizeth Cardoso, de que outros discos você participou? Teve um disco do Zé Tobias, Camerata, Radamés e Zé Tobias [José Tobias, Rapsódia Brasileira, 1984]. Gravei com Benito di Paula, com a Camerata, ele gravou umas músicas antigas, mas não sei se chegou a virar disco. Teve Taiguara [Canções de amor e liberdade, 1985]. Outros discos, tem um da Teca Calazans [Mário, 300, 350, 1983], várias pessoas da Camerata participaram, mas não com o nome da Camerata [ele não cita o disco Caymmi, de Dorival Caymmi, 1985].

Aqui no Maranhão você não chegou a gravar discos? Não.

Além da Camerata você participou de outros grupos? Lá em Minas, sim. Eu tinha um duo, flauta e violão, com Salomé Viegas, fizemos concertos em vários lugares, era legal, a gente tinha um repertório que incluía choro, Egberto Gismonti, Bach, Villa-Lobos. Depois a gente formou um trio, com um violoncelista. Eu tenho um vídeo que eu gravei, saiu na TV Cultura.

De uns tempos pra cá me parece que você anda meio afastado de palcos e estúdios, fora o lance de fazer trilhas sonoras. Você não tem vontade de voltar, não sente falta? Até foi legal falar nisso. Quando eu vim pra cá, eu vi que a realidade era outra. Tem gente que sobrevive de música e eu tiro o chapéu, é uma coisa bem difícil. Toca aqui, acolá, ganha um dinheirinho aqui, acolá, eu não sei se eu teria pique. Eu senti um choque muito grande, eu estava muito envolvido com a música de concerto, e pensei, “poxa, aqui não é minha praia”. Isso foi me afastando do palco até por uma questão, quando você deixa de tocar no palco, você vai criando medo de palco, e foi o que aconteceu comigo, de certa maneira, associado a uns problemas nas minhas unhas. Eu deixei, toquei pouco, fiz poucos recitais. Eu lembro de um na época do festival da prefeitura [o Festival Internacional de Música de São Luís, em 2002]. Eu toco assim, acompanhando aluno, e eu estudo todo dia. Todo dia! Tocar, eu toco aqui na Escola de Música. Agora eu descobri uma coisa que Yamandu [Costa, violonista sete cordas gaúcho] já usa e eu resolvi experimentar: unha artificial. Agora estou me preparando para tocar.

As trilhas para cinema são muitas. Não tem uma preocupação de tua parte de registrar esse material? Lançar isso em disco, no sentido, inclusive, de que muitos desses filmes, ninguém sabe onde está, como faz para assistir. Eu sempre pensei. Eu tenho vontade de fazer um cd. Seria um projeto bem caro, muita coisa eu teria que regravar, por conta da qualidade, da época. Muitas dessas músicas que eu faço para filmes, a maioria curtas, a maioria é para orquestra.

Você faz reparo, conserta instrumentos. Você toca outros instrumentos? Não. Só violão. Piano é uma coisa assim, não é nada. Eu estudo as cordas por que eu estou na direção da Orquestra de Cordas daqui [da EMEM], já faz bastante tempo, desde que eu cheguei aqui, em 1999. Eu aprendi muito aqui na Escola, na própria orquestra. Eu tenho alguns arranjos e orquestrações que acho que foram bem sucedidos, o pessoal gosta, muita gente me elogiou. Eu fiz arranjos para cordas para Água e vinho e Loro, de Egberto Gismonti, fiz orquestrações para umas mazurcas de [o violonista espanhol Francisco] Tárrega que acho que ficou legal. E fora isso tenho meu trabalho de pesquisador da música do século XIX, que a gente sempre toca. Não é arranjo, são edições.

Como é teu método na hora de compor uma trilha? É preciso ver as cenas antes? Eu já experimentei de todo jeito. Eu gosto muito da trilha de Infernos [de Frederico Machado]. Ele me encomendou a trilha e disse que queria inferno e céu, “tudo é baseado na poesia de meu pai”. Eu conheço a poesia de Nauro [Machado, poeta, pai do cineasta Frederico Machado] e sei que o inferno não é tão inferno, pela beleza poética com que ele descreve, e o céu não é tão céu, essa coisa densa que é Nauro. E ele disse: “agora eu vou só combinar uma coisa contigo que é fundamental: eu penso numa coisa de voz, [o compositor minimalista norte-americano] Phillip Glass, mas não vou te mostrar o filme”. Eu acho que foi uma das trilhas mais bem sucedidas, uma das. Por outro lado, já o inverso, eu assisto a cena, participo do filme, vejo as filmagens, converso com o diretor, aí é outro tipo de envolvimento, que funciona. Essa coisa diversificada é legal, são sempre desafios. Tudo é possível. De modo geral, a conversa do diretor com o compositor é fundamental. Quando eu vejo a cena eu sei exatamente onde eu posso colocar o silêncio e onde eu posso colocar a música.

Para você, como educador, o que significa o fato de São Luís ter, hoje, além da Escola, duas faculdades de música? Isso mudou bastante. A primeira coisa que a gente pode pensar é que existia um mito muito forte aqui em São Luís, que as pessoas que leem música não tocam de ouvido. Há essa tendência, lógico. É muito fácil você pegar, ler a partitura e não precisa tirar de ouvido, não treina. Tinha muita gente aqui que toca muito bem, que não sabe ler nem escrever [partitura]. Aqui mesmo na Escola, havia gente que não tinha habilidade com a leitura, mas são excelentes músicos. Hoje estão na universidade, já leem. É um caminho mais aberto, uma possibilidade. Eu volto à história do choro: o músico de choro gosta tanto de choro, que se interessa, vai atrás, acaba lendo [partitura]. Mas eu não resumo o curso de música só à leitura. Esses dois cursos formam professores, para ensinar música. Agora, lá, não é um curso de instrumento. Continua a Escola de Música sendo o grande centro de formação instrumental. Fora disso, um excelente espaço para o aprendizado de música são as igrejas. Acontece hoje uma coisa que acontecia no século XVIII: o centro de formação do músico era nas igrejas. Os compositores que nós temos do século XVIII, Manuel Antonio de Oliveira, Ermelindo Lobo de Mesquita, o próprio Antonio Rayol era regente, Leocádio Rayol. Isso está acontecendo hoje, de maneira informal, mas você vê grandes músicos em igrejas. Agora vai ter teste para o curso técnico. Se se fizer uma enquete, a maioria dos músicos que vêm fazer o teste, o propósito é melhorar a performance nas igrejas.

Qual a importância do choro para a música brasileira? Choro é aquilo que há de mais fundamental que a gente possa pensar. É fundamental. A música brasileira, a raiz da música brasileira, qualquer gênero que surja depois, o movimento da bossa nova, tudo isso a gente pode ver que tem um pé no choro, e que é um gênero, uma questão de identidade, uma estrutura não só formal, mas também melódica, harmônica, ela tem toda essa abertura, não só pela questão do tradicional, ela se abre. Uma das coisas mais inovadoras que eu conheço de choro são as obras do Maurício [Carrilho] com o Choro Ímpar.