Herança

Fernanda Montenegro em cena de A falecida, de Leon Hirszman, baseado na obra de Nelson Rodrigues, uma das cenas de Cinema novo. Reprodução

 

Cinema novo [documentário, Brasil, 2016, 90 min.] é um filme para cinéfilos, mas não só. Só assisti ontem. Quando estreou em São Luís, ficou pouquíssimo tempo em cartaz. A sessão gratuita no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) integra a programação do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2017, que premiará os melhores do ano passado no próximo dia 5 de setembro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A programação inclui ainda títulos como Aquarius, Boi neon, Cícero Dias, o compadre de Picasso (ótimo documentário de que vi um pedaço, ao entrar na sala com cerca de meia hora de antecedência) e Elis, entre outros, em diversas categorias. Em São Luís os filmes serão exibidos até amanhã (3), veja a programação.

Em Cinema novo, a sacada de Eryk Rocha, filho de um dos maiores nomes do cinema brasileiro, é também um merecido tributo a Glauber Rocha. E a Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Luiz Carlos Barreto, entre outros.

Muito do que se faz em cinema hoje no Brasil, ao menos o que vale a pena, herda diretamente o que se aprendeu com a escola do Cinema novo. O filme de Eryk Rocha parte de uma sacada inteligentíssima: é uma colagem de cenas de mais de 70 filmes do período e depoimentos de mais de uma dúzia de diretores.

Nenhum depoimento foi concedido para o filme, a Eryk Rocha, que pesquisou imagens de acervos, em hora e meia majoritariamente em preto e branco – o colorido, e não me refiro (apenas) às cenas em cores, fica por conta de sua riqueza e diversidade. Ele reduz um dos jargões de seu pai, repetido até por quem não sabe que a frase é dele. “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” transforma-se tão somente em uma ideia na cabeça, a narrativa construída em cima de imagens pré-existentes. Renato Vallone assina a competentíssima montagem, que aqui configura-se quase em codireção – Eryk Rocha homenageia os criadores também nos créditos, lembrando caracteres originais de suas criaturas, como se se tratasse de obra coletiva. E no fundo se trata.

É um panorama imprescindível de um dos períodos mais férteis do cinema nacional. Engraçado notar que algumas preocupações, àquela época, já pairavam pelas cabeças de nossos cineastas. E provavelmente permanecem hoje, na cabeça de outros. Por exemplo a questão da distribuição. Numa passagem, Joaquim Pedro de Andrade desdenha da crítica.

Leon Hirszman aponta a identificação com o subdesenvolvimento como um eixo comum da maioria absoluta dos títulos cinemanovistas. Tendo a localizá-los também à esquerda no espectro político, embora alguns sobreviventes tenham dado guinadas rumo ao golpismo com o passar do tempo – e também deixaram de fazer coisas interessantes ou até mesmo deixaram de fazer cinema.

Elemento de nosso subdesenvolvimento a violência é abordada por Glauber, ao comentar seu O dragão da maldade contra o santo guerreiro. Ele afirma não gostar de sangue pelo sangue. “Mas negar a violência seria me censurar”, afirma em determinada altura.

Do pai, Eryk Rocha herdou a postura ideológica firme – ano passado, na plateia da abertura do Festival de Brasília, puxou um coro de “fora, Temer”.

Além de bela homenagem a uma geração e uma filmografia fundamentais, Cinema novo é uma verdadeira aula de cinema e poesia.

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Veja o trailer:

Jards no Maranhão na Tela

Jards, documentário musical de Eryk Rocha, sim, o filho do homem, será exibido amanhã (28), às 22h, no Cine Praia Grande, e quinta (30), às 18h, no Teatro Alcione Nazareth, ambos no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). Ambas as sessões são gratuitas, devendo os interessados retirar os ingressos nas bilheterias com uma hora de antecedência das exibições.