Show de Tião Carvalho reinaugurou o Papoético ontem

Momento histórico: Tião Carvalho e Chico Saldanha soltam a voz em Itamirim. Foto: Zema Ribeiro

 

O poeta Paulo Melo Sousa reinaugurou ontem o Papoético, cerca de sete anos depois de o projeto ter agitado a ilha. A reestreia aconteceu no Bar Latino (Rua do Giz, Praia Grande).

Ao menos na edição de ontem, o Papoético assumiu outras feições: em vez do debate-papo, bonitos espetáculos: de passagem pela ilha o poeta Dyl Pires leu um belo trecho de Éguas! (Pitomba, 2017), seu livro-poema mais recente, antes de se mandar para o sarau No Olho da Rua, evento mensal que acontece no novo Poeme-se (Rua de São João, 246A, Centro). Até o momento em que Paulo Melo Sousa anunciou a apresentação de Tião Carvalho, colocou o microfone à disposição dos presentes, mas ninguém se atreveu a recitar um poema.

Em ambiente aconchegante, apesar do preço proibitivo da cerveja (13 reais uma Eisenbahn), Tião Carvalho fez show inspirado, apesar do “em cima da hora” das articulações: maranhense radicado há décadas em São Paulo, o artista torna ao estado natal para shows na temporada carnavalesca e, já tendo se apresentado no Papoético àquela época, aceitou o convite do idealizador para regressar ao palco.

Subiu a ele acompanhado por João Simas (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo) e Thierry Castelo Branco (bateria), para um desfile de clássicos, entre composições de João do Vale (Uricuri), a quem tributou em disco [Tião canta João, Por do Som, 2006], da irmã Ana Maria Carvalho (Até a lua) e autorais (Quando dorme Alcântara, título de seu primeiro disco solo, de 2003). O próprio Tião revezava-se entre triângulo, maracá, apito e cavaquinho.

Num intervalo no meio do show, Paulo Melo Sousa sorteou exemplares de livros e cds entre os presentes. Erivaldo Gomes foi chamado a participar de Cajapió, composição de sua autoria gravada por Tião Carvalho em Quando dorme Alcântara e acabou recrutado pelo cantor a continuar ao triângulo durante quase toda a apresentação. Antes, da plateia e também na base do improviso, o convidado foi Chico Saldanha, que dividiu o palco com o amo do Boi de Cupuaçu em Itamirim.

A toada de Saldanha foi registrada em seu disco de estreia, o homônimo Chico Saldanha (1988), com a voz de Tião Carvalho – o disco, gravado em São Paulo, tem Erivaldo Gomes na percussão. Caminhos que se cruzam, momento histórico.

O show terminou com a Sapaiada (Xavier Negreiros e Marquinhos Mendonça) e Nós, clássico de Tião Carvalho imortalizado por Cássia Eller.

A intenção do idealizador é realizar o projeto Papoético quinzenalmente.

O embaixador

Foto: Rose Panet

 

Radicado há mais de três décadas em São Paulo, onde mantém as tradições maranhenses com o Bumba meu boi de Cupuaçu, no Morro do Querosene, o que lhe ensejou o merecido título de cidadão paulistano, outorgado há alguns anos pela Câmara Municipal da capital paulista, Tião Carvalho, maranhense de Cururupu, subiu ao palco do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), ontem (23), para um show em que passeou por repertório autoral e clássicos de autores maranhenses.

“Muito obrigado pela presença de todos vocês”, agradeceu Tião, reafirmando o prazer de cantar no Maranhão, para maranhenses, após abrir sua apresentação com Dona tá reclamando (Domingos Minguinho), gravada pelo Cupuaçu em Toadas de bumba meu boi [Núcleo Contemporâneo, 2000].

Tião estica sua presença na ilha: ele veio participar do desfile do bloco Bota pra moer, na segunda-feira gorda de carnaval (12), capitaneado pelo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, em cujo Radiola em transe, disco mais recente da dupla, sua A menina do salão dialoga com A mulher mais bonita do mundo (Tião Carvalho), lançada por Tião em seu solo de estreia, Quando dorme Alcântara [Por do Som, 2003], também presente ao repertório de ontem. Além de ontem no Buriteco, ele anunciou nova apresentação na próxima sexta (2 de março), às 22h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro).

Quando cantou De Teresina a São Luís (João do Vale e Helena Gonzaga), a flauta de Zezé Alves puxou O trenzinho do caipira (Heitor Villa-Lobos) como incidental. O flautista deixou seu microfone às pressas para salvar o óculos – que Tião Carvalho carregou mas não usou durante o show –, de ser pisado, enquanto o músico trocava o cavaquinho pelo triângulo.

A banda se completava com João Simas, que tocava sua guitarra com as pernas em posição de lótus na cadeira, a gaúcha Mariele Costa (percussão) e Erivaldo Gomes (percussão) – este o único abrigado ao lado de Tião no pequeno tablado do Buriteco.

Com um disco inteiramente dedicado à obra de João do Vale [Tião Canta João, Por do Som, 2006], o pedreirense foi dos mais presentes ao set list da noite: Baião de viola (João do Vale e Flora Matos) evoca as belezas (e de forma poética as misérias) de sua cidade natal, trazendo em si a típica sabedoria que lhe valeu o epíteto de “poeta do povo”.

Quando cantou a toada Itamirim (Chico Saldanha), Tião lembrou-se que foi ele quem gravou a música no elepê de estreia de Chico Saldanha, de 1988. “Se não me engano é Itamirim o nome do elepê”. O disco leva apenas o nome do compositor, mas o equívoco é compreensível: a última faixa do lado A foi o maior êxito do disco e é, até hoje, um dos maiores da carreira do rosariense.

Tião cantava e contava histórias: o samba Pantanal (Tião Carvalho) alude a um bar que frequentava, e Canção de ninar (Tião Carvalho), que começa como anuncia o título e torna-se um samba, foi feita para sua filha, “quando ainda estava na barriga”.

Sapaiada (Xavier Negreiros e Marquinhos Mendonça), com seu refrão envolvente, botou o público para acompanhar nas palmas, um dos grandes momentos do show – não foram poucos. Quando dorme Alcântara (Tião Carvalho) evoca outro bar, em São Luís, onde Tião e uma turma iam tocar e à meia noite viam as luzes da cidade, do outro lado da baía, se apagarem, quando o gerador era desligado, à época. Invariavelmente ouvia-se o comentário: “Alcântara dormiu”. “Com essa música eu participei do último grande festival promovido pela Rede Globo. Estive em três, primeiro acompanhando Giordano Mochel, depois acompanhando Ubiratan Sousa, e por último já com uma música minha”, contou, revelando parte da nobre linhagem artística a que pertence.

Cantou o Fogo de palha de Josias Sobrinho. Quando lembrou que dele havia gravado Dente de ouro em Quando dorme Alcântara – à venda ontem, bem como Tião canta João –, o público pediu o clássico. “Não estava no roteiro, mas nós vamos ter que fazer”, nem Tião nem a banda titubearam e o público cantou junto.

De sua irmã Ana Maria Carvalho, parceira do Boi de Cupuaçu, trouxe Até a lua, que emendou com Lua cheia (Bulcão e Godão), clássico de outro boizinho, o Barrica. O passeio musical de Tião foi até Cajapió (Erivaldo Gomes). Na sequência atacou com um medley de inéditas: Coco da minha sinhá (Tião Carvalho) e Coco das meninas (Graça Reis).

“Vamos fazer a saideira, lembrando essa figura que foi muito importante pra minha carreira, é pra mim uma espécie de madrinha musical. Todas as gravações que ela fez dessa música”, começou, referindo-se a Cássia Eller, que popularizou o samba Nós (Tião Carvalho).

Aos insistentes pedidos de “mais um”, Tião virou-se para a banda, sinalizando que atenderia. A noite foi fechada com um medley de João do Vale: Uricuri (Segredos do sertanejo) e Carcará, ambas em parceria com José Cândido.

Embaixador da cultura popular do Maranhão em São Paulo, onde vive, e por onde andar, ontem Tião Carvalho contrariou o dito popular: santo de casa faz milagre, era o que atestavam os rostos satisfeitos do público, mesmo a parte que ficou em pé, na calçada, do lado de fora do Buriteco.

Os ringues de Fernando Abreu

Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução
Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução

Feito um poeta do século passado, o jornalista Fernando Abreu, 51 anos completados no último dia 12, funcionário concursado, bate ponto em um órgão público, mas sua poesia está longe do enfado e da burocracia.

Quem o conhece sabe da raridade de suas aparições públicas. Seu tempo ocioso, e bote bastantes aspas em ocioso, gasta lendo, sobretudo poesia, e ouvindo música.

Seus poemas não se contentam com a página do livro, embora não a menosprezem. Se, num país que não lê, poesia menos ainda, é preciso ganhar alguns ouvidos, “me deixa ser guru dessa galera”, como diz uma parceria do poeta com Zeca Baleiro.

Sua fama de eremita é conhecida entre os amigos, que festejam suas raras presenças em eventos literários – com o poeta Eduardo Júlio foi curador da Feira do Livro de São Luís ano passado.

Um dia após o Dia Nacional da Poesia, Fernando Abreu, ou simplesmente Fabreu, para os mais íntimos, sai de casa amanhã (15) para lançar seu Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p., R$ 20,00 no lançamento].

É o quarto livro de Fabreu, ex-integrante da Akademia dos Párias, movimento poético que fez barulho na Ilha na década de 1980 e início da de 90. Manual de pintura rupestre, seu primeiro título publicado por uma grande editora, aparece depois de Aliado involuntário [Exodus, 2011], O umbigo do mudo [Clara Editora, 2003] e Relatos do escambau [Exodus, 1998]. A Exodus é uma casa inventada pelo poeta para se publicar.

Se nos dois primeiros livros seus poemas estavam mais para Leminski e Oswald de Andrade, entre a piada, a rapidez, o chiste de mesa de bar, e no penúltimo terem ganhado volume, neste quarto título Fabreu atingiu um nível de maturidade poética fruto de exercício, leitura e autocrítica.

Apesar do salto, Fabreu é um poeta pé no chão. “Quem lida com esse negócio de escrever e publicar poesia não pode alimentar muitas ilusões pra não se frustrar. Começa que não somos um país de leitores, e muito menos de poesia”, declarou ao Homem de vícios antigos, sem que sua fala soe amarga.

“No caso da 7Letras me atraiu o cuidado que eles tem com seus produtos em termos de acabamento, programação visual etc. Geralmente os livros são bem bonitos, e o meu não fugiu à regra”, continua, sem falsa modéstia.

De suas leituras cotidianas, muitas referências estão em Manual de pintura rupestre. Se os poetas são “as antenas da raça”, como nos ensinou Pound, a sintonia de Fabreu aponta em várias direções.

A começar por Terence Mckenna, filósofo e etnobotânico norte-americano que emprestou uma das epígrafes da obra – a outra é de Jorge de Lima: “o xamã é o ancestral remoto do poeta e do artista”, diz um trecho dO alimento dos deuses.

Em tempos de instantâneos no instagram e descartáveis no snapchat, o grande trunfo de um poeta é lapidar poesia onde ninguém mais a enxerga, num mundo cada vez mais embrutecido. O cotidiano é matéria-prima de Fabreu: “uma xícara de café fumegante/ o rosto de alguém que caminha/ lembrando de uma música/ amantes fugindo a pé do fim do mundo/ o cachorro paciente esperando pra atravessar/ na faixa de pedestres”, observa em Aqui agora, poema que abre este Manual de pintura rupestre.

O estado das coisas abre o leque de referências de Fabreu que percorrerá as páginas desta sua nova obra, citando Lord Byron, Glauco Mattoso e Dylan Thomas. Uns citados textualmente, outros na sutileza da sacada, ao longo do livro aparecerão ainda Carl Gustav Jung, Carlos Drummond de Andrade, Friedrich Engels (não confundir com outro Friedrich, o Hegel), Gonçalves Dias, Herbert Marcuse, João Bosco e Aldir Blanc, João Carlos Martins, Karl Marx, Noel Rosa, Roberto Bolaño, Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Wilhelm Reich, William Blake, William Burroughs e William Carlos Williams.

Fabreu está sintonizado em poesia, música, política, denúncia social, crítica aos mercadores da fé televisionada, psicanálise, futebol, filosofia, erotismo. “quando não escrevendo nada/ ser mais poeta do que nunca/ todo antenas poros sentidos/ ser que se trespassa de tambores/ a palavra antes da palavra”, o Mestre sala dos ares é ótima síntese ou cartão de visitas.

Serviço – O poeta Fernando Abreu lança Manual de pintura rupestre nesta terça-feira (15), às 18h30, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração). A noite de autógrafos terá recital com os Mamutes Elétricos: Fernando Abreu (voz e poemas), Erivaldo Gomes (percussão) e Marcos Magah (voz e guitarra).

Leia em primeira mão três poemas de Manual de pintura rupestre:

DA BOCA PRA FORA

vai com deus, papai!
no sinal que acaba de abrir,
aceito a bênção do menino
mesmo não tendo
as moedas
para o pão ou pedra
que, por segundos, iluminariam
suas entranhas ou sua mente
no vão dessa noite brasileira
em que me vejo órfão de uma dor
que sequer mereço sentir

DE UM COMERCIAL DE TV

depois de atravessar a cidade
sob os olhares agradecidos da multidão
o boneco gigante anunciando
ofertas imperdíveis
foi se postar por trás da loja principal da rede
onde
do alto de seus
mais de dez metros de altura
abençoou os fiéis

PARALELAS

qual é a diferença
entre o revolucionário
que recusa a esmola ao mendigo
para não atrasar o fim da burguesia
e o burguês piedoso
que nega a mesma moeda
ao mesmo mendigo
porquevaitudopracachaça&crack?

[pp. 31, 33, 35]

Obituário: João Madson

João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão
João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão

 

Conheci João Madson há quase década e meia, ali pelas imediações do Bar de Seu Adalberto (Praia Grande), onde, à época, acontecia o evento semanal A Vida é uma Festa!, capitaneado pelo poeta-músico ZéMaria Medeiros, há tempos transferido para a Companhia Circense de Teatro de Bonecos. Já era uma lenda do underground local, sempre acompanhado de um copo, um cigarro e um sorriso.

“Se melhorar, estraga”, sua voz talhada pelos vícios respondia sempre ao invariável “como vão as coisas?” que eu disparava toda vez que o reencontrava, sempre impecável cavanhaque (a antiga foto em p&b que ilustra este post é exceção), amarelado de fumo, ele, há décadas, radicado em São Paulo.

Chegamos a trabalhar juntos, na Faculdade São Luís, onde ele prestava consultoria ou coisa que o valha em marketing; tinha formação em jornalismo e publicidade e equilibrava-se entre as áreas e a música, sua paixão.

Compositor menos conhecido do que deveria, é autor de um punhado de clássicos, ao menos para mim. Um exemplo é Sinhá Madona, sucesso de Rogéryo du Maranhão, lembrada pela jornalista Andréa Oliveira, ao lamentar em uma rede social o falecimento do artista, vítima de enfisema pulmonar, na madrugada de ontem (16), aos 62 anos. O compositor registrou a música com adesão de Gabriel Melônio em São João Madson Com Vida, último disco gravado por ele, em 2003.

“Dorme em sono perfeito/ minha antiga cidade/ sinhá, vou buscar o dia/ antes da claridade// Corre, Sinhá Madona/ bem de frente da janela/ vem ver como é bela a lua/ que se esconde no coqueiro/ vem ver como é bonito/ meu boi dançar no terreiro”, diz a letra. O cd é recheado de participações especiais: Didã, Rosa Reis, Alê Muniz, Erivaldo Gomes, Eliésio, entre outros.

Em shows recentes a cantora Alexandra Nicolas anunciou que gravará O segredo do coco. “Essa, quem me ensinou a cantar foi Didã” – intérprete da música em São João Madson Com Vida –, geralmente anuncia, antes de começar: “Tira o coco do coqueiro/ bota pra quebrar/ tira o leite desse coco/ que eu quero tomar/ rala o coco, soca o coco/ pra cunhã coar/ que o segredo do coco é peneirar// O segredo do coco é o leite/ o azeite na hora de apurar/ é o cheiro cheiroso na cozinha/ cunhãzinha preparando o jantar// Traz tucupi/ traz tacacá/ taca o coco na cuia/ pra cunhã coar”, diz a letra.

Uma vez irrompeu Bagdad Café adentro, em plena Praia Grande, cantando Stalone Strauss, cujos vocais divide com o sobrinho Alê Muniz no disco derradeiro: “Me dê um tom e um tema/ que eu vou cantar um poema/ um roteiro pra cinema/ enredo de carnaval// Me dê um tipo e um trato/ que eu faço mesmo é no ato/ só me assine um bom contrato/ que eu quero é virar o tal// E vou gravar um cd/ do bom da eme pê bê/ para estourar no Japão// Você só vai me ver/ em clipes da eme tê vê/ no Domingão do Faustão// E vou trocar o meu nome/ por outro que se consome/ um nome comercial/ um nome bem estrangeiro/ só pra ganhar mais dinheiro/ vou ser Stalone Strauss”, transbordava irreverência.

Em 2005 venceu o Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação, com seu Frevo na chuva: “E foi aí que eu te achei na chuva/ foi um barato muito legal/ você toda molhadinha/ só entrou na minha/ por que era carnaval// E era frevo na chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ você no meu guarda-chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ Venha, vamos botar pra moer/ eu e você fazendo o frevo ferver”.

É dele também um dos mais astutos jingles de propaganda político-partidária que já ouvi: quando candidata a prefeita em 2004, Helena Heluy (PT) tinha como adversários Ricardo Murad, João Castelo e Tadeu Palácio. Madinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos, mandou bem: “Não quero Murad Castelo/ nem mesmo erguer Palácio/ amo demais São Luís/ eu quero é ser feliz/ é 13 de cima abaixo// Helena, o Lula lá já falou/ eu voto em quem vale a pena/ por isso eu voto em Helena/ pra nossa ilha do amor” – cito de memória, a exemplo das outras letras lembradas neste post.

Este obituário traz alguns poucos exemplos da genialidade de João Madson. Sua perda é, em si, uma tragédia. E revela outra: nossa falta de cuidados com a memória, em tempos virtuais. Experimentem “dar um google” com o nome dele (o que fiz, à cata de foto para ilustrar esta singela homenagem póstuma): as ocorrências são insignificantes (inclusive demorei a publicar este texto em busca de foto decente para ilustrá-lo).

Festa para Pixixita reúne tribo da música

Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito
Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito

 

Não conheci José Carlos Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, pessoalmente. Sua fama, no entanto, está impregnada de tal modo na cidade que é impossível não se sentir, de algum modo, próximo dele.

Alguns músicos citaram-no como professor, amigo ou influência, ao longo da série Chorografia do Maranhão. A um deles, Ricarte Almeida Santos, um dos parceiros da empreitada, respondeu: “eu não tive a honra de conhecê-lo, mas conheci Nelsinho, um cara bacana, gente fina”.

É por aí.

Nelsinho é filho de Pixixita. Também é, já, uma espécie de lenda urbana, professor de capoeira, o sorriso sempre a iluminar a ensolarada São Luís, que vez em quando a gente encontra flanando por aí, por aqui, por ali.

Pixixita era professor da Escola de Música. Feições indígenas, entre a inocência de um curumim e a sabedoria de um pajé. Mais que a música, sua grande paixão, o professor foi um cultivador de amizades.

Maranhense de Imperatriz, o cantor e compositor Chico Nô é um dos que não escondem a amizade, admiração, carinho, respeito e saudades de Pixixita, falecido em 2002, em um acidente automobilístico.

Em 2004, no evento semanal A vida é uma festa, Chico Nô homenageou o mestre amigo. Da tertúlia capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, a Tribo do Pixixita – como passou a ser chamada a homenagem – ganhou vida própria e não existe abril sem ela, no calendário cultural da cidade que Pixixita tanto amou.

Produzida por Luiza Maria, Chico Nô e Nelsinho, a Tribo do Pixixita chega em 2015 à sua 12ª. edição, agregando uma constelação de craques da música produzida por estas plagas (sem contar os que aparecem sem ser anunciados), mais “pixixitesco” impossível: Angela Gullar, Beto Ehongue, Chico Nô, Chico Saldanha, Criolina, Erivaldo e Didã, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Marcos Magah, Ronald Pinheiro, Rosa Reis e Sérgio Habibe.

A festa acontece no Malagueta (Renascença II), neste sábado (11), às 20h30. Os ingressos custam R$ 20,00, à venda no local.

30 anos de Fulejo

[No Vias de Fato de setembro, já nas bancas]

Hoje raro, disco de Dércio Marques tem primeira gravação de Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira – Erivaldo Gomes era o percussionista

ZEMA RIBEIRO

Um violão sobre uma cadeira, em frente à porta da casa que dá para um jardim. A capa do disco entrega o conteúdo, e seu título a festividade ali contida: Fulejo [Copacabana Discos, 1983], de Dércio Marques, é obra importantíssima da música brasileira e completa 30 anos neste 2013. O trabalho tem a participação de Doroty Marques, irmã do menestrel, e merece ser mais e mais ouvido.

É um disco que merece ser festejado também – ou principalmente – em terras maranhenses: ele contém a primeira gravação de Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira, com direito a percussão de Erivaldo Gomes e arranjo de Ubiratan Sousa. No disco, a música é dedicada a Chico Maranhão.

O menestrel durante apresentação no Sr. Brasil de Rolando Boldrin

Mineiro de Uberaba, filho de pai uruguaio, Dércio Marques estreou em disco em 1977, com Terra, Vento, Caminho, lançado pela Discos Marcus Pereira, a mesma que no ano seguinte brindaria o público com Bandeira de Aço, de Papete, com repertório assinado por Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

Inspirado pelas raízes musicais brasileiras que pesquisava, Dércio mostrou em Fulejo a influência das congadas mineiras, embora o disco fosse, como sua obra em geral, bastante diverso. Além da citada Namorada do Cangaço, são de seu repertório Mineirinha (Raul Torres), O pinhão na amarração (Elomar) – que ele defendeu em um festival da Rede Globo em 1980 –, Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo), Você vai gostar (Casinha Branca) (Elpídio dos Santos) e Disco Voador (Palmeira). Uma descuidada reedição em cd alterou a ordem das faixas – não sei se esta sorte é pior que a não reedição dos discos que Chico Maranhão lançou pela Marcus Pereira.

Falecido em 26 de junho do ano passado, no pós-operatório da retirada de pâncreas, baço e vesícula, Dércio Marques deixou 10 discos gravados e apresentou-se ao lado e foi parceiro de muita gente: Diana Pequeno, Heraldo do Monte, João Bá, Milton Edilberto, Oswaldinho do Acordeom, Paulinho Pedra Azul, Pereira da Viola e Xangai, entre outros, além dos maranhenses Irene Portela e João do Vale. Em 1996 foi indicado ao Prêmio Sharp por Monjolear, disco fruto de oficinas de músicas ministradas por ele e a irmã para mais de 200 crianças – um dos melhores discos de música infantil já feitos no Brasil em todos os tempos.

Histórias de Fulejo – Dércio Marques aprendeu a letra de Namorada do Cangaço com o percussionista Erivaldo Gomes, que então morava em São Paulo, onde o disco foi gravado. O compositor Chico Saldanha, responsável também pela chegada das músicas de Bandeira de Aço às mãos e ouvidos de Papete, lembra que ele gravou sem pedir a autorização do autor: “Eu falei: “quer gravar, grava, mas vamos ao menos avisar o autor”. A princípio ele disse que não ia mais gravar, depois resolveu e o disco saiu com a música”, lembra.

“A música chegou a tocar razoavelmente no rádio, mas eu só fui saber depois que já estava gravada”, recorda-se o autor. “Até há uns erros de letra, ele não me procurou antes. Ele me ligou depois, pedindo autorização para inscrever a música em um festival da Rede Globo, o que neguei. Depois de muitos anos nos encontramos, eu trabalhava nO Imparcial, ele chegou com o violão, começou a tocar, tocou Boi da Lua [também de Cesar Teixeira], parou a redação inteira [risos]. Era uma figura irreverente e engraçada. Fulejo é um grande disco e o Brasil perdeu uma grande voz”, lamenta Cesar Teixeira.

REPERTÓRIO

1. Namorada do Cangaço (Cesar Teixeira)
2. Mineirinha (Raul Torres) Participação especial: Doroty Marques
3. Fulejo (Dércio Marques)
4. Malambo (Ricardo Zanon Morel/ Dércio Marques)
5. O Pinhão na Amarração (Canto de Amarração) (Elomar Figueira de Mello)
6. Cantiga da Serra (Hilton Acioli) Participação especial: Benjamim e Titina
7. Brasil Caboclo (Tonico/ Walter Amaral)
8. Riacho de Areia (Adaptação folclórica de Maria de Lira) Participação especial: Benjamim, Genésio e Doroty Marques
9. Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo)
10. Você vai gostar (Casinha Branca) (Elpídio dos Santos)
11. Ranchinho Brasileiro (Brasil Sinfonia) (Elpídio dos Santos)
12. Lua Sertaneja (Adauto Santos/ Gilberto Karan) Participação especial: Benjamim
13. Flores do Vale (Dércio Marques/ João Bá)
14. Disco Voador (Palmeira)

DISCOGRAFIA

Terra, vento, caminho (1977)
Canto forte – Coro da primavera (1979)
Fulejo (1983)
Segredos vegetais (1986)
Anjos da Terra (1990)
Espelho d’água (1993)
Monjolear (1996) – com Doroty Marques
Cantigas de abraçar (1998)
Cantos da Mata Atlântica (1999)
Folias do Brasil (2000)

35 anos do antológico Bandeira de Aço são celebrados com grande festa no Arthur Azevedo

Público lotou o teatro na primeira edição do BR-135 em 2013. Repertório do disco foi tocado na íntegra

Um encontro para a história da música brasileira

O Teatro Arthur Azevedo ficou absolutamente lotado para a celebração aos 35 anos do disco Bandeira de Aço, de Papete, divisor de águas da música brasileira produzida no Maranhão.

O projeto BR-135, capitaneado pelo casal Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões, propôs uma revisita ao repertório do antológico LP lançado pela Discos Marcus Pereira e revelou o que todos já sabíamos: todo mundo que faz música aqui bebe na fonte do disco que reuniu a obra dos “compositores do Maranhão”, como assinalava a capa da obra que muitos ouvem hoje como se fosse uma antologia, dada a qualidade do repertório. Não à toa Bandeira de Aço encabeçou a lista dos 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, recentemente realizada pelo jornal Vias de Fato.

Um balanço do projeto ao longo do ano passado mostrou números impressionantes no telão, principalmente de artistas que passaram pelos palcos do BR-135 – iniciado no ainda desativado Circo da Cidade, que precisa ser urgentemente reativado pela atual gestão municipal –, e de público presente aos eventos, cujo principal objetivo é a formação de plateia – o que se viu ontem no TAA é o bom resultado da iniciativa.

A projeção de um documentário, dirigido e narrado pelo poeta e jornalista Celso Borges, revelou histórias que jogam luz às polêmicas que sempre envolveram o Bandeira de Aço, sempre envolto por uma aura mística, justo também por isso. Entre os entrevistados, os quatro compositores das nove faixas, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota (o único que não mora no Maranhão e que não participou do show de ontem) e Sérgio Habibe, além do intérprete Papete, Chico Saldanha (que jogou a fita com a obra dos quatro nas mãos do percussionista maranhense e este apresentou-a a Marcus Pereira e o resto é história) e de diversos artistas para os quais o álbum é referência.

Ao longo do show o filme continuou dialogando com a plateia, entre uma música e outra, apresentando o contexto da época, as insatisfações de cada compositor com a interpretação de Papete para suas obras, o clima em que foi gestado e a repercussão do disco para suas carreiras artísticas e para a música do Maranhão e do Brasil em geral.

A homenagem do BR-135, a exemplo das edições anteriores do projeto, propôs também um diálogo entre a velha guarda e a nova geração de instrumentistas, cantores e compositores, percebido desde a formação da ótima banda que acompanhou a todos os artistas que pisaram no palco para a celebração: Erivaldo Gomes (percussão), Isaías Alves (bateria), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado, sanfona e laptop). Alê Muniz assinou os arranjos do que foi ouvido na noite histórica.

O repertório seguiu a ordem do disco, sob o cerimonial do ator César Boaes, ou de sua personagem na comédia Pão com ovo, sucesso de bilheteria que volta ao palco do TAA nas comemorações dos 196 anos da casa de espetáculo: o mestre de cerimônias carregou no humor, os risos da plateia em peso garantidos também pelas deliciosas histórias que os protagonistas relatavam.

Boi da lua, de Cesar Teixeira, abriu o show com interpretação do autor, num arranjo próximo ao original. De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) foi interpretada por Bruno Batista, entre a lentidão e uma “porrada de pista”. Flávia Bittencourt interpretou Flor do mal (Cesar Teixeira), música registrada por ela em Sentido (2005), seu disco de estreia. Boi de Catirina (Ronaldo Mota) teve o vigor interpretativo de Madian, com vocais das Afrôs. Fechando o lado a, Josias Sobrinho cantou e dançou sua Engenho de flores.

O lado b seguiu com Josias Sobrinho sendo interpretado pelas Afrôs: Dente de ouro, com direito a mina incidental. Eulália, interpretada por seu autor Sérgio Habibe ficou entre o bumba meu boi e a cantiga de ninar, reforçada pelo teclado de Rui Mário – muita gente foi ninada pelas letras das músicas do disco. Catirina, de Josias Sobrinho, ganhou arranjo reggae na interpretação competente de Dicy Rocha. Com introdução tango, o casal Criolina subiu ao palco para interpretar a faixa título, que fecha o disco. Entre o tango e o bumba meu boi, convidaram Papete ao palco, e depois todos os outros que por lá já haviam passado. A plateia tornou-se um imenso arraial, com muitos dos presentes batucando pequenas matracas distribuídas pela produção, e já que todo mundo havia engrossado o coro do batalhão, o assíduo Zé da Chave também estava no palco, dividindo a percussão com Erivaldo Gomes.

Há tempos eu não via o Arthur Azevedo tão cheio para um espetáculo de artistas genuinamente maranhenses. Que a semente do BR-135 floresça, a começar por um bis desta homenagem a Bandeira de Aço e, quem sabe, ainda este ano, uma homenagem ao também antológico Lances de Agora, de Chico Maranhão, outro disco trinta-e-cincão de nossa música. Fecho com o que declarou o dj Joaquim Zion (esposo de Dicy) em sua conta no facebook: “uma noite pra ficar na história da Música Popular Brasileira”.

Trapixixita

É certeira a afirmação do músico Chico Nô em e-mail recebido pelo blogue, ao classificar a Tribo do Pixixita, que completa nove edições hoje, como “uma mostra da música maranhense contemporânea”, ele um dos discípulos do homenageado, o evento já cravado no calendário musicultural da Ilha.

Tribo é corruptela de tributo a este “artista quase sem obra”, conforme me confidenciou Nelsinho Martins, filho de José Carlos Martins, o Pixixita. “Ele era sobretudo um cara que gostava de brincar, de música e de ser amigo. Gostava de tocar sem compromisso, tipo, no teu quintal, numa farra; se tu chamasse ele pro palco, pra tocar no teu show, aí ele já ficava envergonhado, era muito tímido”, lembra o professor de capoeira do Laborarte.

Um time de bambas de primeira linha da música produzida hoje no Maranhão ocupará o Trapiche Bar, na Ponta d’Areia, mesmo em caso de chuva, a partir das 21h: Ângela Gullar, Célia Leite, Chico Maranhão, Criolina, Dicy Rocha, Erivaldo Gomes, Gerude, Instrumental Pixinguinha, João Madson, Nosly, Rosa Reis, Tutuca e Zé Maria Medeiros, além do citado Chico Nô e dos poetas Celso Borges, Moisés Nobre e Paulo Melo Sousa. Direto de São Paulo, o maranhense de Cururupu Tião Carvalho fará o show de encerramento da noite. Mas certamente muitos artistas não anunciados devem dar o ar da graça e arte nesta noite que promete.

Engenheiro civil de formação, Pixixita teve na música sua grande paixão: figura querida por quantos o conheceram, foi professor da Escola de Música do Maranhão. Falecido em 2002, tem sido lembrado anualmente por esta festa que cresce a cada edição. Os ingressos custam apenas R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local. Abaixo, alguns momentos da edição de 2009, pra você entrar no clima, sacar qual é e ter desperto o desejo de pintar por lá mais tarde:

Antes da MPM

FLÁVIO REIS*

[Vias de Fato, setembro/2011]

Há alguns anos, um conhecido texto de Ricarte Almeida Santos, intitulado De Zeca Baleiro a Bruno Batista… ainda bem que “eu não ouvi todos os discos”, falava da inadequação do termo MPM (música popular maranhense) para se referir à música produzida aqui nos anos 70, 80 e 90. Saudava o disco de estreia de Bruno Batista [o homônimo Bruno Batista, 2004], cuja diversidade de influências o colocava fora da camisa de força da música baseada nos ritmos locais. Na sua crítica à adoção de um rótulo que “reduzia a produção musical do Maranhão a uma receita de sucesso, como se tentou”, não só utilizou os exemplos de Zeca Baleiro e Rita Ribeiro, então recém-incorporados ao cast da MPB, como finalizou dizendo que (e aí a radicalidade da negação) “isso já faziam seu Antônio Vieira, Josias Sobrinho, Chico Maranhão, Joãozinho Ribeiro, Cristóvão Alô Brasil, Cesar Teixeira, Seu Bibi, Dilú e tantos outros que por aqui produziram a verdadeira Música Brasileira”. O texto reportava-se a outro artigo, escrito pelo jornalista Hamilton Oliveira, cujo título era bem direto: Adeus ‘MPM’! Salve o Compositor Popular Brasileiro, onde afirmava que “o rótulo criado por certos artistas, produtores e comunicadores para vender a nossa música só contribuiu para esconder a sua verdadeira natureza”.

Comentando as observações de Ricarte e Hamilton, o compositor Chico Maranhão publicou um importante artigo, MPM em Discussão (O Estado do Maranhão, 18/07/2004), em que tenta delinear o que seria afinal a MPM. Uma das figuras de proa do movimento gestado nos anos 70 de aproveitamento de ritmos e temas para “a construção e a afirmação de uma canção maranhense moderna”, parece identificar seus pontos distintivos nos “textos cantados” e na “pulsação boeira”. Ele localiza como os experimentos em curso, que tiveram no Laborarte um espaço catalisador, estavam ligados à afirmação de uma identidade cultural e a música popular seria para isto um “veículo significativo, embora naquela época, inconsciente”. Por outro lado, a condição periférica “em relação aos centros produtores da MPB… é um fato preponderante na nossa produção, portanto a adoção da sigla MPM, que aqui não estou defendendo, mas apenas discutindo, se não mais tem razão de ser teve seu momento de importância quando aglutinadora de idéias, contribuindo na consciência de uma poesia musical comprometida com a realidade maranhense”. Assim como Ricarte concluía seu artigo com o elogio de um cd que estaria além do rótulo, Chico Maranhão termina, de maneira inversa, afirmando que Shopping Brazil, de Cesar Teixeira, e Alecrim Cheiroso, de Rosa Reis, duas produções do Laborarte, seriam autênticas expressões da “música popular maranhense”. O que faltaria? O velho sonho: uma gravadora e disposição das rádios para rodar os discos (“o ‘jabá’ deve sair da alma maranhense”).

O tema é intrigante, pois se chegarmos, por exemplo, no Recife ou no Rio de Janeiro e falarmos em MPM, provavelmente ninguém saberá do que se trata (talvez nem mesmo muitos de nós). O termo deve ter aparecido em meados dos anos 80, não se sabe ao certo, mas na década de 70 não se falava nisso. Naquele tempo, o lance ainda estava sendo gestado, os elementos da estética tomando forma. O rótulo apareceu quando se tentou vender a coisa, depois do marco que foi o disco Bandeira de Aço, mas aí já não era tanto a pesquisa, a experimentação e o talento que davam o tom, mas certo esvaziamento estético, os teclados de estúdio, a ânsia do “sucesso”, a pasteurização. De qualquer maneira, em 82 a expressão começa a ser desenhada num “I Festival de Verão da Música Maranhense”, uma parceria da Mirante FM e a TV Ribamar, do grupo Vieira da Silva. Essa é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis. Afinal, chegou a se constituir algo distinto na música produzida aqui (leia-se São Luís) que justificasse um rótulo ostensivo cuja grafia busca mesmo uma simetria com a expressão “música popular brasileira”? Como essa transformação na música se articula com outros campos artísticos e, principalmente, com as alterações na discussão sobre a identidade maranhense que então se iniciavam?

O Maranhão sempre cultivou uma diferença dentro do nordeste em termos da natureza e da cultura e ao mesmo tempo nunca se identificou com o norte. As representações elaboradas pelos intelectuais locais primeiro buscaram num passado idealizado o que nos distinguiria. De forma lenta a partir dos anos 70 até estourar nas duas últimas décadas, essa diferença foi se fixando na exaltação da cultura popular. Continuávamos a nos sentir descendentes dos “atenienses” do século XIX (a cidade dos poetas), a fazer referência a uma mítica “fundação francesa”, ter orgulho dos casarões (a cidade dos azulejos) – apesar de no dia-a-dia eles continuarem despencando – no entanto, cada vez mais o orgulho foi passando para algo antes quase escondido, as manifestações culturais populares como o bumba meu boi e o tambor de crioula. A questão da gestação de uma música, na verdade de uma arte com traços distintivos regionais, pois a tentativa era de articulação entre várias manifestações, deve ser tratada dentro do arco longo que envolve as modificações estéticas ocorridas na canção brasileira moderna, os ventos liberadores da contracultura e a rotação nos debates em torno da cultura popular e da identidade.

É possível indicar que o aproveitamento de motivos populares para a formação de um cancioneiro popular se desenvolveu lentamente desde os anos 30 no mundo da boemia e ao abrigo das festas populares, chegando ao rádio em programas ao vivo. Existia uma “velha guarda” de compositores e músicos populares, criadores de choros, sambas, xotes, baiões, inspirados na realidade maranhense (Antônio Vieira, Lopes Bogéa, Agostinho Reis, Cristóvão Alô Brasil, entre outros cronistas da cidade, da vida nos bairros). Um nome que surgiu na década de 50, saiu ainda moleque e fez carreira transformando-se em referência nacional foi João do Vale. De maneira geral, a questão se resume em que as temáticas tratadas eram daqui, mas os ritmos e danças populares ainda não haviam influenciado as formas musicais, o que pode ser observado no I Festival de Música Popular Brasileira no Maranhão, realizado em 1971. Com exceção de Boqueirão e Toada Antiga, as composições não fazem utilização de ritmos locais. O próprio nome do festival deixa claro que ainda não havia essa ideia de uma música maranhense, com elementos distintivos no cenário nacional. A música de maior sucesso junto ao público foi uma canção melosa cujo título dizia tudo, Louvação a São Luís, do poeta Bandeira Tribuzzi. Estavam presentes, entretanto, nomes que seriam fundamentais nas elaborações estéticas que marcariam a década, como Sérgio Habibe, concorrendo com a belíssima Fuga e Anti-Fuga, Giordano Mochel, com Boqueirão, que se tornaria um clássico do moderno cancioneiro maranhense e Ubiratan Souza, o grande arranjador daquela sonoridade com “pulsação boeira” de que falou Chico Maranhão.

Na década de 70, um pequeno vulcão irrompeu em São Luís num casarão localizado à rua Jansen Müller, o Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte). Fruto da junção de movimentações que já se produziam no campo do teatro, com a experiência do Teatro de Férias do Maranhão (Tefema), organizado por Tácito Borralho, da dança, com o grupo Chamató de danças populares de Regina Teles, e da poesia, com o grupo Antroponáutica, de que faziam parte Valdelino Cécio e Luiz Augusto Cassas, ao qual se juntaram a música, com Sérgio Habibe e Cesar Teixeira, logo também Josias Sobrinho, Ronald Pinheiro, Zezé [Alves], a fotografia e o cinema com Murilo Santos. Unia todas essas figuras o interesse na pesquisa das manifestações da cultura popular, geralmente ainda vistas sob a ótica do “folclore”, para servir de substrato a uma arte moderna, engajada e identitária. Como disse Tácito, principal mentor e, de resto, o melhor analista do processo, o Laborarte era “na sua formulação e urdidura, um grupo, mas na sua proposta básica e fundamental, o desencadeador de um movimento estético-político”. Esses jovens criativos e cheios de idealismo iniciaram uma estética de reelaboração dos ritmos e danças e exploração do imaginário das manifestações pesquisadas em lugarejos da ilha de São Luís ou no interior do estado. Alteraram o teatro que se fazia aqui nos anos 70, sob a direção de Tácito, com peças como João Paneiro e O Cavaleiro do Destino, em parceria com Josias, misturando atores e bonecos gigantes, cenários e figurinos utilizando materiais e cores presentes nas comunidades, com linguagem e ritmos das próprias manifestações culturais em foco e mobilizando largamente o rico universo de lendas do Maranhão, tratando de temáticas engajadas como a discussão dos efeitos da implantação da Alcoa para várias comunidades que estavam sendo desalojadas, ou seja, tudo acompanhado de um trabalho de educação popular e conscientização política, como se dizia então. Após a saída de Tácito, além da continuidade desse teatro de pesquisa, agora sob a direção de Nélson Brito, o Laborarte teria papel importante na valorização de danças antigas (tambor de crioula) e na propagação de danças novas (cacuriá).

No campo da música, a influência foi mais localizada no tempo, quando lá estavam Cesar, Sérgio, Josias, até meados dos 70, mas decisiva na elaboração dos traços do que seria posteriormente chamado de MPM. Esses são autores de clássicos reconhecidos como Bandeira de Aço, Boi da Lua, Flor do Mal, Eulália, Cavalo Cansado, Ponteira, Engenho de Flores, Dente de Ouro, Catirina e tantos outros. Formaram o substrato que daria origem a Bandeira de Aço, disco gravado por Papete para o selo de Marcus Pereira em 1978, uma espécie de marco inicial e ao mesmo tempo principal da mistura que se operava criando uma canção com sotaque perfeitamente discernível, no sentido preciso de poder ser identificado como algo desta região, de pandeirão, tambor, matraca, da mesma forma que o maracatu, por exemplo, marcaria anos depois de maneira igualmente indiscutível a música produzida pelo movimento do manguebeat no Recife. O experimento inspirava-se nos ritmos, na riqueza melódica, no traço poético presente em nossas manifestações populares. Sérgio Habibe, em informação verbal colhida por Tácito, relata que “naquela época fazia um tipo de música, Cesar Teixeira fazia outro e Josias Sobrinho, um outro. E que foi só começarem a trocar idéias para chegarem facilmente a um consenso: os ritmos do bumba-boi, do tambor de crioula etc. Foi só trabalhar nisso e começou a aparecer um perfil de música maranhense. Dois anos depois, quando os três tomaram consciência da coisa, já tinham provocado uma reviravolta em São Luís”.

Entretanto, a questão da gestação dessa música tem pontas igualmente importantes para fora, que se cruzam com o Laborarte. Uma delas é a figura crucial de Chico Maranhão. Descendente de família tradicional dos tempos do Império, os Viveiros, mas já sem as posses de outrora, estudava arquitetura na USP no final dos anos 60 e estava completamente enfronhado nas modificações da canção operadas nos festivais, tendo obtido mesmo algum sucesso com o frevo Gabriela no Festival da Record de 1967, defendida pelo MPB4. Em 1974 gravou o disco Maranhão, nome pelo qual era conhecido, pelo selo Marcus Pereira. Estão lá além de Gabriela, músicas importantes como Cirano, onde mostrava todo o seu potencial de letrista; Cabocla, um samba dialogado, espécie de resposta a Carolina, de Chico Buarque, e Lindonéia, de Caetano, na verdade superior a ambas; Deixa Pra Lá, outro samba simples, mas envolvente com a letra levada num canto quase falado e Bonita Como Um Cavalo, um de seus clássicos. A rigor esse trabalho se localiza no meio das transformações da canção, na métrica, no linguajar, que estavam sendo operadas pelos Chicos e Caetanos da nascente MPB, pois esta designação, é bom frisar, se consagra a partir desse período. De volta a São Luís, em busca dos ritmos do tambor, dos bois, da Ponta da Areia, entra em relação com o pessoal do Laborarte e lança em 1978 o fundamental Lances de Agora, novamente para o selo de Marcus Pereira, gravado na sacristia da igreja do Desterro, com o Regional Tira-Teima, onde despontavam Ubiratan [Souza], [Chico] Saldanha, Paulo [Trabulsi, então com apenas 17 anos], [Antonio] Vieira [único já falecido entre os músicos de Lances de Agora], Arlindo [Carvalho], e mais a presença de outros nomes, entre eles, Sérgio Habibe tocando flauta e Rodrigo engrossando o naipe de percussionistas. Aqui as músicas possuem maior influência dos ritmos regionais, mesmo que o leque seja variado, incluindo samba-choro, frevo, marcha, canção, toadas. Dois anos depois lançaria Fonte Nova, que ainda traz boas músicas desta fase, como a faixa-título, Veludo, Viver e a impressionante A Vida de Seu Raimundo, uma história de sequestro, tortura e assassinato, contada em detalhes, inclusive com o cinismo das versões oficiais, as notícias, os boatos, enfim, todo o enredo daqueles tempos da ditadura. É o traço do “texto cantado” levado aqui ao paroxismo, próximo mesmo à experiência dos repentistas, brincando com as palavras com maestria. Maranhão organizou o tambor de crioula Turma do Chiquinho, que manteve longo tempo e durante a década de 90 retomou as gravações, mas com trabalhos desiguais e sem o mesmo vigor, destacando-se, no entanto, outro momento memorável na “Ópera Boi” O Sonho de Catirina.

Dois nomes também importantes que corriam por fora da experiência do Laborarte eram [Giordano] Mochel e Ubiratan Souza.  O primeiro, nascido na região da Baixada, de onde retira muita influência da poética e das melodias chorosas do sotaque de orquestra, é autor de pérolas como Boqueirão, São Bento Velho de Bacurituba, Biana. Cedo se estabeleceu no Rio de Janeiro e somente em 93 gravou o disco Boqueirão, reunindo algumas de suas melhores composições e chegando a levar o prêmio Sharp na categoria “revelação regional”. O segundo é formado em enfermagem, mas antes de tudo compositor, ótimo músico autodidata e exímio arranjador. Foi responsável pelos arranjos de Lances de Agora, sempre atento às nuanças das letras de Chico Maranhão, do belo show Pitrais de Mochel, realizado no final da década de 70 no Teatro Arthur Azevedo e, posteriormente, quando da gravação do primeiro disco de Josias [Sobrinho, Engenho de Flores] ou do já citado de Mochel, é quem responde pelas faixas que possuem o arranjo mais próximo da sonoridade “boeira” que se conseguia por aqui.  Um arranjador sempre variado, um banjo ali, um clarinete acolá, um detalhe de percussão, um coro bem colocado, isso tudo num acabamento cuidadoso bem típico de Ubiratan, outro que também se estabeleceria em São Paulo a partir do início dos anos 80 e lançou vários discos. Esta é uma questão importante porque uma das tragédias da chamada MPM é que raramente conseguiram no estúdio o impacto da sonoridade acústica das apresentações.

Depois que deixou o Laborarte, César mergulhou na Madre Deus, bairro cheio de compositores, velhos tocadores de choro e samba, blocos de carnaval, brincadeiras locais e muita cachaça, fez shows, sempre mais raramente que todos os outros, participou de festivais, onde emplacou sucessos como Oração Latina, mas só gravaria um trabalho mais de duas décadas depois, o ótimo cd Shopping Brazil. Sérgio [Habibe] foi para os EUA, depois transitou pelo Rio de Janeiro, fez shows pelo projeto Pixinguinha em cidades do país e volta e meia estava de novo aqui, onde se fixou de vez, lançando alguns discos a partir do final dos anos 80. Em 2008 gravou Correnteza, ao vivo no estúdio, um bom apanhado de suas melhores canções, contando com outro grande arranjador, Hilton Assunção, fazendo o retorno à sonoridade acústica na qual essas músicas rendem melhor, depois de discos com certa roupagem pop. Lá estão Eulália, Jardins e Quintais, Do Jeito que o Diabo Gosta, Cavalo Cansado, Panaquatira e outras conhecidas, fechando com Olho D’Água, uma bela e sombria denúncia da destruição ambiental de uma praia que sempre lhe foi tão cara. Josias formou o quase lendário Rabo de Vaca, com Beto Pereira, Zezé [Alves], Tião [Carvalho], [Manoel] Pacífico, Erivaldo [Gomes], depois também, Jeca, Mauro [Travincas], Ronald [Pinheiro] e Omar [Cutrim]. Criado para acompanhar um espetáculo teatral, tornaria-se um grupo forte, inesquecível, que se apresentava nas praças, em auditórios, igrejas e associações de bairro ou onde fosse. Era uma verdadeira caravana apta a absorver quem chegasse e o clima de mistura, liberdade e simplicidade daquela música contagiava os poucos que se aventuravam a segui-los. O grupo se desfez em 82, depois de cinco anos de atividades e shows memoráveis como Dente de Ouro, Nesse Mato tem Cachorro e Vida Bagaço, apesar da precariedade constante e às vezes até da inexistência do sistema de som. Alguns foram para São Paulo, Josias e Beto [Pereira] partiram para a carreira solo aqui mesmo. Josias gravaria o primeiro disco apenas em 87, em São Paulo, com a presença de ex-companheiros do Rabo de Vaca, sem a mesma energia, mas ainda com bom resultado em várias faixas, desfilando belezas como Terra de Noel, Coragem das Matracas, Vale do Pindaré, Olhos D’água. O segundo disco, quase todo com o recurso de programações, e o terceiro são bem inferiores, algumas boas músicas ficaram prejudicadas, mas ainda é possível destacar Boi de Pireli e Nas Águas. Conseguiria uma qualidade melhor de arranjo e gravação num cd [Dente de Ouro] produzido por Papete em 2005, onde volta aos sucessos conhecidos, relembra outras composições do tempo do Rabo de Vaca (Três Potes, Rosa Maria) e junta com sucessos mais recentes, como O Biltre.

Na verdade, os três compositores fundamentais oriundos do Laborarte se tornaram aos poucos conhecidos dos maranhenses com o lançamento do disco Bandeira de Aço, do percursionista Papete, em 1978, todo com composições desses novos nomes da música local. O disco estourou, a população passou a cantar os sucessos principalmente no período junino, a se identificar naqueles versos e ritmos. Músico já rodado, apesar de ainda jovem, Papete reuniu um time de ótimos instrumentistas e conseguiu extrair um som equilibrado dos pandeirões e matracas. Apesar dos conhecidos erros nas harmonias e nas letras de algumas músicas, uma seleção de resto muito feliz, Bandeira de Aço firmou-se como um marco desta estética que estava sendo perseguida desde o início da década. A voz fraca de Papete ficou ótima, com um acento lamentoso. Ninguém cantou melhor Boi da Lua e Catirina, por exemplo, para ficar nestas. Um disco histórico.

A situação parecia promissora no final dos anos 70. Dois discos fortes, Lances de Agora e Bandeira de Aço, shows utilizando o espaço de teatros, do Arthur Azevedo (na gestão de Arlete Nogueira, porque depois o sempre ridículo Pergentino Holanda, num ataque de “francesismo ateniense”, tentou se livrar da moçada proibindo camisetas e chinelos…), passando pelo Viriato Correa (Escola Técnica), Jarbas Passarinho (Ufma) ou o pequeno teatro do Museu Histórico, de praças, como a Deodoro ou parques, como o do Bom Menino, mas também bairros da periferia, Anjo da Guarda, Liberdade, Anil e até algumas cidades próximas do interior. O público em potencial parecia existir e não só entre jovens universitários de classe média. As rádios ainda resistiam, mas, no início da década a Rádio Universidade e a Mirante se diziam dispostas a “tocar música maranhense”, como lembrou Chico Maranhão no artigo citado. Para completar, o discurso que abria o campo de representações sobre a identidade maranhense no sentido de incorporar um conceito de popular se aprofundaria cada vez mais a partir daí, como indicando uma vitória da luta para ver e ouvir nossas próprias manifestações empreendida no âmbito do Laborarte. Onde, então, a coisa degringolou e o projeto ficou a meio caminho, foi se tornando aguado?

"Com a exceção de Cesar Teixeira, quase todos estavam lá"

Para indicar logo problemas no âmbito do mercado fonográfico, os dois discos tinham saído dos esforços de Marcus Pereira, mas ele faliu e terminou de maneira trágica, cometendo suicídio depois de ter lançado mais de cem títulos, muitos de importância crucial para o mapeamento da diversidade musical brasileira. As rádios locais, por seu lado, roeram a corda, pois achavam que a “música maranhense” caía bem somente no período junino. Sem muita perspectiva profissional, vários músicos tomaram o rumo do eixo São Paulo e Rio. Em 1980 houve um projeto coletivo com compositores locais, financiado pelo órgão de cultura do estado com apoio da Funarte, uma coletânea intitulada Pedra de Cantaria, disco gravado em Belém, com direção musical de Valdelino Cécio e arranjos de Ubiratan Souza. Alguns desentendimentos parecem ter cercado a execução do projeto, mas, com a exceção de Cesar Teixeira, quase todos estavam lá, Chico [Maranhão], Sérgio [Habibe], Josias [Sobrinho] e o pessoal do Rabo de Vaca, [Giordano] Mochel, Hilton [Assunção], Ubiratan [Souza] e [Zé Pereira] Godão, uma figura que seria cada vez mais importante nas articulações entre cultura popular, mídia e mercado. Cinco anos depois, com patrocínio da Mirante FM, que comemorava seus quatro anos de existência, foi lançado Arrebentação da Ilha, outra coletânea, cuja música de abertura, Quadrilha, é uma criação coletiva (Chico, Josias, Sérgio, Ronald e Godão). Aqui o processo toma uma feição mais definida, estão lá muitos dos antigos que participaram do projeto anterior com a presença de uma nova geração (Gerude, Tutuca, Jorge Thadeu e outros).  No geral, a tônica dos antigos foi uma dificuldade para gravar e, quando o fizeram, muitas vezes o resultado ficou aquém da intensidade ouvida na década de 70. Os nomes que continuavam aparecendo (César Nascimento, Carlinhos Veloz, Alê Muniz, Mano Borges etc.) não tiveram a mesma preocupação com a pesquisa, não eram também tão talentosos e logo buscaram se diferenciar da geração anterior no que diz respeito à utilização dos ritmos regionais, estabelecendo uma descontinuidade. Ou seja, a cena tinha se esvaziado, era outra coisa, rodava agora em torno do rádio e do disco e no meio artístico muitos ambicionavam o estrelato a todo custo, ainda que fosse apenas um pequeno estrelato local. Tentava-se uma entrada desastrada, porque submissa até a ingenuidade, no âmbito da indústria cultural, com gravações em condições inadequadas, o compadrio e outros interesses influindo decisivamente na oferta das poucas fontes de financiamento, passando muitas vezes pelos favores de Fernando Sarney, através da Cemar e da Mirante. Em suma, não chegou a se configurar propriamente um mercado, gerando uma antítese mal sucedida da tônica radical da década anterior, que havia chegado quase à negação total de mercado e mídia.

Todos estes problemas, é bom frisar, não são posteriores e sim ocorrem de forma mais ou menos simultânea ao próprio aparecimento do termo em questão MPM. O eixo central não era mais aprofundar a pesquisa da diversidade cultural e revolver a identidade através da música, mas apresentar e vender o que aparecia como novidade. O desastre começou pela própria designação que, antes de especificar, parecia mesmo restringir o alcance da música, circunscrevendo seu mercado potencial, piorado pelo já mencionado fato de seus divulgadores locais estabelecerem uma nova restrição ao relacioná-la às festas juninas. Visto retrospectivamente era uma autêntica vitória de Pirro, quase no mesmo passo saímos de uma situação aparentemente promissora para um esvaziamento precoce, o que parece indicar os limites em que a experiência toda se gestava, mas para perceber o quadro é preciso recuar e ampliar o foco.

As transformações que o Maranhão conheceu a partir do final dos anos 60 na esteira dos processos econômicos acelerados com o golpe militar configuraram uma “modernização oligárquica”, como tem acentuado o historiador Wagner Cabral. A antiga São Luís da Praia Grande e do Desterro, da velha trilha do Caminho Grande, fechava o seu longo ciclo e daria lugar à rápida expansão a partir do São Francisco e Calhau, de um lado, e através da criação de bairros populares no interior da Ilha, por outro. A economia não era mais controlada pelas antigas firmas comerciais e muitas de suas famílias entraram em processo de declínio financeiro. Os novos horizontes econômicos apontavam para os grandes projetos de interesse do governo federal, como a exportação do minério vindo de Carajás, o estabelecimento da Alcoa, o estímulo à formação do agronegócio no sul do estado e o início da preocupação com o turismo, enquanto mercadoria e enquanto renovação de laços de identidade, através da exaltação da natureza e do patrimônio arquitetônico. Num quadro de alterações lentas, mas de rápida expansão demográfica e êxodo rural intenso, a preservação de aspectos essenciais da dominação oligárquica veio acompanhada de modificações nos símbolos legitimadores da identidade, um embate em que o predomínio do culto dos expoentes da Atenas Brasileira e a própria instituição responsável por ele, a Academia Maranhense de Letras, entram num refluxo, cedendo lugar a novos atores. Numa palavra, trata-se do processo ainda em curso da aproximação entre a cultura ateniense e a cultura popular, com o predomínio agora dos símbolos desta última enquanto eixo ordenador do debate sobre identidade, um processo longo em que as agências estatais criadas a partir da década de 70, as secretarias e seus tentáculos nas fundações e conselhos foram paulatinamente definindo uma institucionalização da cultura que veio para o centro da cena nos últimos governos.

Entretanto, na década de 70, ponto chave da transição, o impulso mais interessante não vinha das agências governamentais, por mais que nestas estivessem folcloristas importantes como Domingos Vieira Filho, Américo Azevedo, Rosa Mochel e Zelinda Lima, para citar alguns, mas sim do encontro entre a onda contracultural com suas formas de mobilização através do grupo como comunidade alternativa, a disposição de setores escolarizados de classe media de produzir arte com base em olhares cruzados de vários campos sobre manifestações da cultura popular, expressando em termos locais os ventos da época e aproximando nossa experiência estética das transformações que sacudiram a cultura brasileira no final da década de 60 e, por fim, a existência de redutos criativos, como o circuito Madre Deus/São Pantaleão, cujas trocas são antigas, e outros que surgiam, como o Anjo da Guarda. Nas palavras de Cesar Teixeira, em antológica entrevista [em seis partes, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui] dos três compositores e ex-integrantes do Laborarte a Itevaldo Jr., era “buscar as raízes para uma afirmação da arte enquanto representação de uma cidadania inexistente” (O Estado do Maranhão, dez/98). Nesse momento, o Laborarte significou uma fenda e uma proposta mais avançada no campo estético e político, na medida em que implicava numa série de atritos de valores e comportamentos em uma sociedade bastante provinciana, sem falar nas perseguições da polícia e da censura. Mas isso era apenas um dos lados do processo que envolvia outros e mais poderosos interesses e seria redirecionado a partir da década de 80, com a entrada dos meios de comunicação, notadamente a organização da Mirante, veículo que terminaria estabelecendo a linguagem de teor turístico e mercadológico, vazia de tensões, predominante até hoje nesse processo de rotação dos signos da identidade. 

Como ficamos então? Entre o ponto onde estávamos na discussão sobre cultura e identidade nos anos 60 e o que vigoraria principalmente a partir dos anos 90, encontra-se um momento ímpar na década de 70 e início da seguinte, tempo de indefinições e possibilidades que frutificaram das margens para propor novas representações artísticas no teatro, na dança, na música, na poesia, nas artes plásticas, na fotografia, no estímulo às filmagens, como se verificou no rápido boom do Super-8. A movimentação que existia era além do Laborarte. No entanto, o chão estava dado pelos “parceiros indesejáveis” dos governos, do mundo das comunicações e da publicidade, dos pesquisadores universitários, das agências de turismo, dos interesses empresariais. No fundo, as trocas e experiências artísticas ficariam em segundo plano em nome de uma profissionalização capenga que arrastou a todos, artistas e brincantes, submetendo-os através de expedientes de padronização ao tempo que estimulou vaidades, ressentimentos e incompreensões sobre o significado desse momento onde repousa o enigma (ou será o logro?) da MPM, que parece existir quando ainda não é nomeada e se torna uma incômoda indagação logo que é batizada. A defasagem indica que algo ficou incompleto, sentimento estranho de presença/ausência que não passou despercebido a Chico Maranhão, quando rememorava os efeitos da inexistência de uma crítica que refletisse sobre aquela produção musical no momento em que ela estava ocorrendo e arrematou dizendo que o motivo para isto era simples: “não se cria uma crítica (literomusical) sobre um movimento sem que ele primeiro exista de fato e tenha bases reais para reflexão”.

No esquema artesanal em que operava, aquele núcleo de artistas nunca se ocupou com as questões do mercado e da mídia e não soube ou não pode criar um caminho que atasse o jorro criativo coletivo aos imperativos da expansão através da utilização dos meios de comunicação. Os episódios quase anedóticos que cercam a realização do disco Bandeira de Aço e o imbróglio posterior envolvendo Papete e os compositores são uma sucessão de mal-entendidos ilustrativos das dificuldades daquela geração com a questão do mercado. Em seguida, a aproximação com as agências governamentais ou com o mecenato privado foi feita na maioria das vezes segundo os esquemas de patronagem comuns de uma ordem oligárquica, onde o patrocínio não difere do favor. Quem não topou ficou no ostracismo ou caiu fora, quem topou terminou participando de uma patética diluição. Tudo isso corroeu muito da reflexão crítica que estava presente nos trabalhos da década de 70. No decorrer dos anos não teríamos nem movimento nem crítica cultural, apenas um slogan gerado mais por motivações de mídia, dos órgãos de cultura e de um punhado de individualidades tentando sobreviver disputando espaço num mercado ainda bem acanhado, quase reduzido a arraiais de shopping e similares, em íntima relação com os representantes da oligarquia local. Uma caricatura sem nenhum viço de algo que surgiu de forma criativa e contestadora, apesar das referências autoelogiosas tão comuns sobre a riqueza da nossa música.

Mesmo um reduto rico em tradições como a Madre Deus perdeu muito do seu potencial, as novas manifestações que ali surgiram a partir de meados dos anos 80 foram com o tempo sendo moldadas segundo interesses turísticos, em conluio e bastante submissas à estratégia governamental de mercantilização da cultura. E a Turma do Quinto terminaria na avenida cantando “embala eu mamãe Kiola, embala eu”, no ridículo samba enredo de 2004, O Quinto é Minha Lei: O Meu Enredo é José Sarney (nome de luta, exemplo e trabalho, segundo a letra de Bulcão, o eterno secretário estadual de cultura). Precisa dizer mais? Longe já iam os tempos de enredos irreverentes como Ali Babão e o Sete Ladrão (1986): “Abre-te Sésamo/ abre o envelope/ pois na hora que se junta/ se prepara mais um golpe”. O processo havia se completado, a cultura institucionalizada virou o local da estetização mercantil das manifestações populares e não mais o da experimentação estética elaborada a partir de sua riqueza e diversidade. De arma crítica, a música que continuou a se apresentar como maranhense voltou-se quase sempre para a louvação e a repetição, seguindo as regras predominantes do discurso publicitário. Virou “Som do Mará” e muitos passaram mesmo a propagar os valores de uma “maranhensidade”, com indisfarçável acento bairrista, em guinada conservadora que não tinha mais nada a ver com as propostas renovadoras dos anos 70.

O nascimento da moderna MPB nos debates da década de 60 resultou de uma aproximação com o universo da cultura popular e em rediscussão do problema da identidade, numa articulação decisiva com a televisão e com a reorganização de todo o mercado da música, criando um rótulo que funcionava como “senha de identificação político-cultural”, na feliz expressão de Carlos Sandroni, mas cuja pretensão era agregativa. Tal função se desgastou e no final dos anos 80 a sigla passaria a designar vagamente um segmento do mercado na enorme variedade da música brasileira. É nessa onda, quando a ênfase se deslocava para a redefinição dos nichos de mercado que a nossa sigla aparece, como em outros momentos, através de uma identificação frágil que busca marcar mais a distinção que a diferença, com a desastrada apropriação mercadológica e oficialesca de um movimento estético interrompido, cujos melhores frutos já haviam sido colhidos. Só para terminar jogando uma última lenha na fogueira, Shopping Brazil, o esperado cd de Cesar Teixeira lançado em 2004 e com promessa de reedição para este ano, mastigou isso tudo e saiu lá na frente, mesmo quando revisita clássicos do que seria posteriormente chamado de MPM. É um Maranhão colocado no miolo do furacão, misturado com o Brasil, ou até mesmo a apresentação fundamental do Brasil como um grande Maranhão, e não separado para consumo no armazém das diferenças culturais. É música popular brasileira contemporânea sim, feita aqui e da melhor qualidade, como é o caso também do sofisticado Emaranhado, lançado em 2008 por Chico Saldanha e da simplicidade delicada de Eu Não Sei Sofrer em Inglês, o recente trabalho de Bruno Batista.

Agradeço as informações, dicas e comentários de Celso, Cesar, Reuben, Ricarte e Zema. Tudo gente boa, tudo gente doida. Este artigo é dedicado a dois antigos parceiros nas andanças e descobertas da cena musical maranhense no final dos anos 70, Demétrius Almeida da Silva (em memória) e Augusto Anceles Lima.

*FLÁVIO REIS é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, autor de Cenas Marginais (ed. do autor, 2005), Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (ed. do autor, 2007) e Guerrilhas (coletânea de artigos fechada por este Antes da MPM a ser publicada ainda em 2011).