O tempo de Elomar

Elomar e João Omar durante o concerto “Muntano o Mondengo”, sexta-feira (24), no Teatro Arthur Azevedo. Foto: Zema Ribeiro

 

Além da obra monumental, extensa e singular, que fala por si só, o anacronismo faz de Elomar uma figura ímpar.

Diversas vezes durante o concerto Muntano o Mondengo, apresentado no Teatro Arthur Azevedo, sexta-feira passada (24), o artista declarou sua inadequação ao tempo em que vivemos, como se tivesse “descido na estação errada”, para usar suas próprias palavras.

Aos 80 anos, Elomar está em plena forma: pensamento afiado, memória idem, para lembrar as quilométricas letras de suas composições, as mãos dando conta de suas elaboradas melodias. “Se eu voltasse no tempo e fosse fazer tudo de novo, eu ia fazer como rock. Três acordes, às vezes um, e tá tudo certo. E a juventude gosta”, declarou, num dos muitos pontos do show em que fez a plateia rir. A sério, relacionou as opções musicais do povo à situação em que o país se encontra.

“Eu já nem devia estar cantando, minha música está fora de moda”, disse, modesto, ao mesmo tempo em que agradecia a presença do público, que compareceu em bom número ao teatro, aproveitando talvez uma das últimas oportunidades de assistir Elomar por estas bandas. Suas apresentações devem ficar cada vez mais restritas à Casa dos Carneiros, fazenda em que mora e onde construiu um espaço para a apresentação de óperas.

O artista não gosta de viajar de avião, o que torna ainda mais difícil grandes deslocamentos. Ao relembrar o trajeto que fez até São Luís e projetar o que faria de volta até Vitória da Conquista, tornou a brincar: “avião de rico vai direto, de pobre vem pingando. A gente saiu de Vitória da Conquista, foi pra Salvador, de lá para Recife, pernoitamos em uma pensão, de lá para cá. Afora que os pousos são sempre difíceis, eu não sei como é que ateu anda de avião”, afirmou, fazendo a plateia cair na gargalhada.

Outra inadequação de Elomar aos tempos modernos é a dependência humana do celular. Como no show que apresentou no mesmo palco em 2014, novamente o cerimonial foi direto ao frisar a proibição de filmar ou fotografar o espetáculo – tomei a liberdade de fazer um único registro, pensando em ilustrar o que viesse a escrever sobre o show. Em ambas as ocasiões, o menestrel de Vitória da Conquista apresentava, no repertório, alguns temas inéditos.

Numa de suas saídas do palco, em que o filho João Omar ficava sozinho, ao violão, executando peças compostas por Elomar, como Calundu e cacoré, voltou demonstrando insatisfação: disse que não tocaria mais nenhuma das peças inéditas previstas no script. E lembrou-se de diversas ocasiões em que shows seus foram parar “no tubo”, fazendo novamente a plateia gargalhar ao aportuguesar o youtube.

João Omar lembrou-se do tempo em que só encontrava partituras ao viajar, e de como tirava músicas de ouvido, escutando discos como Violão Brasil, do violonista maranhense Turíbio Santos, com a participação especial do idem ibidem João Pedro Borges. Acabaria tomando aulas com ambos e a eles dedicou São João Xaxado, outra peça para violão solo de Elomar.

Depois Elomar voltou atrás e apresentou composições inéditas, entre árias e trechos de óperas, demonstrando o engano de quem acredita ser o baiano um daqueles artistas que vive do passado. Entre suas músicas mais conhecidas, apenas Faviela, Corban e Clariô, a que convidou o público a cantar junto, já no bis – “bis é um porre”, declarou após os pedidos de “mais um”.

Arquiteto de formação, Elomar não poupou elogios à beleza do Teatro Arthur Azevedo, além de fazer os devidos agradecimentos aos técnicos – som e luz irretocáveis, “sem uma microfonia, um piado”, declarou – e à produção, realizada por cúmplices capitaneados pelo “cavaleiro” Aidil Filho, “um idealista” que trouxe Elomar pela segunda vez à ilha – foi quem “tomou a iniciativa” (significado da expressão que intitula o concerto de sexta passada) e encabeçou a organização do concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, em 2014.

O time de cúmplices parece disposto a novas empreitadas. Resta saber se pode contar com o aval de Elomar, que certamente sempre terá um público disposto a ouvi-lo.

João Omar: muitos anos de jornada

“Anda, muntemo o mondengo pra nóis í prá lá” é o verso que fecha Na quadrada das águas perdidas, faixa-título do elepê que Elomar lançou pela Discos Marcus Pereira em 1979.

Muntano o mondengo é o nome do concerto que o compositor apresenta, acompanhado do filho João Omar, amanhã (24), em São Luís, às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro) – os ingressos custam entre R$ 60,00 e 100,00 e estão à venda na bilheteria do teatro.

A expressão que batiza o espetáculo significa “tomando a iniciativa” e traduz a forma como um artista outsider – com o perdão do estrangeirismo que ele próprio condenaria – consegue percorrer o país: depois de passagens por Recife e João Pessoa, Elomar chega à São Luís trazido por um fã.

“Um cavaleiro”, “um idealista”, certamente adjetivaria o próprio Elomar, sobre Aidil Filho, o fã transmutado em produtor ocasional. Elomar costuma dizer não ter fãs, mas cúmplices: é a mais pura verdade.

Outra coisa que o título do concerto expressa é a sintaxe sui generis da obra de Elomar Figueira Melo, 80, arquiteto de formação, baiano de Vitória da Conquista, toda construída sobre o que o próprio chama de “linguagem dialetal sertaneza”, objeto de estudos acadêmicos por nomes de peso como Jerusa Pires Ferreira e Ernani Maurílio, para citarmos apenas dois – autores do rico glossário de elepê Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar, lançado pela Kuarup em 1986.

Além dessa espécie de língua própria, que nem de longe torna sua obra hermética, não para além do desinteresse da grande mídia e consequentemente do grande público, há uma geografia particular, que mescla a que circunda o chão em que nasceu e onde vive, e um mundo habitado por cavaleiros, vaqueiros, tropeiros, princesas, donzelas, retirantes, bois “incantados” e muitas referências bíblicas – sobre o que se destaca o livro Tramas do sagrado: a poética do sertão de Elomar [Vento Leste, 2007], de Simone Guerreiro.

Somando-se tudo isto, temos um artista de mitologia própria, para o qual contribuiu também sua fama de recluso. Elomar não dá mais entrevistas – e são raras as que concedeu ao longo da carreira. Quem conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos foi seu filho João Omar, violonista que o acompanha em mais esta passagem por São Luís – a última já conta quatro anos.

Ao longo da entrevista, João Omar sempre se refere a Elomar como “meu pai” ou “o bode”, apelido que ganhou dos animais que cria na fazenda Casa dos Carneiros, paisagem de sua Cantiga de amigo (1973), e que inspiraram o cartunista Henfil (1944-1988) a criar o Bode Francisco Orellana.

João Omar, vocês passam por São Luís trazidos por uma produção não profissional, um fã idealista. Isso traduz a afirmação de Elomar de que não tem fãs, mas cúmplices. Este tipo de iniciativa é uma alternativa para artistas que não estão na programação de rádios e tevês?
Estamos nessa jornada de tropeiros, vamos dizer assim, tropeiros da música. Essa produção de fã, o Aidil, que se propôs a fazer isso, é algo que, de uma certa forma, revive tempos passados, no qual não havia produtores, na realidade havia esses amigos que articulavam apresentações. Um detalhe para o qual eu sempre costumo chamar a atenção, daquela época, é o seguinte: antes havia mais encontros, inclusive, os artistas iam para a casa dos amigos, se encontravam mais uns com os outros e chegavam a produzir coisas interessantes, encontros que mudavam até mesmo o rumo de suas carreiras, ou que influenciavam. Um encontro destes, por exemplo, foi o do meu pai com o Henfil. Depois desse encontro, foi tão impactante para o Henfil, que ele criou o personagem do bode que comia livros etc. Então é isso, é uma produção de fã, de malungo, a gente fez em Recife, em João Pessoa, mas não obstante a isso meu pai tem uma produtora que acompanha ele e também presta esse agenciamento, a Rossane Nascimento.

Qual será a base do repertório em São Luís?
O repertório é de algumas das canções antigas dele, que eu até me impressionei de meu pai retomar, para estudar o violão, por que não é fácil recordar músicas que tocou há muito tempo, como Cavaleiro do São Joaquim, que é do primeiro disco dele [Das barrancas do Rio Gavião, de 1973]. Tem trechos de óperas, como a ópera A carta, a Faviela, que já é uma canção conhecida, mas que faz parte de um quadro de ópera. Eu executo também alguns solos de violão do disco que eu gravei, Ao Sertano [2015], e a gente faz esse passeio, procura evocar essas tropas, essas cantigas de tropeiro nessa apresentação, mas não fica só nesse território. E meu pai, que gosta muito de contar histórias, ele vai falar bastante sobre o que ele tem feito.

O nome do espetáculo, verso de Na quadrada das águas perdidas, significa tomemos a iniciativa, outra tradução de um fazer artístico ímpar. A seu ver, o que é mais interessante e único na obra de Elomar, tão diversa em formatos e temáticas?
Na realidade o que eu acho interessante é meu pai conseguir viver, conviver com o povo do lugar, com vaqueiros, tropeiros, trabalhadores rurais, e conseguir absorver a cultura deles, o linguajar deles, as crenças, toda essa coisa, e transformar em um trabalho autêntico, por que na realidade o trabalho dele é singular, não tem assim alguém parecido aqui no Brasil. Existem sim pessoas que se influenciaram por ele, mas é um trabalho muito único, muito próprio dele, no qual ele também se inspirou nos trovadores medievais, para fazer as cantigas, sofre sim essa influência. Mas ele também bebeu na seresta, nos ritmos nordestinos, no xaxado, no martelo, então o trabalho dele tem essa singularidade de poder conviver e extrair dali e fazer um trabalho único, que não é necessariamente cópia de músicas tradicionais, da música tradicional do sertão.

Sua entrada no meio musical era inevitável sendo filho de Elomar? Você chegou a aprender outros ofícios?
Eu comecei desde cedo a estudar música, estudei junto com meus irmãos, minha irmã e meu irmão, mas eu que segui no estudo com mais dedicação. Eu chegava a ir para a fazenda estudar oito horas de violão e meu pai percebendo isso, na realidade ele não me deu aulas de violão, eu que ficava olhando ele tocar e tentava copiar. Ele pelo menos ensinou onde era o dó no violão e nós saímos lendo métodos de violão. Mas ele me pôs nos palcos, quer dizer, nós três, tocando flauta doce, eu com sete anos de idade, meu irmão com oito e minha irmã com nove. Mas só aos 14 anos que eu me apresentei mesmo com um violão, com ele, lá em [Vitória da] Conquista. A partir de lá venho acompanhando ele nessa jornada, que já faz muitos anos [risos]. E sempre essa parceria, de Dom Quixote e Sancho Pança, por esse Brasil afora, tentando levar essa cultura, essa arte, essa música, sei lá, resgatar culturas, resgatar não, guardá-las, guardar tesouros e fazer com que as pessoas se encontrem com esses tesouros de alguma forma.

Das barrancas do Rio Gavião está completando 45 anos em 2018. Alguma deferência especial a seu repertório durante o concerto?
Sim. Ele vai fazer a música Cavaleiro do São Joaquim, que fala praticamente dele. Ele como o menino do São Joaquim, como nascido nessa região, que na realidade é em [Vitória da] Conquista. É um disco maravilhoso, que fez esse lançamento incrível e teve sim uma repercussão muito importante. Vinicius de Moraes escrevendo [o texto de apresentação do disco] atrás, na capa dele, então meu pai está revivendo essa música assim, nesse concerto. Está no repertório.

Você era bastante jovem quando gravou violões em Xangai canta [cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de] Elomar, em 1986. Foi tua primeira experiências profissional? Relembra um pouco aquele período e os bastidores desta gravação.
A gravação do disco de Xangai nessa quadra foi um momento mágico pra mim. Primeiro que eu comprei meu primeiro violão com meu dinheiro, meu cachê, na época, que meu pai me deu. Comprei o Shigemitsu Sugiyama, que eu toquei, estou tocando com ele. Um amigo meu, [o violonista] Cao Alves, levou em São Paulo, deu uma reajustada no violão, está ótimo. Naquela quadra, os bastidores da gravação, me lembro que estava lá o Mário de Aratanha, que era da Kuarup, meu pai e Xangai, meu pai tocando pra Xangai cantar, ele escrevendo arranjos, acho que foi uma das primeiras vezes que ele escreveu para instrumentos de corda e sopro. Então ele estava naquela dúvida: “será que eu consigo escrever bem para esses instrumentos?”. Então, ele estava no chuveiro e falou: “é, Deus me ensina a escrever pra esses instrumentos”. Meu pai é muito cristão, a fé dele é muito forte, inclusive tem lá a gravação de A meu Deus um canto novo, já com arranjo de Jacques Morelembaum [violoncelista], já a segunda vez que Jacques estava junto com meu pai, primeiro foi no Auto da Catingueira [1983], e depois lá, nessa gravação. Foi um momento muito especial, músicos excelentes, um ambiente muito agradável. E pra mim é um dos discos mais belos que Xangai já gravou, Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar. É um apanhado de gêneros que meu pai faz e que também de certa forma evoca tropeiros e vaqueiros.

Apesar da aversão de Elomar à internet, você acredita que ela traz novos admiradores, sobretudo de novas gerações, à sua obra? A propósito, como vocês lidam com o fato de o consumo de música hoje se dar majoritariamente por via digital?
Traz novos admiradores, eu mesmo encontrei com uma moça, lá em Belo Horizonte, quando nós fomos tocar, que ela disse que encontrou meu pai no youtube, por que estava em reprodução automática, e ela achou curioso e buscou mais músicas, viu que ele estava se apresentando em Belo Horizonte, no Sesc, então ela foi conferir, foi assistir, gostou muito. É muito curioso ter um público jovem indo a concertos de meu pai. Mas quanto à questão de mídias digitais, acho que meu pai preferiria até o vinil. Ele acha que essa reprodutibilidade assim é uma coisa ruim para o artista, por que afinal de contas ele faz o disco, todo mundo copia, todo mundo solta na internet de forma gratuita. Na realidade querem uma gratuidade que é o pão que o artista ganha.

A cantora Titane lançou recentemente um disco [Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, 2018] inteiramente dedicado ao repertório de Elomar. Em entrevista, ela reconheceu a força que vocês deram a ela durante todo o processo. O que vocês acharam do resultado final?
A Titane fez essa gravação desse disco, foi uma inspiração dela, por que ela participaria na gravação do dvd do Auto da Catingueira. Mas como não foi adiante, ela acabou se envolvendo mais de perto com a obra dele e resultou nisso, na gravação de um disco. Ela é muito segura, ela tem o jeito próprio dela de cantar, uma pessoa muito profissional, muito carinhosa, muito carismática. Ela aproximou do bode, foi na fazenda, acho que a produção de um disco foi muito boa, ainda mais com músicos que trabalharam também nas transcrições das canções dele, como o Hudson Lacerda. Nós gostamos muito do cuidado dela, do interesse dela, e meu pai tem, de certa forma, permitido gravações de músicas dele por muitos grupos diferentes. Para o seu susto, ou para o susto do público, dois rappers no Rio de Janeiro gravaram O violeiro, foi uma autorização que meu pai deu. Ele gostou muito de ver como pessoas de um grupo, de uma cultura diferente, escolherem uma música dele, em dialeto, pra fazer o rap. Foi muito interessante, nesse sentido. A Titane não, ela já é da cantoria, dessa música popular, da música popular mineira, ela é uma representante já tradicional, uma pessoa conhecida da gente de muito tempo. Então, é muito mais tranquilo nesse sentido, de absorver o trabalho de meu pai, de traduzi-lo, e de produzir algo, assim, dentro de uma estética, com todo cuidado que ela merece. E na realidade, a apresentação é muito bonita, a apresentação de lançamento que ela fez, toda a parte cênica maravilhosa, ela está de parabéns.

O disco mais recente de Elomar é O menestrel e o sertão mundo [2016], gravado com a Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense. Há quatro anos vocês passaram por São Luís com o concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, supostamente título de um novo disco. Como está este? Há planos de novo disco ou novos discos?
Gravamos esse disco com a orquestra da UFF e foi uma experiência maravilhosa, músicos excelentes, o maestro Tobias [Volkmann], de uma educação e de um acolhimento incríveis. Foram todos muito cuidadosos e foi um momento muito especial. Gostei muito de executar a Antífona [Número 11 Alfa, Ecos de uma Estrofe de Habacuque] para violão e orquestra, foi uma experiência incrível tocar com eles. Apresentamos lá, em Niterói e na [Sala] Cecília Meireles. O Riachão do Gado Brabo está parado, está a metade já gravado, e ainda falta concluir o restante. Meu pai é meio enrolado nesse sentido [risos], confesso. Talvez que ele se preocupe mais em escrever do que em gravar as músicas, por que a escrita perpetua muito mais do que a gravação. Então ainda está em projeto a conclusão deste trabalho. Eu não sei te dar uma data, nem te dar maior segurança quanto a quando ele vai estar pronto. Mas é sim um projeto. Esse seria o que poderia ser considerado como o último disco cancioneiro dele.

Além de músico acompanhante de teu pai há bastante tempo, você desenvolveu uma carreira acadêmica e uma carreira como solista e concertista de violão. Como é administrar estas agendas todas?
Não tem sido nada fácil administrar, por que eu tenho que cuidar de orquestra jovem, eu sou atualmente coordenador do Núcleo Neojiba, lá em Vitória da Conquista. Neojiba são Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia. Tenho que trabalhar, desenvolver outros trabalhos, arranjos para cd, as composições próprias, que eu também trabalho em composição, sair para concertos, realmente é uma agenda que está bem apertada. Mas eu tenho procurado dar conta dela, ou seja, 24 horas com música. Eu acredito que nós temos um trabalho importante a fazer, registrar, escrever, e a gente tem que buscar mais apoio pra ter um tempo mais específico pra dedicar, e talvez até dizer não para muitas propostas, se não o tempo não dá para produzir tudo. Mas eu tenho me dedicado sim a tocar com meu pai, primeiro por que já tocamos há tanto tempo, é uma parceria, já somos muito malungos na realização das apresentações, ele confia muito em mim, na pegada de meu violão para fazer o apoio junto com ele, nos entendemos imediatamente. Ele está cada vez mais cansado, já está com 80 anos, não é muito fácil sair viajando para tocar. Então, cada vez mais serão menos apresentações, e provavelmente as apresentações tenderão a ser mais lá mesmo, na localidade da gente, em Vitória da Conquista, lá na fazenda Casa dos Carneiros, onde ele construiu uma caixa cênica para realizar óperas, e tem também a sala, que é o Teatro da Lírica Mineira, uma sala menor, bem menor, mas para música de câmara, acústica. Então, não é fácil dar conta disso tudo, mas eu estou grudado, junto com o bode. É uma briga doida a gente, falando a verdade, eu sempre reclamo com ele sobre instrumentação, orquestração, e tal, mas no fundo ele me ouve, a gente acaba se entendendo em relação à produção dessas coisas, por que tem toda uma parte técnica, que a gente tem que passar a limpo partituras, para que esse universo da música sinfônica, esses músicos sinfônicos compreendam de forma melhor, uma música que pra eles ainda é nova ou está distante da própria cultura tradicional europeia. Então, precisa de muitas indicações, meu pai às vezes despreza essas indicações, mas eu sempre repito pra ele que é importante a gente encher de indicações pra que eles entendam e consigam mergulhar cada vez mais na música dele.

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Ouça Calundu e Cacoré (Elomar), com João Omar:

Titane percorre as estradas de Elomar

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro. Capa. Reprodução

 

Em show amanhã (10), às 21h, no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte/MG, a cantora Titane lança seu novo disco, inteiramente dedicado ao repertório do baiano Elomar Figueira Mello.

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro é o primeiro disco dedicado por uma mulher ao repertório do autor de O violeiro, Chula no terreiro, Cantiga do estradar e Na quadrada das águas perdidas, para citar algumas das 10 que ela gravou. O resultado é sublime.

Antes, em 1986, Xangai dedicou ao cancioneiro elomariano Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar [Kuarup]. Recentemente, em 2015, seu filho João Omar gravou o instrumental Ao sertano – Peças para violão solo de Elomar F. Mello.

Sobre Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, conversei com exclusividade com a cantora, para a coluna mensal Emaranhado, que assino no site do Itaú Cultural. O texto fruto da conversa será postado por lá por estes dias (este post será editado com o link tão logo aconteça); antecipo a seguir a íntegra da conversa.

Foto: Luiza Palhares

Em sua carreira é a primeira vez que você dedica um disco ao repertório de um único compositor. A responsabilidade é maior?
Dedicar um disco todo à obra de um único compositor é novidade pra mim. Eu tenho, até aqui, feito discos e shows onde a grande variedade, mais que variedade, onde o contraste entre diferentes compositores é muito importante pra mim. Então, por um lado, nos meus shows, eu tenho, por exemplo, um anônimo de Araçuaí, do Vale do Jequitinhonha, ao lado de um Tom Jobim, ao lado do Edvaldo Santana, que é um compositor do subúrbio paulistano. Eu sempre tive muita necessidade desses contrastes pra dizer ao mundo o que eu penso da vida, que é uma vida cheia de contradições, uma cultura brasileira cheia de muitas culturas, um dia a dia que eu tenho que me faz estar em estradas de terra e em grandes avenidas asfaltadas. Enfim, eu sou aquela intérprete que leva recado de um mundo pro outro. Tem sido assim.

Por que Elomar?
Agora eu quis focar em um único autor e acho que fiz isso por que existe o Elomar. O Elomar me permite um recuo de espírito, lá pro fundo da alma humana, aquela alma que existe em todos os tempos, em todos os lugares, em diferentes culturas, então eu recuei pra esse mundo encantado do Elomar, que pra mim é o mundo da natureza humana no que ela tem de mais profundo. E não só profundo, mas inquieto, dolorido e cheio de beleza. Um mundo da natureza humana onde o homem tá sempre buscando entender o sentido da vida.

Diante de um universo tão vasto como o cancioneiro elomariano, como foi escolher as 10 que estão no disco?
As primeiras canções do Elomar que sempre me chamaram a atenção foram aquelas onde o Nordeste brasileiro está bem evidente. Então a primeira escolha, foi assim, foi com músicas onde o Nordeste se fizesse muito presente, inclusive ritmicamente. Os violeiros, os aboiadores, as mulheres firmes que vivem na seca. Depois, num segundo momento, que é a maneira como eu sinto muito o Elomar nesse instante, são as canções que contam histórias de reis, cavaleiros, aventureiros, que me conectam na nossa herança ibérica. Eu nunca tinha me debruçado sobre ela com tanta vontade. Até então meus discos, meu trabalho investigava muito a minha vida ligada ao mundo afro-brasileiro. E agora com Elomar eu caio de vez na cultura ibérica, assim de cabeça. A segunda temática assim, de canções escolhidas, é desse universo. E em terceiro lugar, logo que conversamos com Elomar sobre a possibilidade de gravar o repertório que a gente já começou a trabalhar, ele nos mandou uma lista de sugestões. Então eu incluí algumas sugestões do Elomar no repertório do disco.

Xangai já disse que o Brasil tem Tom Jobim, Pixinguinha e muitos outros, mas que Elomar é o maior. Você concorda com ele?
Tom Jobim, Pixinguinha e Elomar são genialidades irmãs, todas brasileiras. Cada um projeta um Brasil muito rico e complexo. O que talvez Elomar tenha diferente é que os grandes gênios do sertão, em sua grande maioria, são ainda conhecidos só lá dentro, e pouco apreciados. A gente tem pouca oportunidade de conviver com eles, mas eles são também a nossa alma cantante.

Seu disco é patrocinado com recursos públicos, através de mecanismos de renúncia fiscal [o disco é patrocinado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais]. Como você avalia a necessidade destes mecanismos, sobretudo para artes que correm mais à margem do mercado, e como enxerga o momento de recuo das políticas públicas, não apenas culturais, no difícil momento que o Brasil atravessa?
Todos os lugares do mundo onde a produção artística é exuberante existem ou existiram em algum momento políticas públicas muito determinadas pra fazer a produção artística avançar e cumprir o papel que cabe a ela dentro da sociedade. No Brasil nós temos mecanismos que fazem, que intervêm realmente, na nossa produção cultural. Eu falo principalmente de Minas Gerais, que eu posso falar com mais tranquilidade. A existência dos mecanismos de apoio, de políticas públicas, são fundamentais pra que a nossa produção possa acontecer. Acho que o recurso público deve ser destinado a grandes segmentos da produção cultural que já não estejam excessivamente comercializados. Não faz sentido o dinheiro público ser usado pra grandes produções já comercialmente estabelecidas. Por quê? Por que quando se estabelece comercialmente uma grande faixa de mercado, é por que já há 10, 20 anos, há uma ou duas gerações, existe um grande coletivo de artistas elaborando aquela linguagem. Vamos usar como exemplo um grande ícone da axé music: ele só foi possível existir, de maneira comercial, como produto, por que há uma, duas, três gerações, existe uma grande comunidade, uma grande cultura consolidando aquela linguagem que vai ser a base de projeção comercial desse artista. A política pública tem que atuar no nascedouro, ela tem que atuar nas fontes criativas realmente da cultura e da arte, que são coletivas, que são disseminadas em muitos lugares, em muitos artistas. Sou contra o excesso, talvez até contra mesmo o uso de recursos públicos em grandes eventos comerciais. Esse momento pro país é terrível. A sensação de perda é muito grande, de história girando ao contrário. É nesse contexto que a gente teme pelas políticas públicas. Se nós saímos de um período em que houve um divisor de águas para melhor no governo Lula, por que a gestão do Gilberto Gil, ao lado do Juca Ferreira, foi uma gestão transformadora na ideia de cultura, na ideia institucional de cultura, na ideia das políticas públicas, o que estava por trás da gestão do Juca e do Gilberto Gil, dentro do governo Lula, era a ideia de um grande país com uma grande cultura construída por diferentes culturas étnicas e culturas de diferentes origens sociais, enfim, culturas urbanas, culturas sertanejas, culturas indígenas, de matriz africana, enfim. O grande conceito que se consolidou dentro da política pública no governo Lula foi esse conceito amplo, complexo, rico, que realmente corresponde à cultura brasileira. Nós estamos no momento, agora, onde acontece o contrário. É preciso acabar com a política pública da cultura, pensar que cultura, entre aspas, não existe, e o que deve haver é um monte de cabeças não pensantes, não produtoras de conhecimento, mas cabeças que atendam aos interesses econômicos que regem esse novo modelo político, que é o do governo Temer, que eu acho que são modelos econômicos pensados pra colocar o Brasil numa condição muito ruim internacionalmente mesmo, numa condição de servo das grandes empresas internacionais, pra gente ser apenas servo. Nós paramos de pensar nossa música, não damos palpite nas políticas de mineração, que são irresponsáveis e predadoras, enfim, por aí vai.

Outro guardião da obra de Elomar é o violonista João Omar, filho dele. Você teve algum contato na feitura do disco?
O João Omar é uma grande luz quando se trata da obra do Elomar. É um grande músico e se dedicar também à obra do Elomar é um presente pra nós todos. O disco do João Omar onde ele executa as peças para o violão feitas pelo Elomar é uma pérola, e o diálogo nosso com o João Omar começa nesse momento, ouvindo muito a maneira dele tocar, ouvindo a maneira dele proceder diante da obra do Elomar. Nós temos tido um contato já há algum tempo, o João Omar já nos ouviu tocando, cantando, espero que esse contato nosso se estreite cada vez mais. Eu tive uma oportunidade de cantar com ele, ano passado, num concerto do próprio Elomar. O Elomar convidou vários de nós em Minas pra poder participar da apresentação que ele fez comemorando seus 80 anos em Belo Horizonte. Nessa oportunidade a gente cantou juntos com Elomar, eu cantei e também cantei acompanhada pelo João Omar, e é uma experiência que eu espero que se repita muitas vezes.

Merece destaque o time de músicos arregimentado para esta empreitada. Vamos falar um pouco do convívio durante a realização do álbum?
Músicos todos inspiradores. Eu devo a atitude, a decisão de gravar esse disco a dois músicos: primeiro ao Kristoff Silva, que eu convidei pra produzir o cd junto comigo, que tempos atrás falou pra mim: “Titane, tá na hora de você dedicar um disco a um autor e esse autor deve ser o Elomar”. Então eu fiquei com isso em mente e agora na hora de gravar, convidei o Kristoff para produzir comigo. O segundo ser fantástico [risos] é Hudson Lacerda, que é um artista muito, muito, muito especial, um violonista privilegiado, virtuosístico, com uma formação acadêmica muito rigorosa, muito consistente, mas acima de tudo um grande músico brasileiro, que domina a música brasileira de todos os tempos, toca tudo, canta música da década de 1930, 40, 50, a produção nossa recente e também domina muito a música latino-americana. Então é um violonista que recentemente se dedicou à obra do Elomar tendo todo esse lastro de conhecimento e de prática com a música, como solista, inclusive, com a música brasileira e latino-americana. Junto com o Kristoff Silva, ele foi um dos quatro violonistas que transcreveu para partituras a obra do Elomar. Dos quatro, o Hudson foi o que pegou o violão para conferir as partituras ao lado do Elomar. É um privilégio ouvir Hudson tocando Elomar. Quando eu comecei a cantar com ele eu fiquei muito encantada, muito tomada pela excelência do violão dele, eu decidi fazer o repertório junto com ele, fizemos alguns shows juntos, só nós dois, em salas sem amplificação nenhuma de som, feitas pra música de câmara, e agora ele tá junto comigo no disco. O violão do Hudson no disco e também nos shows é o ponto de partida pra toda a construção dos arranjos e a chegada dos outros instrumentos. Nós, Kristoff e eu, decidimos pela inclusão de um contrabaixo, coisa que a gente tem pouca oportunidade de ver atuando no repertório do Elomar e precisávamos de um baixista atento, disponível e que topasse encontrar a melhor forma de fazer o baixo, de criar, de fazer o contrabaixo, que encontrasse a melhor maneira de fazer com que o contrabaixo cumprisse sua função dentro da música. Então a gente convidou o Aloízio Horta que fez isso com muito esmero. A presença do baixo é fundamental no disco, inclusive serve bastante como contraponto pra minha voz, que tem um colorido muito claro, eu sinto sempre muita falta do contrabaixo, dos tambores, contracenando com a minha voz e o Aloízio veio dar essa grande contribuição. O outro músico é André Siqueira, que é um músico com habilidades muito grandes assim, que toca várias cordas, violões, violas, charangos, cavaquinhos, toca isso tudo com muita versatilidade, com uma capacidade de improvisação muito grande. Ele foi convidado, trouxe vários instrumentos e acabou tocando a viola de 14 e o bouzouki [instrumento de cordas semelhante ao alaúde], que é um instrumento celta que ele trouxe e que se encaixou muito bem no que a gente gostaria de ter. O André Siqueira atualmente é radicado em Londrina e veio gravar conosco. O outro músico convidado, de presença definitiva no disco, e agora também convidado especial do show, é o grande Toninho Ferragutti. O Toninho Ferragutti tem um papel fundamental na construção da história do acordeom dentro da música brasileira. Eu considero o acordeom um dos instrumentos fundantes da nossa música e o Toninho, dentro da história do acordeom, ele é peça chave. É aquele cara que consegue pensar um instrumento e fazer com que ele colabore com todo tipo de linguagem musical, de linhagem musical, ele consegue mostrar o quanto o acordeom é fundamental e pode contribuir pra essa construção da música. Houve um momento em que eu conversando com Elomar, falei: “Elomar, em algumas canções eu queria ter um volume sonoro maior, uma variedade maior de timbre, tou pensando em que instrumento colocar”, e ele falou: “acordeom, acordeom, é claro que é o acordeom”. Foi seguindo o palpite do Elomar que a gente decidiu pelo acordeom e inevitavelmente recaímos sobre o Toninho Ferragutti e eu sou muito agradecida por ele ter topado trabalhar conosco. Não podia faltar o querido grande Pereira da Viola, um dos grandes violeiros da música brasileira, que inova na linguagem da viola e ao mesmo tempo permanece como um legítimo folião de reis, de uma família que faz sua folia de reis até hoje, lá no meio do sertão. Ele é muito querido, tem uma voz que evoca outras vozes, que nos remete a outros tempos. Ele está mais uma vez como meu convidado no meu disco. Eu sou convidada em vários trabalhos dele, ele é meu convidado também em vários dvds, cds, nossa parceria permanece.

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Veja a participação de Titane e Hudson Lacerca no Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin na TV Cultura. A dupla interpreta Cavaleiro do São Joaquim (Elomar):

Utilidade pública: discografia da gravadora Marcus Pereira disponível no youtube

Num dia triste para a música, com as notícias dos falecimentos de George Martin e Naná Vasconcelos, uma notícia alvissareira me alcança por um e-mail do poeta Reuben da Cunha Rocha: toda a discografia lançada pela gravadora Marcus Pereira está disponível para audição no youtube (e download via torrent).

A gravadora lançou mais de 100 discos entre 1967 e o início da década de 1980. O primeiro, Onze sambas e uma capoeira, reunia, em 12 faixas, os irmãos Chico e Cristina Buarque e Adauto Santos interpretando a obra de Paulo Vanzolini. Uma das raridades desta gravadora em que, afinal de contas, tudo é raridade, é a estreia fonográfica conjunta de Chico Maranhão e Renato Teixeira, o terceiro disco brinde distribuído pela agência de publicidade de Marcus Pereira a seus clientes por ocasião das festas de fim de ano. Logo ele abandonaria a publicidade, dedicando-se exclusivamente à gravadora, passando a realizar talvez o mais importante mapeamento musical brasileiro da história. Algumas dezenas de discos e pouco mais de uma década depois, acossado por dívidas, Marcus Pereira se suicidaria.

Foi ele o responsável pelo lançamento de algumas pérolas do cancioneiro nacional: Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Arthur Moreira Lima, Banda de Pífanos de Caruaru, Canhoto da Paraíba, Carlos Poyares, Cartola, Celso Machado, Chico Buarque, Dércio Marques, Dilermando Reis, Donga, Doroty Marques, Elomar, Luperce Miranda, Marcus Vinicius, Paulo Bellinati (do Pau Brasil), Paulo Vanzolini, Quinteto Armorial, Quinteto Villa-Lobos e Sérgio Ricardo, entre outros, tiveram álbuns lançados pela Discos Marcus Pereira.

Lances de agora. Capa. Reprodução
Lances de agora. Capa. Reprodução

Os maranhenses Irene Portela, Papete e Chico Maranhão lançaram discos pelo selo. A codoense lançou Rumo Norte em 1979, entre repertório autoral e regravações de João do Vale; no ano anterior o visionário Marcus Pereira lançou Bandeira de aço e Lances de agora, ambos citados entre os 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, em enquete do jornal Vias de Fato.

Rumo Norte. Capa. Reprodução
Rumo Norte. Capa. Reprodução

Por lá Papete lançaria ainda Água de coco, Berimbau e percussão e Voz dos arvoredos; Chico Maranhão, além do disco brinde dividido com Renato Teixeira e de Lances de agora, lançaria ainda Maranhão (comumente conhecido como Gabriela, por seu frevo-título), e Fonte nova.

O acervo da gravadora Marcus Pereira está com a Universal Music (que adquiriu a EMI), que não tem interesse comercial em relançar este precioso catálogo, ao menos não com a urgência necessária. “Grande parte da música brasileira está simplesmente se perdendo por não haver interesse comercial”, declarou-me o jornalista Eduardo Magossi, que aborda a história da gravadora em sua tese de mestrado. Ele foi o responsável pelo relançamento dos quatro discos da série História das Escolas de Samba, dedicados à Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro e anuncia novidades para 2016, sem adiantar que títulos serão relançados.

Bandeira de aço. Capa. Reprodução
Bandeira de aço. Capa. Reprodução

De um lado burocratas preocupados apenas com lucros de grandes companhias, de outro lado o poder público despreocupado com este imenso patrimônio cultural. Enquanto isso, viva a iniciativa do anônimo que decidiu disponibilizar esta valiosa coleção, de audição obrigatória para qualquer interessado em música brasileira.

[Update: Recomendando-me este texto de sua autoria o jornalista Eduardo Magossi alertou-me de uma incorreção no texto, aqui corrigido às 14h13; o primeiro disco lançado por Marcus Pereira foi Onze sambas e uma capoeira, e não a estreia fonográfica conjunta de Chico Maranhão e Renato Teixeira]

O dial da memória sintonizando o FM Abissal

Em 2014, contratado como assessor de comunicação da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, me vi diante de um dilema: o show principal da noite de abertura do evento teria a banda pernambucana mundo livre s/a (que eu nunca havia visto ao vivo) tocando de graça na Praça Nauro Machado, mesma data em que o baiano Elomar Figueira de Mello se apresentaria, ao lado do filho João Omar, no Teatro Arthur Azevedo, com ingresso pago.

Imaginei que a apresentação de Elomar começasse praticamente sem atraso, que o show durasse algo entre uma hora e hora e meia e que o show do mundo livre atrasasse, em virtude do que sempre acontece quando um show principal fecha uma noite de programação, precedido por outras apresentações. Isto é, eu conseguiria ver ambos os shows. Mas meus cálculos estavam errados, matemática nunca foi meu forte, e Fred Zeroquatro e companhia continuam praticamente inéditos ao vivo para mim.

Digo “praticamente inéditos” por que ao chegar à praça, voltando do teatro, ainda ou/vi as últimas palhetadas do jornalista e compositor ao cavaquinho, encerrando o bis.

Não me arrependi da escolha e sei que a hora de ver/ouvir o mundo livre s/a chegará. Profissionalmente não me penitencio: a pequena equipe de assessoria com que eu contava deu conta do recado, isto é, de contar o que foi a noite de abertura daquela edição da Aldeia.

Antes do show de Elomar começar, enquanto enxugava umas latinhas com o amigo Otávio Costa no bar do Arthur Azevedo, recebi um telefonema: Fernando Matos – cujo aniversário, hoje (20), me fez lembrar essa história –, o lendário DJ Abissal, estava em São Luís e me convidava para “molhar a palavra”. Informei-lhe que estava no teatro para assistir Elomar e avisei-o do show do mundo livre s/a, a que ele acabou assistindo. “Eu não esperava tanta opção”, revelou-me o amigo pernambucano, que baixou na Ilha numa quinta-feira útil, a trabalho.

Elomar e sua produção proibiram fotos – regra que dei um jeito de desrespeitar, mas o resultado foi tão tosco que joguei todas fora, depois. Uma amiga, com uma máquina melhor, teve melhor sorte.

O mundo livre s/a posou para fotos com fãs. Levei Fernando ao camarim e acabei por promover, em plena São Luís, seu reencontro com Zeroquatro, o Montenegro que foi seu contemporâneo de “científico” e UFPE. Daniel Sena clicou e ainda tivemos pique para ir até A vida é uma festa!, capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, àquele ano integrada à programação da Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

FM, 04 e o blogueiro no camarim, após o show do mundo livre s/a. Foto: Daniel Sena
FM, 04 e o homem de vícios antigos no camarim, após o show do mundo livre s/a. Foto: Daniel Sena

“Lelé da cuca num dia de sol” (meu repertório de ontem)

Entre organizadores do evento e djs de ocasião: da esquerda para a direita Catarina Malcher, Cláudio Mendonça, Welbson Madeira, este que vos perturba e Otávio Costa
Entre organizadores do evento e djs de ocasião: da esquerda para a direita Catarina Malcher, Cláudio Mendonça, Welbson Madeira, este que vos perturba e Otávio Costa

 

Quando comecei a colecionar música mais a sério o vinil estava caindo em desuso e o cd significava o futuro – agora as coisas se invertem. Vi muita gente substituir coleções inteiras. Eu tinha uns poucos vinis e comecei a comprar tudo no formato que então começava a se tornar mais popular.

Não sou um grande colecionador de vinis, embora tenha mantido alguns, sobretudo títulos nunca relançados em formato digital, a exemplo dos de Chico Maranhão lançados pela gravadora Marcus Pereira.

Apesar disso, não hesitei em aceitar o convite do amigo Welbson Madeira para o ato “Vinil: tempos de resistência”, do Comando Local de Greve da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), ontem (9), na Área de Vivência. Por diversas razões: re-encontrar pessoas queridas com quem comungo sentimentos e ideologias, trocar ideias sobre música, o que é sempre um bom tema para muitos papos, além de erguer a voz contra o autoritarismo dominante na universidade, que cada vez mais tem tentado esterilizar o pensamento e a crítica – o que é muito arriscado num ambiente como o acadêmico, não bastasse o que têm feito o sucateamento e o produtivismo ao longo dos últimos anos.

Catei os vinis, convidei o amigo-irmão Otávio Costa, leitor fiel e atento deste blogue, e nos mandamos. Os que levamos vinis éramos djs por uma tarde: eu, Otávio, Cláudio Mendonça, Welbson, seu filho Ernesto Vandré, inclusive atendendo a pedidos.

Agulha e microfone livres, saudei o ato, sua organização, agradeci o convite e abri os trabalhos com Bandeira de aço (Cesar Teixeira), faixa-título do disco homônimo de Papete, lançado por Marcus Pereira em 1978. Na sequência ataquei de A vida de seu Raimundo (Chico Maranhão), do Fonte nova de Chico Maranhão, lançado pela mesma gravadora. Pra quê me deram liberdade? Antes de cada música eu ia contando histórias. Desta, lembrei de uma entrevista em que o autor me disse ter sido inspirada no assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura militar brasileira.

Papeei, namorei vinis alheios – sobretudo o duplo Na quadrada das águas perdidas, de Elomar, da Bia – e o ato vespertino seguia animado pelo revezamento de djs e locutores de ocasião. Como tudo o que é bom dura pouco, logo eu teria que partir. Anunciei duas saideiras: A bola do jogo (Fred Zeroquatro), de Samba esquema noise (1994), estreia dos pernambucanos do mundo livre s/a, e Passarinho, de João do Vale, na interpretação de Irene Portela, lançada pela codoense num disco da Marcus Pereira, Rumo Norte (1979).

Já estava nos abraços de despedida quando me chamaram para uma foto (a que abreilustra este post) e vi, sobre a mesa, uma coletânea de Paulo Diniz – que estava entre os discos repetidos que eu havia levado. Não me contive. Contei a história da música, cujo título foi retirado de uma frase (que ficou de fora da versão final) do Catatau de Leminski e mandei ver Ponha um arco-íris na sua moringa (Paulo Diniz e Odibar), espécie de faixa bônus de minha participação no ato.

Saí, na sequência, ao som de Um chope pra distrair, também de Paulo Diniz, que me foi oferecida por Marizélia Ribeiro. Parece que a coisa vai pegar. Se nem o calor nos esmoreceu, a depender da disposição deste bando, o evento deve ganhar periodicidade. A conferir.

*

Ouçam Paulo Diniz em Ponha um arco-íris na sua moringa:

Elomar faz concerto único em São Luís

Divulgação
Divulgação

 

Elomar Figueira de Melo, ou simplesmente Elomar, é dono de uma das mais consistentes obras musicais do Brasil. Recluso, pouco sai de sua fazenda em Vitória da Conquista, sua cidade natal.

O compositor, violonista e criador de bodes – Elomar foi a inspiração para o Bode Orelana, famoso personagem de Henfil – estará em São Luís para um concerto único no próximo dia 23 de outubro, às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo. Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, o espetáculo, mesclará repertório consagrado e inédito do artista, que no palco será acompanhado por seu filho, o violonista João Omar.

Este apresentará parte do repertório inédito, algumas peças que serão registradas em João Omar interpreta Elomar: peças para violão solo, disco que deve lançar em breve.

O concerto que Elomar apresentará em São Luís anuncia uma mudança de fase em sua carreira. Ensaiando o Riachão do Gado Brabo deve ser o último disco (e concerto) com canções. Daí em diante o artista deve se dedicar à composição de óperas e outros trabalhos de maior fôlego – o que, na verdade, ele já vem fazendo, em paralelo, há algum tempo.

O público terá ainda a oportunidade de ouvir O robot e Mulher imaginária, temas da trilha sonora de um espetáculo teatral de autoria do próprio Elomar, O mendigo e o cantador. O compacto em que as músicas foram gravadas, ainda na década de 1960, não chegou a ser lançado. Dois sambas da fase inicial de sua carreira também compõem o repertório da noite.

Por si só um concerto de Elomar já é algo que vale muito a pena. Diante de tudo isso, torna-se simplesmente imperdível. Os ingressos, à venda na bilheteria do teatro, custam R$ 70,00 (plateia), R$ 60,00 (frisa) e R$ 50,00 (camarote, balcão e galeria).

Confiram o artista em O violeiro, de sua autoria:

Xangai celebra obra de Elomar

Repertório da apresentação, de mais de duas horas, não se limitou, no entanto, à obra do compositor

Peças de Elomar foram interpretadas por Xangai próximas à concepção. Fotosca: Zema Ribeiro
Peças de Elomar foram interpretadas por Xangai próximas à concepção. Fotosca: Zema Ribeiro

 

Com um set inspirado, João Liberato (flauta) e Ricardo Vieira (violão de sete cordas) abriram o espetáculo Xangai canta Elomar, apresentado ontem (19), no Teatro Arthur Azevedo. O duo, que acompanhou o baiano na maior parte da apresentação, atacou de Água e vinho (Egberto Gismonti), Santa Morena (Jacob do Bandolim), Livre para chorar (Ricardo Vieira) e Café 1930 (Astor Piazzolla). Esta última precedida de referências ao autor da maior parte do repertório da noite e seu gosto por tango.

O repertório, em mais de duas horas, não se limitou a Elomar, embora bastasse. Eugenio Avelino, o Xangai, ao saudar a plateia citou diversos amigos maranhenses, entre os quais João do Vale, Turíbio Santos e João Pedro Borges, o Sinhô – que estava na plateia –, a quem dedicou o espetáculo. “Esta cantoria é pro senhor, Sinhô!”, trocadilhou.

“Isso aqui não é show. É uma cantoriazinha? Pode ser. Agora quando bota esses dois meninos vira um concerto”, afirmou sorrindo, referindo-se aos músicos. “Vai ser legal por que Elomar pensa sua composição para orquestras reduzidas, vocês não estão ouvindo aqui, estes dois, uma orquestra sinfônica?”

Autêntico show man, Xangai cantou, tocou violão, assobiou (imitando um canário em Qué qui tu tem, canário?, parceria dele com Capinan), recitou, contou causos e ilustrou parte do processo criativo de Elomar, contando a história de algumas letras e trazendo ao público uma espécie de glossário, fundamental para o entendimento de suas peças.

A obra de Elomar – que se apresentará com o filho João Omar (violão) no Arthur Azevedo em outubro – não é simples. Tem uma linguagem toda particular, vocabular e musicalmente falando. Dele Xangai cantou, entre outras, Na estrada das areias de ouro, A pergunta, Puluxia das Sete Portas, A meu Deus um canto novo, Curvas do rio, O violeiro e ainda recitou a letra de Cantiga do Estradar. As quatro primeiras estão em seu ótimo Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar [Kuarup, 1986].

Xangai ainda cantou Estampas Eucalol (Hélio Contreiras), Deusa do asfalto (Adelino Moreira), que começou a dedilhar ao violão imitando a gagueira de Nelson Gonçalves, como se este apresentasse o compositor, Em nome do sol (parceria com o ídolo Jacinto Silva) e Paletó (com Manduka).

Das duas últimas contou as histórias: Jacinto Silva, então hospedado em sua casa, um dia acordou e disse que sonhou e que estava fazendo uma música. Cantarolou: “O sol continua brilhando/ o sol também nasceu pra você”. E emendou: “agora termina!”. Os dois concluíram a parceria, gravada por Silva em Caruaru capital do forró (1996).

A história com Manduka – filho do poeta Thiago de Mello e parceiro de Dominguinhos em Quem me levará sou eu – remete a uma apresentação de Xangai com Elomar no Teatro Arthur Azevedo em 1994: no camarim, após o show, ele entregou-lhe o papel com a letra. Xangai demoraria 17 anos entre perder e achar o papel e musicar a parceria, já depois de Manduka ter “feito a passagem”: “ele me deu a letra vivo e depois voltou para me dar a melodia”, disse.

Apesar de insistentes pedidos, Xangai não cantou o ABC do preguiçoso (Ai deu sodade), tema de domínio público recolhido pelo historiador baiano Fábio Paes, gravada pela primeira vez pelo cantor há 30 anos. É bom que o público comece – já é até tarde – a se acostumar: suas possibilidades são bem maiores e o cantor provou, não apenas ontem, que não é um one hit wonder.

No bis, após uma breve participação especial da esposa do violonista cantando Tico tico no fubá (Zequinha de Abreu), acompanhada por ele, Xangai terminou a apresentação com Arrumação (Elomar). A plateia em coro entoou o refrão “futuca a tuia, pega o catadô/ vamo plantá feijão no pó”, que depois se misturaria aos aplausos de pé sob os quais o trio se retiraria do palco.

Para lembrar Nelson Jacobina

Faleceu na manhã de hoje (31), em decorrência de um câncer (dado como curado há alguns anos), o músico Nelson Jacobina. Coadjuvante, mas não menos importante, Jacobina talvez estivesse para Jorge Mautner como Vadico para Noel Rosa, para dar apenas um exemplo. Atualmente era também integrante da Orquestra Imperial.

Topei com ele há alguns anos no camarim de um show que fez com o parceiro no Circo da Cidade, produção de Ópera Night. Entre nomes como Tom Zé, Elomar, Jards Macalé e tantas outros que só Ópera opera a vinda à Ilha, a plateia para Jorge Mautner (voz e violino) e Nelson Jacobina (violino) foi uma das menores em que já estive. O que não os impediu de fazer um grande show.

No encontro no camarim após o show, Mautner sem camisa no calor de São Luís exibia no peito uma profunda marca de anos de instrumento. Não tirei foto nem peguei autógrafo. Contei uma história ouvida dias antes, que lembrava uma passagem deles (ou só de Mautner?) por Imperatriz, ocasião em que Neném Bragança sentou em cima (e obviamente quebrou) os óculos de Mautner. Este lembrava do episódio e os dois riram um bocado.

Os vídeos abaixo dão uma ideia da importância de Nelson Jacobina para a música brasileira, quer como compositor quer como músico, embora seu nome quase nunca seja lembrado de imediato, de tão atrelado a Mautner. É a melhor forma de lembrá-lo e homenageá-lo.

Por exemplo, quando Mautner (violino) e Jacobina (violão) acompanham Jards Macalé nesta magistral execução ao vivo de Vapor Barato (Jards Macalé/ Wally Salomão):

Ou nessa versão dos autores para o clássico Maracatu Atômico (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina), em que louvam Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas e, claro, Chico Science, que com sua Nação Zumbi gravou a versão mais conhecida da música (também gravada por Gilberto Gil):

Agora a versão dos malungos:

Suas Lágrimas negras (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina) por Nina Becker, sua companheira de Orquestra Imperial, a música também já gravada por Gal Costa, Olívia Byington,  e em dueto por Otto e Julieta Venegas:

And last but not least sua Ela rebola (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina), com sua Orquestra Imperial: