Sua voz ecoará para sempre

Blues for Lady Day. A história de Billie Holiday. Capa. Reprodução

 

O traço de Paolo Parisi engana o leitor mais apressado: parece econômico, mas o que o quadrinhista quer é que o leitor capte a alma de seus personagens. Ainda mais personagens tão intensos quanto John Coltrane (1926-1967) – biografado em Coltrane [Veneta, 2016] – e Billie Holiday (Eleanora Fagan Gough, 1915-1959), protagonista do recém-lançado Blues for Lady Day – A história de Billie Holiday [Blues for Lady Day; tradução: Rosane Pavam; Veneta, 2018, 112 p.; R$ 55,00].

Autor de traço e texto, Parisi, graduado em História da Arquitetura Contemporânea pela Universidade de Bologna, Itália, se vale de tudo ao refazer a trajetória da cantora, entre diários, discos, canções, livros (citados em bibliografia e discografia essenciais, ao final do volume), o noticiário da época, depoimentos de personagens que orbitaram em seu redor – Count Basie, Artie Shaw, Tony Scott e Louis Armstrong, para citar apenas alguns –, a relação conturbada com o pai Clarence Holiday, também músico, numa narrativa que foge do convencional e da linearidade.

Não deixa de abordar nenhum aspecto da vida trágica, sem pender ao sensacionalismo ou à indulgência: sua graphic novel equilibra-se entre a vida difícil de garota de origem suburbana, a prostituição, problemas com drogas e a polícia, e a estrela fundamental para a música americana – que ganhou o mundo.

Em Breve nota à margem, texto ao final do volume, Parisi explica suas escolhas, algumas bastante pessoais, como nomear os capítulos com títulos de algumas de suas canções preferidas entre as de Billie Holiday. Neste texto, lemos, em alturas diferentes: “O blues é entretenimento e história. O blues é voz política”, e depois: “Nós nos entretemos para não morrer”, entre outros pontos destacáveis.

Reside justo no equilíbrio entre entretenimento e história o grande trunfo dessa hq, como terá nisso residido a qualidade da obra de Billie Holiday, “ao mesmo tempo íntima e política”.

O reconhecimento do desenhista à grandeza de Billie Holiday é mais uma justa e merecida contribuição à preservação do legado de Lady Day. Oxalá sirva também para lhe angariar novos ouvintes.

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Ouça Strange fruit (Lewis Allan), com Billie Holiday:

Novo álbum celebra grandeza de Marcello Quintanilha

Todos os santos. Capa. Reprodução

 

Marcello Quintanilha é, merecidamente, um dos mais festejados quadrinhistas brasileiros da atualidade. Obras como as graphic novels Tungstênio [Veneta, 2014, 186 p.], recém-adaptada ao cinema por Heitor Dhalia [drama, 2018, Brasil, 80 min.], com o próprio Quintanilha no time de roteiristas, e Hinário nacional [Veneta, 2016, 128 p.], vêm angariando prêmios no Brasil e lá fora – o niteroiense mora em Barcelona desde o início dos anos 2000.

Todos os santos [Veneta, 2018, 112 p.; R$ 85], seu novo álbum, é uma espécie de portfólio, reunindo os primeiros trabalhos – começou aos 16 anos na carioca Bloch, desenhando roteiros alheios de terror e artes marciais –, desenhos e tiras publicados em jornais e revistas nacionais e estrangeiros (Bravo, O Estado de S. Paulo, Trip, Cândido, El País, Le Monde), além de inéditos – Acomodados!! Acomodados!!, vencedora da I Bienal Internacional dos Quadrinhos do Rio de Janeiro, em 1991, permanecia inédita até aqui.

Também merecem destaque a HQ A invasão do sagaz homem fumaça (2000), mais conhecida pelos fãs do Planet Hemp, que deu capa e ilustrou o disco homônimo da então banda de Marcelo D2, retratos de Zeca Pagodinho, Mario Vargas Llosa, Paul Gauguin, Fidel Castro e Fernando Henrique Cardoso, com um fósforo quase a queimar-lhe os dedos, na vã tentativa de iluminar o próprio rosto à época dos apagões de seu governo.

A história se repete como tragédia ou como farsa, como nos ensinou Marx, e as melhores retrospectivas nos permitem perceber esta lição na prática. Um projeto de capa de 2000 retrata um senhor calvo, em seu terno alinhado, portando a faixa presidencial, com as mãos algemadas para trás, sendo conduzido por dois policiais.

Edição de luxo, em capa dura, Todos os santos é aberto com uma respeitável fortuna crítica: o prefácio de ninguém menos que Aldir Blanc à primeira edição de Fealdade de Fabiano Gorila [Conrad, 1999], estreia autoral/solo de Quintanilha no mercado editorial – à época ele assinava Marcello Gaú –, saudado pelo cronista e compositor como “o Rosselini tupiniquim”. Antes dos quadrinhos, o leitor poderá deliciar-se também com uma entrevista de Quintanilha a Paul Gravett, “o mais influente crítico de quadrinhos da Europa”, da inglesa ArtReview, “uma das principais revistas sobre artes plásticas do mundo”, que em 2015 publicou duas páginas do brasileiro – devidamente incluídas em Todos os santos.

Marcello Quintanilha não hierarquiza a importância, para sua carreira, das histórias que publica hoje, em álbuns bem acabados, das que veiculou em publicações baratas a partir da oportunidade adolescente. Todos os santos funciona como uma espécie de guia ou porta de entrada para sua obra, em que se destaca seu agudo talento de cronista, de texto e traço sagazes ao relatar flashes de brasilidade, característica marcante de seu trabalho – a capacidade dos melhores cronistas em eternizar o que nos passaria despercebido se não fosse transformado em obra de arte. Afinal de contas, é disso que se trata.

Dinheiro não traz felicidade

O quadrinista Marcello Quintanilha é um especialista em retratar dramas humanos, de gente comum. Poderia ser a vida deste resenhista, ou a do leitor, tão reais são suas personagens.

Ele foi premiado recentemente num dos maiores festivais de quadrinhos do mundo, em Angoulême, na França, por sua trama policial Tungstênio [Veneta, 2014, 184 p.], seu álbum anterior.

Talco de vidro. Capa. Reprodução
Talco de vidro. Capa. Reprodução

Artista completo, Quintanilha assina roteiro e desenhos, tanto naquele quanto no drama psicológico Talco de vidro [Veneta, 2015, 160 p.], em que aborda a inveja e a mesquinhez, sentimentos sórdidos que levam à tragédia.

A HQ conta a história de Rosângela, dentista niteroiense sempre acostumada a ter tudo: seu primeiro consultório montado foi presente do pai e, bem casada, recebeu do marido – com quem tem dois filhos –, de presente (surpresa!), em sua casa de praia, um carro zero quilômetro.

Mas a protagonista de Talco de vidro não está satisfeita e, infeliz, sente inveja do sorriso da prima pobre. Não lhe inveja morar no subúrbio ou ir às festas espremida num Fiat 147 a serviço da família inteira – obviamente maior que a lotação do veículo.

A história mergulha na mente doentia de Rosângela, cuja vida entra em franca decadência, entre o fim do casamento, a vida desregrada que passa a ter, sob olhares moralistas, e a depressão, até o trágico desfecho.

Entre as belas paisagens do Rio de Janeiro, seja de bairros de classe média alta ou da periferia, o fosso que separa as parentes que protagonizam a graphic novel, o que o traço de Quintanilha faz é representar sentimentos bastante comuns, quase sempre escondidos, por vergonha ou por conta das regras do jogo chamado vida. Quem tem dinheiro para comprar tudo tem inveja daquilo que o dinheiro não pode comprar.

Mas engana-se quem fizer julgamentos antecipados atribuindo qualidade apenas ao traço do autor: seus diálogos e narrativa são tão bem construídos que, arrisco dizer, sobreviveriam como obra literária, sem o suporte das imagens. Certamente é justo neste casamento, que se fortalece a cada lançamento de Quintanilha, que reside a força que lhe garantiu sucesso internacional: é dos poucos quadrinistas brasileiros com projeção fora do país desenhando gente comum – mesmo quando “diferenciada”.