Gol de letra!

A cobrança. Capa. Reprodução

 

Antes da resenha propriamente dita, uma confissão de dois arrependimentos: o primeiro, não ter lido A cobrança [Record, 2018, 207 p.; R$ 38,00; leia um trecho], de Mário Rodrigues, antes da Copa do Mundo e das eleições; o segundo, não ter escrito sobre, idem.

Vencedor do prêmio Sesc de Literatura em 2016, com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record], finalista do Jabuti ano passado, o pernambucano de Garanhuns lançou este ano seu romance de estreia.

Ficção alicerçada na realidade, o livro cuja capa evoca o patriotismo à guisa de “os corações nas pontas das chuteiras”, tem enredo construído em um bem trabalhado jogo de flashbacks, entre tragédias pessoais e coletivas.

A ação se dá entre o exato instante em que seu protagonista se dirige para cobrar um pênalti, o último da série inicial de cinco, na final da Copa do Mundo da Rússia, contra a Alemanha – cabe lembrar que o romance foi publicado antes da Copa do Mundo de 2018 –, enquanto um filme inteiro se passa em sua cabeça enquanto se dirige à marca de cal.

Professor de literatura, português e redação e crítico literário, Mário Rodrigues tem domínio absoluto da linguagem, equilibrando-se entre a vida trágica de seu personagem, citações bíblicas e da Constituição Federal de 1988 – cujo artigo 5º. desdobra-se nas epígrafes ao longo do livro –, promulgada em 5 de outubro daquele ano, mesma data de nascimento do protagonista.

No “país do futebol” não faltam livros sobre o esporte: de À sombra das chuteiras imortais [Companhia das Letras, 1993], do cronista Nelson Rodrigues, passando pelo belo tributo A pátria em sandálias da humildade [Realejo, 2016], do também cronista Xico Sá, passando por Veneno remédio [Companhia das Letras, 2008], ensaio sociológico de José Miguel Wisnik, e Páginas sem glória [Companhia das Letras, 2012], de Sérgio Sant’Anna.

A maioria está ancorada nas alegrias e tristezas de vitórias e derrotas reais, entre grandes clássicos e partidas sem importância (o que chamaríamos cumprir tabela). Apesar da derrocada do futebol ao longo dos anos, com a profissionalização, a publicidade tomando conta de tudo, os apelidos em desuso, dando lugar aos nomes compostos, estádios transformando-se em arenas, frequentadas não mais por quem ama o futebol acima de tudo, mas por quem, acima de tudo (e de todos) tem dinheiro para comprar os ingressos, entre uma série de outros aspectos também abordados pela prosa de Mário Rodrigues.

Sua ficção também se baseia em fatos reais: a humilhação do 7×1, diversos lances que poderiam ter mudado o rumo de partidas e, consequentemente, de campeonatos, a não efetivação na vida prática do conjunto da população de diversos direitos constitucionalmente garantidos, escândalos e tragédias da arena política.

Ao conduzir seu protagonista a um acerto de contas com sua própria história, seu passado, e o Brasil que tanto lhe subtraiu, a ficção de Mário Rodrigues conduz seu leitor a um acerto de contas com o passado (d)e um país em um momento decisivo de nossa história.

Serviço

O escritor Mário Rodrigues participa de duas mesas hoje (21) na 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). Às 16h, com mediação da jornalista e escritora Talita Guimarães, no projeto Literatura Mútua, no Espaço Juventude. Às 19h30, com este que vos perturba, no Auditório Graça Aranha, em mesa com o tema “A taça não foi nossa”. A FeliS acontece no Multicenter Sebrae (Cohafuma), com entrada franca.

Memórias de quem está em todas

De novo-baiano a tribalista: personagem fundamental da música brasileira, Dadi lança livro em que relembra sua participação em momentos marcantes nos últimos 40 anos

Meu caminho é chão é céu. Capa. Reprodução
Meu caminho é chão é céu. Capa. Reprodução

 

Eduardo Carvalho nunca foi conhecido por seu nome de batismo, apelidado desde a infância, mesmo em casa, de Dadi. Mais que testemunha, o baixista é personagem privilegiado de momentos marcantes da música brasileira nos últimos 40 anos. Ele próprio adverte não ser um escritor, mas “um músico que teve a sorte de participar de alguns momentos maneiros da música brasileira”.

Meu caminho é chão é céu [Record, 2014, 175 p.], seu livro de memórias, recém-lançado, é um agradável rememorar de fatos e causos de sua “trajetória-vida”, como escreveu o parceiro Arnaldo Antunes numa das diversas notas introdutórias ao livro, espécies de “bilhetes de recomendação”. Com o ex-Titãs avalizam a obra Marisa Monte, Roberto de Carvalho, André Midani, Jorge Ben Jor, Heloísa Carvalho Tapajós (a Losinha, sua irmã, que escreve o texto de apresentação e a quem o livro é dedicado), Caetano Veloso, Rita Lee e Moraes Moreira. A orelha é assinada pelo jornalista e crítico musical Antonio Carlos Miguel.

Estes nomes dão ideia da importância de Dadi para a música que se fez/faz no Brasil desde que os Novos Baianos a reinventaram com o antológico Acabou chorare [1972] – ele estava lá e de lá para cá, num momento ou outro, trabalhou com todos os citados.

“Éramos músicos melhores no palco que em disco”, diz, a certa altura, sobre A Cor do Som, de que foi membro por 10 anos – fora o período em que o grupo existiu “dentro” dos Novos Baianos. Dadi refere-se ao fato de gostarem de improvisar e seu livro pode ser lido assim: como sucessivas linhas de baixo numa apresentação ao vivo, as lembranças do músico parecem papo em mesa de bar, pela descontração, de improviso, já que o autor se deixa levar pelas próprias emoções – algumas vezes pede licença ao leitor para se adiantar num ou noutro ponto para contar uma boa história sobre determinado personagem. Como se não quisesse perder o fio da meada ou a oportunidade. Casos e causos emendam-se uns aos outros quando Dadi resolveu atender aos inúmeros pedidos: com tantas histórias colecionadas em tantos anos de carreira, ele tinha que escrever um livro.

Personagem da música O leãozinho [1977], de Caetano Veloso, Dadi revela que foi a audição de Samba esquema novo [1963], de Jorge Ben, que o fez decidir que queria ser músico. Tinha então 11 anos e com uma vassoura imitava acompanhar o mestre, com quem viria a tocar depois em discos igualmente antológicos.

Não faltam histórias do mítico Sitio do Vovô, espécie de comunidade hippie onde viveram os Novos Baianos e onde foram gestados discos fundamentais do grupo, de como foi chamado a integrar o time, de viagens dentro e fora do Brasil, de ônibus e aviões perdidos, de aventuras em terras estranhas, das decisões que o destino tomou para ele, de passagens meteóricas por grupos como Barão Vermelho e Tigres de Bengala. Sobre os bastidores que rememora, Dadi também adverte: “com certeza, deixei de contar outras várias maravilhosas histórias”.

A discografia ao fim do livro lista títulos básicos a quem quiser ouvir o instrumentista. Estão lá seus discos solo – Dadi [2005] e Bem aqui [2008] – e títulos seus com os Novos Baianos, Jorge Ben Jor, A Cor do Som, Tigres de Bengala, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Marisa Monte, Tribalistas e Rita Lee. Faltam Otto, Zé Ramalho, Walter Franco, Maria Gadú, Péricles Cavalcanti e Nando Reis, fora discos em que ele toca outros instrumentos que não o contrabaixo.

[O Imparcial, ontem]