Das escritas do Choro

Chorografia do Maranhão. Capa. Reprodução

 

Quando José Antonio deixou a maternidade, aos 18 dias, a primeira música que ele ouviu foi a Suíte Retratos, na execução da Camerata Carioca em Tributo a Jacob do Bandolim, de 1979. Não a ouviu completa, pois o percurso da maternidade até em casa, de carro, era menor que o tempo de duração dos quatro movimentos (os “retratos”), que homenageiam Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga.

Não foi por acaso: a homenagem é uma espécie de síntese do Choro, ou pelo menos de suas origens e entre os bambas que tocam no disco está o maranhense João Pedro Borges, o que me enche de orgulho. O disco foi escolhido intencionalmente, redundo.

Sábado que vem (15), às 19h, na Praça Gonçalves Dias, durante o último sarau de RicoChoro ComVida na Praça em 2018, Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e este que vos perturba lançaremos – finalmente! – o livro Chorografia do Maranhão, que reúne as 52 entrevistas com 54 instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão que publicamos como uma série no jornal O Imparcial, entre março de 2013 e maio de 2015.

O lançamento acontecerá em noite especial, não apenas por se tratar da despedida do projeto este ano de seus fiéis seguidores e frequentadores eventuais, mas por que teremos o fino do Choro, a começar pelo DJ Franklin, mais o encontro do Regional Tira-Teima com a cavaquinhista carioca Luciana Rabello – e a participação especial da cantora Alexandra Nicolas.

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, nos ensina Mallarmé. Sorte ou acaso, esta celebração é também fruto de bastante trabalho: do trio de autores e do editor Bruno Azevêdo – o livro sai pela Pitomba!, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), com a chancela do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (PGCult) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Mas voltemos a alguns acasos, chamemos assim. Domingo passado, em conversa no Chorinhos e Chorões, patrimônio do Maranhão e programa bastante citado pelos entrevistados – que os chororrepórteres chamamos chorografados –, o último antes do lançamento, Ricarte Almeida Santos levou dois discos de Luciana Rabello para tocar enquanto conversávamos sobre a Chorografia do Maranhão. Um deles era o lendário Os Carioquinhas no Choro [1977], do grupo homônimo que tinha entre os integrantes a cavaquinhista e seu saudoso irmão Raphael Rabello, ambos então adolescentes. O grupo era uma espécie de embrião do que viria a ser a Camerata Carioca, sob o comando do gaúcho Radamés Gnattali. Quando Serra de Almeida (flautista do Tira-Teima) concedeu a primeira entrevista da série (publicada em março de 2013, mas realizada bem antes, o que dá ainda mais tempo de trabalho, melhor deixar essa conta pra lá), no extinto Kumidinha de Buteko, a capa do elepê decorava a parede e apareceu em uma das fotografias publicadas no jornal.

As pontas se ligam: Luciana Rabello assina a produção musical de Festejos [Acari Records, 2013], estreia de Alexandra Nicolas no mercado fonográfico, ela que fará uma participação especial durante a apresentação da amiga, um reencontro que promete arrepiar quem conhece o disco e se arrepender quem porventura ainda não (ou correr atrás do tempo perdido, nunca é tarde!).

As pontas se ligam: se, de meu lado, dedico o livro a José Antonio, afinal de contas para quem escrevo tudo o que escrevo, por outro, os irmãos Almeida Santos o dedicam a Raimundo Juruca, seu pai, que lhes ensinou a mais que gostar, a amar o Choro – o que tento fazer com José Antonio, que frequentou sua primeira roda aos nove meses de idade, com as presenças de ninguém menos que Zé da Velha e Silvério Pontes, na edição inaugural de RicoChoro ComVida na Praça, em agosto de 2016, na mesma Gonçalves Dias em que agora o Chorografia do Maranhão será lançado.

Ligam-se as pontas deste emaranhado, com texto de Chico Saldanha nas orelhas, apresentação de Luciana Rabello e posfácio de Cesar Teixeira. São muitas histórias, inclusive as nossas, já que o editor Bruno Azevêdo e o poeta Celso Borges, “testemunha de muito do que o livro diz”, nos entrevistaram para o volume.

Chorografia do Maranhão cumpre uma importante tarefa de mapear e contar as histórias dos personagens que desfilam por suas páginas, mas não só: também de toda uma geografia e afetividade que permeiam o Choro no estado.

Seu lançamento é, ao mesmo tempo, sinônimo de alegria e emoção, de um lado, e, de outro, a sensação de tirar um enorme peso das costas. Foram mais de cinco anos de trabalho entre a entrevista inicial e o livro. Que, convenhamos, com o constante interesse de jovens músicos e a consequente renovação da cena Choro, o que não é privilégio apenas do Maranhão, ainda bem, já nasce defasado: diante do surgimento de novos talentos, um volume dois já se insinua necessário, embora os chororrepórteres não prometam nada, ao menos por enquanto.

Grande parte das entrevistas do livro foi realizada em bares, redutos chorísticos por excelência. É hora de passar a régua, mas insistimos em pedir mais uma e mais um choro, por favor!

“Porque precisava responder tua dedicatória”

Gabriela,. Reprodução

 

Saudosistas dirão que no tempo das cartas era melhor, e haja carteiro gastar sola de bota e a flecha do cupido voar em slow motion. Antigamente era melhor, dirão, contrariando os adeptos dos aplicativos de relacionamento, tudo fácil, ao alcance de um clique, tudo efêmero, tempos modernos, tempos líquidos.

Uma das obsessões do escritor Bruno Azevêdo tem sido fotografar gente, sabe quem o acompanha pelas redes sociais. Desde Ostreiros, livro que dividiu com a fotógrafa Ana Mendes, o escritor vem contando histórias de gente simples, essas que supostamente não dariam uma biografia ou, uma vez escritas, estas biografias não despertariam interesse do público e encalhariam nas livrarias, ledo engano.

Gabriela, [Pitomba, 2018, 24 p., R$ 35,00] reúne em belo volume, embalado em envelope (ou não seria uma carta), diversos temas de interesse do autor: a foto-missiva tem uma pegada etnográfica, a emular Pierre Verger – todas as fotografias foram feitas em Salvador, Bahia –, passeando com leveza pela típica conversa entre amantes, que falam de seus objetos, símbolos e afinidades, não necessariamente nessa ordem.

No texto, aparecem outras obsessões de Bruno Azevêdo, como ficção científica, cinema e tipografia – este último, atestado pelo capricho editorial de sua casa, responsável por colocar definitivamente o Maranhão no mapa dos circuitos literários brasileiros, sobretudo os alternativos.

Estão lá ainda citações a valter hugo mãe, José Eduardo Agualusa, Geraldo Figueiredo (fotografado segurando o próprio poema), a vírgula do título dialogando com Clarice,, de Benjamin Moser, e um Belchior de raspão. A enchente do rio Paraguassu, na Bahia, em 1990, me liga diretamente à do Beberibe, década e meia antes, responsável por tornar raríssimo o Paêbiru de Zé Ramalho e Lula Cortes (1975).

O texto não legendando as fotos, as imagens em preto e branco dialogando com o colorido das páginas, cada qual de uma cor, enfeitada, não poderia ser diferente, qual uma carta de amor, “todas as cartas de amor são ridículas”. Uma beleza, uma beleza!

Serviço

Divulgação

Verdade e fantasia: João do Vale para crianças

O voto popular deu a João do Vale o merecido título de maranhense do século XX. O cantor e compositor, um dos mais importantes do Brasil em todos os tempos, é tido como um dos pilares da música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês – que gravaram suas músicas.

Cantador de coisas simples, imortalizou em suas composições sua terra e sua gente. Minha história, comovente autobiografia musical, é um ótimo exemplo.

João do Vale – Mais coragem do que homem [Edufma, 1998], biografia escrita pela jornalista Andréa Oliveira, há muito está esgotada. Não é disputada a tapas e a peso de ouro em sebos simplesmente por que não se encontra.

Ela conviveu com o ídolo durante seus últimos anos. Após o sucesso no sul maravilha, João do Vale retornou para sua Pedreiras natal, no interior do Maranhão, para reencontrar a vida simples que tanto o inspirou, o pé no barro do chão, o dominó com os amigos na esquina, o Lago da Onça e a Rua da Golada, Mané, Pedro e Romão, imortalizados em clássicos como Pé do lajeiroPisa na fulô e a já citada Minha história.

João – O menino cantador. Capa. Reprodução

Apaixonada pela vida a obra de João do Vale, Andréa Oliveira volta a seu personagem no infantil João – O menino cantador [Pitomba!, 2017, 36 p.], em que busca contar para crianças a/s história/s do artista, valorizando sua infância.

“Era uma vez”, começa o livro, evocando a clássica abertura dos contos de fadas. O livro nasceu do desejo de Andréa Oliveira, autora ainda de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão (2003), de contar a história de João do Vale aos filhos, à época ainda crianças – entre a ideia e a publicação foram sete anos.

A autora mescla a precisão jornalística e seu compromisso com a veracidade dos fatos ao universo fabular. Garante às crianças, como ela declarou em entrevistas, os direitos à verdade e à fantasia, no que o próprio João do Vale foi um craque.

Em meio à narrativa de Andréa Oliveira, trechos de músicas de João do Vale (não há quem não se pegue cantando ao ler) e ilustrações do artista plástico Fernando Mendonça, cuja simplicidade certamente despertará o interesse das crianças em produzir suas próprias ilustrações, “completando” as originais do livro – o projeto gráfico é do cantor e designer Claudio Lima. Literatura, música e artes plásticas redescobrindo, para as novas gerações, a importância do autor de Estrela miúda e Na asa do vento.

A narrativa é linear, acompanhando João do Vale desde sua infância até o falecimento, passando por sua ida ao Rio de Janeiro, de carona em caminhões, o trabalho na construção civil, as primeiras gravações, o sucesso, a resistência à ditadura militar – do que o clássico Carcará é metáfora exemplar.

Mas engana-se quem pensa que a história tem final triste: a autora atesta, com razão, que João do Vale permanece vivo, prova disso é sua obra, até hoje cantada e assobiada por muitos, e este livro, cuja beleza e delicadeza reavivam a memória do artista – este realmente merece ser chamado de “popular” – e, além de comover os que já lhe conhecem, certamente despertará o interesse dos que porventura ainda não.

Num tempo em que em geral crianças interessam-se mais por celulares e tablets que por livros, João – O menino cantador tem também uma difícil tarefa de conquistar novos leitores. Que, curiosos, poderão voltar aos eletrônicos para descobrir João do Vale através do youtube e de outros aplicativos.

Serviço

A noite de autógrafos de João – O menino cantador, de Andréa Oliveira, acontece nesta quinta-feira (1º. de junho), às 18h30, na Sala de Exposições do Condomínio Fecomércio – Sesc/Senac (Av. dos Holandeses, Calhau). Haverá pocket show com Ivandro Coelho interpretando repertório de João do Vale. Publicado pela editora Pitomba!, o livro tem apoio do Sesc/MA

De quatro é mais gostoso

A lua, a data e o catálogo da Pitomba são crescentes. 11/12/13. Noite. Chico Discos. Quatro autores, Bruno Azevêdo (Baratão 66, com Luciano Irrthum), Celso Borges (O futuro tem o coração antigo), Jorgeana Braga (A casa do sentido vermelho) e Reuben da Cunha Rocha (As aventuras de Cavalodada em + realidades q canais de tv), autografam seus novos livros, a estreia, no caso do último.

Se liguem: dia onze, mês doze, ano treze. Sacaram? “O gato preto cruzou a estrada/ passou por debaixo da escada”. Antes isso que ficar em casa nessa data. Pra quem não for, nunca a frase “azar o seu” fez tanto sentido.

Apareçam! Encontrem conhecidos e desconhecidos. Conversem. Bebam. Tirem gosto com queijo e azeitona. E principalmente: comprem e leiam os livros, que estão lindos por fora e por dentro.

Mais sobre cada um digo depois (sobre o de Celso eu e Flávio Reis, autor também publicado pela Pitomba, já dissemos). De aperitivo, deixo-lhes as capas.

Esse sai com duas capas. A outra vocês conhecerão no lançamento
Poesia de Celso Borges vem embalada em registro fotográfico da cidade fora do convencional
Segundo livro da poeta, que estreia no romance
Entre a poesia e o manifesto, a estreia de Reuben da Cunha Rocha

Sebo no Chão pra descentralizar

Magah no miolo do ataque

Estive ontem no Sebo no Chão, movimento cultural que tem ocupado a praça da Igreja Católica do Cohatrac, sempre à noite, aos domingos. Reencontrei um punhado de amigos e conhecidos.

Há o espaço para o que batiza o movimento, a venda de livros usados, estendidos sobre uma espécie de manta, o comprador carecendo se acocorar para tocar o que comprará ou não. Ontem a editora Pitomba de Bruno Azevêdo também botou banca – catei um exemplar do Tension de la passion.

Uma congregação em que há ainda brechó – a esposa comprou um colar –, cerveja e comida vegetariana, que encarei, mas reforcei com o delicioso churrasquinho da Rose, vendido do outro lado da praça.

E a música, é claro, sempre ela, indispensável para a vida, esta arte do encontro, como bem já classificou o poeta. Vi e ouvi duas boas apresentações, na edição de ontem do evento: os talentosos Tiágo Máci e Marcos Magah.

O primeiro mostrou seu Samba do fuleiro, já um hit na internet, músicas inéditas – gostei bastante de uma que cita Cesar Teixeira – e covers de Zeca Baleiro. O segundo passeou pelos repertórios de Z de vingança e O homem que virou circo – disco que deve lançar até o fim do ano –, além de músicas inéditas, destaque para a deliciosa e pegajosa É melhor quebrar o copo do que quebrar a cara.

Que venham outras edições com outros convidados e o Sebo no Chão tenha vida longa. A cultura de São Luís – ou o que se entende por isso – não pode se restringir à Praia Grande, Madre Deus e arredores centrais.