Fundos rotativos solidários: uma alternativa para o Brasil

Seminário estadual “Fundos solidários: autonomia comunitária para o bem viver” aconteceu no Oásis e reuniu 45 representantes de grupos e comunidades de 15 municípios

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O JP TURISMO

Estamos em plena corrida eleitoral e, como de praxe, candidatos se apresentam, alguns com soluções mirabolantes à busca de fisgar o eleitorado. Diante da crise que assola o país, alguns temas chamam a atenção: o reaquecimento da economia e a limpeza do nome do brasileiro estão entre os compromissos de alguns candidatos.

Não são tarefas fáceis, mas para boa parte da população, podem ser mais simples do que aparentam. Uma ideia que pode ser aproveitada pelos postulantes a cargos neste pleito são os fundos rotativos solidários. O Maranhão está repleto de bons exemplos.

Alguns participantes do seminário. Foto: Lena Machado

Entre a última segunda (3) e quarta-feira (5), na Casa de Retiros Oásis (Rua Frei Hermenegildo, Aurora, São Luís), a Cáritas Brasileira Regional Maranhão reuniu cerca de 45 representantes de comunidades e grupos produtivos para uma formação sobre a temática – alguns grupos já atuam nesta perspectiva há mais de 20 anos. A iniciativa tem apoio da Fundação Interamericana.

“A Cáritas celebrou um convênio com a Fundação Interamericana que prevê o apoio a grupos produtivos ligados à Rede Mandioca para o desenvolvimento de ações produtivas, fortalecimento de ações de economia solidária e de comercialização junto a esses grupos em 11 municípios do Maranhão e esse processo também prevê momentos de capacitação e acompanhamento desses grupos. Esse seminário estadual sobre fundos solidários é um desses momentos de capacitação garantidos por essa parceria, o primeiro”, destacou Lucineth Cordeiro, assessora regional de Economia Popular Solidária.

Momento de mística do seminário. Foto: Lena Machado

Para o desenvolvimento da Rede Mandioca, que já tem mais de 10 anos de atuação no Maranhão, a Cáritas também celebrou um termo de fomento junto à Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop). Somando as iniciativas, são 30 grupos e comunidades acompanhados em 15 municípios: Água Doce, Amarante, Aldeias Altas, Belágua, Benedito Leite, Codó, Lago Açu, Lago da Pedra, Lagoa Grande, Loreto, Marajá do Sena, Nina Rodrigues, Presidente Vargas, Riachão e Vargem Grande – onde teve início a experiência da Rede Mandioca.

Intercâmbio – Foi um rico momento de troca de experiências. Os fundos rotativos solidários funcionam à base de solidariedade – como o próprio nome entrega –, coletividade e confiança. Indago a alguns participantes do seminário se eles acreditam que esta solução poderia ser aplicada em larga escala pelo país e a resposta unânime é sim.

Dona Expedita. Retrato: Zema Ribeiro

Em Água Preta, comunidade do município de Amarante, por exemplo, o fundo rotativo solidário local teve início diante da necessidade de a comunidade construir uma casa de farinha em regime de mutirão, com o material doado pela Cáritas. “A união faz a força e em 15 dias construímos a casa. Havia a cultura de que nós somos pobres por que Deus quer, vamos sofrer por que é a vontade de Deus. Nisso não acreditamos mais”, conta a quebradeira de coco Expedita Pereira, de 75 anos.

Ela dá uma ideia da dinâmica de funcionamento dos fundos rotativos solidários: “hoje em dia a gente faz farinha todo dia. Cada um que faz tem que deixar uma porcentagem para a manutenção do forno, que é de todos. Um ajeitando, é para todos. Tem um dinheiro no caixa, uma pessoa adoece, não pode comprar o remédio, eles vão lá e ajudam”, explica.

Walter dos Santos. Retrato: Zema Ribeiro

Para o produtor rural Walter dos Santos, 48, a solidariedade é algo tão arraigado em sua comunidade que ele tem dificuldade em destacar o marco inicial do fundo rotativo solidário em Pequi da Rampa, comunidade de Vargem Grande. “Trabalhamos há muito tempo, vem de berço a questão da solidariedade na comunidade”, afirma.

Os moradores de Pequi da Rampa começaram a se organizar diante da necessidade de pagar um empréstimo, contraído com a finalidade de melhorar a casa de forno local. Ele cita o ano de 1995 como marco e conta: “nós trabalhávamos de roça no toco e no ano seguinte cada um deu meia linha de roça. Todo produto que desse nessa meia linha era botado no depósito, vendido e o arrecadado ia pro fundo. Só com as meias linhas de roça a gente conseguiu estocar mais de três mil quilos de farinha e o empréstimo que era para a gente pagar em três anos, a gente pagou em dois”, relembra.

Seu Zezinho. Retrato: Rose Panet

O catador José Ferreira Lima, de 67 anos, mais conhecido como Seu Zezinho, é presidente da Associação de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis de Imperatriz/MA (Ascamari). Ele lembra que quando a associação foi fundada, já havia um fundo de mil reais, cujo objetivo era a reforma de uma casa na Vila Cafeteira, bairro do município. O dinheiro acabou sendo usado, “em regime de economia solidária”, como ele mesmo frisa, para servir como uma espécie de capital de giro, beneficiando os catadores associados. A associação antecipava aos catadores o pagamento pelo material recolhido e o dinheiro era devolvido ao fundo quando o material era vendido, livrando os trabalhadores de uma espera média de 30 dias.

Através de parcerias desenvolvidas com a Prefeitura municipal, foi construído um galpão e a coleta seletiva está implantada, o que facilita os trabalhos de catação e triagem. A Ascamari tem 54 filiados, o que significa algo em torno de 10% dos catadores e catadoras em atividade em Imperatriz.

Diversidade – Percebe-se a diversidade do grupo reunido no seminário. “Durante esses dias, os integrantes de grupos e comunidades aqui presentes discutiram o que é um fundo solidário, como funciona, proposta de regimento, como organizar um fundo local, pra que serve, qual a perspectiva do fundo solidário dentro da economia solidária, o que é economia solidária. A gente esteve abordando esses princípios e também definindo um pouco a estrutura de gestão, propondo para as comunidades modelo de regimento, como fazer adaptações a partir de suas realidades e a partir também da vocação de cada comunidade”, comenta Lucineth Cordeiro.

Outra experiência apresentada ao longo do seminário foi a de São Benedito dos Colocados, em Codó, comunidade que produz arroz, feijão, milho e mandioca, transformada em farinha. O agente comunitário de saúde Valdivino Silva, 55 anos, agente Cáritas, é um dos integrantes da Coordenação Estadual da Rede Mandioca. O fundo solidário articula várias comunidades, que atuam, além da produção na agricultura familiar, com a produção de artesanato e de peças íntimas.

Valvivino Silva. Retrato: Rose Panet

“Os fundos têm duas frentes de ação: uma é o trabalho em mutirão, é a troca da diária, do serviço; as diárias são calculadas com valores, mas não têm papel [moeda], mas o valor é somado, é contado; a outra parte é a financeira: alguém precisa de um recurso, coloca isso na reunião, tem um tesoureiro, um secretário do fundo, ele anota no caderno e passa a grana”, explica Valdivino. Os valores são pequenos. Nenhum dos fundos solidários sobre os quais conversamos tem mais de seis mil reais em caixa. Mas como dizem os católicos, “o pouco com Deus é muito”, e esta é a premissa que lhes faz crer que, difundidos pelo país, os fundos rotativos solidários podem ser solução para alguns problemas brasileiros.

Pedro Silva Alves. Retrato: Zema Ribeiro

Os conhecimentos adquiridos ao longo das atividades serão multiplicados junto às comunidades, no retorno de seus representantes. O lavrador Pedro Silva Alves, de 26 anos, é morador da comunidade Bola de Coco, município de Lago da Pedra, uma das mais recentes a aderir aos fundos rotativos solidários. “Havia muito desperdício [de polpa de frutas, por exemplo]. O que tínhamos a gente não sabia trabalhar. A Cáritas mostrou o que a gente podia aproveitar e formar uma renda”, conta ele. Seu balanço dos dias de atividade aponta para o futuro: “Foram dias de muita experiência e aprendizado, uma rica troca de informações com outras comunidades. Vamos passar as informações adiante e, com fé em Deus, prosperar ainda mais”, finaliza.

[publicado na edição de hoje do Jornal Pequeno, em que também saiu uma exaltação a São Luís, por ocasião de seu aniversário, amanhã, encomenda do amigo Gutemberg Bogéa, editor do suplemento JP Turismo]

Cáritas inaugura Centro de Referência

[Release para a Cáritas]

Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar será inaugurado dia 6 de setembro. Instalações incluem ainda o Auditório Mané da Conceição

O primeiro embrião da Rede Mandioca foi plantado há quase 10 anos, durante a execução do projeto Trilhas de Liberdade, executado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão nas comunidades Vila Ribeiro e Riacho do Mel, em Vargem Grande.

“Vargem Grande era, como muitas cidades pobres do interior do Maranhão, um grande centro exportador de mão de obra escrava para outras regiões do país. Aquele projeto inicial tinha a intenção justamente de evitar aquele êxodo, de garantir trabalho e renda através da produção de derivados de mandioca”, explica Lucineth Machado, assessora de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas no Maranhão.

Hoje são mais de 80 comunidades e grupos filiados, totalizando cerca de 2.500 famílias, de 22 de municípios: Araioses, Balsas, Barra do Corda, Bom Jesus das Selvas, Buriticupu, Cajapió, Centro Novo, Codó, Imperatriz, Itapecuru-Mirim, Lago da Pedra, Magalhães de Almeida, Monção, Pedreiras, Penalva, Riachão, São Bernardo, São Mateus, São Raimundo das Mangabeiras, Trizidela do Vale, Vargem Grande e Viana. Produtores de derivados de mandioca – farinha, mesocarpo, tapioca –, agroextrativistas – azeite e mel –, criadores de pequenos animais e artesãos. Toda a produção é orientada por princípios agroecológicos e da economia popular solidária.

Produção de grupos e comunidades filiadas à Rede Mandioca agora tem endereço certo

Estes produtos agora têm endereço certo para aquisição em São Luís: a Quitanda da Rede Mandioca, parte do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar do Maranhão, instalado na sede da Cáritas, na Rua do Alecrim, 343, Centro (próximo ao Palácio dos Esportes).

A reforma do prédio para abrigar o centro durou pouco mais de um ano e contou com apoio da Fundação Banco do Brasil. “A primeira etapa garantiu a reforma da casa, que terá modernas instalações para receber os consumidores. Com a segunda foi possível pensar a própria dinâmica do centro, com estoque, atendimento, seu funcionamento, enfim”, explica Ricarte Almeida Santos, secretário executivo da Cáritas no Maranhão.

A inauguração do Centro, incluindo a Quitanda e o auditório Mané da Conceição, acontecerá dia 6 de setembro (sexta-feira), às 9h. Na ocasião serão servidas iguarias produzidas por filiados à rede. Entre as delícias, bolo de macaxeira, beiju, mingau de mesocarpo, ovos de galinha caipira fritos no azeite de coco babaçu e até mesmo a tão maranhense tiquira.

Homenagem – “Manoel da Conceição é um líder camponês pioneiro na organização de trabalhadores no interior de nosso estado. Tem uma contribuição ímpar às suas lutas e suas causas”, explica Ricarte sobre o escolhido para emprestar o nome ao novo auditório da Cáritas, um espaço que será usado pela própria entidade, para atividades de formação, bem como por entidades parceiras.

Sua inauguração acontecerá também na sexta-feira, ocasião em que será exibido um documentário curta-metragem sobre intercâmbio realizado em 2012, com a presença de representantes de várias Cáritas do Brasil, que conheceram a experiência da Rede Mandioca no interior do Maranhão.

Em sequência, performance do ator Domingos Tourinho, apresentação musical do cantor e compositor de Chico Nô e degustação de um café da manhã típico pelos presentes.

“Essa degustação inicial certamente fidelizará os consumidores”, ri Lucineth. Interessados poderão participar de uma cooperativa e adquirir cestas de produtos periodicamente, de acordo com a chegada do interior. “É uma alternativa viável de consumir alimentos mais saudáveis a um preço mais justo”, propagandeia.

SERVIÇO

O quê: café de inauguração do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar.
Onde: Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar (Quitanda da Rede Mandioca e Auditório Mané da Conceição), sede da Cáritas Brasileira Regional Maranhão (Rua do Alecrim, 343, Centro).
Quando: 6 de setembro (sexta-feira), às 9h.
Quanto: entrada franca.
Maiores informações: caritas@elo.com.br, (98) 3221-2216.