Emoção marca inauguração do Centro de Referência da Agricultura Familiar

[Texto que escrevi pro site da Cáritas Brasileira Regional Maranhão]

Produção de grupos filiados à Rede Mandioca tem endereço certo. Centro de Referência em Comercialização de Produtos da Agricultura Familiar foi inaugurado na última sexta-feira, 6, na sede da Cáritas

POR ZEMA RIBEIRO

Emoção é uma palavra que bem poderia traduzir o que foi a inauguração do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar, na sede da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, na manhã de sexta-feira, 6.

Cerca de 100 pessoas de diversos municípios maranhenses estiveram presentes à solenidade, que inaugurou os três pontos do centro: o Auditório Mané da Conceição, a biblioteca Dom Xavier Gilles e a Quitanda da Rede Mandioca.

A sede da Cáritas no Maranhão passou por uma reforma para abrigar o Centro, financiada pela Fundação Banco do Brasil. O Banco do Nordeste financia o acompanhamento de grupos produtivos e os fundos rotativos solidários, que ajudam a garantir sua sustentabilidade.

Homenageado presente, Dom Xavier Gilles abençoou os presentes após a saudação inicial de Lucineth Machado, assessora de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas. A experiência da entidade no assunto – a Rede Mandioca completará 10 anos de articulação em 2014 – foi apresentada em um documentário que cobriu um intercâmbio com grupos solidários atendidos por diversos regionais da Cáritas no Brasil. Realizado em setembro do ano passado em cidades como Codó, Lago da Pedra e Vargem Grande, o filme focou justamente a experiência da Rede Mandioca.

O ator Domingos Tourinho recitou o poema Latifúndio, de Joãozinho Ribeiro, em performance carregada de dramaticidade, representando a luta de trabalhadores e trabalhadoras rurais no interior do Maranhão – adiante ele dramatizaria ainda Pobreza incalculável, de Ricarte Almeida Santos. Os poemas, em que luta é sinônimo de vida, dialogam diretamente com as origens da Rede Mandioca: um projeto piloto desenvolvido pela Cáritas em Vila Ribeiro e Riacho do Mel, duas comunidades rurais de Vargem Grande. O principal objetivo era evitar o êxodo de trabalhadores rumo ao corte da cana no interior de São Paulo e outras atividades e geografias que se alimentam vorazmente do trabalho escravo.

Joãozinho Ribeiro, poeta, compositor e professor universitário, vinculado a diversos movimentos sociais e culturais do Maranhão, não escondeu a emoção e a honra: “Sei nem se conseguirei cantá-la até o fim”, temeu inicialmente, mas conseguiu empunhar o violão para apresentar Passamento, música composta em 1987 e cedida ao MST. A música homenageia o líder camponês Manoel da Conceição e aborda temas espinhosos enfrentados pelo próprio e por tantos outros trabalhadores maranhenses: grilagem, latifúndio, violência, assassinatos. Ao fim, sob aplausos, Joãozinho dedicou-a a Padre Victor Asselin, estudioso das questões, recentemente falecido.

A mesa solene foi composta com as presenças dos superintendentes João Batista Ayres (estadual) e Alaércio Dutra (regional) e do gerente de negócios de desenvolvimento sustentável Paulo Belarmino, do Banco do Brasil, Edmar Saturnino César, gerente de microfinanças do Banco do Nordeste, José da Luz Costa Filho, da Articulação Estadual da Rede Mandioca, Valtenir Moraes, da Comunidade Piqui da Rampa (Vargem Grande), Jaime Conrado, assessor do Secretariado Nacional da Cáritas Brasileira, e Ricarte Almeida Santos, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

A emoção – sempre ela – foi algo unânime nas falas. E não era para menos: uns emocionaram-se com as apresentações artísticas – “a Rede Mandioca também é cultura”, enfatizou a cantora Lena Machado, assessora da Cáritas, e mestra de cerimônias do evento –, outros por terem participado da construção da rede desde o início, outros por perceber os frutos que começam a ser colhidos por ela, alguns anos depois da semente plantada, outros ainda simplesmente por estar ali.

“Os governos têm muito que aprender com os movimentos sociais. A experiência da Rede Mandioca é riquíssima, há muito que pode ser copiado, é uma honra ter feito parte de seu início, poder reencontrar amigos aqui”, afirmou Jaime Conrado.

“O que queremos é corrigir o processo histórico de exclusão da mandioca para a valorização das coisas de fora, das monoculturas e grandes projetos que têm legado ao Maranhão vergonhosos indicadores sociais. A Rede Mandioca nasce como uma estratégia de enfrentamento ao trabalho escravo e hoje se consolida como uma experiência viável de produção e comercialização justa”, apontou Ricarte Almeida Santos.

João Batista Ayres relembrou o compromisso do Banco do Brasil com o Desenvolvimento Solidário Sustentável. “É necessário cada vez mais o envolvimento [do banco] com o social. Esta iniciativa da Rede Mandioca é um início. Quem sabe num futuro breve não teremos um pão com mais mandioca, mais gostoso?”, provocou. “Agora me sinto realmente chegado ao Maranhão. Entre vocês me sinto em casa”, revelou, ele que já trabalhou em 11 estados brasileiros.

A comunidade de Piqui da Rampa saudou os presentes com uma apresentação de seu tambor de crioula, antes do descerramento da placa que marcou a inauguração do Centro de Referência. Os presentes puderam adquirir produtos diversos, de grupos da Rede Mandioca: mel, azeite de babaçu, mesocarpo, farinhas d’água e seca, tiquira, toalhas, sabões e artesanatos, além de deliciar-se com um café da manhã repleto de iguarias também produzidas por filiados à Rede Mandioca.

Cáritas inaugura Centro de Referência

[Release para a Cáritas]

Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar será inaugurado dia 6 de setembro. Instalações incluem ainda o Auditório Mané da Conceição

O primeiro embrião da Rede Mandioca foi plantado há quase 10 anos, durante a execução do projeto Trilhas de Liberdade, executado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão nas comunidades Vila Ribeiro e Riacho do Mel, em Vargem Grande.

“Vargem Grande era, como muitas cidades pobres do interior do Maranhão, um grande centro exportador de mão de obra escrava para outras regiões do país. Aquele projeto inicial tinha a intenção justamente de evitar aquele êxodo, de garantir trabalho e renda através da produção de derivados de mandioca”, explica Lucineth Machado, assessora de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas no Maranhão.

Hoje são mais de 80 comunidades e grupos filiados, totalizando cerca de 2.500 famílias, de 22 de municípios: Araioses, Balsas, Barra do Corda, Bom Jesus das Selvas, Buriticupu, Cajapió, Centro Novo, Codó, Imperatriz, Itapecuru-Mirim, Lago da Pedra, Magalhães de Almeida, Monção, Pedreiras, Penalva, Riachão, São Bernardo, São Mateus, São Raimundo das Mangabeiras, Trizidela do Vale, Vargem Grande e Viana. Produtores de derivados de mandioca – farinha, mesocarpo, tapioca –, agroextrativistas – azeite e mel –, criadores de pequenos animais e artesãos. Toda a produção é orientada por princípios agroecológicos e da economia popular solidária.

Produção de grupos e comunidades filiadas à Rede Mandioca agora tem endereço certo

Estes produtos agora têm endereço certo para aquisição em São Luís: a Quitanda da Rede Mandioca, parte do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar do Maranhão, instalado na sede da Cáritas, na Rua do Alecrim, 343, Centro (próximo ao Palácio dos Esportes).

A reforma do prédio para abrigar o centro durou pouco mais de um ano e contou com apoio da Fundação Banco do Brasil. “A primeira etapa garantiu a reforma da casa, que terá modernas instalações para receber os consumidores. Com a segunda foi possível pensar a própria dinâmica do centro, com estoque, atendimento, seu funcionamento, enfim”, explica Ricarte Almeida Santos, secretário executivo da Cáritas no Maranhão.

A inauguração do Centro, incluindo a Quitanda e o auditório Mané da Conceição, acontecerá dia 6 de setembro (sexta-feira), às 9h. Na ocasião serão servidas iguarias produzidas por filiados à rede. Entre as delícias, bolo de macaxeira, beiju, mingau de mesocarpo, ovos de galinha caipira fritos no azeite de coco babaçu e até mesmo a tão maranhense tiquira.

Homenagem – “Manoel da Conceição é um líder camponês pioneiro na organização de trabalhadores no interior de nosso estado. Tem uma contribuição ímpar às suas lutas e suas causas”, explica Ricarte sobre o escolhido para emprestar o nome ao novo auditório da Cáritas, um espaço que será usado pela própria entidade, para atividades de formação, bem como por entidades parceiras.

Sua inauguração acontecerá também na sexta-feira, ocasião em que será exibido um documentário curta-metragem sobre intercâmbio realizado em 2012, com a presença de representantes de várias Cáritas do Brasil, que conheceram a experiência da Rede Mandioca no interior do Maranhão.

Em sequência, performance do ator Domingos Tourinho, apresentação musical do cantor e compositor de Chico Nô e degustação de um café da manhã típico pelos presentes.

“Essa degustação inicial certamente fidelizará os consumidores”, ri Lucineth. Interessados poderão participar de uma cooperativa e adquirir cestas de produtos periodicamente, de acordo com a chegada do interior. “É uma alternativa viável de consumir alimentos mais saudáveis a um preço mais justo”, propagandeia.

SERVIÇO

O quê: café de inauguração do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar.
Onde: Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar (Quitanda da Rede Mandioca e Auditório Mané da Conceição), sede da Cáritas Brasileira Regional Maranhão (Rua do Alecrim, 343, Centro).
Quando: 6 de setembro (sexta-feira), às 9h.
Quanto: entrada franca.
Maiores informações: caritas@elo.com.br, (98) 3221-2216.

Música e poesia em duas noites memoráveis

Joãozinho Ribeiro, "o gregário"
Joãozinho Ribeiro, “o gregário”

ZEMA RIBEIRO

Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.

Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.

Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.

Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro
Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.

Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).

"Cantador que canta só canta mal acompanhado"
“Cantador que canta só canta mal acompanhado”

O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.

João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.

Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.

Vias de Fato, dezembro/2012. Leia o texto que escrevi para o programa de Milhões de uns (distribuído aos espectadores por ocasião do espetáculo). Continue Lendo “Música e poesia em duas noites memoráveis”