Garrincha do Brasil

Garrincha, a alegria do povo. Cartaz. Reprodução

 

Nada mais simbólico que neste domingo de missa, praia, céu de anil, sangue no jornal e bandeiras e adesivos nas avenidas, o Canal Brasil exibir Garrincha, alegria do povo [documentário, Brasil, 1962, restaurado em 2006; 58 min.], tributo cinematográfico de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) ao anjo das pernas tortas – de carioca para carioca, de craque pra craque, tabela perfeita, um gol de cinema. O filme tem roteiro do diretor com Luiz Carlos Barreto, Armando Nogueira (1927-2010), Mário Carneiro (1930-2007) e David Neves (1938-1994).

Personagem emblemático do futebol brasileiro, Garrincha (Manuel Francisco dos Santos, 1933-1983) é até hoje adorado não só por botafoguenses: seus dribles desconcertantes encantavam até mesmo os adversários – e seguem encantando, em videotapes ou no filme de Andrade. Eis aí um brasileiro capaz de unir o Brasil.

Acervo Cinemateca Brasileira. Reprodução

Eram outros tempos, em que um futebol tinha uma dimensão menos espetacularizada (e monetizada, através da publicidade, sobretudo) e a gente humilde (onde vez por outra surge um Garrincha) tinha condições de frequentar estádios, antes de estes passarem a ser chamados de arenas.

A homenagem de Andrade a Garrincha, prestada ainda em vida, como advogavam Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Guilherme de Brito (1922-2006), acertadamente não se prende a ser uma espécie de “melhores momentos” do craque (o que qualquer produtor de tevê faz na segunda-feira, após a rodada do fim de semana), nem adentra a tragédia do alcoolismo que o vitimou, talvez por ter sido realizado no auge do futebolista, em 1962 – e já que falamos em música, à trilha sonora comparecem as escolas de samba Portela e Império Serrano.

Andrade equilibra a montagem entre o delírio das torcidas e o silêncio das fotografias em preto e branco com que também ilustra seu filme, antológico qual um drible do homenageado, a reação do craque à fama (uma câmera escondida acompanha o ídolo pelas ruas do Rio de Janeiro) e a dimensão humana do personagem: pai de sete filhas, a casa humilde, na Pau Grande natal, decorada quase completamente com temas futebolísticos – retratos, flâmulas –, e o aparelho de som, diante do qual aparece dançando e botando as filhas para dançar, numa coleção que tinha Nat King Cole, sambas e marchinhas, o próprio Garrincha personagem de alguns clássicos da música popular brasileira.

É cinema, mas contém teatro (o espetáculo das jogadas individuais de Garrincha e as vitórias alcançadas pelo Botafogo e pela Seleção Brasileira nas copas de 1958 e 62), dança (não apenas na sala de casa: Garrincha bailava ao deixar adversários – os joões, como ele mesmo se referia a seus marcadores – no chão), pintura (cada fotografia de um drible de Mané merece moldura) e poesia: adaptando Leminski (1944-1989, que posteriormente se referiria a Zico, com essa pergunta), “como explicar um gol de Garrincha?”. Tarefa impossível: quem explica um milagre? Em se tratando de Garrincha, é simplesmente disso que se trata.

Uma história curiosa que comparece à película narrada por Heron Domingues é a de que Garrincha chegou a se empregar na fábrica de tecidos em torno do qual girava a vida em Pau Grande. Conseguia a proeza de dormir em pleno expediente, apesar do barulho ensurdecedor das máquinas. Sua demissão ficava adiada para a próxima segunda-feira e nunca se concretizava, pois no fim de semana ele fazia os gols das vitórias do Sport Club Pau Grande, o time da fábrica, ampliando o respeito dos colegas – e garantindo a sobrevida no emprego.

Criador de passarinhos, entre os bichos de sua “coleção”, havia um mainá, ave reconhecida pela capacidade de aprender algumas palavras, quando em cativeiro. Duas ou três vezes ao longo do filme ouvimos o bichinho de estimação de Garrincha gritar: “Vasco!”.

É vendo Garrincha, alegria do povo que entendemos a resposta de Vinicius de Moraes (1913-1980) a um superior no Itamaraty, quando perguntado se não gostaria de prolongar sua função no estrangeiro: “e você sabe lá o que é um choro de Pixinguinha, o que é torcer pelo Botafogo?”.

Documentário reverencia Humberto de Maracanã e contribui para a manutenção de seu legado

O mestre Humberto de Maracanã. Foto: Diana Gandra
O batalhão pesado de Maracanã. Foto: Diana Gandra

 

É necessário reconhecer a importância do trabalho empreendido pelo grupo A Barca, ao longo de 20 anos de existência – um novo disco celebrando a marca deve ser lançado até o fim do ano –, no registro de manifestações da cultura popular brasileira. Guardadas as devidas proporções, seu trabalho se irmana a mapeamentos fundamentais como as pioneiras Missões de Pesquisas Folclóricas empreendidas por Mário de Andrade ainda nos anos 1930 e todo o catálogo da gravadora Discos Marcus Pereira, do publicitário aficionado por música popular, realizado entre os anos 1960 e 70.

Dito isto, merece especial destaque a paixão da contrabaixista Renata Amaral pela cultura popular do Maranhão. Com o grupo, ela foi responsável pelo lançamento de discos como os do Baião de Princesas, Tambor de Crioula de Taboca, Tambor de Mina Raiz Nagô, Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestações da Casa Fanti Ashanti, do Bumba Meu Boi de Costa de Mão Brilho da Sociedade, Tenda São José e Estrela Brasileira, do Bumba Meu Boi de Maracanã.

Renata também assina direção e roteiro do documentário musical Pedra da Memória (2013), que acompanha uma viagem do babalorixá Euclides Talabyan ao Benin.

Guriatã. Capa. Reprodução

No último dia de São João (24 de junho), Renata Amaral lançou, durante a cerimônia do batizado do Bumba Meu Boi de Maracanã, na sede do grupo homônimo, na comunidade idem, no interior da Ilha de São Luís, o documentário Guriatã [Brasil, 2018, 90 min.], com direção e roteiro também assinados por ela – o projeto foi selecionado pelo edital Rumos Itaú Cultural.

A musicista e cineasta conviveu com Humberto por cerca de duas décadas, inclusive como integrantes do Ponto BR, coletivo que reúne mestres de cultura popular de várias regiões do Brasil. O que se percebe no filme é um misto de intimidade, comunhão e devoção.

Estrela de primeira grandeza, interpretado por vozes como Alcione e Maria Bethania, Humberto Barbosa Mendes (1939-2015) era um homem simples, do povo. Lavrador. Sobretudo de versos. Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura.

O guriatã do título é uma alcunha adotada pelo próprio Humberto, assim reconhecido por pessoas próximas e pelos milhares de seguidores e seguidoras de seu batalhão pesado. Curioso é que o passarinho que lhe deu apelido é conhecido por imitar o canto de outros pássaros, embora Humberto de Maracanã fosse dono de um canto e uma poesia extremamente originais – não à toa vários depoimentos apontem-no como único, maior.

É impactante ver a emoção causada por seu canto e sua capacidade de liderança. É comovente o relato de Walter França – mestre de maracatu, também seu companheiro no coletivo Ponto BR – sobre a primeira vez que ouviu uma toada do maranhense e sua vontade imediata de conhecer o compositor. É curiosa a revelação da porção sambista do protagonista. É sublime o registro de Humberto junto a Pai Euclides e Mestre Apolônio, todos já falecidos. É engraçado compartilhar de momentos descontraídos, a diretora transformando qualquer espectador em íntimo do ídolo.

A lembrança de toadas de pique – equivalentes aos repentes de violeiros no universo do bumba meu boi – também garante boas risadas, com Humberto em geral vencendo os desafios. Mesmo quando se fala em seu falecimento, a reverência com que é tratado atenua a dor da perda e aponta para a perpetuação de seu legado – a grande família, consanguínea e comunitária, de Mestre Humberto tem mantido viva e acesa a tradição do Bumba Meu Boi de Maracanã, para o que também o documentário de Renata Amaral dá contribuição inestimável.

O espírito de Tarso de Castro

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro. Cartaz. Reprodução

 

Tarso de Castro foi um divisor de águas no jornalismo brasileiro, para além do clichê da afirmação e de qualquer julgamento por sua vida pessoal. É daqueles personagens de vida tão intensa que nos dá a impressão de que a maior dificuldade sobre remontar sua trajetória é escolher que histórias contar.

Não há hipérbole no título A vida extra-ordinária de Tarso de Castro [documentário, Brasil, 2018, 90 min.], que deve atrair novas atenções à memória do jornalista, continuando o trabalho do biógrafo da lenda Tom Cardoso, que comparece ao documentário, – seu 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros saiu pela editora Planeta em 2005.

Inventor de Pasquim, Enfim e Folhetim (suplemento da Folha de S. Paulo, jornal no qual chegou a ser o colunista mais lido do país na década de 1980), Tarso, filho do jornalista Múcio de Castro, enveredou pelo jornalismo praticamente criança, visitando as oficinas tipográficas de O Nacional, que o pai mantinha em sua Passo Fundo natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde, entre o jornalismo e a boemia virou ele próprio um sinônimo de Ipanema.

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro é uma bela e divertida homenagem ao “outro cabeludo” do clássico Detalhes, de Roberto Carlos. O filme foge de depoimentos convencionais, em que entrevistados encaram câmera ou entrevistador e mostra telefonemas e mesas em que amigos relembram o ícone, além de imagens de arquivo em que o próprio Tarso de Castro aparece, entrevistando, por exemplo, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim e Leonel Brizola – indagando ao então presidenciável, de forma de algum modo pioneira, sobre a posição de seu partido sobre o tema da homossexualidade, tabu à época.

Seu sucesso com as mulheres é ilustrado por trechos de diálogos de filmes brasileiros – sem falar uma palavra de inglês, namorou, por exemplo, a atriz Candice Bergen, que depois se casaria com o cineasta Louis Malle, levando Tarso a gracejar: “dos Malles o menor”.

O filme garante boas risadas, mas seu objetivo é reconhecer a grandeza de Tarso de Castro. Há um exercício de futurologia – ou presentologia, já que ele faleceu em 1991, antes de completar 50 anos – quando especula-se o que o jornalista estaria fazendo hoje, em tempos de golpe e internet. Tarso flertava com o poder enquanto bon vivant, adorava luxos como beber bem, tendo, no entanto, sempre se posicionado contra o status quo – foi preso pela ditadura militar, por exemplo. Seu filho, o ator João Vicente, já fez novela na Globo e é um dos nomes do coletivo humorístico Porta dos Fundos, cuja audiência de qualquer vídeo supera as maiores tiragens do Pasquim.

Entre depoimentos de Jaguar, Sérgio Cabral (o pai, obviamente!), do recém-falecido Luiz Carlos Maciel, todos seus companheiros na chamada “patota do Pasquim”, dos jornalistas Palmério Dória, José Trajano e do ator Paulo César Pereio, além de Gilda Midani (mãe de João Vicente), Ada Maria de Castro (mãe de Tarso, já falecida) e Lilian Pacce, entre outros/as, o filme de Leo Garcia e Zeca Brito não soa saudosista, apontando semelhanças e diferenças entre o Brasil e a imprensa brasileira de hoje e os vividos por Tarso de Castro, cuja morte, em decorrência de problemas hepáticos por conta do alcoolismo, completou 27 anos no último dia 20 de maio.

Neste sentido, o filme extrapola o personagem, deixando clara a impossibilidade conjuntural de um novo Tarso de Castro ou um novo Pasquim, apesar das semelhanças entre, por exemplo, os golpes militar de 1964 e político-jurídico-midiático de 2016. Ele mesmo afirmava que a democracia no Brasil é intervalo.

Não é que Tarso, se estivesse vivo, fosse achar o jornalismo ou tudo uma porcaria. Como nos ensina o saudoso Millôr Fernandes, também seu ex-colega no hebdomadário, cito de memória: “numa roda é fácil identificar o jornalista: é o que está criticando o jornalismo”. Ele já achava uma porcaria. Talvez por isso tenha se sobressaído: por tentar (e conseguir) fazer diferente (e melhor).

Àquela época já anunciava, enterrando uma das maiores lendas ensinadas e repetidas sobre o ofício: “eu sou um jornalista honesto: eu sou parcial”. Invertida a equação – não era o bar a extensão da redação do Pasquim, mas o contrário –, Tarso conta sua teoria para a invenção do jornalismo: a profissão foi inventada pelo primeiro que transformou uma conversa de bar em texto. E já ali apontava para uma das misérias do jornalismo atual: jornalistas não vão mais ao boteco ou à rua à cata de histórias, contentando-se com os releases enviados pelas assessorias.

Nome comprovadamente fundamental para o jornalismo brasileiro e, portanto, para o Brasil, Tarso de Castro ressurge, nesta comovente cinebiografia, num momento em que é imperativo discutir o jornalismo e sua função social, sobretudo diante da turbulência como a que o Brasil volta a atravessar.

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Veja o trailer de A vida extra-ordinária de Tarso de Castro:

Revelando Louzeiro

José Louzeiro (D) acompanha o depoimento de Jorge Duran. Foto: Paula Monte

 

A certa altura de José Louzeiro – Depois da Luta [documentário, Brasil, 2018, 15 min.], o cineasta Jorge Duran afirma que o escritor, jornalista e roteirista maranhense tem o devido reconhecimento por sua primeira faceta, mas não pela última. Coloca-se/nos a pulga atrás da orelha ao afirmar que mesmo diante de clássicos do cinema, pouca gente lembra o nome do roteirista, de modo geral. Faz sentido.

Causou-me particular indignação a leitura dos obituários do cineasta argentino radicado no Brasil Hector Babenco (1946-2016): ao citarem Carandiru (2003), por exemplo, constava a informação de que o filme era baseado no livro homônimo do médico e escritor Dráuzio Varela; ao citarem Pixote, a lei do mais fraco (1980) ou Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), “esqueciam” de dizer que os filmes, além de baseados em livros de Louzeiro, tinham o maranhense no time de roteiristas.

A amiga de infância Marita Freitas é taxativa ao afirmar que até hoje pouca gente sabe que Louzeiro é maranhense. O documentário de Maria Thereza Soares, nesse sentido, busca fazer justiça, longe de pretender esgotar o personagem José Louzeiro, tarefa impossível em um filme de 15 minutos.

Assim, com pesquisa e argumento da jornalista Bruna Castelo Branco – que atualmente dedica seu projeto de pesquisa a José Louzeiro no Mestrado em Cultura e Sociedade na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) –, foca na relação de Louzeiro com o cinema, embora não deixe de abordar, ainda que sucintamente, a infância em São Luís (“eu sou de uma rua chamada Camboa do Mato”, diz o protagonista), a mudança ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde foi “aprendiz de repórter de polícia”, o pioneirismo no romance-reportagem, gênero em que estão seus livros mais conhecidos, o diabetes que lhe amputou uma perna, mas não a veia de repórter e a necessidade de escrever – o que seguiu fazendo até falecer, em 29 de dezembro passado, sem ver concluído o filme/homenagem.

O filme está longe de ser triste. “Esse Depois da Luta é engraçado, né? Tinha que ser antes, Antes da Luta”, sorri Louzeiro, que afirma não ter sentido o peso do diabetes. Ele chega a dizer mesmo que venceu a doença.

Além de Louzeiro, o filme é enriquecido por depoimentos do escritor e amigo Benedito Buzar, da amiga de infância Marita Freitas, da amiga, divulgadora e ex-esposa Ednalva Tavares, dos cineastas Jorge Duran (corroteirista, com Louzeiro e Babenco, de Pixote, a lei do mais fraco), José Joffily (diretor de entre outros, Quem matou Pixote?, 1996), Sérgio Rezende (diretor de O homem da capa preta, 1987, do qual Louzeiro integra o time de roteiristas), e o produtor Roberto Mendes, além de enriquecido por imagens de arquivo, com roteiro original, correspondência e fotografias de bastidores de gravações. Neste sentido, José Louzeiro – Depois da Luta vai fundo: há comentários até sobre filmes que não chegaram a ser realizados.

Cineastas sempre filmam mais do que usam. O que os espectadores vemos são só um percentual do captado em suas idas a campo – no caso de Maria Thereza Soares, as filmagens entre o Maranhão e o Rio de Janeiro. Assim, José Louzeiro – Depois da Luta é o tipo de filme que instiga o espectador a ir em busca de seu protagonista, a recuperar o tempo perdido: Louzeiro é maior e mais importante que a atenção em geral dispensada por nosso jornalismo e nossas escolas de comunicação e cinema.

Realizado com recursos do II Edital de Audiovisual do Governo do Estado do Maranhão, José Louzeiro – Depois da Luta foi selecionado para a Mostra Competitiva Guarnicê de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema. O filme será lançado hoje (18), em sessão para convidados, às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Amanhã (19), às 18h, no mesmo local, haverá sessão gratuita aberta ao público, seguida de debate com a diretora Maria Thereza Soares e a pesquisadora Bruna Castelo Branco.

A obra de Louzeiro sempre esteve do lado dos fracos e oprimidos. A escolha de 18 de maio para a data de estreia não poderia ter sido mais acertada: hoje, data que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o brutal e covarde assassinato da menina capixaba Aracelli Cabrera Sánchez Crespo completa 45 anos. O caso inspirou Louzeiro a escrever o romance-reportagem Aracelli, meu amor (1976).

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Veja o trailer de José Louzeiro – Depois da Luta:

Bastidores

O processo. Frame. Reprodução

 

A estreia nacional de O processo, aguardado documentário de Maria Augusta Ramos, acontece hoje (17), em todo o Brasil. Em São Luís o filme será exibido no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Por enquanto, o filme tem apenas quatro exibições garantidas na sala: hoje e amanhã, às 18h20 e às 20h40. Sua continuidade em cartaz depende de seu desempenho e fica aqui o puxão na orelha esquerda: melhor ir ver um filme declaradamente de esquerda que ficar a torto e à direita pedindo boicote ao Netflix, ao Padilha e aO mecanismo, não é?

Dito isto, devo dizer mais: O processo é um filme ao mesmo tempo doloroso e hilariante. Doloroso por comprovar a farsa que foi o processo, o impeachment, o golpe, a tomada do poder pelos golpistas. Hilariante por mostrar o quão ridícula e mesquinha é a direita brasileira. E olha que Maria Augusta Ramos fez o filme por dentro do time de defesa de Dilma, isto é, o acesso privilegiado da cineasta foi à esquerda, tomando partido, enterrando de vez a balela da imparcialidade, se é que alguém ainda acreditava nisso.

Mas é um filme honesto. Justamente por isso. Aliás, para ser melhor, talvez apenas se em vez de O processo se chamasse O veredito: ora, só os que insistem na cantilena de que não foi golpe não creem que o destino, não de Dilma Rousseff, presidenta legitimamente eleita, mas o do país, já estava traçado, em um jogo de cartas marcadas. Havia o remédio, era preciso inventar a doença.

Tecnicamente, O processo é um filme relativamente fácil de fazer. Um filme que acompanha os bastidores de figuras de proa na defesa não de Dilma Rousseff, mas da Constituição Federal, da democracia brasileira e das instituições que por elas deveriam zelar. Além da direção e roteiro de Maria Augusta Ramos cabe destacar o trabalho da montadora Karen Akerman.

Às imagens feitas propriamente para o filme, unem-se imagens de arquivos de emissoras de tevês, sobretudo públicas, mostrando o ridículo de votos pró-impeachment como os de Jair Bolsonaro (que dedicou-o a Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido torturador de que a própria Dilma Rousseff foi vítima quando presa política) e Eduardo Cunha (“que Deus tenha misericórdia dessa nação”), o choro cínico de Janaína Paschoal (advogada autora da peça inicial do processo), ao pedir desculpas à presidenta, e a nobreza e elegância de Chico Buarque, presente à sessão de depoimento de Dilma ao Senado, a dar mais uma prova de que o compositor sempre esteve do lado certo da História.

Como bons brasileiros, o ex-Ministro da Justiça e ex-Advogado Geral da União José Eduardo Cardozo, a senadora Gleisi Hoffmann e o senador Lindberg Farias riem no melhor estilo “seria cômico se não fosse trágico”, no decorrer do filme, o que lhes torna mais humanos e portanto mais próximos da parcela de eleitores/espectadores que verá O processo.

Eis um trunfo do trabalho de Maria Augusta Ramos, merecidamente premiado nos festivais de Berlim (terceiro lugar no prêmio do público de melhor documentário), Visions du Réel (Suíça, melhor longa-metragem) e IndieLisboa (melhor longa-metragem, júri popular, em Portugal), entre outros.

Linear e quente, O processo estreia hoje no Brasil, após iniciar uma trajetória bem-sucedida na Europa, citando fatos ocorridos mês passado, com o país sob a égide do golpe político-jurídico-midiático. No meio disso tudo, Dilma Rousseff denuncia o caráter machista e misógino do enredo kafkiano que a destituiu do poder, devolvendo o Brasil à linha da pobreza e transformando-o de potência em piada no cenário internacional.

Michel Temer, o ilegítimo, na cadeira que não lhe pertence desde o início do teatro do golpe, amargando o mais alto índice de impopularidade de um presidente desde a redemocratização (se é que podemos falar nisso no Brasil), não aparece no filme. Uma sacada inteligentíssima de Maria Augusta Ramos, que antecipa o exercício que a História fará muito em breve: colocá-lo no seu devido lugar, de personagem insignificante, apesar de tudo.

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Veja o trailer de O processo:

Em busca dum afeto nunca perdido

Os diálogos entre tia e sobrinha movem Quarto Camarim. Divulgação

 

É difícil classificar Quarto Camarim [Brasil, 2017, 101min.], filme que se equilibra entre o drama (familiar) e o documentário, dirigido por Fabricio Ramos e Camele Queiroz – esta acaba transformando-se em personagem com o desenrolar da trama.

Há uma tensão permanente no enredo, que aborda a aproximação – ou reaproximação? – entre Camele e sua tia Luma Kalil, travesti, nome por que agora atende Roniel, que a diretora não via há 27 anos.

O filme traz Camele para o outro lado da câmera por que, ao mesmo tempo em que é drama e documentário, é também a história por detrás do filme, um making of de um projeto – selecionado pelo edital Rumos, do Itaú Cultural – que a determinada altura poderia ter sido abortado.

Para Camele, tudo vira elemento cinematográfico. Um vídeo da tia, enviado por whatsapp, ferramenta de comunicação inicial das duas, aceitando participar do filme, uma mensagem posterior, em que Luma se recusa a fazer parte do filme, desenhos e objetos pessoais.

Entre idas e vindas, uma dúvida passa a afligir Camele, e consequentemente envolve também o espectador: estaria a diretora efetivamente interessada em reatar os laços afetivos com a tia ou simplesmente em fazer o filme?

Luma é cabeleireira e o filme remonta ao início, em Feira de Santana, no interior baiano, quando foi uma das primeiras a ousar usar saia, nos longínquos anos 1980, ainda mais preconceituosos que os tristes tempos em que vivemos. É desta época que vem o título do filme: na cabeça da menina Camele, o quarto do tio, que ainda morava com a mãe, era um camarim.

O filme debate uma série de temas, longe de qualquer panfletarismo ou julgamento de valor: preconceito, homofobia, intolerância, incompreensão, trabalho, amor. Camele não alivia nem a barra do próprio pai, há tempos rompido com o próprio irmão – a própria irmã.

O encontro – reencontro – é por si só emocionante. Camele é ousada e altruísta em compartilhar com quantos queiram ver – sobretudo os/as dispostos/as a se despir de preconceito, conservadorismo e, por que não dizer, nestes tempos dominados por ele, ódio? – momento tão terno, delicado, afetuoso, íntimo.

O espectador vai até a cozinha de Luma, que acende um cigarro numa das bocas do fogão enquanto prepara algo para comerem, diverte-se com a comemoração de terem conseguido ligar a churrasqueira elétrica, festeja o abrir de mais uma latinha de cerveja, para regar a conversa há tanto presa na garganta.

Luma, estrela das performances que faz em boates, é a protagonista de um filme que nos faz perceber a grandeza de personagens que na maioria das vezes insistimos em não enxergar. Sentadas em colchões no chão, iluminadas apenas por um abajur, sobrinha e tia continuam, como se não houvesse ninguém olhando, menos ainda câmera filmando, a conversa, tão íntima, como se recuperassem alguma cumplicidade perdida.

Por isso percebemos a protagonista tão humana. Gente como a gente. Com sua história, coragem, sonhos, sua vida, enfim. O Belchior da trilha sonora não é apenas “fundo musical”: ajuda a contar a história. “Essa é forte, hein, tia?”, aponta Camele, entre revelações sobre que versões da música cada uma prefere. Bonito e necessário, por ensinar tanto sem soar pretensioso, Quarto Camarim é um grande filme, embora, parafraseando o cearense: “qualquer filme é menor do que a vida de qualquer pessoa”. É que Luma e o gesto de sua sobrinha são enormes.

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Veja o trailer:

O Divino e o guia

O Divino em mim. Frame. Reprodução
O Divino em mim. Frame. Reprodução

 

Vinicius Maciel é literalmente o guia de O Divino em mim [documentário, Brasil, 2018, 30 minutos]. Guia de turismo em Alcântara, o jovem chama a atenção pela enorme barba e grandes alargadores que usa nas duas orelhas – além do sorriso cativante, que ele mesmo destaca, longe de imodesto, em uma de suas falas.

É ele que a câmera de Luiza FC – que assina direção, roteiro, câmera e edição do documentário – segue ao longo de meia hora de filme, com depoimentos de outros personagens importantes da Festa do Divino de Alcântara, a mais tradicional e possivelmente a mais longeva do Brasil, como a bandeirinha Andressa, o coordenador Seu Moacyr, as caixeiras Marlene e Romana, entre outros.

Vinicius é narrador, mas o protagonista é o Divino Espírito Santo, a festa a ele devotada, exercício de fé em catolicismo popular que une sacro e profano.

Distante pouco mais de 22 quilômetros de São Luís, o município de Alcântara é cinematográfico e sobrenatural, o que por si só já garante belas imagens. Luiza FC opta pelo percurso que faz a maioria absoluta dos turistas que vai até o município: de barco, a partir do cais da Praia Grande, em São Luís, atravessando a Baía de São Marcos, em uma viagem de cerca de uma hora. Já durante a travessia Vinicius começa a falar de sua relação com o município e com a festa.

É um filme que abarca a importância dos festejos para a população local, para o turismo de Alcântara, da preservação da tradição e, de modo divertido, as relações desta com o dia a dia do lugar: os papéis de cada homem e mulher na sua realização – a Festa do Divino tem lugar certo no calendário religioso, mas mobiliza tarefas durante todo o ano – e o bom humor de quem a faz, entre doses de licor, cachaça e conhaque, doces de espécie (iguaria típica do lugar) e uma bandinha de metais e percussão tocando músicas religiosas e sambas e marchinhas como Trem das onze (Adoniran Barbosa) e O teu cabelo não nega (José Victor Valença, José Raul Valença e Lamartine Babo). Nunca é demais lembrar que é desse híbrido de sagrado e profano que surge a Dança do Cacuriá, cuja base rítmica é alicerçada nas caixas do Divino.

O documentário foi realizado pela maranhense Luiza FC como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da USP. Sábado passado (28), às vésperas do início de mais uma Festa do Divino, o filme foi exibido em Alcântara, no Café com Arte (Rua Grande, 76, próximo à Casa do Divino). Hoje (30), às 18h, O Divino em mim será exibido no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca.

As sessões do filme integram a Mostra Divino Tambor, junto com o documentário Coreiras, da documentarista também maranhense Júlia Antunes, com apoio da Unesp. Semana que vem os filmes terão exibições no Rio de Janeiro (serviço na imagem abaixo).

Divulgação

Um duplo (re)play feminino

Homem de vícios antigos, este blogue, completa hoje (28) 14 ininterruptos anos no ar.

Em clima de retrospectiva, ligeira e possível, mas anunciando novidades, torno a duas mulheres sobre cujas obras já escrevi por aqui.

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro. Capa. Reprodução

A primeira, a cantora mineira Titane e seu disco mais novo, Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, sobre o qual escrevi para a coluna Emaranhado, no site do Itaú Cultural, e cuja entrevista publiquei cá no blogue. A novidade é que desde ontem o disco está disponível nas plataformas de streaming, vale ouvir.

A segunda, Monique Moraes, diretora e roteirista de Mulheres que transformam a ilha, em cuja sessão de estreia tive a satisfação de estar presente. A novidade é que o documentário está disponível no youtube para quem quiser ver/rever:

O protagonismo de Torquato

Torquato Neto – Todas as horas do fim. Cartaz. Reprodução

 

A voz de Jards Macalé em sua parceria com Torquato Neto em Let’s play that (1972) e a voz de Jesuíta Barbosa no poema Cogito, cujo último verso dá título a Torquato Neto – Todas as horas do fim [documentário, Brasil, 2017; em cartaz no Cine Lume, sessão diária às 20h30], abrem o filme de Eduardo Ades e Marcus Fernando, coalhado de referências, fazendo jus ao homem múltiplo e intenso que foi o tropicalista piauiense.

O primeiro anuncia: “quando eu nasci/ um anjo louco/ um anjo solto/ um anjo torto/ muito louco/ veio ler a minha mão”. E arremata: “vai bicho/ desafinar o coro dos contentes”. O segundo, voz que acompanhará o espectador por todo o filme, lê poemas, cartas e textos jornalísticos de Torquato Neto – cuja voz, de seu único depoimento gravado, de 1968, também é usada.

É um filme reverente, cuja montagem inteligente evoca todas as facetas de seu protagonista: poeta, letrista de música popular, jornalista, ator. Os depoimentos que ajudam a contar sua história são cobertos por trechos de filmes do cinema marginal e do cinema novo. As rápidas aparições de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé são filmadas em super oito, de modo a manter a estética da época e não destoar das imagens de arquivo – resultado semelhante ao de No, de Pablo Larraín.

Curioso é o depoimento de Moreira Franco, ex-governador do Rio de Janeiro, hoje ministro-chefe da secretaria-geral do governo do ilegítimo, nome ligado a escândalos na política nacional, apelidado pelo saudoso Brizola de Gato Angorá, primeiro amigo de infância de Torquato Neto.

Entre as inúmeras citações cinematográficas – uns mais conhecidos, outros mais raros – comparecem O bandido da luz vermelha (1968, de Rogério Sganzerla), Vidas secas (1963, de Nelson Pereira dos Santos), Macunaíma (1969, de Joaquim Pedro de Andrade), Deus e o diabo na terra do sol (1964, de Glauber Rocha), Nosferato no Brasil (1971, de Ivan Cardoso, em que Torquato atua), O demiurgo (1970, de Jorge Mautner, em que Caetano atua), Apocalipopótese (1968, de Raymundo Amado), e Hitler terceiro mundo (1968, de José Agripino de Paula).

Se Gal Costa (uma das grandes intérpretes de Torquato) e Jards Macalé (um de seus muitos parceiros) não comparecem em depoimentos, aparecem cantando Mamãe, coragem (parceria com Caetano Veloso), ele tocando violão na banda dela. Não faltam composições como Pra dizer adeus (parceria com Edu Lobo), Geleia geral, A rua e Marginália II (as três com Gilberto Gil) e Deus vos salve esta casa santa (com Caetano), a dar ideia do quão relevante foi Torquato, não apenas para o Tropicalismo, apesar do suicídio aos 28 anos.

Torquato Neto escrevia compulsivamente. Foto: divulgação

A morte de Torquato Neto completou 45 anos em novembro passado e as homenagens que lhe têm sido prestadas ajudam a jogar novas luzes sobre sua obra. O piauiense foi o homenageado da última edição da Balada Literária, organizada pelo incansável Marcelino Freire – ano passado, além de São Paulo, seu território tradicional, chegou a Teresina, cidade natal de Torquato, e Salvador, para onde ele se mudou aos 16 anos e onde conheceu “o pessoal da Tropicália”.

A gaúcha radicada no Maranhão Isis Rost transformou seu trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais (UFMA) no livro O risco do berro – Torquato Neto: morte e loucura [ed. da autora, 2017], cujo projeto gráfico evoca a Navilouca, revista de número único editada por Torquato com Waly Salomão (1943-2003), que no filme sintetiza o amigo como uma atualização de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Décio Pignatari. A autora foca, desde o título, em dois temas pouco presentes a Torquato Neto – Todas as horas do fim.

O documentário não especula, nem tira conclusões, mas faz bonito ao somar-se aos esforços de manter vivo o espírito de Torquato, protagonista da Tropicália, através de sua obra, vasta e diversa, para alguém que morreu tão jovem.

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Veja o trailer de Torquato Neto – Todas as horas do fim:

Legado beatle

How the Beatles changed the world. Frame. Reprodução

 

O fim dos Beatles caminha para meio século e a banda segue das mais – se não a mais – influentes no planeta em todos os tempos. Provas disso são suas músicas continuarem sendo regravadas ao redor do mundo e qualquer coisa que leve seu nome/marca vender como água (o que começou a acontecer ainda enquanto estavam juntos), sejam edições remasterizadas de seus discos de carreira, gravações inéditas ou raras ou até mesmo brinquedos.

Nada mau para um grupo cuja união durou menos de uma década.

Ao longo deste tempo os Beatles operaram algumas revoluções no fazer artístico, elevando a música pop à categoria de obra de arte. John Lennon, Paul McCarney, George Harrison e Ringo Star foram, sem dúvida, dos artistas mais documentados em todos os tempos. Em meio ao turbilhão, difícil um filme, uma reportagem, ou o que quer que seja, dizer algo novo sobre os fab four.

Não parece ser a intenção de How the Beatles changed the world [EUA, Inglaterra, 2017; disponível na Netflix], documentário de Tom O’Dell, que localiza a importância do fenômeno Beatles para a compreensão da década de 1960 e de tudo o que viria depois, em termos de música, cultura e comportamento – mesmo Rolling Stones, quase sempre apontados como rivais dos Beatles, num Fla x Flu musical sem sentido, The Doors e Beach Boys, para citar (apenas) outras bandas surgidas na mesma década, aconteceram a reboque do protagonismo beatle.

Através de entrevistas com críticos de música, pessoas próximas ao quarteto de Liverpool e trechos de entrevistas dos próprios Beatles, O’Dell aponta-os como precursores em se tratando da relação música e lisergia, de aproveitar ao máximo o que os estúdios oferecem (as limitações técnicas eram enormes nos anos 1960, sabemos) e no componente político: em visita aos Estados Unidos os Beatles foram pioneiros em abordar assuntos espinhosos à época, como a guerra do Vietnã, além de tirar onda com a própria rainha da Inglaterra.

A cena é conhecida, mas nos faz rir novamente: a um auditório lotado, Lennon manda: “para o próximo número precisamos da ajuda de vocês. As pessoas nos assentos mais baratos batam palmas; as demais, basta chacoalhar suas joias”. Close numa constrangida rainha da Inglaterra, volta a imagem a um John qual criança pego em travessura.

Outras revoluções beatle: a transmissão em cadeia mundial de tevê de All you need is love (com Mick Jagger e outros famosos na plateia), o fim das aparições públicas enquanto banda (quantas, hoje, não vivem de separar e juntar de acordo com as necessidades, sobretudo financeiras), as guinadas artísticas em discos fundamentais como Rubber soul, Revolver e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, além dos primeiros solo de John Lennon (uma trilogia com Yoko Ono, sua segunda esposa) e Paul McCartney – se hoje são corriqueiros discos solo de integrantes de bandas, nisso os Beatles também foram pioneiros, como haviam sido, no começo da carreira, ao decidirem gravar material autoral (o que não era padrão na época).

Recentemente Quincy Jones deu uma entrevista afirmando que os Beatles eram os piores músicos do mundo. Lembrou o Lobão da época em que vivia falando mal de Caetano e Gil. Ver How the Beatles changed the world lembrou-me o Oscar Wilde de A alma do homem sob o socialismo: “não é a obra de arte que tem que aspirar a se tornar popular; o povo é que tem que se tornar artístico”. Sob a égide do “mas é isso o que o povo gosta”, muitos artistas acomodam-se e ofertam mais do mesmo (ou menos do mesmo, se a ideia é facilitar); com os Beatles era diferente.

How the Beatles changed the world pode não trazer novidades, sobretudo aos beatlemaníacos mais ferrenhos; mas localiza o legado beatle num contexto de profunda transformação da cena pop no mundo. Para sempre.

Conflitos maranhenses

Em busca do bem viver. Capa. Reprodução

 

Com grata satisfação, vi hoje (31), mais uma vez, o Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) lotado para a exibição de mais um documentário produzido no Maranhão. Desta vez, Em busca do bem viver, com roteiro, edição e direção de Murilo Santos, papa do cinema documental maranhense, tendo sido mesmo um de seus pioneiros. O filme foi realizado por encomenda das Pastorais Sociais do Maranhão, braços sociais da Igreja Católica.

O filme remonta à 12ª. Romaria Estadual da Terra e das Águas, realizada em Chapadinha/MA, em 2015. Este é o ponto de partida para um passeio nada agradável por todo o Maranhão, em todas as suas regiões. Situações de conflito e luta pela terra, com a batalha desigual de comunidades contra o capital, seja o agronegócio, as irmãs mineração e siderurgia ou a exploração de gás, entre outras.

Em busca do bem viver traça um panorama do Maranhão desde que grandes projetos começaram a se instalar no estado – por exemplo o Projeto Grande Carajás, com a estrada de ferro homônima –, sob as bênçãos da Lei Sarney de Terras, promulgada pelo governador de plantão, que não à toa dá nome à lei, que acabaria por transformar a zona rural do Maranhão numa terra sem lei, gênese de grande parte das questões que sobreviveriam às décadas seguintes.

Perpassa ainda as histórias de mártires como Flaviano Pinto Neto, liderança da comunidade quilombola de Charco, em São Vicente Férrer, ou Elias Zi, liderança sindical do município de Santa Luzia, ambos assassinados a tiros, em 2010 e 1982, respectivamente. Este, tema do documentário curta-metragem Quem matou Elias Zi? (1986), de Murilo Santos, o que o torna uma autoridade em se tratando de conflitos agrários – e do uso do cinema como ferramenta de documentação e denúncia – no Maranhão, sendo autor de pelo menos mais um filme fundamental sobre o assunto: o clássico Bandeiras verdes (1988), narrado por Paulo César Pereio.

Por falar em narração, quem empresta a voz aos relatos de Em busca do bem viver é a cantora Lena Machado, que divide o tempo entre a carreira artística e o Secretariado Executivo na Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Na trilha sonora, o filme de Murilo Santos une Joãozinho Ribeiro, compositor cuja vida e obra são marcadas pela denúncia de arbitrariedades, e Zé Vicente, poeta popular fortemente ligado ao catolicismo.

No entanto, nem tudo é tragédia ao longo dos 52 minutos de Em busca do bem viver. Estão postas ali as estratégias de resistência, avanços e a conquista da terra e de direitos de algumas comunidades. Que, como de resto o próprio filme, sirvam de exemplo para a continuidade das lutas das demais.

Serviço

O dvd Em busca do bem viver pode ser adquirido nas sedes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Regional Nordeste 5 (Rua do Rancho, Centro), Cáritas Brasileira Regional Maranhão (Rua do Alecrim, 343, Centro), Conselho Indigenista Missionário (Cimi/MA, Rua do Pespontão, 99, Centro) e Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA, Rua do Sol, Centro), em São Luís/MA.

O poder transformador

Mulheres que transformam a ilha. Cartaz. Reprodução

 

A estreia do documentário Mulheres que transformam a ilha lotou duas sessões no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na noite de hoje (30). Não é pouca coisa.

Temas urgentes, empoderamento, autonomia e protagonismo femininos são levados à tela de maneira didática, com pitadas de bom humor e muita sabedoria: em um filme majoritariamente feito por mulheres, as mulheres têm vez e voz.

Filme feito por mulheres, mas não (apenas) para mulheres: nós, homens, temos muito o que aprender ali. O documentário de 32 minutos é tecido a partir das percepções e falas de empreendedoras sociais que atuam em São Luís, em diversos segmentos.

“Ser mulher e ser negra é ser vista por dois véus: o véu do machismo e o véu do racismo”, aponta, de cara, uma das entrevistadas. Outra comenta o risco pedagógico da desistência: se uma empreendedora desiste, não está apenas desistindo, pode estar fazendo outras mulheres desistirem, deixarem de acreditar em seu potencial. “Eu estou com 66 anos, eu faço o que eu quero, o que eu gosto, eu me governo”, afirma outra.

Há relatos tristes, como o de uma mulher, em um município do interior do Maranhão, que foi impedida pelo marido de continuar em uma atividade nos moldes das reveladas pelo filme, pois isto estaria prejudicando os afazeres domésticos. O equilíbrio na divisão de tarefas advogado pela representante da ONU entrevistada poderia resolver essa questão, realidade infelizmente ainda mais comum do que se imagina.

Mulheres que transformam a ilha tem direção e roteiro de Monique Moraes, bacharel em Administração pela UFMA. A equipe técnica do filme se completa com Quilana Viégas (fotografia), Ingrid Barros (fotografia) e Luiza Fernandes (edição e roteiro).

A exemplo das mulheres, negócios e histórias trazidos à tela, Mulheres que transformam a ilha envolveu uma rede de colaboradores para sua realização, incluindo parcerias. A TV Assembleia (uma das parceiras) deveria exibi-lo, ampliando seu alcance (o filme será disponibilizado no youtube, no canal Su casa, mi causa), pois é um filme que merece ser visto por mais gente.

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Veja o teaser:

Terra de Ford, terra de ninguém

Divulgação

 

Voraz leitor de Tex Willer desde a infância, é em algo comum nas histórias do ranger que penso imediatamente ao ver Fordlândia [Brasil, 2008, 49 min.], documentário de Marinho Andrade e Daniel Augusto.

Nas HQs presenciamos constantemente o surgimento e abandono de vilarejos, principalmente ao redor da exploração de ouro e da instalação de ferrovias. O filme conta a história de uma cidade construída por Henry Ford na década de 30 do século passado, em pleno Pará, palco de outro Eldorado de triste memória.

Para tanto, a dupla de cineastas faz vir dos Estados Unidos Charles Townsend, nascido em Fordlandia, filho de um funcionário da Ford. O filme acompanha esse reencontro – a cena em que ele cumprimenta América, sua babá, com tapas no ombro e um abraço, é comovente para personagens (que vão às lágrimas) e espectadores. Fordlândia ainda tem uns poucos moradores, mas é o espírito de cidade fantasma que lhe habita.

A estratégia de Ford, que gastou alguns milhões de dólares na empreitada, era ter seu próprio seringal, para suprir a necessidade crescente de sua produção – no Brasil o ciclo da borracha já havia se encerrado, mas o empresário americano, dono da então maior indústria do planeta, acreditou que era possível revivê-lo artificialmente. Deu-se mal: uma praga dizimou os milhões de seringueiras, antecipando a derrocada. Famílias foram embora abandonando casas, móveis e talheres.

Fordlândia dá muito pano pra manga. A partir dele é possível pensar temas caros para a nossa sociedade, inclusive levando em conta a égide golpista, tendo em vista o incentivo ao desmatamento amazônico garantido pelo governo ilegítimo. Enriquecido por depoimentos do sempre combativo jornalista Lúcio Flávio Pinto, temas como urbanismo, planejamento urbano, capitalismo, migrações, trabalho e cultura – reparem num insólito bumba meu boi – passeiam pela geografia paraense, onde um dia se tentou produzir látex em modo fordista.

Bons documentários, como este de Marinho e Andrade, não se fazem em série. Este torna-se único ao abordar tema inusitado sob perspectiva idem.

Serviço

Fordlândia será exibido amanhã (22), às 18h, no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Uema, Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada franca. Após a sessão haverá debate com o diretor Marinho Andrade, com mediação do professor Frederico Lago Burnett.

 

Veja o trailer:

Laerteficando

 

Laerte é uma das mais instigantes artistas brasileiras em todos os tempos. Em mais de 40 anos de carreira, sua obra, diversa, sempre dá o que pensar, sobretudo no campo político – identificada com a esquerda, já percorreu uma ditadura militar, diversos passaralhos e agora o golpe em curso no Brasil. Está sempre em mutação. Ou melhor dizendo: em evolução.

Artista e obra confundem-se, sobretudo a partir de quando ela revelou-se crossdresser. O grande trunfo de Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva [documentário, Brasil, 2017, 100 min.], primeiro longa-metragem brasileiro do Netflix, é justamente não tentar explicá-la, nem rotulá-la. O que redundaria em simplificá-la.

É Laerte na intimidade, entre um cotidiano prosaico – brincar com os netos, as gatas, passar café, a reforma da casa, visitas ao filho Rafael Coutinho –, lembranças da infância, pontuadas por vídeos caseiros, o trabalho – a artista desenha diante das câmeras e algumas tiras e cartuns clássicos aparecem – e o corpo – ensaios fotográficos, compra de roupas e depilações são também mostrados, sem exageros ou sensacionalismo.

Além de desenhista consagrada – e sempre decisiva – já há algum tempo Laerte arrisca-se na televisão: apresenta o Transando com Laerte no Canal Brasil, programete de entrevistas de 15 minutos. Em Laerte-se, ela experimenta o outro lado. Percebemos certa timidez, não ensaiada. O filme começa com uma troca de e-mails entre ela e Eliane Brum, ela tentando fugir de uma sessão de gravações, até que a documentarista convence-a de que não era adiar que ia deixá-la mais à vontade.

E é assim que a encontramos, em geral, ao longo da hora e 40 de documentário: sentada no sofá de casa, conversando, ou entre pincéis e lápis, usados em diferentes tipos de papel ou no corpo – lápis de sobrancelha, delineador, batom.

Ao depoimento de Laerte somam-se trechos de entrevistas, debates, protestos e a Ocupação dedicada à sua obra, no Itaú Cultural, em que ela desfila suas opiniões – também em construção. Além de em evolução, estamos diante de uma artista em descoberta, em autodescoberta, sempre honesta: “eu demorei a fazer isso. Foram 60 anos. Que risco eu corro a esta altura?”, indaga(-se) numa passagem.

Ao transgredir convenções e levar sua própria vida para suas tiras e cartuns – vide o personagem Hugo/Muriel –, além de em evolução, Laerte tornou-se também uma artista em experimentação. Mesmo que ela considere tardio ou fácil, talvez por pura modéstia, é ousado, sim. São alarmantes os índices de violência contra mulheres, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e Laerte, com sua atitude, mesmo sem querer, acaba se transformando em ícone da luta por empoderamento destes segmentos.

Em Laerte-se também não se tenta santificar sua protagonista: ela reconhece, por exemplo, sem perder o bom humor, que permeia o filme, já ter protagonizado alguma hostilidade a homossexuais, do que hoje se arrepende e se envergonha, para voltarmos ao quesito evolução.

Já imagino o discurso preconceituoso e raivoso dos que preferem ter excrescências como mito, mas ao contrário do que algumas mentes doentias possam imaginar, o imperativo do título não indica uma aula de como mudar de gênero ou coisa que o valha. Laerte-se é uma aula de diversidade, transgressão, afeto e bom humor. Basta estarmos dispostos a aprender um pouco.

Denis Carlos lança documentário em sessão gratuita hoje (27)

 

Penetrar o desconhecido e mágico território do sagrado. É o que faz o documentarista Denis Carlos em Iemanjá pela última vez [Brasil, 2016, 31 min.], que conta a história de Allana Karoline, que durante alguns anos vestiu-se para celebrar Iemanjá, nas festas devotadas à divindade no Terreiro da Fé em Deus, conduzido por Mãe Elzita – fotografada por Márcio Vasconcelos em Zeladores de voduns.

A pequena e febril Karol teve uma visão. Era um chamado e logo o mal-estar foi embora. A partir de então, uma demonstração prática e bonita de sincretismo cultural e religioso: a procissão de Nossa Senhora da Conceição, além de anjos, tinha agora a rainha do mar.

Denis Carlos faz valer a máxima que se tornou um clichê – e seu filme passa longe de qualquer clichê –, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, para acompanhar o último ano de Karol como Iemanjá, como entrega o título. Não é um salto no escuro, o documentarista tem domínio da situação, deixa suas personagens à vontade – inclusive um gato que encara a câmera para depois se afastar como se nada tivesse acontecido –, num filme bonito em sua simplicidade, como o terreno pelo qual se aventura.

O toque de mina, o cântico católico, o samba “profano”, a banjo, saxofone e trombone, e a prova de que é possível o convívio harmônico entre os diferentes, num tempo em que o ódio é uma espécie de vírus propagado pelo ar e pelas ondas.

Há solenidade e emoção quando outra garota assume o papel de Iemanjá. Onde às vezes tudo o que se exige é respeito, Denis Carlos vai além e dá uma importante contribuição para o cinema do Maranhão, as religiões de matriz africana e a superação de preconceitos, sem ser panfletário, com a beleza e leveza que queremos ver quando vamos ao cinema.

Serviço

Iemanjá pela última vez será lançado em sessão hoje (27), às 19h, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro), com entrada gratuita.