O trompetista e o palhaço

Foto: Zeqroz Neto

 

Reencontro [2016] é uma bolachinha delicada. Biscoito fino, eu diria, se não fosse fazer merchandising de outra gravadora, que, afinal de contas, não o lançou.

“É como se Chet Baker tocasse choro”. Dizer isto seria uma boa síntese do disco, o jazzista norte-americano influência confessa do niteroiense.

É o disco solo de estreia de Silvério Pontes, trompetista que faz par com o trombonista Zé da Velha na assim chamada “menor big band do mundo”.

Figura fácil em fichas técnicas de incontáveis discos de artistas brasileiros de qualquer matiz, o músico teve ontem seu reencontro com o público ludovicense, num sarau do projeto RicoChoro ComVida Pra Luta, realizado na sede recreativa do Sindicato dos Bancários do Maranhão (Av. General Arthur Carvalho, 3.000, Turu).

Teve como anfitriões Marquinhos Carcará (percuteria), Rui Mário (sanfona), Wendell de la Salles (bandolim) e Júnior Maranhão (violão sete cordas), reunidos no Quarteto Crivador, recepcionados pelo dj Joaquim Zion.

Por diversas vezes brincou: “a gente ensaiou uma semana para chegar a isso aqui”, disse ele, obviamente há menos de uma semana na cidade, tirando onda com a facilidade com que desfilaram juntos um repertório que foi de Jacob do Bandolim (Receita de samba) à parceria de Chico Buarque e João Bosco (Sinhá, em versão instrumental em que o trompetista botou a plateia para cantar o lamento “êêê” do refrão).

Da plateia, convidou a cantora Fátima Passarinho, que topou o desafio e mandou Sem compromisso (Geraldo Pereira). Ao longo da apresentação, com pegada de gafieira, fez dois concursos de dança, sorteando discos da dupla Zé da Velha e Silvério Pontes, para os casais ganhadores continuarem a dança em casa.

“Eu não queria tocar músicas minhas. É chato esse negócio de ficar ouvindo música nova”, afirmou, modesto, para gargalhadas da plateia. Acabou tocando temas como De Niterói à Vacaria, parceria com o gaúcho Bebê Kramer – “fizemos a música e não tinha título, e resolvemos batizar com os nomes de nossas cidades”, revelou – e Piazzolla no Choro, parceria com Marcelo Caldi que imagina o bandoneón do argentino numa roda brasileiríssima, com citações de Libertango.

“Quem aqui se lembra do Carequinha?”, perguntou obtendo uns poucos braços para cima como resposta. “Tem várias músicas com o Altamiro Carrilho”, lembrando o acompanhamento da bandinha do flautista em discos do palhaço. “O bom menino não faz xixi na cama/ o bom menino não faz malcriação”, cantarolou, imitando a voz.

Contou a tragicômica história de um encontro seu com o ídolo, antes de tocar Hoje tem marmelada, com que homenageia o saudoso artista. “Uma vez eu fui ao circo e me deixaram entrar no camarim do Carequinha. Ele estava se maquiando, botando aquela pintura. Deve ser um horror para um palhaço ser pego nesse momento. Quando ele me viu, perguntou: “meu filho, o que você está fazendo aí?”. E continuou se pintando. Eu era muito fã. Aí eu perguntei por algumas pessoas que trabalhavam com ele. Ele virou e me disse: “fizeram a maior besteira que alguém pode fazer na vida”. Eu perguntei: “o quê?”. E ele: “morreram!”.

Servicinhos

Três releases de três eventos assessorados pela parceira Vanessa Serra com este que vos perturba. Para você que acha que nada acontece em São Luís ou que reclama que quando fica sabendo já aconteceu ou que acha que o blogueiro anda distante deste terreninho, onde já é possível ver o capim verdejar. Como dizemos este que vos perturba e a companheira de bancada Gisa Franco, na Agenda Cultural do Balaio Cultural, na Rádio Timbira (que completou 77 anos ontem, 15): “para você não ficar perdido”.

SABOR DE BIS

Após sucesso do Circuito Barreirinhas, é grande a expectativa para a continuação do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival em São Luís, este fim de semana

O sucesso de público do circuito Barreirinhas – mais de 6 mil pessoas ao longo dos três dias de programação (tenha uma ideia de como foi aqui, aqui e aqui) – celebrou à altura a marca de 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival. Quem esteve na Avenida Beira-Rio, onde o palco foi armado, pode presenciar um desfile de talentos e shows emocionantes, além da exposição fotográfica comemorativa (vista por mais de 600 pessoas), que traça um rico painel dos artistas que já passaram pelo palco do festival – e que também poderá ser conferida em São Luís, este fim de semana (dias 17 e 18 de agosto).

É quando acontece o Circuito São Luís, que terá como palco a Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), além do Palco Mundo, montado na área externa da concha. Uma vasta programação promete agitar a sexta (17) e o sábado (18) da capital maranhense. Não faltam motivos para comemorar.

Atrações – Além das 10 edições do festival idealizado e produzido por Tutuca Viana, por exemplo, o público poderá cantar o “parabéns a você” a João Donato, um dos papas da bossa-nova. O acriano radicado no Rio de Janeiro completa 84 anos de idade exatamente no dia em que toca no Lençóis Jazz e Blues Festival: o pianista é uma das atrações da primeira noite, na sexta-feira (17), ocasião em que se apresentam ainda o gaitista brasiliense Gabriel Grossi e a cantora carioca Taryn Szpilman.

As apresentações do palco principal começam às 20h15. O Palco Mundo antecede-o, com início às 18h. Na sexta-feira (17), quem abre a programação é o bandolinista e cavaquinhista maranhense Wendell Cosme, que apresentará seu projeto “Ritmos e Sons”. Na sequência, também no Palco Mundo, se apresenta o grupo Norjazztinos, formado por Henrique Duailibe (teclado), Nataniel Assunção (bateria), Edinho Bastos (guitarra) e Davi Oliveira (contrabaixo). A programação deste palco paralelo volta após o encerramento dos shows do palco principal, às 23h30, com o blues de Dário Ribeiro, seguido do projeto Movimento Cidade, com os djs Neiva e Félix.

Entorno – Além do Palco Mundo, o entorno da praça também movimentará a exposição fotográfica comemorativa dos 10 anos do Lençóis Jazz e Blues Festival, a Feira da Lagoa, com exposição e comercialização de artesanato produzido no Maranhão, e a Feira Gourmet, com a presença de várias lanchonetes da capital maranhense, colocando um cardápio variado à disposição do público.

O Quarteto Crivador. Foto: divulgação

Sábado – A segunda noite ludovicense do festival terá como atrações, no Palco Mundo, antes dos shows do palco principal, a partir das 18h, o Quarteto Crivador – formado por Marquinhos Carcará (percussão), Rui Mário (sanfona), Wendell de la Salles (bandolim) e Júnior Maranhão (ex-Luiz Jr., violão sete cordas) – e o violonista piauiense Josué Costa. E fechando a noite, o blues de Daniel Lobo, seguido, novamente, dos djs do projeto Movimento Cidade.

Em meio a tudo isso, o palco principal apresenta, a partir das 20h15, os gaúchos Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, seguidos por Hamilton de Holanda e o “Baile do Flashback”, de Ed Motta.

Formação – Marca dos 10 anos de Lençóis Jazz e Blues Festival é a preocupação com o caráter formativo do evento. 140 pessoas passaram, nesta edição, pelas oficinas oferecidas em Barreirinhas. Em São Luís serão realizadas duas oficinas e uma palestra. Na sexta-feira (17), das 9h às 12h, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), o acordeonista Samuca do Acordeon ministra a oficina “GPS da Roda de Choro”; também na sexta-feira, das 15h às 18h, no mesmo local, é a vez do flautista e saxofonista Pedro Figueiredo ministrar a oficina “’Tecniquês’ para músicos – técnicas de sonorização e gravação de instrumentos e voz”. As inscrições podem ser realizadas pelo site do festival – endereço em que também pode ser acessada sua programação completa, inteiramente gratuita – recomenda-se a quem quiser, a doação de alimentos não perecíveis, cuja arrecadação será revertida em favor da Creche Caminhando com Cristo, do Parque Jair.

Extra – No dia 23 (quinta-feira), às 16h, acontecerá a palestra “Música e deficiência visual: dificuldades e superações”, ministrada pelo pianista, arranjador, compositor, cantor e publicitário Henrique Duailibe. A palestra será realizada no auditório da Uemanet, no Campus da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

Realização de Tutuca Viana Produções, o 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e do Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), e apoio de Sesc, Prefeituras de São Luís e Barreirinhas, Fiema/Sesi, Sebrae, FotoSombra, Tory Brindes e Clara Comunicação.

Serviço

O quê: 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís
Quem: várias atrações, no Palco Principal e Palco Mundo
Quando: dias 17 e 18 de agosto (sexta e sábado), às 18h
Onde: Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen) e área do entorno
Quanto: grátis
Patrocínio: Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet)

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JUVENTUDE E “ESTÉTICA DIFERENTE” MARCAM PRÓXIMA EDIÇÃO DE RICOCHORO COMVIDA NA PRAÇA

Segunda edição da temporada 2018 acontece dia 25 de agosto (sábado), às 19h, na Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico), com o dj Joaquim Zion, Mano’s Trio e Ivan Sacerdote

Após o sucesso da edição inaugural, são grandes as expectativas para a segunda edição da temporada 2018 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que acontece dia 25 de agosto (sábado), na Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico).

O que já é bonito vai ficar ainda mais. Estamos falando, é claro, do cartão postal da secular igreja, que ganhará por uma noite, além da moldura de paralelepípedos e azulejos, a moldura musical de um verdadeiro desfile de talentos, uma constelação de craques das notas musicais.

O dj Joaquim Zion. Foto: divulgação

A noite começa com o dj Joaquim Zion, nome quase sempre vinculado à cena reggae, mas também profundo conhecedor de música brasileira, sobretudo das raízes negras que ajudaram a fundar e consolidar a riqueza da tradição de nossa música popular. Esta vertente é parte do que ele pretende mostrar, a partir de sua coleção de vinis, durante sua apresentação.

O Mano’s Trio. Foto: StudioA (Taciano Brito e Carolina Jordão)

O grupo anfitrião da noite é o Mano’s Trio, formado pelos jovens Wesley Sousa (teclado), Mano Lopes (violão sete cordas e voz) e Fofo Black (bateria), cujos talentos são inversamente proporcionais à média de idade do trio.

O grupo promete um passeio pelo Choro e pelo cancioneiro popular brasileiro, com destaque, no repertório, para nomes como Chico Buarque, Edu Lobo, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, com espaço também para composições autorais – temas instrumentais de autoria de Mano Lopes. Quem também comparecerá ao repertório é o jovem compositor amazonense Stênio Marcius, de quem Mano Lopes cantará o samba-choro Máscaras no chão.

Lopes antecipa que “o grupo vai fazer show de choro tradicional, mas com uma estética diferente, com teclado, bateria e violão sete cordas”, em perfeita sintonia com os propósitos do projeto RicoChoro ComVida na Praça, de estimular diálogos e atritos.

O Mano’s Trio terá como convidado o clarinetista baiano Ivan Sacerdote, um dos grandes nomes de seu instrumento no Brasil. Clarinetista, compositor e arranjador, Sacerdote é bacharel em clarinete pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Mestre em Música (Criação e Interpretação) pela mesma instituição, e já tocou com nomes como Armandinho Macedo, Gabriel Grossi, Hermeto Pascoal, Nailor Proveta, Paulinho da Viola, Rosa Passos e Seu Jorge, entre outros.

O clarinetista baiano promete um passeio pelo Choro em diálogo com outros estilos musicais, “uma outra roupagem para um repertório mais clássico”, além de “uma homenagem a João do Vale”.

Sacerdote foi premiado no II Concurso “Devon & Burgani” Jovens Clarinetistas Brasileiros, em 2015, desde quando a marca o patrocina. Seu disco solo de estreia, Aroeira, completamente autoral, sai este ano – durante sua apresentação o público ludovicense poderá conferir uma das músicas do cd.

Fórum – Em sua passagem por São Luís, Ivan Sacerdote participa ainda, na véspera de sua apresentação no projeto RicoChoro ComVida, do “1º. Fórum Interinstitucional de Música: Produção Cultural em Música no Maranhão”, realizado em parceria pelas Universidades Estadual (UEMA) e Federal do Maranhão (UFMA).

O projeto RicoChoro ComVida na Praça é parceiro do evento. Ivan Sacerdote ministrará oficina de clarinete, dia 24, às 18h. Entre os palestrantes do evento estão o professor mestre Ricarte Almeida Santos (IEMA), produtor de RicoChoro ComVida na Praça, o professor mestre Wanderson Silva (do Conselho Estadual de Cultura) e o produtor cultural Tutuca Viana, que participarão de uma mesa redonda mediada pelo professor mestre Daniel Lemos (UFMA/ UEMA/ Unirio/ Fapema), também no dia 24, às 15h. O Fórum acontece no Auditório da Uemanet, no Campus Universitário Paulo VI.

Acessibilidade — Todas as edições de RicoChoro ComVida na Praça garantem a presença confortável de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. O projeto itinerante conta com banheiros acessíveis, assentos preferenciais com sinalização, audiodescrição e tradução simultânea em libras.

RicoChoro ComVida na Praça é uma realização de Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais, com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Serviço

O quê: segunda edição da temporada 2018 do projeto RicoChoro ComVida na Praça
Quem: dj Joaquim Zion, Mano’s Trio e Ivan Sacerdote
Quando: dia 25 de agosto (sábado), às 19h
Onde: Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico)
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão

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“TOCA RAUL!”

Contra o sistema e a crise, cantor Wilson Zara mantém tradição e realiza show anual em homenagem a Raul Seixas

Divulgação

Com uma carreira relativamente curta, precocemente encerrada pela morte aos 44 anos, em 1989, Raul Seixas mantém a fidelidade e preferência do público. “Toca Raul!”, dos gritos mais ouvidos pelos bares e bailes da vida, além da devoção que revela, já virou piada e meme e segue mostrando a força e a atualidade do roqueiro baiano.

“Raul, sempre vivo na luta contra o sistema” é o título escolhido pelo cantor Wilson Zara para o Tributo a Raul Seixas deste ano. O nome do show alude ao conturbado momento político por que passa o Brasil e à dificuldade em realizar o espetáculo diante da conjuntura de crise – há alguns anos o show era realizado em praça pública, de graça, e este ano teve que voltar aos moldes iniciais, com a cobrança de ingresso para cobrir os custos de sua realização.

Wilson Zara e Raul Seixas têm uma forte ligação desde que o primeiro ouviu o segundo pela primeira vez. A verdade contida nas letras de Raul e a força com que estas verdades eram ditas foram cruciais para que Zara tomasse a decisão de abandonar o estável emprego de bancário e ir viver de música.

“Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, bradava o baiano em Ouro de tolo, petardo de 1973 que, de tão forte e atual, parece ter sido escrita ontem.

Desde 1992 Wilson Zara realiza, anualmente, um show em homenagem ao ídolo baiano, que era fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, e cuja música dialoga diretamente com os universos do rock’n roll – pelo que acabou se tornando mais conhecido – e do baião. O primeiro Tributo a Raul Seixas teve como título A hora do trem passar, de um dos clássicos do repertório do artista, e foi apresentado em Imperatriz, cidade em que Zara então morava.

Este ano o Tributo a Raul Seixas será apresentado no Fanzine (Praça Manoel Beckman, Av. Beira-Mar, Centro). Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local. Wilson Zara (voz e violão) será acompanhado por Moisés Ferreira (guitarra e efeitos), Marjone (bateria), Mauro Izzy (contrabaixo) e Dicy (vocal).

No repertório, clássicos do repertório do Maluco Beleza, como Eu nasci há 10 mil anos atrás, Gitâ, Rockixe, As minas do Rei Salomão, Eu também vou reclamar, Sociedade Alternativa, How could I know?, Sessão das 10 e SOS, entre muitas outras. Quem gritar “Toca Raul!” certamente terá seu pedido atendido.

Serviço

O quê: Tributo a Raul Seixas – 2018
Quem: Wilson Zara e banda
Quando: dia 25 de agosto (sábado), às 21h
Onde: Fanzine (Praça Manoel Beckman, Av. Beira-Mar, Centro)
Quanto: R$ 20,00 (à venda no local)

Dicy Rocha: de Flor de Cactus a Rosa Semba

Em entrevista a Homem de vícios antigos a cantora relembra sua trajetória enquanto se prepara para participar do show Toca Raul, do amigo Wilson Zara. Ela está às voltas também com o lançamento de Rosa Semba, seu disco solo de estreia

A cantora Dicy Rocha. Foto: Afonso Barros
A cantora Dicy Rocha. Foto: Afonso Barros

Foi o acaso quem apresentou Dicy Rocha e Wilson Zara. Foi o cantor que transformou o trio formado por ela, sua irmã Jovinha Rocha e Helyne Julle em Flor de Cactus. Logo o grupo passou a acompanhá-lo em apresentações em festivais por municípios da região e no Caneleiros Bar – mítico bar que Zara manteve durante certo tempo em Imperatriz, onde se apresentaram nomes como Jorge Mautner, Tetê Espíndola, Ednardo e Tadeu Franco, entre outros.

Natural de Coroatá, Dicy chegou a Imperatriz aos quatro anos de idade. Hoje vive em São Luís, onde prepara o lançamento de seu primeiro disco solo, Rosa Semba. É assessora de comunicação e mobilização social da Agência de Notícias da Infância Matraca e do Centro de Cultura Negra do Maranhão.

Dicy e Zara se reencontram, desta vez não por acaso, nas duas edições de Toca Raul, tributo a Raul Seixas que ele apresentará em São Luís [hoje, às 21h, na Praça dos Catraieiros, Praia Grande, com abertura de Marcos Magah e Tiago Máci e participação especial de Louro Seixas] e Imperatriz [dia 27 de agosto, às 22h, no Rancho da Villa, com abertura de Nando Cruz e Tony Gambel], com patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Em entrevista a Homem de vícios antigos, a cantora Dicy Rocha fala sobre o início da carreira, o encontro com Zara, de sua generosidade, das mudanças para Imperatriz e São Luís e, é lógico, de música.

Dicy Rocha lembra as origens e fala do momento atual de sua carreira em entrevista. Foto: divulgação
Dicy Rocha lembra as origens e fala do momento atual de sua carreira em entrevista. Foto: divulgação

Qual a sensação de reencontrar Zara no palco?
É muitíssimo especial, uma saudade já experimentada. O Wilson é um artista admirável. Com ele, eu e minhas irmãs, do Trio Flor de Cactus, colecionamos boas  lembranças e aprendizados. Será ótimo estar com ele e seu público, que é um espetáculo à parte. É pra matar, ou melhor, deixar mais viva a saudade.

O início de sua carreira foi no Flor de Cactus. Como foi o encontro do trio com Zara?
O trio já existia. Nós – eu, minha irmã Jovinha Rocha e Helyne Jullee – estávamos envolvidas com a música desde os oito anos de idade. Nossa musicalidade era explorada mais especificamente em volta da nossa vivência na comunidade católica que fazíamos parte, a de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na cidade de Imperatriz. Mas foi Wilson quem nos viu e ouviu como Flor de Cactus. Ele chegou um dia no portão da minha casa, procurando o endereço de umas mulheres, que alguém havia indicado pra fazer o vocal de apoio do seu show de tributo a Raul. Lembro que faltavam poucos dias para o show e a cantora Lena Garcia, que fazia parte da banda, não poderia mais acompanhá-lo, por problemas de saúde. Assim, ele bateu por lá procurando essas cantoras. Me pergunto até hoje, se não foi equívoco: o espanto era notável ao encontrar um trio de adolescentes. Então o convite feito foi aceito, agarramos com felicidade e muito empenho, pegamos o repertório em pouco tempo e fomos fazer o show. Após o show, o convite foi estendido para continuamos as apresentações no Caneleiros Bar, e fomos em festivais e outros municípios vizinhos, já como Flor de Cactus. Assim, nós o acompanhamos e depois dividimos muitas cantorias, ainda continuo.

Você é de Coroatá. O que te levou à Imperatriz e depois te trouxe à São Luís?
Cheguei em Imperatriz pequena, aos quatro anos de idade. Meus pais buscavam outras possibilidades de vida. Deixamos então a beira do Itapecuru pelas margens do Tocantins. Ficamos por lá acho que uns 20 anos. A música foi quem me carregou a primeira vez pra ilha. Eu, as meninas do Flor de Cactus e Lena Garcia passamos um tempo vivendo a delícia de cantar quase todos os dias pelos bares e casas da época. A noite aqui fervilhava de cantores e cantoras, até na minúscula lanchonete perto de onde morávamos rolava música ao vivo. Conhecemos e convivemos com grandes músicos e grandes pessoas nessa temporada na ilha, Celson Mendes, Josias Sobrinho, Carlinhos Veloz, Dona Teté, Banda Guetos, Luciana Pinheiro e tantos queridos e queridas. Com o tempo, outras atividades nos afastaram aos poucos do palco. Voltei para casa novamente, e depois de três anos a dor foi quem me trouxe pela segunda vez à ilha. Após perder meu pai em um trágico acidente de carro foi importante pra aquietar o coração e recomeçar. Não demorou muito e o ritmo da ilha começou a me levar novamente para o palco.

Você é jornalista de formação. A música sempre foi um ofício paralelo? Você tem vontade de ele ocupar mais espaço entre teus afazeres?
Minha formação é Comunicação Social com atuação em Marketing e Propaganda. Sou assessora de comunicação e mobilização social na Rede Amiga da Criança e no Centro de Cultura Negra do Maranhão. Sempre estive fazendo outras coisas além da música, é uma correria boa. Tenho pensado bastante sobre isso, afinal o meu primeiro disco está chegando e com ele outras demandas, assim me preparo para estar mais disponível para esse projeto. Quem me conhece bem sabe que eu não busco viver através da música, ela e uma vivência cotidiana muito forte para além do palco, experimento o movimento oposto e são as experiências, as pessoas e toda essa mística que vem se traduzindo para o meu ofício musical.

Da MPB do Flor de Cactus você acabou enveredando na carreira solo por uma linha mais ligada ao universo do reggae e da black music, com o disco Rosa Semba. O que te levou a esta guinada?
Eu e as meninas do Flor de Cactus nem pensávamos muito no futuro com a música, mas era bem certo e sabíamos que nosso destino era estar sempre cantando. Todas nós estamos até hoje envolvidas atividades musicais. A alma do nosso trabalho refletia muito das descobertas e tudo que estávamos tendo acesso em conteúdos musicais na época. Acabamos por ter um repertório bem especial e incomum para os bares na época. O trabalho solo veio da minha aproximação com uma turma muito massa, compositores e jovens músicos como Elizeu Cardoso, João Simas, Beto Ehongue e o meu marido, o produtor cultural e DJ Joaquim Zion, de onde veio o incentivo maior pra esse retorno.  É muito do movimento da vida, com tantas pessoas, com o movimento social e estando atenta aos sons daqui, seja da cultura popular, roots reggae, que o Rosa Semba chegou a mim.

Ouça Rosa Semba (Beto Ehongue):

Carmen Miranda será homenageada no RicoChoro ComVida

[release]

Repertório chorístico imortalizado pela cantora será lembrado por Alexandra Nicolas, acompanhada do grupo Urubu Malandro. O DJ Joaquim Zion também é convidado da terceira edição do projeto

Foto: divulgação
Foto: divulgação

 

“Carmen Miranda é minha maior inspiração como cantora. Eu escuto Carmen Miranda desde menina, mamãe era muito apaixonada por ela, e sempre me dizia que ela era alegria pura, que cantava com os olhos, além das mãos, além da voz. Quando eu pensei nessa alegria de retomar um trabalho com Ricarte, eu pensei nela, em associá-la a essa vida, desse RicoChoro ComVida”.

A cantora Alexandra Nicolas [leia entrevista] emociona-se ao referir-se a Carmen Miranda, a quem homenageia no palco do projeto RicoChoro ComVida, e ao convite para participar de sua próxima edição, que acontecerá dia 3 de outubro (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).

Alexandra Nicolas será acompanhada pelo grupo Urubu Malandro, formado pelos músicos Arlindo Carvalho (percussão), Juca do Cavaco, Osmar do Trombone e Domingos Santos (violão sete cordas). À formação do grupo somam-se, em participações especiais, Fleming (bateria) e Rui Mário (sanfona).

O Urubu Malandro se notabilizou à época do projeto Clube do Choro Recebe, também produzido por Ricarte Almeida Santos, entre 2007 e 2010. Até seu falecimento, o grupo foi integrado por Antonio Vieira (voz e percussão, 1920-2009), também fundador, na década de 1970, do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão.

“A minha relação com os integrantes do Urubu Malandro vem através de Arlindo Carvalho, que é um percussionista que eu costumo dizer que é meu mestre. É alguém que escuta as batidas de meu coração desde a escolha de meu repertório, até a hora em que eu canto a última frase em um show meu. É o músico que mais me acompanhou em shows até hoje”, revela Alexandra Nicolas. O percussionista é o único maranhense em seu disco de estreia, Festejos [2013], gravado com grandes nomes do choro brasileiro, a exemplo de Luciana Rabello (cavaquinho), Maurício Carrilho (violão) e João Lyra (violão e viola), entre outros.

Sem perder a alegria típica da homenageada, numa das características fundamentais que mantêm vivo seu legado até os dias atuais, Alexandra Nicolas centrará o repertório de seu tributo em músicas mais voltadas ao choro, principal gênero – mas não o único – do cardápio musical oferecido por RicoChoro ComVida. “Urubu malandro [Pixinguinha, João de Barro e Louro] eu não poderia deixar de fora. Ah, tem tanta coisa. Tem uma música chamada Diz que tem [Vicente Paiva e Aníbal Cruz], que é fantástica! É isso aí, a mulher brasileira, quando ela se propõe, ela tem tudo isso, “tem cheiro de mato, tem gosto de coco, tem samba nas veias, e ela tem balangandãs” [recitando trecho da letra]”, adianta.

“Eu me identifico muito com tudo o que ela fez. Tem Camisa listada [Assis Valente], Disseram que eu voltei americanizada [Vicente Paiva e Luiz Peixoto] não pode faltar. Na verdade eu estou montando uma história sobre as épocas de Carmen como cantora. Ela não é uma cantora só que canta, ela conta uma história muito boa, e por isso me identifico tanto com ela. Ela conta tanto, que ela modificou a maneira de cantar. Quando você olha para os olhos dela, ela está te contando alguma coisa e você tem que prestar atenção”, continua.

Foto: Claudia Marreiros
Foto: Claudia Marreiros

 

Quem também recebeu com alegria o convite da produção foi o DJ Joaquim Zion [leia entrevista]. Ele junta-se ao coro de Alexandra em elogios ao produtor e idealizador do projeto. “Pra mim é uma honra. Tenho imensa admiração pelo Ricarte e o projeto RicoChoro ComVida é de fundamental importância para o desenvolvimento da boa musica em nosso país”, declarou.

Clementina de Jesus, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Gilberto Gil, Dominguinhos, Di Melo, Paulo Moura, Jorge Ben, Caetano Veloso, Djavan, Pixinguinha e Donga, além de surpresas que ele só revelará na hora, estão no set list preparado por Joaquim Zion para abrir e encerrar a festa.

O DJ também destacou a importância da homenageada da noite. “Carmen Miranda foi a primeira cantora brasileira a ter reconhecimento nos Estados Unidos, o que de alguma maneira abriu portas para a nossa música lá fora. O pioneirismo dela fez com que o mundo abrisse os olhos para o Brasil e para a nossa música”, afirmou.

Produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, e apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas.

Serviço

O quê: RicoChoro ComVida – 3ª. edição
Quem: DJ Joaquim Zion, grupo Urubu Malandro e Alexandra Nicolas
Onde: Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande)
Quando: 3 de outubro (sábado), às 18h
Quanto: R$ 30,00. Vendas antecipadas de mesas (R$ 120,00 para quatro pessoas) pelo telefone (98) 988265617