O estandarte verdadeiro de Lena Machado

Nos últimos releases que escrevi para a cantora Lena Machado uma coisa era comum: a falsa ideia de um eterno retorno. Os textos de divulgação sempre falavam na “volta” da artista. Um professor amigo apontou a falha, de que sinceramente nunca tinha me tocado, e aquilo ficou me martelando a cuca.

Lena Machado não é uma artista da noite – e aqui não há demérito a quem o seja, nem falsa hierarquização entre artistas da noite e do disco, ou qualquer outra classificação possível. Tenho tido, ao longo dos últimos 10 anos, o prazer de compartilhar as dores e delícias de cada passo de sua carreira: as feituras de Canção de vida (2006) e Samba de minha aldeia (2009) até as ideias – ainda sigilosas – para o terceiro disco, a ser lançado ano que vem, quando comemorará 10 anos de carreira, passando pelos minuciosos preparativos para cada aparição sua.

É que ela não faz qualquer coisa de qualquer jeito em qualquer lugar. A moça é refinada. Além dos entraves econômicos e burocráticos, é preciso clima – e não falo aqui apenas do risco de chuva para uma apresentação em palco aberto. É preciso uma mística, algo como um sinal, as bênçãos de Clara Nunes, Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso, suas ancestrais.

A última vez em que anunciei a “volta” de Lena Machado foi por ocasião de Divino Espírito Samba, em janeiro passado, um caprichado espetáculo, a começar pelo título, produzido pela Negro Axé. A cantora caprichou na seleção de repertório e do time que a acompanha – Andrezinho (percussão), Fofo (bateria), João Eudes (violão sete cordas), João Paulo (percussão), Lee Fan (flauta), Rafael Bruno (contrabaixo), Rui Mário (sanfona), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho, direção musical e arranjos), além das participações de Luzian Filho (Feijoada Completa) e Patativa.

A artista canalizou o apoio da Fundação Municipal de Cultura para realizar o espetáculo de graça, no Anfiteatro Beto Bittencourt, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande. É uma opção de artista engajada para além da formação de plateia. É essa uma das sérias preocupações que a movem ao se decidir por fazer um show: é impossível cantar qualquer coisa de qualquer jeito em qualquer lugar, repito. Em Divino Espírito Samba a artista estava em casa – o palco – em perfeita comunhão com a família – a plateia.

Engajada, Lena Machado dedicou o primeiro disco a repertório identificado com as lutas de movimentos sociais do Maranhão. Canção de vida, sua estreia, celebrou os 50 anos de atuação da Cáritas, onde trabalha, no estado. Samba de minha aldeia, sucessor da estreia, tem repertório inteiramente dedicado ao samba e choro de autores maranhenses. Em Divino Espírito Samba, apontando caminhos para o que poderá vir a ser o terceiro disco, ela prova que autores como Antonio Vieira, Cesar Teixeira e Cristóvão Alô Brasil, entre outros nossos, nada devem a gigantes como Chico Buarque, Ismael Silva e Paulo César Pinheiro, entre outros.

A B. A. Produções, do cinegrafista Elson Paiva, outra parceria que acompanha a cantora já há algum tempo, filmou o espetáculo. O resultado é um dvd-promo, não lançado comercialmente, com a íntegra do repertório. Algumas faixas podem ser conferidas no youtube. O blogue antecipa, em primeira mão, Samba e amor (Chico Buarque), A força que vem da raiz (Roque Ferreira), Se você jurar (Ismael Silva/ Francisco Alves/ Newton Bastos)/ Das cinzas à paixão (Cesar Teixeira), Juracy (Antonio Almeida/ Cyro de Sousa)/ Cocada (Antonio Vieira)/ Araçagy (Cristóvão Alô Brasil) e Do jeito que a vida quer (Benito di Paula)/ Esperanças perdidas (Délcio Carvalho).

Os vídeos aliviarão a espera do fã clube. O blogue espera anunciar outra “volta” em breve.

Reverenciando grandes mestres do gênero, Divino Espírito Samba marca volta de Lena Machado aos palcos

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Show gratuito acontece na Praia Grande e terá participações de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

No melhor espírito “eu quero é botar meu bloco na rua”, a cantora Lena Machado volta aos palcos com o show Divino Espírito Samba. A apresentação, gratuita, acontece no Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), na Praia Grande, no próximo dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h. A produção é da Negro Axé.

Recentemente Lena Machado participou do show de lançamento de Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia da compositora Patativa, do réveillon, como convidada do grupo Afrôs, e da posse do governador Flávio Dino, mas há algum tempo o fã clube vinha reclamando um show completamente seu.

“O show é uma espécie de antologia com o melhor do samba brasileiro, o que inclui autores locais, que não devemos nada a ninguém”, exalta a cantora, que volta aos palcos em grande estilo. Nenhum dos 18 sambas do repertório já foi gravado por Lena nos dois discos que lançou: Canção de vida (2006) e Samba de minha aldeia (2009). Com Quem roubou minha aquarela?, de Cesar Teixeira, ela participou da Exposamba, concurso voltado ao gênero em nível nacional. “O repertório não deixa de ser também uma espécie de teste para o que estamos pensando para o próximo disco”, revela, ainda sem previsão de lançamento.

Além de Cesar Teixeira, fornecem obras primas para sua privilegiada voz Antonio Vieira, Batatinha, Benito di Paula, Bruno Batista, Candeia, Chico Buarque, Ismael Silva, Luzian Filho, Paletó, Patativa, Paulo César Pinheiro, Roge Fernandes e Roque Ferreira.

A cantora contará ainda com as participações especiais de Patativa (em cujo disco fez vocais e de quem gravou Colher de chá em seu segundo trabalho), Luzian Filho (do grupo Feijoada Completa) e Zé Pivó (compositor da Turma de Mangueira, escola de samba do bairro do João Paulo, e do bloco carnavalesco madredivino Fuzileiros da Fuzarca).

“Para mim é uma honra, eu, aprendiz, dividir o palco com estes mestres. É beber na fonte de nosso samba genuíno, legítimo, autêntico”, derrete-se a artista. Sobre o nome do show ela conta: “é impossível negar o samba como uma das autênticas expressões de nossa cultura popular, essa nossa batida diferente. O nome une dois aspectos de nossa tradição, e dessa fusão de duas tradições surge algo moderno, daí Divino Espírito Samba”. Além de tudo, soa bem. Como um bom samba.

Lena Machado será acompanhada por Andrezinho (percussão), Fofo (bateria), João Eudes (violão sete cordas), João Paulo Seixas (percussão), Lee Fan (flauta), Rafael Bruno (contrabaixo), Rui Mário (sanfona), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho e direção musical). Uma constelação de craques para ninguém botar defeito.

Serviço

O quê: show Divino Espírito Samba.
Quem: a cantora Lena Machado, com participações especiais de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho.
Quando: dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h.
Onde: Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), Praia Grande.
Quanto: grátis.
Maiores informações: (98) 981920200 e 981220009.