Em São Luís, Mário Rodrigues antecipa novo romance

Foto: Windisley Thiago. Ascom/Secult

 

Há diversas maneiras e razões pelas quais alguém se torna escritor. Inclusive, de uns tempos pra cá, após cursos de escrita criativa, laboratórios, oficinas, cursos superiores de Letras e que tais.

Há quem acredite em dom ou talento inato. Ou destino. Ou acaso.

Na tarde de ontem (21), no Espaço Juventude da 12ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), o bem-humorado escritor garanhuense Mário Rodrigues conversou com a jornalista e escritora Talita Guimarães em mais uma edição do Literatura Mútua.

Ele contou uma história bonita, que me deixou, como diria Paulo Mendes Campos, “comovido como o diabo”, que tento reproduzir aqui.

O pai do menino Mário foi demitido e o patrão não tinha como lhe pagar indenização. Entre o prejuízo completo, o ex-empregador resolveu dar-lhe, em compensação, cinco máquinas de escrever. Ao então desempregado de nada serviriam, mas era melhor que nada. Tinha quatro filhos, deu uma máquina de escrever a cada um.

A Mário restou uma Olivetti vermelha, daquelas que ao serem fechadas se transformam em uma maletinha. Diante da máquina, o menino colocou uma folha de papel a4 no cilindro e começou a batucar um conto, nada original, nada inspirado, segundo o relato do autor de A cobrança [Record, 2018], relatando a situação: um menino que ganha uma máquina de escrever do pai.

“Meu pai era aquele homem de pedra, nordestino autêntico, daqueles que nunca se viu rir ou chorar”, lembrou. “O macho-jurubeba no dizer de Xico Sá”, pensei na plateia, mas não quis interromper a história. “Mas eu gosto de imaginar que ao ler, na minha frente, aquele conto que lhe entreguei, vi seus olhos marejarem”, continuou. Anos depois, quando da morte do pai, descobriu que ele havia guardado o texto pelo resto da vida.

Os anos se passaram e Mário se tornou professor de português, literatura e redação e autor merecidamente festejado: com o volume de contos Receita para se fazer um monstro [Record, 2016] venceu o prêmio Sesc de Literatura e foi finalista do Jabuti.

O autor continua morando na Garanhuns natal, tida como Suíça brasileira, pelo frio que faz à noite, terra que também deu ao Brasil Luís Inácio Lula da Silva. Fui vê-lo à tarde numa espécie de preparação para a mesa que eu mediaria à noite, com o tema “A taça do mundo não foi nossa”.

Mário Rodrigues discorreu sobre influências – Cormac McCarthy, Raymond Carver, Rubem Fonseca e principalmente Graciliano Ramos, com quem mais se identifica graças à dicção. Lembrou-se do zumbido dos minutos iniciais da adaptação cinematográfica de Vidas secas, por Nelson Pereira dos Santos, a dizer que é o tipo de detalhe que persegue ao fazer literatura.

Ao comentar seu processo criativo, revelou primeiro eleger um assunto. Depois mergulhar em uma meticulosa pesquisa sobre. E só depois colocar tudo no papel. No intervalo entre uma mesa e outra conversamos um pouco. E o que ele me revelou, me deixou curioso e ansioso de tal modo, que não pude evitar pedir-lhe que compartilhasse aquela novidade com o público presente.

Mário Rodrigues era, para mim, um autor recém-descoberto, ainda estou sob o impacto da leitura de A cobrança, assunto do post anterior deste blogue. Não li (ainda) Receita para se fazer um monstro, que é um livro de contos que versa sobre a formação de um ser humano repugnante – o monstro do título.

A mesa da noite também transcorreu em clima descontraído, entre aspectos do futebol e (da história) do Brasil abordados por sua ficção ancorada na realidade. As semelhanças nos messianismos de Fernando Collor em 1989 e Jair Bolsonaro em 2018, a vingança coletiva, contra o país que tudo lhe negou, tramada pelo protagonista de A cobrança, seu gracejo ao responder uma curiosidade da plateia: seria, necessariamente, um escritor que escreve tão bem sobre futebol, um bom jogador de futebol? “Há uma característica raríssima em jogadores de futebol que os diferenciam de todos os outros: escanear o campo. O jogador sabe exatamente onde estão seus companheiros e seus adversários. Eu só conheço quatro, com essa capacidade: Pelé, Tostão, Lionel Messi e eu”, revelou, esbanjando bom humor, para gargalhada geral dos presentes.

E discorreu em detalhes sobre o futebol-arte, lembrando partidas antológicas de diversas seleções brasileiras, de 1930, ano da primeira Copa do Mundo, no Uruguai, até o Brasil inventar sua própria maneira de jogar bola, em 1950. “Depois, em 1958, o Brasil vence sua primeira Copa do Mundo. Era o Brasil sendo o melhor no que todo mundo queria ser. É fácil o Brasil ser bom em samba: só tem samba no Brasil”, comparou.

Lembrou os campeonatos mundiais conquistados em 1962 e 1970. Descreveu à perfeição lances antológicos, como o drible que Pelé dá, sem tocar na bola, em Mazurkiewicz, goleiro uruguaio, na semifinal da Copa de 1970. “Após o passe de Tostão, na medida, Pelé surge do nada, feito um raio, e após tirar o goleiro com o corpo, por milímetros a bola vai pra fora”, relembrou o não-gol mais bonito da história do futebol.

Depois algumas seleções memoráveis, sobretudo a de 1982, “com o melhor meio-campo de todos os tempos: Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo. Vejam a diferença, Zico do Flamengo, Sócrates do Corinthians, Falcão do Internacional, e Cerezo do Atlético Mineiro. Não apenas clubes brasileiros estavam representados, mas estados”, comentou, antes de discorrer sobre a derrocada do futebol brasileiro, tema também de A cobrança. “Nos perdemos querendo imitar os europeus, graças à nossa síndrome de vira-latas, como diria o grande Nelson Rodrigues”.

Já havíamos falado do presente (A cobrança, publicado este ano) e do passado (Receita para se fazer um monstro, de 2016). Eu não podia, diante do impacto, perder a oportunidade. Repeti-lhe, diante do público, a pergunta-clichê, inevitável, que já havia feito em off, instantes antes da mesa: e o livro novo?

O argumento incrível e o inusitado de como a história lhe caiu no colo, até agora ribombando em minha cachola, me fez novamente pensar no que faz de alguém um escritor – acaso? Sorte?

Sem firulas, Mário Rodrigues não se fez de rogado e revelou o mote e parte do enredo: “eu estava, no carnaval, almoçando com umas tias setentonas, que comentavam sobre um tio, já falecido, que trabalhava no serviço secreto. Era um tio sensível, escrevia versos, tocava acordeom, me ensinou a dirigir, era aquele a quem todos da família recorriam quando tinham problemas. Quando eu era mais jovem e ouvia falar nesse serviço secreto, imaginava algo meio James Bond; fui pesquisar e descobri que ele era um agente da repressão, um torturador que trabalhou no Doi-Codi, sob o comando de Carlos Alberto Brilhante Ustra, nos anos mais pesados da ditadura militar. Ou do regime militar, como queiram. Era no governo Médici, tido como o mais duro do período. Meu tio cresceu tanto na hierarquia do exército que quando Médici ia até São Paulo, ele era escalado para ser seu motorista particular. O livro vai se chamar O motorista de Médici”, antecipou.

Cá estou, ansioso por ler, a esperar este seu novo livro, certamente uma das grandes obras da literatura brasileira em 2019.

Romance de jornalista revê governo Médici a demonstrar a atualidade da tragédia brasileira

Tempos de cigarro sem filtro. Capa. Reprodução

A prosa de José Maschio, seca, mas com ginga, de frases curtas, a incorporar o espírito das ruas e dos botecos, encontra pares em autores como João Antonio (1937-1996) e Marcelino Freire.

Autor experimentado em redações e salas de aula, praticando e ensinando o jornalismo em que se formou na Universidade Estadual de Londrina/PR e com o qual percorreu o país inteiro como repórter de jornais como Paraná Norte e Folha de S. Paulo.

Paulista de Echaporã, em seu Tempos de cigarro sem filtro [Kan Editora, 2017, 150 p.] entrecruzam-se diversas histórias de vida, em um Brasil sob a égide do golpe militar de 1964, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, apelidado Carrascoazul por um personagem.

Maschio é elegante e tem domínio absoluto da linguagem ao abdicar de travessões ou aspas para marcar as falas de suas personagens, que acabam fundidas às do narrador, sem fundir a cuca do leitor, que ligeiro se vê fisgado pelo enredo, seus vários núcleos e suas mazelas particulares.

Ficção alicerçada em fatos e personagens reais – de cujo destino Maschio é também senhor –, trama política e policial com cheiro de povo: toda a sorte de relações mediada por afetos, traições, dinheiro miúdo, o equilíbrio na corda bamba da sobrevivência, falso moralismo, hipocrisia, politicagem, corrupção, a crueldade da ditadura militar, com torturas, desaparecimentos e assassinatos, e tudo o que acabou virando sinônimo de Brasil para o bem e para o mal, parte disso a reverberar ainda nos tristes tempos atuais, em que o país vive sob a égide de outro golpe.

Nem na ficção ditadura é solução, como se percebe em Tempos de cigarro sem filtro, o título a fazer trocadilho com o que se propõe: revelar um Brasil brasileiro, sem filtro, desde a coloquialidade da prosa até a escolha dos protagonistas, trabalhadores, gente simples que poucos se dispõem a enxergar, quanto mais a retratar.

O Brasil golpeado de hoje é resultado de uma redemocratização frágil, que nunca puniu sequer um agente da repressão. O problema é que os que pedem intervenção militar não leem sequer ficção.

“Há uma regressão generalizada no campo dos direitos humanos”

A avaliação, sobre o Brasil de hoje, é de Paulo Vannuchi, ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula (entre 2005 e 2010), e membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (eleito em 2013, tomou posse no ano seguinte). Ele está em São Luís para proferir a palestra Sistema de Direitos Humanos: instrumentos e estratégias para efetivação de direitos.

Vannuchi volta à Ilha a convite da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop). Aberta ao público, a palestra acontecerá hoje (16), no auditório da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz, Av. Carlos Cunha, s/nº, Calhau), a partir das 15h.

Graduado em Jornalismo e mestre em Ciência Política, Vannuchi participou da militância política nas comunidades de base da Igreja Católica, em defesa de opositores ao regime militar perseguidos pela ditadura. Trabalhou na elaboração do livro Brasil nunca mais, dossiê coordenado por Dom Paulo Evaristo Arns, que listou nomes de torturadores e métodos utilizados nos porões da repressão. Sempre foi um crítico de que a Lei da Anistia, de 1979, beneficiasse também agentes do regime, assunto que ele aborda nesta entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

Por telefone, a caminho de um ato em São Bernardo do Campo/SP, ele explicou o que são sistemas de direitos humanos, comentou retrocessos vividos em diversos temas após o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república, e ainda o papel dos meios de comunicação em sua consolidação, no discurso de ódio que já extrapola o ambiente das redes sociais e na visão conservadora que a sociedade em geral tem dos direitos humanos. Leia a entrevista.

Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

O senhor vem à São Luís falar de Sistema de Direitos Humanos. Quando falamos em sistema, pensamos imediatamente nos de Saúde e Assistência Social, por exemplo. O que vem a ser um Sistema de Direitos Humanos e qual o exemplo possível de um estruturado e em funcionamento?
O sistema de direitos humanos é uma existência concreta no âmbito internacional. Nós temos dois: o sistema ONU, das Nações Unidas, com sede em Genebra, no Conselho de Direitos Humanos, permanente, com representação de dezenas de países e todo um processo de acompanhamento dos vários temas de direitos humanos. E temos o sistema interamericano, que tem uma sede da comissão em Washington e uma corte na Costa Rica. Desses dois sistemas deriva a proposta de cada país construir também o seu sistema, como você disse, à imagem e semelhança de um sistema único de saúde, que articula os entes federados: União, estados e municípios. A minha ida à São Luís é a convite da Secretaria de Direitos Humanos do Governo do Estado. O governador Flávio Dino é uma pessoa com quem eu já tive parcerias aí, como na homenagem ao maranhense Ruy Frazão, que hoje tem lá uma homenagem a ele na escola, no Liceu do Maranhão, que ele foi estudante. Acompanho a trajetória do governador, me senti muito honrado com o convite. Eu iria para conversar, sobretudo com prefeitos, houve uma coincidência de uma importante reunião da confederação de prefeitos [a Federação dos Municípios do Estado do Maranhão (Famem)] e nós vamos fazer uma discussão geral. Então eu quero levar informações sobre o sistema Nações Unidas, sobre o sistema interamericano, onde eu sou membro da comissão para um mandato de quatro anos, e trabalhar, aprender mais sobre o Maranhão, conhecer as experiências, sobretudo na questão criança e adolescente, na questão de combate ao racismo, pessoas com deficiência, do direito LGBTI [lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais], do direito à diversidade sexual, e também os chamados direitos econômicos, sociais, culturais, isto é, direitos humanos não é um tema só sobre presídios, sobre a questão das pessoas em conflito com a lei. Direitos humanos é também educação, saúde, direito ao trabalho, direito à comida, sobretudo. A viagem tem um caráter de um diálogo em que eu levo informações sobre a minha experiência como membro da comissão interamericana, como ministro dos direitos humanos do presidente Lula por cinco anos, e também aprendo sobre o Maranhão e quem sabe discutimos possíveis integrações do Maranhão com o sistema interamericano de direitos humanos da OEA.

Como o senhor, que foi ministro de direitos humanos no governo Lula, avalia a trajetória desta política no Brasil ao longo dos últimos 15 anos?
Eu diria um pouco mais. Embora do ponto de vista partidário eu seja uma pessoa muito vinculada ao presidente Lula, ao PT, eu sou assessor do presidente Lula há mais ou menos 37 anos, é muito tempo. Quando ministro dos direitos humanos eu disse várias vezes em eventos oficiais, e também escrevi várias vezes, que havia uma trajetória histórica de consolidação dos direitos humanos que não era como uma política de governos, e sim uma política de Estado, e que mesmo no período Fernando Henrique Cardoso, que é o adversário central, o antípoda do Lula no cenário partidário brasileiro, também no período do Fernando Henrique houve avanços em direitos humanos. Isso foi uma insistência, e deve ser uma insistência, também dos órgãos estaduais. Claro que o governo nasce de eleições populares com um programa que tem que ser seguido por que a maioria do eleitorado aprovou. Agora, políticas de Estado são aquelas que você cria e que mudanças de governo não podem anular. Por exemplo, o Brasil hoje tem no plano federal uma política oficial de desmontar as políticas sociais do período Lula e isso é muito errado. Em direitos humanos, no meu período de cinco anos, nós não fizemos isso de uma maneira mesquinha, estreita, com relação ao legado do período Fernando Henrique. O Fernando Henrique foi responsável pelos dois primeiros programas nacionais de direitos humanos, um de 1996 o outro de 2002. O Brasil foi então um dos primeiros países a criar este seu plano nacional e eu fui ministro quando uma conferência nacional com participação de 14 mil pessoas, duas mil presentes em Brasília, essa conferência aprovou o esqueleto do PNDH 3. Nesse sentido o que é preciso dizer é que a afirmação histórica dos direitos humanos enfrenta de um ano pra cá, de dois anos pra cá, todo esse período, de ódio, de intolerância, uma regressão brutal. Há órgãos de imprensa inclusive fazendo campanhas de intolerância, de ódio, que podem levar a este episódio de fim de semana nos Estados Unidos, Charlottesville, a retomada do racismo, do ódio, supremacia branca, até propaganda nazista. Então o discurso dos direitos humanos tem que procurar sempre ser um discurso amplo, um discurso que chame partidos que estão se opondo na arena política eleitoral imediata, a mostrar que determinados princípios têm que ser comuns a todos: a não violência, a tolerância, o respeito à diversidade, ao diálogo, e isso inclusive quando chega num tema muito espinhoso, como é o tema do sistema prisional, por que uma parte da sociedade entende que, “bom, são criminosos, têm que ser exterminados, olho por olho, dente por dente”, e o pensamento dos direitos humanos é diferente, o pensamento está muito centrado nas ideias que estão até no evangelho de você ser capaz de perdoar, de ser tolerante, e de reincorporar, reeducar e ressocializar. No caso do Maranhão, recentemente episódios graves como Pedrinhas, e cada estado brasileiro terá seu exemplar desse tipo, e mais do que isso, cada um dos 35 países que compõem a OEA. Agora, é preciso divulgar na sociedade que, primeiro, um criminoso tem direito de cumprir a pena, tem direito de eventualmente provar a inocência, já houve muitos casos de pessoas condenadas que mais tarde descobriu-se que o assassino não era aquela pessoa, no caso da pena de morte a pessoa já foi executada quando aparece a prova de que a pessoa era inocente. A gente sabe que ao fazer esse discurso vai na contramão do pensamento comum, que acha que não, que “uma vez que é um criminoso tem que ser exterminado”. As pessoas se esquecem que muitas vezes até um filho daquela família pode ser levado numa prisão e muitas vezes colocado nessa vala comum, são todos bandidos, têm que ser exterminados.

Durante sua gestão como ministro dos direitos humanos o senhor defendeu a revisão da Lei da Anistia, uma lei que acabou por contribuir para a impunidade de agentes da ditadura militar brasileira. O Brasil é o único país da América Latina em que houve uma ditadura que não puniu torturadores. Sua indignação com a Lei da Anistia continua válida? Este debate precisa ser retomado?
Eu nunca defendi a ideia da revisão, a palavra revisão. O que eu defendi é que o Supremo Tribunal Federal, decidindo sobre uma ação da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], uma ADPF, arguição de descumprimento de preceito fundamental, que foi apresentada pela OAB na gestão de César Brito, com patrocínio do advogado, que é um ícone dos direitos humanos, Fábio Comparato, consultava o Supremo se a lei de anistia de 1979, tendo sido feita ainda no período ditatorial, se ela podia ou não proteger os torturadores, uma vez que a tortura é considerada no direito internacional dos direitos humanos como um crime imprescritível, ou seja, não passa tempo e não é passível de anistia ou de graça. O Supremo Tribunal Federal, na minha opinião, decidiu, por maioria, num caminho errado, considerando que sim, a lei de anistia de 1979 protege os torturadores. Agora, essa decisão, ela se choca de frente com os organismos da ONU e da OEA, que também, por opção voluntária do Brasil, precisam ser considerados parte do direito no Brasil. Esse impasse está mantido. O que eu consegui fazer na nossa gestão foi desbloquear o tema, com o presidente Lula enviando em 2010 ao legislativo um projeto de lei para criar a Comissão Nacional da Verdade. Agora, um ano depois o Brasil não tinha uma comissão da verdade, tinha cem. A Comissão Nacional da Verdade foi instalada pela presidenta Dilma, trabalhou durante dois anos e meio, e a sociedade civil proliferou comissões da verdade no âmbito do movimento sindical, das universidades, várias comissões oficiais, eu não sei agora de cabeça se o Maranhão teve ou não, Flávio Dino não era ainda governador.

Teve uma instalada na Assembleia Legislativa.
Então, a Assembleia Legislativa do Maranhão fez, a de São Paulo fez, o município de São Paulo fez, com Fernando Haddad, o governo estadual do Rio de Janeiro fez, com Sérgio Cabral, então o Brasil debateu como nunca o resgate das violações massivas de direitos humanos, e nós temos hoje um conhecimento muito superior do problema. Permanece a sua pergunta, que é a punição ou não. E a punição é necessária, não apenas por ser uma exigência do sistema interamericano, do sistema ONU, que exigem, na chamada justiça de transição, quatro pilares indispensáveis: o primeiro é o Estado nacional, o Estado brasileiro, no caso, reconhecer a sua responsabilidade pelas violações. Isso já foi feito, leis do tempo de Fernando Henrique, a lei sobre mortos e desaparecidos políticos, a lei que criou a comissão de anistia, ações do governo Lula, ações do governo Dilma, e até algumas poucas sentenças judiciais reconhecem essa responsabilidade do Estado. O segundo pilar é a necessidade de reparação. A reparação é indenizatória e isso também começou já no governo Fernando Henrique, mas ela é simbólica, que foi esse evento de São Luís do Maranhão, de oito anos atrás, que eu fiz ao lado de Flávio Dino, para homenagear uma pessoa que morreu na tortura, lutando pela democracia e pela liberdade, Ruy Frazão. O terceiro pilar indispensável é aquele que obriga o Estado a fazer a apuração rigorosa, a responsabilização individual: quem foram os responsáveis por aquele assassinato, por aquele desaparecimento. E por último, muito importante: políticas de não repetição. Mudar o ensino militar, levar as próprias academias militares das três armas a discutir direitos humanos, a superar crenças de doutrina de segurança nacional, combate ao inimigo interno, combate ao comunismo, etc. e tal. Você vê que Flávio Dino é um governador hoje do Partido Comunista [do Brasil, o PCdoB] e ele sempre insiste que o comunismo, pra ele, tem muito a ver com comunhão, a sua origem católica, estudou em Colégio Marista, a ideia da partilha, da comunidade, e não no sentido da Guerra Fria, que já acabou e muitas mentalidades mantém o mundo dividido em União Soviética e ocidente. Nesse sentido, o que falta no Brasil, sobretudo, são esses dois pilares dos quatro. O pilar da investigação apontando, “olha os assassinos de Vladimir Herzog foram fulano, fulano e fulano, seus comandantes”. Não quer dizer necessariamente que essas pessoas tenham que ser mandadas pra cadeia, muitas já morreram, outras estão com 80 anos. O que precisa é haver a condenação para que o Estado não deixe de ter claro que aquilo é condenável. Para que o torturador de hoje, ao torturar, saiba que daqui a 20 anos ele poderá ser punido. E as políticas de não repetição. A reparação simbólica envolve coisas que avançaram, eu falei da homenagem ao Ruy Frazão no Liceu do Maranhão, eu falei da troca do nome, aqui em São Paulo, do Minhocão, que se chamava elevado Arthur da Costa e Silva e agora se chama João Goulart. A gente gostaria de levar esse debate ao Maranhão no sentido de ver também várias outras passagens históricas das violações de direitos humanos ou da violação histórica no Maranhão, para que nos uníssemos nesses avanços, vermos o que falta fazer. O Maranhão tem figuras legendárias como Maria Aragão, Manoel da Conceição, líder camponês que num choque pela terra foi ferido a bala, perdeu uma perna, foi um dos fundadores do PT. A viagem é recoberta destes múltiplos significados.

Além das diversas comissões da verdade espalhadas pelo país, parece que a maior contribuição ao debate sobre a ditadura militar e consequentemente a tortura vem das artes, já que estes temas sempre renderam bons filmes, livros e peças de teatro, entre outros. Neste campo, o que o senhor recomenda?
A pergunta é muito oportuna por que envolve a percepção de que as nossas transformações de mentalidade passam vitalmente pela cultura. A ideia dos livros, das pesquisas, são centenas de teses de mestrado, de doutorado, que foram desenvolvidas no Brasil sobre esse tema, e estão sendo ainda. São vários filmes, são várias produções teatrais, algumas circulam pelo país, tem inauguração de monumentos, tem sítios da memória. E você tem toda razão, por que o que importa mesmo é levar isso agora adiante, inclusive a batalha das comunicações. Não pode, num estado como o Maranhão, a gente ficar limitado por cadeias, monopólios de comunicação que não informam sobre as coisas boas que um determinado partido político faz, um determinado governador faz, só informa sobre as coisas ruins. E nesse sentido o resgate da memória da democracia tem uma conexão com a batalha de hoje, por que no Brasil de hoje nós não estamos numa ditadura, mas no Brasil de hoje o estado democrático de direito sofre agressões. Existem figuras como Bolsonaro fazendo a propaganda fascista, nazista abertamente, e de fato também, qualquer debate sobre direitos humanos hoje tem que colocar em primeiríssimo plano chamar as pessoas de todos os partidos que vão disputar e se confrontar na eleição do ano que vem a ter um acordo nas ideias civilizatórias. Respeito ao ser humano, respeito aos mais pobres, políticas de geração de emprego, valorização dos salários, a ideia de que nós temos que conviver na democracia com opiniões políticas diferentes, e até opostas, mas resolvendo sempre com o compromisso de ninguém eliminar a vida de ninguém, ninguém desqualificar ninguém, matar as pessoas moralmente, como hoje se pratica no Brasil abundantemente, às vezes insuflados por cadeias poderosas de televisão. Isso é um erro absurdo, que terá preço a ser pago por todos os atores, inclusive por esses segmentos conservadores, que no seu ódio não entendem o quanto essa política raivosa também traz danos a seus próprios interesses de elite, dos setores empresariais. Em direitos humanos um princípio angular é o princípio da não regressão, não voltar atrás. O Brasil hoje, infelizmente, está numa etapa em que há uma regressão generalizada no campo dos direitos humanos. Todo debate tem que priorizar o bloqueio, a paralisação dessa regressão e a retomada de um caminho de avanço gradual. A cada ano o país ter um patamar um pouco melhor na questão da pobreza, da saúde, da educação, das condições do sistema prisional, do atendimento socioeducativo.

Lúcida, lúdica e necessária: uma Aula sobre a ditadura

Ah, como era boa a ditadura... Capa. Reprodução
Ah, como era boa a ditadura… Capa. Reprodução

 

Ah, como era boa a ditadura… [Companhia das Letras, 2015, 287 p.; leia um trecho]: só podia mesmo ser o título de um livro de Luiz Gê o único lugar onde essa frase soa bem. Pura e fina ironia, obviamente. “A história dos últimos anos da ditadura militar nas charges da Folha de S. Paulo”, como anuncia o subtítulo explicita melhor: a obra não é mera coletânea, é uma Aula, com A maiúsculo, de História, com H idem.

O livro cobre o trabalho de Luiz Gê no jornal paulista entre 1981 e 1984, o que, por um lado, pode parecer facilitar seu trabalho à época, afinal de contas, eram os anos da chamada abertura, da redemocratização do país. Acompanham os desenhos textos explicando o contexto, (re)apresentando personagens – dando nomes aos bois –, tornando-o leitura obrigatória para estudiosos e interessados em humor, história, quadrinhos e até mesmo àqueles que hoje em dia frequentam passeatas pedindo a volta da ditadura – estou certo de que alguns poderiam mudar de opinião após “reviver” com atenção o período.

“Quer que eu desenhe?” é irônica pergunta comumente usada para iniciar uma contraposição a argumentos. Luiz Gê desenha e escreve com propriedade de quem (sobre)viveu (a)o regime, ousando contestá-lo. E defende algumas teses interessantes: primeiro, é falacioso falar em ditadura militar, pois o golpe de 1964, em sua urdidura, contou com civis e graças a este apoio é que foi possível; segundo, a ditadura não durou apenas 21 anos, já que José Sarney, que governou o país entre 1985 e 1990, não foi eleito, mas chegou à cadeira do poder central após mudar de partido (olha o fisiologismo aí, gente!) e a morte do titular Tancredo Neves, de quem o maranhense era vice.

Gê aborda ainda heranças malditas da ditadura, para além das mais óbvias: os métodos das polícias militares, a permanência da prática de tortura, apesar de diversos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário e da lei que a proíbe, e a anistia que perdoou torturadores: até hoje, no país, ninguém foi punido pelos crimes de lesa-humanidade cometidos durante o regime, ao contrário de outros países latino-americanos que também sofreram com ditaduras.

“Mas a pior de todas as heranças, a que até hoje não foi superada, foi a destruição da altamente bem-sucedida experiência educacional e do ensino público anterior a 1964. Escolas públicas tinham o mesmo nível ou maior que muitas escolas ditas de elite. Essa experiência, que poderia ter sido aperfeiçoada e ampliada para alcançar um maior número de pessoas, foi sumariamente eliminada sem jamais ter se recuperado, algo crucial que vem afetando profundamente o desenvolvimento de nossa sociedade e de nosso país”, escreve Luiz Gê à página 278. E na seguinte: “o Brasil de hoje, foi criado naquela ruptura no ano de 1964. Quem não puder enxergar o que foi exatamente que ocorreu durante os 21 anos que se seguiram não pode entender aquilo que vive hoje. Havia outra possibilidade para o Brasil e para o nosso presente […]. Tudo “mudou” para permanecer fundamentalmente igual. As relações de poder político e econômico se reajustaram. Qual dos dois manda mais em nosso sistema?”, indaga-se/nos.

Lúcido e lúdico, Ah, como era boa a ditadura… é vasto painel com muito material ainda bastante atual, infelizmente, sobretudo no que diz respeito à nossa fauna política – o folclore, a burrice, o oportunismo – e ao pensamento único da grande mídia – algumas concessões são benesses dos ditadores a apoiadores do regime.

O autor – Personagem menos conhecido e cultuado, mas tão ou mais talentoso que muitos de seus pares, o paulista Luiz Gê é arquiteto e professor universitário, entre inúmeras outras atribuições, com contribuições fundamentais à cultura brasileira ao menos nos últimos 45 anos: fundou as revistas Balão – que revelou talentos como Angeli, Laerte e os irmãos Paulo e Chico Caruso – e Circo, é autor da cultuada graphic novel Av. Paulista [1991, reedição da Companhia das Letras, 2012, 88 p.], em que conta, à sua maneira, parte da história de São Paulo, fez os projetos gráficos de Clara Crocodilo [1980] e Tubarões voadores [1984], de Arrigo Barnabé – este segundo disco são quadrinhos de Luiz Gê musicados por Arrigo –, e roteirista do matutino global TV Colosso. Como quadrinhista venceu os prêmios Casa de Las Américas, em Cuba [1981], o troféu HQ Mix, no Brasil [1991] e o prêmio Angelo Agostini de Mestre do Quadrinho Nacional, concedido pelo Senac [2005]. Ano passado presidiu o júri do Salão de Humor de Piracicaba, um dos mais importantes do país, que também o premiou, ainda na década de 1970. Na ocasião, realizou sua primeira exposição, Luiz Gê quadro a quadro, com cerca de 600 obras.

Para analfabetos políticos e cinéfilos em geral

Num clássico poema de sua lavra, o alemão Bertolt Brecht cravava: “o pior analfabeto é o analfabeto político”. Arrisco dizer, décadas depois: o pior analfabeto político é o que pede a volta da ditadura militar, tendo ou não passado pelo regime de trevas que subjugou o Brasil entre 1964 e 85.

A este tipo de analfabeto, literalmente jogando luz sobre o período, o Cine Praia Grande oferece, a partir deste domingo (27), a mostra Golpe nunca mais, fruto de parceria do cinema com a Cantaria Filmes, Petrini Filmes e Cineclub Amarcord. A partir de domingo, sempre às 18h, com entrada franca, quatro filmes sobre o citado período.

De resto, segue a programação normal da sala de cinema do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), com Malala [EUA, documentário, classificação indicativa: 10 anos, 88 minutos, direção: David Guggenheim], sessões às 15h e 16h30, e Chico – artista brasileiro [Brasil, documentário, classificação indicativa: 10 anos, 115 minutos, direção: Miguel Faria Jr.], sessões às 20h (exceto terça-feira). Os ingressos custam R$ 14,00 (meia para casos previstos em lei). Às segundas-feiras, meia para todos. Alunos de cursos do CCOCf pagam R$ 5,00.

Útil para analfabetos políticos, Golpe nunca mais é aberta a qualquer apreciador/a de cinema nacional de qualidade que queira ver ou rever os títulos da mostra, de graça.

Mostra Golpe nunca mais – Programação

Domingo, 27

Batismo de sangue [de Helvécio Ratton. Brasil, drama, 2006, 110 minutos] São Paulo, fim dos anos 60. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos, passando por terríveis torturas.

Segunda, 28

Cabra marcado para morrer. Cartaz. Reprodução
Cabra marcado para morrer. Cartaz. Reprodução

Cabra marcado para morrer [de Eduardo Coutinho. Brasil, documentário, 1984, 119 minutos. Narração: Ferreira Gullar] Início da década de 1960. Um líder camponês, João Pedro Teixeira, é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos próprios camponeses, foram interrompidas pelo golpe militar de 1964. 17 anos depois, o diretor retoma o projeto e procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus 10 filhos, espalhados pela onda de repressão que seguiu ao episódio do assassinato. O tema principal do filme passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os longos anos do regime militar.

Terça, 29

O que é isso, companheiro? Cartaz. Reprodução
O que é isso, companheiro? Capa. Reprodução

O que é isso, companheiro? [de Bruno Barreto. Brasil/EUA, drama, 1997, 110 minutos] O jornalista Fernando (Pedro Cardoso) e seu amigo César (Selton Mello) abraçam a luta armada contra a ditadura militar no final da década de 1960. Os dois se alistam num grupo guerrilheiro de esquerda. Em uma das ações do grupo militante, César é ferido e capturado pelos militares. Fernando então planeja o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick (Alan Arkin), para negociar a liberdade de César e de outros companheiros presos.

Quarta, 30

Retratos de identificação [de Anita Leandro. Brasil, documentário, 2014, 71 minutos] Na época da ditadura militar, os presos políticos eram fotografados em diferentes situações: desde investigações e prisões até em torturas, exames de corpo de delito e necropsias. Hoje, dois sobreviventes à tortura veem, pela primeira vez, as fotografias relativas às suas prisões. Antônio Roberto Espinosa, o então comandante da organização VAR-Palmares, testemunha sobre o assassinato de Chael Schreier, com quem conviveu na prisão. Já Reinaldo Guarany, do grupo tático armado ALN, relembra sua saída do país em 1971, em troca da vida do embaixador suíço Giovanni Bucher. Ele conta como foi sua vida no exílio e fala sobre o suicídio de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, com quem vivia em Berlim. Com essas revelações e testemunhos, segredos de um passado obscuro do país voltam à tona.

A ditadura militar brasileira em original abordagem ficcional

K. Capa. Reprodução
K. Capa. Reprodução

Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Bernardo Kucisnki é cientista político e jornalista, e neste último campo, autor de ao menos uma obra fundamental: Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa [Página Aberta, 1991].

Assinando simplesmente B. Kucinski, bastou um livro para que ele passasse a ser também reconhecido como “escritor” ou “autor de ficção” – o que no fundo deve servir apenas a quem organiza as obras nas estantes, em livrarias, bibliotecas ou coleções particulares.

K. – Relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014, 190 p.], primeiro romance do autor, foi finalista dos prêmios Portugal Telecom e São Paulo de Literatura em 2012.

Você vai voltar pra mim. Capa. Reprodução
Você vai voltar pra mim. Capa. Reprodução

O tema era urgente, embora o autor o tenha maturado por quase 40 anos: K. é o relato autobiográfico, embora o livro seja classificado como ficção, sobre o desaparecimento, em 1974, 10 anos após o início da ditadura militar brasileira, da irmã e do cunhado de Kucinski – Ana Rosa Kucinski e Wilson Silva –, ela química, professora da USP; ele físico, funcionário de uma empresa.

Como o assunto exigia mais, o autor não se contentou e, na sequência, lançou o volume de contos Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.] e o romance policial Alice: não mais que de repente [Rocco, 2014, 191 p.], o único que não se passa durante a ditadura, totalmente ficcional, sobre o assassinato de uma professora da USP.

Alice. Capa. Reprodução
Alice. Capa. Reprodução

Kucinski revela que os 28 contos de Você vai voltar pra mim foram selecionados de um universo de 150 – os que tinham a ditadura militar como tema/ambiente –, escritos entre 2010 e 2013. “Embora o autor não nos explique nada a respeito da veracidade, ou não, dos episódios, alguns deles são muito conhecidos das vítimas e dos estudiosos do período. Minha memória sugere que todos eles sejam, como se afirma nas legendas finais de alguns filmes, inspirados em fatos reais”, a psicanalista Maria Rita Kehl nos coloca a boa e quase óbvia pulga atrás da orelha no prefácio. O conto-título, aliás, é frase dita por um torturador a uma vítima.

Os muitos anos de jornalismo e magistério certamente ajudaram Kucinski com a forma: narrativas bem estruturadas, doses de ironia, a cumplicidade do leitor com a urgência dos personagens – o que lhes/nos espera nas linhas seguintes? – e a dúvida não incômoda: autobiografia? Invenção? Ou um mix? O conteúdo, mesmo que com pitadas de ficção, é, por vezes, fruto de seu próprio sofrimento, transformado em literatura da melhor qualidade. De um modo ou outro, ele dá uma bela contribuição à discussão sobre o direito à memória e à verdade no Brasil, um debate infelizmente tardio e por vezes enviesado e sem a profundidade necessária.

Futebol, política e rock n’ roll em debate

 

No geral, nada importa mais para o brasileiro médio que o futebol. Por causa do esporte se morre e se mata, num fanatismo inexplicável. Não à toa o tricampeonato mundial da Seleção Brasileira, no México, em 1970, com Pelé e companhia, foi usado como um reforço ao “ame-o ou deixe-o” travestido de civismo – e cinismo – da ditadura militar. Anos depois, o fim daquela década deu início ao maior movimento de contestação do regime dos generais em um clube de futebol: a Democracia Corinthiana.

O auge se deu em 1982 – quando a ditadura militar brasileira chegava à maioridade – e 83, com o Corinthians ganhando um bicampeonato paulista, com sobras de talento, futebol-arte, elegância e coesão. “Ganhar ou perder, sempre com democracia” era o slogan.

Paraense de nascimento, médico de profissão, socialista por opção, filósofo Brasileiro de batismo, Sócrates era o comandante da guinada à esquerda dentro do clube paulista, em que tudo passou a ser decidido coletivamente, reagindo a outra ditadura que ali se perpetuava, ganhando outras dimensões e conotações.

Os tempos eram outros, o rock brazuca, em seu nascedouro, ainda tinha algo a dizer, estádios não eram arenas, o futebol ainda não era apenas um esquema globalizado de jogadores com salários de cifras incontáveis, fora a publicidade, e ninguém tinha nada a ver com a vida privada dos craques.

Uma fala do apresentador Serginho Groisman sintetiza Democracia em preto e branco – futebol, política e rock n’ roll [Brasil, documentário, 90 min., direção: Pedro Asbeg], filme que resume bem essa história: estão ali os três assuntos do subtítulo, que em geral somos ensinados a não discutir – certamente por ranço da ditadura –, o último por mera questão de gosto (cada um tem o seu). Às vezes a conta era fechada com religião, outro assunto indiscutível – ouvi a advertência muitas vezes na infância e adolescência.

Narrado por Rita Lee e fartamente ilustrado pelo nascente brock e por golaços corintianos da época – torça-se ou não pelo alvinegro do Parque São Jorge, é inegável a categoria daquele elenco –, o filme traz depoimentos de músicos, jornalistas, jogadores de futebol e políticos, para contar um capítulo importante da história recente do Brasil, sob uma ótica bastante original.

*

Acontece hoje (24), às 16h, no auditório Mário Meireles (Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão), a sessão de abertura da mostra Cinema Pela Verdade, que em 2015 chega à sua quarta edição.

Após a sessão, gratuita e aberta ao público em geral, este que vos perturba participa do debate com os professores Luiz Eduardo Lopes (História/ UFMA/ Pinheiro) e Adriana Facina (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/ Museu Nacional/ UFRJ), coordenadora pedagógica do projeto.

Ditadura militar em debate no Circuito Universitário de Cinema

Hoje (29), no Colégio Universitário (Colun/UFMA), às 13h15, este que vos perturba dialoga com estudantes sobre Setenta [Brasil, documentário, 96min., direção: Emilia Silveira]. O título do documentário, que encontra e entrevista diversos deles, alude aos 70 militantes de esquerda exilados, trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Burcher, sequestrado pela resistência à ditadura militar.

A exibição integra o Circuito Universitário de Cinema, que está acontecendo em todas as capitais brasileiras e, em São Luís, tem como agente mobilizadora Nadia Biondo, estudante de Comunicação da UFMA. O circuito é realizado pela MPC & Associados e tem patrocínio da Petrobras. Suas sessões são gratuitas e abertas ao público.

Liberdade abriu suas asas para ouvir o canto de seus filhos

[Sobre Filhos da Liberdade, ato-show apresentado ontem (31/3) em memória dos 50 anos do golpe militar]

Foto: Lauro Vasconcelos/ Ascom/ Func
Foto: Lauro Vasconcelos/ Ascom/ Func

Não lembro quem disse certa vez que caso o Rio de Janeiro fosse completamente destruído por uma tragédia, seria possível reconstruí-lo a partir da audição da obra de Noel Rosa.

A afirmação ilustra a riqueza de nossa música, sempre tão pródiga em registrar nossa história, nossos grandes compositores verdadeiros cronistas do cotidiano.

Com a ditadura militar não poderia ter sido diferente. E além de tudo o que nos vem à cabeça quando ouvimos a expressão, sempre cabem também algumas canções.

O show Filhos da Liberdade, realizado ontem (31/3) em frente ao Memorial Maria Aragão, na praça homônima, com Cesar Teixeira, Flávia Bittencourt, Josias Sobrinho, Lena Machado e Rosa Reis, trouxe ao público presente um bom punhado de canções de protesto.

Uma luxuosa banda acompanhou-lhes: Fleming Bastos (bateria), Leandro (percussão), Jayr Torres (violão), Carlos Raqueth (contrabaixo) e Rui Mário (teclado e sanfona).

O espetáculo foi precedido do cerimonial de Ricarte Almeida Santos (sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão) e de depoimentos de Francisco Gonçalves (presidente da Fundação Municipal de Cultura), Dom Xavier Gilles (bispo emérito de Viana), Bira do Pindaré (deputado estadual), Eurico Fernandes (ex-secretário de Estado de Direitos Humanos do Maranhão) e deste que vos fala (presidente da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos), além de imagens do acervo de Murilo Santos, retratando o período e figuras emblemáticas de resistência à ditadura militar brasileira, como Manoel da Conceição e Maria Aragão.

O repertório na íntegra e na ordem em que foi apresentado: Disparada (Geraldo Vandré e Theo de Barros), interpretada pelo quinteto; Engenho de Flores e Três potes, ambas de Josias Sobrinho, interpretadas pelo próprio; Viola enluarada (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) e Flor do mal (Cesar Teixeira), por Flávia Bittencourt; Milhões de uns (Joãozinho Ribeiro) e A voz do povo (João do Vale e Luiz Vieira), por Lena Machado, com participação especial de Luiz Jr. (violão sete cordas); Carcará (João do Vale e José Cândido) e Gaiola (Joãozinho Ribeiro e Escrete), por Rosa Reis; Oração latina (Cesar Teixeira), cantada por todos, inclusive pelo público, de pé e marcando nas palmas; Samba pra Dedê, composta em homenagem a Maria Aragão, de Cesar Teixeira, por ele mesmo. O apoteótico final tornou a juntar a todos e todas no palco para uma sequência triunfal: Apesar de você (Chico Buarque), Vai passar (Chico Buarque e Francis Hime) e Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré).

Frase repetida por quase todos os depoentes, mestre de cerimônias e artistas, que acabou por virar slogan da noite, traduzindo a necessidade do compromisso coletivo pelo aprimoramento e fortalecimento da democracia – retroceder jamais: a luta continua!

Ato-show Filhos da Liberdade marca 50 anos do golpe militar em São Luís

O Memorial Maria Aragão, na praça homônima projetada por Oscar Niemeyer, tem forma de pássaro, um dos maiores símbolos de liberdade, pelo fato de voarem.

Hoje os homens até voam, mas precisam de imensas carcaças de metal, nem sempre seguras, nada singelas. E que não cantam, apesar dos muitos fonezinhos de ouvidos distribuídos.

Lembro que, reza a lenda, Santos Dumont teria morrido triste por ver sua invenção usada para a guerra.

Generais, com o apoio de civis, sobretudo empresários, implantaram a ditadura militar para evitar a “ditadura comunista”. Por aí, pelo começo, percebemos o quão foi ridículo este período de nossa história.

Quase 30 anos após a redemocratização permanecemos ridículos: até hoje ninguém foi punido por crimes cometidos durante a ditadura militar. Os maiores avanços da Comissão Nacional da Verdade foram o esclarecimento da morte do ex-deputado Rubens Paiva e a mudança do atestado de óbito de Vladimir Herzog, restabelecendo a verdade: o jornalista foi morto, não suicidou-se, como rezavam os documentos oficiais há até bem pouco tempo.

Não se trata de revanchismo ou rancor, mas de memória. Somente com a punição exemplar dos envolvidos nos crimes atrozes cometidos nos 21 anos da ditadura brasileira poderemos ter a certeza de que não seremos vitimados por um novo período de chumbo. Por esse lado, ainda bem que as murchas, ops, marchas da família foram pífias, ridículas, insignificantes.

Dito isto, deixo o recado e o convite: hoje (31), quando o golpe militar (que só mesmo idiotas podem chamar “revolução”) completa 50 anos, às 19h, o ato-show Filhos da Liberdade tomará o espaço do pássaro do comunista, na Praça Maria Aragão (não por acaso outra comunista), para marcar a efeméride. Não para comemorar os 50 anos do golpe, mas justamente para lembrar, para evitar que outro ocorra.

“Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”, o ato-show acontecerá mesmo com as greves que paralisam a capital. “Ninguém vai ser torturado com vontade de lutar”.

Divulgação

Jair Bolsonaro: ignorante ou ignorante?

Parece que o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) e seu partido desistiram da presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Uma boa notícia, ao menos. No vídeo, entre outras aberrações, ele diz que “Pedrinhas é a única coisa boa que tem no Maranhão”, um flagrante desrespeito com a população não apenas maranhense. Não, senhor deputado, não basta não cometer delitos para não ir parar em Pedrinhas. Ou o senhor desconhece a enorme quantidade de presos provisórios que cumprem pena maior que se tivessem tido condenação? Ou você não sabe que entre os últimos 65 mortos no sistema prisional maranhense havia inocentes? Que nesta estatística também estavam pessoas cujos delitos não chegam a ser tão hediondos quanto um assassinato, um estupro, um sequestro ou esse seu discurso típico de um general de pijamas, viúva da ditadura militar, até hoje lamentando-lhe o fim? Por que não defender o encarceramento em massa de políticos de colarinho branco que, através do desvio de recursos públicos, negam direitos e políticas públicas ao conjunto da população, contribuindo para o aumento assustador da criminalidade e da violência? Espero que depois de desistir da CDH o deputado seja obrigado a desistir, nas urnas, de sua vaga na Câmara dos Deputados.

Na minha infância eu costumava ouvir a palavra “ignorante” com dois significados: o dicionarizado, de quem ignora, não sabe, não conhece; e outro, usado para pessoas grosseiras. Quero saber em que categoria o deputado Jair Bolsonaro se enquadra. No fundo, na dos ignorantes que gostam de ser grotescos e repulsivos, folclóricos da pior maneira possível.

Mais justiça, mais segurança, mais direitos humanos, menos Felicianos, menos Bolsonaros!

[Com alguns acréscimos e revisão, outra nota que trago acá do facebook; a rede social não tem, por exemplo, um sistema de busca decente, e além do mais eu sou um homem de vícios antigos]

O campo de Pedrinhas e o Brasil

FLÁVIO SOARES*

“Relembrai vossa origem, vossa essência;/vós não fostes
criados para bicho,/e sim para o  valor e a experiência”
(Dante em P. Levi, É isto um homem?)

Para Ana Clara (in memoriam)

CAMPO DE PEDRINHAS

Passagem de 2013 para 2014, ainda em meio às festas do Natal e Ano Novo, clima carnavalesco chegando, expectativas da Copa do Mundo, nova onda de protestos e eleições de outubro, e eis que o “espetáculo do suplício” maranhense ganha nova projeção no país dos “Amarildos”. Aparece como relâmpago a iluminar, por instantes, o coração das trevas desse país, na forma dos horrores da Penitenciária de Pedrinhas, localizada na periferia de São Luís. Guerra civil em estado puro, banal, sem mediações.

Corpos “picadinhos”, perfurados a balas, facas, facões e canivetes, segundo a lógica da revolta, do ódio, do crack; cabeças degoladas, exibidas como troféus ou bolas de futebol; esqueletos de ônibus queimados; homem, mulheres e crianças em chamas; tiros em delegacias e policiais morrendo e matando adoidado; denúncia do estupro de mulheres por presos em “visitas íntimas” coletivas; cidade com mais de milhão de habitantes tomada pelo medo; imagens do horror na mídia em transe; divulgação de gravação dos papos de guerra via celulares entre membros do “Bonde dos 40” e do “Primeiro Comando do Maranhão” (PCM), antiga facção dos “baixadeiros”, inspirada no PCC-SP e CV-RJ; estado de emergência decretado no sistema prisional (de fato, em toda a região metropolitana), entregue ao domínio “pacificador” da PM e da Força Nacional, num estado onde, como disse certa vez um ex-secretário da segurança, “tudo é possível”; planos e planos emergenciais; denegação sobre denegação de um governo radicalmente alienado, simulando Roseana “no país das maravilhas” para uma população prisioneira da impotência, assombrada e indignada.

Mesmo difícil, vale distinguir as razões da explosão midiática daquelas da implosão de Pedrinhas em si. Há dez anos, pelo menos, denúncias são feitas por órgãos como SMDH, MP-MA e OAB-MA. Várias rebeliões, com mortes e decapitações, ocorridas antes, foram noticiadas pela imprensa. Exemplos: presídio São Luís-Pedrinhas, com 18 mortes (3 decapitações), novembro de 2010; Delegacia Regional de Pinheiro, Baixada maranhense, com 6 mortes (4 decapitações), fevereiro de 2011; CADET-Pedrinhas, com 9 mortos e dezenas de feridos, outubro de 2013. No entanto, sem força para criar abalos maiores.

Claro que é imoral expor ou esconder as barbaridades do Maranhão apenas por razões eleitorais, embora isto seja um dado real da briga pelo poder entre bandos partidários. Mas, sem dúvida, o modo como o Maranhão oficialmente se olha e quer ser visto foi posto em questão, como nunca antes, quando da divulgação mundo a fora dos vídeos das decapitações (feita pelos presos na rebelião de 17 de dezembro de 2013), imediatamente considerada pelo Governo do Estado “ato criminoso” (a divulgação, é claro), invertendo a situação; e, em seguida, das imagens dos ônibus incendiados (3/1/2014) e, dias depois, a morte de Ana Clara, em cujo enterro se fez presente o senador João Alberto, linha de frente da oligarquia Sarney, ex-governador (abril de 1990 a março de 1991) famoso pela “Operação Tigre” e alcunha de “Carcará”. Sobre as cenas da decapitação, o argentino Juan Ernesto Méndez, relator membro do Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU, observou: “Já vi cenas de morte entre presos… mas é a primeira vez que eu vejo decapitação… Depois que vi essas terríveis imagens em Pedrinhas, pedi à minha equipe de Genebra que analise o assunto” (Folha de S. Paulo, 12/1/2014).

Não foi, portanto, o simulacro da cultura, da cidade “patrimônio da humanidade”, dos Lençóis maranhenses, mas a brutalidade dos vídeos expondo presos decapitados, “videodrome” produzido em celular pelos próprios, que catapultou o Maranhão da Oligarquia Sarney e suas prisões e, por tabela, sua tragédia social, numa escala inédita. Primeiro sucesso maranhense mundial. Com certeza um marco que assinala a entrada do Maranhão no século XXI. Não é só uma questão de espetáculo, de exploração mercadológica e contemplação passiva da própria desgraça. Estratégia fatal, a violência em si dos presos atingiu um extremo praticamente impossível de ser batido, de ser trocado na mesma moeda, pela violência do poder oligárquico. A não ser que este fosse capaz de degolar a si mesmo. Eis aí, quem sabe, a “grandeza” desse ato pérfido numa terra em que, já dizia João Lisboa no século XIX, “miséria” e “mal” (dos opressores) não sofriam compensações do “bem”.

De toda maneira, numa região onde a violência da colonização e do império deixou traumas arraigados, e onde elite e povo tendem a decidir o que é bom e ruim quase sempre pelo espelho de fora, o giro neste espelho – agora não mais da barbárie em civilização, mas da civilização em barbárie, expondo o Maranhão atroz e mentiroso  criticado pelo autor acima –, produzido pelo bombardeio das notícias e vídeos do terror local na imprensa nacional e do Mundo, feriu a imagem oficial esquizofrênica do “povo cordato” cujo monstro da violência, vindo não se sabe de onde, um governo-protetor se encarregaria em manter preso nos labirintos das Pedrinhas. Seu lugar merecido e justo.

Resta saber se tais deslocamentos levarão à consciência das classes populares quanto às causas materiais, políticas e sociais da violência que lhes atinge em primeiro lugar, potencializando sua capacidade de indignação, ou ao reforço das velhas expectativas messiânicas e, em especial, a ânsia por novas formas de controle (tipo Sistema BI paranaense, coleira eletrônica, novo “modelo de gestão” e coisas do tipo.).

Embora Pedrinhas seja um dos principais presídios do Brasil, seu universo carcerário é relativamente minúsculo. Representa 1%, ou menos que isso, da crescente população carcerária do país (de mais de 500 mil). Em números absolutos, fontes do TJ-MA indicam, até 12/12/2013, um total de 5.466 presos em todo o estado, dos quais 1.555 cumprem penas em delegacias. Déficit de 2.562 vagas. Segundo o Banco Nacional de Mandatos de Prisão do CNJ existem ainda 5.539 mandatos por cumprir. Pergunta-se: como é possível a um Governo de Estado cuja população atinge quase 6.800.000 habitantes (nas estimativas recentes do IBGE), e cujo pacto com o poder federal é cantado e decantado, “fracassar” de modo tão grotesco na guarda de 5.466 presos?

É comum se dizer que as condições extremas em Pedrinhas, absolutamente desumanas, decorrem de um sem número de fatores, tais como: concentração e superpopulação de presos do interior e da capital num só lugar, com celas totalmente inadequadas, cheias de “gambiarras”, insalubridade; falta de recursos humanos e materiais; corrupção, inexistência da fiscalização e mistura indiscriminada dos presos, fora da Lei de Execuções Penais; presos ilegais; facções e rebeliões; denúncia de abusos, tortura, espancamento e morte, cometidos pelo chamado “Serviço Velado da Polícia Militar”; paralisação na Delegacia da Estiva da maioria dos inquéritos das mais de 300 mortes nos últimos 10 anos; crimes no interior das prisões denunciados e não investigados; assassinato de denunciantes; crimes com erros periciais básicos; desaparecimento de presos, etc.

São práticas e situações de governo deliberadas, sistemáticas e sabidas, ligadas, por um lado, a uma ideia particular de justiça, para não dizer fascista, bastante comum na Colônia penal maranhense, segundo a qual presos devem pagar pecados no inferno carcerário. Nem lugar de passagem para cumprimento da pena, nem de reclusão, a prisão é o próprio espaço da pena de morte. Oficina do diabo, sem dúvida. Crença de que bandido não pode ter “privilégios” e o sistema carcerário é a “última das prioridades”. O imaginário dominante é marcado pelo ódio arraigado aos “direitos humanos”. A ideia é de que “monstros” devem ser punidos como “monstros”.

Trata-se, sem dúvida, de assumido preconceito social e racial oriundo das camadas senhoriais, mas aceito como natural por extensa parte da população. Incapacidade crônica do miserável em perceber as causas históricas, sociais e políticas da violência num contexto em que elas berram. Basta observar, para verificar essa aceitação, que, dentro do Campo de Pedrinhas (alguma dúvida de que é um tipo de Campo?), o berço étnico-social comum não é apagado pelas diferenças das posições e funções – se presos, agentes penitenciários, monitores, inspetores ou policiais. São quase sempre negros esfolando negros a serviço de brancos ou quase-brancos, situados a quilômetros e quilômetros de distância, em bairros, edifícios e condomínios nobres à beira do Atlântico.

De outro lado, o quadro atual do “abandono” liga-se a uma situação não menos decisiva de “descontrole”, caracterizada pelas disputas no interior das polícias, especialmente entre alto comando da Polícia Militar e Secretário de Segurança; Secretário do presídio e agentes penitenciários (a divulgação do vídeo falso da perna dissecada não veio daí?); gangues contra gangues. Como se a lógica do “monstro” se reproduzisse para todos os lados. O caos instalado favorece o “domínio das facções” e suas guerras cruéis envolvendo controle das prisões, comércio das drogas em franca expansão na Ilha e no Continente; disputas entre presos da Capital e do Interior (os “cara da baixada”); abuso sexual das mulheres (negado por alguns presos). A desordem instalada resulta num ambiente inevitável de delinquência, propício aos conluios entre bandidos e agentes penitenciários corruptos e, sobretudo, à livre exploração econômica da prisão pelas facções do governo e empresas dos comparsas contratadas. Negócios e intolerâncias se retroalimentam.

A “delinquência, ilegalidade dominada, é uma agente para a ilegalidade dos grupos dominantes”, diz Foucault em Vigiar e Punir. O que se chama “fracasso” da prisão é, na verdade, êxito. Forma de produção da criminalidade com o apoio da polícia visando estabelecer, a serviço dos grupos dominantes delinquentes, o controle e a exploração social. Pedrinhas é parte de um montante de investimentos que só entre 2009 e 2013 movimentou 274,1 milhões do governo do estado para empresas de “familiares, amigos e correligionários” (O Globo, 12/1/2014, “Roseana Sarney já gastou 274 milhões…”). Não dá para dissociar a conversão das prisões em negócios rendosos de compadres, a cada volta no parafuso do nosso estado de emergência, da atual configuração do capitalismo: novo regime da crueldade baseado precisamente na militarização da vida social e administração da miséria absoluta.

AMNÉSIA E NEGAÇÃO DA CRUELDADE

Mas a contribuição de Pedrinhas para a sucessão de horrores que vem causando fascínio e repulsa no mundo é fruto de um “princípio do mal” ainda mais horroroso, estrutural, sem a qual não funciona a máquina social e histórica perversa e fantasmagórica chamada “Maranhão”. Uma espécie de “Louisiana” do Norte, com a qual, no entanto, o atual Brasil “civilizado, moderno e industrializado” convive há séculos sem espanto algum. Na verdade desde que o Maranhão era a antiga Província do Norte do Império. Ou terá sido apenas acaso que a nova “Guantánamo” noticiada do país, esteja encravada, desde o finalzinho de 1965, na capital de um dos estados do nordeste, onde nervos, cabeças e ossos estão literalmente entre os mais expostos da fratura social brasileira do Planeta?

Violência social e histórica, a crueldade que caracteriza o mundo infeliz dos cárceres maranhenses não é, de modo algum, produzida exclusivamente dentro dele; não é, no fundo, diferente daquela que distingue a relação do governo com o mesmo povo negro, mestiço e pobre nas escolas, hospitais, transportes, saneamento, moradia e mundo do trabalho. Todos os dias, matérias e matérias são divulgadas na imprensa sobre cada um destes setores e a situação quase sempre é de completo desprezo e falta de humanidade. Ou será que a “superlotação” das prisões é tão diferente assim da dos ônibus, hospitais e moradias usadas pelos trabalhadores? Vistos como indignos de viver, são explorados como se pertencentes ao mundo dos “animais” ou das coisas, cujo único modo possível de tratamento, além do religioso (isto é, busca da salvação da alma), é a aplicação da lei social da indiferença e crueldade. A “taca” de “deixar nós moído”, nas palavras de um “monstro” ao radialista Silvan Alves.

O Maranhão das Pedrinhas, sobretudo, é o mesmo Maranhão miserável dos massacres, assassinatos, genocídios de camponeses, índios, quilombolas; o mesmo Maranhão 66 de Glauber Rocha, filme que teima obsessivamente em não acabar, eterno retorno do inferno, para o qual Pedrinhas, nascida já como depósito de detentos, não passou despercebida; mas também o Maranhão da extinção indígena, denunciada em Serra da Desordem (filme inquietante de Andréa Tonacci), pela invasão de fazendas, madeireiras, exploração de minério; o Maranhão da alta bandidagem de Grupos políticos e estrutura oligárquica, de Flávio Reis; o Maranhão da província escravista de O Mulato (lançado em 1881, em São Luís), de Aluísio Azevedo; o Maranhão da barbárie e do simulacro de João Lisboa, enfim, em que a oligarquia Sarney funda, pelo monopólio, exploração e depredação mafiosa das verbas públicas, o seu domínio de quase meio século, e faz de tudo para ocultar e dissimular de todos, até do mundo, pela estratégia de mudar a mentira em verdade e a verdade em mentira, conforme as circunstâncias e conveniências de quem age como se fosse um poder divino, criador da luz a partir do nada (não é esse o discurso do “Maranhão Novo”?), dono do destino, da vida e da morte dos seus súditos.

A reação do governo diante do horror do Campo de Pedrinhas é sintoma explícito da gravidade da sua esquizofrenia moral e social: “rede de boatos”; “mal que vem para o bem”; “fruto da ação do governo”; “o estado está mais rico”; “cresce e melhora”; “o Maranhão de verdade”; “campanha política contra o Maranhão”; “não existe oligarquia”; “licitações” para compra de lagostas e caviar; “Eu amo o Maranhão, aqui é bom demais”; “sou pacifista”; “falta de fundamentação”; e até a conspiração da oposição com a imprensa internacional. Nem a junção da mais fina ironia de Machado de Assis com o espírito mais anárquico de Rogério Sganzerla daria conta em narrar e filmar todo o jogo de negação, deformação e recalque sarneista da memória da crueldade do Maranhão e em especial da sua própria barbárie.

Exploração e recusa radical do outro, o sarneismo é um tipo de anomalia histórico-social, banalização do mal, que jamais poderá encarar suas origens e história. A não ser no terreno da mistificação, dos mitos, da simulação, da estetização cultural, do “inexplicável”. Como a barbárie pode encarar a si mesma? Olhar em seus olhos opacos? De todas as oligarquias do Maranhão, essa foi talvez a que, visando o domínio total, mais fez para apagar a relação dos seus súditos com o real. Grau zero da simulação. No entanto, historiadores e estudiosos, de distintas formações e colorações ideológicas, alcançaram (sabe o deus das pesquisas e arquivos locais como) denunciar e analisar as contradições do Maranhão e sua violência, sob os mais diversos aspectos, em vários momentos. Permita o leitor, ainda que de passagem, a lembrança necessária de alguns: João Lisboa, Jornal do Timon; Dunshee de Abranches, O Cativeiro; Carlota Carvalho, O Sertão; Mathias Assunção, A Guerra dos Bem-te-vis; Alfredo Wagner, A Ideologia da Decadência; Victor Asselim, Grilagem: corrupção e violência em terras do Carajás; Wagner Cabral da Costa, Sob o signo da morte: o poder oligárquico de Victorino a Sarney; Lourdes Lacroix, Jerônimo de Albuquerque Maranhão: guerra e fundação no Brasil colonial; Mundinha Araujo, Insurreição de escravos em Viana, 1867; Manuel da Conceição, Essa terra é nossa; Maristela de Paula Andrade (org.), Chacinas e Massacres no Campo; Yuri Costa, A Outra Justiça: a violência da multidão representada nos jornais, etc.

Para alguém minimamente afeito à realidade absurda do estado, as cenas de Pedrinhas evocam um filme de horrores inacreditáveis, presentes desde sua pré-história colonial. Tempos das primeiras guerras cruéis, onde cabeças indígenas eram decepadas em estranhos “folguedos bárbaros”. Horrores cuja recorrência, hoje, nem os estudiosos mais cretinos teriam coragem de negar. Em primeiro lugar, os da Balaiada, guerra matricial do Maranhão pós-colonial, desencadeada no final de 1838, por uma revolta na cadeia da vila da Manga (atual Nina Rodrigues), vale do Munim, por conta de recrutamentos arbitrários.

Horror reconhecido de cara por um autor monarquista, Gonçalves de Magalhães, com “um só fato”, mas que dizia tudo: “a um mísero ancião octogenário cortaram o ventre e nele coseram um leitão vivo, que lhe roía as entranhas; esta recordação horrível de um suplício tartáreo foi feita ante os olhos dos filhos e da esposa do desgraçado velho, e nem deixaram os frios algozes, que galhofavam, sem o ver exalar o último expiro no meio das cruéis vascas e dolorosos gritos da família, que além deste martírio foi espancada em despedida. A tanto chega a cruel fereza do coração humano!” (Memória histórica e documentada da Revolução da Província do Maranhão. São Paulo, Siciliano, 2001, p. 46). Houve quem duvidasse do exemplo, vendo exagero, por expressar preconceitos racistas de um conservador da Corte do Império. Mas, no dizer de autora mais insuspeita, Carlota Carvalho, a guerra dos Bem-te-vis foi um “espetáculo dos suplícios” traumático e alucinador (O Sertão. Ética, 2000, p. 138).

Numa entrevista recente, intitulada “Bonde errado”, dada ao jornal O Estado de S. Paulo (11/01/14), o advogado Luís Antonio Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, questionado sobre “vídeos de terror” em Pedrinhas, diz: “Num deles o preso teve o olho extraído e jogado ainda pulsando na direção de uma juíza que negociava as reivindicações; em outro abriram o tórax de um preso, tiraram o coração, deceparam seu pé e o colocaram dentro da cavidade. Entrar num presídio logo após uma rebelião é encontrar vísceras.” Na mesma entrevista, informa que presos dizem que a prática adotada pelas facções do presídio, de cortar cabeças de pessoas vivas como modo de impor respeito, foi inaugurada por um índio guajajara (Barra do Corda), tal o grau de revolta com as humilhações sofridas ali.

A visibilidade dos aspectos sinistros do sarneismo tem suas chances aumentadas, no entanto, na medida em que o país se ajusta com sucesso ao controle total do capital. Será mera coincidência que o instante em que o relâmpago de Pedrinhas ilumina o Brasil como “Grande Maranhão”, é o mesmo em que ele é atravessado pela lógica desastrosa do mercado mundial? Sem querer dizer que este sinal de alarme esteja sendo ouvido, é como se a “hora maranhense” do país se aproximasse a cada volta dada no ponteiro do relógio da normalização da exceção, da militarização da vida social e da administração da miséria extrema.

Na feição desmedida do Maranhão, a monstruosidade social brasileira atual é expressão, sem dúvida, do pacto republicano pra lá de diabólico do sarneismo com o governo FHC, intensificado com o Lulismo. Criatura genuína de uma ditadura que alçou a barbárie brasileira a patamares inéditos, essa oligarquia acompanhou e foi protagonista do colapso da modernização nacional-desenvolvimentista e da extinção da política no país. Ajustada às novas Administrações emergenciais do PSDB e depois PT, configura-se como um tipo bem sucedido de poder que ampliou as diferenças de classes, estrangulando suas lutas através da guerra civil molecular. Dirigido por um poder senhorial endinheirado, sua violência maior, com a conivência de sempre do poder nacional, foi transformar o estado num deserto de miseráveis físicos, intelectuais, morais e políticos. Como esperar iniciativa de mudança de um povo que não tem sequer saúde para se manter em pé?

Para os sobreviventes, resta o sentimento indefinível do acúmulo de problemas praticamente insolúveis. Não por acaso, nas últimas décadas, muitos têm fugido (quando não são traficados) em busca desesperada de saídas ou abrigos nos estados do Norte, Centro-Oeste, Sudeste, na expectativa ilusória de uma exploração mais civilizada. Outros seguem ralando e resistindo na província, do jeito que podem, no meio do nada. Será tão difícil assim compreender que o Maranhão, sem deixar de ser questão político-social, é também um problema humanitário?

SINAL DE ALERTA MARANHENSE

Nessas horas, ante a constelação de impasses insolúveis dentro da estrutura social-oligárquica de poder vigente, ou de qualquer pacote de medidas emergenciais vindas do governo federal, recoloca-se um enigma de dois séculos de idade, pelo menos, e que sintetiza vários outros. Afinal, o que é o Maranhão?

Preconceitos não deixam de ressoar no trato da pergunta. E o preconceito, como se sabe, não é só questão da ignorância dos fatos, como da forma de narrá-los. Quem estuda o Maranhão com sensibilidade crítica, e não só o do governo de ontem ou da “era Sarney”, sabe da cegueira singular gestada no coração sombrio das suas classes senhoriais. Mas quem, por exemplo, já passou pelo sudeste aprende logo que, desde muito tempo, o Maranhão não é apenas questão de geografia, simples ponto no extremo norte do país, mas símbolo do “atraso brasileiro” na sua forma igualmente extrema.  Nunca entenderam (desconhecemos exceções) a modernidade radical desse atraso.

Uma coisa é certa: é imenso equívoco falar do Maranhão como se fosse caso isolado, “feudo” distante, exótico lugar de “banquetes totêmicos”, originalidade das originalidades, tanto quanto como se fosse mais uma variação da situação nacional. Afirmação essa rapidamente explorada pela oligarquia para assegurar cinicamente sua “irresponsabilidade” criminosa e considerar injusto o que se diz sobre o Maranhão, e ainda posar como defensora “revoltada” da auto-estima de um povo que na prática destruiu e corrompeu. Contra o crescimento da vergonha, insegurança e desânimo popular, denegar sempre, até o fim: “não, o Maranhão não é isso; o maranhense é ordeiro”; o ocorrido foi coisa de “alguns celerados”; aqui “nunca teve uma tradição de violência”. A culpa é das “drogas”. Não é daqui…

É preciso indagar, sem ilusões, sobre a situação do estado e suas conexões obscuras com o país (a concordância dos últimos governos federais com o horror maranhense prova isto), mas evitando deduzir tal situação simplesmente a partir de uma abstração “nacional” ou do que se sabe sobre determinadas localidades e regiões (São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo), como fizeram diversos comentaristas e nossa oligarquia de cada dia. Diferença de grau? Pode ser. Mas diferença decisiva. Neste momento em que determinadas regiões do país parecem dar sinais de vitalidade social (indicado nos protestos de 2013), mas em que a exceção maranhense tende a tornar-se regra nacional, importa, no entanto, compreender a “dialética” de que se o Brasil é e sempre foi país de oligarquias, da desigualdade social e do encarceramento de pessoas das classes populares, nem todas as oligarquias, desigualdades ou formas de encarceramento são como as maranhenses (ou são?). Não é problema de quantidade, volume ou primazia, seja lá no que for, mas intensidade e duração. Qualidade das coisas.

Nas últimas décadas, abriu-se a possibilidade para recolocar a questão indicada, mas pelo avesso: a de uma “maranhensização” do Brasil a caminho. Fenômeno caracterizado pela disseminação de um coquetel improvável e atual a não poder mais de estado de exceção, formas de acumulação primitiva, combinação feliz de softwares importados e mão de obra barata e controlada, espoliação do trabalho (precisa lembrar que o estado é campeão do trabalho escravo?), agiotagem, assassinato de jornalistas corruptos e prefeitos idem, operação “boi barrica”, “operação tigre”, “Caso Matosão”, agronegócio predador, compra de eleições, força crítica e técnico-científica no chão, formas antigas de dependência cultural, desigualdade social, intolerância de todo tipo, alienação, impotência ou baixíssima capacidade de reação popular e campos de barbárie nos limites de Pedrinhas. Estamos falando de colônia, naturalmente.

A sensação é de que o clarão sobre o horror do Maranhão e seu universo carcerário (labirinto do minotauro que devorou Ariadne, ao contrário da fábula famosa) abre a possibilidade para pensar não apenas o estado em suas vísceras, mas, através destas, digamos sem receios, a genealogia do “totalitarismo” brasileiro emergente na virada do século XX para o XXI. Ao seu modo, o laboratório de Pedrinhas é isso aí. As cabeças degoladas e a vida da menina Ana Clara, que se foi nas chamas do ônibus incendiado, podem iluminar, no entanto, os caminhos do debate sobre as conexões entre ditadura e democracia, sarneismo e lulismo, norte e sudeste, pré-história e história do Brasil; produzir ângulos para perceber que o povo “capado e recapado, sangrado e ressangrado” deste estado é hoje um dos resultados mais visíveis, ou melhor, o resto, sem tirar nem pôr, do logro civilizatório do Brasil; e, sobretudo, a possibilidade de que este mesmo povo, das ruas e das prisões, abra os olhos, não para a salvação de quem nunca quis salvá-lo, “o Maranhão”, mas para a invenção da luta, das armas, invenção de si, visando superar de vez a guerra e a paz de cemitério deste programa fantasmagórico.

*Flávio Soares é professor do Departamento de História da UFMA. Texto originalmente publicado na edição de janeiro do Vias de Fato, nº. 50, já nas bancas

A alegria já vem

O diretor chileno Pablo Larraín é autor de outros dois filmes em que aborda a ditadura militar de seu país. Em No, conta a história do referendo convocado por Augusto Pinochet, diante das pressões internacionais, com que o ditador pretendia legitimar seu mandato.

Sim e não, as opções, teriam, cada uma, 15 minutos diários nos televisores da população, por onde as mentiras do regime invadiam os lares – muitos acreditavam que o referendo seria mera formalidade, que o “sim” venceria independentemente do resultado das urnas. O tiro saiu pela culatra, a história é conhecida: ainda que o resultado tenha sido apertado, o “não” a Pinochet e à ditadura por ele comandada venceu no Chile em 1988.

A história é centrada em René Saavedra (Gael García Bernal), um publicitário que em uma das primeiras cenas da película aparece tentando convencer a direção de uma empresa de refrigerantes sobre um comercial por ele produzido.

Baseado em O plebiscito, de Antonio Skármeta, em No, como na história por ele documentada, o publicitário joga com as armas do inimigo: o que Saavedra vende são sonhos e promessas, embaladas pela alegria e pelo colorido de quem sonhava com um futuro melhor – e democrático – para o país.

Merece destaque a montagem do filme: ao espectador é difícil afirmar com precisão o que foi filmado para No e o que são imagens de arquivo da época do plebiscito.

Talvez o trunfo da campanha vitoriosa tenha sido justamente não explorar a podridão do massacre perpetrado pelos militares que comandavam o Chile, as torturas, desaparecimentos e assassinatos promovidos por Pinochet e cia. Justo por que grande parte da população enxergava nos militares bons e eficientes governantes.

Qualquer semelhança com o Brasil – país-palco da mais longeva ditadura militar sul-americana – não seria mera coincidência, mas elas param por aí: enquanto o Chile não tardou a punir seus agentes da ditadura, aqui justiça e verdade ainda engatinham, a anistia geral e irrestrita ainda protege carrascos e agentes de pijama zombam da Comissão Nacional da Verdade.

No é um filme inspirador. Didático sem ser chato, aborda um período difícil da história recente, sem recorrer tão somente ao seu lado mais trágico e cruel. No fundo, sua principal mensagem é a da esperança: tomei o título emprestado de um jingle da campanha vitoriosa.

Serviço: No está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Sessões: 16h, 18h e 20h. Ingressos: R$ 12,00.

Quem disse que carnaval não tem nada a ver com direitos humanos?

IV Baile do Parangolé festeja 34 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH). A festa, gratuita, acontece sábado (9), no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga)

Fundada em 12 de fevereiro de 1979, em meio às lutas contra a ditadura militar então vigente no país e pela anistia, a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) completa 34 anos na próxima terça-feira de carnaval.

Uma coincidência que não se encerra no calendário. O carnaval é, por excelência, a festa da fantasia. Temporada de puro êxtase em que as pessoas se desligam do mundo real, se esquecem dos problemas cotidianos e caem na folia, “pra tudo se acabar na quarta-feira”, como determinaria o poeta.

Esta fantasia já foi cantada em verso e prosa e poupo os poucos mas fieis leitores de outros exemplos. A luta por direitos humanos é constante e não conhece folga ou férias. Carnaval é cultura e cultura é direito humano fundamental, devendo assim ser entendido e garantido, sem restringir-se apenas à festa e sem dissociar-se de outros direitos.

Batizado pelo coco de Cesar Teixeira, sócio da SMDH e seu ex-assessor de comunicação, o Baile do Parangolé, hoje já cravado nos calendários cultural e carnavalesco de nossa ilha capital, tem sido um espaço/momento de celebração e reencontros entre militantes de direitos humanos, amigos e familiares. Embora nunca tenha se fechado, este ano abre-se ainda mais, já que não haverá venda de camisas e/ou cobrança de ingressos, graças ao apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e do Porto da Gabi.

O autor do Parangolé é homenageado no traço de Djalma Lúcio, que, especialmente para a ocasião, desenhou o jornalista e compositor, autor de vasto repertório carnavalesco – sambas, frevos, marchas e outros gêneros do período, algumas de suas músicas certamente comparecendo ao vesperal.

O baile terá como atrações Chico Nô e a Turma do Vandico e certamente contará com canjas de artistas militantes que se revezarão entre plateia e palco. A escolha do band leader não se dá ao acaso: é também uma forma de reconhecer seu compromisso com as lutas dos movimentos sociais maranhenses.

Isso tudo é só pra convidar vocês pra festa!