Sobras

Em fevereiro passado estreei com Suzana Santos o Radioletra, programa semanal de 15 minutos dedicado à literatura. O entrevistado inaugural foi Zeca Baleiro, que, na ocasião, desejou “bons ventos e vida longa!” à empreitada.

Mais conhecido como cantor e compositor, Zeca Baleiro tem publicados os livros A rede idiota [Reformatório], Bala na agulha – Reflexões de boteco, pastéis de memória e outras frituras [Ponto de Bala], ambos volumes de crônicas, e Quem tem medo de curupira [Companhia das Letras], peça teatral escrita quando ainda morava em São Luís. Além do box A vida é um soulvenir made in Hong Kong [Ed. UFG], precioso mimo, item de colecionador, um raro e delicado conjunto de artefatos poéticos.

Isso era o bastante para justificar a presença de Baleiro num programa de literatura. No final de janeiro, nos estúdios da Rádio Timbira AM, conversamos com ele por cerca de uma hora – depois selecionamos os trechos mais afeitos à área. Você pode ouvir o primeiro Radioletra aqui.

O programa está temporariamente fora do ar, passando por reformulações e negociações. Em breve anunciaremos novidades, aguardem. Enquanto isso, você pode ler, a seguir, as sobras completas do papo com Zeca Baleiro.

Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo
Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo

Zema Ribeiro – Quais as suas lembranças do ambiente literário e musical de sua infância?
Zeca Baleiro – Nosso pai era muito zeloso por essa coisa, a literatura era uma coisa muito presente. Ele era muito exigente com isso, que a gente lesse e tal. Eu comecei lá com 10 anos a fazer poemas infantis, verdes, imaturos, e aos 14 eu comecei a aprender violão, que já era uma presença familiar, meus irmãos já tocavam, estava sempre ali o violão, era uma coisa que eu ia lá, mexia, pegava a palheta deles, brincava um pouco. Mas aos 14 eu fui aprender de fato. Meu pai chamou um professor, um velho boêmio, da época, tocou com [o compositor Antonio] Vieira, o professor Osvaldo. Ele me deu três aulas e eu falei: “não quero mais professor”. Aí fui aprender sozinho, com os amigos. E assim que eu aprendi um pouquinho eu já quis compor. Então eu vi que não seria um músico instrumentista, que domina o instrumento. A minha intenção com aquilo era compor canções e assim se deu. A música prevaleceu como uma coisa importante, por que é meio difícil você ser músico e alguma coisa. Algumas pessoas conseguem, o cara é bancário, advogado e é músico também, mas é difícil, é uma coisa que te toma um tempo quase integral. Então eu avancei ali na música, aquela seara, aquela estrada pareceu promissora. Tempos depois que eu fui redescobrir certos desejos, certos anseios que estavam guardados, o de escrever literatura, ter uma coisa, um tipo de pensamento que às vezes não cabe na canção, que foi o que me fez escrever esses dois livros de crônicas. Tenho a ambição de escrever contos um dia. São coisas que ficaram guardadas, depois que eu, de certa maneira me coloquei no mundo da música, ganhei certa visibilidade, eu tive um pouco de calma para dar vazão a esses talentos ou inclinações, por que eu não sei se o talento existe, mas a inclinação sim [risos]. O teatro é uma paixão antiga. Eu comecei aqui em São Luís no Grupo Ganzola, do querido Lio Ribeiro, que foi muito importante pra mim. A gente tinha um grupo exclusivamente dedicado a peças infantis, a gente fez Flicts, do Ziraldo, que é um texto clássico, depois O reizinho mandão, da Ruth Rocha, e a essa altura, eu fiquei lá entre os 18 e 21 anos, eu escrevi esse texto aí [aponta o exemplar de Quem tem medo de Curupira?]. Eu tinha 21 anos quando escrevi esse texto, ele ficou guardado, datilografado, numa pasta rosa, até que em 2008, uma amiga diretora, com quem eu já tinha trabalhado lá em São Paulo, a Débora Dubois, perguntou “não tem nada pra criança?”. Eu falei: “olha, tem um texto que eu escrevi há 20 anos, mas está antigo, desatualizado”. “Tu tens ele?”. Eu não tinha nem salvo em computador, era um texto datilografado, transcrevi todo, revisão, ela falou: “ah, vamos dar uma atualizada, esse texto tem futuro”. Acabou que a gente encenou, com chancela do Teatro Sesi, lá em São Paulo, ficou seis meses, depois prorrogou, foi tão bem sucedida que prorrogou mais três meses a temporada, de graça. Muita gente viu, teve gente que viu 20 vezes. Dizia assim: “pô, se algum ator faltar, pode me chamar que eu vou”. Tem esse encantamento, essa coisa bonita e lúdica, das criaturas da mata, que é uma coisa muito vivida na infância, esse medo do saci, do curupira, da mãe d’água. Eu lembro que lá no Rio Mearim dava uma hora, todo mundo vazava, por que a mãe d’água, era a hora que ela aparecia [risos]. Então todo mundo saía voado pra casa. Eu fui espalhando meus tentáculos, eu sempre tive muita curiosidade, mas fora a música, todo o resto é experimentação. Eu não me considero um escritor, eu não me considero um dramaturgo, são experiências, felizmente deram certo, foram bem sucedidas, mas não é uma coisa que eu pretendo [se interrompe]. Meu trabalho, eu sou um compositor, se alguém perguntar minha profissão, músico, compositor, é isso que eu faço.

ZR – É assim que você preenche a ficha do hotel.
ZB – Do hotel, é [risos].

ZR – Você falou do zelo de teu pai na infância com a leitura e das aulas poucas de violão. Quais são as tuas primeiras lembranças de leitura e música que você ouviu?
ZB – Música é o rádio. Era muito presente, ficava ligado o dia inteiro na casa. Tinha o programa do Zé Branco de manhã, tinha depois ao meio dia o programa do [locutor e comentarista esportivo Herberth] Fontenele, a gente ouvia, saudoso Fontenele, de esporte, depois vinha o noticiário, à tarde tinha um programa de música nordestina, acho que era o Jairzinho que apresentava. Eu tou falando assim, não sei as estações, mas era meio assim o itinerário da rádio no dia a dia da gente. Às cinco da tarde tinha um programa que o César Roberto apresentava, que era de música jovem, já música pop. Então você passava o dia ouvindo de Luiz Gonzaga a Elton John, de Martinho da Vila a Trio Nordestino, essa informação foi muito rica, não só na minha vida. Dos meus irmãos também, inclusive os que não são artistas, é uma memória muito rica. Essa é a primeira grande informação. A outra é da rua, as brincadeiras de rua eram todas muito musicais, cantigas de roda, eu tenho um acervo na memória de mais de 100 canções, estou até querendo publicar, acho que é um legado. Minhas irmãs também lembram, toda vez que eu venho aqui eu recolho, ontem mesmo a gente estava cantando várias canções. São lindas, vêm de linhagem portuguesa, uma coisa bem lírica. A música sempre esteve presente. Depois as outras coisas, terecô, que ia dançar na praça da cidade, os terreiros de macumba, que chegavam do outro lado do rio, na Trizidela, os cânticos de igreja, procissão, tudo era permeado por música. Então eu acho que o despertar foi na infância mesmo.

ZR – E leituras?
ZB – Leituras, a leitura básica, lembro de alguns livros, O menino do dedo verde, daquele francês, Maurice Druon, muita coisa de José de Alencar, Lucíola, Diva, essa literatura básica. E aqui e ali uma coisa mais estranha. Eu lembro que tinha um livro do Mário Quintana, um livro de sonetos que eu li muito cedo. A ilha do tesouro [de Robert Louis Stevenson], esses clássicos assim. Alguma coisa de Monteiro Lobato, acho que Urupês, tinha uma pequena biblioteca e a gente passeava por ela.

Suzana Santos – Além dessas referências de infância, hoje, tanto entre os clássicos, quanto novidades, quais as referências de hoje, nomes de tua preferência?
ZB – Me perguntam nomes e eu fico numa saia justa, por que é muito difícil. No começo da carreira eu dizia Frank Zappa e Jackson do Pandeiro, pra provocar, ou Bob Dylan e Luiz Gonzaga, querendo criar um arco que descrevesse um pouco a abrangência do que eu ouvi, o que eu tinha de repertório, vocabulário musical, que ia desde essa vertente mais pop, meus pais ouviam muito samba, papai adorava Jair Rodrigues, adorava Cauby [Peixoto], Nelson Gonçalves, comprava disco, minha mãe tem uma memória, tinha uma memória incrível de músicas do repertório popular brasileiro, marchinhas de Braguinha, sambas de Wilson Batista e Geraldo Pereira, punha a gente pra dormir cantando Ismael Silva, uma informação muito rica. Eu me alimentei disso tudo. Depois tinha a própria cena local, que foi importante, quando a gente conheceu Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, e aquele disco do Papete foi um acontecimento, o Bandeira de aço fez a gente despertar um pouco para a produção local, a gente não tinha olhos e ouvidos para isso, a gente estava mais plugado, conectado com uma produção nacional. A gente descobriu, aquilo foi um pequeno alumbramento, tinha uma estranheza na produção da música do Maranhão, que eu só me dei conta completamente quando eu saí daqui para morar fora. Eu falei: “rapaz, aquilo lá é muito específico”. A gente é muito específico. Acho que o Maranhão um dia vai se separar do Brasil.

SS – Tomara!
ZR – Eu acho que já começou.
ZB – E vai fazer uma república à parte [gargalhada].

ZR – Pela primeira vez o Maranhão está na contramão do Brasil por uma coisa positiva.
ZB – É verdade. Depois de 100 anos de tenentismo.

SS –Você falou de nomes da música. E nomes da literatura? Algum nome em especial, alguma referência que seja mais marcante?
ZB – Olha, falando dessa literatura básica, infantil, infanto-juvenil, Meu pé de laranja lima [de José Mauro de Vasconcelos], essas coisas que a gente lia, que toda criança lia. Com 14 anos, eu estudava no Colégio Batista, e eu tive um professor chamado Furtado, que é um mestre mesmo, um cara incrível, e ele deu pra gente, 14 anos era primeiro ano científico na época, primeiro ano do segundo grau, e ele deu como trabalho de literatura ler Memórias póstumas de Brás Cubas, que é o livro mais ácido do Machado de Assis, e O estrangeiro, de Albert Camus. Aquilo foi uma porrada, foi um despertar, eu nunca mais fui o mesmo [risos]. Nunca mais fui o mesmo. São dois livros que permanecem como dois dos livros mais interessantes e instigantes que eu já li. Aquilo ali mudou, eu mudei de patamar na compreensão das coisas, na busca de um tipo de arte mais adulta e mais questionadora. Voltando ao  gancho do violão, quando eu entrei no mundo do instrumento eu me afastei um pouco dessa literatura em prosa e fui mergulhar mais na poesia, por que era uma coisa que me parecia mais próxima daquele universo ao qual eu queria pertencer, ainda não pertencia. Então eu fui descobrindo muito instintivamente poetas, poetas brasileiros, comecei a ler Jorge de Lima, Murilo Mendes, comecei a descobrir poesia beatnik, os grandes poetas essenciais, os franceses Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, essa coisa toda. Só depois que eu fui retomar esse gosto pela prosa, pelo romance, pelo conto. Acho que a gente deve muito, a minha geração, de maneira geral, deve muito à literatura. A canção brasileira ela foi muito influenciada pela literatura, de um modo ou de outro. Não é à toa que a canção brasileira alcançou esse status de uma quase obra literária, Chico Buarque, Luiz Melodia, Noel Rosa, esses grandes poetas todos que a gente tem.

ZR – Tua obra passa também por musicar poemas de poetas como e. e. cummings, Paulo Leminski, Fernando Abreu, Celso Borges. Vou fazer uma pergunta de estagiário.
ZB – Faça!

ZR – Letra de música é poesia?
ZB – Rapaz, essa é uma discussão antiga, até no meu primeiro livro eu abordo isso, mas não chego a nenhuma conclusão. Eu acho que é. São dois tipos de linguagem diferentes, a poesia literária tem outro ritmo, outra respiração, ela não é escrava da rima, pelo menos a poesia moderna, não é escrava do ritmo, é outro tipo de pulsação. E na canção, eu vi uma vez acho que o Edu Lobo falando, eu não concordo, contesto, mas é interessante a reflexão dele, que disse que qualquer texto é musicável. Eu não acho, não. Mas é bacana isso, você se desafiar, pegar um texto qualquer, antimusical às vezes, sem uma sonoridade, um ritmo evidente e se dispor. Eu tive essa experiência, por exemplo, quando eu musiquei os poemas da Hilda Hilst para fazer aquele disco, Ode descontínua e remota [para flauta e oboé: de Ariana para Dionísio, 2006], não tinha uma métrica, não tinha um ritmo, não tinha uma cadência, nem rimas muito óbvias. Não eram canção. Mas não era também um texto super livre, tinha uma fluência qualquer que eu tentei descobrir. Foi desafiador aquilo lá. Mas eu acho que é poesia sim. Por isso que talvez, no caso da canção brasileira, que é muito alto esse grau de lirismo, é muito rico, não deve nada a ninguém. Chico Buarque é tão grande quanto Drummond e Sérgio Sampaio é tão grande quanto João Cabral de Melo Neto, só que são de territórios distintos. A canção tem uns apelos, facilidades, a própria emoção é passada com mais facilidade, tem o encantamento, o apelo da dança, do ritmo, de fazer dançar.

ZR – Chega a um público maior.
ZB – É mais acessível.

ZR – Leminski com a coisa da música foi o maior best seller de poesia no Brasil até hoje.
ZB – Exatamente.

ZR – Por conta de gravações de Caetano Veloso, A Cor do Som, Moraes Moreira, enfim.
ZB – E vários poetas que migraram pra canção. Salgado Maranhão, nosso conterrâneo, Fausto Nilo, meu parceiro, Geraldo Carneiro, grandes poetas, Cacaso, um poetaço, foram migrando pra canção, por que sentiram, pô, esse mundo é bacana, a comunicação é mais direta. A música é onipresente. Você está em qualquer lugar e pode ouvir, no aeroporto, num táxi, num ônibus, num trem. A literatura é outro tipo de público, de impulso, você precisa de certo silêncio, de recolhimento. A música é mais mundana nesse sentido. Mas é maravilhosa a combinação. Uma vez eu ouvi o Wado, num programa que eu fiz do Baile do Baleiro, para o Canal Brasil, o Wado que é um parceiro querido, um compositor que eu adoro, ele falou: “imagina se um alienígena vem aqui e descobre que a gente se comunica através de uma coisa chamada canção”, por que é uma coisa muito subversiva, pode ser muito transgressora, pode ser muito transformadora, você ouvir aquilo ali, aquela combinação de melodia, ritmo e poesia, o poder que aquilo tem. Às vezes a gente acha, mesmo a gente que faz, que chegou a um certo limite, parece que se esgotou. O próprio Chico Buarque há um tempo falou no fim da canção, eu acho que ele quis falar outra coisa, as pessoas achavam que era um fim derradeiro, um fim terminal, acho que ele quis falar numa transformação de linguagem, de era, de sensibilidade. Mas ela não acaba, você vê aí cada vez mais forte. Hoje eu já estou com 52 anos, já tenho 21 anos de carreira, eu vejo agora pessoas, antigamente eram jovens, de 19, 20 anos, agora é gente de 35, 1,80 metro, chega assim: “pô, bicho, te ouço desde a infância”.

ZR – É estranho?
ZB – Gente casada, com filho, “você embalou nosso namoro”. Hoje mesmo encontrei um cara na padaria. É estranho. Mas é bom [risos].

ZR – Eu te ouço desde a adolescência [risos].
ZB – Eu já ouvi, “pô, Stephen Fry [título da música; abrevia o título do disco, Por onde andará Stephen Fry?, de 1997] é o disco da minha infância”. Realmente, faz 21 anos, se o cara tinha 10 anos, hoje ele tem 31. Faz parte, é história. Imagino que outros compositores ouvem coisas parecidas. É estranho por causa dessa consciência do tempo passando, mas também é muito, vou usar uma palavra que é chata, mas não tem outra, é muito gratificante, é muito recompensador você ouvir. Às vezes tem uns depoimentos emocionados, gente que se curou de depressão, de doença, parou num câncer e ficou ouvindo um disco meu. Uma vez um garoto em Natal, um garoto cinematográfico, aquela cara de desadaptado, umas espinhas no rosto, uma coisa deprimida, assim meio Renato Russo, ele chegou, ficou hesitante, se aproximou e falou: “eu só queria dizer uma coisa”. Eu: “diga”. “Aquele disco, Pet shop mundo cão, salvou a minha vida”. Eu falei: “tá tudo certo, não precisa dizer mais nada”. Não foi feito com essa intenção, mas a música tem várias serventias, ela se presta a tudo. Tem gente que se suicida ouvindo música, tem um caso clássico…

ZR – O Ian Curtis
ZB – É, o Ian Curtis, tem um cara que se matou com a música Fracasso, do Fagner, tem o Judas Priest, lá, Beyond the Realms of Death, o cara se matou ouvindo. Serve pra tudo, serve pra morrer, serve pra viver, serve pra se encantar. Música ainda tem um poder muito grande.

ZR – Quando eu nasci estava tocando Aparências, com Márcio Greyck, no radinho de pilha das enfermeiras.
ZB – É mesmo? Porra! Que é música de um compositor maranhense, o Cury.

ZR – Essa coisa de ouvir desde a infância. Você tem um leque muito amplo de parceiros, que vai de Wado, que você já citou, Kléber Albuquerque, Lúcia Santos, e acabou se tornando parceiro de Fagner, que é um cara que você deve ter ouvido desde a infância. Como é que se dão essas parcerias, como é lidar com tanta gente diferente? Talvez hoje você faça música recebendo letra por whatsapp.
ZB – Sim, bastante. É meio inusitado, por que às vezes é difícil de acreditar que aquele cara, que eu também ouvia com 10 anos [risos].

SS – Os papéis invertidos.
ZB – Os papéis invertidos. Eu lembro que quando eu ouvi a primeira música que tocou no rádio lá em São Paulo do nosso disco, Palavras e silêncios, tocava no rádio do carro, eu levando as crianças na escola, eu parava o carro e ficava: “puta que pariu!”. A minha voz e a voz do Fagner na mesma canção, uma música que a gente fez. Aquilo era muito estranho, diferente, fui fã do cara e agora a gente está aqui lado a lado, eu ficava meio deslumbrado com aquela sensação. Aconteceu que eu acabei me tornando parceiro de muita gente que eu admirava. Frejat, o disco novo tem outra parceria nossa [Te amei ali]. Chico César, que é contemporâneo, é diferente a relação mas eu também sou fã do cara, tenho uma relação de fã-ídolo, além de amigo. Zé Ramalho, com quem já compus. Muita gente. Eu sou muito promíscuo, tenho mais de 100 parceiros. Eu até tava tentando listar outro dia, é muita gente, não é só gente conhecida, é gente também que às vezes está num estágio de carreira diferente, mais inicial, mas eu tenho muitas parcerias bacanas. E tem essa coisa de alcançar um cara que estava em outra. O próprio Márcio Greyck, tenho duas canções lindas com ele, eu não sei tocar, perdi um pouco o contato com ele, mas preciso recuperar. E também essa coisa de poder se movimentar em vários territórios. Gravei agora recentemente no disco do Fernando Mendes, um artista que eu adoro, acho um puta compositor, um puta cronista suburbano. E ao mesmo tempo eu ambiciono, sei lá, fazer música com o Erasmo Carlos, se houver possibilidade de um dia abordá-lo, vou querer fazer [risos]. Então poder transitar, o universo da música brasileira é muito abrangente, da música popular de maneira geral. Às vezes a gente se perde em pequenezas de pertencer a uma tribo. Eu nunca tive isso de antemão. Eu sou colocado em prateleiras específicas, às vezes mpb, às vezes pop rock, às vezes alternativo, por que hoje a música dita mpb virou marginal. O mainstream é Wesley Safadão, é Thiaguinho, é Mano Walter, e a música brasileira virou meio marginal, voltou a ser marginal, voltou à origem, de certa maneira. Eu gosto de estar nesse lugar. Mas me relaciono com pessoas do rock, do brega, do samba, eu tou preparando um disco de sambas, com produção de Swami Jr., faz cinco anos que a gente produz, eu vou finalizar agora. Poder transitar, isso pra mim é fundamental, não ficar acomodado num certo nicho, num certo rótulo.

ZR – Acho que foi isso que acabou te levando…
ZB – A essas parcerias. Sem dúvida.

SS – Isso de estar nas prateleiras. Hoje você não lança mais discos físicos, só streaming. Isso é um caminho sem volta? Vai lançar de novo discos físicos?
ZB – Eu estou agora gravando esse disco, se chama O amor no caos, que a gente fez um caminho inverso, fizemos uma temporada de cinco shows, BH, São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre, testamos o repertório ao vivo e agora a gente está em estúdio. Quero lançar em março, eu vou fazer vinil, cd, uma tiragem pequena, por que realmente hoje vende pouco, e jogar nas plataformas, é um caminho inevitável. Essa coisa que envolve tecnologia é sempre um caminho sem volta, o avanço tecnológico vai ser cada vez maior. Eu não sou muito nostálgico no sentido de “ah, como era bom no tempo”… Eu adoro vinil, por exemplo, mas eu sei que é impossível hoje que as pessoas tenham disponibilidade de ouvir um vinil, de virar o lado, isso é para quem quer fazer um ritual, como de vez em quando eu faço na minha casa, boto pras crianças ouvirem coisas que eles nunca ouviram, mas é fantástico essa ferramenta, eu fui um pouco resistente, eu estou há um ano e sou viciado no spotify, por que descobri que é um dos melhores lugares, talvez depois do youtube, pra fazer pesquisa, pra ouvir coisa que você não ouve. Outro dia eu fiquei ouvindo a discografia do Chico Anysio e do Arnauld Rodrigues, que eu adoro, inclusive as masters são bem ruins, o som é bem ruim, mas tá tudo lá. Coisas incríveis, um repertório perdido, meio esquecido, mas que é fantástico.

SS – E não estraga, o físico às vezes vai deteriorando com o tempo. E lá fica para a posteridade.
ZB – Para a eternidade. Deteriora mas eu gosto de ter o objeto [risos]. Sou meio fetichista. Eu acho que tem um público aí entre 30 e 40 anos que reclama. Eu sou mais velho mas estou na fila.

ZR – O spotify não te dá informação de quem compôs, quem toca.
ZB – Agora já tem o intérprete, já tem um espaço lá que você põe, mas ainda é falho nesse sentido. Um vinil, por exemplo, apalpar aquilo, ler as letras com gosto, é muito bacana. Acho que tem que conciliar as mídias todas que estão disponíveis. O k7 tá tendo uma volta, que eu acho que é uma coisa de moda, por que é um som ruim, diferente do vinil que é um som bom, tem grave, é cheio, o k7 é mais uma modinha, o pessoal da eletrônica está fazendo muita master em k7, no Canadá, e tal. Eu acho que tem que jogar com todas as ferramentas. Em termos profissionais, financeiros, as plataformas são um terror para o autor. A arrecadação ainda é muito precária, o que se ganha é migalha perto do que se ganhava com a venda de cd físico ou do lp. Mas a praticidade, eu fiz esses dois singles, terminei hoje, duas semanas depois estava na plataforma, sem aquela espera da fabricação do cd, tem uma agilidade também pro artista, principalmente para quem está começando, é muito bacana, é maravilhoso você poder produzir hoje e daqui a uma semana estar na plataforma.

SS – Falando em rentabilidade ainda é maior a receita do disco físico?
ZB – Sim. Comparativamente sim. Mas como expansão, como forma de propagação, as plataformas são maravilhosas.

ZR – Quando a gente pensa no Quem tem medo de curupira?, no Zoró e no Zureta, que são trabalhos feitos para crianças, embora adultos também se interessem, gostem, ouçam, leiam. Tem alguma diferença entre quando você vai criar para criança e para adulto? Algum cuidado?
ZB – Eu acho que tem um despojamento que toma você quando você está criando para criança. Tem que ser mais direto, criança é um público muito honesto, não tem duas conversas, é gostei, não gostei, é feio, é bonito, então você tem que ser muito habilidoso nessa hora. Acho que eu ganhei uma certa cancha fazendo música para teatro aqui no Maranhão. Depois que eu fui para São Paulo também fiz umas trilhas para teatro, infantil, sempre. Quando meus filhos nasceram, há 20 anos, eu tive muita matéria prima. Todo dia um insight. Lembro uma vez viajando com meu filho no avião, ele olhou, bem pequeno, e disse: “pai, olha lá! É uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele disse de uma forma poética à maneira dele. Cada vez que falava uma coisinha eu ia pro violão. Compus mais de 60 canções. Desovei algumas nesses dois volumes, Zoró e Zureta, e tenho material para mais um disco.

ZR – José Antonio, meu filho, tem três anos, e adora teus videoclipes.
ZB – São bonitinhos, né? A maioria ali é feita pelo Marcos Faria, que é um animador de mão cheia.

SS – Isso de produzir muita coisa, de produzir em forma de música, em forma de poesia. Tem algum fator determinante, o livro de crônicas, essas composições, o que vira disco e o que vira livro?
ZR – O que vai pro livro ou pro disco e o que fica no cofo em casa.
ZB – Eu não sei explicar muito bem por que esse critério é muito subjetivo. Por exemplo, esse livro aí não seria livro. Ele foi uma peça, mas aí teve uma coleção da Companhia das Letrinhas, a curadora quis incluir o livro, me entrevistou, tem um bate-bola no final, eu achei ótimo. Eu fui recentemente visitar a escola onde estuda a filha de uma amiga e eles estavam trabalhando, todos os meninos da sala tinham um exemplar, a escola comprou. Foi muito bacana, depois a gente foi conversar, foi muito rico. Eu tenho feito visitas a escolas, tanto de periferia quanto das zonas mais abastadas de São Paulo para saber as impressões. Geralmente eu recebo convites, mas esse ano eu quero fazer por minha própria iniciativa, fazer um tour pelas escolas, se for possível eu quero fazer aqui também, e conversar sobre a vida, sobre tudo, mas sobre a criação artística também, por que essa resposta da criança é muito valiosa. No caso do disco era específico, era um projeto, um sonho. Eu compus muito, botava pra dormir cantando, quando eles estavam dormindo eu já tinha uma, duas ideias de música, no dia seguinte desenvolvia. Foi assim que esse repertório foi acumulado. Já era um projeto específico, um dia eu vou fazer um disco pra criança. Demorei muito. Eu queria que eles fossem ainda crianças, quando eu fiz eles estavam com vergonha de fazer vocal, já estavam quase adultos, agora eu chamei eles para finalizar cantando uma vinheta que eu fiz, chama Vidinha, para os homenageados participarem, estarem presentes no disco. Essas canções que eu fiz recentemente eu senti que era hora de fazer um novo disco, embora às vezes a gente fique desanimado com o destino do disco hoje, a gente trabalha pra caramba e a repercussão é tão pouca. Mas a gente precisa continuar fazendo, pelo público e por nós mesmos, por nossa sobrevivência artística. Então eu reuni aí um magote de canções, estou até pensando em fazer um duplo, o volume um agora, isso eu vou resolver na próxima semana, eu gravei mais de 15 canções, vou gravar mais umas cinco e dá para fazer dois volumes, lanço um agora e outro no segundo semestre. E quero usar telas de autores maranhenses nas capas.

ZR – Você falou das crianças, seus filhos, que já estão com 20, 20 e poucos anos, e uma coisa que é muito bacana para quem acompanha tua carreira como eu acompanho particularmente desde o Por onde andará Stephen Fry? é a preservação, não sei como é que tu operacionaliza isso, a gente nunca viu uma foto de um filho teu numa revista de fofoca, numa Caras. Como é que você lida com isso nesse tempo de superexposição?
ZB – Eu não vejo muita necessidade. Eu também não sou o tipo de artista que interessa ao Nelson Rubens [risos]. Eu já recebi convites pra ilha de Caras, mas eu tenho mais o que fazer [risos]. Não tenho muito o que fazer [], não é meu mundo, as pessoas acham que artista é tudo uma coisa só, mas a gente vive em mundos muito diferentes. Não tem por que eu abrir minha casa pra um revista, sabe? Não faz sentido. É meio vazio isso aí. Se for uma coisa que me traga muita vantagem [gargalhadas], de alguma maneira, a gente faz. Eu acho que preservar os filhos é importante, eles lidam bem com isso, de o pai ser artista, de ter uma profissão um pouco estranha. A filha contou recentemente um diálogo que ela teve no passado com um colega. Ele perguntou: “você é classe alta?”. Ela falou: “não, sou classe média”. Isso ela era pequena. O garoto falou: “eu sou classe média alta, meu pai tem isso, tem aquilo. Mas você é filha de artista, não é? Teu pai não tem avião?” [gargalhadas]. Isso é uma bobagem, associar o artista com esse mundo de opulência. O glamour é 0,01 por cento, quando você lança um disco e bebe um champanhe, um uísque com os amigos. No mais das vezes é um trabalho operário, tem que dormir cedo, dormir bem, o suficiente para descansar a voz, para estar inteiro, passar som, começo de carreira então tem que se dividir em mil, pra dar entrevista, ir na rádio, ir não sei aonde, no mesmo dia passar som, fazer o show e receber o público depois. Tanto que tem gente que se prepara mesmo, não é o meu caso, eu prefiro jogar futebol, tem gente que vai, malha, fica horas. Pra mim é uma atividade atlética, aeróbica, no começo de carreira a gente fazia shows de terça a domingo, só tinha a segunda para passar em casa. É duro, aeroporto, avião… É bacana, não está viajando de fusca pelas estradas do interior da Bahia, mas é uma vida de dureza, não tem jatinho na história. Não é como nos Estados Unidos, que os caras fazem turnê em ônibus, as estradas são maravilhosas, o país é grande, mas as estradas são maravilhosas. Eu adoraria, por que detesto avião. Eu gosto mesmo de tirar o velho carro, parar, tomar um café, comer um doce, fumar um cigarro, o melhor da vida, tomar uma cerveja no meio do caminho [risos], mas aqui é impossível, com as estradas que a gente tem, com a dimensão do país. É uma vida de dureza. Tem uma coisa, que eu acho que artistas como eu, Chico César, especialmente, talvez pelo fato de a gente ser do Nordeste, de ter essa vivência de cidade do interior, a gente vai aonde chamar. Por exemplo, Macapá, eu fui quatro vezes a Macapá tocar. Tenho grandes amigos lá, inclusive um parceiro, poeta paraense, Joãozinho Gomes, é um poetaço, mora lá. Tenho certeza que nem Roberto Carlos foi tanto, é longe, é uma viagem internacional, seis horas e meia para chegar lá. Tem artistas que não vão, uma garota classe média de São Paulo não vai. Eu já dormi em motel, no Ceará, a cidade estava cheia, demoraram a fazer a reserva, e foi lindo, foi um show incrível. Tenho que escrever um livro, “Glamour zero”. Mas é lindo! Acaba também você tendo umas respostas de público, carinho, o cara se sente prestigiado de você ir na cidade dele, lá no grotão, lá no meio do sertão, umas coisas muito bonitas. Como diz a canção do Milton Nascimento e do Fernando Brant [Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)], “o Brasil não é só zona sul, é muito mais, é muito mais”. É muito grande, esse Brasil profundo eu adoro tocar. Hoje tá difícil, por que as bandas de forró eletrônico meio que dominaram o pedaço. Num passado recente, 10 anos, essas bandas abriam pros shows da gente. Agora eles tomaram de conta.

ZR – Então vocês são os culpados [risos].
ZB – Não, cara, não [risos]. A gente fez a nossa parte, mas o mercado é cruel, é voraz.

ZR – Você deu a pista para Jotabê Medeiros, na biografia do Belchior, mas aconteceu que o irmão dele faleceu na semana em que ele estava de passagem comprada para encontrar o Belchior em Santa Cruz do Sul. Jotabê foi ao velório do irmão e Belchior faleceu em sequência. Você chegou a ler a biografia?
ZB – Li. Li logo que saiu. Gostei. Ficou um pouco triste, a questão é um pouco triste. Ninguém imaginava que fosse acontecer tão cedo. É uma situação delicada. Eu fiquei muito honrado quando eu cheguei na cidade e Adriana [Bueno, assessora de comunicação], que faz assessoria pra mim, ligou dizendo: “Zeca, uma bomba, uma história. Belchior tá aí na cidade e quer te encontrar”. Eu fiquei naquela, orgulhoso, envaidecido e ao mesmo tempo preocupado [risos], o que é que eu vou falar com o cara? Era fã dele, a gente já tinha se encontrado, inclusive uma vez, curiosamente, à saída de um show de Bob Dylan, do qual somos fãs, lá em São Paulo. Sempre muito afável, “vamos nos encontrar, vamos tomar um vinho, a gente mora na mesma cidade”, eu falei “vamos”, trocamos contato e logo depois ele sumiu. A gente foi, uma coisa de segredo, motorista me levou, levei um vinho, achei ele muito abatido, mas muito lúcido, normal. Dei todas as pistas para dizer que eu queria apoiá-lo se ele quisesse voltar a produzir. Inclusive pus à disposição dele um estúdio que eu tenho com um amigo, lá no Butantã, “olha, se quiser, tem um estúdio lá, com piano”, ele ficou assim, meio, “piano? Poxa!”, falei “se quiser você vai direto de Congonhas pra lá, ninguém te vê”, rapidinho, fui dando pistas. Ele se animou um pouquinho, tinha a mulher, junto com ele, que meio que ditava o ritmo do jogo. “Não, ele ainda não tá pronto pra voltar a gravar”, uma situação um pouco estranha. Eu saí de lá meio mortificado, com aquela sensação, de “pô, eu podia” [interrompe-se]. Quando eu li o livro e vi toda a descrição, a narração da história, aquela culpa que a gente sente, impotente. Eu fiz tudo que podia, falei pra ele de um produtor amigo nosso, de Fortaleza, que falou que se Belchior aparecesse e quisesse tocar, ele enriqueceria o Belchior e a ele, faria uns 10 shows arrasadores pelo Brasil e seria mesmo um evento. Mas ele parece que não estava mesmo mais disposto. Havia um desencanto qualquer, uma coisa muito amarga. Mas também uma tragédia talvez anunciada pelas próprias letras de música. Ele era um niilista, era um cara que não acreditava em muita coisa, apesar de ter um histórico de seminarista, um cara muito culto, muito profundo, leitor de muita filosofia. Enfim, uma pena, fiquei meio penalizado. Mas a vida é isso daí. Essa sensação de impotência me acompanhou por muito tempo: “e se eu tivesse acenado? E se eu tivesse feito isso e aquilo?”.

ZR – Você foi colunista da revista IstoÉ, algumas das crônicas publicadas lá estão nestes livros. Você acha que essa coisa da regularidade de colaborar com um veículo ajuda ou atrapalha? A coisa da obrigação, da disciplina? Você aceitaria o convite de um veículo para colaborar permanente hoje?
ZB – Rapaz, só se fosse o Jornal Pequeno [gargalhadas gerais]. Estou brincando. Eu saí na hora certa, uma intuição qualquer. Uma por que eu estava exausto, não conseguia mais dar conta de tantos projetos. Parece fácil escrever um texto de 60 linhas, mas às vezes eu esquecia. Eu estava indo para Alagoas, tocar em Maceió, e Adriana me ligando, “Zeca, é hoje. Você tem que mandar o texto até”, aí eu tinha que sacar um coelho da cartola em 40 minutos, sabe? É uma loucura! Isso começou a me exaurir, essa responsabilidade. Agora, durante um tempo foi importantíssimo pra mim. Eu sentia que o texto ia ficando mais fluente, era mais fácil começar e finalizar um texto. É igual um músico que toca, um atleta que treina à exaustão, vai ficando mais fácil. Foram cinco anos, foi intensíssimo, foi bacana, falei de tudo que eu podia falar, por que eu pedi permissão total, só escrevo se eu tiver liberdade de falar sobre tudo, política, dar minha opinião, e eles “não, tranquilo, porta aberta, a gente quer mesmo é… criar polêmica então, ótimo!”.

ZR – Foi hostilizado por Roseana Sarney.
ZB – Que bom!

ZR – Eu me lembro de uma campanha de Roseana em que aparecia na propaganda um recorte da IstoÉ com tua coluna, uma página de meu blogue, “o pessoal que só fala mal do Maranhão”.
ZB – Que bom estar nesse lugar.

SS – Falando em política, como você está vendo esse cenário em 2019.
ZB – Como toda pessoa de bom senso eu lamentei a eleição do Jair Bolsonaro. Hoje eu penso de uma forma diferente. Eu acho que é uma provação pela qual o povo brasileiro tem que passar. Eu até diria uma purgação, quando você tem que ir até o fundo do poço para poder voltar, acordar. Eu acho que vai ser bom, a gente está mais vigilante, mais atento. Fazer uma analogia: quando você tem uma casa onde tem muito conforto, empregada fazendo isso, motorista, jardineiro, as pessoas se acomodam. Quando você mesmo tem que ir à luta, lavar a louça, dar a comida do cachorro, você fica mais esperto. Eu acho que é exatamente isso, a gente está saindo de uma zona de conforto, de um tempo, a gente teve governos bons aí, Fernando Henrique Cardoso, Lula e mesmo o primeiro mandato da Dilma, foi um tempo de uma certa bonança no Brasil, depois veio esse redemoinho político e econômico, e a gente entrou nesse lugar. A gente estava surfando nesses ventos e agora a gente vai ter que ficar com os olhos mais arregalados, numa certa vigília do que vai acontecer para que a democracia não degringole. Então, acho que vai fazer bem pra gente. Vai ser uma reeducação política, cidadã do povo brasileiro. Esse governo é tão frágil, tão artificial, que ele vai se desfigurar em pouco tempo. Não vai precisar muita coisa não, eles vão…

SS – Se matar sozinhos.
ZB – Sozinhos, igual desenho animado, vão se autodestruir em cinco segundos.

ZR – A serpente se comendo pelo rabo.
ZB – Pelo rabo. E eu acho que isso vai acabar sendo também o anúncio de outro tempo, a gente vai virar esse jogo, o Brasil tem um destino bonito e a gente não pode ficar assim.

ZR – Você está sempre envolvido em mil coisas ao mesmo tempo, é o viciado em trabalho que além de carreira, de disco, de show, teu mesmo, você está sempre ajudando um amigo, produzindo alguém, fazendo participação especial, compondo, enfim. Você já falou do Amor no caos, para daqui a alguns meses. Projetos para 2019, o que o fã clube pode esperar de Zeca Baleiro?
ZB – Não é meu projeto mas estou envolvido, o segundo disco da Patativa, a gente está finalizando, direção artística minha, produção do Luiz Jr., breve aí, em março ou abril a gente deve estar lançando. Esses dois discos eu quero fazer. Estou com uns projetos interrompidos que eu quero finalizar esse ano, que é o disco de sambas, se chama O samba não é de ninguém, só samba autoral. Tem um disco de bregas, bregas psicodélicos que eu chamo, o disco se chama Churrascaria psicodélica, é só brega autoral também, com guitarras distorcidas, estética anos 1970, o Érico Teobaldo está produzindo, quero ver se eu finalizo. Se possível eu quero lançar uns cinco, seis discos esse ano.

ZR – Ô coisa boa!
ZB – É. E aí correr com a aposentadoria, que eu estou cansado. Daqui a uns três anos eu quero ir para meu sítio na Maioba ou no sul de Minas e ficar lá compondo. Eu gosto muito de estúdio, estúdio é um negócio que não me cansa. Gosto de tocar ao vivo também, é um tipo de energia muito particular, muito única, não se consegue aquilo em outro lugar a não ser ali, no palco, naquela relação direta com o público, com a energia, a emoção do público. Mas a rotina, todo artista depois de certa idade fala isso, não tem como. É como um jogador de futebol que pudesse perdurar até os 50, 60 anos, por que a carreira é mais rápida, morreria de exaustão. Por isso que o cara quando acaba a carreira ele fica logo pançudo [risos], por que ele vai tirar todo atraso dos churrascos e dos chopes que deixou de tomar ao longo do tempo. No nosso caso não tem essa proibição, a gente pode beber nossa biritinha enquanto passa o som. Mas é muito exaustivo, você deixa muita coisa pra trás, deixa de presenciar muita coisa importante na vida dos filhos, dos familiares, dos amigos. É uma coisa que faz falta. Outro dia eu vi um depoimento do Zico, que é um workaholic também, trabalha o tempo todo, e ele falando, “pô, perdi muita festa de aniversário dos meus filhos quando era jogador, e agora não quero perder a dos netos”, então eu estou preparando minha aposentadoria para poder [interrompe-se]. Isso faz falta, é uma coisa aparentemente tola, mas faz falta na vida da gente. O estúdio não, o estúdio é um parque de diversões, você pode fazer de tudo. Eu passaria o tempo todo criando. Mas isso não enche barriga [risos], a principal receita do artista da música ainda é o palco, os shows. Mas eu sinto muito prazer. Eu não faria isso só por dinheiro, só para sobreviver, eu usaria de outros expedientes. É muito bom também.

SS – E livro novo? Previsão?
ZB – Olha, eu tenho umas ideias. Estou querendo esse ano também me dedicar um pouco a isso, tirar um tempo pra escrever. Quero fazer um livro sobre a produção feminina no Brasil, até já comecei, chamei uns dois amigos para me ajudarem na pesquisa, enumerar todas as autoras femininas, todas ou quase todas, desde o começo do século passado, é um trabalho que me interessa, esse de escavação, essa arqueologia. Estou exercitando umas coisas, uns contos, não sei. É preciso muita coragem para lançar um livro de literatura, com pretensão literária num país de tantos bons escritores. Mas quem sabe? [risos]. Quem sabe um dia, depois dos 60?

Obituário: João Gilberto

Reprodução
Reprodução

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (10/6/1931-6/7/2019), baiano de Juazeiro, revolucionou a música popular brasileira ao inventar sua batida característica ao violão, que se configurou como marco inaugural da Bossa Nova. É graças à existência de João Gilberto que o Brasil viria a ter artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre muitos outros, gente que decidiu seguir a carreira artística após o arrebatamento que significou ouvir Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), faixa que batizou o marco zero do movimento que fundiu o samba brasileiro ao jazz americano.

Certa vez, entrevistando Turíbio Santos, perguntei ao maranhense, referência internacional em se tratando de violão, se “João Gilberto era mesmo tudo isso que se dizia”. O maior divulgador da obra de Villa-Lobos mundo afora não hesitou: “é tudo isso e mais um pouco”.

Gênio foi adjetivo sempre atrelado ao nome de João, de quem disse Caetano: “melhor do que o silêncio só João”. Excêntrico foi outro. O jornalista alemão Marc Fischer, que suicidou-se antes de lançar Ho-ba-la-lá: à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2013], nas páginas de sua grande reportagem, urdida em uma viagem ao Brasil com o sonho de encontrar o ídolo, fez um verdadeiro inventário de justificativas para um e outro adjetivo.

Por exemplo, a obsessão que acabou levando-o a inventar a batida revolucionária no banheiro de uma casa em Diamantina, interior de Minas Gerais. Ou no episódio em que se apresentando com Caetano Veloso, e reclamando da acústica do local da apresentação, começou a ouvir vaias da plateia e retrucou: “vaia de bêbado não vale”, levando o também baiano Tom Zé a escrever (em parceria com Vicente Barreto) uma crônica musical sobre o episódio – lançada em seu ep “Imprensa cantada”, de 2003.

Perfeccionista também. O lançamento de uma compilação reunindo sucessos de seus três primeiros discos, pela EMI, levou o artista a travar uma longa batalha judicial contra a companhia, alegando mudanças nos fonogramas originais, que chegaram a ser compactados para caber o máximo possível em um cd. Entre as várias histórias (reais e inventadas) acerca de sua persona é conhecida a do costume de passar até 12 horas no apartamento ensaiando a mesma música.

O último retrato. Sofia Gilberto/ Reprodução
O último retrato. Sofia Gilberto/ Reprodução

Recluso foi outro adjetivo que se colou a João, sobretudo nos últimos anos. A última vez em que anunciou uma turnê, com que comemoraria seus 80 anos, cancelou alegando uma gripe. O último retrato, em que aparecia elegantemente trajando um terno e segurando o violão, companheiro inseparável, foi postada por sua neta, Sofia Gilberto, em uma rede social.

Dono de uma obra irretocável, João Gilberto faleceu hoje (6), aos 88 anos, em seu apartamento no Leblon. Há algum tempo ele já apresentava um quadro de saúde debilitada – o falecimento foi confirmado pela família, mas a causa mortis ainda não foi divulgada, nem informações sobre velório e sepultamento. Deixa os filhos João Marcelo, Bebel e Luiza.

Solo e bem acompanhado pelo público

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Geraldo Azevedo, trajando uma camisa de listras e estrelas em tons acinzentados, subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo ontem (30), levou na esportiva um problema técnico que impedia a amplificação de seu violão. Superado o percalço, abriu seu show com Ê minha vida (Geraldo Azevedo/ Capinan), antes de brincar, referindo-se ao sobrenome comum: “posso dizer que é meu tio-avô, Arthur Azevedo”, para risos da plateia.

Agradeceu por estar de volta à ilha e continuou: “a inspiração deste espetáculo é o disco que eu fiz em 1995, Ao vivo contigo; mais recentemente eu pensei em registrar em vídeo”, disse, referindo-se ao dvd recém-lançado Solo contigo, no formato voz e violão. Para gargalhada do público, arrematou: “essa é a segunda sessão. Amanhã vai ser a primeira”, anunciou, referindo-se ao fato de a apresentação de ontem ser uma sessão extra, pois a de hoje, para quando o show estava originalmente marcado, ter esgotado os ingressos.

O roteiro seguiu com Inclinações musicais (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha). Depois, o pernambucano enalteceu alguns parceiros, citando a honra de ter feito música com, por exemplo, Mário Lago. “Ele dizia que para falar de amor não precisa falar correto, basta falar ao coração”, lembrou, antes de cantar a hilariante Amor de gramática, parceria de ambos.

“Com ele eu não fiz música, mas a gente era parceiro de vida, dividimos palcos no Brasil e fora”, revelou, antes de cantar Estácio, eu e você, e terminar de punho erguido: “viva Luiz Melodia!”.

O desfile de parceiros continuou. “Esse anda comigo há muito tempo; é meu técnico de som, mas descobri que é também um ótimo compositor. Vou cantar uma dele: Sérgio Peres”, anunciou antes de A saudade me traz.

No ano do centenário de Jackson do Pandeiro não podia faltar uma homenagem a ele, que Geraldo Azevedo revelou ser uma de suas referências. “Ainda tive a honra de dividir o palco com ele”, reverenciou, antes de cantar Já que o som não acabou (Geraldo Azevedo/ Geraldo Amaral/ Alceu Valença).

“A partir desse momento é Solo contigo”, anunciou, ficando em pé e trocando de violão. “Vocês têm que participar”, convocou o público. É literalmente uma antologia, um desfile de clássicos: O principio do prazer (Geraldo Azevedo), Canta, coração (Geraldo Azevedo/ Carlos Fernando), aplaudida desde a introdução, Veja (Margarida) (Vital Farias) – em que o verso “gasolina vai subir de preço” virou “gasolina já subiu de preço”, numa crítica sutil ao governo de Jair Bolsonaro.

É impressionante a comunhão entre o artista e seu público ludovicense, mesmo sendo Geraldo Azevedo um habitué da ilha. Tanto querer (Nando Cordel/ Geraldo Azevedo), Pensar em você (Chico César), Caravana (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo) – “bonito o coro, obrigado!”, agradeceu o cantor – Chorando e cantando (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo), outra aplaudida desde a introdução, Você se lembra (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).

Após quase quatro minutos de introdução, com o público já acreditando que a música ficaria em sua versão instrumental, diante dos efusivos aplausos, o artista convertido numa espécie de guitar hero, tirou o chapéu em agradecimento ao público antes de começar a cantar Bicho de sete cabeças (Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho/ Renato Rocha), que acabou emendada com Dona da minha cabeça (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Em Dia branco (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha) transformou o “pedaço de qualquer lugar” em “um pedacinho de São Luís do Mará”, antecipando o clássico de Carlos Fernando que não pode faltar a seu set list em se tratando de shows na “ilha bela” – a citada comunhão era tanta que nem houve os tradicionais chatos pedindo “aquela”. Ontem souberam esperar e pareciam estar satisfeitos com a seleção.

“Eu fiz esse dvd, mas eu estou cheio de músicas novas. Estou fazendo um disco, quem sabe no segundo semestre eu termine e venha mostrar outro disco diferente”, aventou, para delírio da plateia, antes de cantar Um paraíso sem lugar (Ela e eu) (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Para Moça bonita (Geraldo Azevedo/ Capinan) a plateia bateu palmas marcando o ritmo e nela Geraldo Azevedo emendou Sabor colorido (Geraldo Azevedo), lembrando a gravação do Cantoria 2, e Sabiá (Luiz Gonzaga/ Zé Dantas).

Na gravação de Canção da despedida no LP A luz do solo (1985), Geraldo Azevedo registra a saga para gravar a música: antes, havia colocado em várias relações de repertório para discos novos e a censura vigente na ditadura militar impedia a gravação; finalmente ele gravava ali a parceria com Geraldo Vandré, de letra atualíssima nestes tempos bicudos, de presidente homofóbico: “um rei mal coroado não queria/ o amor em seu reinado, pois sabia/ não ia ser amado”. Ontem, afirmou, antes de cantar: “meu parceiro nessa é complicado, eu não consegui a liberação para gravar nesse dvd mas ela sempre está com a gente”, disse, referindo-se ao sucesso, do verso “amor não chora, eu volto um dia”, que anunciava que o show estava se aproximando do fim.

“Eu não podia sair sem cantar essa canção”, afirmou antes de Terra à vista (Carlos Fernando), composta em homenagem a São Luís do Maranhão, certamente um ponto de identificação forte entre o artista e seu público local – na década de 1980, muita gente por aqui achava que Geraldo Azevedo era maranhense.

“Eu faço há muito tempo carnaval em Pernambuco, continuo fazendo. Eu fiz um EP de frevos, está nas redes sociais para quem quiser ouvir”, convidou, antes de Quatro dias de amor (Geraldo Azevedo/ Maciel Melo), cujos versos finais cantou se retirando do palco: “o amor de carnaval/ chega quarta-feira vira cinza e tchau”.

Aos gritos de “mais um!” voltou para atender com Táxi lunar (Geraldo Azevedo/ Alceu Valença/ Zé Ramalho), com a iluminação – impecável – simulando, em tons de vermelho, uma espécie de abdução e seu violão magistral fazendo as vezes do motor de uma nave espacial. Sai de cena aplaudido de pé, com o público – que cantou junto quase o show inteiro – a confirmar que as canções de Geraldo Azevedo fazem parte do imaginário coletivo, ajudando a contar as histórias de que são trilha sonora.

Resistência e/m Liberdade

Resistência. Capa. Reprodução

Resistência é um título impactante: assim se chama o novo disco do Bumba Meu Boi de Leonardo, sotaque de zabumba, do bairro da Liberdade, como também é conhecido o grupo, um dos mais representativos e longevos – foi fundado em 1956 – da cultura popular do Maranhão.

O título pode ter várias leituras. A primeira é a própria manutenção do grupo do sotaque que tem origens no município de Guimarães – como também é conhecido o sotaque de zabumba –, após o falecimento de seu fundador, Leonardo Martins Santos, em 2004, aos 82 anos.

Mestre Leonardo. Foto: Márcio Vasconcelos

A segunda, a persistência em atravessar o atual momento político por que passa o país, em que o governo militar/izado elegeu artistas e produtores culturais como inimigos, com a extinção do Ministério da Cultura e a consequente diminuição dos recursos investidos na área – o Bumba Meu Boi de Leonardo é Ponto de Cultura desde 2010.

A terceira, o registro em si (após 12 anos sem um lançamento em disco): num tempo em que se alardeia a morte do cd físico, o grupo bota na rua seu quinto disco, produzido pelo percussionista paraense Luiz Cláudio, radicado no Maranhão desde o fim da década de 1970 – uma das razões de sua permanência foi a paixão despertada nele pelo grupo de Leonardo (que mantinha também um tambor de crioula), quando de sua chegada. O álbum físico vem embalado em belas fotografias de Márcio Vasconcelos, craque no registro de manifestações da cultura popular, Raileen Martins e João Maria Bezerra, e projeto gráfico de Ná Figueiredo. Cabe ressaltar que Resistência está disponível também em todas as plataformas digitais.

O Boi de Leonardo, pela qualidade, sempre despertou paixões, o que contribuiu para o engrandecimento do grupo, com raízes fincadas no bairro da Liberdade, muitas vezes estigmatizado como um bairro violento, mas um dos mais ricos e diversos culturalmente da ilha capital. O primeiro disco do grupo foi lançado em 1988, produzido pelo compositor Chico Maranhão.

Regina de Leonardo. Foto: divulgação

Ano passado a pesquisadora Marla Silveira, produtora executiva de Resistência, lançou Nas entranhas do bumba meu boi [Edufma, 2018], resultado de sua dissertação no mestrado em Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão. A obra aborda as estratégias para botar o boi na rua e o protagonismo feminino na manifestação: Regina de Leonardo, filha do mestre fundador, assumiu o comando do grupo após o falecimento do pai.

“O Boi de Leonardo tem uma tradição representada simbolicamente, pelo nome de um importante mestre da cultura popular brasileira, Leonardo, e, ritualisticamente, assegurada por todos os seus integrantes, que por meio dos rituais e dos movimentos, fazem deste Boi uma manifestação cultural de resistência e fé”, aponta Marla em texto no encarte do disco.

A gravação captou uma apresentação ao vivo na sede do grupo. A parceria entre o estúdio Deu na Telha Audio Lab (do guitarrista João Simas e do baterista Thierry Castelo Branco), com a gravadora paraense Ná Music (onde o disco foi masterizado) e o selo Zabumba Records, inventado por Luiz Cláudio (que assina produção e direção artística de Resistência) para resgatar e registrar manifestações da cultura popular, garante aos ouvintes uma experiência próxima de estar em uma apresentação ao vivo do bumba meu boi.

As 16 faixas registram, na ordem, as etapas da apresentação do boi: começa com as ladainhas rezadas pelo senhor Raimundo Monteiro, passando pela “reunida, quando os batuqueiros se reúnem na fogueira para afinar o couro dos tambores”; o “guarnicê, quando o grupo se prepara para iniciar a dança”; o “lá vai, aviso aos espectadores (assistência) que o Boi vai começar a dançar”; o “chegou, quando é anunciada a presença do boi no cordão (roda/terreiro); a partir daí são cantadas várias toadas livres; depois canta-se urrou, quando se festeja a ressurreição do boi; e a última toada é a despedida, quando o boi encerra a apresentação”, como ensina o texto de Marla no encarte.

Bumba meu boi raiz, o de Leonardo registrou o trabalho com músicos da comunidade, sem recorrer a contratação de músicos de estúdio, garantindo autenticidade ao material. As zabumbas são tocadas por Natan, Bruno, Nenem e Luiz Cláudio; pandeirinhos por Benilton, Zé, Paulinho, Joca, Manguera, Luiz Cláudio e Coelho; maracás por Luiz Cláudio e vocais de Regina de Leonardo, Ana de Burgé, Lilia e Wanderley (não é comum mulheres em vocais de grupos de bumba meu boi).

As toadas fazem um apanhado da trajetória do grupo, incluindo registros preciosos, resgatados de discos anteriores e remasterizados, das vozes do próprio Mestre Leonardo e Chico Coimbra, este na ufanista Terra de poetas, de sua autoria: “Por isso me sinto feliz/ vem gente de todo país/ pra olhar de perto/ o boi de São Luís/ olha, turista, o luxo desse guerreiro/ não paga nada pra ver/ nós temos o melhor folclore brasileiro”, diz a letra. Erros de concordância e prosódia entram na conta da licença poética e da autenticidade, tornando ainda mais verdadeiro o que ouvimos ali.

Regina de Leonardo faz um emocionante dueto com seu falecido pai em Chegou (Assistência que está na bancada): “o terreiro estava triste/ nesse momento se alegrou/ por que recebi uma mensagem/ lá de cima que Jesus mandou”, cantam.

Entre compositores e cantores também comparecem Zé Pretinho, autor de Chegou 2 (“São João já escreveu no livro/ que esse ano somos campeão”), e Carlinho Silva de Carutapera, autor de Mestre é mestre, comovente homenagem ao Boi de Leonardo, composta quando o batalhão completou 60 anos: “Mestre é mestre/ esse é o boi que Leonardo deixou/ infelizmente foi lá pro degrau de cima/ que Jesus Cristo levou”, diz a letra. E continua: “hoje ele brilha no bairro da Liberdade/ aonde é carinho e amor/ essa notícia se espalhou na ilha inteira/ dessa beleza que Regina cultivou”.

Mestre Zió. Foto: divulgação

Merece destaque ainda a presença, em composição e canto, de Mestre Zió (João Vieira), espécie de sucessor natural de Leonardo. Ele assina e canta em sete faixas do disco, incluindo a Despedida (Adeus), que se tornou hit por aqui quando Luiz Cláudio gravou-a em seu ep Encantarias [2017], com a participação especial de Zeca Baleiro. Ao final da faixa, um bônus instrumental demonstra a interessados a formação da polirritmia que marca o sotaque de zabumba.

Também é da lavra de Zió Batuque forte (Guarnecê), que bem traduzirá nos ouvintes a sensação de ter o Boi de Leonardo em casa, com o disco: “eu quero um batuque forte/ como o conjunto merece/ se é para ouvir de longe/ na hora que Liberdade guarnece”.

Serviço

O lançamento de Resistência acontece hoje, no primeiro ensaio aberto do grupo, na sede do Boi de Leonardo (Rua Alberto Oliveira, 150, Liberdade), com entrada franca, a partir das 22h.

*

Ouça Resistência:

Plural e desnuda

Retrato: Camila Neves

 

“Uma vez minha mãe falou que ele era primo do meu avô. Mas eu nunca chequei isso, não lembro se essa é a informação certa [risos]. Mas vou perguntar pra ela”. É com essa imprecisão acerca de seu parentesco com o escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004) que começa minha conversa com Bia Sabino (27), cantora carioca que estreou no mercado fonográfico ano passado, com Ecos [independente, 2018], um dos discos mais verdadeiros da temporada – ao longo da entrevista ela me encaminharia uma mensagem de texto da mãe: “Oi, filha. De acordo com a tia Aparecida, ele era primo primeiro de pai. Temos parentes dele em Resplendor/MG”.

Sabino não é o único parente famoso da moça, mas ela não carece de parentes importantes à guisa de cartão de visitas. “Tem um moço da minha família que bem fez o Hino da Independência. Imagina se as pessoas esperassem que eu fizesse músicas parecidas com as dele”, diverte-se, referindo-se a Evaristo da Veiga (parente de seu bisavô) – Francisco Manoel da Silva, autor da melodia do Hino Nacional, fundou o Conservatório de Música do Rio de Janeiro, que precedeu a Escola de Música da UFRJ, era parente de sua bisavó, ela acrescentou após consulta a sua vó. “Os dois pais da minha vó, por parte de pai; a família da minha mãe tem raízes indígenas, eu tenho certeza que tinha uma galera da batucada lá, mas esses não estão nos livros de história [risos]”.

Sobre a sinceridade a que me referi, digo que percebo um desnudar-se, uma carga autobiográfica em seu trabalho. Ela concorda: “Acredito que isso aconteça mesmo, sabia? É o que faz a arte. Eu não entendo como alguém consegue cantar ou compor “vestido” [risos]”. Ela mesmo se corrige: “até entendo. Mas não me move”.

A cantora durante o show de lançamento de Ecos. Foto: Camila Neves

Bia Sabino já compõe há algum tempo, mas só agora, após um processo de crowdfunding, conseguiu botar seu bloco na rua – a campanha de financiamento coletivo bateu todas as metas. “Eu espero que o caminho seja longo mesmo, às vezes me sinto meio atrasada, tendo escolhido me jogar nesse caminho meio tardiamente, já que a música sempre esteve presente”, me revela a geóloga de formação, que ao longo da entrevista, realizada durante cerca de dois meses através de chat de rede social e aplicativo de mensagens, revelará ser várias: está concluindo uma pós-graduação em Naturopatia. “Parece que são coisas distintas, mas tudo reverbera nas minhas músicas”, revela-se.

A conversa com Bia Sabino transcorreu entre afazeres diários do repórter e da artista, entre aulas de pós-graduação, shows, viagens, feriados, apresentações circenses – é acrobata e professora de acrobacia – e tudo o mais que sua pluralidade lhe permite.

Pergunto-lhe se encara a música como profissão ou hobby. “É definitivamente uma profissão. E agora estou tentando encontrar os caminhos para viver essa realidade. Por que eu quero espalhar uma mensagem, sabe? Eu tenho algo a dizer”, diz. “Mas ao mesmo tempo eu tenho que tocar em barzinhos etc. para conseguir viver aqui”.

“Eu faço poemas desde MUITO pequena [grifo dela]. Minha mãe guardou umas coisas muito engraçadas disso. Aí quando eu tinha uns 10 anos eu percebi que eram músicas, na verdade”, puxa o fio das origens. “Acho que isso da idade é construção social, né? A gente vê vários artistas incríveis começando tão novinhos, fazendo sucesso aos 20 [gargalha]. Sei que sou super jovem, mas ao mesmo tempo fico querendo ter tomado essa decisão antes [risos]”.

A garota prodígio torna às origens: “Eu entrei pro coral do colégio aos cinco anos, o que é até uma história engraçada, por que não podiam babies como eu. Só que eu queria MUITO cantar [grifo dela]. E aí fui falar com a coordenadora, arrastando minha mãe… ela disse que se o diretor deixasse eu podia ir. Aí fui falar com a tia Rute, falei que me comportaria, que queria muito cantar… Então o limite antes era de 10 anos de idade, eu desci para cinco. Era meio precoce”.

E continua: “Fiz 11 anos de coral, mais ou menos. No meio disso comecei a aprender violão sozinha. Depois entrei no [curso de] violão clássico da [escola de música] Villa-Lobos”. Ela não chegou a se formar no instrumento, mas estudou durante um tempo. Digo que é uma história incrível e ela retruca: “tem que ouvir minha mãe contando essa história. É muito bom [risos]”.

Indago-lhe sua opinião sobre artistas mirins. “Eu era uma criança muito engraçada, ficava pensando na vida. Quando eu era pequena eu tinha uma certa pena desses artistas crianças, eu lembro do Molecada [grupo de pagode mirim], achava que eles não aproveitavam a infância. Eu não gostava da Sandy. Acho que ela tem uma voz incrível, mas não me move muito. Mas vou falar que adorava cantar Imortal [versão de Imortality, de Barry, Robin e Maurice Gibb] e A lenda [de Nando, Kiko, Ricardo Feghali] com a Sandy [e Júnior] por que podia gritar [risos]. E detestava Xuxa, achava muito infantil”.

“Eu tinha muitas composições, várias coisas que estavam meio engasgadas e eu queria colocar pro mundo justamente por considerar que demorei pra fazer isso. Sempre toquei minhas músicas para amigos, família, mas gravar seria outro nível de espalhar as mensagens que eu queria. Fui conversando com pessoas à minha volta, fiz algumas enquetes no instagram, botava alguns trechinhos, isso para a primeira parte do disco, as seis primeiras músicas; a segunda parte, as sete músicas a partir de Quem olha de fora, eu fiz todas num retiro, cada dia compus uma música e isso foi uma das forças-motrizes para eu lançar o disco, esse caminho que eu fiz por essas músicas, esse retiro de autoconhecimento, foi superimportante, e decidi que elas deveriam estar todas no disco”, revela sobre o repertório do álbum de estreia.

“Eu estava aprendendo a fazer leitura de aura, é uma técnica que se desenvolveu fora do Brasil, mas quem trouxe é uma moça que é uma das líderes lá de Piracanga [comunidade em Maraú/BA]. Eu fui por que estava muito perdida no sentido profissional, estava trabalhando direto na empresa, não tava fazendo o disco, não tava cantando tanto quanto eu gostaria, e sabia que esse não era meu propósito, que eu não tinha nascido para ficar atrás do computador [risos]. Eu sabia disso, mas me faltava uma força de dar esse passo, tomar essa decisão. Fui para esse retiro para entender esse processo, as autossabotagens que eu tava fazendo na minha vida. E tinha zero viés de fazer isso, de compor, eu tinha vindo de um período de seca musical bizarro. Eu compus Jabuticaba e depois que eu fiz Jabuticaba começou o processo de fazer a música tomar uma proporção bem maior do que tava tendo. Era um retiro sobre chacras, centros energéticos que representam setores da nossa vida, digamos. Cada dia do retiro você trabalhava um chacra. No primeiro dia já foi: “nossa, quero compor uma música sobre o que estou sentindo”. No segundo dia a mesma coisa e cada dia eu fui fazendo uma música. Foi incrível. No final eu apresentei, à capela, não tinha violão, eu estava fazendo as coisas e gravando minha voz no celular. Foi sensacional, eu senti que precisava gravar isso, estar lá com as pessoas me deu muita, muita força para fazer isso acontecer”, prossegue sobre o retiro.

Com sua trupe de circo Bia Sabino integra uma banda, em que ela desenvolve uma pesquisa a partir de se apresentar no ar cantando. “Cantando mesmo, não é playback”, faz questão de frisar. A banda se apresenta mensalmente, com o espetáculo Parangolé.

Sobre influências ela diz que acha que foram um “pouco doidas”. “Quando eu era pequena meus pais ouviam muito Michael Jackson, eu podia ficar o dia inteiro assistindo os vídeos e ele cantando, e eu adorava as coisas que meus pais ouviam, que era Bee Gees, Genesis, Queen, ouvia muita coisa assim. No Brasil eles gostavam mais dos rockzinhos, ouviam Legião Urbana, minha mãe adorava Ney Matogrosso, Roberto Carlos, apesar de que eu não peguei muito a referência do Roberto Carlos. Depois eu comecei, no colégio, por conta do coral, aula de música, comecei a conhecer por mim, eu tive várias fases. Comecei a gostar muito de punk rock, ia a saraus de bandas locais aqui no Rio e a galera fazia um som bem parecido com, sei lá, CPM22, depois comecei a conhecer o lado clássico da música de compositores mais antigos. Nisso eu já gostava muito de bossa e samba, apesar de que eu não me desenvolvi no violão nesses ritmos, mas peguei uma cadência. Aí comecei a ouvir muito Ed Motta, Tim Maia, essa parte meio soul, eu gosto muito de soul, MPB, Marisa Monte, e claro umas divas internacionais que eu sempre escutei, Aretha Franklin, Nina Simone, Joss Stone, mais velha agora já, Amy Winehouse, tem uma banda também que eu adoro, Morcheeba, o nome da moça que canta é Skye Edwards, adoro o jeito que ela canta. Foram muitos ritmos diferentes da MPB, reggae, rock, soul, blues, adoro blues e jazz. Elis, como que eu esqueci de falar da Elis Regina? Amo a Elis Regina desde bem mais nova, Novos Baianos. Cara, foi uma mistura bem doida, não sei se te respondi ou se deixei mais confuso [risos]”, desfia o rosário.

Comento que é um caldeirão vasto, muito interessante e despido de preconceitos, e ela manda uma mensagem de texto completando: “e eu fui econômica: Tom Jobim, Vinicius [de Moraes], Bob Marley, amo muito Bob Marley, Soja, Lauryn Hill, Cazuza. Música boa não tem endereço, né?”.

Ecos. Capa. Reprodução

“Acho que estou em um momento tentando amadurecer isso, todos esses amores da música, transmutar isso em uma unidade, que, em essência, acaba tendo muitas facetas. O que ainda é um retrato de mim, talvez, geóloga, circense, cantora e terapeuta”, arrisca-se, quando proponho-lhe o exercício de relacionar as referências ao resultado de Ecos. “Ou só Bia [risos]”.

“Acho que eu fiquei revoltada quando disseram que eu tinha que escolher uma carreira só pra ter sucesso. Mas também, o que é sucesso?”, provoca-se/nos.

Pergunto-lhe sobre referências em outros campos para além da música: literatura, cinema. “Não esperava por essa pergunta, sabia? Acho que é a primeira vez que eu entro nesse campo conversando com um jornalista [risos], gostei. Por que fez muito parte da minha vida. Eu tenho um negócio com histórias. Eu amo histórias. Se eu começo a ler uma história ou assistir um negócio que eu gosto muito, eu não consigo parar. Foi assim na minha adolescência, eu li muitos livros, tive a sorte de ter, no colégio a gente tinha a ciranda de livros, tinha muito livro legal, e ao mesmo tempo, eu lembro que uma vez, eu morei em muitos apartamentos, apartamentos alugados e tal. Num desses apartamentos o antigo morador era um editor da Globo, algo do tipo, e tinha um armário cheio de livros, nossa, eu li muito, muita Agatha Christie, Harry Potter [série de J. K. Rowling], amava, minha vó me dava muitos livros, A menina que roubava livros [de Markus Zusak], O caçador de pipas [de Khaled Hosseini], adorei o Dan Brown. Sempre li muito mas nunca fui muito específica de um autor, tem vários escritores que fizeram parte da minha vida. Eu gosto muito de livros de fantasia, tem muito isso de jornadas de autoconhecimento, eu gosto muito disso. Eu leio muito, gosto muito de ler, ultimamente tenho lido muito para a pós, medicina vibracional, umas coisas mais direcionadas. Tenho lido menos do que gostaria”.

Continua: “cinema é a mesma coisa, tenho certa compulsão por histórias. Acho que mal ou bem todo mundo começou com a Disney. Eu adoro desenho animado. Os desenhos animados sempre vão para esse lugar de passar uma mensagem positiva e eu me identifico muito com isso. Não sei, eu não sou muito cult do cinema, não sou essa pessoa que tem vários filmes alternativos na rota. Eu gosto muito de ficção, fantasia. O senhor dos anéis [de Peter Jackson, baseado na obra de J. R. R. Tolkien], eu adoro, gosto muito mesmo, mas é uma saga, fica meio nesse lugar, uma saga de autoconhecimento. Eu gosto muito de filmes que tiram um pouco a gente da realidade, que mostram esse mundo extraordinário, que na verdade é o que a gente vive só que não vê. Eu gosto dessas histórias que trazem, que te tiram dessa superfície que eu acho que muitas vezes a gente escolhe viver no nosso mundo. Eu adoro assistir filme, estou sempre buscando alguma coisa nova, tem dia que eu quero ver uma coisa boba, tem dia que eu tou com vontade de ver documentário sobre saúde, espiritualidade, ou sobre o tempo, eu gosto muito de documentários científicos, acho que muito por conta do background geológico, eu gosto de assistir coisas sobre física, tempo, física quântica, realidades alternativas, buracos de minhocas [risos]”.

A primeira vez que Bia Sabino saiu de casa foi quando foi morar na Austrália, onde passou um ano. Ao voltar, morou seis meses sozinha em Santa Tereza e há cerca de dois anos mora em Botafogo com o namorado. A viagem internacional, realizada por conta da faculdade, também tem a ver com seu disco de estreia.

“O disco tem uma música em inglês, foi uma música que eu fiz lá. Estar fora me fez ver quem eu era, já, quem eu realmente era. Quando a gente vive em algum lugar por muito tempo acaba se prendendo a rótulos. Eu era filha de alguém, amiga de alguém, cresci dessa tal maneira, e às vezes você muda e não consegue encontrar espaço para ser quem você é, justamente por que você se prende aos rótulos, você acaba pensando “poxa, se eu fizer tal coisa, se eu falar tal coisa, talvez eu não seja mais amiga dessa pessoa”, e a gente gosta de preservar nossas relações, mas muitas vezes isso acaba fazendo mal pra gente. Quando eu fui pra Austrália eu tive esse espaço, eu percebi que eu já tinha mudado muito, tive espaço de crescer, minha independência, ver o que eu realmente queria, o que a Bia queria pra vida, isso foi muito engrandecedor. Se você reparar a letra de Carry on é basicamente sobre isso, descobertas, ver o mundo com outros olhos, outra perspectiva e me ver com outra perspectiva. Ir para a Austrália definitivamente foi um turning point na minha vida, sem dúvida alguma”, revela.

“A ideia inicial seria algo bem cru, não ia ter tantos instrumentos, ia ser voz, violão e percussão”, remonta as primeiras ideias para Ecos. “Entramos com o baixo, eu e o Glaucus [Linx], meu produtor musical, que entrou nessa empreitada e também surgiu de maneira mágica na minha vida. Ele conhecia o Pedrinho, que foi o baixista, Pedro Leão, um superbaixista, toca com muita gente boa, tocou com O Rappa, e o PC [Andrade] da percussão, que foi também um amigo do Glaucus, no caso. Violão fui eu quem gravei, voz, eu e Glaucus produzimos alguns sons já gravados, tipo cuíca, a gente optou por usar os gravados, por que não tinha dinheiro para contratar tantos músicos. Demoramos a gravar por que cada hora era uma música nova, um problema, cheguei a perder seis pistas de voz, um amigo meu de tempos [Leonardo Elger] tocou violão em Jabuticaba, o Yann [Vathelet] tocou percussão, ele é francês, já não está mais no Brasil”.

Jair Bolsonaro já havia sido eleito mas ainda não havia sido empossado enquanto conversávamos, mas não deixamos de falar de política. “Política é um assunto polêmico. Toda essa crise política no Brasil não é nada que me surpreenda. Tem um tempo que eu vejo política da mesma maneira que eu passei a ver futebol, no sentido dos times. Eu não acredito mais que existam partidos diferentes, acho que tem pessoas que lutam por coisas diferentes, mas as crises políticas no Brasil não são novidade, e pra mim isso não tem especificamente a ver com um partido, mas com o tipo de sociedade que somos, como a gente escolhe viver. Tem até um documentário muito legal, Kymatica [de Ben Stewart], que é uma coisa meio doida, até, que basicamente ele fala que guerras acontecem, guerras terminam, políticos ascendem, decaem, partidos, por que como sociedade a gente nunca buscou curar o que precisa ser curado, a doença social, no sentido de que a gente valoriza coisas que não têm valor e desvaloriza coisas que têm valor, a gente se repete em ciclos, a roda do Samsara, o famoso karma, a gente repete os mesmos ciclos sociais como humanidade há milênios. Acho que tem muito a ver isso com o fato de eu ser geóloga. Quando você estuda geologia você perde um pouco essa individualidade, “ai, partido tal”, você acaba olhando o mundo com uma outra visão, de 4.6 bilhões de anos, e a terra como um super organismo e não a gente com nossa pequena mente. Eu vejo que o que está acontecendo é o reflexo da sociedade que a gente é, o que a gente valoriza como sociedade, dos valores que a gente busca. Eu fiquei muito chocada com essa última vitória da presidência, do Bolsonaro. Eu acreditava que como sociedade a gente estava valorizando outras coisas, valores humanos mesmo. Isso foi o que mais me chateou nas eleições, não foi partido tal ter ganhado ou partido tal ter perdido, mas entender que a mente social está num lugar que eu não esperava, de intolerância. Hoje em dia eu vejo a política dessa maneira, um reflexo do estágio de consciência da sociedade. É até o que eu quero, o que eu tento colocar nas minhas músicas, outro lugar, um olhar pra dentro. Não dá pra mudar o que tá fora sem mudar o que tá dentro. Durante muito tempo na minha vida eu me coloquei muito nesse lugar do tipo “ah, tá tudo errado no mundo, o que eu posso fazer?”, enquanto a gente tem as nossas pequenas corrupções diárias, sabe? Você é parte de tudo o que você não gosta que está acontecendo, politicamente, socialmente, ambientalmente. Onde você faz a sua parte para mudar isso? Aí eu comecei, em vez de ficar pirando com a política e as coisas que no momento estão fora de meu alcance, a mudar as minhas pequenas atitudes. Por exemplo, no que eu posso, hoje em dia, eu não minto pra nada, sou sincera comigo em primeiro lugar, por que quando você mente para o outro você está mentindo para si mesmo. Então, furar fila, tento não furar fila, andar no acostamento, coisas assim”.

Sobre a extinção do Ministério da Cultura, completa: “eu tou achando isso uma doideira. A gente já tem tão pouco incentivo cultural aqui no Brasil, musical, na cena do circo, a gente tem até umas iniciativas muito boas, mas tá tudo muito decadente, mas falta muito incentivo para que coisas novas surjam, espaço para a cultura, e mais uma vez isso tem muito a ver com a sociedade que somos”.

A divulgação do disco, revela, tem sido uma de suas maiores dificuldades. “Eu não sou muito boa nisso, até estou fazendo um curso agora, para ver se melhoro” – mais uma faceta de Bia Sabino. “Eu não sou boa em vender, eu não consigo me enxergar como um produto, mas todo mundo diz que tem que ser assim”, continua a cantora, que também assina o design de seu próprio site (e desenha as próprias tatuagens).

O show de lançamento de Ecos aconteceu em um espaço da Fundição Progresso e teve um público de cerca de 300 pessoas. Bia Sabino cantou, tocou e fez acrobacias. Durante a conversa ela anunciou novo clipe [Loba, que acabou saindo antes da publicação da entrevista]. Ela pretende circular pelo Brasil e atualmente estuda criar as condições para tanto.

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Ouça Ecos:

O bluesman brasileiro

Ao vivo 2. Capa. Reprodução

 

Quando completou 40 anos de carreira, em 2016, Edvaldo Santana colocou na rua o petardo certeiro Só vou chegar mais tarde, apontado pela crítica como o melhor álbum de uma carreira pautada pela coerência.

Alicerçado sobre o repertório daquele disco, mas também relendo faixas de trabalhos anteriores, Santana, acompanhado de uma verdadeira big band, subiu ao palco do Sesc Pompeia para um show memorável: eram 12 músicos em cena, incluindo o próprio Edvaldo (voz e violão) e a cantora Alzira E (vocais).

O show foi gravado e, antes tarde do que nunca, virou disco: Ao vivo 2 atesta que Santana é o grande bluesman brasileiro – embora disso já soubesse quem acompanha sua trajetória há algum tempo.

Filho de piauienses, nascido, criado e moldado artisticamente em São Miguel Paulista (lembrada em Ruas de São Miguel, parceria com Roberto Claudino, e Sou da quebrada), Edvaldo Santana é o artista brasileiro que melhor encarna o blues americano, sem abrir mão de sua brasilidade. Se Raul Seixas foi pioneiro ao mesclar rock com baião, Santana é a própria encarnação brasileira do blues. Gênero musical quase sempre associado à tristeza, a obra do bardo é pautada pela alegria, como canta em Quem é que não quer ser feliz, que fecha o disco ao vivo à guisa de bis.

Naipe de metais com o elegante reforço de uma tuba (de Eliezer Tristão, que também toca trombone), o show registrado em disco tem ainda o luxo de um gaitista exclusivo – isto é, não é um músico que toca outro instrumento e aqui e ali encara a gaita: Bene Chireia. A banda se completa com Ubaldo Versolato (clarinete e saxofone tenor), Claudio Faria (trompete), Gó (trombone), Reinaldo Chulapa (contrabaixo), Daniel Szafran (teclado), Leandro Paccagnella (bateria), Ricardo Garcia (percussão) e Luiz Waack (banjo e guitarra).

Mesmo os sambas de Santana têm inclinações blueseiras, casos de Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Dom, a primeira, autobiográfica, repassando a carreira de craque peladeiro em campos de várzea – outro talento do músico –; a segunda uma comovente homenagem a Sócrates, líder da democracia corintiana. Ambas, como se percebe, devotadas ao futebol, podendo fazer frente a qualquer clássico de Chico Buarque, Jorge Benjor ou Skank quando o assunto é o esporte bretão.

Citações explícitas ou implícitas em sua obra, aproximam-no também de Belchior, afinal de contas, outro bluesman de mão cheia. A Ao vivo 2 comparecem homenagens a parceiros, gente de seu convívio e ídolos. A título de exemplo, apenas em 40 figuram Beatles, Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Tom Zé, Paulo Lepetit, Matsuo Bashô, Haroldo de Campos e, entre outros, a banda Matéria-Prima, na qual começou a carreira, em 1976.

Cabral, Gagarin e Bill Gates (parceria com Ademir Assunção) perpassa evoluções tecnológicas e frustrações, também com citações sutis (por exemplo a Chão de estrelas, o clássico de Orestes Barbosa e Silvio Caldas) e O retorno do cangaço cita Antonio Conselheiro e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ao criticar a corrupção como instituição consolidada (e em pleno funcionamento) no Brasil.

O disco foi gravado em dezembro de 2016, poucos meses depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, bem antes, portanto, das eleições, da chegada de Bolsonaro ao poder, e da propina de 40 milhões por deputado pela aprovação da reforma da previdência. O que demonstra que o blues de Edvaldo Santana é também afiado e antenado.

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Veja o clipe de Gelo no joelho (Edvaldo Santana e Luiz Waack):

O canto forte, delicado, poético e político de Manu Saggioro

Clarões. Capa. Reprodução

 

Há 20 anos Ceumar estreava no mercado fonográfico com Dindinha, produzido pelo maranhense Zeca Baleiro. Agora é a vez de a mineira devolver a gentileza, assinando a direção artística e dividindo a produção musical com Manu Saggioro em Clarões [2019, distribuição: Tratore], disco de estreia da paulista.

Delicado como não poderia deixar de ser, com tal encontro, o disco é sensível ao tocar em temas de nossos tempos, como, por exemplo, o uso excessivo de tecnologia, sobretudo o telefone celular, em Um dedo de prosa (Levi Ramiro), cuja letra graceja, séria: “vai de cabeça baixa sem ouvir a ninguém/ sem olhar pros lados, parecendo quem/ tá no mundo da lua”.

Se Ceumar demorou a revelar-se talentosa compositora, Saggioro apresenta logo suas credenciais: sozinha ou em parceria assina seis das 14 faixas de Clarões – a faixa-título leva a assinatura de Tetê Espíndola e Tavinho Limma – inclusive Moda de viagem, parceria dela com Ceumar, que cantam juntas fechando o disco, sua beleza aproximando-a tematicamente de clássicos como A vida do viajante (Luiz Gonzaga/ Hervê Cordovil) e Cantiga do estradar (Elomar), mas por um prisma feminino: “essa é minha natureza/ viajar é minha cura/ andar solta e sem rumo/ liberta do que me anula/ sentindo pulsar nas veias/ a vida fluindo pura”.

As paisagens sonoras de Saggioro evocam a brejeirice mineira de Titane, ao canto pantaneiro de Tetê Espíndola e à música de protesto latino-americana, irmanando-a a nomes como Violeta Parra e Mercedes Sosa. Das primeiras, o disco é completamente permeado; das últimas, bons exemplo são Aguita (Ana Beatriz Pereira Rolando), cantada em espanhol, e Pachamama (Osvaldo Borgez) – “Terra, quem me dera contê-la, guardá-la/ no vaso de minhas mãos/ pudera, cuidava, zelava/ num bonsai, mas cabe não”, lamentam alguns versos urgentes.

Soma de tudo isso, Saggioro tem personalidade e é ótima instrumentista – toca os violões do disco, a cuja ficha técnica comparecem nomes como Adriana Holtz (violoncelo), Antonio Loureiro (bateria), Lelena Anhaia (contrabaixo), Webster Santos (violão, dobro, bandolim, banjo, cuatro venezuelano) e Ari Colares (percussão).

Saggioro presta também reverências a companheiras de ofício, registrando composições de mulheres que merecem ser mais gravadas, ouvidas e conhecidas, casos particularmente de Tata Fernandes (Graça) e Déa Trancoso (Só restarão as estrelas), ambas de talento indiscutível.

Disco de alma feminina mais que pela delicadeza, pelo conteúdo político que cerze seu tecido poético: “mais um morador de rua/ de um condomínio fechado/ quem compra contos de fada/ acaba em cantos de fado”, dispara em Cantos de fado (Levi Ramiro/ Carlinhos Campos), preci/o/sa em tempos de pós-verdade. Afinal de contas, “cadeia de pensamento/ serve pra libertar”, como canta em Graça.

Ouça a faixa-título:

“O trem da vida apitou chamando”

O ouro do pó da estrada. Capa. Reprodução

 

O ouro do pó da estrada [Deck, 2018], título do novo disco de Elba Ramalho, o 38º. da carreira, é uma boa metáfora para a própria trajetória da cantora, que completa 40 anos de carreira em 2019 – se contados a partir de sua estreia, Ave de prata, em 1979; no ano anterior ela havia cantado, em dueto com Marieta Severo, O meu amor (Chico Buarque), em A ópera do malandro. O pó colecionado com o passar do tempo ao longo das estradas que percorreu para ir aonde o povo está, o ouro sua própria trajetória, de cantora sensível, repertório inspirado e popular, sempre atenta às origens.

No patamar de Maria Bethânia e Ney Matogrosso (este participa do disco em O girassol da caverna, de Lula Queiroga), Elba Ramalho compõe o time dos artistas que são, em si, a unidade do trabalho: o mesmo conjunto de canções que a outro intérprete poderia soar estranho, nela (neles) não. As canções reunidas, a princípio, não parecem coesas. Mas no fim são costuradas por seu talento e o resultado é um disco que cumpre o papel de celebrar seus 40 anos de carreira, sem soar meramente revisionista.

Não é coletânea mas passeia por diversas fases (e/ou setores) da carreira de Elba Ramalho: a reverência à origem e aos mestres do lugar, o diálogo entre o Nordeste e outras regiões, a atenção, em igual medida, aos grandes mestres e às novas gerações – entre compositores e convidados.

Na capa e encarte, a cantora aparece envolta em bordados com o título das canções do disco, como se a elas pertencesse seu corpo e vice-versa. E de algum modo é justamente disso que se trata: desde sempre ela se apropria do que canta.

Há canções inéditas, regravações de temas bastante populares e de músicas menos conhecidas. Entre as primeiras, Calcanhar (Yuri Queiroga/ Manuca Bandini) e a faixa-título (Yuri Queiroga/ Lula Queiroga, de onde pesco o verso que intitula esta resenha); na coluna do meio, Girassol (Pedro Luís/ Bino Farias/ Toni Garrido/ Lazão/ Da Gama), sucesso do grupo Cidade Negra, regravada com arranjo e regência de cordas de Arthur Verocai, Além da última estrela (Dominguinhos/ Fausto Nilo), gravada originalmente por Maria Bethânia, aqui relida com a sanfona de Mestrinho, Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz/ Paulo Tatit/ João Bandeira) e O fole roncou (Luiz Gonzaga/ Nelson Valença); e entre as últimas o reggae Princesa do meu lugar (Belchior), antes gravado por Amelinha, O mundo (André Abujamra) – que conta com as participações especiais de Roberta Sá, Maria Gadu e Lucy Alves – e José (Siba), faixa inaugural do grupo pernambucano Mestre Ambrósio.

É disco que exala nordestinidade, calcada no reggae, mais explicitamente ou se valendo da proximidade das células rítmicas jamaicanas com gêneros nordestinos como o xote, entre outros agrupados no amplo guarda-chuva que se convencionou chamar simplesmente forró.

Por falar em forró, merece destaque Oxente, parceria de Chico César e Marcelo Jeneci, que participa da faixa (sanfona, synth e vocal).

O sobrenome Queiroga é central em O ouro do pó da estrada: Lula é autor de Girassol da caverna e da faixa-título, esta em parceria com o filho Yuri (que pilota diversos instrumentos no álbum), autor também de Calcanhar (com Manuca Bandini e texto incidental de Bráulio Tavares), que abre o disco, com a adesão dA Barca dos Corações Partidos (presente também em José), além de dividir arranjos e produção com Tostão Queiroga (que toca bateria).

O par final de faixas, José e O fole roncou, (re)liga a paraibana ao movimento (pernambucano) mangueBit, de que o Mestre Ambrósio foi representante e Luiz Gonzaga inspiração, com os forrós ponteados pelas guitarras de Yuri Queiroga.

Estradas de chão e o pó que delas sobe quando nelas pisamos, a evocar, certamente não inconscientemente, as salas de reboco de que falava o rei do baião, são obsessões particulares de Elba Ramalho neste repertório. “Até no chão/ no chão de areia/ quente pedra eu vou pisar/ eu vou seguir você até doer o calcanhar”, diz a letra de Calcanhar; em Na areia (Juliano Holanda), com arranjo e regência de cordas de Zé Américo Bastos, canta: “Eu sei que a vida é breve/ e não tarda a passar/ Deixo cair de leve/ que é pra não quebrar/ o silêncio pisando bem devagar/ cuida pra não apagar/ o caminho que eu fiz na areia”; e “Meu olho adora/ o ouro do pó da estrada/ eu não preciso do fim pra chegar”, diz na faixa-título.

Senhora de si, o trem da vida certamente ainda reservará várias estações à produtiva carreira de Elba Ramalho, para alegria de seu fã clube.

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Veja o lyric vídeo da faixa-título:

Salve o compositor Ernesto Cardenal!

Homem de vícios antigos conversou com Zé Modesto, parceiro do sacerdote nicaraguense recém-reabilitado pela Igreja Católica; disco de estreia do paulista – que tem parceria dos dois – completa 15 anos em 2019

Sábado passado (16), o religioso hispano-brasileiro Dom Pedro Casaldáliga completou 91 anos. Radicado em São Félix do Araguaia/MT, um dos ícones da Teologia da Libertação, ele gravou, com o também poeta Pedro Tierra e o cantor e compositor Milton Nascimento, o álbum Missa dos Quilombos (1982). Por ocasião de seu aniversário, Gisa Franco e eu tocamos uma faixa do álbum no Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, na data.

O sacerdote, poeta e revolucionário Ernesto Cardenal. Foto: divulgação

Ontem (18), li na coluna de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo, a notícia de que Mário Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, havia reabilitado o nonagenário Ernesto Cardenal, nicaraguense, outra referência da Teologia da Libertação na América Latina. Em comum, os dois sacerdotes têm o apreço pela poesia, não são burocratas da religião. Dedicaram suas caminhadas ao povo, sobretudo o mais humilde, em busca de uma sociedade mais justa, no que se juntam a nomes como os de Leonardo Boff (1938) e Frei Betto (1944), além de mártires como Dom Oscar Romero (1917-1980), Irmã Dorothy Stang (1931-2005), Frei Tito (1945-1974) e Pe. Josimo Moraes Tavares (1953-1986).

Internado desde o início de fevereiro em um hospital de Manágua, sua cidade natal, Cardenal completou 94 anos no último dia 20 de janeiro e desde 1985 estava “sob suspensão do exercício do ministério devido a sua militância política”, “censura canônica” imposta por João Paulo II. Cardenal foi ministro da Cultura da Nicarágua no primeiro governo de Daniel Ortega (1985-1990), atual presidente da Nicarágua, eleito em 2006 e reeleito em 2011 e 2016.

Dissidente da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), o sacerdote vem sendo perseguido por Ortega desde que este reassumiu o poder em 2007 – episódio estapafúrdio foi a imposição de uma multa no valor de 800 mil dólares (o equivalente a R$ 2,9 milhões), “por supostos danos e prejuízos em disputa relacionada à posse de terrenos em Solentiname. Foi lá que Cardenal fundou sua comunidade de pescadores, camponeses e artistas primitivistas”, de acordo com o colunista da Folha. Qualquer semelhança com o que a Justiça brasileira vem fazendo com o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva não é mera coincidência.

Cardenal é considerado um dos mais importantes poetas de língua espanhola, tendo sido indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2005. 40 anos antes havia sido consagrado com o Prêmio Rubén Darío, maior honraria das letras nicaraguenses. O perdão da Igreja Católica me fez lembrar de uma pérola de sua autoria.

Esteio. Capa. Reprodução

Em 2004 o compositor paulista Zé Modesto lançou seu disco de estreia, Esteio, com participações especiais de nomes como Ceumar, Ana Leite, Kléber Albuquerque, Rubi e Renato Braz, entre outros. O disco é um primor de delicadeza, um dos melhores lançados no Brasil naquela década, com sua poesia muito particular, evocando universos urbanos e rurais, festas populares, sambas, natureza, Guimarães Rosa e… Ernesto Cardenal. Depois, o historiador e compositor paulista lançaria ainda Xiló (2007) e Ao pé do ouvido (2015), também verdadeiros artigos de ourivesaria musical, o mais recente com a participação especial das caixeiras do Divino da Família Menezes, da Casa Fanti-Ashanti, de São Luís.

Do ótimo repertório de Esteio sempre me chamou a atenção, especialmente, o choro Estrelas, registrada no álbum em dueto com sua irmã Ana Leite e com o advento do grupo Sociedade do Choro, capitaneado por Carlinhos Amaral. Pela beleza do casamento de letra e melodia, pela parceria inusitada. E volta e me comover neste baile de debutante do disco, enquanto me pergunto o porquê de ter demorado tanto a ir atrás desta história.

O historiador e compositor Zé Modesto. Foto: divulgação

Zé Modesto contou com exclusividade a Homem de vícios antigos a história da parceria: “Lá pelo início dos anos 2000 eu tive acesso a um livro do Ernesto Cardenal, que se chamava As riquezas injustas [Círculo do Livro, 1982], uma antologia poética dele, eu ganhei da minha ex-mulher. Eu sempre gostei da história da revolução nicaraguense, sempre me interessei pela ideia de ter um religioso contribuindo para um governo mais popular, sempre me interessei pela vida do Ernesto Cardenal, Dom Pedro Casaldáliga, no Brasil. São poetas e ao mesmo tempo religiosos, e ao mesmo tempo engajados em causas populares, numa utopia, num sonho de uma sociedade mais justa e assim por diante. O que acontece é que eu comecei a ler o trabalho dele e gostei muito e especialmente esse poema me deu vontade de musicar”.

O compositor tece elogios às imagens poéticas do parceiro distante: “Eu gostei demais dessa imagem que ele constrói, que “o céu estrelado é como uma cidade à noite, uma cidade vista de um avião”, então as estrelas não estão no céu, as estrelas estão nas ruas, são os mercados iluminados, são todas as luzes da noite, aí ele vai dizendo, “brancas e vermelhas dos carros que vão e vem”, o branco dos faróis, o vermelho das lanternas. Eu gosto dele falar dos lugares, de night clubs, motéis, é interessante o religioso falar dessa vida profana. Essas estrelas, numa comparação ao que são as estrelas do céu, que elas também desaparecem, essas estrelas “que se queimam por nada/ o céu estrelado é um desperdício de energia”, e é tanta energia mesmo, quando a gente olha pro céu estrelado. Ele compara com as energias daqui, que se perdem no vazio das avenidas, da vida que a gente leva aqui embaixo, e compara tudo isso com uma superprodução de Clarck Gable”.

“É uma produção curta, mas que contribui tanto para um mergulho poético nesse universo das estrelas, nessa brincadeira que ele faz, do céu e da terra. Eu gosto demais desse poema e falei: “isso aqui dá um samba”. Comecei a pensar e fui cantarolando e saiu Estrelas. Foi muito legal. Mostrei a música para as pessoas, gostaram bastante, falei: “vou gravar!”, continua.

Modesto e Cardenal nunca estiveram juntos pessoalmente. Indago-lhe sobre a burocracia para a formalização da parceria, envolvendo despachos, carimbos, assinaturas, cartórios. “Eu imaginei que fosse ter um trabalho muito grande, que ia ser muito burocrático. Consegui o contato dele, entrei em contato, a secretária dele, Luz Maria Costa, me atendeu, muito simpática, ele já era velhinho, assinou, eu tenho até hoje um documento lavrado em cartório em Manágua, da autorização dele para a publicação da música. Aí eu mandei uns discos para ele, ele gostou. Foi um atrevimento meu que acabou dando certo”.

Deus abençoe o Papa Francisco, Ernesto Cardenal, Zé Modesto e qualquer um/a que se comova diante de tanta beleza! Há quem espere por milagres extraordinários, mas como dizem os poetaços Paulo Leminski e Marcelo Montenegro, “a cor amarela é um milagre”, “uma melodia linda é um milagre”. Contentemo-nos. Não é pouco!

A seguir, leia e ouça Estrelas (letra: Ernesto Cardenal; música: Zé Modesto)

Olha as estrelas no céu, olha as estrelas
Olha as estrelas do céu, olha as estrelas

O céu estrelado é feito uma cidade de noite,
uma cidade de noite vista dum avião:
as estrelas são como ruas, são mercados iluminados,
anúncios de neon, motéis, nigth clubs, cinemas e luzes
brancas e vermelhas, dos carros que vão e vêm,
dos carros que vêm e vão pelas estradas escuras
e se queimam por nada… para nada.

O céu estrelado é um desperdício de energia,
um esbanjamento de energia na perpétua noite.
Como a energia daqui perdida no vazio
nas avenidas, lojas, cafés, nigth clubs, motéis, cinemas
com uma superprodução de Clark Gable.

 

Dinastia musical

Caetano Veloso ladeado pelos filhos Tom, Zeca e Moreno. Foto: Marcos Hermes/ Divulgação

 

Quando terminaram as gravações de Tropicália 2, em 1993, Moreno Veloso presenteou o pai com um samba de roda. O detalhe é que a letra era uma frase em inglês, o próprio título da música, que Caetano Veloso só viria a gravar quatro anos depois, em Livro: How beautiful could a being be?

Em Tropicália 2, dividido com Gilberto Gil, Caetano Veloso celebrava os 25 anos da Tropicália, contando com Moreno entre violoncelo e percussão. Ano passado, junto com o parceiro, celebrou os 50 anos de carreira, a dele iniciada em disco dividido com Gal Costa, Domingo, de 1967.

Ofertório. Capa. Reprodução

Este ano, por ocasião do meio século do movimento tropicalista, Caetano Veloso se reuniu com os filhos Moreno, Zeca e Tom Veloso e deu ao público Ofertório, um dos melhores discos lançados no país em 2018.

Outro elo com a Tropicália é o cenário de Hélio Eichbauer, que em 1967 assinou o cenário de O rei da vela, peça de José Celso Martinez Corrêa baseada no livro de Oswald de Andrade, que teve uma imagem utilizada na capa de O estrangeiro, disco que Caetano Veloso lançou em 1989. A mim, particularmente, o círculo na capa remeteu ainda a Todos os olhos (1973), de Tom Zé.

A história do presente recebido de Moreno há 25 anos se justifica: é a relação familiar que conduz o show de atmosfera idem. Estão tão à vontade que Tom se apresenta de chinela e Moreno convida o pai à dança.

Os Veloso são, de longe, uma das famílias mais musicais do Brasil, cuja história se confunde com a própria música do velho baiano, sendo às vezes explicada por ela.

Referências a parentes são explícitas desde as regravações de sucessos do compositor na voz da irmã Maria Bethânia, casos de Reconvexo e Ela e eu. Ou nas citações e homenagens diretas do próprio pai aos filhos, em Força estranha, Oração ao tempo e Boas vindas. Ou de Caetano aos pais, em Genipapo absoluto e, novamente, Reconvexo.

Ou dos filhos aos pais: a citada How beautiful could a being be?, de Moreno, e a inédita Todo homem, de Zeca.

Dignos da linhagem, os filhos de Caetano Veloso esbanjam talento, compondo, cantando e tocando. O pai ao violão vê o trio se revezar entre piano, baixo e violão (Zeca), violão e baixo (Tom) e violão, violoncelo, baixo e percussão (Moreno).

Lançado em cd e dvd, Ofertório tem 28 faixas no segundo formato e apenas a metade em cd – o único problema do lançamento: merecia um cd duplo para caber o áudio completo do show.

2018 foi um ano difícil, mas se há algo a se comemorar, o lançamento deste disco está entre o que valeu a pena. Inclusive pelo fato de parte do repertório ter sido composta e lançada no auge da ditadura de 1964, garantindo a ponte com a sucessão de golpes que temos atravessado: Alegria, alegria e O seu amor, esta de Gilberto Gil, do repertório dos Doces Bárbaros, outro quarteto com que Caetano Veloso gravou disco, a única não composta por um dos quatro cavaleiros de Ofertório.

Pedro Luís Melodia

Vale quanto pesa. Capa. Reprodução

 

Antes de falecer, Luiz Melodia deu aval a Pedro Luís para um show em homenagem ao repertório de Pérola negra, disco de estreia do artista descoberto por Gal Costa, que quebrou diversos paradigmas ao ser lançado, em 1973.

Pedro Luís circulou com o espetáculo então intitulado Pérolas negras, expandindo o repertório a outros clássicos de Luiz Melodia e a canções gravadas por ele, de compositores como Getúlio Cortes e Zé Keti.

O artista, que ganhou projeção à frente de grupos como A Parede e Monobloco, disponibilizou nas plataformas digitais na última sexta-feira (14), Vale quanto pesa [Deck, 2018], álbum que dedica ao repertório do filho de Oswaldo Melodia.

Pedro Luís regravou 80% do repertório de Pérola negra e acresceu músicas como Juventude transviada, Cara a cara e A voz do morro (Zé Keti), a única do repertório não assinada pelo homenageado, equilibrando-se entre um molho a la Melodia, reforçado pelo naipe de metais, e sua própria personalidade musical, não convencional qual o tributado.

O resultado é um disco-tributo feito por um fã confesso que certamente teria aprovação do ídolo homenageado. Por telefone, de São Paulo, Pedro Luís falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

Retrato: Nana Moraes

Vale quanto pesa começa com um deslocamento: você tira uma música da condição de integrante do repertório do Pérola negra e ela passa a dar título a teu álbum. O que motivou essa escolha?
Vale quanto pesa é uma das canções do Pérola negra, que é o primeiro álbum do Melô, que eu resolvi homenagear pela importância que ele tem não só pra mim, como para a história da música brasileira, onde está se fundando um momento, final dos anos 60, começo dos anos 70, onde os autores começam a assumir um protagonismo como intérpretes da própria obra, junto com a coisa da MPB, está se formando isso. Até os anos 50, especialmente, intérpretes eram intérpretes e autores eram autores, basicamente. Era difícil que tivesse as mesmas funções uma mesma pessoa. Então esse disco é fundante nesse sentido de ser dessa época e também de revelar um senhor compositor, muito peculiar na sua maneira de fazer poesia na canção e também um grande intérprete, com uma voz muito agradável, muito única, e que pra mim chegou muito cedo, na minha casa, no começo da adolescência. Meu cunhado, que trabalhava na indústria fonográfica, sempre trazia as novidades pra gente, antes delas chegarem às lojas, os vinis, os k7s, e foi um espetáculo, uma surpresa muito agradável ouvir esse disco tão variado e com tanta personalidade. Variado no sentido até de gêneros musicais, soluções de arranjos, o que na hora pra mim não foi decodificado, a não ser pelo embevecimento de estar vendo uma obra tão interessante que depois eu fui entender que era por que era tão variada e intensa e linda musicalmente. Ano passado eu resolvo homenagear esse disco, peço permissão a Melodia, que me perguntou o quê que eu estava esperando para fazer isso, e quando eu vou montar de fato um show, começo a pensar numas versões daquelas canções de forma a lhes reverenciar, mas que não estivesse fazendo cover delas. Reverenciar na estrutura, alguns riffs, algumas coisas dos arranjos são importantíssimas e marcantes, e quando eu vou montar isso definitivamente para apresentar então no show, marcado no Blue Note em abril desse ano, era muito pequeno, mesmo com o repertório todo e até ampliando um pouco as formas, botando algumas partes, botando solos dos músicos que eu convoquei para fazer essa missão comigo, não dava o tempo de um show. Dava o tempo de uma performance de 35 minutos no máximo. Então eu comecei a puxar outras canções do Luiz que pra mim eram importantes ou canções de outras pessoas que ele tivesse interpretado de uma maneira definitiva e comecei a montar esse repertório e comecei a chamar de Pérolas negras, esse show chamou assim, por contemplar não só o disco Pérola negra, mas também outras pérolas do Luiz. Andou a história e quando eu encontro o Rafa da [gravadora] Deck, e resolvo contar do projeto pra ele, ele acolhe imediatamente o projeto na Deck, marcamos, convenço ele que faríamos de maneira objetiva e conseguiria lançar esse ano ainda, e começamos a trocar ideias e fazer. Fomos pro estúdio, gravamos as bases muito rápido, depois fomos só fazendo detalhes nas duas, três semanas seguintes, gravando as vozes. Simultaneamente a Jane Reis, que foi companheira do Luiz durante 40 anos, está relançando a obra do Melodia, se tornou uma amiga minha, parceira na  realização disso no sentido de aprovar e me dar as devidas bênçãos e informações preciosas que eu uso até no decorrer do show como textos de histórias do Luiz. Eu achei, na verdade, que a Jane relançando a obra do Luiz, não seria muito elegante eu chamar de Pérolas negras, tendo o Pérola negra original, e resolvo buscar com o Rafa, com a Bianca Ramoneda, que é diretora não só do show, comigo, mas é também parceira da concepção visual, diretora artística, resolvemos buscar uma outra história e essa canção acabou tomando um peso tão interessante no arranjo que a gente fez, ela já vinha ao vivo muito interessante, no estúdio ganhou um corpo bem bacana, que a gente achou que era um nome forte, que traria peso e leveza, que é um pouco da concepção visual das pipas, o lance da bicicleta, que são referências das nossas origens de Zona Norte e ao mesmo tempo crianças de uma época em que a pipa e a bicicleta eram das principais brincadeiras. Vale quanto pesa virou um pouco definitivo disto.

Você falou um pouco da importância, da surpresa, do embevecimento que foi ouvir Pérola negra na época do lançamento. Você credita a esse disco alguma responsabilidade por você ter abraçado a música como profissão?
É um dos responsáveis, com certeza, apesar de ali eu não saber ainda. Mas ali eu começo a mergulhar na música. Talvez as primeiras canções que eu comecei a tocar no violão estejam nesse álbum. Estácio, eu e você é uma música que eu toco desde muito jovem, Pérola negra também, Estácio holly Estácio, são canções que fizeram parte de meu primeiro repertório no violão, para tocar nas festinhas, reuniões de amigos, reuniões de escola. E ali funda no meu imaginário uma possibilidade de fazer, de compor, de ser compositor de uma obra muito diversa sem amarras de gênero e que a poesia e a inspiração levassem para onde fosse necessário e não virar um compositor e cantor de samba ou de rock, ou do que quer que seja. Eu passeio por isso toda vez que eu quero. Acho que nesse disco é muito bacana, o Luiz era um fã da jovem guarda, um fã confesso, inclusive está em cartaz um espetáculo [Música romance – uma homenagem à Jovem Guarda] que ele concebeu sobre isso e a Jane conseguiu fazer acontecer, infelizmente ele não esteve para realizar, mas ela pegou a concepção e está conseguindo realizar. Então ele era fã disso, mas ao mesmo tempo fazia um choro como Estácio, eu e você que é uma estrutura de choro super bonita, choro-canção, e na verdade quando ele lança o Pérola negra ele foi questionado por alguns críticos mais xenófobos: “pô, mas um negro do Morro de São Carlos que não faz samba?”, ao que ele respondeu “tudo me interessa”, e esse “tudo me interessa” pra mim é um exemplo, é uma inspiração.

Você acha possível traçar um paralelo entre Luiz Melodia, esse negro que vem do Morro de São Carlos e se recusa a fazer o samba convencional, que seria, digamos assim, a gaveta que o mercado e a crítica reservavam para os negros, com o Pedro Luís, que é também um carioca, mas que faz um samba, um rock, tudo acaba interessando, mas sem ser convencional, por exemplo, nA Parede. Você enxerga isso assim?
Com certeza! Na Parede, no Monobloco, em todas as coisas que eu tenho feito, também em projetos individuais, a gente se dá essa liberdade. Quando a gente estava promovendo o primeiro disco da Parede, a gente fazia umas caminhadas, que a gente chamava de invasões pelas ruas, com percussão e megafone. A gente estava promovendo uma série de shows que a gente ia fazer no Ballroom, aliás, onde eu conheci pessoalmente o Melodia, no show dele, que foi a estreia da casa, eu fui apresentado a ele lá. Eu já era fã há muitos anos, eu já era músico, já estava trabalhando com isso. A gente estava divulgando essa temporada do Astronauta Tupy [1997] e um gringo abordou a gente na praia, a gente panfletando, e perguntou: “what kind of music you play?” [“que tipo de música vocês tocam?” em tradução livre] e o Sidon [Silva, percussionista] prontamente respondeu: “brazilian batucada with rock’n roll pressure” [“batucada brasileira com pressão rock’n roll” em tradução livre] e isso virou uma espécie de conceito, um jargão. Essa expressão aparece no encarte do Zona e progresso [2001], o terceiro disco da gente, uma foto feita num camarim no Japão, “brazilian batucada with rock’n roll pressure” pixada assim num camarim japonês, depois a gente fotografou e botou no encarte do Zona e progresso.

Você gravou o disco com uma banda enxuta, mas tem um rol de convidados bastante extenso, e isso garante, por exemplo, no uso de metais, um molho bem a la Melodia, mas com a cara de Pedro Luís. Por outro lado, você acaba regravando canções que, vamos dizer, têm versões talvez definitivas, nas vozes de Elza Soares, Gal Costa e Maria Bethânia. Qual foi a maior dificuldade de equilibrar tanta influência, tanta referência e reverência e manter tua identidade ao refazer esse repertório?
Eu acho que quando a gente vai regravar canções clássicas e canções que ficaram clássicas em determinadas interpretações, a gente vai ser sempre desafiado, a gente tem que estudar, ir buscar o que reverenciar e o que diferenciar. Foi uma busca. Como a gente foi fazendo muito ao vivo também, os meninos são ótimos, tanto o Élcio [Cáfaro, bateria e percussão], que é um cara super experiente, que tocou com Melodia, tocou também numa banda clássica da Cássia Eller, é meu amigo há muitos anos, quanto os dois meninos bem jovens, o Pedro Fonseca, nos teclados, e o Miguel Dias, no contrabaixo. Eu dei a ideia que a gente fizesse algumas reverências a coisas clássicas dos arranjos, mas buscando uma pegada mais ali desse quarteto que a gente montou, eu na guitarra, às vezes no banjo paraense [e violão], e esse trio enxuto ali de teclado, baixo e bateria. Isso já dá uma coisa diferente, dá uma coisa meio rock, meio jazz, os meninos são bem versáteis nessas linguagens. A gente já tinha uma estrutura, até conversando com o Rafael Ramos, que me convidou para fazer o disco na Deck, e eu o convidei para ser o produtor, e foi um acerto, ele se dedicou muito, encontrou naquele caminho que a gente estava indo, o jeito de fazer aquilo potente. Ao mesmo tempo a gente foi batendo bola dos músicos convidados. Já que a gente estava fazendo um disco de estúdio, a gente podia pegar aquelas estruturas, mas poder se valer de também chamar outros músicos. Quando você está vendo o show, acontece uma interação plateia-música; quando você está ouvindo um disco, se você oferece outras atmosferas, outras texturas, é quase que um cinema, você vai dar outros elementos e esses músicos convidados vieram completar uma coisa muito potente que já tinha nas concepções que a gente criou para essas canções. A gente ficou muito feliz com o resultado. Aqui no Rio a gente conseguiu que quatro dos músicos que foram convidados estejam com a gente nesse show de segunda-feira [o lançamento de Vale quanto pesa acontece amanhã (17), às 21h, no Teatro Net Rio]: o Milton Guedes [gaita], o Marlon Sette [trombone], o Felipe Ventura [violinos] e também o Paulo Rafael [guitarra]. Vai ser bacana, vamos fazer uma costura diferente do show. A gente começa sozinho, vai recebendo, vai acumulando convidados pro final. A gente está bem feliz também de poder entregar nesse show de estreia, para o público, um pouco desse privilégio que a gente teve de ser brindado com o talento desses super músicos que foram lá engrandecer o projeto.

Luiz Melodia já tinha recebido homenagens em vida das quais ele acabou participando das gravações. Lembro, particularmente, de Quem é cover de quem? [do álbum Bicho de 7 cabeças – volume 1, de 1993], de Itamar Assumpção, e Doce Melodia [do álbum Sinceramente, de 1982], de Sérgio Sampaio, que são artistas que como ele acabaram carregando esse rótulo midiático de malditos. O que você acha dessas canções e desse rótulo?
Sensacionais [as canções]. O Sérgio também foi uma grande referência pra mim. O Melodia, o Itamar e o [Jards] Macalé chegaram a fazer um show juntos, dos três malditos. Eu cheguei a ver esse show lá no Rio, numa casa chamada Rio Jazz Club, que era no subsolo do Meridian Hotel, foi muito bom, foi quando eles lançaram Quem é cover de quem?, que é sensacional, bem humorada, daquele Itamar que tinha um humor meio ácido. Eu não sei, eu acho que isso é um título ao mesmo tempo cruel, mas ao mesmo tempo curioso, por que são pessoas que não se entregam àquelas regras muito rígidas do mercado, de terem que se enquadrar num determinado lugar. São muitos caras que são assim.  Se a gente pensar, o [Gilberto] Gil e o Caetano [Veloso] são caras super diversificados também, que podem flertar lá com o rock, com o reggae e com o que se entende mais como MPB clássica, com o samba, só que não sei por que cargas d’água, eles não ficaram com esse estigma, e alguns ficam com esse estigma. Acho que eles souberam lidar bem com isso também. Uma coisa que eu acho que é ruim nisso é não dar a devida dimensão que um poeta, um compositor como Luiz Melodia merece. Ele ficou algum tempo fora do mercado, eu vejo numa geração mais jovem não entender muito quem é o Luiz Melodia, mas ao mesmo tempo reconhecem determinadas canções que estão no inconsciente coletivo, que foram ouvidas por pais ou por avós dessas pessoas mais jovens. Lamento isso, um cara tão precioso, com imagens poéticas tão fortes e originais, seja menos conhecido do que ele merecia pelas gerações mais jovens e espero poder contribuir um pouco com isso, no sentido de entregar essas canções nesse projeto de novo, já nesse mundo dos aplicativos, das plataformas virtuais, e também dos nichos, a gente fez vinil, o cd vai sair também no começo do ano que vem. Então eu espero poder ajudar o Melodia a ter o devido merecimento, que eu acho que outras pessoas estão preocupadas com isso também, a Jane com o cuidado da obra dele, vários projetos em homenagem a ele, o Prêmio da Música [Brasileira] do [Zé Maurício] Machline homenageou ele esse ano, e eu tive o privilégio de cantar Fadas dividindo o palco com Yamandu [Costa, violonista sete cordas] e Hamilton de Holanda [bandolinista] que são meus parceiríssimos. Acho que as reverências que podem vir e projetos podem dar luz a um Melodia que é fundamental. Uma coisa que me impressiona muito são as imagens poéticas das letras do Luiz. Quando eu isolo uma expressão como “vale quanto pesa”, que por acaso é título do disco, ou “devo de ir”, que é de Fadas, ou “se alguém quer matar-me de amor” [risos] e por aí, você vai tirando expressões… em Fadas então, todas as expressões poéticas que você tira dariam nomes a um disco, a um livro, a um projeto, a um filme. É impressionante a força poética que têm as expressões que o Luiz escolhe, e são muito particulares, às vezes você acha meio nonsense, mas se você acha ou não acha não importa, são muito fortes as imagens poéticas, isso é muito bonito de ver.

São literalmente pérolas.
Pérolas, pérolas.

Quando Luiz não se contenta em se fazer o que era esperado, quer dizer, o samba tradicional, e esse gesto acaba contribuindo para o rótulo de maldito, mas isso acaba sendo também, mesmo que inconscientemente, um protesto contra o racismo. Qual é o papel do negro? Naquela época era fazer samba, se a gente olhar as novelas, ainda hoje, é fazer o empregado, o subalterno. Então, infelizmente, após décadas de carreira de Melodia e após seu falecimento, o racismo continua vigente no Brasil. A gente está caminhando para um governo que parece que não vai contribuir com o combate a nada nesse sentido. Você poderia fazer um exercício de imaginação de como o Luiz Melodia se colocaria diante disso? E também qual a sua avaliação desse momento turbulento por que o Brasil passa?
O Luiz era um cara muito discreto no posicionamento político, mas ao mesmo tempo, eu acho que a própria atitude dele de escolher fazer do jeito que ele queria, quando ele quisesse, isso é uma atitude política, de certa maneira. E ter se firmado como um autor, antes mesmo do disco Pérola negra já foi reconhecido por duas das maiores intérpretes da época que continuam a ser duas das maiores intérpretes que o Brasil tem, que são a Gal Costa e a Bethânia, eu acho que isso é que dá força. Depois Zezé [Motta] também, uma cantora negra, que teve uma expressão bizarra ali nos anos 70 e 80, era uma atriz, cantora, personalidade, sex symbol, essas coisas são assim, são fundamentais para que se tire um pouco esse imagem e esse insistente racismo e evidente racismo estrutural, que é aquele que você às vezes não vê, mas que existe, que é no jeito de falar, na condescendência pela metade. O Luiz estaria sofrendo, mas com certeza ele daria uma rajada poética como resposta a isto, como Elza [Soares] nos dá, que se tornou a maior voz política, talvez, artística que nós temos no Brasil no momento, que eu tive o privilégio de fazer a direção musical do espetáculo em homenagem a ela com sete atrizes negras no palco e seis mulheres na banda, que está rodando o Brasil, espero que chegue aí. Foi uma direção musical que acabou dividida com duas das mulheres, uma que é minha assistente de direção já há algum tempo, que é a Antonia Adnet [violonista], que é integrante da banda que a gente montou, e a Larissa Luz, que é atriz convidada, que também tem uma carreira muito interessante, em franca ascensão e que tem uma voz política muito interessante, uma mulher inteligente, ligada. Isso foi muito importante justamente nessa época bizarra em que a gente está mergulhando, ver que ao mesmo tempo espetáculos como esse, onde é política, a voz do negro, das mulheres, está sendo tão bem acolhido, já quase 60 mil pessoas assistiram o espetáculo Elza, que estreou no meio do ano. Com todo esse vendaval que a gente está vendo pela frente, eu até disse esses dias, o Brasil não tem terremoto, não tem maremoto, não tem furacão, mas quem disse que precisa? A gente está vendo essas atrocidades acontecendo pela própria mão do ser humano, a gente não precisa disso. Ao mesmo tempo eu acho que são épocas em que a criatividade, a resistência, a inspiração da gente precisam estar mais ativas pra que a gente continue construindo um país que, em relação ao universo e ao mundo, é jovem e que ainda tem muito que aprender. A gente talvez tenha dado muito por garantido que tinha chegado num lugar razoável de civilidade, mas está vendo que não. Então, nós artistas, você escritor, jornalista, o bancário, o padeiro, o recepcionista do hotel onde eu estou, todos vamos ter uma missão de autoeducação e educação de nossos círculos de convivência e achar o nosso jeito. Ninguém pode achar o nosso jeito a não ser a gente. A gente vai entrar numa época mais complexa agora, onde as forças conservadoras estão aparentemente muito empoderadas, a gente não sabe até quanto, mas estão no momento. Mas como disse o Mujica [Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio], logo após o segundo turno: “não há triunfo que seja eterno nem derrota que seja definitiva”. O mundo vai andando assim, um pouco pra lá, um pouco pra cá, e quem tem que garantir uma média legal pra todo mundo somos nós, cidadãos. Por mais que essa escolha não tenha sido a minha é a escolha que a maioria dos eleitores fez. Triste. Mas vambora, é com isso que vamos ter que lidar e vamos com força, jogando com as armas possíveis pra gente, pra neutralizar as barbáries, as coisas mais radicais, eu acho que tem muita bravata também, a gente precisa entender o que vai acontecer. No que for atroz a nossos olhos e nas práticas de quem está chegando, a gente tem que descobrir as formas de resistência e de impedimento dessas coisas avançarem demais.

*

Veja o clipe da faixa-título:

O poder do samba

Saved by the drums. Capa. Reprodução

 

No antológico Samba da bênção, Vinicius de Moraes dizia ser “o branco de alma mais preta” do Brasil, reafirmando ali o seu compromisso com a valorização da cultura negra do país, sobretudo os afrossambas, desenvolvidos em parceria com o violonista Baden Powell.

O francês (de Nancy) Stéphane San Juan parece ser, musicalmente, hoje, o gringo mais brasileiro, o que se traduz (mais uma vez) logo na faixa de abertura de Saved by the drums (salvo pelos tambores, em tradução livre), seu segundo disco solo: Elegua é introduzida por berimbau e deixa clara a influência dos terreiros na música de San Juan (sobrenome que também tem tradução brasileiríssima).

San Juan é baterista da Orquestra Imperial, supergrupo surgido do encontro de cantores, compositores e instrumentistas de vertentes, gerações (e nacionalidades, no caso do baterista) distintas, a valorizar a brasilidade sonora para muito além do carnaval, no que são especialistas.

Foi na big band carioca que San Juan conheceu o baterista Wilson das Neves (1936-2017), a quem chama carinhosamente de “pai espiritual” e a quem dedica Saved by the drums. O baterista reconhece no saudoso amigo “a pessoa que me encorajou a aprofundar não apenas a minha paixão pela música brasileira, mas especialmente meu trabalho criativo como compositor”, como afirma no material de divulgação de seu novo disco. O lendário ritmista do Império Serrano, que tocou com Chico Buarque por mais de três décadas, se referia a San Juan como “o francês mais brasileiro que eu conheci”.

Saved by the drums é um amálgama jazzístico brasileiro (embora majoritariamente cantado em francês) que reúne, ao longo de suas oito faixas (em formato digital; no vinil são apenas seis), nada menos que 15 músicos, incluindo o autor e o homenageado Wilson das Neves, que emprestou sua voz à parte em português de Le jour ou descendra la favela et que ce ne sera pas le carnaval, versão em francês para sua O dia em que o morro descer e não for carnaval (parceria com Paulo César Pinheiro, que aprovou a versão, que mantém a força da mensagem política da letra).

Entre outros músicos que comparecem estão Alberto Continentino (contrabaixo em Elegua e no afrossamba e metasamba A voz que não se cala), Armando Marçal (percussão em Le jour ou descendra la favela et que ce ne sera pas le carnaval), Guto Wirtti (contrabaixo em Mon papa etait là, homenagem a Fernand San Juan (1949-2012), pai de Stéphane, e Notre histoire), Michael Leonhart (trompete), Rogê (voz e violão em A voz que não se cala, parceria dos dois), Zé Manoel (voz e wurlitzer em Notre histoire) e Zéro (voz e percussão em Elegua), alguns dos quais seus colegas de Orquestra Imperial.

Entre a Orquestra Imperial, Système de Son (2014), seu disco solo de estreia, e álbuns de nomes como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Maria Gadú, Mariana Aydar, Péricles Cavalcanti, Thaís Gulin, Thiago Pethit, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata e Zélia Duncan, Stéphane San Juan já havia dado provas de que aprendeu a lição brasileira. Wilson das Neves certamente está lisonjeado com a comovente homenagem.

Maré cheia de diversidade musical

Pé de tamarino. Capa. Reprodução

 

Uma muda plantada em uma bota colorida, tendo por pano de fundo, desfocado, uma paisagem de verde e terra, sugere o conteúdo de ar rural de Pé de tamarino [2017], disco de estreia da atriz e cantora Dênia Correia, em que registra 12 composições de Lauande Aires – seu marido –, que assina a direção geral e artística do álbum.

O primeiro verso que se ouve é “pedi licença a São José de Ribamar”, em Jenipapeiro, tambor de mina que dá mostras da reverência ao sagrado e às coisas do Maranhão que permeiam o disco, em que a artista se faz acompanhar por uma base de primeiríssima linha da música popular produzida no Maranhão: Edilson Gusmão (direção musical, arranjos, violão e contrabaixo elétrico), Rui Mário (arranjos, sanfona e teclado) e Marquinhos Carcará (percuteria).

A faixa-título, com a adesão de Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim) e coro de Cris Campos, Nuno Lilah Lisboa, Lauande Aires, Preta e da própria Dênia Correia, dá a dimensão da liberdade de seu terreiro: “meu quintal não é cercado, toda hora tem menino/ pra pegar um papagaio no meu pé de tamarino”, dizem os versos inaugurais do samba rural.

Impossível não se transportar aos quintais de cidades do interior, pelos quais vizinhos de longa data se comunicam. Na página central do encarte, o pé de Dênia pisa sobre frutos ao chão, enfeitado por uma tornozeleira. No selo do disco, um pneu à guisa de balanço, onde também se lê o título do trabalho.

A dramaticidade do tango comparece em Consciência e Flores ou bombas – esta com a intervenção de Lauande Aires recitando o poema Barricada, também de sua autoria, de conteúdo forte e apropriado para os dias de tormenta por que passa o Brasil. A entonação firme de Lauande lembra o canto falado de Lirinha no Cordel do Fogo Encantado.

Dia de santo torna ao tema da religiosidade, com a presença da voz e maracá de dona Fátima Aires “Fafá” e seus guias. “Hoje é dia de santo/ já vesti azul e branco/ pra seguir a procissão/ A boca que entoa um canto/ agradece e pede um tanto/ um tanto mais de proteção”, reza a letra, pontuada por caixas do Divino.

Coro de anjos é delicada homenagem a Humberto de Maracanã, saudoso cantador e compositor do bumba-meu-boi que lhe deu sobrenome artístico. “Bordando as escadarias/ todas as estrelas guias/ saúdam o passarinho da voz encantada”, diz a letra, aludindo ao Guriatã, apelido artístico que o passarinho emprestou ao mestre.

Apimentado tempera o forró com ares latinos, enquanto Maré cheia é vigoroso reggae sanfonado, César Nascimento fazendo escola. “O amor que corre em mim é maré cheia”, diz um verso, como a resumir Pé de tamarino: ninguém faz um disco com tão bons momentos sem amar o que faz.

A diversidade de Moska

Beleza e medo. Capa. Reprodução

 

Liminha foi um dos artífices da sonoridade do que se convencionou chamar de brock ou rock brazuca: produziu discos importantes daquela cena nos anos 1980, além de trabalhos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, não à toa os primeiros ídolos de Moska.

Não à toa, Moska também foi personagem importante daquela cena roqueira no Brasil: em meados da década de 1980 fez sucesso no rádio e tevê à frente da banda Inimigos do Rei, com seus hits Adelaide (You be illin) (I.Simmons/ R.White/ I.Mizell) e Uma barata chamada Kafka (Luiz Guilherme/ Marcelo Marques/ Paulinho Moska).

Sucessor de Loucura total, que Moska dividiu com o argentino Fito Paez, em 2015, Beleza e medo [Deck, 2018] marca o encontro de Moska e Liminha, em disco que diz muito sobre a dupla, e cujo título e os tons de cinza e vermelho dizem muito sobre o Brasil de hoje – a capa traz Moska mergulhado em local incerto, usando uma espécie de véu cor de sangue. Ele mesmo assina o projeto gráfico do disco.

A sonoridade do disco transita entre o pop do começo da carreira de Moska, a MPB que abraçou – e por quem foi abraçado –, um flerte com o reggae, escancarado em Medo do medo, parceria dele com Zélia Duncan, pontuado pelo contrabaixo do produtor Liminha (que ao longo do disco toca ainda violão 12 cordas, percussão e guitarras), em time que se completa com o próprio Moska (voz, violões e direção artística), Rodrigo Nogueira (guitarras e violão), Rodrigo Tavares (teclados), Adriano Trindade (bateria) e Adal Fonseca (bateria).

A propósito cabe destacar o leque de parceiros de Moska, ao longo das 10 faixas de Beleza e medo: além de Duncan, Carlos Rennó (com quem assina Em você eu vi, Nenhum direito a menos e Megahit) e Zeca Baleiro (Pela milésima vez).

O “que beleza” entoado na abertura de Que beleza, a beleza (Moska) evoca a “imunização racional” de Tim Maia, em faixa que versa sobre o belo, passando por indagações como “a tinta vibra quanto pinta a tela?/ o que Picasso achava de Dali?” e especulações como “ouvi dizer que Darwin passou mal/ sentindo um pouco de irritação/ olhando a cauda de um pavão real/ mudar sua ideia de evolução”.

Megahit é encontro de especialistas no assunto: Moska e Rennó são dois dos maiores hitmakers que o Brasil já conheceu. “Você não sai da minha cabeça/ como canção que toca à beça/ toca em excesso, é um puta sucesso/ um megahit”, começa a letra, que tem tudo para se tornar um.

Outra parceria da dupla, Nenhum direito a menos é incisiva e direta, marca particular da produção mais recente do letrista Rennó. Toca em feridas escancaradas pela invasão de Michel Temer ao Palácio do Planalto, após o golpe perpetrado por seus comparsas que depôs Dilma Rousseff. “Nesse momento de gritante retrocesso/ de um temerário e incompetente mau congresso/ em que poderes ainda mais podres que antes/ põem em liquidação direitos importantes/ eu quero diante desses homens tão obscenos/ poder gritar de coração e peito plenos:/ não quero mais nenhum direito a menos”, mandam direto, com direito a trocadilho cristalino, logo na primeira estrofe.

Minha lágrima salta (Moska), que fecha o disco, é sobre um fim de relacionamento. Tomara que em pouco tempo não se configurem politicamente proféticos os versos “porque um vazio foi se construindo em nós/ ficou distante pra escutar alguma voz/ e fomos desaparecendo sem ninguém desconfiar”.

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Ouça Beleza e medo:

Um compositor de grandes canções

Retrato: Mayra Lins. Selo Sesc. Divulgação

 

Em 1985, interpretada por Tetê Espíndola no Festival dos Festivais da Rede Globo, Escrito nas estrelas, parceria de Carlos Rennó com Arnaldo Black, tornou-se para sempre um hit radiofônico, graças à vitória naquele certame. Muita gente até hoje assovia a música, que abre com os versos “você pra mim foi o sol/ de uma noite sem fim”, imortalizados pelos agudos da cantora sulmatogrossense, quase sempre sem saber quem são seus autores.

Nascido em São José dos Campos/SP em 29 de janeiro de 1956, Carlos Rennó é compositor, escritor e jornalista, tendo trabalhado na década de 1980 no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Em 1996 organizou Todas as letras: Gilberto Gil [Companhia das Letras]. Em 2000 assinou a produção artística do disco Cole Porter, George Gershwin: canções e versões [Geleia Geral], com composições do norte-americanos vertidas ao português e interpretadas por nomes como Caetano Veloso, Cássia Eller, Chico Buarque, Elza Soares, Rita Lee e Tom Zé, entre outros.

Carlos Rennó conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. O telefonema aconteceu em agosto, após a entrevista ser adiada algumas vezes diante da agenda apertada do artista, às voltas com novos projetos. O mote: suas canções de letras quilométricas que têm lançado um olhar poético e político sobre diversos temas da realidade brasileira.

Modestamente, digo sem medo de errar: Carlos Rennó é o autor das maiores canções brasileiras do século 21. E não me refiro apenas à extensão de suas letras. Ao blogue ele falou sobre esta faceta mais recente de sua obra, parcerias, política, além de disco e livro que pretende lançar ainda este ano.

Você ficou bastante conhecido graças ao sucesso de Escrito nas estrelas, parceria com Arnaldo Black, gravada pela Tetê Espíndola em 1985, vencedora do Festival dos Festivais da Rede Globo. Outra faceta que merece destaque no campo musical de tua carreira, que a gente sabe que tem outras vertentes, jornalista, escritor, é o trabalho como versionista, sobretudo do cancioneiro americano. Como é que tem sido nos últimos tempos se dedicar a mergulhos de maior fôlego como letrista?
Tem sido a tônica do meu trabalho. Nos últimos anos é um aspecto a se destacar em meu trabalho, a criação de determinadas canções de temática política, escorada em letras longas, algumas bastante longas, como foram os casos de Reis do agronegócio, com Chico César, e também com Chico César, Demarcação já!, que foi gravada por 23 cantores, defendendo a causa indígena principal, que é a de demarcação de terras, e este ano, Manifestação, uma letra também de mais de 100 versos, a exemplo de Demarcação já!, que foi musicada por três parceiros, o Russo Passapusso, do BaianaSystem, o Rincon Sapiência, que fez a parte do meio, que é de rap, ele fez a divisão ali, e o Xuxa Levy, que fez a melodia do refrão e foi o produtor da música, que teve a gravação de 30 vozes. Mais recentemente, saiu o quê?, há duas semanas, Nenhum direito a menos, com o Paulinho Moska, que é uma canção mais curta.

Mais curta, mas ainda assim longa [risos].
É. Considerando a extensão média das canções é notoriamente mais longa. Isso tem marcado meu trabalho nos últimos anos. Antes de Reis do agronegócio teve Quede água, com Lenine.

Eu estava lembrando, além dessas que você falou, de Todas elas juntas num só ser, que não é essencialmente política, mas que a letra também é longa.
É, já é de 2005.

Um aspecto que eu ia destacar nessas tuas composições, é que elas estão entre as maiores, tanto em qualidade quanto em duração, em termos de tempo, fugindo do padrão radiofônico, e de versos, não é uma coisa de uma introdução longa ou um improviso de um músico pelo meio, quer dizer, o tempo que elas têm, as que têm seis minutos, as que têm 10 minutos, elas são o tempo todo cantadas. Então: letras longas, como você já frisou. Isso as coloca, em minha opinião, entre as maiores canções já escritas no século 21 no Brasil.
Em extensão, você quer dizer.

Em extensão e em qualidade, eu arrisco dizer.
Puxa, eu agradeço seu elogio [risos]. Em termos de extensão de versos não há dúvida, não há dúvida. Reis do agronegócio tem 96 versos, Demarcação já! tem 114, Manifestação, 117.

Como foi chegar nesse padrão? Se bem que não dá para falar em padrão por que cada música tem uma história, mesmo elas transitando nessa seara mais política, mas como é que foi pensar nesse formato mais longo?
Eu tinha uma tendência a fazer letras longas, por influência de alguns compositores importantes na minha formação, compositores letristas, como Cole Porter, como Bob Dylan, e mesmo Caetano, Chico Buarque, que têm algumas letras compridas. E aí aconteceu o seguinte: até um período, até metade da minha carreira desenvolvida até hoje, eu mais escrevia letras sobre música pré-existente do que o contrário. E aí eu passei a fazer, a partir de um determinado momento, mais letras sem música, para serem musicadas. E aí nesse processo, influi mais no meu trabalho de compositor a formação literária. A formação e a informação literária, de poesia. E aí eu tendo a fazer letras mais longas, por causa da influência de alguns poetas e de alguns poetas de música, entre os quais eu citei alguns, que tendem a fazer letras longas, ou poemas longos, e versos metrificados. Então minhas letras tendem a ter, quando feitas antes de uma melodia pré-existente, elas tendem a ter um formato fixo de estrofes e de versos metrificados. É o caso de Nenhum direito a menos, por exemplo, são seis sextilhas, não seguindo rigorosamente a regra da sextilha, por que tem rimas emparelhadas, o final do primeiro [verso rimando] com o final do segundo, o final do terceiro com o final do quarto e o final do quinto com o final do sexto. E aí além das seis sextilhas, um verso que é o refrão, então são cinco estrofes de seis versos mais o refrão. No caso de Manifestação também tem uma fórmula rigorosa que eu estabeleci antes de escrever a letra, ou no começo de quando eu estava escrevendo. Tem três partes: a primeira parte, 10 redondilhas maiores, versos de sete sílabas, que é a parte cantada, a melodia, aí vêm duas estrofes de oito versos, são decassilábicas, às vezes dodecassílabos, que é a parte do rap, e aí o refrão, um refrão curto de três versos mais curtos.

Rennó, quando eu te provoquei a falar, o mote eram essas cinco letras longas, incluindo Todas elas juntas num só ser, que é menos política, e no meio saiu Nenhum direito a menos.
Teve também Ecos do ão, com Lenine, além de outras com Lenine, É fogo, isso é só o começo.

Essas que a gente citou, além das que você citou agora, Todas elas juntas num só ser, Quede água, Reis do agronegócio, Demarcação já!, Manifestação, e agora Nenhum direito a menos, todas elas primeiro letra depois melodia feita pelos parceiros?
Isso.

No caso de Manifestação e, antes, Demarcação já!, a experiência de gravar com um grande número de artistas, como é que é arregimentar esses times? Eu acompanho pelas redes sociais e você acaba se envolvendo muito com a produção das faixas. Como é essa experiência?
Eu realmente acabo sendo produtor artístico. Para alguns isso é muito difícil de fazer, não têm paciência para isso. É um trabalho que realmente requer paciência, não só paciência. Eu faço com certa naturalidade. Trata-se de projetos meus, projetos que saíram da minha cabeça, e eu sei que se eu não fizer esse trabalho de convidar um a um os artistas e ficar em contato, com produtor, ir a shows, eventualmente tenho que fazer isso, ir a shows de artistas para falar com eles pessoalmente, o que não é um problema, por que se são artistas que eu quero para um projeto meu são artistas cujo trabalho eu aprecio, então é um prazer ver o show. Mas às vezes isso é por trabalho mesmo. Então é um trabalho trabalhoso esse da produção artística, mas que eu faço por que se vincula a projetos que eu concebi.

No caso de Manifestação, o que veio antes, a letra dela ou a decisão de ela servir às comemorações de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Anistia Internacional?
Ah, não, veio antes a letra. O que aconteceu foi o seguinte: um ano antes eu tinha feito Demarcação já!, na verdade um ano e meio antes eu tinha composto Demarcação já! e vieram umas pessoas, uns ativistas do Greenpeace aqui em casa, para conhecer uma canção minha com [o guitarrista paraense] Felipe Cordeiro sobre hidrelétricas da Amazônia, canção essa que vai sair agora num cd que eu vou lançar com canções minhas em setembro, pelo Selo Sesc, e eles acabaram conhecendo uma gravação demo que eu tinha de Demarcação já! A canção ia ao encontro de uma campanha que o Greenpeace tinha pela demarcação de terras indígenas. Por isso acabou servindo a essa campanha e o Greenpeace se tornou um grande parceiro na produção da música, do vídeo, que ficou maravilhoso, aqueles artistas incríveis. No caso de Manifestação foi a mesma coisa: eu estou escrevendo Demarcação já!, eu comecei a trabalhar em Manifestação. Inicialmente me dediquei quatro meses exclusivamente à feitura da letra e quando eu tinha a coisa em mente e à medida em que fui fazendo a letra, o que eu tinha em mente, dentro do tema, de assunto, de causa, se confirmou. E aí eu vi que aquilo combinava com a campanha da Anistia Internacional por direitos humanos da mesma forma que a letra de Demarcação já! combinava com a campanha do Greenpeace pela demarcação de terras indígenas. Aí eu já conhecia uma ativista da Anistia, a Jandira Queiroz, que eu conheci na casa de uma amiga comum, a cantora Luciana Oliveira, e apresentei pra ela a ideia e ela achou ótima. Eu já tinha inclusive falado um trechinho pra ela da letra, e aí o pessoal da Anistia curtiu e foi ótimo, deu certo. Mas sempre assim: a canção pré-existiu em relação ao projeto, à parceria, à utilização da música para campanhas dessas duas organizações.

A gente vê nessas obras todas que são o mote principal dessa entrevista uma preocupação profunda e constante com a necessidade de uma tomada de posição. Você toca em temas muito sensíveis da realidade brasileira: demarcação de terras indígenas, o esgotamento dos recursos hídricos, são várias pautas pelas quais você passeia nessas canções de fôlego maior. Como você enxerga o papel do artista diante de tantos desmandos? O Brasil vive um momento terrível de sua história, você tem se posicionado. Você acha que o artista tem essa obrigação ou deveria ter? Como você avalia isso?
Eu não acho que o artista tenha obrigação de expressar em seu trabalho uma preocupação, uma visão, uma sensibilidade em relação a esses aspectos da realidade brasileira. Não tem a obrigação disso. Mas ele pode ter, não é? [risos]. No meu caso, sim, existe essa preocupação em comentar poeticamente na arte que eu pratico, a arte da canção popular, que eu considero importante, o que está acontecendo no plano social, político, no Brasil e no mundo.

Entre as participações de Demarcação já! está a Sônia Guajajara, que hoje é pré-candidata a vice-presidente da república, na chapa encabeçada pelo Guilherme Boulos. Como você está sentindo esse momento de Brasil, desde que Dilma foi tirada do poder, Temer assumiu e Lula foi preso? Vem uma eleição com uma ameaça real de um candidato reacionário, de extrema-direita. A eventual eleição de Bolsonaro seria o Brasil ter uma nova ditadura, agora pela via do voto.
O Brasil vive um grande retrocesso no plano da mentalidade social e no plano político, econômico. É algo para tirar o que chamam de esperanças, a curto e a médio prazo. É uma onda de direita que vem tomando conta não só do Brasil e isso é muito ruim para o que já foi conquistado e vem se perdendo. A melhor coisa nesse quadro eu acho justamente a candidatura da Sônia Guajajara, pelo que significa, pelo que ela simboliza. Uma candidata indígena e só mesmo talvez uma candidata indígena para ter a consciência ao mesmo tempo social e ambiental que necessariamente um político tem que ter hoje no mundo, não só no Brasil. Particularmente no Brasil por que nós temos aqui caminhando juntas uma desigualdade social abissal e uma devastação avassaladora, coisas a que a nossa sociedade assiste dormindo. Particularmente a devastação ambiental. Não há uma consciência aguda disso e lamentavelmente não há uma consciência disso, nem na esquerda, haja vista governos que tivemos, do PT, de Lula e Dilma, que, se por um lado fizeram totalmente o que um governo tinha que fazer desde o começo da história do Brasil independente, ou seja, olharam e fizeram pelas classes desfavorecidas o que nunca ninguém havia feito, por outro lado, do ponto de vista ambiental, eles foram governos que agiram igualzinho aos governos de direita. Por que, justamente, a sensibilidade ambiental prevalente no PT é uma visão de desenvolvimento idêntica à da direita. Entende? Que não leva em conta o fato de que a natureza se meta, a coisa do crescimento, que é algo tipicamente capitalista. O capitalismo quer sempre indefinida e infinitamente crescer e crescer e crescer. Isso não é mais possível. Tem que se pensar em salvar o planeta, a civilização, a maior parte da humanidade, incluindo os excluídos. Por que se forem incluir os excluídos, como sugere a letra de Manifestação, aí só resta uma coisa: acabar a desigualdade. Pra salvar o mundo é preciso acabar com a desigualdade. De um lado a riqueza, o acúmulo e o desperdício de riqueza pelas classes dominantes no Brasil e no mundo são absurdos. E a gente sabe há muito tempo que o que eles acumulam e desperdiçam daria muito bem para não só para matar a fome dos famintos, mas para dar educação para todos. A conjugação de social e ambiental nunca foi tão premente. Na verdade já é há 20 anos, mas a sociedade assiste à devastação dormindo, como eu disse. Incluindo a esquerda, boa parte da esquerda. Então, nesse quadro, a chegada de uma política como a Sônia Guajajara, que para mim não é vice-presidente, ela é copresidente, junto com o Boulos, essa chegada, pra mim, é pra ser celebrada, por que ela representa uma política de fato feminina, que é a única coisa capaz de salvar nosso futuro de uma característica prevalentemente catastrófica. Uma política feminina, ou seja, que leve em conta [enfático:] a mulher que é a mãe natureza. Mãe natureza por que é mulher. A política desenvolvimentista destrutivista da natureza é uma política machista. E é a que prevalece na esquerda [risos]. Lamentavelmente.

Portanto é tua chapa?
É, é a minha chapa. É em quem eu vou votar no primeiro turno.

Eu queria destacar outro aspecto da Sônia Guajajara. Além de tudo que você enumerou, é maranhense. Qual a tua relação com o Maranhão? O que você conhece daqui, gosta?
Eu fui aí apenas uma vez. Não faz muito tempo, gostei muito. Fiquei assim de voltar, conheci as pessoas que me levaram, muito legais, amigas. Gostei de São Luís, fui a Pinheiro, curti também. Eu gostei muito do que vi e senti aí. Maranhão, da minha amiga Sônia Guajajara [risos].

Poesia – Canções de Carlos Rennó. Capa. Reprodução

Para fechar: essa entrevista demorou um pouco a acontecer, você estava sempre com a agenda lotada, me pedia uma semana, outra. Mas finalmente aconteceu. Essa agenda lotada indica que você está aprontando coisa. O que vem aí de Carlos Rennó, em 2018, 2019?
[Risos] Pois é, eu estou muito ocupado mesmo com a realização de alguns projetos importantes. Um reúne um disco pelo Selo Sesc [Poesia – Canções de Carlos Rennó, R$ 20], comemorando 40 anos da primeira gravação de uma canção minha [Pássaro no cerrado, de 1978]. Vai sair pelo Selo Sesc com vários parceiros, são 16 faixas e parcerias que vão de Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola a Lenine, Chico César, Moska, Gilberto Gil, João Bosco, Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Moreno Veloso. É um disco que vai sair junto com um livro, pela Perspectiva, com letras minhas, com boa parte da minha produção de letras. Esse livro, por sua vez, vai trazer embutido um álbum digital, com mais cerca de 16 canções, com vários parceiros. Eu estou às voltas com a finalização disso, desse disco e desse livro, com a preparação do show, hoje mesmo nesse momento, desligando o telefone aqui, eu vou estar às voltas com a necessidade de resolver problemas urgentes sobre esse show, a definição do elenco, vai ter uns oito artistas nesse show, então eu estou às voltas com esses trabalhos todos nesse momento [nota tardia do blogue: os shows aconteceram dias 26 – com Moreno Veloso, Chico César, Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola – e 27 de setembro – com Marcelo Jeneci, José Miguel Wisnik, Moreno Veloso, Tetê Espíndola, Ellen Oléria e Rubi – no Sesc Bom Retiro, em São Paulo].

Ouça Poesia – Canções de Carlos Rennó: