Uma Céu mais selvagem

O Festival BR-135 acontece entre os próximos dias 28 e 30 de novembro, nas Praças Maria Aragão e Gonçalves Dias, no Centro de São Luís. O evento é realizado desde 2012, com produção do duo Criolina – Alê Muniz e Luciana Simões –, que esteve ontem em São Paulo para a premiação do edital Natura Musical, que selecionou o Conecta Música (braço formativo do festival) como uma das iniciativas contempladas para o ano de 2020.

Mês passado, o festival, em sua versão instrumental, chegou a Imperatriz, com atrações como Bixiga 70, Guitarrada das Manas, Camarones Orquestra Guitarrística e Manoel Cordeiro, entre outros; em 2017 o BR-135 teve pela primeira vez uma versão instrumental e este ano foi a primeira vez que o festival saiu de São Luís.

Um dos destaques entre as atrações da edição deste ano é a cantora Céu, cuja última apresentação em São Luís aconteceu justamente em 2014, no Teatro Arthur Azevedo, na programação do Festival BR-135.

Apká!. Capa. Reprodução
Apká!. Capa. Reprodução

A paulista lançou recentemente seu mais novo disco, Apká! [Urban Jungle/ Slap, 2019] base do repertório do show que apresenta na ilha, dia 30/11, às 23h, na Praça Maria Aragão. No mesmo dia, às 14h30, ela participa da programação do Conecta Música, em bate-papo mediado pela jornalista Andréa Oliveira, sobre “Mulher, criação musical e maternidade”, na Sala Japiaçu (Grand São Luís Hotel, Praça Pedro II, Centro). Toda a programação é gratuita.

Por e-mail, Céu conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Fábio Audi/ Divulgação
Retrato: Fábio Audi/ Divulgação

Homem de vícios antigos – Qual a expectativa em voltar ao BR-135 em São Luís? Quais as suas lembranças do show anterior e da cidade?
Céu – Muita alegria em voltar pra São Luís, em reviver o festival, em poder dividir com essa terra linda meu som novo. É um lugar de muitas belezas, muita história, muita musicalidade, e que infelizmente eu vou menos do que gostaria.

Apká é uma expressão de surpresa usada por seu filho, mas bem poderia ser um termo indígena. Seu disco foi apontado como político, ao lado dos lançamentos de Chico César [O amor é um ato revolucionário, 2019] e Siba [Coruja muda, 2019]. Parece impossível não ser político no Brasil de 2019, não é? Como você tem acompanhado esse cenário, de avanço da extrema direita e sucessivos golpes, não apenas no Brasil?
E parece que é mesmo, descobri depois de já ter decidido que seria esse o título do meu álbum. Apká foi também apontada como uma palavra tupi, algo como “cadeira sagrada”, mas essa informação não me veio de forma muito segura, não tenho como certificar… Mas achei muito bonito. De qualquer maneira, foi um ano muito intenso, na verdade desde um tempo já as coisas estão caminhando para esse caos. Mas acredito que para acontecer uma revolução profunda, pilares muito estruturais precisam ser rompidos. E portanto o estrondo será enorme. Assistiremos e seremos parte mesmo de uma guerra anunciada, fruto de anos de descaso, corrupção, poder, descuido com tudo, com nós mesmos, com o meio ambiente, enfim. É grave. Mas mesmo assim sou uma otimista, acredito numa geração mais consciente.

O show no festival será baseado no repertório de Apká! ou um passeio por sucessos? O que o público ludovicense pode esperar?
Será um show bem quente, passeando bastante pelo disco novo mas sem deixar de lado canções dos outros também… Devo cantar um reggaezinho a mais… Afinal, né?

Seu disco novo mantém a parceria com Herve Salters [tecladista, compositor, cantor e produtor francês do General Elektriks] e Pupilo [ex-Nação Zumbi, baterista, marido de Céu]. Quais as principais aproximações e distanciamentos você apontaria entre Apká! e Tropix, sendo que aquele não é uma continuação deste?
Aproximação pela equipe mesmo, maravilhosos alquimistas, produtores sagazes e capazes de entender e gerenciar as minhas loucurinhas musicais. Isso não é fácil de achar, essa química… Mas penso que Apká! é um disco menos cerimonioso do que o Tropix, acho que aqui eles já se conheciam bem e sabiam pra quem estavam tocando a bola, sabe? No Tropix eles estavam ainda com mais cerimônia, tem algo mais hi-fi, mais definido, que amo também… Acho o Apká! mais selvagem. E traz referencias de soul e punk ao mesmo tempo.

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Veja o clipe de Coreto:

Ouça Apká!:

Gildomar Marinho apresenta inéditas em show em São Luís

Músico grava novo disco na ilha e se apresenta no Buriteco Café, dia 1º

O cantor e compositor Gildomar Marinho. Foto: Rômulo Santos
O cantor e compositor Gildomar Marinho. Foto: Rômulo Santos

Maranhense radicado em Fortaleza/CE, o cantor, compositor e violonista Gildomar Marinho foi recentemente agraciado com o Prêmio Grão de Música Popular Brasileira, em cerimônia realizada na Sala Olido, em São Paulo. Ele está na coletânea deste ano do prêmio, a que comparecem também nomes como Alessandra Leão, Josyara Lélis, Marlui Miranda, Mateus Sartori e Rolando Boldrin, entre outros.

Gildomar teve escolhida sua Alegoria de saudade, samba-choro de seu disco de estreia, Olho de boi (2009), gravada com a adesão da mineira Ceumar, que este ano completa 20 anos de carreira e acaba de lançar disco novo, Espiral (Circus, 2019).

Disco novo – Gildomar está em São Luís, onde grava novo disco, Estradar. Trata-se do sexto disco de sua carreira, embora o fã clube só tenha ouvido três: o citado Olho de boi, Pedra de cantaria (2010) e Tocantes (2013). É que, embora gravados há alguns anos, Porta sentidos e Mar do Gil permaneciam inéditos e somente agora serão disponibilizados pelo artista nas plataformas digitais.

“Não era falta de vontade de lançá-los antes. É que ficamos durante muito tempo acalentando o sonho de lançá-los em cd, em suporte físico, já que sou um artista à moda antiga. Mas as condições não favoreceram e não faria sentido gravar disco novo tendo inéditos na gaveta, então vamos colocar no mundo como é possível”, revelou Gildomar.

O disco novo será uma volta às origens sonoras. “Sou maranhense e entre idas e vindas entre o Ceará e o Maranhão por conta do trabalho [ele é bancário], gravei meu primeiro disco no Maranhão, com músicos maranhenses; todos os outros foram gravados no Ceará, com músicos cearenses, embora eu nunca tenha escondido minhas raízes. Mas sentia que era hora de fazer algo com os pés nos terreiros do Maranhão e para isso eu convidei o experimentado [percussionista] Luiz Cláudio“, antecipa Gildomar sobre o trabalho que terá por base os ritmos da cultura popular do Maranhão.

Show – Aproveitando a passagem pela Ilha, Gildomar Marinho se apresenta nesta sexta-feira (1º.) no Buriteco Café, às 19h. A base do repertório são músicas autorais, entre faixas de seus discos e inéditas. O artista será acompanhado por Luiz Cláudio (percussão). “É sempre um prazer tocar para os conterrâneos. Não podia perder a oportunidade. Como eu e Luiz estaremos em estúdio, descansaremos carregando pedra: nos intervalos das gravações a gente ensaia para apresentar um show bonito, entre músicas de meus álbuns, teste de repertório, antecipando ao público o que virá em Estradar e clássicos da MPB, revelando e reverenciando artistas de minha predileção, nomes importantes em minha formação”, antecipa Gildomar.

Serviço

O quê/quem: show de Gildomar Marinho
Onde: Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande)
Quando: sexta-feira (1º./11), às 19h
Quanto: R$ 10,00 (couvert artístico individual)

Acontece hoje (29) última sessão de show de Zeca Baleiro para crianças

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Zoró Zureta é um espetáculo comovente. Um show para crianças de todas as idades, com o perdão do clichê. Reúne canções dos dois álbuns infantis – que dão nome ao show – de Zeca Baleiro, numa apresentação interativa, entre parlendas, trava-línguas e preferências no universo das histórias infantis.

Ainda em São Luís, antes de se mudar para São Paulo e ganhar o merecido reconhecimento nacional, o cantor e compositor começou a carreira compondo para trilhas de teatro infantil. Zoró Zureta é, portanto, uma volta às origens.

Quando se tornou pai, Baleiro não ninava os dois filhos com cantigas tradicionais. Compunha suas próprias cantigas, a partir de observações, por vezes poéticas, dos próprios filhos.

“Uma vez a gente estava viajando e no avião meu filho apontou: “olha, pai, uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele viu de um modo poético. Aliás, a única fase em que as pessoas podem ser malucas sem correr o risco de internação é na infância”, disse o artista em entrevista coletiva, quinta-feira passada.

A música infantil produzida por Baleiro irmana-se em conteúdo e qualidade às experiências de artistas como Adriana Partimpim (a Adriana Calcanhotto para crianças), o grupo Pequeno Cidadão (que reúne pais e filhos artistas, entre nomes como Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra e Taciana Barros), Palavra Cantada (Paulo Tatit e Sandra Peres) e a “música de brinquedo” do Pato Fu.

Alguns dos citados, no entanto, não necessariamente compõem para crianças, mas dão uma roupagem infantil a um repertório consagrado, casos, particularmente de Partimpim e Pato Fu – estes últimos tocam um repertório que vai de Tim Maia a Roberto Carlos, passando por Ritchie e Queen, entre muitos outros, com instrumentos de brinquedo.

“O problema da música produzida para crianças, em geral, é tratar as crianças como seres desprovidos de inteligência, débeis mentais”, afirmou Zeca Baleiro, que cita entre suas preferências na produção musical para a petizada discos como Vila Sésamo (trilha sonora do programa televisivo), Os Saltimbancos (versões de Chico Buarque para músicas do argentino Luis Enriquez Bacalov e do italiano Sergio Bardotti) e Arca de Noé (composições de Vinicius de Moraes), “eu sou antigo”, diverte-se.

A música de Baleiro passeia entre bichos esquisitos – tema de Zoró, primeiro álbum infantil de sua carreira –, brincadeiras, e temas menos infantis, como a questão ambiental (tema de Pula canguru, que “quer ir pro Tibete/ pra virar guru”, mas acaba virando gari para ajudar a limpar “este mundo imundo”), além de personagens – Coitado do lobo mau homenageia “um personagem por quem eu tenho muito carinho; ele é malvado, mas sempre se dá mal no fim das histórias”, revelou.

Com pouco mais de uma hora, Zoró Zureta tem coreografias, algumas músicas são executadas com a exibição dos videoclipes e um capricho cênico-visual: quando vai cantar A filha do ogro, ele senta-se numa poltrona, toma nas mãos um livro enorme em cuja capa se lê “Histórias que a vovó contava” e é cercado pelas vocalistas com quem divide o espetáculo; quando cantam Girafa rastafári usam toucas com as cores da bandeira jamaicana e dreadlocks postiços.

Três das vocalistas – Simone Julian (flauta, flautim e saxofone), Tata Fernandes (percussão) e Vange Milliet (percussão) – cantaram com Itamar Assumpção, o que aproxima a experiência de Zoró Zureta de Zeca Baleiro (violão e contrabaixo) da Vanguarda Paulista, sua sonoridade algo próxima de discos como os três volumes de Bicho de sete cabeças (1993), do autoapelidado Nego Dito. A banda se completa com Nô Stopa (vocal e percussão), Pedro Cunha (teclado, sanfona e programações) e Rogério Delayon (violão, guitarra, contrabaixo, bandolim e cavaquinho).

Parte da renda de Zoró Zureta será revertida em favor do projeto Canhoteiro, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Sociais e Terapias Integrativas (Iesti), que trabalha a inclusão social de crianças e jovens por meio do esporte, na Vila Tamer, região do Araçagy, em São Luís. Zeca Baleiro é padrinho do projeto, que leva o nome de um pouco conhecido jogador de futebol maranhense, a quem ele já dedicou música (em parceria com Fagner, Fausto Nilo e Celso Borges). A quarta e última sessão do espetáculo, apresentado desde ontem (28) no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece hoje (29), às 18h.

Adriana Calcanhotto gravará dvd em São Luís

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Tudo remete ao mar em Margem, show que Adriana Calcanhotto apresentou ontem (7), no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. Do cenário, um grande pano azul pendurado, fazendo às vezes de uma grande onda, a uma espécie de grande echarpe que lhe cobria o vestido preto, remetendo a uma rede de pesca – durante o show ela se desfaria de parte dela.

Margem, o novo disco, encerra a trilogia marítima de Adriana Calcanhotto, iniciada com Maritmo (1998) e continuada com Maré (2008).

Um roadie espalhafatoso, trajando uma espécie de capa amarela e gorro vermelho, lembra um personagem de filme litorâneo estrelado por Ricardo Darín. Ele entra e sai de cena a servir Adriana Calcanhotto do violão com que toca algumas músicas e instigando a plateia a acompanhar determinadas músicas batendo palmas ritmadas.

Além das nove faixas de Margem, em cerca de hora e 15 minutos de show, a gaúcha (que muita gente pensa ser carioca), repassou ainda grandes êxitos de sua carreira, como Devolva-me (Renato Barros/ Lilian Knapp), Vambora (Adriana Calcanhotto), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Mais feliz (Dé Palmeira/ Bebel Gilberto/ Cazuza) e Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi). Também exaltou o Chico Buarque de Futuros amantes.

Quando cantou Maritmo, apresentou a banda, borrifando-lhes um líquido. Enquanto eles tocavam incidentalmente Bananeira (João Donato/ Gilberto Gil), ela prestou as devidas reverências a grandes brasileiros de saudosa memória: “evoé, João Gilberto! Evoé, Marielle Franco! Evoé, Anderson [Gomes]! Evoé, Ferreira Gullar!”. E disparou, borrifando o líquido na plateia: “salvemos a Amazônia!”. Foi bastante aplaudida.

Nem os pequenos deslizes ao cantar a letra de O príncipe das marés (Péricles Cavalcanti) afastou o show do status de sublime: som e luz perfeitos, a banda irretocável, três quartos da Tono, com que Jorge Mautner gravou Não há abismo em que o Brasil caiba (2019): Bem Gil (guitarra), Bruno di Lullo (contrabaixo) e Rafael Rocha (bateria, percussão, percussão eletrônica e kazoo), “o bico doce”, como a cantora se referiu a ele, dada a qualidade de seus assovios.

O espetáculo atesta por que Adriana Calcanhotto nasceu grande ao estrear em disco com Enguiço em 1990 e consegue se manter entre os grandes da música popular brasileira quase 30 anos depois. Exuberante.

Antes de terminar, um anúncio pegou a plateia de surpresa: a cantora gostou tanto da energia ludovicense que voltará para gravar o dvd ao vivo de Margem no Teatro Arthur Azevedo. A previsão é que o novo show aconteça em dezembro.

Older than time celebra 10 anos da Canyon

Completamente autoral e cantado em inglês, álbum é recheado de referências

Older than time. Capa. Reprodução
Older than time. Capa. Reprodução

Inteiramente cantado em inglês Older than time (2019), disco de estreia da banda maranhense Canyon, tem ecos de hard rock setentista e progressivo, suas grandes influências – o lançamento do álbum celebra os 10 anos da banda.

Jobson Machado (guitarra, voz e teclado), Léo Vieira (contrabaixo), Ramon Silva (voz, guitarra, teclado e synth) e Ítalo Silva (bateria) realizaram um disco vigoroso, que será lançado neste sábado (7), em show na Fanzine (Av. Beira-Mar, Centro), a partir das 20h – na noite se apresentarão também as bandas Evil Machine e Gallo Azhuu.

“Não há montanha alta o suficiente para mim”, manda a positividade de Fight them, que abre o disco. Todas as músicas são assinadas pela banda, com letras de Ramon Silva, que assina também o projeto gráfico de Older than time.

A quilométrica Hard life é realista: “bem vindo à vida difícil: lute ou caia/ bem vindo à vida difícil: sua dor é minha dor”, diz o refrão, de recado solidário, tão necessário nestes tristes tempos.

Sorceress trata de uma mulher misteriosa, “ela é o diabo/ não chame seu nome”, nas mãos de quem um homem é apenas um peão no xadrez da vida. Sleeping lady retrata uma desilusão amorosa, como se Lupicínio Rodrigues fizesse rock – ou a Canyon abolerasse. Seus mais de oito minutos são divididos em sete partes.

Iron giant debate a robotização do homem, transformado em máquina, despido de sentimentos e pensamentos. “Obsoleto, o futuro é meu passado”, diz um verso, situando o som e a poesia da banda no triste e desesperançoso Brasil de 2019.

O tema instrumental Lunar eclipse antecede a faixa-título, que parece deslocar o som da banda a uma espécie de limbo no espaço-tempo: “o futuro não guia meus passos”, diz verso que dialoga com o Millôr Fernandes de “o Brasil tem um enorme passado pela frente”. “Eu estou aqui desde antes de todos os deuses”, diz verso que conversa com o Raul Seixas de Eu nasci há 10 mil anos atrás.

Questions no answers fecha o disco com um convite que evoca o Paulo Leminski de Distraídos venceremos: “por favor, feche seus olhos/ liberte sua mente/ momento de distração”, começa a letra, que tem trecho cantado em falsete, de uma delicadeza comovente.

Um disco à altura da merecida festa pela década de existência da banda. Merece celebração.

Serviço

Show de lançamento de Older than time, da banda Canyon. No Fanzine (Av. Beira-Mar, Centro). Dia 7 de setembro (sábado), às 20h. Na ocasião se apresentarão também as bandas Evil Machine e Gallo Azhuu. Ingressos – R$ 20,00 (inteira) e R$10,00 (meia) – à venda nas lojas Over All (Tropical Shopping) e no Bar Beco 129 (Praia Grande).

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Ouça Older than time:

Amor ao mar

Margem. Capa. Reprodução
Margem. Capa. Reprodução

 

Adriana Calcanhotto aparece mergulhada num mar de lixo – plástico, sobretudo garrafas pet – na capa de Margem (2019), disco que encerra sua trilogia “do mar” – iniciada com Maritmo (1998) e continuada em Maré (2008).

O disco dialoga com os demais dedicados ao mar – que comparece a sete das nove faixas –, entre ondas de amor, compositores de sua predileção e repertório autoral, escoltada por banda base formada por Rafael Rocha (bateria, percussão e bases eletrônicas), Bruno di Lullo (contrabaixo e synth) e Bem Gil (guitarra, guitarra acústica, violão, tres cubano, flauta).

Os ilhéus (Antonio Cicero e Zé Miguel Wisnik) provoca uma reflexão sobre certa desesperança com o futuro que paira no Brasil que devasta a Amazônia impunemente: “uma onda pode vir do céu/ imponderável como as nuvens/ e cair no dia feito um véu/ ou a tampa de um ataúde/ e nada impede que se afundem/ neo-Atlântidas e arranha-céus/ ou que nossas cidades-luzes/ submersas se tornem mausoléus”, diz a letra.

Dessa vez (Adriana Calcanhotto) e Era pra ser (Adriana Calcanhotto) têm ecos do conterrâneo Lupicínio Rodrigues, a cujo repertório a cantora dedicou Loucura (2015).

Um dos destaques do álbum, Tua (Adriana Calcanhotto) é séria candidata a hit radiofônico, algo corriqueiro para a gaúcha, desde que lançou Enguiço (1990) e ganhou os dials brasileiros com Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos). A música passeia por referências e autorreferências: os versos “dentro da noite voraz” e “dentro da noite feroz” ecoam o Dentro da noite veloz de Ferreira Gullar, tornado verso de Vambora, faixa de Maritmo. O “breu das noites brancas de hotel” ecoa o Caetano Veloso de Noite de hotel. “Dentro da noite fulgás” lembra a parceria dos irmãos Marina Lima e Antonio Cicero. A faixa tem reforço da guitarra portuguesa de Ricardo Parreira e do flugel e trompete de Diogo Gomes.

Ogunté (Adriana Calcanhotto) dialoga com o candomblé, homenageando o orixá-título e Iemanjá/Odoyá, denunciando os flagelos da migração, da ostentação e do consumo desenfreado (de petróleo, mas não só). O funk Meu bonde (Adriana Calcanhotto) encerra o disco dialogando diretamente com Remix século XX (Adriana Calcanhotto), faixa de Público (2000), e Pista de dança (Adriana Calcanhotto e Wally Salomão), faixa de Maritmo.

Serviço

Reprodução
Reprodução

Adriana Calcanhotto apresenta o show Margem em São Luís neste sábado (7), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos custam entre R$ 80,00 e R$ 160,00, à venda na bilheteria do teatro e no site Ingresso Digital. A produção é de Moraes Jr.

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Ouça Margem:

Alexandra Nicolas trouxe troféu Gonzagão ao Maranhão

A cantora maranhense Alexandra Nicolas foi agraciada com o Troféu Gonzagão, considerado o Oscar do Forró. A artista levou o prêmio na categoria Revelação da Música Nordestina.

Alexandra atualmente integra o Fórum Nacional do Forró, lançou ano passado seu segundo disco de carreira, Feita na pimenta, inteiramente dedicado aos gêneros abrigados sob o guarda-chuva do forró: coco, baião, xote, xaxado, chamego, entre outros.

A premiação aconteceu no último dia 21 de agosto, em Campina Grande/PB. Sobre o feito, ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Alexandra Nicolas se apresenta durante o Troféu Gonzagão. Foto: divulgação
Alexandra Nicolas se apresenta durante o Troféu Gonzagão. Foto: divulgação

Alexandra, ano passado você esteve no Troféu Gonzagão, considerado o Oscar da Música Nordestina Este ano volta na condição de homenageada. Como você recebeu o convite e qual a sensação?
Na hora que eu recebi o convite eu chorei muito e a sensação era que acima de tudo isso havia um amor muito maior e uma convicção de estar no caminho certo, uma sensação de gratidão e de certeza diante da verdade que eu acredito.

Sua entrada no universo do forró se deu de forma avassaladora. Você dedicou o segundo disco ao gênero e vem colhendo o merecido reconhecimento, de algum modo coroado com a premiação desta quarta-feira [21], em Campina Grande. O que você pretende para o futuro?
Agora mais do que nunca continuar trilhando o mesmo caminho. Quando se tem reconhecimento, o trabalho é dobrado e a responsabilidade com a causa só aumenta. Também compreendi que alinhar o que eu faço com as crianças é uma missão que me toma com um amor profundo e reitero que pra mim, não basta só cantar, é preciso fazer a nova geração ter orgulho de ser nordestino, uma região rica, musical, colorida e multicultural e com criança é assim, eles são os mais puros e apaixonados que podemos ter, e plantar essa semente cedo só reforça as grandes possibilidade de termos mais nordestinos extraordinários.

Neste ano celebra-se o centenário de Jackson do Pandeiro e você trabalhou em projetos para homenageá-lo. Qual a importância dele para sua trajetória?
Toda! Quando ouvi Jackson pela primeira vez eu fui ao delírio, principalmente pela habilidade sagaz na divisão no seu canto, pela irreverência e astúcia de cantar a rima, a malemolência e a brejeirice me tomaram quando o vi na televisão pela primeira vez. A partir daquele momento ele se tornou um desafio, queria saber fazer o que ele fazia, queria cantar como ele cantava, virou uma referência e um objeto de estudo. Mergulhei nas suas canções e nos seus vídeos e mais na sua biografia e visitei a cidade onde ele nasceu e a cidade onde ele cresceu. Achei tão interessante sua história de vida que fiz um projeto para as escolas e foi aceito e quando vi mais de cem crianças cantando a Cantiga do sapo [de Jackson do Pandeiro e Buco do Pandeiro] em uníssono, tinha a certeza que tinha feito um belíssimo trabalho.

Nos bastidores do Troféu Gonzagão,trocando tietagem com Genival Lacerda. Acervo pessoal de Alexandra Nicolas
Nos bastidores do Troféu Gonzagão,trocando tietagem com Genival Lacerda. Acervo pessoal de Alexandra Nicolas

Também em 2019 completam-se os 30 anos do falecimento de Luiz Gonzaga, outro pilar da música nordestina, o primeiro artista pop desta região do país. Qual a importância de Gonzagão e que outros nomes da música nordestina você poderia destacar entre suas principais referências?
Gonzaga me ensinou a louvar o Nordeste, a agradecer e contemplar tudo que ele tem. A comemorar as coisas simples e as mais belas. A chorar de alegria e a fazer das tristezas aprendizado. Outras referências que eu tenho são a Marinês, pela força do seu canto, a Elba Ramalho, pelo bailado e alegria com a qual interpreta os grandes compositores. E minha maior inspiração de força é o nosso João do Vale. Meu próximo trabalho irei dedicar todo a sua obra, que já ganhei material de sobra pra continuar os estudos

Outra coincidência: outro nordestino que completa 30 anos de falecido, justamente neste 21 de agosto em que você recebe a homenagem, é Raul Seixas, em cuja obra fica demonstrada a fusão do rock de Elvis Presley com o baião de Luiz Gonzaga, seus maiores ídolos. Você tem alguma proximidade com a obra de Raul?
Claro, qualquer cantora que se preze se não ouviu Raul ainda não pode se considerar cantora. Raul é a maior referência de irreverência nesse país, alguém que foi pra além das fronteiras do baião, se é que isso existe, mais ele foi além.

Você integra o Fórum Nacional do Forró, que está buscando a titulação do forró como patrimônio cultural imaterial brasileiro. A quantas está o processo? Você acredita que essa premiação colabora para o avanço desse reconhecimento?
Estamos no início da pesquisa e temos até 2020 pra fazer o forró virar patrimônio. Temos ainda muito chão pela frente, diversos estados envolvidos e catalogar tudo será um desafio grande. O Troféu Gonzagão é a maior premiação da música nordestina e com certeza vem a coroar nossa música com toda nobreza que ela carrega. E o Maranhão está presente nesta premiação só reforça que aqui também tem música nordestina de qualidade.

Fale um pouco mais sobre a noite do Troféu Gonzagão.
Mais de 175 artistas que fazem a música nordestina registrados no evento. Essa premiação faz parte de um amor muito maior, o prazer de fazer o que se ama, a entrega ao gênero, assumir e reverenciar minhas origens. Cantar o Hino Nacional com arranjo de forró é avassalador, o coração transborda. Essa festa é puro reconhecimento disso, a gente se encontra, se afina, se entrega e se recicla, troca música, se admira e se refaz. Agradeci o prêmio cantando João do Vale. E fiz no palco o que eu fiz com as crianças, coloquei quase mil adultos pra cantar o refrão da Cantiga do sapo comigo.

Antenado, afiado e político

Hibernar na casa das moças ouvindo rádio. Capa. Reprodução
Hibernar na casa das moças ouvindo rádio. Capa. Reprodução

 

O veterano Odair José foi desde sempre associado à dita música brega, ou antes, cafona. Poucos sabem que foi um dos compositores mais censurados pela ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964, tema de Eu não sou cachorro, não – Música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002), de Paulo César de Araújo.

Poucos conhecem também a porção roqueira de Odair, cuja ópera rock O filho de José e Maria (1977), hoje cult, foi censurada pelos generais de plantão e pela Igreja Católica.

Em Hibernar na casa das moças ouvindo rádio, de repertório completamente autoral, ele volta ao front. É disco roqueiro e político, o título a junção dos títulos das três primeiras faixas.

Em Hibernar, se propõe uma fuga da realidade, da realidade fabricada destes tristes tempos, em que “o mundo está de ponta-cabeça”. “Tem conspiração na terra do sol”, diz a letra, que continua: “é pão e circo com marmelada/ tem mais um atrito trazendo perigo/ não dá pra saber quem é o inimigo”. E arremata: “tem um falso profeta anunciando/ que pra semana Deus está chegando”.

No blues Na casa das moças, emoldurado pela gaita de Lucas Martini, Odair volta a falar de prostituição, tema que lhe rendeu o hit Vou tirar você desse lugar. A letra fala que “tem uma casa no bairro/ onde moram umas moças”, um lugar em que os homens que ajudam a lavar a louça ganham recompensas. Um jeito bem Odair José de pautar a divisão das tarefas domésticas.

Ouvindo rádio é sobre o universo mágico a que este meio de comunicação, de morte tantas vezes anunciada, ainda nos conduz. O disco é cerzido por vinhetas, a simular uma transmissão radiofônica (com textos e locução de Thunderbird), e esta faixa traz “a música dos Beatles, os dribles do Mané/ nos campos pelo mundo Pelé”.

É um disco que não se furta aos debates atuais. Em Rapaz caipira, por exemplo, a crítica tem endereço certo, as mentiras que elegeram Jair Bolsonaro e pautam seu modo desastroso de governar: “aquilo que era mentira/ passou ser verdade”. E continua: “está vivendo no centro/ de um furacão/ onde a realidade/ é mera ilusão”. O tema volta à pauta em Fora da tela: “quanto mais eu olho/ menos posso ver/ a verdade insiste/ em se esconder”.

“Incrível liquidação de armas de fogo! Você pediu, agora chupa!”, manda Thunderbird na abertura de Chumbo grosso, outro petardo certeiro no discurso beligerante do neofascista que ocupa a presidência da república: “o assunto agora é a cultura da bala/ na falta de argumento a solução é uma vala”. A faixa tem participação especial de Raquel Virginia e Assucena Assucena, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira.

Imigrante mochileiro é outra a trazer um tema quente, o drama mundial da imigração, para o centro do debate promovido pelo som de Odair José. A faixa tem participação do Nação Zumbi Jorge du Peixe (voz e órgão).

Amor e sexo comparecem a Fetiche, Gang bang e Liberado, as três que encerram o disco de 11 faixas. Na última ele canta: “hoje tudo está liberado/ em nome do amor” – assim seja, contra o fascismo reinante.

A vinheta que encerra Pirata urbano sintetiza: “este disco é indicado para estupidez coletiva. Se persistirem os sintomas, procure um psiquiatra”.

Sobras

Em fevereiro passado estreei com Suzana Santos o Radioletra, programa semanal de 15 minutos dedicado à literatura. O entrevistado inaugural foi Zeca Baleiro, que, na ocasião, desejou “bons ventos e vida longa!” à empreitada.

Mais conhecido como cantor e compositor, Zeca Baleiro tem publicados os livros A rede idiota [Reformatório], Bala na agulha – Reflexões de boteco, pastéis de memória e outras frituras [Ponto de Bala], ambos volumes de crônicas, e Quem tem medo de curupira [Companhia das Letras], peça teatral escrita quando ainda morava em São Luís. Além do box A vida é um soulvenir made in Hong Kong [Ed. UFG], precioso mimo, item de colecionador, um raro e delicado conjunto de artefatos poéticos.

Isso era o bastante para justificar a presença de Baleiro num programa de literatura. No final de janeiro, nos estúdios da Rádio Timbira AM, conversamos com ele por cerca de uma hora – depois selecionamos os trechos mais afeitos à área. Você pode ouvir o primeiro Radioletra aqui.

O programa está temporariamente fora do ar, passando por reformulações e negociações. Em breve anunciaremos novidades, aguardem. Enquanto isso, você pode ler, a seguir, as sobras completas do papo com Zeca Baleiro.

Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo
Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo

Zema Ribeiro – Quais as suas lembranças do ambiente literário e musical de sua infância?
Zeca Baleiro – Nosso pai era muito zeloso por essa coisa, a literatura era uma coisa muito presente. Ele era muito exigente com isso, que a gente lesse e tal. Eu comecei lá com 10 anos a fazer poemas infantis, verdes, imaturos, e aos 14 eu comecei a aprender violão, que já era uma presença familiar, meus irmãos já tocavam, estava sempre ali o violão, era uma coisa que eu ia lá, mexia, pegava a palheta deles, brincava um pouco. Mas aos 14 eu fui aprender de fato. Meu pai chamou um professor, um velho boêmio, da época, tocou com [o compositor Antonio] Vieira, o professor Osvaldo. Ele me deu três aulas e eu falei: “não quero mais professor”. Aí fui aprender sozinho, com os amigos. E assim que eu aprendi um pouquinho eu já quis compor. Então eu vi que não seria um músico instrumentista, que domina o instrumento. A minha intenção com aquilo era compor canções e assim se deu. A música prevaleceu como uma coisa importante, por que é meio difícil você ser músico e alguma coisa. Algumas pessoas conseguem, o cara é bancário, advogado e é músico também, mas é difícil, é uma coisa que te toma um tempo quase integral. Então eu avancei ali na música, aquela seara, aquela estrada pareceu promissora. Tempos depois que eu fui redescobrir certos desejos, certos anseios que estavam guardados, o de escrever literatura, ter uma coisa, um tipo de pensamento que às vezes não cabe na canção, que foi o que me fez escrever esses dois livros de crônicas. Tenho a ambição de escrever contos um dia. São coisas que ficaram guardadas, depois que eu, de certa maneira me coloquei no mundo da música, ganhei certa visibilidade, eu tive um pouco de calma para dar vazão a esses talentos ou inclinações, por que eu não sei se o talento existe, mas a inclinação sim [risos]. O teatro é uma paixão antiga. Eu comecei aqui em São Luís no Grupo Ganzola, do querido Lio Ribeiro, que foi muito importante pra mim. A gente tinha um grupo exclusivamente dedicado a peças infantis, a gente fez Flicts, do Ziraldo, que é um texto clássico, depois O reizinho mandão, da Ruth Rocha, e a essa altura, eu fiquei lá entre os 18 e 21 anos, eu escrevi esse texto aí [aponta o exemplar de Quem tem medo de Curupira?]. Eu tinha 21 anos quando escrevi esse texto, ele ficou guardado, datilografado, numa pasta rosa, até que em 2008, uma amiga diretora, com quem eu já tinha trabalhado lá em São Paulo, a Débora Dubois, perguntou “não tem nada pra criança?”. Eu falei: “olha, tem um texto que eu escrevi há 20 anos, mas está antigo, desatualizado”. “Tu tens ele?”. Eu não tinha nem salvo em computador, era um texto datilografado, transcrevi todo, revisão, ela falou: “ah, vamos dar uma atualizada, esse texto tem futuro”. Acabou que a gente encenou, com chancela do Teatro Sesi, lá em São Paulo, ficou seis meses, depois prorrogou, foi tão bem sucedida que prorrogou mais três meses a temporada, de graça. Muita gente viu, teve gente que viu 20 vezes. Dizia assim: “pô, se algum ator faltar, pode me chamar que eu vou”. Tem esse encantamento, essa coisa bonita e lúdica, das criaturas da mata, que é uma coisa muito vivida na infância, esse medo do saci, do curupira, da mãe d’água. Eu lembro que lá no Rio Mearim dava uma hora, todo mundo vazava, por que a mãe d’água, era a hora que ela aparecia [risos]. Então todo mundo saía voado pra casa. Eu fui espalhando meus tentáculos, eu sempre tive muita curiosidade, mas fora a música, todo o resto é experimentação. Eu não me considero um escritor, eu não me considero um dramaturgo, são experiências, felizmente deram certo, foram bem sucedidas, mas não é uma coisa que eu pretendo [se interrompe]. Meu trabalho, eu sou um compositor, se alguém perguntar minha profissão, músico, compositor, é isso que eu faço.

ZR – É assim que você preenche a ficha do hotel.
ZB – Do hotel, é [risos].

ZR – Você falou do zelo de teu pai na infância com a leitura e das aulas poucas de violão. Quais são as tuas primeiras lembranças de leitura e música que você ouviu?
ZB – Música é o rádio. Era muito presente, ficava ligado o dia inteiro na casa. Tinha o programa do Zé Branco de manhã, tinha depois ao meio dia o programa do [locutor e comentarista esportivo Herberth] Fontenele, a gente ouvia, saudoso Fontenele, de esporte, depois vinha o noticiário, à tarde tinha um programa de música nordestina, acho que era o Jairzinho que apresentava. Eu tou falando assim, não sei as estações, mas era meio assim o itinerário da rádio no dia a dia da gente. Às cinco da tarde tinha um programa que o César Roberto apresentava, que era de música jovem, já música pop. Então você passava o dia ouvindo de Luiz Gonzaga a Elton John, de Martinho da Vila a Trio Nordestino, essa informação foi muito rica, não só na minha vida. Dos meus irmãos também, inclusive os que não são artistas, é uma memória muito rica. Essa é a primeira grande informação. A outra é da rua, as brincadeiras de rua eram todas muito musicais, cantigas de roda, eu tenho um acervo na memória de mais de 100 canções, estou até querendo publicar, acho que é um legado. Minhas irmãs também lembram, toda vez que eu venho aqui eu recolho, ontem mesmo a gente estava cantando várias canções. São lindas, vêm de linhagem portuguesa, uma coisa bem lírica. A música sempre esteve presente. Depois as outras coisas, terecô, que ia dançar na praça da cidade, os terreiros de macumba, que chegavam do outro lado do rio, na Trizidela, os cânticos de igreja, procissão, tudo era permeado por música. Então eu acho que o despertar foi na infância mesmo.

ZR – E leituras?
ZB – Leituras, a leitura básica, lembro de alguns livros, O menino do dedo verde, daquele francês, Maurice Druon, muita coisa de José de Alencar, Lucíola, Diva, essa literatura básica. E aqui e ali uma coisa mais estranha. Eu lembro que tinha um livro do Mário Quintana, um livro de sonetos que eu li muito cedo. A ilha do tesouro [de Robert Louis Stevenson], esses clássicos assim. Alguma coisa de Monteiro Lobato, acho que Urupês, tinha uma pequena biblioteca e a gente passeava por ela.

Suzana Santos – Além dessas referências de infância, hoje, tanto entre os clássicos, quanto novidades, quais as referências de hoje, nomes de tua preferência?
ZB – Me perguntam nomes e eu fico numa saia justa, por que é muito difícil. No começo da carreira eu dizia Frank Zappa e Jackson do Pandeiro, pra provocar, ou Bob Dylan e Luiz Gonzaga, querendo criar um arco que descrevesse um pouco a abrangência do que eu ouvi, o que eu tinha de repertório, vocabulário musical, que ia desde essa vertente mais pop, meus pais ouviam muito samba, papai adorava Jair Rodrigues, adorava Cauby [Peixoto], Nelson Gonçalves, comprava disco, minha mãe tem uma memória, tinha uma memória incrível de músicas do repertório popular brasileiro, marchinhas de Braguinha, sambas de Wilson Batista e Geraldo Pereira, punha a gente pra dormir cantando Ismael Silva, uma informação muito rica. Eu me alimentei disso tudo. Depois tinha a própria cena local, que foi importante, quando a gente conheceu Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, e aquele disco do Papete foi um acontecimento, o Bandeira de aço fez a gente despertar um pouco para a produção local, a gente não tinha olhos e ouvidos para isso, a gente estava mais plugado, conectado com uma produção nacional. A gente descobriu, aquilo foi um pequeno alumbramento, tinha uma estranheza na produção da música do Maranhão, que eu só me dei conta completamente quando eu saí daqui para morar fora. Eu falei: “rapaz, aquilo lá é muito específico”. A gente é muito específico. Acho que o Maranhão um dia vai se separar do Brasil.

SS – Tomara!
ZR – Eu acho que já começou.
ZB – E vai fazer uma república à parte [gargalhada].

ZR – Pela primeira vez o Maranhão está na contramão do Brasil por uma coisa positiva.
ZB – É verdade. Depois de 100 anos de tenentismo.

SS –Você falou de nomes da música. E nomes da literatura? Algum nome em especial, alguma referência que seja mais marcante?
ZB – Olha, falando dessa literatura básica, infantil, infanto-juvenil, Meu pé de laranja lima [de José Mauro de Vasconcelos], essas coisas que a gente lia, que toda criança lia. Com 14 anos, eu estudava no Colégio Batista, e eu tive um professor chamado Furtado, que é um mestre mesmo, um cara incrível, e ele deu pra gente, 14 anos era primeiro ano científico na época, primeiro ano do segundo grau, e ele deu como trabalho de literatura ler Memórias póstumas de Brás Cubas, que é o livro mais ácido do Machado de Assis, e O estrangeiro, de Albert Camus. Aquilo foi uma porrada, foi um despertar, eu nunca mais fui o mesmo [risos]. Nunca mais fui o mesmo. São dois livros que permanecem como dois dos livros mais interessantes e instigantes que eu já li. Aquilo ali mudou, eu mudei de patamar na compreensão das coisas, na busca de um tipo de arte mais adulta e mais questionadora. Voltando ao  gancho do violão, quando eu entrei no mundo do instrumento eu me afastei um pouco dessa literatura em prosa e fui mergulhar mais na poesia, por que era uma coisa que me parecia mais próxima daquele universo ao qual eu queria pertencer, ainda não pertencia. Então eu fui descobrindo muito instintivamente poetas, poetas brasileiros, comecei a ler Jorge de Lima, Murilo Mendes, comecei a descobrir poesia beatnik, os grandes poetas essenciais, os franceses Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, essa coisa toda. Só depois que eu fui retomar esse gosto pela prosa, pelo romance, pelo conto. Acho que a gente deve muito, a minha geração, de maneira geral, deve muito à literatura. A canção brasileira ela foi muito influenciada pela literatura, de um modo ou de outro. Não é à toa que a canção brasileira alcançou esse status de uma quase obra literária, Chico Buarque, Luiz Melodia, Noel Rosa, esses grandes poetas todos que a gente tem.

ZR – Tua obra passa também por musicar poemas de poetas como e. e. cummings, Paulo Leminski, Fernando Abreu, Celso Borges. Vou fazer uma pergunta de estagiário.
ZB – Faça!

ZR – Letra de música é poesia?
ZB – Rapaz, essa é uma discussão antiga, até no meu primeiro livro eu abordo isso, mas não chego a nenhuma conclusão. Eu acho que é. São dois tipos de linguagem diferentes, a poesia literária tem outro ritmo, outra respiração, ela não é escrava da rima, pelo menos a poesia moderna, não é escrava do ritmo, é outro tipo de pulsação. E na canção, eu vi uma vez acho que o Edu Lobo falando, eu não concordo, contesto, mas é interessante a reflexão dele, que disse que qualquer texto é musicável. Eu não acho, não. Mas é bacana isso, você se desafiar, pegar um texto qualquer, antimusical às vezes, sem uma sonoridade, um ritmo evidente e se dispor. Eu tive essa experiência, por exemplo, quando eu musiquei os poemas da Hilda Hilst para fazer aquele disco, Ode descontínua e remota [para flauta e oboé: de Ariana para Dionísio, 2006], não tinha uma métrica, não tinha um ritmo, não tinha uma cadência, nem rimas muito óbvias. Não eram canção. Mas não era também um texto super livre, tinha uma fluência qualquer que eu tentei descobrir. Foi desafiador aquilo lá. Mas eu acho que é poesia sim. Por isso que talvez, no caso da canção brasileira, que é muito alto esse grau de lirismo, é muito rico, não deve nada a ninguém. Chico Buarque é tão grande quanto Drummond e Sérgio Sampaio é tão grande quanto João Cabral de Melo Neto, só que são de territórios distintos. A canção tem uns apelos, facilidades, a própria emoção é passada com mais facilidade, tem o encantamento, o apelo da dança, do ritmo, de fazer dançar.

ZR – Chega a um público maior.
ZB – É mais acessível.

ZR – Leminski com a coisa da música foi o maior best seller de poesia no Brasil até hoje.
ZB – Exatamente.

ZR – Por conta de gravações de Caetano Veloso, A Cor do Som, Moraes Moreira, enfim.
ZB – E vários poetas que migraram pra canção. Salgado Maranhão, nosso conterrâneo, Fausto Nilo, meu parceiro, Geraldo Carneiro, grandes poetas, Cacaso, um poetaço, foram migrando pra canção, por que sentiram, pô, esse mundo é bacana, a comunicação é mais direta. A música é onipresente. Você está em qualquer lugar e pode ouvir, no aeroporto, num táxi, num ônibus, num trem. A literatura é outro tipo de público, de impulso, você precisa de certo silêncio, de recolhimento. A música é mais mundana nesse sentido. Mas é maravilhosa a combinação. Uma vez eu ouvi o Wado, num programa que eu fiz do Baile do Baleiro, para o Canal Brasil, o Wado que é um parceiro querido, um compositor que eu adoro, ele falou: “imagina se um alienígena vem aqui e descobre que a gente se comunica através de uma coisa chamada canção”, por que é uma coisa muito subversiva, pode ser muito transgressora, pode ser muito transformadora, você ouvir aquilo ali, aquela combinação de melodia, ritmo e poesia, o poder que aquilo tem. Às vezes a gente acha, mesmo a gente que faz, que chegou a um certo limite, parece que se esgotou. O próprio Chico Buarque há um tempo falou no fim da canção, eu acho que ele quis falar outra coisa, as pessoas achavam que era um fim derradeiro, um fim terminal, acho que ele quis falar numa transformação de linguagem, de era, de sensibilidade. Mas ela não acaba, você vê aí cada vez mais forte. Hoje eu já estou com 52 anos, já tenho 21 anos de carreira, eu vejo agora pessoas, antigamente eram jovens, de 19, 20 anos, agora é gente de 35, 1,80 metro, chega assim: “pô, bicho, te ouço desde a infância”.

ZR – É estranho?
ZB – Gente casada, com filho, “você embalou nosso namoro”. Hoje mesmo encontrei um cara na padaria. É estranho. Mas é bom [risos].

ZR – Eu te ouço desde a adolescência [risos].
ZB – Eu já ouvi, “pô, Stephen Fry [título da música; abrevia o título do disco, Por onde andará Stephen Fry?, de 1997] é o disco da minha infância”. Realmente, faz 21 anos, se o cara tinha 10 anos, hoje ele tem 31. Faz parte, é história. Imagino que outros compositores ouvem coisas parecidas. É estranho por causa dessa consciência do tempo passando, mas também é muito, vou usar uma palavra que é chata, mas não tem outra, é muito gratificante, é muito recompensador você ouvir. Às vezes tem uns depoimentos emocionados, gente que se curou de depressão, de doença, parou num câncer e ficou ouvindo um disco meu. Uma vez um garoto em Natal, um garoto cinematográfico, aquela cara de desadaptado, umas espinhas no rosto, uma coisa deprimida, assim meio Renato Russo, ele chegou, ficou hesitante, se aproximou e falou: “eu só queria dizer uma coisa”. Eu: “diga”. “Aquele disco, Pet shop mundo cão, salvou a minha vida”. Eu falei: “tá tudo certo, não precisa dizer mais nada”. Não foi feito com essa intenção, mas a música tem várias serventias, ela se presta a tudo. Tem gente que se suicida ouvindo música, tem um caso clássico…

ZR – O Ian Curtis
ZB – É, o Ian Curtis, tem um cara que se matou com a música Fracasso, do Fagner, tem o Judas Priest, lá, Beyond the Realms of Death, o cara se matou ouvindo. Serve pra tudo, serve pra morrer, serve pra viver, serve pra se encantar. Música ainda tem um poder muito grande.

ZR – Quando eu nasci estava tocando Aparências, com Márcio Greyck, no radinho de pilha das enfermeiras.
ZB – É mesmo? Porra! Que é música de um compositor maranhense, o Cury.

ZR – Essa coisa de ouvir desde a infância. Você tem um leque muito amplo de parceiros, que vai de Wado, que você já citou, Kléber Albuquerque, Lúcia Santos, e acabou se tornando parceiro de Fagner, que é um cara que você deve ter ouvido desde a infância. Como é que se dão essas parcerias, como é lidar com tanta gente diferente? Talvez hoje você faça música recebendo letra por whatsapp.
ZB – Sim, bastante. É meio inusitado, por que às vezes é difícil de acreditar que aquele cara, que eu também ouvia com 10 anos [risos].

SS – Os papéis invertidos.
ZB – Os papéis invertidos. Eu lembro que quando eu ouvi a primeira música que tocou no rádio lá em São Paulo do nosso disco, Palavras e silêncios, tocava no rádio do carro, eu levando as crianças na escola, eu parava o carro e ficava: “puta que pariu!”. A minha voz e a voz do Fagner na mesma canção, uma música que a gente fez. Aquilo era muito estranho, diferente, fui fã do cara e agora a gente está aqui lado a lado, eu ficava meio deslumbrado com aquela sensação. Aconteceu que eu acabei me tornando parceiro de muita gente que eu admirava. Frejat, o disco novo tem outra parceria nossa [Te amei ali]. Chico César, que é contemporâneo, é diferente a relação mas eu também sou fã do cara, tenho uma relação de fã-ídolo, além de amigo. Zé Ramalho, com quem já compus. Muita gente. Eu sou muito promíscuo, tenho mais de 100 parceiros. Eu até tava tentando listar outro dia, é muita gente, não é só gente conhecida, é gente também que às vezes está num estágio de carreira diferente, mais inicial, mas eu tenho muitas parcerias bacanas. E tem essa coisa de alcançar um cara que estava em outra. O próprio Márcio Greyck, tenho duas canções lindas com ele, eu não sei tocar, perdi um pouco o contato com ele, mas preciso recuperar. E também essa coisa de poder se movimentar em vários territórios. Gravei agora recentemente no disco do Fernando Mendes, um artista que eu adoro, acho um puta compositor, um puta cronista suburbano. E ao mesmo tempo eu ambiciono, sei lá, fazer música com o Erasmo Carlos, se houver possibilidade de um dia abordá-lo, vou querer fazer [risos]. Então poder transitar, o universo da música brasileira é muito abrangente, da música popular de maneira geral. Às vezes a gente se perde em pequenezas de pertencer a uma tribo. Eu nunca tive isso de antemão. Eu sou colocado em prateleiras específicas, às vezes mpb, às vezes pop rock, às vezes alternativo, por que hoje a música dita mpb virou marginal. O mainstream é Wesley Safadão, é Thiaguinho, é Mano Walter, e a música brasileira virou meio marginal, voltou a ser marginal, voltou à origem, de certa maneira. Eu gosto de estar nesse lugar. Mas me relaciono com pessoas do rock, do brega, do samba, eu tou preparando um disco de sambas, com produção de Swami Jr., faz cinco anos que a gente produz, eu vou finalizar agora. Poder transitar, isso pra mim é fundamental, não ficar acomodado num certo nicho, num certo rótulo.

ZR – Acho que foi isso que acabou te levando…
ZB – A essas parcerias. Sem dúvida.

SS – Isso de estar nas prateleiras. Hoje você não lança mais discos físicos, só streaming. Isso é um caminho sem volta? Vai lançar de novo discos físicos?
ZB – Eu estou agora gravando esse disco, se chama O amor no caos, que a gente fez um caminho inverso, fizemos uma temporada de cinco shows, BH, São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre, testamos o repertório ao vivo e agora a gente está em estúdio. Quero lançar em março, eu vou fazer vinil, cd, uma tiragem pequena, por que realmente hoje vende pouco, e jogar nas plataformas, é um caminho inevitável. Essa coisa que envolve tecnologia é sempre um caminho sem volta, o avanço tecnológico vai ser cada vez maior. Eu não sou muito nostálgico no sentido de “ah, como era bom no tempo”… Eu adoro vinil, por exemplo, mas eu sei que é impossível hoje que as pessoas tenham disponibilidade de ouvir um vinil, de virar o lado, isso é para quem quer fazer um ritual, como de vez em quando eu faço na minha casa, boto pras crianças ouvirem coisas que eles nunca ouviram, mas é fantástico essa ferramenta, eu fui um pouco resistente, eu estou há um ano e sou viciado no spotify, por que descobri que é um dos melhores lugares, talvez depois do youtube, pra fazer pesquisa, pra ouvir coisa que você não ouve. Outro dia eu fiquei ouvindo a discografia do Chico Anysio e do Arnauld Rodrigues, que eu adoro, inclusive as masters são bem ruins, o som é bem ruim, mas tá tudo lá. Coisas incríveis, um repertório perdido, meio esquecido, mas que é fantástico.

SS – E não estraga, o físico às vezes vai deteriorando com o tempo. E lá fica para a posteridade.
ZB – Para a eternidade. Deteriora mas eu gosto de ter o objeto [risos]. Sou meio fetichista. Eu acho que tem um público aí entre 30 e 40 anos que reclama. Eu sou mais velho mas estou na fila.

ZR – O spotify não te dá informação de quem compôs, quem toca.
ZB – Agora já tem o intérprete, já tem um espaço lá que você põe, mas ainda é falho nesse sentido. Um vinil, por exemplo, apalpar aquilo, ler as letras com gosto, é muito bacana. Acho que tem que conciliar as mídias todas que estão disponíveis. O k7 tá tendo uma volta, que eu acho que é uma coisa de moda, por que é um som ruim, diferente do vinil que é um som bom, tem grave, é cheio, o k7 é mais uma modinha, o pessoal da eletrônica está fazendo muita master em k7, no Canadá, e tal. Eu acho que tem que jogar com todas as ferramentas. Em termos profissionais, financeiros, as plataformas são um terror para o autor. A arrecadação ainda é muito precária, o que se ganha é migalha perto do que se ganhava com a venda de cd físico ou do lp. Mas a praticidade, eu fiz esses dois singles, terminei hoje, duas semanas depois estava na plataforma, sem aquela espera da fabricação do cd, tem uma agilidade também pro artista, principalmente para quem está começando, é muito bacana, é maravilhoso você poder produzir hoje e daqui a uma semana estar na plataforma.

SS – Falando em rentabilidade ainda é maior a receita do disco físico?
ZB – Sim. Comparativamente sim. Mas como expansão, como forma de propagação, as plataformas são maravilhosas.

ZR – Quando a gente pensa no Quem tem medo de curupira?, no Zoró e no Zureta, que são trabalhos feitos para crianças, embora adultos também se interessem, gostem, ouçam, leiam. Tem alguma diferença entre quando você vai criar para criança e para adulto? Algum cuidado?
ZB – Eu acho que tem um despojamento que toma você quando você está criando para criança. Tem que ser mais direto, criança é um público muito honesto, não tem duas conversas, é gostei, não gostei, é feio, é bonito, então você tem que ser muito habilidoso nessa hora. Acho que eu ganhei uma certa cancha fazendo música para teatro aqui no Maranhão. Depois que eu fui para São Paulo também fiz umas trilhas para teatro, infantil, sempre. Quando meus filhos nasceram, há 20 anos, eu tive muita matéria prima. Todo dia um insight. Lembro uma vez viajando com meu filho no avião, ele olhou, bem pequeno, e disse: “pai, olha lá! É uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele disse de uma forma poética à maneira dele. Cada vez que falava uma coisinha eu ia pro violão. Compus mais de 60 canções. Desovei algumas nesses dois volumes, Zoró e Zureta, e tenho material para mais um disco.

ZR – José Antonio, meu filho, tem três anos, e adora teus videoclipes.
ZB – São bonitinhos, né? A maioria ali é feita pelo Marcos Faria, que é um animador de mão cheia.

SS – Isso de produzir muita coisa, de produzir em forma de música, em forma de poesia. Tem algum fator determinante, o livro de crônicas, essas composições, o que vira disco e o que vira livro?
ZR – O que vai pro livro ou pro disco e o que fica no cofo em casa.
ZB – Eu não sei explicar muito bem por que esse critério é muito subjetivo. Por exemplo, esse livro aí não seria livro. Ele foi uma peça, mas aí teve uma coleção da Companhia das Letrinhas, a curadora quis incluir o livro, me entrevistou, tem um bate-bola no final, eu achei ótimo. Eu fui recentemente visitar a escola onde estuda a filha de uma amiga e eles estavam trabalhando, todos os meninos da sala tinham um exemplar, a escola comprou. Foi muito bacana, depois a gente foi conversar, foi muito rico. Eu tenho feito visitas a escolas, tanto de periferia quanto das zonas mais abastadas de São Paulo para saber as impressões. Geralmente eu recebo convites, mas esse ano eu quero fazer por minha própria iniciativa, fazer um tour pelas escolas, se for possível eu quero fazer aqui também, e conversar sobre a vida, sobre tudo, mas sobre a criação artística também, por que essa resposta da criança é muito valiosa. No caso do disco era específico, era um projeto, um sonho. Eu compus muito, botava pra dormir cantando, quando eles estavam dormindo eu já tinha uma, duas ideias de música, no dia seguinte desenvolvia. Foi assim que esse repertório foi acumulado. Já era um projeto específico, um dia eu vou fazer um disco pra criança. Demorei muito. Eu queria que eles fossem ainda crianças, quando eu fiz eles estavam com vergonha de fazer vocal, já estavam quase adultos, agora eu chamei eles para finalizar cantando uma vinheta que eu fiz, chama Vidinha, para os homenageados participarem, estarem presentes no disco. Essas canções que eu fiz recentemente eu senti que era hora de fazer um novo disco, embora às vezes a gente fique desanimado com o destino do disco hoje, a gente trabalha pra caramba e a repercussão é tão pouca. Mas a gente precisa continuar fazendo, pelo público e por nós mesmos, por nossa sobrevivência artística. Então eu reuni aí um magote de canções, estou até pensando em fazer um duplo, o volume um agora, isso eu vou resolver na próxima semana, eu gravei mais de 15 canções, vou gravar mais umas cinco e dá para fazer dois volumes, lanço um agora e outro no segundo semestre. E quero usar telas de autores maranhenses nas capas.

ZR – Você falou das crianças, seus filhos, que já estão com 20, 20 e poucos anos, e uma coisa que é muito bacana para quem acompanha tua carreira como eu acompanho particularmente desde o Por onde andará Stephen Fry? é a preservação, não sei como é que tu operacionaliza isso, a gente nunca viu uma foto de um filho teu numa revista de fofoca, numa Caras. Como é que você lida com isso nesse tempo de superexposição?
ZB – Eu não vejo muita necessidade. Eu também não sou o tipo de artista que interessa ao Nelson Rubens [risos]. Eu já recebi convites pra ilha de Caras, mas eu tenho mais o que fazer [risos]. Não tenho muito o que fazer [], não é meu mundo, as pessoas acham que artista é tudo uma coisa só, mas a gente vive em mundos muito diferentes. Não tem por que eu abrir minha casa pra um revista, sabe? Não faz sentido. É meio vazio isso aí. Se for uma coisa que me traga muita vantagem [gargalhadas], de alguma maneira, a gente faz. Eu acho que preservar os filhos é importante, eles lidam bem com isso, de o pai ser artista, de ter uma profissão um pouco estranha. A filha contou recentemente um diálogo que ela teve no passado com um colega. Ele perguntou: “você é classe alta?”. Ela falou: “não, sou classe média”. Isso ela era pequena. O garoto falou: “eu sou classe média alta, meu pai tem isso, tem aquilo. Mas você é filha de artista, não é? Teu pai não tem avião?” [gargalhadas]. Isso é uma bobagem, associar o artista com esse mundo de opulência. O glamour é 0,01 por cento, quando você lança um disco e bebe um champanhe, um uísque com os amigos. No mais das vezes é um trabalho operário, tem que dormir cedo, dormir bem, o suficiente para descansar a voz, para estar inteiro, passar som, começo de carreira então tem que se dividir em mil, pra dar entrevista, ir na rádio, ir não sei aonde, no mesmo dia passar som, fazer o show e receber o público depois. Tanto que tem gente que se prepara mesmo, não é o meu caso, eu prefiro jogar futebol, tem gente que vai, malha, fica horas. Pra mim é uma atividade atlética, aeróbica, no começo de carreira a gente fazia shows de terça a domingo, só tinha a segunda para passar em casa. É duro, aeroporto, avião… É bacana, não está viajando de fusca pelas estradas do interior da Bahia, mas é uma vida de dureza, não tem jatinho na história. Não é como nos Estados Unidos, que os caras fazem turnê em ônibus, as estradas são maravilhosas, o país é grande, mas as estradas são maravilhosas. Eu adoraria, por que detesto avião. Eu gosto mesmo de tirar o velho carro, parar, tomar um café, comer um doce, fumar um cigarro, o melhor da vida, tomar uma cerveja no meio do caminho [risos], mas aqui é impossível, com as estradas que a gente tem, com a dimensão do país. É uma vida de dureza. Tem uma coisa, que eu acho que artistas como eu, Chico César, especialmente, talvez pelo fato de a gente ser do Nordeste, de ter essa vivência de cidade do interior, a gente vai aonde chamar. Por exemplo, Macapá, eu fui quatro vezes a Macapá tocar. Tenho grandes amigos lá, inclusive um parceiro, poeta paraense, Joãozinho Gomes, é um poetaço, mora lá. Tenho certeza que nem Roberto Carlos foi tanto, é longe, é uma viagem internacional, seis horas e meia para chegar lá. Tem artistas que não vão, uma garota classe média de São Paulo não vai. Eu já dormi em motel, no Ceará, a cidade estava cheia, demoraram a fazer a reserva, e foi lindo, foi um show incrível. Tenho que escrever um livro, “Glamour zero”. Mas é lindo! Acaba também você tendo umas respostas de público, carinho, o cara se sente prestigiado de você ir na cidade dele, lá no grotão, lá no meio do sertão, umas coisas muito bonitas. Como diz a canção do Milton Nascimento e do Fernando Brant [Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)], “o Brasil não é só zona sul, é muito mais, é muito mais”. É muito grande, esse Brasil profundo eu adoro tocar. Hoje tá difícil, por que as bandas de forró eletrônico meio que dominaram o pedaço. Num passado recente, 10 anos, essas bandas abriam pros shows da gente. Agora eles tomaram de conta.

ZR – Então vocês são os culpados [risos].
ZB – Não, cara, não [risos]. A gente fez a nossa parte, mas o mercado é cruel, é voraz.

ZR – Você deu a pista para Jotabê Medeiros, na biografia do Belchior, mas aconteceu que o irmão dele faleceu na semana em que ele estava de passagem comprada para encontrar o Belchior em Santa Cruz do Sul. Jotabê foi ao velório do irmão e Belchior faleceu em sequência. Você chegou a ler a biografia?
ZB – Li. Li logo que saiu. Gostei. Ficou um pouco triste, a questão é um pouco triste. Ninguém imaginava que fosse acontecer tão cedo. É uma situação delicada. Eu fiquei muito honrado quando eu cheguei na cidade e Adriana [Bueno, assessora de comunicação], que faz assessoria pra mim, ligou dizendo: “Zeca, uma bomba, uma história. Belchior tá aí na cidade e quer te encontrar”. Eu fiquei naquela, orgulhoso, envaidecido e ao mesmo tempo preocupado [risos], o que é que eu vou falar com o cara? Era fã dele, a gente já tinha se encontrado, inclusive uma vez, curiosamente, à saída de um show de Bob Dylan, do qual somos fãs, lá em São Paulo. Sempre muito afável, “vamos nos encontrar, vamos tomar um vinho, a gente mora na mesma cidade”, eu falei “vamos”, trocamos contato e logo depois ele sumiu. A gente foi, uma coisa de segredo, motorista me levou, levei um vinho, achei ele muito abatido, mas muito lúcido, normal. Dei todas as pistas para dizer que eu queria apoiá-lo se ele quisesse voltar a produzir. Inclusive pus à disposição dele um estúdio que eu tenho com um amigo, lá no Butantã, “olha, se quiser, tem um estúdio lá, com piano”, ele ficou assim, meio, “piano? Poxa!”, falei “se quiser você vai direto de Congonhas pra lá, ninguém te vê”, rapidinho, fui dando pistas. Ele se animou um pouquinho, tinha a mulher, junto com ele, que meio que ditava o ritmo do jogo. “Não, ele ainda não tá pronto pra voltar a gravar”, uma situação um pouco estranha. Eu saí de lá meio mortificado, com aquela sensação, de “pô, eu podia” [interrompe-se]. Quando eu li o livro e vi toda a descrição, a narração da história, aquela culpa que a gente sente, impotente. Eu fiz tudo que podia, falei pra ele de um produtor amigo nosso, de Fortaleza, que falou que se Belchior aparecesse e quisesse tocar, ele enriqueceria o Belchior e a ele, faria uns 10 shows arrasadores pelo Brasil e seria mesmo um evento. Mas ele parece que não estava mesmo mais disposto. Havia um desencanto qualquer, uma coisa muito amarga. Mas também uma tragédia talvez anunciada pelas próprias letras de música. Ele era um niilista, era um cara que não acreditava em muita coisa, apesar de ter um histórico de seminarista, um cara muito culto, muito profundo, leitor de muita filosofia. Enfim, uma pena, fiquei meio penalizado. Mas a vida é isso daí. Essa sensação de impotência me acompanhou por muito tempo: “e se eu tivesse acenado? E se eu tivesse feito isso e aquilo?”.

ZR – Você foi colunista da revista IstoÉ, algumas das crônicas publicadas lá estão nestes livros. Você acha que essa coisa da regularidade de colaborar com um veículo ajuda ou atrapalha? A coisa da obrigação, da disciplina? Você aceitaria o convite de um veículo para colaborar permanente hoje?
ZB – Rapaz, só se fosse o Jornal Pequeno [gargalhadas gerais]. Estou brincando. Eu saí na hora certa, uma intuição qualquer. Uma por que eu estava exausto, não conseguia mais dar conta de tantos projetos. Parece fácil escrever um texto de 60 linhas, mas às vezes eu esquecia. Eu estava indo para Alagoas, tocar em Maceió, e Adriana me ligando, “Zeca, é hoje. Você tem que mandar o texto até”, aí eu tinha que sacar um coelho da cartola em 40 minutos, sabe? É uma loucura! Isso começou a me exaurir, essa responsabilidade. Agora, durante um tempo foi importantíssimo pra mim. Eu sentia que o texto ia ficando mais fluente, era mais fácil começar e finalizar um texto. É igual um músico que toca, um atleta que treina à exaustão, vai ficando mais fácil. Foram cinco anos, foi intensíssimo, foi bacana, falei de tudo que eu podia falar, por que eu pedi permissão total, só escrevo se eu tiver liberdade de falar sobre tudo, política, dar minha opinião, e eles “não, tranquilo, porta aberta, a gente quer mesmo é… criar polêmica então, ótimo!”.

ZR – Foi hostilizado por Roseana Sarney.
ZB – Que bom!

ZR – Eu me lembro de uma campanha de Roseana em que aparecia na propaganda um recorte da IstoÉ com tua coluna, uma página de meu blogue, “o pessoal que só fala mal do Maranhão”.
ZB – Que bom estar nesse lugar.

SS – Falando em política, como você está vendo esse cenário em 2019.
ZB – Como toda pessoa de bom senso eu lamentei a eleição do Jair Bolsonaro. Hoje eu penso de uma forma diferente. Eu acho que é uma provação pela qual o povo brasileiro tem que passar. Eu até diria uma purgação, quando você tem que ir até o fundo do poço para poder voltar, acordar. Eu acho que vai ser bom, a gente está mais vigilante, mais atento. Fazer uma analogia: quando você tem uma casa onde tem muito conforto, empregada fazendo isso, motorista, jardineiro, as pessoas se acomodam. Quando você mesmo tem que ir à luta, lavar a louça, dar a comida do cachorro, você fica mais esperto. Eu acho que é exatamente isso, a gente está saindo de uma zona de conforto, de um tempo, a gente teve governos bons aí, Fernando Henrique Cardoso, Lula e mesmo o primeiro mandato da Dilma, foi um tempo de uma certa bonança no Brasil, depois veio esse redemoinho político e econômico, e a gente entrou nesse lugar. A gente estava surfando nesses ventos e agora a gente vai ter que ficar com os olhos mais arregalados, numa certa vigília do que vai acontecer para que a democracia não degringole. Então, acho que vai fazer bem pra gente. Vai ser uma reeducação política, cidadã do povo brasileiro. Esse governo é tão frágil, tão artificial, que ele vai se desfigurar em pouco tempo. Não vai precisar muita coisa não, eles vão…

SS – Se matar sozinhos.
ZB – Sozinhos, igual desenho animado, vão se autodestruir em cinco segundos.

ZR – A serpente se comendo pelo rabo.
ZB – Pelo rabo. E eu acho que isso vai acabar sendo também o anúncio de outro tempo, a gente vai virar esse jogo, o Brasil tem um destino bonito e a gente não pode ficar assim.

ZR – Você está sempre envolvido em mil coisas ao mesmo tempo, é o viciado em trabalho que além de carreira, de disco, de show, teu mesmo, você está sempre ajudando um amigo, produzindo alguém, fazendo participação especial, compondo, enfim. Você já falou do Amor no caos, para daqui a alguns meses. Projetos para 2019, o que o fã clube pode esperar de Zeca Baleiro?
ZB – Não é meu projeto mas estou envolvido, o segundo disco da Patativa, a gente está finalizando, direção artística minha, produção do Luiz Jr., breve aí, em março ou abril a gente deve estar lançando. Esses dois discos eu quero fazer. Estou com uns projetos interrompidos que eu quero finalizar esse ano, que é o disco de sambas, se chama O samba não é de ninguém, só samba autoral. Tem um disco de bregas, bregas psicodélicos que eu chamo, o disco se chama Churrascaria psicodélica, é só brega autoral também, com guitarras distorcidas, estética anos 1970, o Érico Teobaldo está produzindo, quero ver se eu finalizo. Se possível eu quero lançar uns cinco, seis discos esse ano.

ZR – Ô coisa boa!
ZB – É. E aí correr com a aposentadoria, que eu estou cansado. Daqui a uns três anos eu quero ir para meu sítio na Maioba ou no sul de Minas e ficar lá compondo. Eu gosto muito de estúdio, estúdio é um negócio que não me cansa. Gosto de tocar ao vivo também, é um tipo de energia muito particular, muito única, não se consegue aquilo em outro lugar a não ser ali, no palco, naquela relação direta com o público, com a energia, a emoção do público. Mas a rotina, todo artista depois de certa idade fala isso, não tem como. É como um jogador de futebol que pudesse perdurar até os 50, 60 anos, por que a carreira é mais rápida, morreria de exaustão. Por isso que o cara quando acaba a carreira ele fica logo pançudo [risos], por que ele vai tirar todo atraso dos churrascos e dos chopes que deixou de tomar ao longo do tempo. No nosso caso não tem essa proibição, a gente pode beber nossa biritinha enquanto passa o som. Mas é muito exaustivo, você deixa muita coisa pra trás, deixa de presenciar muita coisa importante na vida dos filhos, dos familiares, dos amigos. É uma coisa que faz falta. Outro dia eu vi um depoimento do Zico, que é um workaholic também, trabalha o tempo todo, e ele falando, “pô, perdi muita festa de aniversário dos meus filhos quando era jogador, e agora não quero perder a dos netos”, então eu estou preparando minha aposentadoria para poder [interrompe-se]. Isso faz falta, é uma coisa aparentemente tola, mas faz falta na vida da gente. O estúdio não, o estúdio é um parque de diversões, você pode fazer de tudo. Eu passaria o tempo todo criando. Mas isso não enche barriga [risos], a principal receita do artista da música ainda é o palco, os shows. Mas eu sinto muito prazer. Eu não faria isso só por dinheiro, só para sobreviver, eu usaria de outros expedientes. É muito bom também.

SS – E livro novo? Previsão?
ZB – Olha, eu tenho umas ideias. Estou querendo esse ano também me dedicar um pouco a isso, tirar um tempo pra escrever. Quero fazer um livro sobre a produção feminina no Brasil, até já comecei, chamei uns dois amigos para me ajudarem na pesquisa, enumerar todas as autoras femininas, todas ou quase todas, desde o começo do século passado, é um trabalho que me interessa, esse de escavação, essa arqueologia. Estou exercitando umas coisas, uns contos, não sei. É preciso muita coragem para lançar um livro de literatura, com pretensão literária num país de tantos bons escritores. Mas quem sabe? [risos]. Quem sabe um dia, depois dos 60?

Obituário: João Gilberto

Reprodução
Reprodução

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (10/6/1931-6/7/2019), baiano de Juazeiro, revolucionou a música popular brasileira ao inventar sua batida característica ao violão, que se configurou como marco inaugural da Bossa Nova. É graças à existência de João Gilberto que o Brasil viria a ter artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre muitos outros, gente que decidiu seguir a carreira artística após o arrebatamento que significou ouvir Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), faixa que batizou o marco zero do movimento que fundiu o samba brasileiro ao jazz americano.

Certa vez, entrevistando Turíbio Santos, perguntei ao maranhense, referência internacional em se tratando de violão, se “João Gilberto era mesmo tudo isso que se dizia”. O maior divulgador da obra de Villa-Lobos mundo afora não hesitou: “é tudo isso e mais um pouco”.

Gênio foi adjetivo sempre atrelado ao nome de João, de quem disse Caetano: “melhor do que o silêncio só João”. Excêntrico foi outro. O jornalista alemão Marc Fischer, que suicidou-se antes de lançar Ho-ba-la-lá: à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2013], nas páginas de sua grande reportagem, urdida em uma viagem ao Brasil com o sonho de encontrar o ídolo, fez um verdadeiro inventário de justificativas para um e outro adjetivo.

Por exemplo, a obsessão que acabou levando-o a inventar a batida revolucionária no banheiro de uma casa em Diamantina, interior de Minas Gerais. Ou no episódio em que se apresentando com Caetano Veloso, e reclamando da acústica do local da apresentação, começou a ouvir vaias da plateia e retrucou: “vaia de bêbado não vale”, levando o também baiano Tom Zé a escrever (em parceria com Vicente Barreto) uma crônica musical sobre o episódio – lançada em seu ep “Imprensa cantada”, de 2003.

Perfeccionista também. O lançamento de uma compilação reunindo sucessos de seus três primeiros discos, pela EMI, levou o artista a travar uma longa batalha judicial contra a companhia, alegando mudanças nos fonogramas originais, que chegaram a ser compactados para caber o máximo possível em um cd. Entre as várias histórias (reais e inventadas) acerca de sua persona é conhecida a do costume de passar até 12 horas no apartamento ensaiando a mesma música.

O último retrato. Sofia Gilberto/ Reprodução
O último retrato. Sofia Gilberto/ Reprodução

Recluso foi outro adjetivo que se colou a João, sobretudo nos últimos anos. A última vez em que anunciou uma turnê, com que comemoraria seus 80 anos, cancelou alegando uma gripe. O último retrato, em que aparecia elegantemente trajando um terno e segurando o violão, companheiro inseparável, foi postada por sua neta, Sofia Gilberto, em uma rede social.

Dono de uma obra irretocável, João Gilberto faleceu hoje (6), aos 88 anos, em seu apartamento no Leblon. Há algum tempo ele já apresentava um quadro de saúde debilitada – o falecimento foi confirmado pela família, mas a causa mortis ainda não foi divulgada, nem informações sobre velório e sepultamento. Deixa os filhos João Marcelo, Bebel e Luiza.

Solo e bem acompanhado pelo público

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Geraldo Azevedo, trajando uma camisa de listras e estrelas em tons acinzentados, subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo ontem (30), levou na esportiva um problema técnico que impedia a amplificação de seu violão. Superado o percalço, abriu seu show com Ê minha vida (Geraldo Azevedo/ Capinan), antes de brincar, referindo-se ao sobrenome comum: “posso dizer que é meu tio-avô, Arthur Azevedo”, para risos da plateia.

Agradeceu por estar de volta à ilha e continuou: “a inspiração deste espetáculo é o disco que eu fiz em 1995, Ao vivo contigo; mais recentemente eu pensei em registrar em vídeo”, disse, referindo-se ao dvd recém-lançado Solo contigo, no formato voz e violão. Para gargalhada do público, arrematou: “essa é a segunda sessão. Amanhã vai ser a primeira”, anunciou, referindo-se ao fato de a apresentação de ontem ser uma sessão extra, pois a de hoje, para quando o show estava originalmente marcado, ter esgotado os ingressos.

O roteiro seguiu com Inclinações musicais (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha). Depois, o pernambucano enalteceu alguns parceiros, citando a honra de ter feito música com, por exemplo, Mário Lago. “Ele dizia que para falar de amor não precisa falar correto, basta falar ao coração”, lembrou, antes de cantar a hilariante Amor de gramática, parceria de ambos.

“Com ele eu não fiz música, mas a gente era parceiro de vida, dividimos palcos no Brasil e fora”, revelou, antes de cantar Estácio, eu e você, e terminar de punho erguido: “viva Luiz Melodia!”.

O desfile de parceiros continuou. “Esse anda comigo há muito tempo; é meu técnico de som, mas descobri que é também um ótimo compositor. Vou cantar uma dele: Sérgio Peres”, anunciou antes de A saudade me traz.

No ano do centenário de Jackson do Pandeiro não podia faltar uma homenagem a ele, que Geraldo Azevedo revelou ser uma de suas referências. “Ainda tive a honra de dividir o palco com ele”, reverenciou, antes de cantar Já que o som não acabou (Geraldo Azevedo/ Geraldo Amaral/ Alceu Valença).

“A partir desse momento é Solo contigo”, anunciou, ficando em pé e trocando de violão. “Vocês têm que participar”, convocou o público. É literalmente uma antologia, um desfile de clássicos: O principio do prazer (Geraldo Azevedo), Canta, coração (Geraldo Azevedo/ Carlos Fernando), aplaudida desde a introdução, Veja (Margarida) (Vital Farias) – em que o verso “gasolina vai subir de preço” virou “gasolina já subiu de preço”, numa crítica sutil ao governo de Jair Bolsonaro.

É impressionante a comunhão entre o artista e seu público ludovicense, mesmo sendo Geraldo Azevedo um habitué da ilha. Tanto querer (Nando Cordel/ Geraldo Azevedo), Pensar em você (Chico César), Caravana (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo) – “bonito o coro, obrigado!”, agradeceu o cantor – Chorando e cantando (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo), outra aplaudida desde a introdução, Você se lembra (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).

Após quase quatro minutos de introdução, com o público já acreditando que a música ficaria em sua versão instrumental, diante dos efusivos aplausos, o artista convertido numa espécie de guitar hero, tirou o chapéu em agradecimento ao público antes de começar a cantar Bicho de sete cabeças (Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho/ Renato Rocha), que acabou emendada com Dona da minha cabeça (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Em Dia branco (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha) transformou o “pedaço de qualquer lugar” em “um pedacinho de São Luís do Mará”, antecipando o clássico de Carlos Fernando que não pode faltar a seu set list em se tratando de shows na “ilha bela” – a citada comunhão era tanta que nem houve os tradicionais chatos pedindo “aquela”. Ontem souberam esperar e pareciam estar satisfeitos com a seleção.

“Eu fiz esse dvd, mas eu estou cheio de músicas novas. Estou fazendo um disco, quem sabe no segundo semestre eu termine e venha mostrar outro disco diferente”, aventou, para delírio da plateia, antes de cantar Um paraíso sem lugar (Ela e eu) (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Para Moça bonita (Geraldo Azevedo/ Capinan) a plateia bateu palmas marcando o ritmo e nela Geraldo Azevedo emendou Sabor colorido (Geraldo Azevedo), lembrando a gravação do Cantoria 2, e Sabiá (Luiz Gonzaga/ Zé Dantas).

Na gravação de Canção da despedida no LP A luz do solo (1985), Geraldo Azevedo registra a saga para gravar a música: antes, havia colocado em várias relações de repertório para discos novos e a censura vigente na ditadura militar impedia a gravação; finalmente ele gravava ali a parceria com Geraldo Vandré, de letra atualíssima nestes tempos bicudos, de presidente homofóbico: “um rei mal coroado não queria/ o amor em seu reinado, pois sabia/ não ia ser amado”. Ontem, afirmou, antes de cantar: “meu parceiro nessa é complicado, eu não consegui a liberação para gravar nesse dvd mas ela sempre está com a gente”, disse, referindo-se ao sucesso, do verso “amor não chora, eu volto um dia”, que anunciava que o show estava se aproximando do fim.

“Eu não podia sair sem cantar essa canção”, afirmou antes de Terra à vista (Carlos Fernando), composta em homenagem a São Luís do Maranhão, certamente um ponto de identificação forte entre o artista e seu público local – na década de 1980, muita gente por aqui achava que Geraldo Azevedo era maranhense.

“Eu faço há muito tempo carnaval em Pernambuco, continuo fazendo. Eu fiz um EP de frevos, está nas redes sociais para quem quiser ouvir”, convidou, antes de Quatro dias de amor (Geraldo Azevedo/ Maciel Melo), cujos versos finais cantou se retirando do palco: “o amor de carnaval/ chega quarta-feira vira cinza e tchau”.

Aos gritos de “mais um!” voltou para atender com Táxi lunar (Geraldo Azevedo/ Alceu Valença/ Zé Ramalho), com a iluminação – impecável – simulando, em tons de vermelho, uma espécie de abdução e seu violão magistral fazendo as vezes do motor de uma nave espacial. Sai de cena aplaudido de pé, com o público – que cantou junto quase o show inteiro – a confirmar que as canções de Geraldo Azevedo fazem parte do imaginário coletivo, ajudando a contar as histórias de que são trilha sonora.

Resistência e/m Liberdade

Resistência. Capa. Reprodução

Resistência é um título impactante: assim se chama o novo disco do Bumba Meu Boi de Leonardo, sotaque de zabumba, do bairro da Liberdade, como também é conhecido o grupo, um dos mais representativos e longevos – foi fundado em 1956 – da cultura popular do Maranhão.

O título pode ter várias leituras. A primeira é a própria manutenção do grupo do sotaque que tem origens no município de Guimarães – como também é conhecido o sotaque de zabumba –, após o falecimento de seu fundador, Leonardo Martins Santos, em 2004, aos 82 anos.

Mestre Leonardo. Foto: Márcio Vasconcelos

A segunda, a persistência em atravessar o atual momento político por que passa o país, em que o governo militar/izado elegeu artistas e produtores culturais como inimigos, com a extinção do Ministério da Cultura e a consequente diminuição dos recursos investidos na área – o Bumba Meu Boi de Leonardo é Ponto de Cultura desde 2010.

A terceira, o registro em si (após 12 anos sem um lançamento em disco): num tempo em que se alardeia a morte do cd físico, o grupo bota na rua seu quinto disco, produzido pelo percussionista paraense Luiz Cláudio, radicado no Maranhão desde o fim da década de 1970 – uma das razões de sua permanência foi a paixão despertada nele pelo grupo de Leonardo (que mantinha também um tambor de crioula), quando de sua chegada. O álbum físico vem embalado em belas fotografias de Márcio Vasconcelos, craque no registro de manifestações da cultura popular, Raileen Martins e João Maria Bezerra, e projeto gráfico de Ná Figueiredo. Cabe ressaltar que Resistência está disponível também em todas as plataformas digitais.

O Boi de Leonardo, pela qualidade, sempre despertou paixões, o que contribuiu para o engrandecimento do grupo, com raízes fincadas no bairro da Liberdade, muitas vezes estigmatizado como um bairro violento, mas um dos mais ricos e diversos culturalmente da ilha capital. O primeiro disco do grupo foi lançado em 1988, produzido pelo compositor Chico Maranhão.

Regina de Leonardo. Foto: divulgação

Ano passado a pesquisadora Marla Silveira, produtora executiva de Resistência, lançou Nas entranhas do bumba meu boi [Edufma, 2018], resultado de sua dissertação no mestrado em Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão. A obra aborda as estratégias para botar o boi na rua e o protagonismo feminino na manifestação: Regina de Leonardo, filha do mestre fundador, assumiu o comando do grupo após o falecimento do pai.

“O Boi de Leonardo tem uma tradição representada simbolicamente, pelo nome de um importante mestre da cultura popular brasileira, Leonardo, e, ritualisticamente, assegurada por todos os seus integrantes, que por meio dos rituais e dos movimentos, fazem deste Boi uma manifestação cultural de resistência e fé”, aponta Marla em texto no encarte do disco.

A gravação captou uma apresentação ao vivo na sede do grupo. A parceria entre o estúdio Deu na Telha Audio Lab (do guitarrista João Simas e do baterista Thierry Castelo Branco), com a gravadora paraense Ná Music (onde o disco foi masterizado) e o selo Zabumba Records, inventado por Luiz Cláudio (que assina produção e direção artística de Resistência) para resgatar e registrar manifestações da cultura popular, garante aos ouvintes uma experiência próxima de estar em uma apresentação ao vivo do bumba meu boi.

As 16 faixas registram, na ordem, as etapas da apresentação do boi: começa com as ladainhas rezadas pelo senhor Raimundo Monteiro, passando pela “reunida, quando os batuqueiros se reúnem na fogueira para afinar o couro dos tambores”; o “guarnicê, quando o grupo se prepara para iniciar a dança”; o “lá vai, aviso aos espectadores (assistência) que o Boi vai começar a dançar”; o “chegou, quando é anunciada a presença do boi no cordão (roda/terreiro); a partir daí são cantadas várias toadas livres; depois canta-se urrou, quando se festeja a ressurreição do boi; e a última toada é a despedida, quando o boi encerra a apresentação”, como ensina o texto de Marla no encarte.

Bumba meu boi raiz, o de Leonardo registrou o trabalho com músicos da comunidade, sem recorrer a contratação de músicos de estúdio, garantindo autenticidade ao material. As zabumbas são tocadas por Natan, Bruno, Nenem e Luiz Cláudio; pandeirinhos por Benilton, Zé, Paulinho, Joca, Manguera, Luiz Cláudio e Coelho; maracás por Luiz Cláudio e vocais de Regina de Leonardo, Ana de Burgé, Lilia e Wanderley (não é comum mulheres em vocais de grupos de bumba meu boi).

As toadas fazem um apanhado da trajetória do grupo, incluindo registros preciosos, resgatados de discos anteriores e remasterizados, das vozes do próprio Mestre Leonardo e Chico Coimbra, este na ufanista Terra de poetas, de sua autoria: “Por isso me sinto feliz/ vem gente de todo país/ pra olhar de perto/ o boi de São Luís/ olha, turista, o luxo desse guerreiro/ não paga nada pra ver/ nós temos o melhor folclore brasileiro”, diz a letra. Erros de concordância e prosódia entram na conta da licença poética e da autenticidade, tornando ainda mais verdadeiro o que ouvimos ali.

Regina de Leonardo faz um emocionante dueto com seu falecido pai em Chegou (Assistência que está na bancada): “o terreiro estava triste/ nesse momento se alegrou/ por que recebi uma mensagem/ lá de cima que Jesus mandou”, cantam.

Entre compositores e cantores também comparecem Zé Pretinho, autor de Chegou 2 (“São João já escreveu no livro/ que esse ano somos campeão”), e Carlinho Silva de Carutapera, autor de Mestre é mestre, comovente homenagem ao Boi de Leonardo, composta quando o batalhão completou 60 anos: “Mestre é mestre/ esse é o boi que Leonardo deixou/ infelizmente foi lá pro degrau de cima/ que Jesus Cristo levou”, diz a letra. E continua: “hoje ele brilha no bairro da Liberdade/ aonde é carinho e amor/ essa notícia se espalhou na ilha inteira/ dessa beleza que Regina cultivou”.

Mestre Zió. Foto: divulgação

Merece destaque ainda a presença, em composição e canto, de Mestre Zió (João Vieira), espécie de sucessor natural de Leonardo. Ele assina e canta em sete faixas do disco, incluindo a Despedida (Adeus), que se tornou hit por aqui quando Luiz Cláudio gravou-a em seu ep Encantarias [2017], com a participação especial de Zeca Baleiro. Ao final da faixa, um bônus instrumental demonstra a interessados a formação da polirritmia que marca o sotaque de zabumba.

Também é da lavra de Zió Batuque forte (Guarnecê), que bem traduzirá nos ouvintes a sensação de ter o Boi de Leonardo em casa, com o disco: “eu quero um batuque forte/ como o conjunto merece/ se é para ouvir de longe/ na hora que Liberdade guarnece”.

Serviço

O lançamento de Resistência acontece hoje, no primeiro ensaio aberto do grupo, na sede do Boi de Leonardo (Rua Alberto Oliveira, 150, Liberdade), com entrada franca, a partir das 22h.

*

Ouça Resistência:

Plural e desnuda

Retrato: Camila Neves

 

“Uma vez minha mãe falou que ele era primo do meu avô. Mas eu nunca chequei isso, não lembro se essa é a informação certa [risos]. Mas vou perguntar pra ela”. É com essa imprecisão acerca de seu parentesco com o escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004) que começa minha conversa com Bia Sabino (27), cantora carioca que estreou no mercado fonográfico ano passado, com Ecos [independente, 2018], um dos discos mais verdadeiros da temporada – ao longo da entrevista ela me encaminharia uma mensagem de texto da mãe: “Oi, filha. De acordo com a tia Aparecida, ele era primo primeiro de pai. Temos parentes dele em Resplendor/MG”.

Sabino não é o único parente famoso da moça, mas ela não carece de parentes importantes à guisa de cartão de visitas. “Tem um moço da minha família que bem fez o Hino da Independência. Imagina se as pessoas esperassem que eu fizesse músicas parecidas com as dele”, diverte-se, referindo-se a Evaristo da Veiga (parente de seu bisavô) – Francisco Manoel da Silva, autor da melodia do Hino Nacional, fundou o Conservatório de Música do Rio de Janeiro, que precedeu a Escola de Música da UFRJ, era parente de sua bisavó, ela acrescentou após consulta a sua vó. “Os dois pais da minha vó, por parte de pai; a família da minha mãe tem raízes indígenas, eu tenho certeza que tinha uma galera da batucada lá, mas esses não estão nos livros de história [risos]”.

Sobre a sinceridade a que me referi, digo que percebo um desnudar-se, uma carga autobiográfica em seu trabalho. Ela concorda: “Acredito que isso aconteça mesmo, sabia? É o que faz a arte. Eu não entendo como alguém consegue cantar ou compor “vestido” [risos]”. Ela mesmo se corrige: “até entendo. Mas não me move”.

A cantora durante o show de lançamento de Ecos. Foto: Camila Neves

Bia Sabino já compõe há algum tempo, mas só agora, após um processo de crowdfunding, conseguiu botar seu bloco na rua – a campanha de financiamento coletivo bateu todas as metas. “Eu espero que o caminho seja longo mesmo, às vezes me sinto meio atrasada, tendo escolhido me jogar nesse caminho meio tardiamente, já que a música sempre esteve presente”, me revela a geóloga de formação, que ao longo da entrevista, realizada durante cerca de dois meses através de chat de rede social e aplicativo de mensagens, revelará ser várias: está concluindo uma pós-graduação em Naturopatia. “Parece que são coisas distintas, mas tudo reverbera nas minhas músicas”, revela-se.

A conversa com Bia Sabino transcorreu entre afazeres diários do repórter e da artista, entre aulas de pós-graduação, shows, viagens, feriados, apresentações circenses – é acrobata e professora de acrobacia – e tudo o mais que sua pluralidade lhe permite.

Pergunto-lhe se encara a música como profissão ou hobby. “É definitivamente uma profissão. E agora estou tentando encontrar os caminhos para viver essa realidade. Por que eu quero espalhar uma mensagem, sabe? Eu tenho algo a dizer”, diz. “Mas ao mesmo tempo eu tenho que tocar em barzinhos etc. para conseguir viver aqui”.

“Eu faço poemas desde MUITO pequena [grifo dela]. Minha mãe guardou umas coisas muito engraçadas disso. Aí quando eu tinha uns 10 anos eu percebi que eram músicas, na verdade”, puxa o fio das origens. “Acho que isso da idade é construção social, né? A gente vê vários artistas incríveis começando tão novinhos, fazendo sucesso aos 20 [gargalha]. Sei que sou super jovem, mas ao mesmo tempo fico querendo ter tomado essa decisão antes [risos]”.

A garota prodígio torna às origens: “Eu entrei pro coral do colégio aos cinco anos, o que é até uma história engraçada, por que não podiam babies como eu. Só que eu queria MUITO cantar [grifo dela]. E aí fui falar com a coordenadora, arrastando minha mãe… ela disse que se o diretor deixasse eu podia ir. Aí fui falar com a tia Rute, falei que me comportaria, que queria muito cantar… Então o limite antes era de 10 anos de idade, eu desci para cinco. Era meio precoce”.

E continua: “Fiz 11 anos de coral, mais ou menos. No meio disso comecei a aprender violão sozinha. Depois entrei no [curso de] violão clássico da [escola de música] Villa-Lobos”. Ela não chegou a se formar no instrumento, mas estudou durante um tempo. Digo que é uma história incrível e ela retruca: “tem que ouvir minha mãe contando essa história. É muito bom [risos]”.

Indago-lhe sua opinião sobre artistas mirins. “Eu era uma criança muito engraçada, ficava pensando na vida. Quando eu era pequena eu tinha uma certa pena desses artistas crianças, eu lembro do Molecada [grupo de pagode mirim], achava que eles não aproveitavam a infância. Eu não gostava da Sandy. Acho que ela tem uma voz incrível, mas não me move muito. Mas vou falar que adorava cantar Imortal [versão de Imortality, de Barry, Robin e Maurice Gibb] e A lenda [de Nando, Kiko, Ricardo Feghali] com a Sandy [e Júnior] por que podia gritar [risos]. E detestava Xuxa, achava muito infantil”.

“Eu tinha muitas composições, várias coisas que estavam meio engasgadas e eu queria colocar pro mundo justamente por considerar que demorei pra fazer isso. Sempre toquei minhas músicas para amigos, família, mas gravar seria outro nível de espalhar as mensagens que eu queria. Fui conversando com pessoas à minha volta, fiz algumas enquetes no instagram, botava alguns trechinhos, isso para a primeira parte do disco, as seis primeiras músicas; a segunda parte, as sete músicas a partir de Quem olha de fora, eu fiz todas num retiro, cada dia compus uma música e isso foi uma das forças-motrizes para eu lançar o disco, esse caminho que eu fiz por essas músicas, esse retiro de autoconhecimento, foi superimportante, e decidi que elas deveriam estar todas no disco”, revela sobre o repertório do álbum de estreia.

“Eu estava aprendendo a fazer leitura de aura, é uma técnica que se desenvolveu fora do Brasil, mas quem trouxe é uma moça que é uma das líderes lá de Piracanga [comunidade em Maraú/BA]. Eu fui por que estava muito perdida no sentido profissional, estava trabalhando direto na empresa, não tava fazendo o disco, não tava cantando tanto quanto eu gostaria, e sabia que esse não era meu propósito, que eu não tinha nascido para ficar atrás do computador [risos]. Eu sabia disso, mas me faltava uma força de dar esse passo, tomar essa decisão. Fui para esse retiro para entender esse processo, as autossabotagens que eu tava fazendo na minha vida. E tinha zero viés de fazer isso, de compor, eu tinha vindo de um período de seca musical bizarro. Eu compus Jabuticaba e depois que eu fiz Jabuticaba começou o processo de fazer a música tomar uma proporção bem maior do que tava tendo. Era um retiro sobre chacras, centros energéticos que representam setores da nossa vida, digamos. Cada dia do retiro você trabalhava um chacra. No primeiro dia já foi: “nossa, quero compor uma música sobre o que estou sentindo”. No segundo dia a mesma coisa e cada dia eu fui fazendo uma música. Foi incrível. No final eu apresentei, à capela, não tinha violão, eu estava fazendo as coisas e gravando minha voz no celular. Foi sensacional, eu senti que precisava gravar isso, estar lá com as pessoas me deu muita, muita força para fazer isso acontecer”, prossegue sobre o retiro.

Com sua trupe de circo Bia Sabino integra uma banda, em que ela desenvolve uma pesquisa a partir de se apresentar no ar cantando. “Cantando mesmo, não é playback”, faz questão de frisar. A banda se apresenta mensalmente, com o espetáculo Parangolé.

Sobre influências ela diz que acha que foram um “pouco doidas”. “Quando eu era pequena meus pais ouviam muito Michael Jackson, eu podia ficar o dia inteiro assistindo os vídeos e ele cantando, e eu adorava as coisas que meus pais ouviam, que era Bee Gees, Genesis, Queen, ouvia muita coisa assim. No Brasil eles gostavam mais dos rockzinhos, ouviam Legião Urbana, minha mãe adorava Ney Matogrosso, Roberto Carlos, apesar de que eu não peguei muito a referência do Roberto Carlos. Depois eu comecei, no colégio, por conta do coral, aula de música, comecei a conhecer por mim, eu tive várias fases. Comecei a gostar muito de punk rock, ia a saraus de bandas locais aqui no Rio e a galera fazia um som bem parecido com, sei lá, CPM22, depois comecei a conhecer o lado clássico da música de compositores mais antigos. Nisso eu já gostava muito de bossa e samba, apesar de que eu não me desenvolvi no violão nesses ritmos, mas peguei uma cadência. Aí comecei a ouvir muito Ed Motta, Tim Maia, essa parte meio soul, eu gosto muito de soul, MPB, Marisa Monte, e claro umas divas internacionais que eu sempre escutei, Aretha Franklin, Nina Simone, Joss Stone, mais velha agora já, Amy Winehouse, tem uma banda também que eu adoro, Morcheeba, o nome da moça que canta é Skye Edwards, adoro o jeito que ela canta. Foram muitos ritmos diferentes da MPB, reggae, rock, soul, blues, adoro blues e jazz. Elis, como que eu esqueci de falar da Elis Regina? Amo a Elis Regina desde bem mais nova, Novos Baianos. Cara, foi uma mistura bem doida, não sei se te respondi ou se deixei mais confuso [risos]”, desfia o rosário.

Comento que é um caldeirão vasto, muito interessante e despido de preconceitos, e ela manda uma mensagem de texto completando: “e eu fui econômica: Tom Jobim, Vinicius [de Moraes], Bob Marley, amo muito Bob Marley, Soja, Lauryn Hill, Cazuza. Música boa não tem endereço, né?”.

Ecos. Capa. Reprodução

“Acho que estou em um momento tentando amadurecer isso, todos esses amores da música, transmutar isso em uma unidade, que, em essência, acaba tendo muitas facetas. O que ainda é um retrato de mim, talvez, geóloga, circense, cantora e terapeuta”, arrisca-se, quando proponho-lhe o exercício de relacionar as referências ao resultado de Ecos. “Ou só Bia [risos]”.

“Acho que eu fiquei revoltada quando disseram que eu tinha que escolher uma carreira só pra ter sucesso. Mas também, o que é sucesso?”, provoca-se/nos.

Pergunto-lhe sobre referências em outros campos para além da música: literatura, cinema. “Não esperava por essa pergunta, sabia? Acho que é a primeira vez que eu entro nesse campo conversando com um jornalista [risos], gostei. Por que fez muito parte da minha vida. Eu tenho um negócio com histórias. Eu amo histórias. Se eu começo a ler uma história ou assistir um negócio que eu gosto muito, eu não consigo parar. Foi assim na minha adolescência, eu li muitos livros, tive a sorte de ter, no colégio a gente tinha a ciranda de livros, tinha muito livro legal, e ao mesmo tempo, eu lembro que uma vez, eu morei em muitos apartamentos, apartamentos alugados e tal. Num desses apartamentos o antigo morador era um editor da Globo, algo do tipo, e tinha um armário cheio de livros, nossa, eu li muito, muita Agatha Christie, Harry Potter [série de J. K. Rowling], amava, minha vó me dava muitos livros, A menina que roubava livros [de Markus Zusak], O caçador de pipas [de Khaled Hosseini], adorei o Dan Brown. Sempre li muito mas nunca fui muito específica de um autor, tem vários escritores que fizeram parte da minha vida. Eu gosto muito de livros de fantasia, tem muito isso de jornadas de autoconhecimento, eu gosto muito disso. Eu leio muito, gosto muito de ler, ultimamente tenho lido muito para a pós, medicina vibracional, umas coisas mais direcionadas. Tenho lido menos do que gostaria”.

Continua: “cinema é a mesma coisa, tenho certa compulsão por histórias. Acho que mal ou bem todo mundo começou com a Disney. Eu adoro desenho animado. Os desenhos animados sempre vão para esse lugar de passar uma mensagem positiva e eu me identifico muito com isso. Não sei, eu não sou muito cult do cinema, não sou essa pessoa que tem vários filmes alternativos na rota. Eu gosto muito de ficção, fantasia. O senhor dos anéis [de Peter Jackson, baseado na obra de J. R. R. Tolkien], eu adoro, gosto muito mesmo, mas é uma saga, fica meio nesse lugar, uma saga de autoconhecimento. Eu gosto muito de filmes que tiram um pouco a gente da realidade, que mostram esse mundo extraordinário, que na verdade é o que a gente vive só que não vê. Eu gosto dessas histórias que trazem, que te tiram dessa superfície que eu acho que muitas vezes a gente escolhe viver no nosso mundo. Eu adoro assistir filme, estou sempre buscando alguma coisa nova, tem dia que eu quero ver uma coisa boba, tem dia que eu tou com vontade de ver documentário sobre saúde, espiritualidade, ou sobre o tempo, eu gosto muito de documentários científicos, acho que muito por conta do background geológico, eu gosto de assistir coisas sobre física, tempo, física quântica, realidades alternativas, buracos de minhocas [risos]”.

A primeira vez que Bia Sabino saiu de casa foi quando foi morar na Austrália, onde passou um ano. Ao voltar, morou seis meses sozinha em Santa Tereza e há cerca de dois anos mora em Botafogo com o namorado. A viagem internacional, realizada por conta da faculdade, também tem a ver com seu disco de estreia.

“O disco tem uma música em inglês, foi uma música que eu fiz lá. Estar fora me fez ver quem eu era, já, quem eu realmente era. Quando a gente vive em algum lugar por muito tempo acaba se prendendo a rótulos. Eu era filha de alguém, amiga de alguém, cresci dessa tal maneira, e às vezes você muda e não consegue encontrar espaço para ser quem você é, justamente por que você se prende aos rótulos, você acaba pensando “poxa, se eu fizer tal coisa, se eu falar tal coisa, talvez eu não seja mais amiga dessa pessoa”, e a gente gosta de preservar nossas relações, mas muitas vezes isso acaba fazendo mal pra gente. Quando eu fui pra Austrália eu tive esse espaço, eu percebi que eu já tinha mudado muito, tive espaço de crescer, minha independência, ver o que eu realmente queria, o que a Bia queria pra vida, isso foi muito engrandecedor. Se você reparar a letra de Carry on é basicamente sobre isso, descobertas, ver o mundo com outros olhos, outra perspectiva e me ver com outra perspectiva. Ir para a Austrália definitivamente foi um turning point na minha vida, sem dúvida alguma”, revela.

“A ideia inicial seria algo bem cru, não ia ter tantos instrumentos, ia ser voz, violão e percussão”, remonta as primeiras ideias para Ecos. “Entramos com o baixo, eu e o Glaucus [Linx], meu produtor musical, que entrou nessa empreitada e também surgiu de maneira mágica na minha vida. Ele conhecia o Pedrinho, que foi o baixista, Pedro Leão, um superbaixista, toca com muita gente boa, tocou com O Rappa, e o PC [Andrade] da percussão, que foi também um amigo do Glaucus, no caso. Violão fui eu quem gravei, voz, eu e Glaucus produzimos alguns sons já gravados, tipo cuíca, a gente optou por usar os gravados, por que não tinha dinheiro para contratar tantos músicos. Demoramos a gravar por que cada hora era uma música nova, um problema, cheguei a perder seis pistas de voz, um amigo meu de tempos [Leonardo Elger] tocou violão em Jabuticaba, o Yann [Vathelet] tocou percussão, ele é francês, já não está mais no Brasil”.

Jair Bolsonaro já havia sido eleito mas ainda não havia sido empossado enquanto conversávamos, mas não deixamos de falar de política. “Política é um assunto polêmico. Toda essa crise política no Brasil não é nada que me surpreenda. Tem um tempo que eu vejo política da mesma maneira que eu passei a ver futebol, no sentido dos times. Eu não acredito mais que existam partidos diferentes, acho que tem pessoas que lutam por coisas diferentes, mas as crises políticas no Brasil não são novidade, e pra mim isso não tem especificamente a ver com um partido, mas com o tipo de sociedade que somos, como a gente escolhe viver. Tem até um documentário muito legal, Kymatica [de Ben Stewart], que é uma coisa meio doida, até, que basicamente ele fala que guerras acontecem, guerras terminam, políticos ascendem, decaem, partidos, por que como sociedade a gente nunca buscou curar o que precisa ser curado, a doença social, no sentido de que a gente valoriza coisas que não têm valor e desvaloriza coisas que têm valor, a gente se repete em ciclos, a roda do Samsara, o famoso karma, a gente repete os mesmos ciclos sociais como humanidade há milênios. Acho que tem muito a ver isso com o fato de eu ser geóloga. Quando você estuda geologia você perde um pouco essa individualidade, “ai, partido tal”, você acaba olhando o mundo com uma outra visão, de 4.6 bilhões de anos, e a terra como um super organismo e não a gente com nossa pequena mente. Eu vejo que o que está acontecendo é o reflexo da sociedade que a gente é, o que a gente valoriza como sociedade, dos valores que a gente busca. Eu fiquei muito chocada com essa última vitória da presidência, do Bolsonaro. Eu acreditava que como sociedade a gente estava valorizando outras coisas, valores humanos mesmo. Isso foi o que mais me chateou nas eleições, não foi partido tal ter ganhado ou partido tal ter perdido, mas entender que a mente social está num lugar que eu não esperava, de intolerância. Hoje em dia eu vejo a política dessa maneira, um reflexo do estágio de consciência da sociedade. É até o que eu quero, o que eu tento colocar nas minhas músicas, outro lugar, um olhar pra dentro. Não dá pra mudar o que tá fora sem mudar o que tá dentro. Durante muito tempo na minha vida eu me coloquei muito nesse lugar do tipo “ah, tá tudo errado no mundo, o que eu posso fazer?”, enquanto a gente tem as nossas pequenas corrupções diárias, sabe? Você é parte de tudo o que você não gosta que está acontecendo, politicamente, socialmente, ambientalmente. Onde você faz a sua parte para mudar isso? Aí eu comecei, em vez de ficar pirando com a política e as coisas que no momento estão fora de meu alcance, a mudar as minhas pequenas atitudes. Por exemplo, no que eu posso, hoje em dia, eu não minto pra nada, sou sincera comigo em primeiro lugar, por que quando você mente para o outro você está mentindo para si mesmo. Então, furar fila, tento não furar fila, andar no acostamento, coisas assim”.

Sobre a extinção do Ministério da Cultura, completa: “eu tou achando isso uma doideira. A gente já tem tão pouco incentivo cultural aqui no Brasil, musical, na cena do circo, a gente tem até umas iniciativas muito boas, mas tá tudo muito decadente, mas falta muito incentivo para que coisas novas surjam, espaço para a cultura, e mais uma vez isso tem muito a ver com a sociedade que somos”.

A divulgação do disco, revela, tem sido uma de suas maiores dificuldades. “Eu não sou muito boa nisso, até estou fazendo um curso agora, para ver se melhoro” – mais uma faceta de Bia Sabino. “Eu não sou boa em vender, eu não consigo me enxergar como um produto, mas todo mundo diz que tem que ser assim”, continua a cantora, que também assina o design de seu próprio site (e desenha as próprias tatuagens).

O show de lançamento de Ecos aconteceu em um espaço da Fundição Progresso e teve um público de cerca de 300 pessoas. Bia Sabino cantou, tocou e fez acrobacias. Durante a conversa ela anunciou novo clipe [Loba, que acabou saindo antes da publicação da entrevista]. Ela pretende circular pelo Brasil e atualmente estuda criar as condições para tanto.

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Ouça Ecos:

O bluesman brasileiro

Ao vivo 2. Capa. Reprodução

 

Quando completou 40 anos de carreira, em 2016, Edvaldo Santana colocou na rua o petardo certeiro Só vou chegar mais tarde, apontado pela crítica como o melhor álbum de uma carreira pautada pela coerência.

Alicerçado sobre o repertório daquele disco, mas também relendo faixas de trabalhos anteriores, Santana, acompanhado de uma verdadeira big band, subiu ao palco do Sesc Pompeia para um show memorável: eram 12 músicos em cena, incluindo o próprio Edvaldo (voz e violão) e a cantora Alzira E (vocais).

O show foi gravado e, antes tarde do que nunca, virou disco: Ao vivo 2 atesta que Santana é o grande bluesman brasileiro – embora disso já soubesse quem acompanha sua trajetória há algum tempo.

Filho de piauienses, nascido, criado e moldado artisticamente em São Miguel Paulista (lembrada em Ruas de São Miguel, parceria com Roberto Claudino, e Sou da quebrada), Edvaldo Santana é o artista brasileiro que melhor encarna o blues americano, sem abrir mão de sua brasilidade. Se Raul Seixas foi pioneiro ao mesclar rock com baião, Santana é a própria encarnação brasileira do blues. Gênero musical quase sempre associado à tristeza, a obra do bardo é pautada pela alegria, como canta em Quem é que não quer ser feliz, que fecha o disco ao vivo à guisa de bis.

Naipe de metais com o elegante reforço de uma tuba (de Eliezer Tristão, que também toca trombone), o show registrado em disco tem ainda o luxo de um gaitista exclusivo – isto é, não é um músico que toca outro instrumento e aqui e ali encara a gaita: Bene Chireia. A banda se completa com Ubaldo Versolato (clarinete e saxofone tenor), Claudio Faria (trompete), Gó (trombone), Reinaldo Chulapa (contrabaixo), Daniel Szafran (teclado), Leandro Paccagnella (bateria), Ricardo Garcia (percussão) e Luiz Waack (banjo e guitarra).

Mesmo os sambas de Santana têm inclinações blueseiras, casos de Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Dom, a primeira, autobiográfica, repassando a carreira de craque peladeiro em campos de várzea – outro talento do músico –; a segunda uma comovente homenagem a Sócrates, líder da democracia corintiana. Ambas, como se percebe, devotadas ao futebol, podendo fazer frente a qualquer clássico de Chico Buarque, Jorge Benjor ou Skank quando o assunto é o esporte bretão.

Citações explícitas ou implícitas em sua obra, aproximam-no também de Belchior, afinal de contas, outro bluesman de mão cheia. A Ao vivo 2 comparecem homenagens a parceiros, gente de seu convívio e ídolos. A título de exemplo, apenas em 40 figuram Beatles, Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Tom Zé, Paulo Lepetit, Matsuo Bashô, Haroldo de Campos e, entre outros, a banda Matéria-Prima, na qual começou a carreira, em 1976.

Cabral, Gagarin e Bill Gates (parceria com Ademir Assunção) perpassa evoluções tecnológicas e frustrações, também com citações sutis (por exemplo a Chão de estrelas, o clássico de Orestes Barbosa e Silvio Caldas) e O retorno do cangaço cita Antonio Conselheiro e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ao criticar a corrupção como instituição consolidada (e em pleno funcionamento) no Brasil.

O disco foi gravado em dezembro de 2016, poucos meses depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, bem antes, portanto, das eleições, da chegada de Bolsonaro ao poder, e da propina de 40 milhões por deputado pela aprovação da reforma da previdência. O que demonstra que o blues de Edvaldo Santana é também afiado e antenado.

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Veja o clipe de Gelo no joelho (Edvaldo Santana e Luiz Waack):

O canto forte, delicado, poético e político de Manu Saggioro

Clarões. Capa. Reprodução

 

Há 20 anos Ceumar estreava no mercado fonográfico com Dindinha, produzido pelo maranhense Zeca Baleiro. Agora é a vez de a mineira devolver a gentileza, assinando a direção artística e dividindo a produção musical com Manu Saggioro em Clarões [2019, distribuição: Tratore], disco de estreia da paulista.

Delicado como não poderia deixar de ser, com tal encontro, o disco é sensível ao tocar em temas de nossos tempos, como, por exemplo, o uso excessivo de tecnologia, sobretudo o telefone celular, em Um dedo de prosa (Levi Ramiro), cuja letra graceja, séria: “vai de cabeça baixa sem ouvir a ninguém/ sem olhar pros lados, parecendo quem/ tá no mundo da lua”.

Se Ceumar demorou a revelar-se talentosa compositora, Saggioro apresenta logo suas credenciais: sozinha ou em parceria assina seis das 14 faixas de Clarões – a faixa-título leva a assinatura de Tetê Espíndola e Tavinho Limma – inclusive Moda de viagem, parceria dela com Ceumar, que cantam juntas fechando o disco, sua beleza aproximando-a tematicamente de clássicos como A vida do viajante (Luiz Gonzaga/ Hervê Cordovil) e Cantiga do estradar (Elomar), mas por um prisma feminino: “essa é minha natureza/ viajar é minha cura/ andar solta e sem rumo/ liberta do que me anula/ sentindo pulsar nas veias/ a vida fluindo pura”.

As paisagens sonoras de Saggioro evocam a brejeirice mineira de Titane, ao canto pantaneiro de Tetê Espíndola e à música de protesto latino-americana, irmanando-a a nomes como Violeta Parra e Mercedes Sosa. Das primeiras, o disco é completamente permeado; das últimas, bons exemplo são Aguita (Ana Beatriz Pereira Rolando), cantada em espanhol, e Pachamama (Osvaldo Borgez) – “Terra, quem me dera contê-la, guardá-la/ no vaso de minhas mãos/ pudera, cuidava, zelava/ num bonsai, mas cabe não”, lamentam alguns versos urgentes.

Soma de tudo isso, Saggioro tem personalidade e é ótima instrumentista – toca os violões do disco, a cuja ficha técnica comparecem nomes como Adriana Holtz (violoncelo), Antonio Loureiro (bateria), Lelena Anhaia (contrabaixo), Webster Santos (violão, dobro, bandolim, banjo, cuatro venezuelano) e Ari Colares (percussão).

Saggioro presta também reverências a companheiras de ofício, registrando composições de mulheres que merecem ser mais gravadas, ouvidas e conhecidas, casos particularmente de Tata Fernandes (Graça) e Déa Trancoso (Só restarão as estrelas), ambas de talento indiscutível.

Disco de alma feminina mais que pela delicadeza, pelo conteúdo político que cerze seu tecido poético: “mais um morador de rua/ de um condomínio fechado/ quem compra contos de fada/ acaba em cantos de fado”, dispara em Cantos de fado (Levi Ramiro/ Carlinhos Campos), preci/o/sa em tempos de pós-verdade. Afinal de contas, “cadeia de pensamento/ serve pra libertar”, como canta em Graça.

Ouça a faixa-título: