Contra a discriminação

A marcha. Capa. Reprodução

 

A graphic novel A marcha [título original: March: book one; 2018, 128 p.; R$ 45], cuja primeira parte (de três) foi recentemente publicada no Brasil pela Nemo, poderia ser apenas uma espécie de publicidade travestida de história em quadrinhos.

É o que podem dizer os apressados ou adeptos de teorias da conspiração, sobretudo os que, cá no Brasil, parecem viver ainda no tempo em que se passa a história – entre as décadas de 1950 e 60. Explico: traduzida por Érico Assis, a graphic novel leva a assinatura de John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell.

Somente o terceiro é da área, romancista gráfico com um Eisner na bagagem, por Any Empire, Swallow me Whole. O primeiro é o deputado do subtítulo da história – John Lewis e Martin Luther King em uma história de luta pela liberdade – e o do meio, seu assessor.

O subtítulo diz perfeitamente do que se trata e terminam aí quaisquer especulações em contrário: a narrativa fluida e muito bem desenhada, toda em preto e branco, remonta às lutas pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos, de que Lewis acabaria por tornar-se um líder (é deputado desde a década de 1980, justificando a confiança dos que lhes depositam os votos).

Nesta primeira parte da história, o deputado recebe crianças em seu gabinete, e reconta sua trajetória, da infância na pequena propriedade da família, em que sua relação com as galinhas e com a Bíblia já pareciam desenhar o futuro militante da não-violência.

Adiante, reconta os sit-ins que organizou: grupos de negros ocupavam balcões de lanchonetes que, à época, podiam escolher quem servir ou não de acordo com a cor da pele. Este tipo de protesto, inteligente e não-violento, levou à derrubada das leis Jim Crow, que institucionalizavam a segregação racial americana.

Revelada ao longo da graphic novel, sua inspiração foi a história em quadrinhos Martin Luther King e a história de Montgomery, publicada pela FOR [sigla de The Fellowship of Reconciliation, a Irmandade da Reconciliação], “que explicava os princípios da resistência passiva e da ação não-violenta como ferramentas para a dessegregação”.

130 anos depois de abolir a escravidão, o Brasil ainda não superou o ranço escravocrata e o racismo, embora não institucionalizado, segue vigente, sob camadas de hipocrisia disfarçadas de brincadeiras e/ou não alinhamento ao politicamente correto.

Uma leitura fundamental em um país em que a classe média adora papagaiar os norte-americanos e, sob a égide de um golpe, parece querer retroceder em se tratando de direitos humanos – expressão em geral deturpada.

Fundos rotativos solidários: uma alternativa para o Brasil

Seminário estadual “Fundos solidários: autonomia comunitária para o bem viver” aconteceu no Oásis e reuniu 45 representantes de grupos e comunidades de 15 municípios

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O JP TURISMO

Estamos em plena corrida eleitoral e, como de praxe, candidatos se apresentam, alguns com soluções mirabolantes à busca de fisgar o eleitorado. Diante da crise que assola o país, alguns temas chamam a atenção: o reaquecimento da economia e a limpeza do nome do brasileiro estão entre os compromissos de alguns candidatos.

Não são tarefas fáceis, mas para boa parte da população, podem ser mais simples do que aparentam. Uma ideia que pode ser aproveitada pelos postulantes a cargos neste pleito são os fundos rotativos solidários. O Maranhão está repleto de bons exemplos.

Alguns participantes do seminário. Foto: Lena Machado

Entre a última segunda (3) e quarta-feira (5), na Casa de Retiros Oásis (Rua Frei Hermenegildo, Aurora, São Luís), a Cáritas Brasileira Regional Maranhão reuniu cerca de 45 representantes de comunidades e grupos produtivos para uma formação sobre a temática – alguns grupos já atuam nesta perspectiva há mais de 20 anos. A iniciativa tem apoio da Fundação Interamericana.

“A Cáritas celebrou um convênio com a Fundação Interamericana que prevê o apoio a grupos produtivos ligados à Rede Mandioca para o desenvolvimento de ações produtivas, fortalecimento de ações de economia solidária e de comercialização junto a esses grupos em 11 municípios do Maranhão e esse processo também prevê momentos de capacitação e acompanhamento desses grupos. Esse seminário estadual sobre fundos solidários é um desses momentos de capacitação garantidos por essa parceria, o primeiro”, destacou Lucineth Cordeiro, assessora regional de Economia Popular Solidária.

Momento de mística do seminário. Foto: Lena Machado

Para o desenvolvimento da Rede Mandioca, que já tem mais de 10 anos de atuação no Maranhão, a Cáritas também celebrou um termo de fomento junto à Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop). Somando as iniciativas, são 30 grupos e comunidades acompanhados em 15 municípios: Água Doce, Amarante, Aldeias Altas, Belágua, Benedito Leite, Codó, Lago Açu, Lago da Pedra, Lagoa Grande, Loreto, Marajá do Sena, Nina Rodrigues, Presidente Vargas, Riachão e Vargem Grande – onde teve início a experiência da Rede Mandioca.

Intercâmbio – Foi um rico momento de troca de experiências. Os fundos rotativos solidários funcionam à base de solidariedade – como o próprio nome entrega –, coletividade e confiança. Indago a alguns participantes do seminário se eles acreditam que esta solução poderia ser aplicada em larga escala pelo país e a resposta unânime é sim.

Dona Expedita. Retrato: Zema Ribeiro

Em Água Preta, comunidade do município de Amarante, por exemplo, o fundo rotativo solidário local teve início diante da necessidade de a comunidade construir uma casa de farinha em regime de mutirão, com o material doado pela Cáritas. “A união faz a força e em 15 dias construímos a casa. Havia a cultura de que nós somos pobres por que Deus quer, vamos sofrer por que é a vontade de Deus. Nisso não acreditamos mais”, conta a quebradeira de coco Expedita Pereira, de 75 anos.

Ela dá uma ideia da dinâmica de funcionamento dos fundos rotativos solidários: “hoje em dia a gente faz farinha todo dia. Cada um que faz tem que deixar uma porcentagem para a manutenção do forno, que é de todos. Um ajeitando, é para todos. Tem um dinheiro no caixa, uma pessoa adoece, não pode comprar o remédio, eles vão lá e ajudam”, explica.

Walter dos Santos. Retrato: Zema Ribeiro

Para o produtor rural Walter dos Santos, 48, a solidariedade é algo tão arraigado em sua comunidade que ele tem dificuldade em destacar o marco inicial do fundo rotativo solidário em Pequi da Rampa, comunidade de Vargem Grande. “Trabalhamos há muito tempo, vem de berço a questão da solidariedade na comunidade”, afirma.

Os moradores de Pequi da Rampa começaram a se organizar diante da necessidade de pagar um empréstimo, contraído com a finalidade de melhorar a casa de forno local. Ele cita o ano de 1995 como marco e conta: “nós trabalhávamos de roça no toco e no ano seguinte cada um deu meia linha de roça. Todo produto que desse nessa meia linha era botado no depósito, vendido e o arrecadado ia pro fundo. Só com as meias linhas de roça a gente conseguiu estocar mais de três mil quilos de farinha e o empréstimo que era para a gente pagar em três anos, a gente pagou em dois”, relembra.

Seu Zezinho. Retrato: Rose Panet

O catador José Ferreira Lima, de 67 anos, mais conhecido como Seu Zezinho, é presidente da Associação de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis de Imperatriz/MA (Ascamari). Ele lembra que quando a associação foi fundada, já havia um fundo de mil reais, cujo objetivo era a reforma de uma casa na Vila Cafeteira, bairro do município. O dinheiro acabou sendo usado, “em regime de economia solidária”, como ele mesmo frisa, para servir como uma espécie de capital de giro, beneficiando os catadores associados. A associação antecipava aos catadores o pagamento pelo material recolhido e o dinheiro era devolvido ao fundo quando o material era vendido, livrando os trabalhadores de uma espera média de 30 dias.

Através de parcerias desenvolvidas com a Prefeitura municipal, foi construído um galpão e a coleta seletiva está implantada, o que facilita os trabalhos de catação e triagem. A Ascamari tem 54 filiados, o que significa algo em torno de 10% dos catadores e catadoras em atividade em Imperatriz.

Diversidade – Percebe-se a diversidade do grupo reunido no seminário. “Durante esses dias, os integrantes de grupos e comunidades aqui presentes discutiram o que é um fundo solidário, como funciona, proposta de regimento, como organizar um fundo local, pra que serve, qual a perspectiva do fundo solidário dentro da economia solidária, o que é economia solidária. A gente esteve abordando esses princípios e também definindo um pouco a estrutura de gestão, propondo para as comunidades modelo de regimento, como fazer adaptações a partir de suas realidades e a partir também da vocação de cada comunidade”, comenta Lucineth Cordeiro.

Outra experiência apresentada ao longo do seminário foi a de São Benedito dos Colocados, em Codó, comunidade que produz arroz, feijão, milho e mandioca, transformada em farinha. O agente comunitário de saúde Valdivino Silva, 55 anos, agente Cáritas, é um dos integrantes da Coordenação Estadual da Rede Mandioca. O fundo solidário articula várias comunidades, que atuam, além da produção na agricultura familiar, com a produção de artesanato e de peças íntimas.

Valvivino Silva. Retrato: Rose Panet

“Os fundos têm duas frentes de ação: uma é o trabalho em mutirão, é a troca da diária, do serviço; as diárias são calculadas com valores, mas não têm papel [moeda], mas o valor é somado, é contado; a outra parte é a financeira: alguém precisa de um recurso, coloca isso na reunião, tem um tesoureiro, um secretário do fundo, ele anota no caderno e passa a grana”, explica Valdivino. Os valores são pequenos. Nenhum dos fundos solidários sobre os quais conversamos tem mais de seis mil reais em caixa. Mas como dizem os católicos, “o pouco com Deus é muito”, e esta é a premissa que lhes faz crer que, difundidos pelo país, os fundos rotativos solidários podem ser solução para alguns problemas brasileiros.

Pedro Silva Alves. Retrato: Zema Ribeiro

Os conhecimentos adquiridos ao longo das atividades serão multiplicados junto às comunidades, no retorno de seus representantes. O lavrador Pedro Silva Alves, de 26 anos, é morador da comunidade Bola de Coco, município de Lago da Pedra, uma das mais recentes a aderir aos fundos rotativos solidários. “Havia muito desperdício [de polpa de frutas, por exemplo]. O que tínhamos a gente não sabia trabalhar. A Cáritas mostrou o que a gente podia aproveitar e formar uma renda”, conta ele. Seu balanço dos dias de atividade aponta para o futuro: “Foram dias de muita experiência e aprendizado, uma rica troca de informações com outras comunidades. Vamos passar as informações adiante e, com fé em Deus, prosperar ainda mais”, finaliza.

[publicado na edição de hoje do Jornal Pequeno, em que também saiu uma exaltação a São Luís, por ocasião de seu aniversário, amanhã, encomenda do amigo Gutemberg Bogéa, editor do suplemento JP Turismo]

Diga não!

Foto: Zema Ribeiro

 

Limpando o e-mail, encontrei esta foto, que fiz em junho de 2009, e capta Cesar Teixeira e Lena Machado cantando juntos por ocasião do lançamento do Tribunal Popular do Judiciário, movimento que agitou o segundo semestre daquele ano, desde este evento, no auditório da OAB/MA, em São Luís, até a grande plenária estadual, realizada em dezembro no ginásio do Colégio Dom Bosco (Renascença), precedida por diversas etapas estaduais, realizadas em municípios-polo em cinco regiões do Maranhão.

O movimento, encabeçado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão, junto a outras organizações sociais, algumas de caráter estadual, outras com raio de atuação mais circunscrito aos municípios em que estão sediadas, tinha por objetivo denunciar uma série de desmandos da Justiça maranhense, que iam desde o não cumprimento do expediente por juízes – que deveriam residir nos municípios em que atuavam, mas eram apelidados TQQ, por só trabalharem às terças, quartas e quintas –, até juízes que, armados, comandavam ações de reintegrações de posse, agindo como comandantes da polícia, ou que mandavam prender funcionários de companhia aérea por perder um voo.

As diversas etapas do movimento estão fartamente documentadas no blogue do Tribunal Popular do Judiciário, que acaba funcionando como uma espécie de clipping de sua rápida, mas necessária, existência.

Uma das etapas mais aguardadas e concorridas das plenárias do Tribunal Popular do Judiciário era a Tribuna do Povo, quando eram apresentadas queixas contra o sistema de justiça – pensões alimentícias e aposentadorias que repousavam meses em mesas de juízes, por vezes condenando pessoas (velhos e crianças, inclusive) à fome, para ficarmos num único exemplo.

Feito por homens e mulheres simples, animado por um organismo da Igreja Católica, talvez por isso o Tribunal Popular do Judiciário tenha tido algo de profético.

Anos depois, ao rever a foto, impossível não pensar em magistrados que agem movidos por convicções e não por provas. Que aparecem sorrindo ao lado de figurões de um partido enquanto promovem toda a sorte de perseguições a gente de coloração partidária diversa da que lhe agrada.

Uma das músicas cantadas por Cesar Teixeira e Lena Machado quando disparei este clique foi Oração latina, dele, gravada por ela em seu disco de estreia, Canção de vida (2006), que celebrava os 50 anos de atuação da Cáritas no Brasil – o título vem da letra dessa música, originalmente lançada por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, vencedora do Festival Viva Maranhão de Música Popular, em 1985.

Oração latina foi composta três anos antes, em 1982, para a trilha sonora de uma peça de teatro. O Brasil já vivia a chamada “abertura democrática”, reta final da ditadura militar que assombrou o país entre 1964 e 1985. “Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”, cutucava o cão com vara curta a letra do jornalista e compositor.

Impossível não destacar aí, também, algo de profético. E necessário. Num tempo em que juízes tomam partido e ignorantes pedem a volta da ditadura militar, sob a égide de um golpe político-jurídico-midiático.

“Mas se for pra nos prender, diga não”, arremata a letra de Oração latina.

Cliques firmes e posição clara

“Começa matando a guavira e depois pra continuar desenvolvendo tem que matar o próprio índio. E mata mesmo”. Foto: Pablo Albarenga
Enterro do agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, 23 anos, Reserva Te’ykue, município de Caarapó. Foto: Ana Mendes
Indígenas Guarani Kaiowá realizam vigília em frente ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília, durante um protesto contra o Marco Temporal, uma interpretação da Constituição que busca modificar as regras para a demarcação de terras indígenas no Brasil. Foto: Ana Mendes
Indígenas Guaraní Kaiowá. Foto: Pablo Albarenga

 

Não se sabe o que restará aos/dos indígenas numa eventual nova intervenção militar, conforme ameaçou um general da reserva em uma rede social. O Brasil deixou de fazer muitas lições de casa: não puniu sequer um agente da repressão, ao contrário de outros vizinhos latino-americanos que também viveram sob a égide de uma ditadura, e indígenas, infelizmente, ainda são lembrados apenas no 19 de abril quando nossas crianças têm o rosto pintado na escola.

Uma antológica reportagem de Laura Capriglioni, publicada no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, em 11 de novembro de 2012, dá conta da violência ao quadrado praticada pela ditadura militar contra indígenas: a criação da Guarda Rural Indígena obrigava indígenas à prática da tortura entre si, com demonstrações públicas do pau de arara, brasileiríssima contribuição ao arsenal mundial de técnicas de tortura. O volumoso Os fuzis e as flechas – História de sangue e resistência indígena na ditadura [Companhia das Letras, 2017, 518 p.], do jornalista Rubens Valente, aprofunda a abordagem da relação do Estado brasileiro com os indígenas – foram centenas de mortes – durante os anos de chumbo.

O tempo passa e nada mudou. É o que demonstra a exposição conjunta Mantenho o que disse, da fotógrafa brasileira Ana Mendes e do fotógrafo uruguaio Pablo Albarenga, que será inaugurada no próximo dia 14 de abril (sábado), em Montevidéu, no Uruguai. Os 80 painéis fotográficos da dupla contam a vida dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Ao lado das imagens, 15 frases de políticos brasileiros sobre a questão indígena, ditas publicamente.

“Vamos parar com a essa discussão sobre terra. A terra enche barriga de alguém?”; “Temos que produzir sustentabilidade. Ensinar a pescar”; e “Estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta, estão aninhados ali”, são algumas das “pérolas” proferidas por quem legisla e fala sobre o que não entende.

Realização do Centro de Fotografia de Montevidéu (CDF), Mantenho o que disse fica em cartaz até 11 de junho na Fotogaleria Prado. A programação da exposição inclui bate-papo com os autores e oficina de fotografia com João Roberto Ripper [que assina o texto de abertura da exposição; leia tradução ao fim do post] – veja a programação completa no site do CDF.

Ana Mendes está cursando Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e é coautora de Ostreiros [Pitomba, 2016, 120 p.], com Bruno Azevêdo. Ela falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

Ana Mendes em campo, na Aldeia Laranjeira Nhanderu, com o cacique Guarani Kaiowá Faride Mariano. Foto: Pablo Albarenga

Mantenho o que disse é fruto de três anos de trabalho. Suas idas às aldeias já imaginavam uma exposição ou você esteve lá por outro motivo e o material realizado acabou tornando-se esta exposição?
​​​Eu estive nos territórios por conta de reportagens que fiz pra alguns veículos, em especial a Amazônia Real, que em 2016 e 2017 se dedicou a acompanhar a questão dos Guarani e Kaiowá​. Mas como estratégia pra dar continuidade às documentações que estou fazendo, sempre aproveito o embalo de trabalhos e fico um tempo a mais nos locais. No Mato Grosso do Sul cada vez que ia ficava dois, três meses. E em duas dessas ocasiões estive nas aldeias com o Pablo. A gente se conheceu lá, na verdade, dividindo angústias, compartilhando medos e coragens. Ele é um fotógrafo uruguaio que nunca tinha documentado o Brasil, mas entrou de cabeça. E o convite pra fazer uma exposição partiu dele. Eu não acho que o trabalho esteja concluído, ao contrário, acho que é só o começo. Costumo dizer que faltam ainda 13 anos de documentação nos Guarani e Kaiowá. Isso porque fui formada enquanto documentarista pelo fotógrafo João Roberto Ripper e ele fotografou esse povo durante 16 anos.

Recentemente Walter Firmo esteve em São Luís, ministrando uma oficina. Em uma palestra inaugural, comentou a liberdade que passou a ter quando abandonou o fotojornalismo em 1985. Você é fotojornalista, atuando em veículos independentes. Como você avalia o cenário, nestes tristes tempos de fake news?
​Eu acho que na roupagem tradicional o jornalismo reprime mesmo as possibilidades de comunicar histórias múltiplas. Mas a reinvenção recente do jornalismo, que vem a partir da internet e da falência de certos jornalões, não nos permite mais pensar o jornalismo como prisão. Eu sou uma entusiasta da comunicação! E me encantam as experiências concretas de comunicação popular – quando os narradores das histórias são o próprio povo. Sobre fake news, acredito que isso não é novo, certo? Novas são as ferramentas. Mas os pregadores da moral e bons costumes sempre estiveram aí difamando as cabeças rebeldes e livres.

Na exposição que você divide com o Pablo, há um atrito entre as imagens e as legendas, estas retiradas de falas de políticos, em tese representantes do povo brasileiro, mas sempre negando direitos dos indígenas, ao contrário das fotografias, que re-afirmam estes mesmos direitos. Como surgiu a ideia e como foi desenvolvê-la até chegar a este resultado?
​Eu acho que certas experiências só têm porta de entrada. E esse é o nosso caso com a questão indígena. Uma vez que você testemunhou coisas profundamente tristes e coisas profundamente felizes ao lado de um povo, você troca as lentes com as quais vê o mundo. O sentido das coisas se inverte. A Dona Miguela, uma índia de quase 80 anos, nunca mais comeu guavira – porque a monocultura é o único horizonte da Terra Indígena Guyraroká, onde ela vive, no município de Caarapó. A saudade de um pé de planta, do gosto de uma fruta, nunca vai ter importância pra uma política de Estado. Mas o apagamento das memórias é o primeiro passo do genocídio de um povo. Começa matando a guavira e depois pra continuar desenvolvendo tem que matar o próprio índio. E mata mesmo. Prova disso são essas frases de cunho racista que incitam o ódio. Isso gera morte real, concreta. Por conta da gravidade dessa campanha anti-indígena que ocorre no país nos pareceu necessário trazer as frases, apontar quem disse o quê e quando. Não me lembro como a ideia surgiu, eu sei que o acervo de frases só cresce desde que começamos a pesquisar. Na exposição colocamos 15, mas existem muitíssimas mais, infelizmente.

O cenário ainda é bastante incerto no Brasil, mas há uma pré-candidatura à presidência da República que conta com a indígena Sônia Guajajara como candidata a vice, na chapa. O que você pensa a respeito?
Eu acho que Sônia pode fomentar o debate sobre a questão indígena, trazer o assunto finalmente pra pauta.  Mas eu sou bastante cética com a política partidária. Eu me afino mais com movimentos contra-hegemônicos. E acredito que alguns povos indígenas vêm ganhando autonomia, criando novos jeitos de fazer política. Os Ka’apor, também do Maranhão, são um exemplo. Não significa que não vá haver bons frutos pra se colher nesse momento de debate eleitoral com Sônia, uma liderança importante, uma mulher indígena. Com certeza estarei atenta aos passos de Sônia e vou vibrar se a candidatura dela causar incômodo e minimamente abalar as estruturas ocupadas há tantos séculos pelos mesmos nomes.

Verso do postal da exposição. Reprodução

MANTENHO O QUE DISSE

POR J. R. RIPPER

“Ana Mendes e Pablo Albarenga são fotógrafos com grande domínio técnico e conhecimento tanto do jornalismo quanto do documental. Estudam o tema que fotografam e tomam uma posição clara. Não ficam atrás das cercas nem empregam essa hipócrita imparcialidade que tanto se ensina nas escolas de jornalismo. Suas fotos proclamam a defesa dos direitos humanos e, em particular, dos direitos das comunidades indígenas.

Seu trabalho rende homenagem à história de grandes fotógrafos. “As pessoas são mais importantes que as fotos”, dizia [o fotógrafo Henri-Cartier] Bresson. Seu compromisso me recorda [os fotógrafos] Eugene Smith e Lewis Hine. Às vezes suas câmeras fotografam com o coração, noutras, colocam a cabeça em frente à câmera e não atrás, como dizia [o fotógrafo] Oliverio Toscani.

O trabalho que apresentam é fantástico. Desnuda o bruto e vigente genocídio que se está levando a cabo no Brasil e, com ele, a postura assassina que toma os poderes em meu país”. (Tradução: Zema Ribeiro)

Fogo que não brinca

Limpam com fogo. Cartaz. Reprodução

 

A prática não é recente mas, convenhamos, tornou-se recorrente mais recentemente: incêndios criminosos em favelas como método barato de desapropriação ou reintegração de posse. Higienização e gentrificação, a gente vê por aqui, poderia dizer o slogan de uma rede de tevê, onde certamente nunca se verá Limpam com fogo [documentário, Brasil, 2016, 84 min.], título mais direto impossível.

O documentário conta o drama de diversos moradores de várias favelas paulistanas vítimas de incêndios, cujas investigações, com a construção de um discurso midiático a serviço de imobiliárias, construtoras e incorporadoras patrocinadoras de jornais e políticos, sempre aponta cinicamente para curtos-circuitos em gambiarras, panelas em fogões improvisados, o material utilizado no erguimento dos barracos ou qualquer outra desculpa que sirva para desresponsabilizar o poder público ou tirar o foco da especulação imobiliária, a real interessada em determinadas áreas.

O filme conta com depoimentos de especialistas como Ermínia Maricato, ex-secretária municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano de São Paulo (1989-1992) e ex-secretária executiva do Ministério das Cidades (2003-2005), e Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), então ainda não alçado à condição de pré-candidato do PSol à presidência da república, colocando-os em diálogo com o drama das vítimas.

Em determinada altura, um dos entrevistados revela ter filmado um dos incêndios que consumiu a favela em que morava. Segundo ele, uma emissora de tevê ofereceu uma boa grana pelas imagens, mas ele preferiu não vender, por achar errado ganhar dinheiro em cima da tragédia alheia, no que o filme de Rafael Crespo, Conrado Ferrato e César Vieira também acerta: não há exageros, pieguice ou exploração gratuita da desgraça alheia. As vítimas são retratadas em seus papéis, de protagonistas de suas próprias histórias, agentes políticos, com sua organização, sua relação afetiva com as comunidades, projetando discussões sobre a função social da propriedade, entre outros temas de direitos humanos – direito à moradia, direito à cidade, transporte público, trabalho etc. O filme foi realizado com recursos obtidos através de crowdfunding.

Temporalmente o documentário se localiza nas gestões municipais do petista Fernando Haddad (2013-2016), que aparece no filme, e do então democrata Gilberto Kassab (2006-2012), hoje no PSD, que se negou a gravar entrevista.

Limpam com fogo é um instantâneo de Brasil, retratando alguns episódios de uma tragédia entre tantas possíveis, que todos os dias acontecem cada vez mais, infelizmente.

O filme foi exibido no Festival Internacional Lume de Cinema, encerrado hoje (21), no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Por iniciativa dos professores Raoni Muniz, Rose Panet e Débora Garreto, do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Limpam com fogo será exibido novamente amanhã (22), às 10h, no Cine Lume, para estudantes da instituição – a sessão extra é aberta ao público em geral. Os ingressos custam R$ 12,00.

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Veja o trailer de Limpam com fogo:

Direitos Humanos no Brasil: um Relatório mais necessário que nunca

Relatório Direitos Humanos no Brasil 2017. Capa. Reprodução

 

Sob a égide golpista, “A organização e publicação de mais uma edição do Relatório Direitos Humanos no Brasil é, por si só, um sinal de esperança”, afirma Thomaz Ferreira Jensen, economista que trabalha com educação popular em processos de formação sindical, no prefácio da obra, a 18ª. edição da publicação da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, ampla coalizão de movimentos sociais.

Sob a epígrafe de Emicida de Casa (“Sobre as chances, é bom vê-las, às vezes se perde o telhado pra ganhar as estrelas”), que atualiza o Tom Zé de Solidão (“Na vida, quem perde o telhado/ Em troca recebe as estrelas”), ele atesta, adiante: “Os leitores do Relatório não encontrarão aqui propostas de conciliação com quem oprime. Não há meias palavras, mas o texto direto de um registro da realidade concreta dos milhões de brasileiros que são vítimas de violações dos direitos humanos”.

Diversas organizações maranhenses figuram na longa e respeitável lista das que “participaram da elaboração do relatório Direitos Humanos no Brasil desde 2000”, ano do início da publicação: Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema), Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Pe. Marcos Passerini (CDMP), Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE), Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entre outras.

Alguns recortes, ainda não li completamente o livro, que terá lançamento amanhã (5), às 18h, no Sesc Bom Retiro, São Paulo/SP, com apresentação do grupo Ilu Obá de Min, em evento aberto ao público (respeitando os limites do auditório):

“É bem verdade que substituição do termo “direitos humanos” por “direitos civis” fere a Constituição Federal de 1988 que, como apontado anteriormente, recepcionou todas as normas internacionais de direitos humanos. Mas é verdade também que desde agosto de 2016, com a aprovação no Senado Federal do afastamento da Presidenta Dilma Rousseff, o país vive em estado de exceção, com a ordem democrática suspensa por um movimento que alguns autores têm denominado por “golpe parlamentar-judicial” […]. Na atual conjuntura, o país tem assistido os poderes Legislativo e Judiciário apoiando medidas do Executivo que ferem e suprimem direitos consolidados em leis harmônicas em relação à Constituição Federal. Ou seja, tornam a constitucionalidade apenas um detalhe, e não um princípio normativo” (do artigo Direito Humano ou Direito Civil? – O impacto na educação do governo Temer, de Mariângela Graciano, da Unifesp/Guarulhos, e Sérgio Haddad, pesquisador da Ação Educativa e professor da Universidade de Caxias do Sul).

Outro: “Mais uma vez a Previdência e a seguridade social são objeto de ataque por parte do governo de plantão, visando reduzir os gastos. Argumenta o governo que a mudança demográfica – as pessoas vivem mais e há um menor número de crianças por família – terá forte impacto sobre os custos da Previdência social, o que coloca o imperativo de uma reforma. Esses argumentos são discutidos em publicações do Dieese e parceiros mostrando as fragilidades e indicando outras formas de abordar esses desafios” (de O emprego, o trabalho e os direitos sociais no Brasil – 2016 e 2017, de Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese).

E ainda: “Em 13 de julho de 2017, o presidente Michel Temer sancionou, sem vetos, uma “reforma trabalhista” considerada inaceitável por boa parte do movimento social […].

Segundo o artigo 149, quatro elementos caracterizam por si e individualmente o trabalho análogo a de escravo: as condições degradantes de trabalho, as jornadas exaustivas, a servidão por dívida e o trabalho forçado. A reforma trabalhista dificultaria o reconhecimento do crime, pois tocam e relativizam legalmente os direitos. Prevê negociações coletivas que poderiam se suplantar ao legislado, como se as leis não fossem o teto mínimo de cumprimento exigido, e pressupõe que as partes têm poderes simétricos, sindicatos que defendem os seus associados em qualquer circunstância. Vejamos, assim:

1) é possível ampliar a jornada de trabalho, por meio de negociação coletiva, para 12 horas diárias, e diminuir o intervalo de almoço. A jornada exaustiva, prevista do artigo 149, pode ser mais difícil de ser provada;

2) por acordo coletivo pode ser alterado o “enquadramento do grau de insalubridade” e prorrogar jornadas “em ambientes insalubres” em local de trabalho. Até agora, tais mudanças necessitavam de prévia licença do Ministério do Trabalho. A acusação sobre trabalho degradante pode ser prejudicada;

3) houve ampliação das possibilidades de terceirização. Pode-se terceirizar até nas atividades fins. O que dificulta localizar quem é o verdadeiro empregador;

4) com a ampliação das formas de contrato de autônomos, houve uma “ampliação da terceirização”. Permite que autônomos sejam contratados de forma exclusiva e contínua. Assim, o empregador pode privar o trabalhador dos seus direitos básicos” (em A reforma trabalhista e o trabalho escravo, de Ricardo Rezende Figueira, doutor em Sociologia e Antropologia pela UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos).

Como se percebe, o Relatório perpassa diversas temáticas em Direitos Humanos e, diante do momento político conturbado por que passa o Brasil, torna-se mais necessário e urgente que nunca.

“Há uma regressão generalizada no campo dos direitos humanos”

A avaliação, sobre o Brasil de hoje, é de Paulo Vannuchi, ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula (entre 2005 e 2010), e membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (eleito em 2013, tomou posse no ano seguinte). Ele está em São Luís para proferir a palestra Sistema de Direitos Humanos: instrumentos e estratégias para efetivação de direitos.

Vannuchi volta à Ilha a convite da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop). Aberta ao público, a palestra acontecerá hoje (16), no auditório da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz, Av. Carlos Cunha, s/nº, Calhau), a partir das 15h.

Graduado em Jornalismo e mestre em Ciência Política, Vannuchi participou da militância política nas comunidades de base da Igreja Católica, em defesa de opositores ao regime militar perseguidos pela ditadura. Trabalhou na elaboração do livro Brasil nunca mais, dossiê coordenado por Dom Paulo Evaristo Arns, que listou nomes de torturadores e métodos utilizados nos porões da repressão. Sempre foi um crítico de que a Lei da Anistia, de 1979, beneficiasse também agentes do regime, assunto que ele aborda nesta entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

Por telefone, a caminho de um ato em São Bernardo do Campo/SP, ele explicou o que são sistemas de direitos humanos, comentou retrocessos vividos em diversos temas após o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república, e ainda o papel dos meios de comunicação em sua consolidação, no discurso de ódio que já extrapola o ambiente das redes sociais e na visão conservadora que a sociedade em geral tem dos direitos humanos. Leia a entrevista.

Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

O senhor vem à São Luís falar de Sistema de Direitos Humanos. Quando falamos em sistema, pensamos imediatamente nos de Saúde e Assistência Social, por exemplo. O que vem a ser um Sistema de Direitos Humanos e qual o exemplo possível de um estruturado e em funcionamento?
O sistema de direitos humanos é uma existência concreta no âmbito internacional. Nós temos dois: o sistema ONU, das Nações Unidas, com sede em Genebra, no Conselho de Direitos Humanos, permanente, com representação de dezenas de países e todo um processo de acompanhamento dos vários temas de direitos humanos. E temos o sistema interamericano, que tem uma sede da comissão em Washington e uma corte na Costa Rica. Desses dois sistemas deriva a proposta de cada país construir também o seu sistema, como você disse, à imagem e semelhança de um sistema único de saúde, que articula os entes federados: União, estados e municípios. A minha ida à São Luís é a convite da Secretaria de Direitos Humanos do Governo do Estado. O governador Flávio Dino é uma pessoa com quem eu já tive parcerias aí, como na homenagem ao maranhense Ruy Frazão, que hoje tem lá uma homenagem a ele na escola, no Liceu do Maranhão, que ele foi estudante. Acompanho a trajetória do governador, me senti muito honrado com o convite. Eu iria para conversar, sobretudo com prefeitos, houve uma coincidência de uma importante reunião da confederação de prefeitos [a Federação dos Municípios do Estado do Maranhão (Famem)] e nós vamos fazer uma discussão geral. Então eu quero levar informações sobre o sistema Nações Unidas, sobre o sistema interamericano, onde eu sou membro da comissão para um mandato de quatro anos, e trabalhar, aprender mais sobre o Maranhão, conhecer as experiências, sobretudo na questão criança e adolescente, na questão de combate ao racismo, pessoas com deficiência, do direito LGBTI [lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais], do direito à diversidade sexual, e também os chamados direitos econômicos, sociais, culturais, isto é, direitos humanos não é um tema só sobre presídios, sobre a questão das pessoas em conflito com a lei. Direitos humanos é também educação, saúde, direito ao trabalho, direito à comida, sobretudo. A viagem tem um caráter de um diálogo em que eu levo informações sobre a minha experiência como membro da comissão interamericana, como ministro dos direitos humanos do presidente Lula por cinco anos, e também aprendo sobre o Maranhão e quem sabe discutimos possíveis integrações do Maranhão com o sistema interamericano de direitos humanos da OEA.

Como o senhor, que foi ministro de direitos humanos no governo Lula, avalia a trajetória desta política no Brasil ao longo dos últimos 15 anos?
Eu diria um pouco mais. Embora do ponto de vista partidário eu seja uma pessoa muito vinculada ao presidente Lula, ao PT, eu sou assessor do presidente Lula há mais ou menos 37 anos, é muito tempo. Quando ministro dos direitos humanos eu disse várias vezes em eventos oficiais, e também escrevi várias vezes, que havia uma trajetória histórica de consolidação dos direitos humanos que não era como uma política de governos, e sim uma política de Estado, e que mesmo no período Fernando Henrique Cardoso, que é o adversário central, o antípoda do Lula no cenário partidário brasileiro, também no período do Fernando Henrique houve avanços em direitos humanos. Isso foi uma insistência, e deve ser uma insistência, também dos órgãos estaduais. Claro que o governo nasce de eleições populares com um programa que tem que ser seguido por que a maioria do eleitorado aprovou. Agora, políticas de Estado são aquelas que você cria e que mudanças de governo não podem anular. Por exemplo, o Brasil hoje tem no plano federal uma política oficial de desmontar as políticas sociais do período Lula e isso é muito errado. Em direitos humanos, no meu período de cinco anos, nós não fizemos isso de uma maneira mesquinha, estreita, com relação ao legado do período Fernando Henrique. O Fernando Henrique foi responsável pelos dois primeiros programas nacionais de direitos humanos, um de 1996 o outro de 2002. O Brasil foi então um dos primeiros países a criar este seu plano nacional e eu fui ministro quando uma conferência nacional com participação de 14 mil pessoas, duas mil presentes em Brasília, essa conferência aprovou o esqueleto do PNDH 3. Nesse sentido o que é preciso dizer é que a afirmação histórica dos direitos humanos enfrenta de um ano pra cá, de dois anos pra cá, todo esse período, de ódio, de intolerância, uma regressão brutal. Há órgãos de imprensa inclusive fazendo campanhas de intolerância, de ódio, que podem levar a este episódio de fim de semana nos Estados Unidos, Charlottesville, a retomada do racismo, do ódio, supremacia branca, até propaganda nazista. Então o discurso dos direitos humanos tem que procurar sempre ser um discurso amplo, um discurso que chame partidos que estão se opondo na arena política eleitoral imediata, a mostrar que determinados princípios têm que ser comuns a todos: a não violência, a tolerância, o respeito à diversidade, ao diálogo, e isso inclusive quando chega num tema muito espinhoso, como é o tema do sistema prisional, por que uma parte da sociedade entende que, “bom, são criminosos, têm que ser exterminados, olho por olho, dente por dente”, e o pensamento dos direitos humanos é diferente, o pensamento está muito centrado nas ideias que estão até no evangelho de você ser capaz de perdoar, de ser tolerante, e de reincorporar, reeducar e ressocializar. No caso do Maranhão, recentemente episódios graves como Pedrinhas, e cada estado brasileiro terá seu exemplar desse tipo, e mais do que isso, cada um dos 35 países que compõem a OEA. Agora, é preciso divulgar na sociedade que, primeiro, um criminoso tem direito de cumprir a pena, tem direito de eventualmente provar a inocência, já houve muitos casos de pessoas condenadas que mais tarde descobriu-se que o assassino não era aquela pessoa, no caso da pena de morte a pessoa já foi executada quando aparece a prova de que a pessoa era inocente. A gente sabe que ao fazer esse discurso vai na contramão do pensamento comum, que acha que não, que “uma vez que é um criminoso tem que ser exterminado”. As pessoas se esquecem que muitas vezes até um filho daquela família pode ser levado numa prisão e muitas vezes colocado nessa vala comum, são todos bandidos, têm que ser exterminados.

Durante sua gestão como ministro dos direitos humanos o senhor defendeu a revisão da Lei da Anistia, uma lei que acabou por contribuir para a impunidade de agentes da ditadura militar brasileira. O Brasil é o único país da América Latina em que houve uma ditadura que não puniu torturadores. Sua indignação com a Lei da Anistia continua válida? Este debate precisa ser retomado?
Eu nunca defendi a ideia da revisão, a palavra revisão. O que eu defendi é que o Supremo Tribunal Federal, decidindo sobre uma ação da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], uma ADPF, arguição de descumprimento de preceito fundamental, que foi apresentada pela OAB na gestão de César Brito, com patrocínio do advogado, que é um ícone dos direitos humanos, Fábio Comparato, consultava o Supremo se a lei de anistia de 1979, tendo sido feita ainda no período ditatorial, se ela podia ou não proteger os torturadores, uma vez que a tortura é considerada no direito internacional dos direitos humanos como um crime imprescritível, ou seja, não passa tempo e não é passível de anistia ou de graça. O Supremo Tribunal Federal, na minha opinião, decidiu, por maioria, num caminho errado, considerando que sim, a lei de anistia de 1979 protege os torturadores. Agora, essa decisão, ela se choca de frente com os organismos da ONU e da OEA, que também, por opção voluntária do Brasil, precisam ser considerados parte do direito no Brasil. Esse impasse está mantido. O que eu consegui fazer na nossa gestão foi desbloquear o tema, com o presidente Lula enviando em 2010 ao legislativo um projeto de lei para criar a Comissão Nacional da Verdade. Agora, um ano depois o Brasil não tinha uma comissão da verdade, tinha cem. A Comissão Nacional da Verdade foi instalada pela presidenta Dilma, trabalhou durante dois anos e meio, e a sociedade civil proliferou comissões da verdade no âmbito do movimento sindical, das universidades, várias comissões oficiais, eu não sei agora de cabeça se o Maranhão teve ou não, Flávio Dino não era ainda governador.

Teve uma instalada na Assembleia Legislativa.
Então, a Assembleia Legislativa do Maranhão fez, a de São Paulo fez, o município de São Paulo fez, com Fernando Haddad, o governo estadual do Rio de Janeiro fez, com Sérgio Cabral, então o Brasil debateu como nunca o resgate das violações massivas de direitos humanos, e nós temos hoje um conhecimento muito superior do problema. Permanece a sua pergunta, que é a punição ou não. E a punição é necessária, não apenas por ser uma exigência do sistema interamericano, do sistema ONU, que exigem, na chamada justiça de transição, quatro pilares indispensáveis: o primeiro é o Estado nacional, o Estado brasileiro, no caso, reconhecer a sua responsabilidade pelas violações. Isso já foi feito, leis do tempo de Fernando Henrique, a lei sobre mortos e desaparecidos políticos, a lei que criou a comissão de anistia, ações do governo Lula, ações do governo Dilma, e até algumas poucas sentenças judiciais reconhecem essa responsabilidade do Estado. O segundo pilar é a necessidade de reparação. A reparação é indenizatória e isso também começou já no governo Fernando Henrique, mas ela é simbólica, que foi esse evento de São Luís do Maranhão, de oito anos atrás, que eu fiz ao lado de Flávio Dino, para homenagear uma pessoa que morreu na tortura, lutando pela democracia e pela liberdade, Ruy Frazão. O terceiro pilar indispensável é aquele que obriga o Estado a fazer a apuração rigorosa, a responsabilização individual: quem foram os responsáveis por aquele assassinato, por aquele desaparecimento. E por último, muito importante: políticas de não repetição. Mudar o ensino militar, levar as próprias academias militares das três armas a discutir direitos humanos, a superar crenças de doutrina de segurança nacional, combate ao inimigo interno, combate ao comunismo, etc. e tal. Você vê que Flávio Dino é um governador hoje do Partido Comunista [do Brasil, o PCdoB] e ele sempre insiste que o comunismo, pra ele, tem muito a ver com comunhão, a sua origem católica, estudou em Colégio Marista, a ideia da partilha, da comunidade, e não no sentido da Guerra Fria, que já acabou e muitas mentalidades mantém o mundo dividido em União Soviética e ocidente. Nesse sentido, o que falta no Brasil, sobretudo, são esses dois pilares dos quatro. O pilar da investigação apontando, “olha os assassinos de Vladimir Herzog foram fulano, fulano e fulano, seus comandantes”. Não quer dizer necessariamente que essas pessoas tenham que ser mandadas pra cadeia, muitas já morreram, outras estão com 80 anos. O que precisa é haver a condenação para que o Estado não deixe de ter claro que aquilo é condenável. Para que o torturador de hoje, ao torturar, saiba que daqui a 20 anos ele poderá ser punido. E as políticas de não repetição. A reparação simbólica envolve coisas que avançaram, eu falei da homenagem ao Ruy Frazão no Liceu do Maranhão, eu falei da troca do nome, aqui em São Paulo, do Minhocão, que se chamava elevado Arthur da Costa e Silva e agora se chama João Goulart. A gente gostaria de levar esse debate ao Maranhão no sentido de ver também várias outras passagens históricas das violações de direitos humanos ou da violação histórica no Maranhão, para que nos uníssemos nesses avanços, vermos o que falta fazer. O Maranhão tem figuras legendárias como Maria Aragão, Manoel da Conceição, líder camponês que num choque pela terra foi ferido a bala, perdeu uma perna, foi um dos fundadores do PT. A viagem é recoberta destes múltiplos significados.

Além das diversas comissões da verdade espalhadas pelo país, parece que a maior contribuição ao debate sobre a ditadura militar e consequentemente a tortura vem das artes, já que estes temas sempre renderam bons filmes, livros e peças de teatro, entre outros. Neste campo, o que o senhor recomenda?
A pergunta é muito oportuna por que envolve a percepção de que as nossas transformações de mentalidade passam vitalmente pela cultura. A ideia dos livros, das pesquisas, são centenas de teses de mestrado, de doutorado, que foram desenvolvidas no Brasil sobre esse tema, e estão sendo ainda. São vários filmes, são várias produções teatrais, algumas circulam pelo país, tem inauguração de monumentos, tem sítios da memória. E você tem toda razão, por que o que importa mesmo é levar isso agora adiante, inclusive a batalha das comunicações. Não pode, num estado como o Maranhão, a gente ficar limitado por cadeias, monopólios de comunicação que não informam sobre as coisas boas que um determinado partido político faz, um determinado governador faz, só informa sobre as coisas ruins. E nesse sentido o resgate da memória da democracia tem uma conexão com a batalha de hoje, por que no Brasil de hoje nós não estamos numa ditadura, mas no Brasil de hoje o estado democrático de direito sofre agressões. Existem figuras como Bolsonaro fazendo a propaganda fascista, nazista abertamente, e de fato também, qualquer debate sobre direitos humanos hoje tem que colocar em primeiríssimo plano chamar as pessoas de todos os partidos que vão disputar e se confrontar na eleição do ano que vem a ter um acordo nas ideias civilizatórias. Respeito ao ser humano, respeito aos mais pobres, políticas de geração de emprego, valorização dos salários, a ideia de que nós temos que conviver na democracia com opiniões políticas diferentes, e até opostas, mas resolvendo sempre com o compromisso de ninguém eliminar a vida de ninguém, ninguém desqualificar ninguém, matar as pessoas moralmente, como hoje se pratica no Brasil abundantemente, às vezes insuflados por cadeias poderosas de televisão. Isso é um erro absurdo, que terá preço a ser pago por todos os atores, inclusive por esses segmentos conservadores, que no seu ódio não entendem o quanto essa política raivosa também traz danos a seus próprios interesses de elite, dos setores empresariais. Em direitos humanos um princípio angular é o princípio da não regressão, não voltar atrás. O Brasil hoje, infelizmente, está numa etapa em que há uma regressão generalizada no campo dos direitos humanos. Todo debate tem que priorizar o bloqueio, a paralisação dessa regressão e a retomada de um caminho de avanço gradual. A cada ano o país ter um patamar um pouco melhor na questão da pobreza, da saúde, da educação, das condições do sistema prisional, do atendimento socioeducativo.

Para mudar concepções e posturas

Auditório da OAB/MA ficou lotado para bate-papo com Marcelo Canellas. Foto: Ascom/OAB/MA

 

Caco Barcelos esteve em São Luís na última segunda-feira (7), quando participou do lançamento do I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos, no auditório da seccional.

Tino Marcos falou para uma plateia lotada de profissionais e estudantes, a quem o prêmio é voltado, em cinco categorias – impresso, rádio, tevê, webjornalismo e fotojornalismo –, com premiações de R$ 3.000,00 e R$ 500,00, para profissionais e estagiários, respectivamente. O edital está disponível no site da OAB/MA.

A comissão julgadora será formada por representantes dos sindicatos dos jornalistas e radialistas, Defensoria Pública da União, Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, e coordenações dos cursos de comunicação da UFMA, Estácio e Ceuma.

Começo brincando com o nome do jornalista a evocar diversas situações em que Marcelo Canellas – uma das reservas morais da Globo, foi ele quem veio, na verdade – foi confundido com colegas de ofício e casa. Contar estes causos foi seu jeito descontraído e leve de extrapolar o tema proposto para a noite, “Jornalismo e cidadania”, e conquistar o público.

Ao citar as “confusões”, de gente anônima e famosa, trouxe à baila a questão da vaidade. Todo mundo tem, é natural, o lance é saber dosar. O jornalista precisa ser movido por outra coisa. “Quando eu comecei, eu queria mudar o mundo. Hoje eu continuo querendo isso, mas sei que não vou conseguir sozinho”, declarou.

Canellas lembrou-se de que uma das motivações que o levaram ao jornalismo – completa 30 anos de profissão em 2017 – foi a leitura do clássico Geografia da fome, do pioneiro Josué de Castro. “Quando eu for jornalista vou fazer uma matéria sobre este livro”, prometeu a si mesmo.

Fez uma série, espécie de Nova geografia da fome – roubo aqui o título do livro de Xico Sá e Ubirajara Dettmar, lançado depois – em tempos pré-Bolsa-família. Canellas lembrou-se de uma entrevistada da primeira reportagem da série. “Quando vi aquela mulher na soleira, era a própria personificação da indesejada das gentes”, comentou, dando um exemplo de como o jornalista precisa também ter faro e acreditar nele. “Quando cheguei com a equipe, a primeira coisa que fiz foi uma vaquinha com os colegas. Fomos à mercearia do lugar e compramos arroz, feijão, açúcar”, ele revelou não ac(r)e(d)itar (em) imparcialidade e neutralidade jornalística.

“A segunda coisa que fiz”, continuou, “foi procurar o orelhão mais próximo e ligar pedindo uma ambulância. Aquela senhora ia morrer. Enquanto a ambulância chegou eu fiz a entrevista mais perturbadora de minha carreira”.

A primeira reportagem da série foi ao ar algum tempo depois e Canellas assistiu, em casa, satisfeito. No dia seguinte, esperou ansiosamente para ver a segunda e, qual não foi sua surpresa, Fátima Bernardes, à época âncora do Jornal Nacional, leu uma nota, ao fim, anunciando a morte daquela personagem, 15 dias após seu depoimento ao repórter.

“Eu sou muito emotivo. Tenho interesse pela vida das pessoas. Com alguns personagens eu chego a manter contato por anos, de outros viro amigo”, revelou, respondendo à pergunta de alguém da plateia.

Provavelmente a grande maioria dos presentes ao lançamento do certame vá escrever e inscrever matérias concorrendo ao prêmio. Canellas, com a leveza habitual, sem posar de “professor que tudo sabe”, deu conselhos, principalmente a quem está começando: “ninguém chega a lugar nenhum sendo vaquinha de presépio, concordando o tempo inteiro com o que o chefe determina”.

Repórter especial do Fantástico há alguns anos, ele citou como exemplo as reuniões de pauta do dominical global: “é a reunião do pau, a reunião em que colega briga com colega e colegas brigam com chefes, tentando convencer o porquê da importância de determinado assunto virar pauta”. Para ele, que quando começou a carreira “passava notícia do orelhão, na ficha, disputando o telefone com a moça que ligava para a tia”, a questão é tirar o máximo de proveito das novas tecnologias, sem descuidar da qualidade da apuração e do texto.

Produto escasso no mercado contemporâneo, abordou a ética na ótica de Claudio Abramo, segundo o qual “não existe uma ética jornalística propriamente dita. A ética do jornalista é a mesma ética do marceneiro. O que ele queria dizer com isso? Que se você for ético e honesto como pessoa, você será um jornalista ético e honesto”. Canellas sabe fazer citações sem nunca tornar sua fala maçante. Lembrou ainda de A melhor profissão do mundo, discurso que Gabriel García Marquez proferiu em 1996 em uma assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol).

Penso que o I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos contribuirá para melhorar o nível da cobertura do tema, em geral pautado pelos jargões reverberados pela “legião de imbecis” (conforme Umberto Eco) que usam a expressão “bolsomito”.

Curioso que parte desse público – talvez até houvesse alguns na plateia, na ocasião – que trata, como ele salientou, “os direitos humanos como uma entidade metafísica ou um departamento do governo”, por vezes bata palmas para as reportagens televisivas do Canellas, sem se tocar que elas, no fim das contas, estão abordando questões de… direitos humanos.

Por exemplo as duas com que ilustrou sua palestra: uma tratava de um esquema fraudulento de adoção de crianças, que, com o verniz legal aplicado por juízes e promotores, beneficiava famílias ricas em detrimento de famílias pobres, nada de novo no front brasileiro; a outra acompanhava a saga de um músico que começou a ensinar música para crianças em instrumentos feitos de material reciclável catado em lixões de Assunção, Paraguai. A orquestra-mirim já rodou o mundo.

Que o I Prêmio OAB/MA de Jornalismo em Direitos Humanos, além de qualificar a cobertura das diversas temáticas a que se propõe, consiga contribuir também para mudar concepções e posturas em meio à nossa classe. Oxalá!

Aberta ontem, Mostra Cinema e Direitos Humanos segue até dia 20 em São Luís

Foi aberta ontem (15), às 19h30, em São Luís a 11ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos (antes Mostra Cinema e Direitos Humanos no Mundo e antes ainda Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul), em sessão concorrida – havia gente em pé e sentada nas laterais do Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), superando a capacidade da sala, de 120 lugares.

Houve discotecagem e coquetel no hall do Odylo antes da abertura da sala, onde já haviam sido realizadas, ontem, duas sessões vespertinas, exibindo curtas-metragens – a Mostrinha é uma novidade da programação deste ano, com filmes voltados para o público infantil.

Na solenidade de abertura, falas de Janet Rockenbach, curadora da Mostra, Nat Maciel, produtora local, e Francisco Gonçalves, secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular. A primeira disse ter assistido entre 160 a 180 filmes, número que pode ser considerado baixo, mesmo em se tratando da produção restrita ao tema da Mostra – Direitos Humanos, de modo geral, e particularmente, Gênero, questão abordada na Mostra Temática. A homenageada desta edição é a cineasta Laiz Bodansky, que tem sete filmes exibidos na Mostra Homenagem.

É mais uma evidência do descaso do governo ilegítimo de Michel Temer para com o assunto. Entre os vários motivos para número baixo de inscrições pode estar o período curto para que realizadores inscrevessem seus trabalhos no edital público lançado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania em novembro passado – quando normalmente, nas 10 edições anteriores, a Mostra já estava acontecendo.

A Mostra começou em 2006, ainda durante o primeiro mandato do presidente Lula, à época abrangendo apenas algumas capitais. Seguiu acontecendo anualmente, sempre entre outubro e dezembro, período próximo ao aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH, 10 de dezembro), inserindo-se nas comemorações da efeméride, tendo atingido todas as capitais. 2016, após a destituição da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, foi o primeiro ano em que a mostra não foi realizada, voltando agora, descolada do calendário original – 18 de maio é o Dia nacional de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, alusão ao assassinato da menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo, em Vitória/ES, em 1973, como contada pelo maranhense José Louzeiro no romance-reportagem Araceli, meu amor [reeditado pela Prumo em 2013].

Em suas falas durante a solenidade de abertura, Nat Maciel e Francisco Gonçalves lembraram o conturbado momento político vivido pelo Brasil. “É preciso que este cinema esteja cheio em todas as sessões, de modo que não possa haver o argumento de que a gente não merece a Mostra por que ninguém vem ver os filmes”, argumentou ela. Ao fim da fala dele, que lembrou a onda de ódio que toma conta não só das redes sociais, ouviram-se uns poucos gritos de “Fora, Temer!”. Depois a plateia aplaudiu uma performance de dublagem de uma drag queen.

Depois que te vi. Frame. Reprodução
Depois que te vi. Frame. Reprodução

A sessão de abertura exibiu o hilariante Depois que te vi [Brasil, 2016, 16 min.], de Vinicius Saramago, que aborda a vida de Gustavo, autista que trabalha como caixa e entregador na farmácia do tio, de sua vida pacata e seu cotidiano autômato até a descoberta de uma grande paixão. O autismo é abordado com bom humor para delírio da plateia.

Na sequência, completou a noite o documentário De que lado me olhas [Brasil, 2014, 15 min.], de Ana Carolina de Azevedo e Helena Sassi, com depoimentos de adolescentes transexuais. Tema importante e urgente, o filme ousa no conteúdo, mas a forma é batida, com sua sequência de personagens reais.

Menos mal não ter sido encerrada por um governo que vem se esforçando por retrocessos e cassação de direitos, a 11ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos segue até o dia 20 de maio, no Cine Praia Grande. A entrada é gratuita em todas as sessões e a programação completa pode ser conferida no site da Mostra.

Em tempo, uma curiosidade: entre realizadores, patrocinadores e apoiadores no material de divulgação da Mostra não vemos a marca do Ministério da Cultura.

Bumba meu boi, poesia, literatura infantil e direitos humanos

Bumba, nosso boi. Capa. Reprodução
Bumba, nosso boi. Capa. Reprodução

 

Jornalista de ciência, Diego Freire parte da mais conhecida manifestação da cultura popular do Maranhão, o bumba meu boi, para discutir a questão do bullying. O resultado é o belo livro-poema Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016, 40 p.], verdadeira obra-prima da literatura infantil, ilustrado por Rogério Maroja, com trabalhos espalhados por revistas como Superinteressante, Recreio, Placar, Saúde e Playboy.

A dedicatória a Papete, um dos maiores embaixadores da cultura maranhense mundo afora, evoca o Boi de lágrimas, clássico de Raimundo Makarra, gravado pelo próprio Papete e tantos outros: “também sente dor, e boi também chora”, diz a letra. É um mote para entrar no debate.

O poema conta a história de Bumba, o boi preferido do fazendeiro, cuja língua desejada por Catirina, é arrancada por Pai Francisco para satisfazer o desejo da esposa grávida, tal qual no auto do bumba meu boi.

Mas no poema de Diego Freire, em vez de morrer e ser ressuscitado pela pajelança de índios e cazumbás, “Bumba acabou sem língua” e “passou por poucas e não tão boas com os outros bichos da fazenda, que caçoavam do jeito diferente como ele passara a falar”.

O autor extrapola o universo do bumba meu boi do Maranhão e propõe o diálogo da lenda central do auto da manifestação com outras lendas bastante conhecidas em todo o Brasil: o Saci, a Mula sem Cabeça e o Boitatá, “que, bem, nem boi é”.

As criaturas, que a princípio deviam assustar o protagonista Bumba, acabaram por se afeiçoar a ele, que afinal havia encontrado sua turma: “Mas Bumba sorriu em vez de gritar./ “Parece que enfim achei meu lugar!”/ É que Bumba viu que toda aquela “gente”/ era como ele: diferente”.

O poema conta uma história de superação, por um viés sui generis, o que demonstra que o auto do bumba meu boi é fonte inesgotável de metáforas para compreendermos melhor o mundo, nosso lugar nele e lutar pelo fim das injustiças sociais – afinal, não é disso que tratou o enredo junino desde sempre?

Para ser lido em qualquer época, não apenas por crianças, Bumba, nosso boi é um livro, no fundo, sobre “direitos humanos”, expressão em geral detratada pelos que insistem em sua abstração como uma espécie de entidade sobrenatural, generalizando órgãos e instituições como “defensores de bandidos”.

O grande trunfo do livro de Diego Freire reside bem aí: escolhe um tema, apresenta sua necessidade de debate e faz isso de maneira leve, longe, muito longe de soar panfletário. Sobra até para a hoje onipresente Galinha Pintadinha.

O autor, em foto de divulgação
O autor, em foto de divulgação

Serviço

Diego Freire autografa Bumba, nosso boi na programação da 10ª. Feira do Livro de São Luís. Dia 13 de novembro (domingo), às 19h, na Casa do Escritor Maranhense, na Vila dos Livros (Praça da Casa do Maranhão). Toda a programação da FeliS tem entrada franca.

Ciranda do sincretismo

Bispo de Brejo, Dom Valdeci empunhou a caixa do divino para cantar com todas as raças no Terreiro do Egito. Foto: Zema Ribeiro
Bispo de Brejo, Dom Valdeci empunhou a caixa do divino para cantar com todas as raças no Terreiro do Egito. Foto: Zema Ribeiro

 

Eu já tinha lido algo sobre o Terreiro do Egito, um dos mais antigos espaços de culto afro da capital maranhense – conhecê-lo foi transcendental. Sabia da iniciação de Pai Euclides, ali, muito antes de ele fundar a Casa Fanti-Ashanti ou existir a Barragem do Bacanga e da instalação de empresas como Vale e Alumar. Isto é, quem morava do lado de cá da cidade, para chegar ao local sagrado, precisava enfrentar uma travessia (arriscada) de barco e mata fechada (incluindo cobras e outros bichos).

O Terreiro do Egito já não existe como edificação. Mas o lugar, reconhecido como sagrado por adeptos da umbanda, candomblé, mina e terecô, permanece sob a sombra de pés de caju, fornecendo a trégua para o sol inclemente de quem chega até ali após subir o íngreme Morro do Egito, uma das cinco áreas que compõem a Vila Cajueiro, na zona rural de São Luís.

Mais de 100 pessoas visitaram o local na tarde do último sábado (3), como parte da programação do Seminário Estadual Políticas Públicas e Direitos Humanos, organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Regional Nordeste 5 (CNBB/NE5), Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA), Conselho Indigenista Missionário (Cimi/MA), Pastoral da Criança e Associação de Saúde da Periferia do Maranhão (ASP/MA).

A visita marcou um momento de intercâmbio entre as experiências de resistência dos diversos grupos e comunidades presentes ao Seminário e a da comunidade de Cajueiro, que desde 2013 intensificou a luta contra a instalação, pelas empresas WPR e WTorres, de um porto privado na região.

No alto do Morro do Egito, foram entoados cânticos católicos, cantos indígenas e canções do repertório de Clara Nunes, entre as quais o Canto das três raças (Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte): era índio entoando música de branco, branco entoando música de preto e preto entoando música de índio, numa ciranda sincrética que bem traduzia, artística e popularmente, a necessidade de apoio e solidariedade entre os povos para vencer as duras batalhas, inclusive a que é motivo do grito mais ouvido ao longo de toda a programação do Seminário: “Fora Temer!”.

Que os gritos, cantos e preces sejam ouvidos.

Socialista insurgente

Fenômeno das redes sociais, referência de um jornalismo que se assume de esquerda, a jornalista Cynara Menezes, editora do blogue Socialista Morena, estará em São Luís terça-feira que vem (19) para um debate sobre “Mídia, poder e democracia”, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

O evento “Diálogos insurgentes” acontece na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), às 17h, gratuito e aberto ao público. Ela dividirá a mesa com Francisco Gonçalves, titular da Sedihpop, professor doutor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, produtor e apresentador do dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Formada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cynara já passou por grandes redações, como Folha e O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É/Senhor, Vip e CartaCapital. Atualmente é colunista da revista Caros Amigos, onde assina o Boteco Bolivariano.

Zen Socialismo. Capa. Reprodução
Zen Socialismo. Capa. Reprodução

Inaugurou o Socialista Morena em 2012, assumidamente esquerdista. Em sua casa na internet, prega um socialismo à brasileira, mestiço, moreno, como defendiam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem ela homenageia em seu espaço, o primeiro veículo de comunicação brasileiro a ter uma editoria de “maconha” – ousadia imperdoável para os reacionários que não perdem tempo em agredi-la por… pensar.

No blogue, ao contrário da regra geral da internet – sim, há exceções –, busca escrever textos que sobrevivam à pressa e instantaneidade típicas da rede. Ano passado reuniu os melhores em Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena) [Geração Editorial, 2015, 240 p.; leia o primeiro capítulo], que ela autografará após o debate.

Por e-mail, Cynara Menezes conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

A Socialista Morena Cynara Menezes. Foto: João Fontoura
Cynara Menezes, a Socialista Morena, em clique de João Fontoura

Você tem feito a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, com as devidas críticas a seus governos e aos de Lula. Na sua opinião, o PT é vítima de uma armadilha que criou para si, ao não democratizar a comunicação e as verbas de publicidade governamental?
Acho que o PT cometeu um erro de estratégia ao repetir a aliança com o PMDB em 2014. Não lhe acrescentou nada, pelo contrário. Estaria muito melhor hoje se Dilma tivesse sido eleita numa chapa puro sangue. Quanto à democratização da mídia, ainda que ela não tivesse se concretizado, seria possível ao partido (não ao governo) investir em mídias próprias, em vez de gastar tanto dinheiro em marketing político durante a campanha eleitoral. Para mim, a existência da internet é, em si, uma democratização da mídia. O PT e as esquerdas em geral poderiam ter avançado mais nos últimos anos em busca de meios de comunicação próprios.

O Socialista Morena é, hoje, um fenômeno nas redes sociais, algo raro para um site assumidamente de esquerda. Sua iniciativa é sustentada por seu público leitor. A que você credita essa preferência?
Acho que toquei num ponto que muitos órgãos da grande mídia parecem não perceber: a carência do leitor por textos bacanas, curiosos, sobre fatos atuais ou históricos. Invisto no meu blog em posts atemporais justamente por isso; os posts noticiosos acabam ficando “datados” rapidamente, de certa forma repetem o impresso, que no dia seguinte já estará embrulhando o peixe. Também me situei num nicho existente: a demanda por leituras de esquerda, que os jornalões não contemplam de forma alguma. Pode-se dizer que ninguém de esquerda hoje se sente representado pela mídia hegemônica. E somos metade da população, pelo menos.

O blogue surgiu em paralelo à sua atividade na imprensa, como repórter de CartaCapital. O hobby virou um compromisso mais sério? Você é adepta do pensamento de que “quem trabalha com o que gosta vive eternamente de férias”?
Nunca foi hobby, sempre foi um plano B para mim. Quando comecei o blog, já tinha em mente que estava iniciando meu veículo de comunicação. Quem trabalha com o que gosta é mais feliz, sem dúvida. Eu trabalho pacas, jamais podia dizer que estou eternamente de férias.

A transparência entre quem escreve e quem lê deveria ser um pressuposto da prática jornalística, não é? Raramente se vê um veículo ou profissional assumir de forma explícita posição político-ideológica, escondendo-se sob o falso manto da imparcialidade. O cenário está mudando?
Sim, depende do veículo. Alguns jornais e revistas proíbem que seus jornalistas se posicionem politicamente nas redes sociais, caso da Folha. Mas vejo, por exemplo, que os profissionais do jornal O Globo são mais liberados para falar o que pensam, assim como os repórteres dos canais esportivos, mesmo os da Globo. Recentemente vi também jornalistas da TV Globo e GloboNews assumirem posturas ideológicas, tanto mais progressistas quanto mais à direita. Acho isso bom, fica mais transparente.

De uns tempos para cá, muita gente tem migrado de veículos para profissionais, isto é, deixado de acompanhar jornal A ou B para acompanhar jornalista X ou Y. A seu ver, quais as vantagens e desvantagens deste modelo?
A vantagem é que os jornalistas se firmam sem a necessidade de estar vinculados a grandes veículos. Para o leitor, facilita na orientação do que ler: quando você confia em alguém como guia de leitura, evita perder tempo com conteúdos desinteressantes ou com os quais a pessoa não se identifica. A desvantagem é que ainda somos poucos, isso reduz o espectro da informação. Quando formos muitos informadores autônomos, haverá um leque mais amplo de escolha para o leitor.

Quais as suas melhores e piores lembranças de seus tempos de grande mídia?
Trabalhei muito bem na Folha de S. Paulo, tive grandes oportunidades lá. Pude entrevistar alguns dos escritores mais importantes do país e fiz muitas matérias divertidas. O chato para mim na Folha era o veto ao pensamento político próprio. Isso, depois de certa idade, se torna insuportável. Minha pior lembrança é, sem dúvida, minha passagem de oito meses pela revista Veja, uma escola de como não fazer bom jornalismo.

Seu claro posicionamento ideológico tem um preço: ataques, grosserias e toda sorte de péssimos comportamentos de quem não consegue tolerar sua postura. A veiculação de mentiras sobre sua pessoa é uma constante. De vez em quando você anuncia processos na justiça contra a perpetuação dessa prática. É possível fazer um balanço das causas? Dá para comprovar, como parte, a lentidão e seletividade da justiça brasileira?
É muito difícil penalizar alguém. O máximo que a gente consegue é dar um tranco, enviando interpelações judiciais a caluniadores. No caso do senador Ronaldo Caiado, pedi direito de resposta em seu twitter por ter me caluniado. A ação está correndo na Justiça.

Uma trincheira de sua luta é a defesa de um modelo alternativo de socialismo, mais à brasileira, mestiço, moreno, evocando figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem o nome de seu blogue homenageia. Mais que possível, é um socialismo necessário?
Eu vejo a existência do socialismo como uma condição sine qua non para o equilíbrio do planeta. Imaginem se no mundo só houvesse capitalistas! Acho que as teorias em torno do socialismo estão mudando. Não sou nenhuma teórica, mas percebo que talvez o socialismo não seja, como se pensava, um modelo de sociedade, e sim um sistema de governo. Talvez sejam possíveis governos socialistas e não uma sociedade socialista.

Você visita o Maranhão governado por Flávio Dino, primeiro governador eleito pelo PCdoB na história do Brasil, após décadas de dominação da oligarquia Sarney. É possível, à distância, fazer uma avaliação do mandato do comunista?
Não me chegam muitas informações, mas o que conheço, gosto. Sobretudo por ele ter sido capaz de desmontar a oligarquia Sarney. Acompanhei recentemente a abertura de concurso para professores com salário inicial de 5 mil reais na rede estadual. Valorizar os professores é sempre um bom sinal. Darcy Ribeiro aprovaria.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff lembra, guardadas as devidas proporções, a cassação do governador maranhense Jackson Lago, em abril de 2009, através de um golpe judiciário. Após pouco mais de dois anos de governo, o pedetista tinha certo desgaste com alguns setores e contou com pouco apoio popular. Que conselhos você daria a Flávio Dino para um mandato realmente popular, democrático e progressista?
Governar com a participação dos movimentos sociais. Dilma se afastou deles nos dois mandatos, foi um de seus principais equívocos. Saber ouvir as pessoas, principalmente os jovens, que estão muito interessados em participar das gestões e das decisões. Acho que toda secretaria deveria ter um conselho de jovens. Temos que ouvir os jovens, eles estão na rua o dia todo, estão na escola, na universidade, têm contato com a insegurança, com a polícia. Um governo de esquerda também tem que ser criativo, buscar sempre novas soluções para os problemas, e deve estar atento para a mobilidade urbana, uma questão fundamental do século 21.

A menina vinda do interior da Bahia que venceu na vida: passou por grandes redações, morou na Espanha e hoje tem um dos blogues mais respeitados do país. Num tempo em que o jornalismo parece se esfarelar em sua mesquinhez movida por interesses outros que não a notícia e a verdade em si, o que você diria a jovens estudantes que serão jornalistas num futuro breve?
Que procurem investir em sua formação intelectual. Aprender idiomas, ler boa literatura, bons ensaios e bons conteúdos na rede. Fuçar, não perder a curiosidade, sempre. Procurar conhecer os mestres também é importante. Tudo isso vai ajudá-los a se tornarem profissionais diferenciados no meio. Gente despreparada não terá lugar no jornalismo, ou fará mais do mesmo.

Para continuar sendo floresta

O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)
O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)

 

Mais de 30 fotografias compõem Já fui floresta, do fotógrafo sul-mato-grossense José Medeiros, que inaugura a edição 2016 do Sesc Amazônia das Artes. A vernissage aconteceu ontem (8), na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a exposição fica em cartaz até o dia 6 de maio.

Medeiros foi o primeiro fotógrafo a registrar o ritual de passagem dos indígenas Ikpeng, no Parque Indígena Médio Xingu, no Mato Grosso. O ritual fotografado por ele dura um ano inteiro e acontece a cada cinco. Marca a entrada dos indígenas na idade adulta – para eles não há adolescência. É quando aprendem a caçar, casam-se cedo.

O conjunto de fotografias de Já fui floresta retrata os costumes, alegrias, alimentos consumidos, o convívio harmonioso com a natureza na bela paisagem. Mais que fotografando e filmando, Medeiros passou um ano convivendo com os indígenas e observando o quanto ainda são explorados e estigmatizados, o que lhe causa indignação.

“Quando os indígenas vão à Cuiabá”, onde ele mora há vários anos, conta, “eu os hospedo em minha casa. Nada mais justo, já que eu me hospedo com eles, não levo comida quando vou às aldeias. Meus filhos os recebem com abraços. Outro dia, um indígena, fazendo doutorado, foi em uma escola e as crianças o receberam u u u [imita o som colocando e tirando a mão da boca várias vezes]. Isso me deixa bem triste”, confessa.

Comento que pouca coisa parece ter mudado desde 1500, vendo, na sala contígua à principal da Galeria, diversos espelhos, daqueles baratos, de moldura alaranjada, comumente vendidos em feiras. “Resolvi botar estes espelhos para provocar a reflexão. Os espelhos ficaram velhos, quebrados. O que restou aos índios? As molduras, que não servem para nada”, comenta, ao lado das únicas quatro fotografias coloridas da exposição, em que curumins emolduram seus próprios rostos.

Instantes antes, após ser entrevistado por uma emissora de tevê, comentou com a repórter: “esses pataxós que estão bem aí na praça [Deodoro] dão uma ótima pauta. É uma forma de eles viverem de seu próprio trabalho. Eles estão aí vendendo ervas, trazendo seu conhecimento popular”.

Pergunto se o homônimo José Medeiros, lendário fotógrafo que fez fama na idem O Cruzeiro, lhe influenciou o trabalho. “Sim, sem dúvida. Eu fiz vários cursos com Walter Firmo, que foi aluno de José Medeiros, não tem como não ser influenciado”, revela, citando outra lenda da fotografia brasileira, este ainda na ativa.

E ilustra com uma história interessante. Uma vez publicou a foto de um menino indígena dando uma bicicleta em uma bola sobre uma superfície de água. Ele saca o celular e me mostra a fotografia, perfeito exemplo de “instante decisivo”, o que por um instante me faz pensar algo como “se Henri Cartier-Bresson tivesse vindo ao Brasil”. Quando seu nome saiu, como autor da foto, começaram as contestações: José Medeiros não fotografava colorido, chegou a ouvir, de quem pensava ser a imagem de autoria do fotojornalista de O Cruzeiro, e não dele mesmo.

Indagado sobre o nome da exposição, ele não titubeia: “Já fui floresta sou eu. Eles continuam sendo e é importante que a gente se una a eles para garantir os meios para que continuem assim, apesar de que nas aldeias já há televisão, telefone, indígenas usando celular, computador. Isso não é necessariamente ruim, o convívio tem que ser saudável”.

Ele está oferecendo um curso de fotografia a indígenas. “Quero perceber como eles mesmos veem a floresta. E que maravilhoso deve ser um indígena fotografando São Paulo, por exemplo?”, indaga-se.

José Medeiros trocou o fotojornalismo por um exercício fotográfico mais documental. Autor do belo O pantanal de José Medeiros [2014], cujas fotografias valorizam a figura do pantaneiro, fugindo dos clichês, ele pode em breve mostrar ao público outra faceta: a de curador, revelando ao Brasil as fotografias frutos do curso que vem ministrando aos indígenas mato-grossenses.

Com curadoria de Wania de Paula e texto crítico de Nadja Peregrino e Angela Magalhães, Já fui floresta, de José Medeiros, pode ser visitada em dias úteis, das 9h às 17h, na Galeria de Arte do Sesc Deodoro (Av. Gomes de Castro, 132, Centro), até o dia 6 de maio.

Veja três fotografias da exposição:

Stédile critica governo de Dilma Rousseff mas defende sua permanência

Bem humorado e otimista, sua postura reafirma a coerência do MST, que em 2009 defendeu a manutenção de Jackson Lago no governo do Maranhão

Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)
Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)

O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stédile esteve ontem (8) em São Luís. Pela manhã a liderança cumpriu agenda no Palácio dos Leões, onde foi recebido pelo governador do Maranhão Flávio Dino e diversos secretários de Estado. Em pauta a execução do programa de alfabetização Sim, Eu Posso, em oito dos 30 municípios de menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Maranhão, pelo MST, através de parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e as secretarias de Estado da Educação (Seduc) e dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

À noite, Stédile participou de atividade da Frente Brasil Popular no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema (Rua da Estrela, Praia Grande). A FBP é um coletivo de militantes e organizações sociais, entre as quais o MST e a Via Campesina, que tem se manifestado contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Em evento intitulado “Análise de conjuntura: os rumos do Brasil frente a crise política atual”, Stédile falou para um auditório completamente lotado, refletindo sobre o atual momento político vivido no país e tentando traçar alguns cenários possíveis.

“A massa trabalhadora ainda não percebeu os riscos que corre com um eventual impeachment. O que os apoiadores e financiadores do golpe querem é a redução de direitos trabalhistas. Até agora, só fomos para a rua nós, militantes. No dia em que os 120 milhões de trabalhadores do Brasil saírem às ruas vai faltar rua”, comentou.

Ele, no entanto, não poupa críticas ao governo Dilma. “Vimos uma inércia em relação à reforma agrária e à titulação de territórios quilombolas. Agora que ela assinou uns poucos decretos, o que é uma merreca”.

Stédile defendeu a reestatização da Vale: “se não por qualquer outro motivo, pelo crime ambiental em Mariana. Mataram pessoas e mataram um rio de mais de 700 quilômetros. Isso tudo é impagável”, defendeu.

O intelectual orgânico do MST, um dos maiores em atividade no Brasil, pregou ainda outra relação do homem com o meio ambiente e o consumo. “Nós da esquerda costumamos culpar o Alckmin pela falta de água em São Paulo, por que é mais cômodo. É claro que ele tem sua parcela de culpa, como representante do grande capital, mas o problema foi a morte das nascentes. Pode chover o quanto chover em São Paulo, o problema não se resolverá. E por que mataram as nascentes? Para dar lugar aos monocultivos de cana de açúcar e eucalipto”.

Stédile reconheceu avanços sociais conquistados nos governos do PT, ainda insuficientes. “O Minha casa, minha vida precisaria de muito mais unidades habitacionais por ano para resolver o déficit acumulado. No ensino superior, seis milhões disputam pouco mais de um milhão de vagas em instituições públicas e privadas. E os cinco milhões que sobram? Eu digo para eles se juntarem ao Levante Popular da Juventude e irem para as ruas. Mas eles não me ouvem”, disse para aplausos e risos da plateia.

A grande mídia também não foi poupada por Stédile, principalmente a Rede Globo. “São os porta-vozes dos interesses dos que querem tomar o poder e, uma vez lá, reimplantar o neoliberalismo, a retirada de direitos dos trabalhadores e de recursos públicos para a saúde e a educação no Brasil, inclusive o petróleo, última riqueza coletiva do país”.

“É preciso defender o mandato de Dilma Rousseff e, uma vez mantida no cargo, ela precisa refazer o governo. Compor um ministério de notáveis, gente que tenha entendimento dos assuntos e seja reconhecida e respeitada pela sociedade. Ir mais para a esquerda”, apostou.

Stédile lamentou ainda o assassinato de trabalhadores sem terra no Paraná. “O Paraná é governado pelo PSDB. É uma amostra do que vem por aí. Passando o impeachment o ministro do desenvolvimento agrário será o Raul Jungman [PPS/PE]”, arriscou um prognóstico referindo-se ao hoje deputado federal. Presidente do Ibama no governo de Fernando Henrique Cardoso, Jungmann foi descoberto ano passado mantendo simultaneamente dois mandatos: não deixou a câmara municipal do Recife para assumir a vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília/DF.

Com diversos atos previstos em várias cidades do país, ele previu ainda que a próxima será uma semana histórica para o futuro do Brasil.

A postura crítica de Stédile, intelectual menos conhecido do que deveria, em geral tachado de “guerrilheiro” e “terrorista” pela velha mídia que critica, reafirma a coerência do MST que representa: em 2009, quando da cassação do governador do Maranhão Jackson Lago, através de um golpe judiciário, os sem terra estavam na linha de frente na defesa do mandato conquistado legitimamente através do voto popular.

“A história se repete como tragédia ou como farsa”, como dizia um intelectual que também lhe serve de inspiração, mais barbudo que ele.

Pela democracia

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O Teatro João do Vale, na Praia Grande, recebeu aproximadamente 100 pessoas na noite de hoje (28), em ato denominado “Encontro de defensores e defensoras de direitos humanos pela democracia”. Diversos deles deram depoimentos. De alguns o blogue transcreve trechos, abaixo.

Inez Pinheiro, militante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), cumpriu o papel de mestre de cerimônias, e a artista Lúcia Gato apresentou performance com as músicas Moleque e É, de Gonzaguinha. Ao final, após a leitura de um manifesto em defesa da democracia, por Maria Luiza Mendes e Maurício Paixão [que o blogueiro não copiou mas publicará aqui, depois, editando o post], os presentes entoaram Oração latina (Cesar Teixeira), hino dos trabalhadores e movimentos sociais do Maranhão.

“Vigília é estar em alerta permanente. Estamos correndo o risco de perder tudo o que passamos a vida inteira para conquistar. Não há nada que justifique o impeachment da presidenta. Uma democracia é baseada em eleições. A condução coercitiva de Lula não incomoda por ter sido ele, mas reflete no meu trabalho de militante de direitos humanos, já que daqui a pouco um policial, ao conduzir um jovem, negro, morador da periferia, pode usar como argumento “se até Lula foi levado”… Sem segurança jurídica não se faz defesa de direitos humanos”.
Joisiane Gamba, advogada, coordenadora da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH)

“É preciso defender a democracia que nós conquistamos. A democracia não é abstrata. A participação dos movimentos sociais materializou a democracia brasileira. Defender direitos humanos é defender fundamentalmente uma democracia participativa e para fazer isso é preciso meter o dedo na ferida: ou mudamos o modelo [do sistema político-eleitoral brasileiro] ou só criaremos um bode expiatório para a questão da transferência de recursos públicos para mãos privadas”.
Francisco Gonçalves, professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular

“Eu tenho medo de golpe. Eu nasci em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas. Vi o presidente ser deposto, depois vi seu suicídio, depois vi a renúncia de um presidente, vi e vivi os anos da ditadura civil-militar, e estou vendo um hoje que vem de algum tempo, já. É preciso nos debruçarmos sobre a história estúpida e brutal que remonta ao tratado de Tordesilhas. Há muita mentira na história do descobrimento do Brasil e é nessa viagem que se instalam aqui a corrupção e o nepotismo. Desde a reeleição de Dilma Rousseff começaram os anúncios de impeachment. Eu quero defender este Estado democrático de direito. Eles [os oposicionistas] evocam as leis para dizer que não é golpe. [Enfática:] Este impeachment é golpe!
Helena Heluy, advogada, ex-vereadora de São Luís e ex-deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores

“É preciso marcharmos unidos contra o golpe, sem subalternidade. O governo que defendemos é o mesmo que aprovou a lei antiterrorismo que nos pune. Se o próprio governo não tivesse desarmado nossa classe, nós estaríamos num patamar mais organizado de resistência aos fascistas”.
Saulo Pinto, professor do departamento de Economia da UFMA

“Recentemente num aumento da gasolina Dilma foi estuprada em tanques de combustível. O Brasil ocupa um dos últimos lugares entre os países no quesito participação política das mulheres, com uma sociedade extremamente patriarcal e um congresso extremamente conservador. Dilma está passando por isso por que a sociedade é extremamente machista. Quando Collor disse que tinha aquilo roxo, ficou muito bonitinho; quando alguém fala que as mulheres de grelo duro precisam se unir é um escândalo”.
Mary Ferreira, professora do departamento de Biblioteconomia da UFMA

“Não aceitamos a posição da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil]. A OAB não pode cometer o mesmo erro de 1964, quando apoiou o golpe e só depois reviu sua posição. Ninguém lembra o nome do presidente da OAB de então, mas todos lembramos o nome de Raimundo Faoro, que levou a OAB a lutar pela democracia. Lula e Dilma não fizeram mudanças radicais, mas garantiram o mínimo a muitos brasileiros: comer todo dia, morar. Isto a elite não suporta, não consegue conviver. A direita não vai parar ao derrubar Dilma: vai dar prosseguimento à cassação de direitos, ao desmonte das ainda insuficientes políticas sociais”.
Mário Macieira, advogado, ex-presidente da OAB/MA, ingressou com uma ação popular na Justiça Federal para afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados e, consequentemente, da condução do processo do impeachment

“No mundo inteiro a direita está na rua: na França, nos Estados Unidos, onde [o candidato à presidência] Donald Trump pronuncia uma aberração após a outra. A direita é sustentada pela política do ódio, mantida pela homofobia, pelos feminicídios, pelo ódio de classe. O PT, em nome da governabilidade, se colocou dentro de uma estrutura corrompida que sustenta partidos políticos. É necessária a autocrítica do PT e da esquerda brasileira. Não se trata apenas deste momento, é preciso ser coerente para defender direitos humanos. No atual cenário, Bolsonaro se viabiliza para 2018, Moro já aparece com 8% das intenções de voto em pesquisa e a sanha inquisitorial não vai sumir num passe de mágica. Nós precisamos botar nosso bloco na rua”.
Wagner Cabral, professor do departamento de História da UFMA, presidente da SMDH