Olhar poético sobre a degradação

Algumas imagens da exposição Tombamento, de Vicente Jr.

 

Em Tombamento o fotógrafo Vicente Jr. volta ao cenário-objeto de sua primeira exposição: Desterro: a cara da comunidade, que integrou a programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), em 2014, no Convento das Mercês.

Se na primeira, gente e pedra dialogavam em imagens que já evidenciavam o ambiente decrépito, nesta o olhar se volta às construções, “aqui tudo parece construção e já é ruína”: Tombamento trocadilha o tombo do patrimônio arquitetônico com o tombo iminente dos mal conservados casarões da Praia Grande, Desterro e Portinho, os três bairros que compõem o Centro Histórico ludovicense, que podem desabar a qualquer momento.

A exposição fotográfica individual de Vicente Jr. é também um diálogo de técnicas, entre o digital e o analógico, em que antagoniza a instantaneidade destes tempos virtuais, ele mesmo usuário contumaz de redes sociais como o Instagram – cuja conta (@vicentefjunior) dá pistas do tipo de imagem que veremos na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a vernissage de Tombamento acontece nesta quinta-feira (18), às 18h30. A exposição pode ser visitada até 29 de março, em dias úteis, das 9 às 17h, com entrada franca.

Vicente Jr. conversou com o Homem de vícios antigos sobre a exposição.

O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação
O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação

Sua primeira exposição teve o Desterro como cenário-objeto. Agora você volta ao Centro Histórico da ilha. O que te instiga nestes ambientes degradados?
Enquanto produzia as imagens para a minha primeira exposição foi inevitável pensar a respeito do lamentável estado de abandono dessa área dita tombada. Foi quando surgiu a ideia de utilizar as possibilidades poéticas da ambiguidade do verbo tombar. Vi nessa ambiguidade do tombo uma possibilidade poética, uma caminho para desenvolver esse trabalho. Meu olhar é atraído por essas camadas sobrepostas de tempo, que cria uma textura nas imagens. Essa decadência possui um charme e é impregnada de história. Gosto também de partir de alguns clichês inerentes ao Centro Histórico, como por exemplo, o de cidade turística, cidade dos azulejos e dos casarões, e desconstruí-los. Às vezes fico extasiado diante de algumas imagens que mais parecem paisagens de algum filme cyberpunk.

Quantas fotos compõem a exposição?
A exposição consiste em oito fotografias analógicas e 11 digitais, totalizando 19 fotografias. Também deixei exposta a câmera analógica de plástico simples e precária com que fiz essas imagens.

Por que a opção em fotografar em analógico?
A princípio o projeto era para ser exclusivamente analógico, mas achei melhor utilizar as duas tecnologias. Proponho um diálogo entre elas. É evidente a hegemonia do digital em nossos dias hipermodernos e sua velocidade tanto de produção, quanto de divulgação das imagens. A opção pela tecnologia analógica foi de ir contra a corrente. Resgatar esse outro tempo, mais lento e os processos químicos da revelação que têm mais a ver com a natureza das imagens que mostro. Assim uma tecnologia não exclui a outra, mesmo com toda a dificuldade de trabalhar com o analógico. Eu mesmo não possuía mais uma câmera dessas. Perguntei aos amigos se alguém ainda tinha e um deles me presenteou com uma. O próprio filme quase não se consegue encontrar aqui em São Luís e existe apenas um laboratório que ainda resiste e faz a revelação dos negativos. É realmente remar contra a maré.

Sua relação com a fotografia é profissional, hobby ou ambas as coisas?
Cara, começou como um hobby e não deixará nunca de ser. Mas as coisas estão acontecendo e adquirindo outros contornos. E tenho me dedicado somente à fotografia ultimamente.

Em Desterro: a cara da comunidade, sua exposição inaugural, o elemento humano era presença constante no conjunto de fotografias, convivendo com o elemento pedra. Nesta, Tombamento, os humanos desaparecem. Você acredita fazer um jogo de futurologia, denúncia social ou ambas as coisas através de sua arte?
Então, na minha exposição anterior eu quis mostrar que apesar de todo descaso e por que não dizer, “desterro” daquele bairro que apesar dos estigmas, como por exemplo, a violência, a prostituição e o tráfico de drogas, possui um sentimento de comunidade muito forte e foi inevitável o enfoque nas pessoas inseridas ali. Em Tombamento, as pessoas somem! Surgem os animais de rua vagando sem destino, carros e motos que não deveriam circular ou estacionar por ali. Como falei antes, algumas imagens lembram filmes cyberpunk, desabitadas, devastadas. Assim, futurologia. Não tem como fugir da denúncia social! Acaba fazendo as pessoas pensarem um pouco acerca do tema e reflitam. Será que esse patrimônio está realmente tombado? Será que as gerações futuras terão acesso a ele?! Acredito no poder das imagens de instigar o pensamento, a reflexão. Esse poder não é uma exclusividade da palavra escrita ou oral.

Sopa de letrinhas

Com vasta obra dedicada ao público infantil, Wilson Marques é o patrono da 8ª. Felis. Foto: divulgação

 

É bastante possível que mesmo entre não leitores, digo, aqueles que só leem por obrigação, a memória de algum livro bata forte se perguntarmos sobre a infância, tenha sido esta abastada ou não.

Ainda que os livros fossem castigos, num distante biblioteca do passado, a memória passeará entre Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Lewis Carrol ou Antoine de Saint-Exupéry, entre inúmeras outras possibilidades.

A literatura infantil é o tema da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que neste 2014 tem como patrono o escritor Wilson Marques, pai do personagem Touché, que protagoniza diversas aventuras na capital maranhense, ajudando a contar e compreender um pouco de sua história, lendas e encantos.

O personagem de Cervantes por Picasso. Reprodução

O herói-mirim de Wilson Marques é conhecido de muitas crianças, uma espécie de amigo íntimo. Não por acaso o escritor é um dos mais conhecidos destas plagas, requisitado por plateias diversas que, agora, ganha merecida homenagem desta 8ª. Felis. O mercado o chamaria de best seller local.

Como a luta de Dom Quixote contra moinhos de vento imaginários, é inglória a luta de pais e educadores contra concorrentes reais a roubar dos livros nossas crianças: toda a tecnologia existente de diversões eletrônicas e cada vez mais portáteis parece empurrar a literatura para o campo do “chato” e do “desinteressante”.

É para ajudar a compreender e mudar este quadro – ou ainda, aliar as tecnologias (não por acaso tema da Felis passada) – que se propõem tema e patrono da Feira deste ano, evento já consagrado no calendário cultural da cidade de São Luís, não apenas por força da Lei que garante sua realização, constituindo-a em uma política de Estado.

Infância. Capa. Reprodução

“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta”, relembra Graciliano Ramos na abertura de um de seus clássicos, não por acaso intitulado Infância (1945). Pois não sabemos, mas num futuro que desconhecemos quando de nossas primeiras aventuras literárias, nossas lembranças terão cheiro e sabor, confundindo-se por vezes com a própria infância.

Como a memória olfativa e auditiva do músico João Pedro Borges, que sob o sol de meio dia saiu à rua para comprar um picolé, após o descanso de depois do almoço, o rádio espalhava a melodia de Coração que sente, valsa de Ernesto Nazareth, a música para sempre marcada pelo cheiro de sorvete, quando o menino enfiou a cabeça no carrinho para escolher o sabor. Não é literatura, mas bem poderia ser. Não é?

A paixão do poeta e jornalista Fernando Abreu pelos livros começou quando, ainda garoto, ficou incumbido de ajudar a cuidar da biblioteca de sua escola, em Grajaú. Ali se tornou um leitor voraz, hábito que o para sempre menino carregaria para sempre.

O livro das ignorãças. Capa. Reprodução

Ninguém traduziu melhor em poesia a aventura rumo ao desconhecido que são a infância e a própria literatura do que o poeta mato-grossense Manoel de Barros. A inventividade de sua poesia, o espanto ante o desconhecido – incluindo suas invencionices – dão a exata dimensão do quão bonito e agradável pode ser embrenhar-se em esquinas que não sabemos onde vão dar.

Sandiliche. Capa. Reprodução

Ronaldo Bressane, convidado da Felis do ano passado, acaba de lançar Sandiliche, um conto que remonta a um amigo imaginário do irmão. Nosso Viriato Corrêa conta que seu Cazuza apressou o amor aos livros por amor às calças. Explique-se: o protagonista de seu clássico desejava trocar as roupinhas de menina por calças de menino. E deu jeito de entrar cedo na escola, único rastro de civilização no povoado em que nascera. É assim que começa a sua história.

Cazuza. Capa. Reprodução
Isabel Comics! Capa. Reprodução

Bruno Azevêdo e Karla Freire, casal de escritores premiados, contaram os dois primeiros anos de sua filha nos dois volumes de Isabel Comics, que deixaram de publicar para que a menina não crescesse como uma personagem de HQ. Desconheço maneira mais original de tratar uma coleção de fotografias.

Nem tudo porém é alegria na infância. Há relatos trágicos e comoventes de infâncias perdidas, como no poema Paisagem feita de tempo, de Joãozinho Ribeiro: “debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida”. Ou nos registros “biográficos” dos protagonistas de Pixote – Infância dos mortos e Aracelli, meu amor, ambos de José Louzeiro, e Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck.

Ler é viajar, é dar asas à imaginação, e a literatura nos permite ser criança, super-herói, mocinho ou bandido, poeta, índio, pirata, bicho, qualquer coisa. Aventure-se conosco!

[texto que escrevi pra revista da #8felis, distribuição gratuita pelos espaços da Feira, que segue até 9 de novembro no Desterro (Convento das Mercês e praças da Igreja e da Flor do Samba). Conheça a programação completa]

Chorografia do Maranhão: Agnaldo Sete Cordas

Lenda viva do instrumento que lhe deu sobrenome artístico, o ludovicense Agnaldo Sete Cordas, 85, é o segundo entrevistado da série Chorografia do Maranhão.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Agnaldo Sete Cordas começou de maneira descontraída – e assim se manteve até o final. Ele já contava causos antes mesmo de ligarmos o gravador e acionarmos o botão da máquina fotográfica. Nós quatro – ele, o fotógrafo e os dois chororrepórteres – em pé, aguardando Chiquinho [o proprietário do bar] com as chaves do Chico Discos (Rua 13 de Maio, 389-A, altos, esquina com Afogados, Centro), onde a entrevista aconteceu num sábado à tarde, horário em que o bar normalmente não abre e o foi exclusivamente para a ocasião.

Agnaldo Sete Cordas é uma lenda viva do instrumento que acabou por lhe emprestar o sobrenome artístico, tendo tocado com diversos artistas de sucesso nacional, quando de suas passagens pela ilha. Não por acaso, poucos dias antes de receber a ligação convidando-o a dar um depoimento à série Chorografia do Maranhão, ele havia começado a rabiscar em um caderno suas memórias. Uma espécie de “fique por dentro” particular, em que, a caneta, em papel pautado, lembra “histórias, curiosidades, manias de antigos e novos chorões”. Gente com quem tocou, formação de bandas, orquestras e regionais, rodas, farras, datas e causos em geral engraçados – que em parte ele repesca na entrevista, às vezes recorrendo ao caderninho de anotações.

Entre estas últimas lembra quando Cardoso [lenda entre os seresteiros do Maranhão] ia batizar uma filha sua e Six [o cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, lenda entre os chorões] – ambos já falecidos – chegou e mandou dispensar o padrinho. Foram todos para a igreja, aberta mediante o pagamento do último ao padre. O batizado aconteceu em meio a uma roda de choro. “Meu compadre era um bom companheiro”, disse, referindo-se a Six.

Agnaldo de Jesus Sousa, seu nome de pia, nasceu no Desterro, em São Luís, em 1º. de janeiro de 1928, filho do clarinetista Benedito Sousa, professor de música, e Sabina Martins Sousa. Tem 13 filhos, 13 netos e um bisneto. “O choro é uma música que não se acaba”, vaticina, pouco antes de atender ao celular: era [o bandolinista] Raimundo Luiz, diretor da Escola de Música do Estado Lilah Lisboa, convidando-o para uma roda. No toque do celular do jovem senhor, Odeon, de Ernesto Nazareth.

Agnaldo, o Sete Cordas e o caderno de memórias

Além de músico, qual tua outra profissão? Eu nunca tive profissão assim. Era empregado numa firma, a Francisco Aguiar e Cia. Entrei lá em junho de 1942. Era office-boy, como se diz hoje em dia, levava os telegramas para os Correios. Entrei lá de calça curta [risos]. Passei 17 anos lá. Depois saí, passei uns anos fora e depois, em julho de 1961, eu me empreguei na Companhia de Água e Esgotos. Naquela época era água e luz junto. O governador da época, Newton Belo, foi quem separou água para um lado e luz para outro, eu fiquei na parte da água. Me aposentei em 17 de fevereiro de 1993.

Com quem tu aprendeste a tocar? Eu aprendi a tocar esse instrumento, sem ser esse aqui, foi um violão de seis cordas. O namorado da minha irmã tinha um e deixou o violão lá em casa, aí eu fui pegando quando ele saía e aquilo foi me dando vontade de tocar, de aprender. E de repente mudou-se lá pra casa um vizinho, que era de Caxias e eu soube que ele tocava violão. E a gente ficava até tarde da noite, ele passando as notas. Depois apareceu outro moço que tocava muito bem violão, o nome dele era Ricarte, morava no Monte Castelo [os entrevistadores espantam-se com a coincidência]. Ele ia lá pra casa, levava o violão e eu ficava manjando aquelas notas. Quando ele saía eu ia fazer e não acertava. Pensei em largar de mão. Mas o tempo foi passando e eu fui pegando gosto pelo instrumento.

E depois substituiu pelo sete [o violão de sete cordas]? O sete foi o seguinte: depois de passar muito tempo nesse violão de seis, eu passei pela guitarra, por que pra tocar nos grupos que tinha em São Luís, eu fui fundador do Nonato e Seu Conjunto, pra tocar em grupos assim eu passei pra violão elétrico, depois eu peguei guitarra, mas eu não sabia tocar guitarra, por que eu tocava com dedeira. Para este violão foi da seguinte forma: muitos anos, eu tocava no Lira, e ia para casa descansar, e dia de domingo eu ia para o barzinho lá defronte lá de casa, tomar aquela cerveja com os amigos. Num domingo eu tava sentado lá quando chegou Six, seu Dega, irmão dele, Carlinhos [Leite], Jonas [Pereira da Silva], aquele que tocou com Jacob [do Bandolim, no Conjunto Época de Ouro]. Seu Dega quando me olhou, disse “olá, meu compadre! Olha quem tá aqui! Esse aqui é o Carlinhos, o violonista que toca com Jacob do Bandolim”. Ele tava com o violão de sete cordas, eu com o de seis, ele me deu o instrumento, mas eu não acertei uma nota, entreguei o instrumento pra ele [risos]. Mas nessas alturas eu não estava com o grupinho. Estava eu, Careca no bandolim, sentou Carlinhos com o sete cordas, tinha um menino com um tamborim pra fazer ritmo, Six no cavaquinho e finado Marreta com um gravador Philips. Aí o samba começou. Essa música foi tocada lá, aquele dia, um choro de Waldir Azevedo por nome Contraste [parceria com Hamilton Costa]. Essa música eu tenho gravada numa fita, acompanhada pelo Carlinhos. Aí depois, nessas alturas, a farra começou. Cantou [Léo] Spirro, cantou Seu Dega.

Na tua juventude, de que modo vocês ouviam música? Nós ouvíamos rádio que nós mesmos fabricávamos. Esse mesmo rapaz que me ensinou violão, Mizael, ele enrolava motor de avião, de compressor, essas coisas, era inteligente. Ele enrolou umas bobinas e disse que íamos captar uns sons da PRJ-9, Rádio Difusora do Maranhão. Funcionava ali defronte o Mercado Central, no prédio do SIOGE [o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, hoje abandonado]. Ela entrava no ar e quem tinha rádio ouvia. Então nós fizemos um tal de rádio galena. Era feito com uma bobina de fio, um telefone antigo, pegava só o fone, fazia adaptação, pegava chumbo com enxofre, botava numa colher no fogo. Aquilo quando diluía, ficava aquela pedra brilhante. Através daquela pedra amarrava uma agulha na pontinha do fio, botava o fone no ouvido e sintonizava a estação. Só tinha essa aqui no Maranhão. Eu ouvia longe… Eu me lembro tão bem de uma música que Isaurinha Garcia cantava, [cantarola:] “aquele aperto de mão não foi um adeus” [Aperto de Mão, de Jaime Florence, Augusto Mesquita e Dino 7 Cordas], parece que era essa música. E eu ouvia aquele violão e “meu Deus, o meu não dá esse som”. Aí foi que aconteceu, quando Carlinhos chegou lá na Cohab com aquele violão, aí eu me envaideci pelo som do instrumento. Fiz uma carta pra minha mãe, que morava no Rio de Janeiro, pedindo pra ela me dar um violão, que tinha visto um violão aqui, e tinha vontade de tocar num de sete cordas. Fiz sem esperança. Um dia de sábado eu tava em casa com a mulher, quando parou o carro do Correio lá na porta. “Olha, Marilene”, minha mulher, que tava lá, “é bem roupinha de menino que mamãe tá mandando pros netos”. Quando eu abri, era um violão sete cordas, Del Vecchio, já afinado. Quando eu peguei esse violão, a notícia correu rápido. Fui inaugurar esse violão e a aporrinhação dos colegas, “tu nãos sabe tocar nem de seis, quanto mais de sete”. Eu pensava em tirar a sétima corda, não tava acertando. Foram quatro anos, me dediquei, fui acertando. Uma vez aquele Biné, irmão de Bastico, disse “Agnaldo, esse violão tem que falar grosso”, e ele me gozava com isso. Fui lutando, Deus foi me ajudando, fui entrando nos grupos. Aí apareceram uns seguidores, que se envaideceram pelo instrumento também. Mascote, Bastico, Chiquinho, eu tenho o nome deles aqui [aponta o caderno], se metiam e largavam por que não acertavam. Entre o grupo que se interessou ficou [Francisco] Solano, Elinaldo, o mais competente, foi quem pegou com mais facilidade, Domingos [Santos]. O resto desistiu. Toquei muito nas noitadas por aí.

Teu pai dava aulas de música e tocava no exército. Ele de alguma forma influenciou o senhor a ser músico ou havia um desencorajamento, que músico naquele tempo era vagabundo, mal visto. Como era essa relação? Naquela época violonista era vagabundo, era mal visto. Ele não sabia, eu pegava esse violão escondido. Ele queria que eu estudasse telegrafia, o código Morse, ele me passava para estudar. Ele não queria negócio de violão, nem bola, o caso era estudar, e era o que eu não gostava.

Você chegou a jogar bola? Eu jogava bola. Até quebraram minha clavícula, aí eu larguei logo.

O senhor fundou o Nonato e Seu Conjunto. No ano de 1962, num daqueles bancos, defronte o Lítero, na praça João Lisboa. Eu tava trabalhando no DAES [Departamento de Água e Esgotos], chegou um colega que tocava comigo na rádio, Rafinha, e Osmaro contrabaixista. Ele disse que não tinha mais nenhum grupo tocando, o que Nonato tava tinha acabado, por causa de molecagem dos músicos. Aí eu disse “vamos convidar Nonato”. Eu peguei folga no serviço e fomos os três. Nonato tava lá em cima tocando piano. Quando desceu a gente disse: “Nonato, nós estamos formando um grupo pra tocar, tu não queres tomar parte?”. De cara ele disse que não. Aí a gente conversou, ele disse que dava a resposta amanhã. Voltamos no mesmo horário e eu combinei com a turma: “se Nonato aceitar, o nome vai ser Nonato e Seu Conjunto, a gente bota uns papeizinhos em um copo, Nonato e Seu Conjunto, o que ele tirar vai dar Nonato e Seu Conjunto” [risos]. No outro dia ele tava ensaiando uma música. Quando ele desceu, “como é, Nonato, resolveu?”, e ele “é, eu vou aceitar”. A gente, êêê, aquela comemoração. Vambora escolher logo o nome do grupo, já tava combinado. Ele meteu a mão no copo, deu Nonato e Seu Conjunto. Daí ficamos. Eu já tinha meu instrumento, eu tinha meu violão elétrico, o baterista tinha a bateria dele, o contrabaixista tinha o baixo, o pistonista tinha o pistom, o saxofonista, que é Nero, já tinha o sax, o cantor era Murilo Oliveira. Depois passou a ser Cardoso. Aí fizemos o grupo, começamos a ensaiar. De repente pegamos o contrato para tocar as tertúlias do Lítero, que começava às oito da manhã. Começava oito, terminava dez. Durou bastante tempo. Aquilo era uma brincadeira, a gente tocava na base da brincadeira, pegava um cachezinho pra levar pra casa. Aí passamos a pegar contrato pra festas de casamento, colação de grau, tocávamos lá no Casino [Maranhense], que era na [avenida] Beira Mar. E o grupo foi tomando frente e só tínhamos nós na praça. Depois foi que surgiu o CurtiSom, Os Colegiais, Os Fantoches. Mas de início éramos só nós, tanto aqui na cidade quanto no interior. Essa baixada toda nós tocamos, e também do outro lado, a gente pegava Vargem Grande, Itapecuru, Chapadinha.

Quem foi o músico que mais te influenciou no começo da carreira? Era o Careca, que tocava bandolim e cavaquinho. Tinha os olhos gateados. Era exímio músico. Tocava violão também. Ele pegava o violão dele, lá no João Paulo, ele vendia pastel numa cesta desse tamanho [gesticula com as mãos]. Quando ele chegava com o violão dele lá no João Paulo, aí faziam a roda, ele cantava até um samba assim [cantarola:] “violão amigo/ venha ouvir meus ais”. Ele cantava essa música, toca violão, aí a canalha fazia a roda e ele vendia o pastel todinho. Quando passava pro cavaquinho, foi quando surgiu aquele choro que o Jacob fez por nome Flamengo [de Bonfiglio de Oliveira], esse era o começo [toca a introdução]. E o Careca tocava isso e chamava a atenção. Aí eu fiz amizade com ele. Eu estudava no Teixeira Mendes, onde é a Caixa Econômica hoje, e eu saía do colégio e passava pra brincadeira. Mamãe falava, “meu filho, vai pra casa”, e eu tava atrás do instrumento.

Você já viveu só de música, a música já te sustentou? Já vivi. Sustentei a família muito tempo na música. Eu tinha um patrão muito agressivo, uma vez ele me passou um carão na frente de Mascote, lá no balcão. Eu já tinha mais de 10 anos da empresa e ele perguntou se eu tinha vontade de sair da firma. “Então faça o seguinte: o que você vai levar de indenização, dá para abrir um negócio para você”, ele disse. E me orientou a, quando me perguntassem o porquê de eu deixar a firma, eu devia responder que era de livre e espontânea vontade. Assim fiz, era 1958 ou 59. Não recebi nada. Passei dois anos vivendo apenas com o ordenado que eu ganhava na rádio Timbira, como violonista do regional. E tocava por fora pra levar pra casa.

Você chegou a gravar discos com Nonato? Ele gravou, mas eu não tava mais no grupo. Quando ele gravou, tava [Arlindo] Pipiu, Zé Américo, Chico do Zuca, saxofonista, Garrincha. Nonato adquiriu um empréstimo no Lítero e foi à São Paulo comprar um instrumental novo. Nosso baixo não tinha trastes, era gavetão. Quando Nonato veio de São Paulo trouxe um contrabaixo elétrico, mas sem trastes, trouxe bateria nova. No dia da inauguração desses instrumentos, foi uma coisa gozada. Nós fomos tocar no Clube Alvorada, ali no Tirirical, um clube da Força Aérea Brasileira. Garrincha antes de chegar já tinha enchido a cara. Na hora que começou a festa, só dava Nonato, o clube cheio de gente, Garrincha cheio do pau, a gente foi tocar uma música [faz o ritmo com a boca], na hora em que ele foi fazer uma frase, estourou os dois tambores, rasgou de meio a meio. Nonato com aquela calma terminou a música e o show na bateria. Garrincha continuou no grupo, mas aprontou muito das suas.

O senhor teve algum estudo formal de violão? Não. Aprendi na raça. O pouquinho que aprendi foi só pra me divertir.

Além de Nonato e Seu Conjunto, de que outros grupos musicais você participou? Primeiro nós tínhamos o Grupo Difusora. Nós tocávamos em aniversário, éramos eu e Zé Cantanhede, dois violões de seis cordas, Careca no bandolim e violão tenor, que ele tocava que era uma beleza, Racinha na maraca e no pandeiro, ele era canhoto, Maneco baterista, Osmaro contrabaixo, Antonio Rodrigues sax tenor e Toinho acordeom. Aconteceu que até uma vez a Dalva de Oliveira se apresentando no Teatro Arthur Azevedo, aquela música [cantarola:] “Ave Maria, lá rá ri” [Ave Maria no morro, de Herivelto Martins], rapaz, nós ensaiamos a música e Rodrigues antes de começar a função era uma dor de cabeça e não teve jeito de ele descer para tocar e quem fazia o solo era ele. Quando chegou na hora dessa música, ele veio de lá, mesmo com a dor de cabeça, ninguém esperava isso dele. Na hora do solo, o saxofone saiu de detrás da cortina, a coisa mais linda, todo mundo aplaudiu. Depois eu passei seis anos com Nonato, tocando no Lítero, festa de carnaval, aquelas músicas que até hoje em dia se toca. Nonato depois que criou asas começou a dar ordens dentro do grupo. Aí ele dizia: “só fica no grupo quem ensaiar”. Eu era empregado, não podia ensaiar, Cardoso, do Banco do Brasil, também não podia ensaiar. Ninguém podia deixar o trabalho para ensaiar. Aí ele já queria botar Oberdan e Pitomba no grupo, eu fui me aborrecendo e larguei. Quando eu saí do grupo, uma noite eu tava em casa, quando recebi um convite para uma seresta na Rua Oswaldo Cruz. Foi a última vez que eu toquei com Nonato, foi na inauguração dessa boate. Depois eu entrei nos Fantoches, em 1968, na vaga de Sinhô, [o violonista] João Pedro Borges. Passei oito anos nos Fantoches. Raimundo Sebastião Coelho, sargento do exército, era o chefe. Tínhamos três pistons, três saxofones, botijão de gás tocado com dois vergalhões, aquilo fazia uma zoada, “taca-taca, taca-taca, taca-taca” [imita o som percussivo do botijão com a boca].

E regional de choro, em quais tu tocou? Regional de choro, não teve assim um seguro. Eu me unia com [o flautista] Serra [de Almeida, primeiro entrevistado da série Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3/3/2013], a gente tocava umas pisadas em ritmo de choro, o repertório todo de Altamiro Carrilho.

Só vocês dois ou tinha mais gente? Às vezes tinha um pandeirista, às vezes não.

Tinha nome essa formação de vocês? Não, não tinha.

Vocês tocavam em vários lugares, no Hibiscos [bar da época, o entrevistado localizou-o nas proximidades do Detran, Castelão]? No Hibiscos nós tínhamos grupo. Era eu, Serra, Spirro, Zé Branco e Juca [do Cavaco]. Não tinha nome o grupo. Depois do Hibiscos foi que nós fomos para a Caixa Econômica [a Serenata Caixa Alta, na Associação do Pessoal da Caixa – APCEF].

Você compõe, faz arranjos? Não. Às vezes eu crio uma ou outra coisinha diferente [improviso na execução de uma música], pra não ficar bitolado.

Já participou da gravação de discos? Não.

Mas acompanhou grandes nomes nacionais. Dalva de Oliveira, no Casino Maranhense. Quem mais me deu trabalho foi a Maysa Matarazzo.

Deu trabalho por quê? Ela botava um pó na bebida. Pelo menos, no dia em que nós fomos ensaiar, fomos eu, o rapaz do ritmo e o acordeonista, ela tava no Hotel Central. Quando nós chegamos lá, ela tava no banho. Ficamos esperando. Ela saiu do banho toda de roupão, bonita, nos cumprimentou, os olhos bonitos. Ela cantou uma música, passou uns 10 minutos, disse que não queria mais ensaiar. “Eu não quero mais ensaiar, tá tudo bom”. Lá no [Teatro] Arthur Azevedo, estavam tocando artistas locais, a atração era ela, e o teatro cheio de gente. A caminhonete chegou com ela e nos chamaram, estava na hora. Quando subiu ao palco ela disse que não queria cantar com o regional, começou a cantar só. Tinha outro contrato pra mesma noite, no Casino. Ela também se recusou a tocar acompanhada pelo regional e mandou chamar Mascote, um violonista muito bom de que ela tinha ouvido falar. Depois ela se negou a cantar também com ele, o povo já ensaiando uma vaia, quando ela começou a cantar Meu mundo caiu. No outro dia, nos jornais, foi um escândalo.

E outros nomes? Dóris Monteiro, Linda e Dircinha Batista, Ademilde Fonseca, Ângela Maria, Núbia Lafayette, Nora Ney, Dalva de Andrade, Alcides Gerardi, Orlando Dias, Blecaute, Genival Lacerda, Cauby Peixoto, Silvio Silva, Altemar Dutra, Carlos Gonzaga, Nelson Gonçalves, Anísio Silva, Sivuca, Jackson do Pandeiro, Conceição de Oliveira, Orlandira Matos, Suely, Maria Diniz, Célia Maria, Naná Ramires, Ivone Mendes, Elza Lopes, Lourdinha Costa, Sérgio Miranda, Bico Doce, Roberto Müller, Cardoso, Moacir Neves, Escurinho do Samba, Álvaro Duarte, Joaquim Fernandes, Nilton Vieira, José Penha.

O que significa o choro pra ti? Eu considero uma das melhores músicas. É o gênero que eu abraço, é o que eu gosto. E o choro, eu vou te dizer uma coisa: só toca o choro quem sabe. É uma música difícil. Não pode ter erro, de jeito nenhum.

Quem é o artista que você mais admira dentro do universo do choro? Aqui em São Luís eu gosto bastante do Serra. Gosto do Juca. Fomos companheiros de muito tempo. Quando ele começou a tocar cavaquinho, eu disse: “esse menino vai dar um bom cavaco”, e não me enganei. Nacionalmente, um nome que eu admiro é Jacob, o estilo de Jacob.

Tu falaste em vários espaços em que havia música ao vivo. Como tu vê São Luís hoje, em termos de espaço para a apreciação de boa música, choro? Tens saído para ver isso? Se eu passar e escutar um ritmo de choro ou sambas canções, eu paro para ouvir. Mas se eu passar e escutar uma pagodada doida, mal tocada, com três cavaquinhos, um banjo fazendo aquele centro doido, dando umas notas que não tem na música, eu não paro pra ouvir isso aí.

Tu estás escrevendo tuas memórias, né? Umas coisas que fui lembrando de minha juventude e fui anotando. O tempo em que militei na Zona do Baixo Meretrício, eu tocava por lá, apreciava as noitadas, toquei com muita gente. A zona era conhecida, tinha as [pensões] de luxo e tinha as vagabundas.

Quando foi que o senhor teve a ideia de registrar as memórias? Foi semana retrasada, eu não tou fazendo nada, vou me lembrar das coisas aqui que eu passei e comecei a escrever.

O senhor pretende publicar esse material? Publicar isso aqui? [risos]. Eu não sei, comecei a fazer para mostrar pros colegas. Parafuso [o sonoplasta Elvas Ribeiro] se lembra dessas pessoas todas. Onde eu botei aqui o regional [que tocava na ZBM na época]? [Lendo um trecho das anotações] Eu ainda recordo, apesar do tempo, as casas que tinham música ao vivo: Casa Branca, Maroca, Lili, Zilda Preta. O grupo que tocava era assim: Vital, baterista, Jorge Cego, trombone, Haroldo, banjo, Santinho, pistom, Seu Riba, pistom, Amilar, bandolim, Roque, rabecão, Zé Hemetério, violino. Outros músicos davam canja: Osvaldo, baixo, Apolinário, banjo, Mr. Jones, bateria, Padilha, violino. Nome das pessoas que animavam o salão do Bar Hotel Central, do senhor Maia: Vital, baterista, Lauro Leite, violino, Pajebinha, sax alto, Haroldo, banjo, Zé Hemetério, violino, Chaminé, acordeom, Cunha, pianista, Roque, rabecão, Santinho, pistom, Seu Riba, pistom [continua lembrando outras formações, que tocavam em outros espaços]. Olha como eu botei aqui [continua a leitura]: a casa de Lili era frequentada por pessoas mais escolhidas. Não tinha bagunça. Quando acabava o movimento das outras casas, nós, digo, Zequinha de Jagunço, Amilar, Agnaldo, Zé Penha, Xereta, irmão de China, que era amigo de Cleres… Zequinha de Jagunço se dava com a dona da pensão, a Lili, por isso ele nos levava para tocar até de manhã, e eu ia por que sempre eu ficava com uma puta [gargalhadas gerais]. Ora se eu ia pra lá pra ficar de graça? Amanhecia lá.

[O Imparcial, 17 de março de 2013]

Música e poesia em duas noites memoráveis

Joãozinho Ribeiro, "o gregário"
Joãozinho Ribeiro, “o gregário”

ZEMA RIBEIRO

Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.

Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.

Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.

Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro
Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.

Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).

"Cantador que canta só canta mal acompanhado"
“Cantador que canta só canta mal acompanhado”

O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.

João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.

Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.

Vias de Fato, dezembro/2012. Leia o texto que escrevi para o programa de Milhões de uns (distribuído aos espectadores por ocasião do espetáculo). Continue Lendo “Música e poesia em duas noites memoráveis”