Érico volta a reunir produção caricatural em livro

Caricaturas 2. Capa. Reprodução
Caricaturas 2. Capa. Reprodução

 

“A publicação de livros de caricatura no Brasil ainda é muito discreta tendo em vista a quantidade de excelentes caricaturistas em atividade”. A afirmação é do excelente caricaturista Érico Junqueira Ayres, ou simplesmente Érico, no prefácio a Caricaturas 2 [Guarnicê/ AML, 2016, 173 p.], que reúne caricaturas feitas com bico de pena, pincel e nanquim.

David Bowie por Érico. Reprodução
David Bowie por Érico. Reprodução

O livro, uma “pequena contribuição para tentar reverter este quadro”, reúne mais de 150 caricaturas de “escritores, atores, músicos, intelectuais, políticos, cientistas, atletas e empresários, entre outros”.

As personalidades de Caricaturas 2 são apresentadas em ordem alfabética e comparecem por suas páginas Adoniran Barbosa, Amy Winehouse, Beyoncé, Faustão, José Mindlin, Macalé, Messi, Niemeyer, Papa Francisco, Rita Lee, Vinicius de Moraes e Zidane, entre outros. Na capa, a cara de mau do Stone Keith Richards. “São pessoas cujas imagens transitam pela mídia com mais frequência e, portanto, são facilmente reconhecidas pelo público”, afirma, também no prefácio.

Ariano Suassuna por Érico. Reprodução
Ariano Suassuna por Érico. Reprodução

“O melhor resultado acontece quando o desenhista consegue captar a “alma”, isto é, transfere para o desenho a essência que a identifica. Convém destacar que é necessário que a pessoa seja conhecida pelo leitor do desenho. O efeito humorístico é provocado através do reconhecimento, que é uma associação do desenho com a pessoa caricaturada”, continua o autor, no mesmo texto em que cita, ainda, uma bibliografia básica sobre a produção caricaturista no Brasil.

Érico sabe do que fala. Ou melhor: o que traça. Baiano de nascimento, mudou-se para o Maranhão na década de 1980, onde começou a trabalhar com humor gráfico, tendo vencido diversos salões de humor no Brasil e no exterior. Seu livro Humor em risco venceu, em 1999, o HQMix, maior honraria dos quadrinhos brasileiros, na categoria livro de cartuns. Em 2005 ele publicou o primeiro volume de Caricaturas.

Parte da produção pode ser conferida na fan page Érico Junqueira Ayres, no facebook.

A violência artística de Carlos Latuff

“A função do artista é violentar”. A frase do cineasta Glauber Rocha que serve de epígrafe ao blogue de Carlos Latuff traduz seu exercício de ler o mundo através dos traços e cores de suas charges, publicadas por aí, o artista ainda mais conhecido fora que em seu pobre Brasil – triste do país que não sabe reconhecer e valorizar seus artistas.

Carioca nascido em 30 de novembro de 1968, o chargista é um cronista do cotidiano, com a pena mais afiada e o olhar mais aguçado que o de muita gente por aí, sobretudo os que ocupam cargos e funções nos podres poderes – o poder, propriamente dito, e a mídia.

Latuff come pelas beiradas. É na imprensa alternativa e sindical, entre jornais nanicos e panfletos dos movimentos sociais que ele crava suas denúncias, não sem um quê de ternura e beleza, orientando-se pela máxima do revolucionário. Tem ilustrado e participado de momentos cruciais da história recente – primavera árabe, derrubada da ditadura egípcia, Pinheirinho, Copa do Mundo no Brasil etc. Já perdeu a conta de em quantas publicações infiltrou suas obras de arte e uma delas protagonizou talvez o primeiro caso de asilo artístico no Brasil: Por uma cultura de paz, charge de sua autoria que retrata um homem negro crucificado executado pela polícia, teve sua retirada solicitada por um político filho de militar e ganhou abrigo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Sem formação acadêmica, apenas com o “segundo grau completo”, como ele mesmo diz, o desenhista formou-se observando as ruas, sua cidade maravilhosa natal, o Brasil e o mundo que roda a trabalho, terrenos mais que férteis em se tratando de matéria prima para o seu fazer artístico e político.

“Artivista”, cravei uma vez referindo-me a ele. Já admirava e acompanhava seu trabalho e acompanhava quando pintou a oportunidade: a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) realizou, em 2012, com algumas entidades parceiras, uma Campanha de Combate à Tortura e tivemos a honra de convidá-lo a desenhar o cartaz (a imagem ilustra a capa desta agenda).

Por que Latuff não é apenas talentoso. É também um artista comprometido com a luta dos menos favorecidos, despejados, indígenas, quilombolas, sem-terra, vítimas dos megaprojetos e megaeventos, vítimas da polícia, crianças e adolescentes, idosos, mulheres, LGBTs. Em suma, um artista comprometido com a luta por e a efetivação dos direitos humanos na vida das pessoas.

Cada um luta com as armas que tem. Canetas na mão e ideias na cabeça, eis as de Latuff. No ano em que a SMDH completa 35 anos de luta em defesa da vida, é motivo de orgulho para nós, presentear sócios/as, parceiros/as e amigos/as com esta antologia latuffiana, imagens pinçadas de um ano especialmente trágico para os direitos humanos no Brasil.

Homenagem – Especialmente para esta Agenda 2014, Latuff desenhou o saudoso Celso Sampaio, assessor jurídico da SMDH, falecido ano passado, também admirador de seu trabalho.

[textinho que escrevi pra Agenda 2014 da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos]

Da preguiça como método de trabalho

Roubo este título do Mário Quintana para mostrar-lhes, encontrei recentemente arrumando o quarto a que pretensiosamente chamo biblioteca, estes três desenhos que fiz durante uma reunião, há alguns anos. Sobraram-me nas mãos as tarjetas de cartolina e os pincéis atômicos azul, preto e vermelho. O lixo talvez fosse melhor destino, mas como diz Manoel de Barros, tudo que é bom para o lixo é bom para a poesia.

 

 

A música no traço de Máci

cartaz chico tairo

Logo mais às 20h, no Chico Discos, acontece a exposição Musicaricultura, do desenhista Tiago Máci, composta de 20 trabalhos retratando figuras da música, entre compositores e intérpretes. O autor dos desenhos também é músico e se somará a um grupo de amigos em pequenas apresentações durante a exposição.

Sobre Musicaricultura, Máci conversou com o blogue por e-mail.

Musicaricultura, o título de tua exposição, é bastante ousado e original, e dá uma ideia do que será a noite de hoje, soma e desfile de talentos. Como chegou a ele? O motivo do nome é que foi escolhido um tema pros caricaturados. Serão somente artistas, compositores, intérpretes, enfim, de música, além de existir musica de fundo tocada e cantada por jovens compositores daqui da ilha. São 20 caricaturas, dentre elas figuras de São Luís, nacionais e internacionais expostas de uma forma diferente, tentando agregar todo o espaço possível do Chico Discos como no isopor da cerveja, ímãs de geladeira, teto, janelas, banheiro.

O compositor Cesar Teixeira no traço de Máci

Você também é músico? Sim, também sou músico. A música chegou bem mais depois do desenho. Comecei a compor em rodas de amigos que também escrevem e aprendi bastante com eles. Posso dizer que foram muito importantes para o meu “amadurecimento” musical. Sou vocalista da banda Saga dos Salientes, em que fazemos rock, blues, country e funk. Mas além disso tenho alguns sambas de minha autoria, baladas e outras linguagens, outras ideias. Um outro lado que vou apresentar hoje, na noite da exposição.

A madredivina Patativa, por Máci

Quando começou a se interessar por desenho e artes em geral? Teus pais incentivaram? Quais as tuas influências? Comecei a me interessar com uns oito anos. Meu tio, Tatto Costa, cantor e compositor também da ilha) ainda tocava em barzinho e chegava em casa pra comer alguma coisa, não lembro direito, e eu e meus irmãos éramos muito atentados. Ele também desenhava muito e ocupava a gente com os desenhos. Um dia a professora pediu que fizesse um trabalho sobre meios de transporte e meu grupo ficou com o avião. Pedi então que meu tio desenhasse um avião lindão e assim fez. Levei pra sala de aula, mas falando que eu tinha feito [risos], ninguém acreditou e eu fiquei muito chateado. Não entendia por que achavam que eu não era capaz de fazer. E me convenci que poderia fazer. Daí comecei a copiar os desenhos que meu tio fazia, guardava, rasgava, colava, até que me vi ampliando desenhos tipo Pokémon, Digimon, mangá etc. A caricatura mesmo apareceu bem depois, por volta dos 15 anos. Meu professor de física me deu três pontos numa prova que eu tinha certeza que ia tirar quatro. Eu também fiquei muito chateado e por raiva desenhei o professor sacaneando muito! Nesse momento não tinha nenhuma ideia que um dia pudesse estar fazendo uma exposição com caricaturas de minha autoria. Entao eu passei o desenho pra sala toda. O professor viu. Todos os professores viram e curtiram. Então comecei a fazer todos os professores, desenhar a galera e trocar os desenhos por vale transporte, lanche. No começo acho que meus pais olhavam aquilo como uma coisa que ia passar, eu que dizia que ia ser advogado, mas com o tempo perceberam que dali poderia sair alguma coisa se existisse estudo, empenho e seriedade. Comecei a estudar, a ler mais sobre o assunto e a conhecer outros caricaturistas nacionais e internacionais, como o mineiro Gilmar Fraga, que conheci virtualmente e de quem tenho bastante influência no traço. Foi com ele que percebi que não era necessário eu fazer realmente toda a figura humana na caricatura. Poderia fazer só um olho, uma perna, não colocar um nariz. O importante é a expressão, o sentimento do desenho.

O que significa juntar os amigos músicos para canjas no ato da exposição? É lindo! Curto e respeito o trabalho de todos. Desde o intimismo de Sergio Muniz à graça poética de Paulo Linhares. É um prazer mesmo estar somando e fazendo música com eles.

Hoje: Ponte Brasil-Benin na Casa de Nhozinho

A Casa de Nhozinho (Rua Portugal, 185, Praia Grande) recebe hoje e amanhã a Mostra Cultural Pedra da Memória, projeto-ponte que ligou o Brasil ao Benin, através de seus terreiros.

A Mostra já visitou São Paulo, onde a exposição fica em cartaz no Museu Afro até o último dia de 2012. Nela há um livro de fotografias, feitas em ambos os países, memórias de Euclides Talabyan, o Pai Euclides da Casa Fanti-Ashanti, desenhos de Carybé, além de exposição fotográfica, um documentário homônimo (dirigido pela querida Renata Amaral; é dela a iniciativa do projeto) e roda de conversa com participantes do projeto.

Hoje (16), às 19h30min, acontecem a abertura da exposição e o lançamento do livro Pedra da Memória. Amanhã (17), às 16h, roda de conversa com Vodunnon Daagbo Avimadjenon Ahouandjinou, um líder espiritual do Benin, o Babalorixá Euclides Talabyan, o professor Brice Sogbossi, antropólogo beninense radicado no Brasil, e a produtora Renata Amaral.

O conjunto Pedra da Memória (expo, livro, roda e doc) faz um resgate histórico importante e traz um material inédito e precioso sobre as tradições populares brasileiras e beninenses, em uma aproximação poética e reveladora, com a intenção de fazer o caminho inverso da “Árvore do Esquecimento”, onde os escravos eram obrigados a “dar voltas” para esquecer suas origens, e fomentar os re-conhecimentos.

Toda a programação é gratuita. O livro, na ocasião do lançamento, será vendido por R$ 50,00.

Mariana e o cazumba

(OU: O CAZUMBA DE MARIANA)

Mariana Régia é uma menina bastante inteligente que gosta de bichos, livros, churrasco e batata frita, que fica quietíssima e em absoluto silêncio em frente a um computador ou à televisão, quando ganha um novo dvd, com algum filme/desenho que nunca viu. Tios corujas, vez em quando eu e minha esposa a levamos para passear, justo para tirá-la de frente da tevê ou do computador.

Fico naquelas de Professor Raimundo para Ptolomeu, personagens de Chico Anysio e Nizo Neto, pai e filho, na Escolinha do primeiro, “queria ter uma filha assim”, costumo pensar quando vamos a uma banca ou simplesmente levo uma revista ou um livro para presenteá-la.

Ela é fã incondicional, por exemplo, de Isabel Comics!, as fototiras de Bruno Azêvedo e Karla Freire que retratam o primeiro ano de sua filha.

Tenho em casa, há alguns anos, uma careta de cazumba. É pequena, cabe na minha mão e vive pendurada numa estante, entre livros. Há algum tempo era preciso escondê-la quando Mariana aparecia para nos visitar.

Mariana hoje tem nove anos e um talento para desenhar que, em minha modesta opinião, está para além do talento que toda criança tem para desenhar.

Outro dia ela passou lá em casa com sua irmã Manuela e a prima Maria Clara: brincaram, comeram, tomaram banho de mangueira e desenharam. Mariana já não teme o Cazumba. Desenha-o.

Um desenho do blogueiro

Acontece até o próximo dia 17 o Encontro Inter-regional Nordeste da Cáritas Brasileira, na Casa das Irmãs de São José de São Jacinto, Filipinho, São Luís. O tema do evento é “Estiagem, grandes projetos e políticas públicas”. Este que vos bafeja fez o desenho utilizado pela Cáritas em adesivos (colados nas pastas distribuídas aos presentes) e nas faixas. Vejam abaixo.

Melhor que o Google Maps

Amanhã é o lançamento da Campanha Popular pelo Direito Humano à Educação Pública, Gratuita e de Qualidade, iniciativa da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, onde também trabalho, e outras entidades parceiras.

Aí o David, que trabalha comigo, pediu que eu desenhasse um mapa, indicando como chegar ao local; eu pensei que era um mapa para ele chegar e, quando me espantei, o desenho que eu fiz já tava rodando aí pelas redes sociais e arredores.

Como diriam os Mutantes: "não vá se perder por aí!"