Utilidade pública: discografia da gravadora Marcus Pereira disponível no youtube

Num dia triste para a música, com as notícias dos falecimentos de George Martin e Naná Vasconcelos, uma notícia alvissareira me alcança por um e-mail do poeta Reuben da Cunha Rocha: toda a discografia lançada pela gravadora Marcus Pereira está disponível para audição no youtube (e download via torrent).

A gravadora lançou mais de 100 discos entre 1967 e o início da década de 1980. O primeiro, Onze sambas e uma capoeira, reunia, em 12 faixas, os irmãos Chico e Cristina Buarque e Adauto Santos interpretando a obra de Paulo Vanzolini. Uma das raridades desta gravadora em que, afinal de contas, tudo é raridade, é a estreia fonográfica conjunta de Chico Maranhão e Renato Teixeira, o terceiro disco brinde distribuído pela agência de publicidade de Marcus Pereira a seus clientes por ocasião das festas de fim de ano. Logo ele abandonaria a publicidade, dedicando-se exclusivamente à gravadora, passando a realizar talvez o mais importante mapeamento musical brasileiro da história. Algumas dezenas de discos e pouco mais de uma década depois, acossado por dívidas, Marcus Pereira se suicidaria.

Foi ele o responsável pelo lançamento de algumas pérolas do cancioneiro nacional: Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Arthur Moreira Lima, Banda de Pífanos de Caruaru, Canhoto da Paraíba, Carlos Poyares, Cartola, Celso Machado, Chico Buarque, Dércio Marques, Dilermando Reis, Donga, Doroty Marques, Elomar, Luperce Miranda, Marcus Vinicius, Paulo Bellinati (do Pau Brasil), Paulo Vanzolini, Quinteto Armorial, Quinteto Villa-Lobos e Sérgio Ricardo, entre outros, tiveram álbuns lançados pela Discos Marcus Pereira.

Lances de agora. Capa. Reprodução
Lances de agora. Capa. Reprodução

Os maranhenses Irene Portela, Papete e Chico Maranhão lançaram discos pelo selo. A codoense lançou Rumo Norte em 1979, entre repertório autoral e regravações de João do Vale; no ano anterior o visionário Marcus Pereira lançou Bandeira de aço e Lances de agora, ambos citados entre os 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, em enquete do jornal Vias de Fato.

Rumo Norte. Capa. Reprodução
Rumo Norte. Capa. Reprodução

Por lá Papete lançaria ainda Água de coco, Berimbau e percussão e Voz dos arvoredos; Chico Maranhão, além do disco brinde dividido com Renato Teixeira e de Lances de agora, lançaria ainda Maranhão (comumente conhecido como Gabriela, por seu frevo-título), e Fonte nova.

O acervo da gravadora Marcus Pereira está com a Universal Music (que adquiriu a EMI), que não tem interesse comercial em relançar este precioso catálogo, ao menos não com a urgência necessária. “Grande parte da música brasileira está simplesmente se perdendo por não haver interesse comercial”, declarou-me o jornalista Eduardo Magossi, que aborda a história da gravadora em sua tese de mestrado. Ele foi o responsável pelo relançamento dos quatro discos da série História das Escolas de Samba, dedicados à Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro e anuncia novidades para 2016, sem adiantar que títulos serão relançados.

Bandeira de aço. Capa. Reprodução
Bandeira de aço. Capa. Reprodução

De um lado burocratas preocupados apenas com lucros de grandes companhias, de outro lado o poder público despreocupado com este imenso patrimônio cultural. Enquanto isso, viva a iniciativa do anônimo que decidiu disponibilizar esta valiosa coleção, de audição obrigatória para qualquer interessado em música brasileira.

[Update: Recomendando-me este texto de sua autoria o jornalista Eduardo Magossi alertou-me de uma incorreção no texto, aqui corrigido às 14h13; o primeiro disco lançado por Marcus Pereira foi Onze sambas e uma capoeira, e não a estreia fonográfica conjunta de Chico Maranhão e Renato Teixeira]

30 anos de Fulejo

[No Vias de Fato de setembro, já nas bancas]

Hoje raro, disco de Dércio Marques tem primeira gravação de Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira – Erivaldo Gomes era o percussionista

ZEMA RIBEIRO

Um violão sobre uma cadeira, em frente à porta da casa que dá para um jardim. A capa do disco entrega o conteúdo, e seu título a festividade ali contida: Fulejo [Copacabana Discos, 1983], de Dércio Marques, é obra importantíssima da música brasileira e completa 30 anos neste 2013. O trabalho tem a participação de Doroty Marques, irmã do menestrel, e merece ser mais e mais ouvido.

É um disco que merece ser festejado também – ou principalmente – em terras maranhenses: ele contém a primeira gravação de Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira, com direito a percussão de Erivaldo Gomes e arranjo de Ubiratan Sousa. No disco, a música é dedicada a Chico Maranhão.

O menestrel durante apresentação no Sr. Brasil de Rolando Boldrin

Mineiro de Uberaba, filho de pai uruguaio, Dércio Marques estreou em disco em 1977, com Terra, Vento, Caminho, lançado pela Discos Marcus Pereira, a mesma que no ano seguinte brindaria o público com Bandeira de Aço, de Papete, com repertório assinado por Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

Inspirado pelas raízes musicais brasileiras que pesquisava, Dércio mostrou em Fulejo a influência das congadas mineiras, embora o disco fosse, como sua obra em geral, bastante diverso. Além da citada Namorada do Cangaço, são de seu repertório Mineirinha (Raul Torres), O pinhão na amarração (Elomar) – que ele defendeu em um festival da Rede Globo em 1980 –, Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo), Você vai gostar (Casinha Branca) (Elpídio dos Santos) e Disco Voador (Palmeira). Uma descuidada reedição em cd alterou a ordem das faixas – não sei se esta sorte é pior que a não reedição dos discos que Chico Maranhão lançou pela Marcus Pereira.

Falecido em 26 de junho do ano passado, no pós-operatório da retirada de pâncreas, baço e vesícula, Dércio Marques deixou 10 discos gravados e apresentou-se ao lado e foi parceiro de muita gente: Diana Pequeno, Heraldo do Monte, João Bá, Milton Edilberto, Oswaldinho do Acordeom, Paulinho Pedra Azul, Pereira da Viola e Xangai, entre outros, além dos maranhenses Irene Portela e João do Vale. Em 1996 foi indicado ao Prêmio Sharp por Monjolear, disco fruto de oficinas de músicas ministradas por ele e a irmã para mais de 200 crianças – um dos melhores discos de música infantil já feitos no Brasil em todos os tempos.

Histórias de Fulejo – Dércio Marques aprendeu a letra de Namorada do Cangaço com o percussionista Erivaldo Gomes, que então morava em São Paulo, onde o disco foi gravado. O compositor Chico Saldanha, responsável também pela chegada das músicas de Bandeira de Aço às mãos e ouvidos de Papete, lembra que ele gravou sem pedir a autorização do autor: “Eu falei: “quer gravar, grava, mas vamos ao menos avisar o autor”. A princípio ele disse que não ia mais gravar, depois resolveu e o disco saiu com a música”, lembra.

“A música chegou a tocar razoavelmente no rádio, mas eu só fui saber depois que já estava gravada”, recorda-se o autor. “Até há uns erros de letra, ele não me procurou antes. Ele me ligou depois, pedindo autorização para inscrever a música em um festival da Rede Globo, o que neguei. Depois de muitos anos nos encontramos, eu trabalhava nO Imparcial, ele chegou com o violão, começou a tocar, tocou Boi da Lua [também de Cesar Teixeira], parou a redação inteira [risos]. Era uma figura irreverente e engraçada. Fulejo é um grande disco e o Brasil perdeu uma grande voz”, lamenta Cesar Teixeira.

REPERTÓRIO

1. Namorada do Cangaço (Cesar Teixeira)
2. Mineirinha (Raul Torres) Participação especial: Doroty Marques
3. Fulejo (Dércio Marques)
4. Malambo (Ricardo Zanon Morel/ Dércio Marques)
5. O Pinhão na Amarração (Canto de Amarração) (Elomar Figueira de Mello)
6. Cantiga da Serra (Hilton Acioli) Participação especial: Benjamim e Titina
7. Brasil Caboclo (Tonico/ Walter Amaral)
8. Riacho de Areia (Adaptação folclórica de Maria de Lira) Participação especial: Benjamim, Genésio e Doroty Marques
9. Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo)
10. Você vai gostar (Casinha Branca) (Elpídio dos Santos)
11. Ranchinho Brasileiro (Brasil Sinfonia) (Elpídio dos Santos)
12. Lua Sertaneja (Adauto Santos/ Gilberto Karan) Participação especial: Benjamim
13. Flores do Vale (Dércio Marques/ João Bá)
14. Disco Voador (Palmeira)

DISCOGRAFIA

Terra, vento, caminho (1977)
Canto forte – Coro da primavera (1979)
Fulejo (1983)
Segredos vegetais (1986)
Anjos da Terra (1990)
Espelho d’água (1993)
Monjolear (1996) – com Doroty Marques
Cantigas de abraçar (1998)
Cantos da Mata Atlântica (1999)
Folias do Brasil (2000)

Cesar Teixeira, 60 anos

Um de nossos maiores compositores completa hoje 60 anos. Em 2003, por conta de seu meio século, fui (também) o único a dizer algo: o texto saiu no Jornal Pequeno.

A Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), de que Cesar Teixeira é sócio e ex-assessor de comunicação, homenageou-o (no fundo foi por ele homenageada) em sua Agenda 2013, em que o artista comparece com sete ilustrações (incluindo a da capa), seis poemas e em uma foto (de Aniceto Neto, a mesma que ilustra este post).

Abaixo, o texto que escrevi para a terceira capa da agenda. A Cesar uma saraivada de vivas, votos de vida longa e muita arte!

Carlos Cesar Teixeira Sousa completa 60 anos em 2013: nasceu em 15 de abril de 1953. Esta agenda é uma homenagem da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) a um de seus mais ilustres sócios. Nascido no Beco das Minas, na Madre Deus, bairro boêmio encravado no coração de São Luís, o artista plural é filho do compositor Bibi Silva e desde criança habituou-se a ouvir o som dos tambores do mais antigo terreiro afro da Ilha e das rodas de samba que ocupavam a área. Dedicou-se, ainda na adolescência, às artes plásticas, tendo vencido alguns salões em fins da década de 1960.

Na mesma época iniciou sua trajetória musical, participando de festivais de música no Liceu Maranhense, onde estudou. Datam deste período músicas como Salmo 70, em parceria com o poeta Viriato Gaspar, e Sentinela, com Zé Pereira Godão.

Em 1972 integrou a trupe que fundaria o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte). Em 1978, Papete, no antológico Bandeira de Aço, pelas mãos do produtor Marcus Pereira, registraria três músicas suas: Boi da Lua, Flor do Mal e a faixa-título.

Cesar Teixeira viria a ser um dos mais gravados compositores maranhenses, tendo sua obra registrada nas vozes de nomes como Alcione, Célia Maria, Chico Maranhão, Chico Saldanha, Cláudio Lima, Cláudio Pinheiro, Cláudio Valente, Dércio Marques, Fátima Passarinho, Flávia Bittencourt, Gabriel Melônio, Lena Machado, Papete e Rita Ribeiro, entre outros, além da Escola de Samba Turma do Quinto, cuja ala de compositores integrou durante algum tempo.

Sua Oração Latina, originalmente composta para a trilha sonora de uma peça teatral, em 1982, venceu o Festival Viva de Música Popular Maranhense, em 1985. A música é até hoje cantada em atos, greves, manifestos e mobilizações populares, não só no Maranhão. Seu único disco até aqui, Shopping Brazil foi lançado em 2004, e apresenta pequena parte de sua significativa obra musical. No carnaval de 2010, o artista foi homenageado pela Favela do Samba.

Sua atuação jornalística também merece destaque: formou-se pela UFMA em 1984, foi editor de cultura do jornal O Imparcial (1986-88), assessor de comunicação da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) (1989-2002), entidade da qual é sócio até os dias atuais, fundador do Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (2002), onde escrevia sobre música, cultura popular, teatro e artes plásticas, e fundador do jornal Vias de Fato (2009).

Homenageado com a medalha Simão Estácio da Silveira, da Câmara Municipal de São Luís, Cesar Teixeira não chegou a receber a comenda. Em 2011 foi agraciado com o troféu José Augusto Mochel, do PCdoB, por sua destacada atuação na luta em prol dos Direitos Humanos no Maranhão.