Corpos poéticos, corpos políticos

Momentos de Chico, eu e Buarque. Fotos: Clarissa Anfevi e Louise Mendes/ Divulgação

 

Dividido em três atos, o espetáculo de dança Chico, eu e Buarque – Fragmentos poéticos é um mergulho no vasto universo do compositor Chico Buarque, cujos versos de enfrentamento à ditadura militar brasileira nunca ficaram datados, seja por sua genialidade poética em si, seja pelo Brasil nunca ter acertado contas com o passado e vivermos a iminência (?) da repetição da história como tragédia.

Idealizado pelo diretor do Teatro Arthur Azevedo Celso Brandão, dirigido e coreografado por Anderson Couto e realizado pelo Núcleo de Arte Educação (NAE) do TAA, parceria das Secretarias de Estado de Educação (Seduc) e Cultura e Turismo (Sectur), Chico, eu e Buarque marca um novo momento nas artes cênicas do Maranhão e na história do próprio TAA, quando a casa, além de receber espetáculos e produções, produz seus próprios feitos – além deste espetáculo de dança, também o maravilhoso João do Vale – O musical.

11 bailarinos em cena: 10 do corpo do NAE – André Lima, Calina Rubim, Daniel Lima, Geisa dos Anjos, Heide Cabral (que deu nome ao espetáculo nos estudos que o precederam), Isabella Sousa, Kleverson Froz, Weber Bezerra, Miriam Martins e Nuiliane Lago – mais a professora Débora Buhatem, que surge sozinha e leve, para “ficar em teu corpo feito tatuagem”, após a explosão de Geni em Geni e o zepelim, fechando o primeiro ato.

O espetáculo se abre com Construção/Deus lhe pague (1971), em que cenário e luzes simulam o trânsito apressado de operários brasileiros, com todos os bailarinos do NAE em cena. É o bloco das músicas de protesto, longe de panfletos datados: seguem-se Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1978), na interpretação de Chico e Milton Nascimento, Apesar de você (Chico Buarque, 1978), O que será (À flor da terra) (Chico Buarque, 1976), novamente cantada em dueto com Milton, Geni e o zepelim (Chico Buarque, 1979) e a versão instrumental de Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973).

O segundo ato traz à cena o Chico romântico, valorizando trios e pas de deux: Samba e amor (Chico Buarque, 1970), Terezinha (Chico Buarque, 1977), João e Maria (Chico Buarque e Sivuca, 1977) e Todo sentimento (Chico Buarque e Cristóvão Bastos, 1987), quando as flores do cenário descem quase ao chão e uma dançarina brinca com elas, antes de fazê-las novamente voar, alusão ao “sopro do criador” de que falava outro compositor, aqui mais um motivo para celebrar o Chico criador de alguns dos momentos mais sublimes de nossa vasta música popular.

O ato final marca o diálogo da obra de Chico Buarque com os ritmos da cultura popular do Maranhão. Os bailarinos saem de longas fitas – evocando os chapéus dos caboclos de fita do bumba meu boi – nas cores da bandeira jamaicana (afinal de contas celebra-se Chico Buarque na Jamaica brasileira). Ou seria a bandeira do Sampaio Correa aludindo ao tricolor carioca por que torce o compositor?

Neste ato, novas gravações e arranjos (de Rovilson Pascoal) para a obra de Chico Buarque, inserindo os tambores de crioula e mina e o bumba meu boi, a provar que o universo buarqueano é mais vasto e aberto do que sonha a nossa vã filosofia.

Nessa pegada, seguem-se Cotidiano (Chico Buarque, 1971), Paratodos (Chico Buarque, 1993) e Roda viva (Chico Buarque, 1968) – cujo uso a TV Cultura teve desautorizado na abertura do programa homônimo, após a emissora veicular uma entrevista com o ilegítimo Michel Temer (não havia contrato formal com a emissora para uso da canção, mas um acordo verbal entre o autor e o produtor Fernando Faro, falecido em abril de 2016).

Chico, eu e Buarque é um espetáculo político e não poderia deixar de ser, em se tratando do homenageado, autor da trilha sonora. O corpo fala e no palco está mais livre do que nunca, para reinterpretar a riqueza de um verdadeiro craque da canção brasileira – interpretações erradas de uma entrevista que ele deu ao jornalista Fernando de Barros e Silva, para a Folha de S. Paulo, em dezembro de 2004, levaram muita gente a acreditar que Chico Buarque teria decretado “a morte da canção”.

Mas voltemos ao espetáculo, que fecha com outra canção de protesto, cantada até hoje em plenos pulmões carnavais afora: Vai passar (Francis Hime e Chico Buarque, 1984). A arte imita a vida e tudo termina em samba. Que fique o alerta e nossa pátria mãe tão distraída pare de ser subtraída em tenebrosas transações. E a tragédia brasileira deixe de se repetir. Para Chico Buarque seguir atual por outros motivos.

Coco pisado de tirar o couro

Foto: Zema Ribeiro

 

É na apresentação do Coco de Tebei que o tema da edição 2017/2018 do circuito Sonora Brasil faz mais sentido: “na pisada dos cocos”. Estado reconhecido por ofertar ao Brasil grandes mestres do gênero, de Bezerra da Silva a Selma do Coco, passando pelo grupo Raízes de Arcoverde, o grupo que se apresentou ontem (30), na Casa do Maranhão, é diferente de tudo o que se poderia esperar.

O Coco de Tebei é dançado por casais e cantado por mulheres, tendo como marcação rítmica apenas seus próprios passos, isto é, os pés dos dançarinos “socando” o chão, herança do taipar de casas de pau a pique, em que doses de trabalho e diversão se misturam coletivamente. Nenhum instrumento acompanha seus nove integrantes: três casais de dançarinos e três cantadeiras – que também dançam.

A dança é praticada por agricultores e tecelões de Olho d’Água do Bruno, povoado de Tacaratu – até o nome da cidade é sonoro e parece ser marcado também pela pisada de seus dançarinos. Por vezes, ao longo da apresentação, a sonoridade me evocava um maracatu. Mas na maior parte do tempo, pensava na catira e no toré indígena. Outras vezes também pensei em samba rock, imaginando que certamente aqueles homens e mulheres poderiam dançar qualquer coisa.

As saias de chita, floridas e rodadas, remetem às coreiras do tambor de crioula. Elas calçam sandálias, que são arrastadas em determinadas músicas, num delicioso “chep chep”. Os homens calçam sapatos pretos, vestem calça e camisa em diferentes tons de azul e usam um chapéu de couro, parecido com os que Lampião e Luiz Gonzaga tornaram moda, só que brancos.

O Coco de Tebei tem um disco, de 2008, cujo título é Eu tiro o couro do dançador. Penso que é apropriado: treino dá ritmo de jogo. Tivesse me arriscado a acompanhar-lhes alguns passos era capaz de estar com os pés e panturrilhas doendo até agora – muitos dos presentes se arriscaram e como de praxe nas apresentações do circuito Sonora Brasil, desde a última sexta-feira, em São Luís, a de ontem também terminou com uma imensa roda, uma espécie de oficina informal.

Ao final, já na praça em frente à Casa do Maranhão, cumprimentei um de seus integrantes, que saíra para fumar. Parabenizei-o pela performance. Ele sorriu e agradeceu. Ao dar-lhe um amistoso tapa no ombro, senti a camisa grudada à pele pelo suor que imediatamente me encharcou a mão.

Serviço

A passagem do circuito Sonora Brasil por São Luís termina hoje (31). Às 19h, na Casa do Maranhão, com entrada gratuita, se apresenta o grupo sergipano Samba de Pareia da Mussuca. Em Caxias/MA, a programação do Sesc continua até quarta-feira, programação completa no post anterior.

Prece para corações cansados encerra temporada 2015 do grupo Teatrodança

A artista e pesquisadora Júlia Emília em ação. Foto: divulgação
A artista e pesquisadora Júlia Emília em ação. Foto: divulgação

 

O Grupo Teatrodança encerra as atividades de 2015 com a apresentação, nesta sexta (18), do espetáculo Prece para corações cansados, na Livraria Leitura (São Luís Shopping), às 19h, de graça – na ocasião o livro Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade será vendido por R$ 20,00.

Coordenado pela artista Júlia Emília, o grupo Teatrodança foi fundado em 1985, embora os trabalhos de investigação da proposta diferenciada em dança, unindo corpo, cena, literatura e música, tenham começado antes. “O trabalho com os dançarinos-atores-criadores se caracteriza pela experiência continuada e progressiva que passa pelas memórias, consciências, trânsitos e experimentações em determinados momentos das vidas de cada um ou do coletivo artístico do qual somos parte. Praticamos e estudamos em trabalho exigente porque nos colocamos à disposição da criação”, explica.

Ao longo de 2015 foram diversas as apresentações do grupo, dialogando com noites de autógrafos do livro Vivendo Teatrodança, que reúne os estudos e experimentações que resultaram nos espetáculos Bicho Solto Buriti Bravo, O Baile das Lavandeiras e Meninos em Terras Impuras.

“A sabedoria decorre da experiência. Não há nada proibido, nãohá punições, há apenas um momento e a vontade de saboreá-lo para responder ao chamado do que se passa em nossas almas. Somos abençoados porque estamos cansados de sentir a ignorância e o sofrimento se alastrando nas vidas. Digamos chega! Sejamos livres para retomar o caminho do espírito!”, diz trecho do texto sobre o espetáculo distribuído à imprensa.

Flaira Ferro muito além do frevo

A atriz, cantora e dançarina no show de lançamento de Cordões Umbilicais, Teatro de Santa Isabel, Recife. Foto: divulgação
A atriz, cantora e dançarina no show de lançamento de Cordões Umbilicais, Teatro de Santa Isabel, Recife. Foto: divulgação

 

Com os dois pés fincados nos terreiros da dança e do teatro, Flaira Ferro resolveu mostrar também sua faceta de cantora e compositora. Cordões umbilicais, seu disco de estreia, é um álbum autoral e autobiográfico, em que a artista dá roupagem pop a diversos elementos de sua formação cultural: frevo, cavalo marinho, caboclinho e maracatu, pernambucanidades temperadas com pitadas de erudito.

Flaira veio ao mundo no meio do carnaval do Recife, tendo se iniciado na dança ainda criança, aos seis anos de idade. Filha de pais foliões, foi aluna do lendário Nascimento do Passo, formou-se em Comunicação Social pela Unicap (Recife) e hoje é professora, pesquisadora, dançarina, atriz e cantora, ufa!, do Instituto Brincante, de Antonio Nóbrega, sediado em São Paulo, onde está radicada desde 2012.

No refrão de Atriz, cantora ou dançarina? (letra e música dela), a pergunta que muitos lhe fazem e farão, este repórter inclusive: “ô menina/ o que é que você vai ser?/ atriz, cantora ou dançarina?”. “Mundo, continente, país, estado,/ cidade, bairro, casa, eu./ Somos tantos mundos/ dentro de outros mundos mais/ e estamos ligados por/ cordões umbilicais”, comunga a letra da faixa-título, parceria de Flaira e Igor Bruno.

Ela assina letra ou música em 10 das 11 faixas, incluindo Contra-regra (pré-novo acordo ortográfico), calcada em versículos bíblicos. A única música que não assina é (mais ou menos) sobre ela. Na verdade é sobre Filhos – o título – em geral. A letra é do ex-deputado federal Fernando Ferro, seu pai: “Filhos são frutos,/ filhos são parte do nosso caminho,/ filhos são flores e são espinho,/ filhos são nós, e nós que atam e desatam./ Filhos são nossa parte, fazendo arte,/ filhos são doces pimentas do ser,/ filhos são nosso prêmio e pranto,/ filhos são surpresas,/ em cada canto./ Filhos não pedem pra nascer…”, reza a letra.

Em Me curar de mim (letra e música dela), literalmente desnuda-se: “E dói, dói, dói me expor assim/ dói, dói, dói, despir-se assim/ Mas se eu não tiver coragem/ pra enfrentar os meus defeitos/ de que forma, de que jeito/ eu vou me curar de mim?”, indaga-se/nos.

Cordões umbilicais. Capa. Reprodução
Cordões umbilicais. Capa. Reprodução

Disponível para download gratuito no site da artista, Cordões umbilicais foi gravado entre agosto de 2013 e abril de 2014 e lançado no Recife em janeiro passado, dentro da programação do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, em cuja 17ª. edição Flaira já havia sido premiada como melhor bailarina, por O frevo é teu?, seu primeiro espetáculo solo, dirigido por Bella Maia.

O disco tem produção musical e arranjos de Leonardo Gorosito e Alencar Martins (seu parceiro em Lafalafa e Contra-regra) e participações especiais do maestro Spok (saxofone) e Léo Rodrigues (percussão). Por e-mail ela conversou com o blogue sobre o álbum, seu trânsito livre entre a música, o teatro e a dança, a porção autobiográfica de sua obra e projetos futuros.

A artista no clique de Patrícia Black
A artista no clique de Patrícia Black

 

Zema Ribeiro – O que melhor define você: atriz, cantora ou bailarina?
Flaira Ferro – Essa resposta está na letra da música que te inspirou a pergunta. Meu caminho é o da busca. Nela procuro os lugares onde moram meus desafios. Quem se dispõe a olhar para dentro de si, na tentativa de entender seu papel no mundo, há de se deparar com muitas questões da existência. A dança está na minha vida há mais tempo, mas ela foi um pontapé inevitável para o teatro e para o canto. O que me interessa mesmo é a ponte que existe entre as três linguagens. Todas elas têm o corpo como instrumento e o movimento como impulso para ações e intenções. A possibilidade de me expressar misturando tudo isso é o que me define hoje.

Com uma consolidada carreira como bailarina e atriz foi preciso cortar algum cordão umbilical com aquelas artes para dedicar-se à música enquanto cantora? Ou tudo se soma e uma expressão ajuda a outra?
Elas são complementares e sem dúvida uma ajuda a outra, principalmente na compreensão de execução. Pra cantar é preciso respirar corretamente, coisa que a dança trabalha bastante. Pra interpretar uma dança ou música a atuação é um recurso importante na escolha das intenções, enfim.

Cordões umbilicais traduz uma reelaboração pop de ritmos tipicamente pernambucanos, como frevo, cavalo marinho, caboclinho e maracatu, e traz além de pitadas eletrônicas, referências eruditas. Como foi o processo de composição e gravação do álbum?
Tudo começou no final de 2012. Em um processo lento e atento às minhas verdades, juntei todas as composições que eu tinha feito ao longo da minha vida e convidei, por afinidade e entrosamento, os músicos Alencar Martins e Leonardo Gorosito para pensarmos na elaboração das músicas. Durante um ano nos encontramos semanalmente na casa de Alencar. Eu mostrava as letras e melodias e os dois criavam os arranjos. Dessa brincadeira saíram duas parcerias, Lafalafa e Contra-regra, com letras de minha autoria e música de Alencar. Depois de tudo arranjado, eles escolheram a dedo os músicos que formariam a banda para gravar no estúdio e foi quando conheci Jota Jota de Oliveira (baixo), Gabriel Zit (bateria) e Ciro de Oliveira (teclado). Fizemos alguns ensaios e gravamos o disco em dois estúdios: Cia do Gato e Ilha da Lua, ambos em São Paulo. Gustavo do Vale foi o técnico responsável pela gravação, mixagem e masterização. Além da banda, o disco contou com a participação especial dos músicos maestro Spok, Léo Rodrigues, Taís Cavalvanti, Danilo Nascimento, Sandra Oakh, Ramiro Marques e meus pais. Também tive parceiros fundamentais na autoria de algumas letras, são eles: Camila Moraes, Igor Bruno, Ulisses Moraes e minha irmã Flávia Ferro. Apesar de eu ter idealizado o projeto, Cordões Umbilicais foi feito por muitas mãos e jamais teria a cara que tem se não fossem todas as pessoas que mencionei acima. Tive a sorte de contar com músicos, familiares e profissionais que foram verdadeiros portais para esse sonho ser compartilhado.

Em Templo do tempo se indaga: “será que saberei um dia/ o que vou ser quando crescer?”. Nenhum risco de Cordões umbilicais ser teu único disco, não é? Ainda é cedo, mas já se pegou pensando no sucessor da estreia?
Sem dúvida. A composição é um exercício e uma necessidade constante. Tem muita música nascendo e em algum momento irei desaguá-las em um novo disco. Mas ainda vai levar tempo. Quero curtir esse primeiro filho com calma, rodar com shows, digerir e processar essa descoberta com carinho.

A letra de Contra-regra tem versículos bíblicos, sem nem de longe pagar de gospel. Você é religiosa? É católica? Que papel tem a Igreja em sua vida?
Até o mais ateu dos ateus não nega: deus é um tema irresistível. Não sou católica, muito menos religiosa. Levo uma vida sem misticismos ou superstições. A meu ver, dignidade vem com trabalho, bom humor e uma boa dose de teimosia. Acredito na espiritualidade como um tipo de inteligência que qualquer um pode ou não desenvolver e, para mim, a conexão com o divino é um estado de discernimento e expansão de consciência sobre o todo. Nasci num país onde os preceitos da cultura judaico-cristã predominam e de alguma forma me sinto influenciada por isso. Sou fascinada pela mensagem intrigante de amor incondicional pregada por Jesus Cristo. Quem consegue amar ao próximo como a si mesmo? Quem é capaz de dar a outra face se alguém o bater? Eu não consigo. A meu ver, o verdadeiro artista é um devoto às questões da alma. Neste sentido Jesus é pra mim um artista revolucionário e transgressor da maior ordem e, por isso mesmo, acredito que sua mensagem está longe de ser compreendida pela ganância e hipocrisia que regem o sistema político e cultural do Ocidente. Fico imaginando o que Jesus faria se presenciasse as atrocidades irreparáveis que os homens fazem em seu nome. É tanta intolerância, homofobia, racismo e violência dentro das igrejas que tenho dificuldade de me sentir representada plenamente por alguma instituição. Mas acho importante compartilhar experiências coletivas de fé para fortalecer a crença individual, seja ela qual for. Procuro me cercar de pessoas generosas que estejam dispostas a olhar a vida sem dogmas e moralismos e são nestas relações que minha igreja reside em essência. Identifico-me profundamente com a lógica de agradecimento presente nas manifestações populares como o Cavalo-marinho e o Reisado [maiúsculas dela]. Fui batizada em igreja batista, sempre que dá frequento a IBAB, o templo budista da Monja Coen e as sambadas do Instituto Brincante.

Diversas faixas têm um quê autobiográfico. O quanto dói se expor assim, como você afirma em Me curar de mim?
Não sei se existe uma dimensão para medir nossas dores. Acredito que todo processo de transformação demanda algum tipo de sofrimento, o que é saudável e natural. No meu caso, a exposição de minhas fraquezas dói o necessário para me fazer perceber o que preciso trabalhar.

Por falar em exposição, sua participação no projeto Apartamento 302, do fotógrafo Jorge Bispo, ganhou repercussão na seara política, ao que parece com veículos de comunicação querendo atingir seu pai. O que achou de participar do projeto e qual a sua opinião sobre essa repercussão enviesada?
Participar do projeto foi uma experiência interessante para lidar com a auto-imagem, o lugar do feminino e o julgamento externo. Sinto que a repercussão distorcida e maldosa só fortaleceu a importância de agir a partir da fidelidade às minhas próprias questões. O artista nem sempre vai ser compreendido, então, avante. Quando a gente se entrega de coração a alguma coisa, a paz que vem da escolha feita com verdade é absurda. O autoconhecimento é um tema que me seduz muito, desde pequena. Procuro viver atenta às minhas necessidades e todos os dias me faço a pergunta: estou investindo meu tempo tentando ser o melhor de mim mesma? A partir dela vou encontrando respostas para tomar decisões que independem do que os outros vão dizer ou achar.

Em Atriz, cantora ou dançarina você afirma: “Por ora agora gosto de cantar/ mas se amanhã isso bastar/ serei fiel ao que me der vontade”. O que Flaira ainda não fez e tem vontade? Muita coisa, né? Mas das que estão no topo da lista, tenho muita vontade de organizar uma viagem intensa pelo Brasil para fazer uma pesquisa de campo sobre os ritmos e as danças populares de cada região do país.

Assista o clipe de Lafalafa:

Júlia Emília lança livro com vivências do Teatrodança como parte das comemorações dos 30 anos do Grupo

Vivendo Teatrodança - Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução
Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução

 

A história do Grupo Teatrodança se confunde com a própria vida da artista – difícil enquadrá-la em apenas um ramo das artes – Júlia Emília, que o fundou em 1985 e o dirige desde então. Mas seu envolvimento com as artes começa bem antes.

Hoje (26), às 19h, no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (Rua do Giz, 59, Praia Grande, próximo à Praça da Faustina), ela lança Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade [2015, R$ 20,00 no lançamento], publicado através da seleção no edital de literatura de 2014 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), em que (re)conta parte dessa história. No lançamento Eline Cunha, Luciana Santos, Sandra Oka e Victor Vieira apresentarão intervenções originais sobre suas relações afetivas com o Grupo Teatrodança e temáticas da nova investigação em processo.

A própria Júlia Emília se apresenta, na orelha da obra: “Filha de família intelectualizada tive um pé na sapatilha clássica e outro nos terreiros das culturas populares maranhenses, sem populismo postiço”. Bem lhe traduz também um poema, não por acaso citado no livro, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “Eu era filho de pessoas que tinham posses./ Meus pais puseram um colarinho engomado ao redor de meu pescoço/ E me educaram no hábito de ser servido/ E me ensinaram a arte de dar ordens./ Mas, mais tarde, quando/ Olhei ao redor de mim,/ Não gostei das pessoas de minha classe/ Nem de dar ordens, muito menos de ser servido./ E abandonei as pessoas de minha classe/ Para viver ao lado dos humildes”.

Sobre ela, assim se refere o poeta Ferreira Gullar: “Júlia é uma artista muito autêntica, trabalhando no resgate de um tipo de aproximação da cultura popular de maneira muito sensível”. O cantor e compositor Zeca Baleiro endossa: “É uma artista muito intensa, muito verdadeira”. O segundo musicou os versos de cordel do primeiro e ambos assinaram a trilha de Bicho solto buriti bravo, uma das investigações abordadas em Vivendo Teatrodança – longe de soar pedante, é realmente difícil classificar o trabalho de Júlia Emília como espetáculo de dança ou espetáculo de teatro. Simplesmente os rótulos não lhes comportam.

No livro, a autora remonta brevemente os 30 anos de história do Grupo Teatrodança, antes passeando por sua trajetória artística, confessando influências – Angel e Klauss Viana, Teresa D’Aquino, Stanislavski e Grotowski, entre outros – e vivências – o Teatro Ventoforte, o Centro de Criatividade do Méier, além do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e do Estúdio Pró-Dança, entre outros. A obra se completa com os textos das investigações O baile das lavandeiras e Meninos em terras impuras e aborda desde a fundamentação das peças, elencos, apresentações, dramaturgias e partituras. Na música se misturam nomes como Apolônio Melônio – do bumba meu boi da Floresta, atualmente internado em estado grave –, Carlinhos Veloz, Chico Maranhão, autos do pastor maranhense e do pastoril pernambucano e, entre muitas outras referências, as bandas de pop rock R.E.M. e Coldplay. Também soam pelas páginas de Júlia Emília e palcos frequentados pelo Teatrodança, também devidamente listados na obra, os tambores de mina e crioula, o lelê de São Simão, a dança de São Gonçalo, a poesia da escritora Maria Firmina dos Reis e a lenda da serpente (ou a serpente da lenda), para citar algumas de nossas melhores tradições.

Mas não é – ou ao menos não deveria ser – só ao “povo” do teatro e da dança que interessa a obra de Júlia Emília (e do Grupo Teatrodança): ao longo destes 30 anos e, especificamente nas vivências abordadas em Vivendo Teatrodança, estão colocadas, de forma mais ou menos sutil, preocupações políticas e ambientais – a terceira investigação, “Meninos em terras impuras, dentro da noção de corpo ambiental foi escrito em 2011, para denunciar a degradação a que a área metropolitana da Grande Ilha está submetida”.

Retornamos ao texto da orelha, em que Júlia Emília admite não ter “vergonha de nascer em terra espoliada, de expor meus exercícios de aculturação, de registrar dramaturgias que nem sei se serão publicadas exatamente por acreditar que o texto eterniza a cena”. O lançamento de Vivendo Teatrodança é parte das comemorações de 30 anos do Grupo homônimo, que continuam ao longo de todo 2015 (e sobre as quais este blogue voltará, em momentos oportunos). Os que conhecem os trabalhos e batalhas do Teatrodança e de sua fundadora-diretora lhes desejarão vidas longas. Aos que não, terão hoje mais uma oportunidade. Cabe a pergunta: estão esperando o quê?

Mestre Amaral

Imenso orgulho em partilhar com os poucos mas fiéis leitores deste blogue o teaser do documentário Mestre Amaral, de Paulo Malheiros.

Filme importante, por contar um capítulo já idem da cultura popular do Maranhão, de dentro da coisa enquanto a coisa acontece.

Além de tudo o que há de bacana ali, digo, no Centro Cultural Mestre Amaral, as citadas oficinas de canto, dança e confecção de instrumentos, há um lance de resistência para o qual tiro o chapéu: a ocupação de um espaço já frequentado pela elite. Quantos parlamentares gordos de bolsos idens já não tramaram ali, refestelando-se a champagne e caviar? O uso do espaço hoje é mais justo e democrático, mas não se assustem: este é um tema que passa ao largo das campanhas eleitorais.

Visitas marcam comemoração de 28 anos do grupo Teatrodança

“Fazer valer a flor da idade/ Colhida no pátio do sossego/ Ermo estandarte deflagrado/ Sob a mordaz lua crescente// A flor que ensina o frio ao pasto/ À relva a solidez do asfalto/ Sol que encobre o céu descalço/ E alimenta as turbinas do silêncio// Fazer valer essa flor perdulária/ Já que tudo é um golpe de sorte/ Reunir os cavalos sob a chuva/ Cogumelos velozes da memória// Fotos revistas nas dobras do sonho/ Páginas como pétalas entreabertas/ Ternamente ao alcance dos dedos/ Flor orvalhada no ato de explodir// Fazer valer os nervos intricados/ Da flor na idade do abandono/ Fazer justiça ao cão sem dono/ Que ladra e morde em meu jardim.”

O poema que abre este post, Fazer valer a flor da idade, de Fernando Abreu [Aliado involuntário, Êxodus, 2011, p. 45], é o mote de Flores, espetáculo do grupo Teatrodança, coordenado pela bailarina Júlia Emília, cuja pesquisa é voltada para as culturas tradicionais, da arte oriental da ikebana às expressões populares do Maranhão.

Flores será apresentado nesta quarta-feira (7), às 19h, na Casa de Nhozinho (Rua Portugal, 185, Praia Grande), com entrada franca. Na ocasião, o grupo apresentará também Ilhadas. Júlia Emília explica que este espetáculo “é parte de uma trilogia que se propõe a descobrir uma linguagem com a qual artistas da cena começam a escrever sua própria história e sistematizar suas ideias, teorias, técnicas e análises, por meio do aproveitamento matrizes das expressões populares maranhenses na construção de uma dramaturgia do corpo”.

Ainda segundo ela, “o que dói mais é a inocência perdida. Meninas que somem. Mulheres que choram. Nas tradições brasileiras de lutas, o sentimento feminino contra a dor permanece no corpo e permite dar continuidade ao ato de viver”.

Ao contrário de lojas que enganam cidadãos – muitas vezes diminuídos a meros consumidores – com o papo de que “a gente faz o aniversário e quem ganha o presente é você”, o grupo Teatrodança fará valer de fato a flor da idade, presenteando a plateia: além dos dois espetáculos, bate-papos após eles. As visitas terão continuidade com o espetáculo Flores: Livraria Poeme-se (dia 14 de agosto), Escola Attività (24), Casa Verde (30) e Centro Ozaka (14 de setembro).

Cliques de craques

Documentos da Cultura: a Festa, a Dança, a Fé é o título da exposição de Carolina Libério, Jane Maciel e Ramúsyo Brasil, fotógrafos que integram o Núcleo de Pesquisa e Produção de Imagem (NUPPI), associado ao Instituto Federal do Maranhão (IFMA), cujo vernissage acontece nesta quinta-feira (11), às 18h30min, na Galeria de Artes do SESC Deodoro (Av. Gomes de Castro, 132, Centro). As 21 imagens que compõem a exposição foram realizadas entre 2009 e ano passado.

“Quem sabe o segredo de São Cosme é São Damião” (Baden Powell)

Os cliques do trio valorizam a importância do corpo e do movimento e não garantem distanciamento do objeto estudadobservado: câmeras em punho, olho mirando através das lentes, são também, ele & elas, partes integrantes da festa, da dança, da fé, da paisagem.

“Dança a nossa tribo/ dança o povo inteiro” (Lenine): o Bambaê de Caixa em Penalva

Movimento, vibração e pulsação são palavras fundamentais para compreender a opção estética da tríade: determinada imagem não está borrada ou tremida, mas quer eternizar em si, instantes além do clique em si (ou qualquer outra nota musical): um exercício de (quase) cinema (mudo). Engajamento é outra palavra que vale destacar: o do corpo que anda, dança, reza, corre atrás dos bombons de Cosme e Damião, e goza o divino & o mundano, o dos três fotógrafos com a cultura popular do Maranhão e com a fotografia, o do seu corpo ao ver os registros: impossível não se sentir lá (na festa, na dança, na fé clicada): engajamento é compromisso e você já tem, nesta quinta, um de primeira.

“Andar com fé eu vou” (Gilberto Gil): São Raimundo dos Mulundus

Estão registrados em Documentos da Cultura (amostras grátis as três imagens que ilustram este post) clubes de reggae, a festa de São Cosme e São Damião, a malhação de Judas, a dança do cacuriá, através de sua eterna rainha Dona Teté, a festa do Bambaê de Caixa (da comunidade do Pouso, em Penalva/MA) e a procissão e São Raimundo dos Mulundus (Vargem Grande/MA).

A menina que conquistou o coração dos mestres do choro

[Release para Festejos, estreia em disco de Alexandra Nicolas]

Festejar é o destino de Alexandra Nicolas e de seus ouvintes

Maranhense estreia em disco com repertório de Paulo César Pinheiro

Festejos sai pela Acari, maior gravadora especializada em choro do Brasil

Márcio Vasconcelos

TEXTO: ZEMA RIBEIRO

“Eu cheguei sem ninguém saber que eu vinha”. Desde antes de nascer Alexandra Nicolas já era uma surpresa. Filha de mãe solteira, foi cúmplice da genitora, que escondeu a gravidez enquanto pode. O pai, músico e boêmio, ela só viria a conhecer aos cinco anos de idade. Foi criada por três mulheres – a mãe, a tia e a avó.

Sua mãe gostava de cantar e foi em uma tertúlia que seus pais se conheceram. Desde cedo a menina pegou gosto pela coisa. “Eu cantava desde criancinha. E eu não podia sair das rodas, que eles me chamavam: “agora é a vez da menina!”. E eu me lembro, muito nova, de cantar músicas de Nelson Gonçalves, Silvio Cesar, Elizete Cardoso, Clara Nunes, Rita Lee, Novos Baianos, Genival Lacerda, Elba Ramalho”, cita entre gostos passageiros e referências que permanecem até hoje.

Acreditando nos sonhos, a adolescente Alexandra chegou a largar o curso de Pedagogia e foi ao Rio de Janeiro estudar canto, dança e teatro. Sua mãe hospedou-a num pensionato, à época inviabilizando a carreira: “Todos os lugares em que eu podia cantar eram à noite e eu tinha que voltar para casa antes da meia noite”, lembra a cinderela de então.

Do pensionato para a música? Nem pensar! Alexandra só pode mudar-se para um apartamento quando passou no vestibular para Fonoaudiologia, profissão em que se formou e exerceu por pouco mais de 10 anos – a música sempre em paralelo, nunca de menor importância, a vida entre o consultório e os palcos. Após coordenar o curso de fonoaudiologia em uma faculdade particular em São Luís, ela deixou a profissão. Da música, afastou-se apenas para dedicar-se às primeiras infâncias de seu casal de filhos, hoje com sete e seis anos. Uma parada apenas temporária, embora ela não viva, ainda hoje, exclusivamente de música.

“Tudo o que fiz até hoje foi por necessidade, por amor, por que eu não consigo fazer nada que eu não pense em fazer bem feito”, diz, talvez explicando a demora em gravar o primeiro disco, Festejos. Mas nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Eu já gostava muito do Paulo César Pinheiro, principalmente suas parcerias com Mauro Duarte, Sivuca, João Nogueira. Vinha de alguns shows por aqui e estava com a ideia de fazer um em homenagem a Clara Nunes. Numa viagem ao Rio, meu amigo Celson Mendes mandou um e-mail para Luciana Rabello. Segundo ele, ela poderia me dar algumas dicas. De início não acreditei muito que ela fosse responder. Ela respondeu e me convidou para ver e ouvir o bandão da Escola Portátil. Algo incrível! Todos os alunos da Escola Portátil, 40 pandeiros, 15 cavaquinhos, 10 flautas etc., juntas, sob uma árvore, tocando ao mesmo tempo com [o baterista] Bolão de maestro”. Terminada a apresentação, Luciana levou-a para tomar um chopp na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Era a rua em que ela tinha morado, e Amélia Rabello, irmã de Luciana, morava no mesmo apartamento que Alexandra ocupou em seus dias e noites cariocas. Sem saber, a anfitriã acabou escolhendo ainda a mesma mesa em que a maranhense costumava sentar vindo da faculdade.

Nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Então você quer homenagear a Clara Nunes? Mas você gosta da cantora ou do compositor?”, indagou Luciana Rabello ao notar que nove das 16 músicas do roteiro eram de Paulo César Pinheiro. “Eu tenho certeza que Clara Nunes ia adorar este show se você pudesse transcender isso. Você precisa se mostrar como artista, sair de detrás dela. Eu recebo 80 e-mails por dia de gente querendo homenagear Clara”, aconselhou-a. “Paulinho [forma carinhosa como se referem ao compositor maiúsculo] tem mais de 2.000 canções. Se quiser eu te dou tudo inédito”, ofereceu.

Luciana Rabello acabou por descobrir a voz autoral de Alexandra Nicolas, mesmo esta não sendo compositora, e assumiu a função de diretora musical de Festejos. Mais que isso, se tornou amiga íntima, uma irmã querida e escolhida. “Ela foi uma bênção de Deus na minha vida”, diz a maranhense.

Tudo começou em Senhora das Candeias, show que ela apresentou duas vezes no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, e que batiza o projeto patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, que permitiu a feitura de Festejos, que sai pela Acari Records, a maior gravadora de choro no Brasil. Inicialmente ela recebeu uma fita com 20 composições de Paulo César Pinheiro: era o repertório do espetáculo. Para o disco, a amostra aumentou para quase 60 músicas, das quais 13 foram escolhidas, entre inéditas – a maioria – e regravações.

“Eu quero essas mulheres da festa!”, escolheu. “Todas as que Paulinho canta, elas são fascinantes, lindas e sensuais. É um amor puro! Elas possuem uma beleza que ninguém consegue ver. Quase ninguém consegue ver a beleza de uma lavadeira. Aí eu vi a verdade. Não era fantasia. Era palpável”. Alexandra começava a eleger o repertório de seu disco. Entre idas e vindas foram quase dois anos só na seleção do repertório, mergulhada de cabeça, corpo e alma.

“Paulo César Pinheiro é a pessoa mais leve que eu já vi na vida. Não sei de onde tira tanta simplicidade. Nem parece que existe, me deu o maior presente. Ele me deu a bênção e disse: “se você tiver que gravar um disco, quero que você grave aqui [no Rio de Janeiro]. Foi a partir daí que eu descobri verdadeiramente meu caminho”.

A partir de então, muitas idas e vindas na ponte aérea São Luís – Rio de Janeiro. Com ela festejam Adelson Viana (sanfona), Celsinho Silva (percussão), Dirceu Leite (flauta, picolo), Durval Pereira (percussão), João Lyra (arranjos, violão, viola), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho e produção musical), Magno Júlio (percussão), Marcus Tadeu (percussão), Maurício Carrilho (arranjos, violão sete cordas), Paulino Dias (percussão), Pedro Amorim (bandolim) e Zé Leal (percussão).

Ao final de um processo de aprendizado, amadurecimento, risos, lágrimas e muita emoção, o próprio Paulo César Pinheiro definiu a ordem das músicas no disco e, acima de qualquer suspeita, escreveu sua apresentação: “acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou”, para ficarmos com apenas um trecho.

Embalada pelo capricho do design de Raquel Noronha, a bolachinha é ilustrada por fotos de Márcio Vasconcelos, que captam Alexandra Nicolas, risonha e faceira, no sobrado em que nasceu o dramaturgo maranhense Arthur Azevedo, em 1855, uma segunda coincidência literária – a primeira é que Paulo César Pinheiro, apesar de nunca ter estado em São Luís do Maranhão, conhece-a bem a partir da obra de Josué Montello, e escreveu uma música que leva o nome da capital maranhense, faixa que fecha o disco.

Alexandra Nicolas sonha: “Eu quero fazer o Brasil cantar”. Nada na vida dela acontece por acaso.

FAIXA A FAIXAMárcio Vasconcelos. Festejos. Capa. Reprodução

1. Mironga (Paulo César Pinheiro): “É uma música que abrange todas elas [as mulheres], uma espécie de resumo
do disco. São os homens tocando tambor para as mulheres dançarem e festejarem. É uma música completamente
masculina, mas eu consigo ver a mulher nela, as mulheres que dançam ao som do tambor. Ele descreve, na verdade, a maneira de tocar, como se aprende a tocar um tambor. No final ele diz que tem mironga aí, ou seja, tem algo muito especial na maneira de tocar. “Tem quem bate e faz zoeira/ tem quem toca como quê/ quem comprou tambor na feira/ esse não sabe bater./ Foi no couro e na madeira/ que me disse um alabê/ tocador de capoeira/ não é de maculelê”. Então ele começa a fazer uma série de pontuações no ato de tocar tambor e as mulheres, como ele diz no texto que me apresenta, estão mirongando ao som do tambor. Mironga é uma festa!”

2. Balacoxê de Iaiá (Paulo César Pinheiro): “Na hora em que eu li o título eu fiquei imaginando um bumbum enorme de Iaiá. Na verdade, Balacoxê veio por essa sensualidade, de cortar cana, da mulher, e eu fiquei fascinada, por que a maneira como Paulo cantou essa canção, o que eu ouvi, é como se estivesse na fala dele, essa mulher, Iaiá, que corta cana, que “bota a roda pra rodar/ eu só vejo esse desenho na cintura de Iaiá”. Foi uma canção em que eu me vi. Me perguntei, meu Deus, será que eu vou cantá-la eu vendo Iaiá ou eu sendo Iaiá? Eu acho que de todas que eu cantei, eu era a Iaiá. Tava em mim, passava por mim, essa história de “como eu vejo, com o punho nas cadeiras/ Iaiá fazer”. Essa descrição pra mim, essa mulher, essa Iaiá, ela é incrível”.

3. Passista (Paulo César Pinheiro): “Foi o primeiro refrão que me chamou muito a atenção: “seu povo já foi do cativeiro/ mas hoje que o samba é uma nobreza/ é ela que reina no terreiro/ do samba outra vez virou princesa”. Achei muito forte ele ter trazido como o povo dela sofreu e como hoje ela é uma rainha, comanda o samba na escola. Isso me fascinou, saber que tem muita gente que vai pra vê-la. O samba trouxe essa majestade pra ela”.

4. Coqueiro novo (Paulo César Pinheiro): “Foi a praia daqui. Uma homenagem à minha praia, à praia em que eu cresci, em que eu brinquei na areia e, lógico, às morenas do Cabedelo, na Paraíba, às quais ele se refere, que fazem acessórios com a palha do coqueiro, vivem disso. São mulheres sofridas, mas quando escuto, eu me vejo na praia, sombra, vento nos cabelos e água fresca. Uma valorização do trabalho dessas mulheres, transformando a palha em objetos, bolsas, cintos, acessórios femininos”.

5. Presente de Iemanjá (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Quando Luciana me mostrou ela falou de uma pessoa que tinha que dirigir os arranjos do disco, chamada João Lyra [que assina parte dos arranjos, violões e viola do disco]. A primeira vez que o ouvi cantando, fiquei fascinada por ele, com a alegria que ele põe na canção. E eu ouvi Presente de Iemanjá com ele cantando e me remete à fartura. Quando fala de “jogar a rede pro céu/ e a rede cai no mar/ o que cai na rede é peixe/ é presente de Iemanjá”, isso me vem como abundância, as mulheres tendo o que comer, os homens saem para pescar e trazem o pão de cada dia, o peixe para fazer o almoço. Eu me vejo numa vila de pescadores. Ele trouxe um arranjo fantástico com Toré de índio pra canção, ficou muito forte. Tem o canto pra sereia, por trás de tudo isso, que é muito marcante. Eu não cantei orixás no disco, mas cantei pra Iemanjá, que pra mim sempre foi uma mulher encantadora, embora eu de início não soubesse bem o que era um orixá. Eu sabia que ela vivia no mar e eu sempre lembro da Iemanjá da Ponta D’Areia toda vez que eu canto”.

6. Lavadeira (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Paulinho me mostrou essa canção, eu já fascinada pelas mulheres, e ele não me contou que ia me mostrar. Eu tava na cozinha da casa dele, comendo, e ele colocando músicas, que ele adora. Quando eu ouvi isso na cozinha eu saí correndo pra sala, “Paulinho, o que é isso?”, e ele já com o sorrisão aberto, por que sabia que eu ia me interessar pela música. Pedi pra ele botar de novo, ele botou. Eu ouvi na voz da Andréia, que é uma cantora que gravou a música. A Luciana perguntou, “mas Alexandra vai gravar? Já gravaram!” E ele disse “não importa. A Andréia sumiu. É ela [Alexandra] quem vai fazer essa música aparecer”. É a canção mais cinematográfica do disco, descreve tudo o que uma lavadeira faz. É de uma sensualidade, de uma sensibilidade tão profunda. A lavadeira passa a ser uma deusa em vez de uma simples lavadeira. Luciana faz um cavaquinho que dói na alma, Mauricio Carrilho fez o arranjo perfeito e ainda criou um canto para a lavadeira: “Lá lá lá ia lá ia/ Madalena foi lavar” e vai embora”.

7. Roda das sete saias (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro): “Eu ouvi cantada por Roque Ferreira, em uma das minhas viagens ao Rio, me apaixonei pela festa. Ela tem oito minutos, é um samba de roda fantástico. Fala das festas populares, tudo o que é cantado nas rodas das festas. Imagina um festejo acontecendo num terreiro, numa casa de festa… os grupos se formam a partir das afinidades: uma roda de samba aqui, uma caixeira tocando ali. Versos que surgem dessas afinidades da festa compondo um samba de roda com a música de Roque Ferreira, a letra de Paulo César Pinheiro e o arranjo de Maurício Carrilho. Eu costumo dizer que não sinto os oito minutos. Termino de cantar e pergunto: “vixe, já foi?” Ela foi uma música muito eleita aqui na minha terra. Fiz uma sessão com os compositores para ouvirmos o disco e muita gente gostou dela, por que ela é forte, ela lembra a gente, ela é muito Maranhão, é nossa…”

8. Coco da canoa (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Eu sou apaixonada por coco. Eu fui atrás de outro coco. Eu já tinha um coco no disco, acho um ritmo que mexe muito comigo. Quando eu era pequena, eu ia para a Rua Grande, e tinha uma cega que cantava um coco com um chocalhinho. Eu cresci com o coco muito presente na minha vida, mamãe sempre cantava em casa. Eu busquei mais um coco e como eu já tava encantada com o trabalho do João Lyra, com a alegria que ele emprega nas coisas, foi uma das canções que eu trouxe. Ela fala de um flerte na praia, de uma mulher faceira que não sabemos bem se é uma mulher ou uma sereia encantada. Gostei muito desse coco meio embolado, gostoso demais”.

9. Coco (Paulo César Pinheiro): “O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… e lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

10. Bisavó Madalena (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Foi outra pescaria. Paulinho já atrás dos seus tesouros guardados e ele tentava falar para mim como era a canção. Mas como não vou me apaixonar por uma música que fala da bisavó de Wilson das Neves? Que rodou o Brasil inteiro, que era dançarina de primeira e rodou o país dançando todos os ritmos e era boa de gogó, de samba, de bumba meu boi… quando ouvi fiquei encantada pela música. Wilson já gravou e eu não resisti, por que ela dá um resumo dessa matriarca que recebe esse festejo. E eu pretendo abrir o show com ela”.

11. Soberana (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Wilson das Neves novamente. Essa música eu me lembro de Paulinho, ele não só me mostrou, mas ele dançou, me mostrando como eu devia fazer no palco com minha saia. Foi a maneira mais poética, mais romântica, mais soberana que eu vi um homem falar de uma mulher. Eu acho que qualquer mulher no mundo dava qualquer coisa para ser essa mucama à qual ele se referiu. Ela “nunca foi mucama de qualquer laia”. É a música que mais mexe comigo no disco. É a minha música! Eu sou apaixonada… As pessoas perguntam “qual é a música de trabalho?” Eu só digo Soberana. Eu sei que existe essa mulher, até por que eu sei de muitas mulheres que são soberanas. Mas você chega a duvidar, de tão incrível que ela é, você se pergunta, “é tudo isso?”, por que sempre escapa algo, ela é incrível”.

12. Ava Canindé (Paulo César Pinheiro): “Foi um Divino Espírito Santo que foi trazido para mim. Luciana mandou propositalmente, pois sabia que eu fui imperatriz na infância [em festejos do Divino, em Pinheiro, pagando promessas de sua mãe]. Eu sempre falo que vejo as mulheres indo para as festas do divino, as caixeiras, as arrumadoras da bandeira, e ela fala da simplicidade e da organização dessa festa. O dia a dia, como as pessoas se vestem, como chegam, descreve a cidade, a igrejinha. E João Lyra trouxe o que há de mais surpresa no disco, o arranjo dessa música. Para quase todos os músicos ela é a mais forte. João não conhecia a batida do Divino Espírito Santo, e no entanto ele trouxe sopros, viola. Ficou muito linda, simples, nostálgica. Para eu conseguir cantá-la do jeito que eu cantei eu me imaginava com João e Paulinho, em um morro bem alto, olhando lá de cima para esta cidade e cantando”.

13. São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro): “A maneira como Paulo descreve o Maranhão, a impressão que a gente tem é a de que ele estava aqui, e de uma maneira também muito cinematográfica. Você consegue ver o boi de uma forma tão simples. Cantar minha terra foi uma honra, com a letra dele, então. E ele não conhece. Conhece através de Josué Montello e é capaz de conhecer até mais que eu, por que Paulinho quando vai em um assunto, ele vai fundo, vai além, muito além… Pra mim foi um presente, ele interferiu nesse arranjo, ele estava presente nessa gravação, acompanhou de perto [o saudoso parceiro João Nogueira era, até então, o último artista visitado por Paulo César Pinheiro em estúdio durante a gravação de um disco]. E nada como o nosso mestre Arlindo Carvalho para dirigir e dar esse toque de Boi de Pindaré. Ela fecha o disco, fecha com minha terra, fecha onde nasci, fecha com São Luís”.

Laborarte: raízes de um ideal

CESAR TEIXEIRA

1974: Josias Sobrinho e Cesar Teixeira faziam uma dupla de violeiros em encenação de “Marémemória”, espetáculo multimídia (antes de a palavra existir) baseado no livro-poema de José Chagas

Fundado oficialmente em 11 de outubro de 1972, o Laborarte completa 40 anos, mas a história da sua criação começa bem antes. A ideia original de formar um coletivo de arte integrada – reunindo teatro, música, dança, artes plásticas, fotografia etc – partiu do Movimento Antroponáutica (1969-1972), até então estruturado em cima da poesia.

Houve uma primeira convocação geral dos artistas de São Luís, em 1970, sem discriminação de tendências estéticas ou ideologia política. Foi um erro. A reunião ocorrida no prédio do Liceu, num domingo, acabou em verdadeiro tumulto, com os antroponautas subindo nas carteiras de uma sala de aula e discutindo entre si.

Uma nova convocação foi realizada em meados de 1972, tendo sido convidados grupos já constituídos e afinados com a proposta, entre eles o Teatro de Férias do Maranhão (TEFEMA), dirigido por Tácito Borralho, e o Grupo Chamató de Danças Populares, sob o comando de Regina Telles. Em uma reunião noturna nas escadarias da Biblioteca Pública (Praça Deodoro) foi decidida a programação cultural para lançar o movimento.

A manifestação seria realizada no auditório daquela biblioteca, cujas escadarias seriam ocupadas por uma exposição de artes plásticas. No auditório haveria performances com teatro, dança e música, culminando com o lançamento do livro Às mãos do dia, do poeta Raimundo Fontenele, que deveria fazer um ácido discurso-manifesto no final das apresentações.

Entre os convidados estaria o Secretário de Educação, Prof. Luiz Rego, que, conforme planejado, deveria ficar sentado num vaso sanitário. No coquetel, em vez de vinho ou guaraná, seriam oferecidos aos presentes penicos de leite e caranguejos vivos. Sem falar que em cada lance de escada que dava acesso ao auditório haveria um boneco de pano enforcado, ali representando o próprio artista marginalizado por um governo conservador.

Nada disso aconteceu, pois a Polícia Federal soube da mirabolante programação e mandou vários agentes para o local.

Houve exposição, teatro, dança e apresentação musical com a participação de Chico Maranhão e Sérgio Habibe, além do lançamento do livro. Mas o discurso ficou preso na garganta do poeta, que teve de prestar depoimento à PF, sendo liberado após intervenção da escritora Arlete Nogueira, então diretora do Departamento de Cultura do Estado.

Contudo, o movimento foi em frente, tendo sido escolhido o nome Laborarte (Laboratório de Expressões Artísticas) quando o grupo já estava instalado no prédio da Rua Jansen Müller, 42, contando ainda com a participação de alguns atores do Grupo Armação, criado por Borralho quando era seminarista em Recife.

A proposta de uma linguagem artística integrada, com identidade própria e respeitando as raízes culturais, portanto, já existia antes e se consolidaria na convergência para o Laborarte, instituído em 11 de outubro de 1972, uma quarta-feira, ocasião em que foi lançado o folheto de poesia mimeografado Os ossos do hospício, de minha autoria.

Naquele lugar se deu uma verdadeira alquimia que ajudou a quebrar alguns tabus e influenciar positivamente as artes no Maranhão. Não só a música ali produzida, mas sobretudo o teatro, apoiado nos estudos de Grotowsky, Artaud, Suassuna, Boal, Stanislavsky e Brecht. Sem esquecer de rezar nas cartilhas de Eduardo Garrido, Bibi Geraldino e Cecílio Sá, teatrólogos de verve popular.

O trabalho do Laborarte rendeu o prêmio de Melhor Plasticidade no Festival Nacional de Teatro Jovem, em Niterói (1972), com Espectrofúria, e o Troféu MEC/ Mambembe, no Rio de Janeiro (1978), com O cavaleiro do destino. Enfim, a entidade fez o dever de casa, e o que começou numa sala de aula vazia acabou virando uma escola.

Infelizmente, não posso relatar mais detalhes da história, porque fui expulso do Laborarte no início de 1975 e não vi de perto o que aconteceria depois. Mesmo assim, ainda contribuí indiretamente escrevendo o Testamento de Judas, impresso em forma de cordel (antes era mimeografado), entre 1990 e 2005, o que provocaria a fúria de muitos “herdeiros”.

[Viajando a trabalho, não cheguei a ir ao Laborarte dia 11, quando estavam previstas diversas atividades pelos festejos de suas quatro décadas; deixo com os poucos mas fieis leitores a memória e a pena afiadas de um de seus fundadores]

Tio coruja filma sobrinha linda bailarina

Maria Clara é apaixonada por Pagu. À noite, antes de dormir, inclui tanto ela quanto Lili (irmã de Pagu) e os filhotes em suas orações de guria com dois anos e pouco. E às vezes vai lá em casa só para visitar nossa gata, por quem costumeiramente pergunta. Na mais recente visita catei a máquina fotográfica e, além de vários retratos, fiz o filminho aí embaixo, em que ela canta uma música que eu não conheço, lembrando alguns passinhos do balé que já ensaia antes mesmo de ir à escola.

É linda ou não é? Zico, apelido que a já vascaína Maria Clara ganhou quando a prima Manuela chamou-lhe de “bebezico” (algo como bebezinho na língua desses seres miúdos), é uma das crianças do elenco de Se7e, 8ito, “espetáculo de ballet com bailarinas do projeto Dança Criança e o ballet jovem Olinda Saul dias 20 e 21, às 19h, no Teatro Arthur Azevedo. Direção: Olinda Saul. Produção: Associação dos Amigos do Projeto Dança Criança. Ingressos: R$ 30,00 (plateia e frisa), R$ 20,00 (camarote e balcão) e R$ 10,00 (galeria)”, de acordo com a nota da página 2 do Caderno Alternativo do jornal O Estado do Maranhão.