Socialista insurgente

Fenômeno das redes sociais, referência de um jornalismo que se assume de esquerda, a jornalista Cynara Menezes, editora do blogue Socialista Morena, estará em São Luís terça-feira que vem (19) para um debate sobre “Mídia, poder e democracia”, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

O evento “Diálogos insurgentes” acontece na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), às 17h, gratuito e aberto ao público. Ela dividirá a mesa com Francisco Gonçalves, titular da Sedihpop, professor doutor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, produtor e apresentador do dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Formada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cynara já passou por grandes redações, como Folha e O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É/Senhor, Vip e CartaCapital. Atualmente é colunista da revista Caros Amigos, onde assina o Boteco Bolivariano.

Zen Socialismo. Capa. Reprodução
Zen Socialismo. Capa. Reprodução

Inaugurou o Socialista Morena em 2012, assumidamente esquerdista. Em sua casa na internet, prega um socialismo à brasileira, mestiço, moreno, como defendiam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem ela homenageia em seu espaço, o primeiro veículo de comunicação brasileiro a ter uma editoria de “maconha” – ousadia imperdoável para os reacionários que não perdem tempo em agredi-la por… pensar.

No blogue, ao contrário da regra geral da internet – sim, há exceções –, busca escrever textos que sobrevivam à pressa e instantaneidade típicas da rede. Ano passado reuniu os melhores em Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena) [Geração Editorial, 2015, 240 p.; leia o primeiro capítulo], que ela autografará após o debate.

Por e-mail, Cynara Menezes conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

A Socialista Morena Cynara Menezes. Foto: João Fontoura
Cynara Menezes, a Socialista Morena, em clique de João Fontoura

Você tem feito a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, com as devidas críticas a seus governos e aos de Lula. Na sua opinião, o PT é vítima de uma armadilha que criou para si, ao não democratizar a comunicação e as verbas de publicidade governamental?
Acho que o PT cometeu um erro de estratégia ao repetir a aliança com o PMDB em 2014. Não lhe acrescentou nada, pelo contrário. Estaria muito melhor hoje se Dilma tivesse sido eleita numa chapa puro sangue. Quanto à democratização da mídia, ainda que ela não tivesse se concretizado, seria possível ao partido (não ao governo) investir em mídias próprias, em vez de gastar tanto dinheiro em marketing político durante a campanha eleitoral. Para mim, a existência da internet é, em si, uma democratização da mídia. O PT e as esquerdas em geral poderiam ter avançado mais nos últimos anos em busca de meios de comunicação próprios.

O Socialista Morena é, hoje, um fenômeno nas redes sociais, algo raro para um site assumidamente de esquerda. Sua iniciativa é sustentada por seu público leitor. A que você credita essa preferência?
Acho que toquei num ponto que muitos órgãos da grande mídia parecem não perceber: a carência do leitor por textos bacanas, curiosos, sobre fatos atuais ou históricos. Invisto no meu blog em posts atemporais justamente por isso; os posts noticiosos acabam ficando “datados” rapidamente, de certa forma repetem o impresso, que no dia seguinte já estará embrulhando o peixe. Também me situei num nicho existente: a demanda por leituras de esquerda, que os jornalões não contemplam de forma alguma. Pode-se dizer que ninguém de esquerda hoje se sente representado pela mídia hegemônica. E somos metade da população, pelo menos.

O blogue surgiu em paralelo à sua atividade na imprensa, como repórter de CartaCapital. O hobby virou um compromisso mais sério? Você é adepta do pensamento de que “quem trabalha com o que gosta vive eternamente de férias”?
Nunca foi hobby, sempre foi um plano B para mim. Quando comecei o blog, já tinha em mente que estava iniciando meu veículo de comunicação. Quem trabalha com o que gosta é mais feliz, sem dúvida. Eu trabalho pacas, jamais podia dizer que estou eternamente de férias.

A transparência entre quem escreve e quem lê deveria ser um pressuposto da prática jornalística, não é? Raramente se vê um veículo ou profissional assumir de forma explícita posição político-ideológica, escondendo-se sob o falso manto da imparcialidade. O cenário está mudando?
Sim, depende do veículo. Alguns jornais e revistas proíbem que seus jornalistas se posicionem politicamente nas redes sociais, caso da Folha. Mas vejo, por exemplo, que os profissionais do jornal O Globo são mais liberados para falar o que pensam, assim como os repórteres dos canais esportivos, mesmo os da Globo. Recentemente vi também jornalistas da TV Globo e GloboNews assumirem posturas ideológicas, tanto mais progressistas quanto mais à direita. Acho isso bom, fica mais transparente.

De uns tempos para cá, muita gente tem migrado de veículos para profissionais, isto é, deixado de acompanhar jornal A ou B para acompanhar jornalista X ou Y. A seu ver, quais as vantagens e desvantagens deste modelo?
A vantagem é que os jornalistas se firmam sem a necessidade de estar vinculados a grandes veículos. Para o leitor, facilita na orientação do que ler: quando você confia em alguém como guia de leitura, evita perder tempo com conteúdos desinteressantes ou com os quais a pessoa não se identifica. A desvantagem é que ainda somos poucos, isso reduz o espectro da informação. Quando formos muitos informadores autônomos, haverá um leque mais amplo de escolha para o leitor.

Quais as suas melhores e piores lembranças de seus tempos de grande mídia?
Trabalhei muito bem na Folha de S. Paulo, tive grandes oportunidades lá. Pude entrevistar alguns dos escritores mais importantes do país e fiz muitas matérias divertidas. O chato para mim na Folha era o veto ao pensamento político próprio. Isso, depois de certa idade, se torna insuportável. Minha pior lembrança é, sem dúvida, minha passagem de oito meses pela revista Veja, uma escola de como não fazer bom jornalismo.

Seu claro posicionamento ideológico tem um preço: ataques, grosserias e toda sorte de péssimos comportamentos de quem não consegue tolerar sua postura. A veiculação de mentiras sobre sua pessoa é uma constante. De vez em quando você anuncia processos na justiça contra a perpetuação dessa prática. É possível fazer um balanço das causas? Dá para comprovar, como parte, a lentidão e seletividade da justiça brasileira?
É muito difícil penalizar alguém. O máximo que a gente consegue é dar um tranco, enviando interpelações judiciais a caluniadores. No caso do senador Ronaldo Caiado, pedi direito de resposta em seu twitter por ter me caluniado. A ação está correndo na Justiça.

Uma trincheira de sua luta é a defesa de um modelo alternativo de socialismo, mais à brasileira, mestiço, moreno, evocando figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem o nome de seu blogue homenageia. Mais que possível, é um socialismo necessário?
Eu vejo a existência do socialismo como uma condição sine qua non para o equilíbrio do planeta. Imaginem se no mundo só houvesse capitalistas! Acho que as teorias em torno do socialismo estão mudando. Não sou nenhuma teórica, mas percebo que talvez o socialismo não seja, como se pensava, um modelo de sociedade, e sim um sistema de governo. Talvez sejam possíveis governos socialistas e não uma sociedade socialista.

Você visita o Maranhão governado por Flávio Dino, primeiro governador eleito pelo PCdoB na história do Brasil, após décadas de dominação da oligarquia Sarney. É possível, à distância, fazer uma avaliação do mandato do comunista?
Não me chegam muitas informações, mas o que conheço, gosto. Sobretudo por ele ter sido capaz de desmontar a oligarquia Sarney. Acompanhei recentemente a abertura de concurso para professores com salário inicial de 5 mil reais na rede estadual. Valorizar os professores é sempre um bom sinal. Darcy Ribeiro aprovaria.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff lembra, guardadas as devidas proporções, a cassação do governador maranhense Jackson Lago, em abril de 2009, através de um golpe judiciário. Após pouco mais de dois anos de governo, o pedetista tinha certo desgaste com alguns setores e contou com pouco apoio popular. Que conselhos você daria a Flávio Dino para um mandato realmente popular, democrático e progressista?
Governar com a participação dos movimentos sociais. Dilma se afastou deles nos dois mandatos, foi um de seus principais equívocos. Saber ouvir as pessoas, principalmente os jovens, que estão muito interessados em participar das gestões e das decisões. Acho que toda secretaria deveria ter um conselho de jovens. Temos que ouvir os jovens, eles estão na rua o dia todo, estão na escola, na universidade, têm contato com a insegurança, com a polícia. Um governo de esquerda também tem que ser criativo, buscar sempre novas soluções para os problemas, e deve estar atento para a mobilidade urbana, uma questão fundamental do século 21.

A menina vinda do interior da Bahia que venceu na vida: passou por grandes redações, morou na Espanha e hoje tem um dos blogues mais respeitados do país. Num tempo em que o jornalismo parece se esfarelar em sua mesquinhez movida por interesses outros que não a notícia e a verdade em si, o que você diria a jovens estudantes que serão jornalistas num futuro breve?
Que procurem investir em sua formação intelectual. Aprender idiomas, ler boa literatura, bons ensaios e bons conteúdos na rede. Fuçar, não perder a curiosidade, sempre. Procurar conhecer os mestres também é importante. Tudo isso vai ajudá-los a se tornarem profissionais diferenciados no meio. Gente despreparada não terá lugar no jornalismo, ou fará mais do mesmo.

A cultura brasileira em debate e a liberdade de expressão

(OU: METENDO O BEDELHO ONDE NÃO FUI CHAMADO)

Enxerido que sou, não poderia deixar de meter minha colher nesse angu. O debate iniciado por Mino Carta em sua CartaCapital e Cynara Menezes em seu Socialista Morena. Sobre a cultura brasileira. O primeiro, sob o título A imbecilização do Brasil, falando em “deserto cultural”, a segunda apontando frutos prontos a serem colhidos, sob o título Em que tipo de arte você acredita? Ou: a imbecilização da elite. Fico com a segunda, fosse apenas para tomar partido.

O problema de todo saudosista, nostálgico, passadista ou coisa que o valha – como parece ser o caso de Mino – é achar que tudo só era bom no seu tempo. E aí os olhos fecham-se para o que de bom lhes passa bem debaixo do nariz. Quem acha que bom era no tempo de Bethânia, Caetano, Chico, Edu Lobo, Gal, Gil, Milton etc., todos gênios, cada qual a seu modo, jamais perceberá o talento de nomes como Bruno Batista, Junio Barreto, Karina Buhr, Kléber Albuquerque, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, Siba, Tulipa Ruiz etc., e é proposital que a segunda lista tenha mais nomes que a primeira. Isso para ficarmos apenas na música. Era bom naquele tempo? Sem dúvidas! É bom agora? Também!

Cynara pontua bem a apropriação pelas elites de gêneros hoje populares(cos) – e na grande maioria das vezes de péssima qualidade – e a imposição das mesmas ao povo pela via midiática. Mostra-se otimista em relação a tevê, coisa que não sou tanto: temos tevê pública, temos tevê paga – embora nem todo mundo possa pagar ou fazer gambiarra – e mudar de canal é muito fácil. Eu diria que nem tanto: conheço gente que passou a vida inteira se contentando com as novelas da Globo e as “verdades” do Jornal Nacional e, hoje, com 200 canais pagos, num combo que inclui ainda a internet, continua vendo também o Faustão aos domingos.

Muita coisa mudou no Brasil dos últimos 10 anos. Falo de inclusão social e econômica. De as pessoas poderem escolher queijos e iogurtes e não apenas contentar-se ao pão com manteiga – quando havia – e café preto. Produzir música nunca foi tão fácil e barato. As coisas, porém, não são automáticas e a ofensiva midiática é pesada, violenta. Muita porcaria ainda é lida, vista, ouvida no Brasil. Mas daí a negar que existam talentos e esperança é pessimismo demais para meu gosto.

Lembro-me de um colega de turma, devíamos ter uns 14, 15 anos, que dizia, na escola, não curtir Cartola e Chico Maranhão, nomes que eu então já admirava. Depois de algum tempo ele me aparece com um cd do primeiro, o que invejei, já que eu mesmo não tinha um. Ele me confessou não admitir admirar o compositor em público pois tinha vergonha de ser ou parecer estranho. Talvez isso aconteça ainda hoje ao menos com uma pequena parcela de carinhas que inviabilizam, do ponto de vista de sua finalidade original, o porta-malas do carro, com caixas de som que vão tocar em sabem Deus e a polícia quantos decibéis, músicas que desvalorizam a figura feminina, este apenas um exemplo dentre os temas preferidos dos compositores do forró de plástico, para ficarmos em um gênero musical que não aprecio – e poderia me fazer pessimista.

A discussão é complexa, até por que passa também por aquilo a que chamamos “questão de gosto”: cada um tem o seu e há os que acham que isso não se discute.

Algumas coisas, no conjunto, merecem aplausos. Capas, em geral, em jornais ou revistas, são dedicadas a notícias ruins, tragédias e coisas do tipo. A CartaCapital desta semana botou a cultura na capa, sem a pretensão de um consenso nos vários textos do “dossiê”. Se Mino parece pessimista, Alfredo Bosi, um dos entrevistados da edição, é otimista. Digo parece por que ele fundou a Veja e a IstoÉ e ao ver as crias tornarem-se outras coisas não cruzou os braços, fundando a CartaCapital (de que sou assinante, única semanal que leio com regularidade), este senhor será um eterno otimista.

Cynara Menezes cobriu outra pauta para a edição, mas deu seu pitaco em seu blogue: a discussão é saudável e abre portas para outras. Os poucos mas fieis leitores deste blogue imaginam profissionais (ou como queiram chamar: jornalistas, empregados etc.) da Folha, da Veja, da Globo, “respondendo” ao patrão em público? Se imaginam são casos raríssimos e em geral o “rebelde” é demitido em sequência – às vezes nem precisa a reação ser em público, basta ser numa reunião.

Incluindo a blogosfera suja, há quem não possa ouvir falar em “conselho de comunicação” e coisas do tipo que se treme todo e começa a falar besteiras como “a volta da censura” e/ou “a volta da ditadura” – que defendem quando lhes convêm. Um bom exemplo de liberdade de expressão é o saudável debate que me instigou a este texto. E que me faz admirar ainda mais seus protagonistas.

O dia em que o homem de vícios antigos encontrou a socialista morena

Eu poderia dizer que Cynara Menezes é uma das melhores jornalistas que descobri nos últimos tempos, mas isso diminuiria o que quero dizer. Até mesmo por que sua descoberta, enquanto jornalista, não é recente. Talvez dizer que ela é uma das mais admiráveis pessoas que conheci nos últimos tempos traduza.

Ela ocupa com talento as páginas da semanal CartaCapital e tem um blogue bonito, inteligente e de esquerda. Que nem ela. Leio-a em ambos, com gosto.

Quem a conhece pessoalmente ou ao menos acompanha seu trabalho sabe que quaisquer elogios serão merecidos. Mas hesitei bastante em escrever sobre nosso encontro em minha mais recente ida à Brasília: temia fazer mero texto de fã que encontra ídolo – o que não deixa, em parte, de ser; o que não deixo, em parte, de fazer.

“Coleciono amigos, essa é a minha natureza”, já li, ou algo parecido, nalgum texto seu no Socialista Morena, o blogue bonito, inteligente e de esquerda, a cara da dona, que ela mantém. Nossas naturezas se parecem e, em minha mais recente passagem pela capital federal, dividimos alguns chopps e quibes no Beirute, “o bar mais antigo de Brasília”, como ela me apresentou o espaço que tem no cardápio texto de Leandro Fortes, seu colega de redação na revista de Mino Carta e de faculdade, na Universidade Federal da Bahia.

Conversamos um bocado entre o fim de minhas atividades de trabalho e a hora do voo de volta à Ilha – que Cynara conhece, gosta e onde quer voltar –, enquanto Tito, seu filho figuraça, de quatro aninhos, se divertia entre jogos no celular da mãe, o parquinho que o bar tem, mel e amendoim vendidos por ambulantes.

Catei na mochila uns presentinhos que levei à nova amiga, com quem já tinha trocado alguns tuites. Entre eles, dois pratinhos de doce de espécie, iguaria típica de Alcântara – quando de sua passagem por São Luís chegou a ir até lá, confessando o medo da travessia de lancha –, à base de coco. Espero ter contribuído para deixar seu “esquerdismo way of life” ainda mais doce.

Servidos? A socialista morena experimenta a delícia alcantarense
Servidos? A socialista morena experimenta a delícia alcantarense

Subiu Oscar Niemeyer, artista e comunista

O jovem Niemeyer e a maquete da catedral de Brasília

Oscar Niemeyer (1907-2012) era comunista. Morreu sendo, convicto como um José Saramago, idem. Niemeyer era comunista em gestos como comprar uma casa – ou era um apartamento? – para o também comunista Luis Carlos Prestes. Ou ao projetar a casa de seu motorista, cravada nalguma favela carioca. Ou ainda ao dizer que dinheiro só servia para duas coisas: gastar e emprestar aos amigos e não cobrar.

Não sei se a grande mídia fica feliz ou triste com a morte de Niemeyer. A big old media poderia ter certo prazer pela morte de um comunista, num tempo em que isso está tão fora de moda – ou desvirtuado, para dizer o mínimo, embora não fosse este o caso de Niemeyer, um comunista autêntico e absoluto. O partido da imprensa golpista poderia, por outro lado, entristecer-se pela morte de um gênio, que há coisas que ninguém pode negar.

Não lembro a primeira vez que ouvi falar ou vi uma obra do arquiteto. Mas não canso de elogiá-lo como gênio por sua arte: a arquitetura que nos legou Brasília, a capital federal inaugurada por Juscelino Kubitschek em que, a cada vez que passo por lá, não canso de me sentir dentro de uma imensa obra de arte a céu aberto, com os versos de Caetano e Djavan ecoando na cabeça, o “céu de Brasília/ traço do arquiteto”, certamente o céu mais bonito que já vi, coisa de deuses, – que pouco importa que digam que comunistas são ou devem ser ateus – Niemeyer e o que ele foi encontrar agora.

São Luís tem uma obra de Niemeyer, a Praça Maria Aragão em que sempre dá prazer e orgulho pisar. Pelo pássaro arquitetado pelo gênio, pela visão linda que se tem 360 graus, pela homenagem à companheira de comunismo, a médica e militante maranhense. Não tivesse sido Jackson Lago apeado do Palácio dos Leões, capaz de à praça já ter sido anexado o Museu de Arte Contemporânea, cujo projeto foi a Niemeyer encomendado pelo então governador.

Início dos anos 2000 lembro-me de ter usado em um antigo computador de trabalho – época em que eu sequer tinha um em casa – uma proteção de tela, baixada no site da revista Trip. Era uma animação com rabiscos alçados ao status de grande arte que deixavam-nos pensando nas mais básicas ideias da concepção de Brasília, como se o arquiteto estivesse ali, invisível, desenhando para nós.

Dava até vontade de evitar as possíveis lesões por esforço repetitivo e, de hora em hora, parar um pouco o trabalho, só para ficar revendo seus desenhos, que ele, agora invisível, já não fará mais por aqui.

Uma coisa é certa: se Deus deixá-lo trabalhar, o céu estará ainda mais bonito quando a gente chegar por lá.

Kate Moss: "Esse é seu escritório? Você ainda trabalha?" Oscar Niemeyer: "Todos os dias!" (Vogue Brasil, maio de 2011)
Kate Moss: “Esse é seu escritório? Você ainda trabalha?” Oscar Niemeyer: “Todos os dias!” (Vogue Brasil, maio de 2011)

As fotos que ilustram este post, roubei-as, aquela, do blogue da Cynara Menezes, a Socialista Morena, e esta, do Facebook da jornalistamiga Gilda Lamita, agradecendo e abraçando a ambas.