Chorografia do Maranhão: Giovani Cavalcanti

Membro de diversos conjuntos no auge da era dos bailes, o violonista é o 43º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Giovani Alves de Cavalcanti chegou antes da hora marcada para prestar seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 43º. da série. Ele foi entrevistado por Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro e fotografado por Rivanio Almeida Santos na quitanda de Seu João, na esquina das ruas da Viração e do Machado, próximo à avenida Beira-Mar, no Centro de São Luís.

Filho do psiquiatra Odilon Rezende Cavalcanti e de Eli de Assis Cavalcanti, doméstica com dotes artísticos, o violonista nasceu na rua São José, no bairro do João Paulo, em 4 de setembro de 1950. “Minha mãe esculpia, fazia pintura, chegou a escrever para jornal, alguns artigos, crítica contra a administração pública, tipo Caema, Cemar. O título era Canivetadas e ela assinava lá embaixo O Canivete. Fazia artigos em linguagem sertaneja e em rimas com o mesmo objetivo, sempre de malhar o sistema, as deficiências administrativas do Estado. E também compôs algumas músicas”, conta.

Ele estudou na escola técnica desde o ginásio industrial e cursou Química. Aposentou-se como técnico sênior em eletrônica na Telecomunicações do Maranhão S.A (Telma). Suas primeiras memórias musicais remontam a discos de gêneros os mais diversos, ouvidos pela mãe, e a um cavaquinho de plástico onde começou a dar as primeiras dedilhadas.

Na conversa com a chororreportagem Giovani lembra o convívio com figuras fundamentais para o choro no Maranhão, como Zé Hemetério e Nuna Gomes, além de várias histórias do auge das bandas de baile, ele que integrou algumas, além de grupos de samba.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Além de músico qual a sua outra profissão? Eu fui um técnico em telecomunicações. Entrei na Telma no setor administrativo em 1975, trabalhei cinco anos lá, depois descobriram que eu tinha aptidões técnicas. Passei num concurso para a Embratel e a empresa para não me perder para a Embratel decidiu me reaproveitar no setor técnico. Mas eu tinha que cumprir algumas exigências da empresa, fazer cursos de eletricidade, eletrônica, embora eu já soubesse, mas eu tinha que me sujeitar às condições da empresa. Passei para auxilitar técnico e terminei minha carreira, já com a privatização da empresa, como técnico sênior em eletrônica, que é nível superior.

Hoje você está aposentado? Aposentado.

Observa-se uma paixão muito grande em tua vida que é o radioamador. Fale um pouco dessa paixão. O radioamador é interessante. Eu não sabia nada sobre radioamadorismo. Ainda trabalhando no setor administrativo, fiz amizade com o gerente da área técnica, o Pontes. Um dia peguei uma carona com ele e ele tinha um radiozinho lá, um aparato de comunicação. E no teto uma antenazinha, aquela coisa toda. A gente chegou perto da cabeceira da ponte do São Francisco e ele perguntou: “tu tá ouvindo esse cara aqui? Esse cara tá falando de Copacabana”. Aí ele começou a se comunicar com esse cara em Copacabana. Eu fiquei impressionado, como é que um rádio, um pouco maior que uma carteira de cigarros, conseguia se comunicar diretamente com a pessoa lá no Rio. E ele disse que não era só o Rio, mas qualquer cidade distante de São Luís aproximadamente 2.000 quilômetros. Foi aí que eu passei a me interessar, comprei equipamento, tirei minha licença na Anatel e entrei na chamada Faixa do Cidadão. Anos depois, já agora na era 2000, foi que eu realmente ingressei na Labre, a Liga Brasileira de Rádio emissão, e aí tive que me submeter a prova, inclusive de telegrafia. A telegrafia é mais ou menos igual a música, eu estudei sozinho. A música, como a telegrafia, antigamente era uma caixa preta, quem sabia não ensinava. Mas eu já falei com diversos países do mundo todo, muitas cidades do Brasil. O que está acima de 2.000 quilômetros.

Você também gosta muito de rádio AM. Eu gosto, eu sou coruja. Eu tenho vários rádios de ondas curtas. Foi um vício que eu adquiri de infância. Na minha casa tinha aqueles rádios a válvula da Philips, de noite eu não tinha para onde sair, a criação era bem diferente de hoje, você custava a sair, acima de 15, 18 anos é que você ia para festas. Hoje não, moleque de 12 anos já está por aí. Eu tinha que ficar em casa, inclusive aquelas expedições lunares, aquela corrida espacial dos Estados Unidos, tudo aquilo a gente ouvia pelo rádio. Então eu adquiri essa mania.

Como era o universo familiar, musical? O que te influenciou? Tua mãe tinha dotes artísticos. É o seguinte: minha mãe, o primeiro brinquedo que ela comprou, ela sempre gostava de comprar brinquedos musicais, flautinha doce, uma gaita. Teve uma época que ela comprou um cavaquinho da Troll, o slogan da Troll era “brinquedos de verdade”, e esse cavaquinho, mesmo sendo de brinquedo, de plástico, ele afinava. Você não afinava na altura, não tinha diapasão. Ela sabia afinar o cavaquinho e começou a me dar umas noções. Minha influência musical mesmo é que naquela época era muito eclética. Ela botava um disco de Luiz Gonzaga agora, daqui a pouco tirava e botava um Lenny Everson, Valdir Calmon, pra mim foi um dos maiores arranjadores de música popular no Brasil. Até hoje eu tenho na cabeça aqueles arranjos de Valdir Calmon, onde ele mistura samba e choro, fazendo aqueles pot-pourris, modulando, mudando de uma música para outra, muito bom o cara. A minha formação mais ou menos é essa, meu gosto.

Teus pais, então, eram colecionadores de discos, compradores de discos, ouviam muita música em casa. É, minha mãe ouvia muita música. Mamãe tinha Luiz Gonzaga e, por exemplo, disco da Banda Real Inglesa, Banda da Marinha dos Estados Unidos. Na época da semana da pátria só se ouviam hinos, aqueles dobrados militares. Música de natal, toda época ela tinha música. Mas mamãe gostava de música sertaneja, música clássica, Marinês e sua gente, Luiz Gonzaga, esse pessoal.

Quando ela presenteava vocês com esses brinquedos musicais, ela tinha pretensão de que vocês seguissem a carreira artística? Não, não. Era uma coisa informal, sem pretensão.

Mas ela te estimulou a participar de programas de calouros. Ah, sim. Nem todo mundo sabe, mas antigamente todas as rádios de São Luís tinham auditórios. Era obrigatório. E essas rádios tinham programas de auditório, ao vivo, pessoas na época muito faladas, tipo Lima Jr., da Rádio Difusora, que inventou O domingo é nosso. Todas as rádios, Ribamar, Timbira, Difusora, todas tinham auditórios. Nesses auditórios se apresentavam também os cantores que vinham de fora, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, e também os cantores da terra, tipo Orlandira Matos, Alcione, Escurinho do Samba. E até eu. [risos] por que não eu? Me inscreveram na Rádio Timbira, num programa mirim, só a garotada, era à tarde. Me botaram em cima de uma cadeira pra eu poder alcançar o microfone. A música que foi escolhida para mim foi O jarro de barro [O jarro da saudade, de Daniel Barbosa, Geraldo Blota e Mirabeau]: começa [cantarola] “Iaiá, cadê o jarro?/ o jarro que eu plantei…” Então, eu cresci, o nosso lazer antigamente em São Luís era cinema, dia de semana à noite, a tarde, os vesperais, e praia. Até praia era difícil. Pra ir pra Ponta d’Areia tinha que ir de canoa, Olho d’Água não tinha nem asfalto.

Como você entrou profissionalmente na música? Nós, todos os músicos da minha época, éramos amadores. Não tínhamos as oportunidades que a galera de hoje tem, como várias escolas de música, internet. Nós éramos músicos práticos, só tínhamos dom, talento. Eu comecei assim: depois que minha mãe me deu a noção de como obter determinadas notas na escala do cavaco, se mudou lá para a minha rua uma família de Rosário: seu Nuna Gomes [multi-instrumentista]. Um cidadão que sabia tudo de instrumento de cordas, também prático, um cara lá do campo, do interior. Ele era barbeiro. Geralmente todo barbeiro antigo tinha alguma coisa, ou para música ou para dama. A casa dele era daquelas casas que a janela fica na parede da rua, eu sempre via aquelas reuniões de músicos, sempre pintava lá Sinhozinho [João Pedro Borges, o Sinhô, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], se juntavam lá com os filhos dele, Denizal, que faleceu há pouco tempo, era um exímio violonista, se diferenciava, como Sinhô, que também estudou música. Eu ficava invocado, como era que o cara corria o dedo naquela escala, sabia onde parar. Um dia, seu Nuna, ele chamava todo mundo de capitão, podia ser uma criança de 10 anos. Ele me perguntou: “capitão, o senhor não gostaria de aprender a tocar violão?”. “Eu quero”. “Então o senhor vem pra cá, tem um método aí”. Eu estudava de manhã, de tarde eu ia pra lá.

Você tinha quantos anos? 15 anos, 14 e uns quebrados. Era a época da Jovem Guarda, aqueles conjuntos, Golden Boys, Os Vips. A gente reunia uma turma na escola, um ensinava uma nota pro outro, a gente pegava a mesma música e começava. Era assim, ninguém tinha escolaridade. Depois que eu peguei todas essas tonalidades de uma forma bem simplificada nesse método, que era um tal de Bandeirantes, o nome do método, eu passei a me arriscar a tentar ouvir uma música e tirar o acompanhamento. Eram coisas de Roberto Carlos. Um dia eu peguei uma revista e tinha uma nota que eu nunca tinha visto. Era um D com um ozinho pequenininho lá no expoente. Eu sabia que era um ré. Mas quando eu botava o ré não dava com a melodia ali naquele trecho. Eu comecei a levar para os colegas e era estranho para todo mundo. Alguém me disse, acho que até o Bastico [Gomes]: “só tem um cara que pode tirar essa tua dúvida: é Zé Hemetério [multi-instrumentista]”. Eu conhecia Zé Hemetério de passagem, passava sempre com o violino dele na mão, pendurado, para tocar nos bares, na noite. Eu fui lá, bati, nunca tinha tocado uma palavra com ele, a sede de aprender. Mostrei para ele, tem essa música de Roberto Carlos, é aquela música Esqueça [Forget him, de Mark Anthony, versão de Roberto Corte Real, cantarola:] “esqueça se ele não te ama”. Ele disse: “isso é ré com sétima diminuta”. E eu: “o que é isso?”. Ele foi lá dentro e voltou com um método dessa grossura [indica o tamanho com os dedos da mão], parecia uma bíblia. Era um Bandeirantes. Foi um método que foi elaborado por alguns músicos profissionais do Rio de Janeiro, que veio a facilitar o estudo da harmonia através da cifra. Era um método para piano, acordeom e violão no mesmo fascículo. Eu perguntei: “como é que eu consigo isso?”. E ele: “rapaz, isso não tem em São Luís, eu mandei buscar no Rio de Janeiro”. Passaram-se alguns meses, Bastico foi convidado para tocar no AC7 [conjunto musical], de Ataíde. Bastico foi tocar contrabaixo, como estava faltando guitarrista, Bastico me convidou. Eu nunca tinha pegado uma guitarra, só meu violãozinho ali de bossa nova. Mas eu fui, comecei a ensaiar com essa banda e comecei a tocar profissionalmente, de 1969.

Foi teu primeiro grupo? Meu primeiro grupo.

Se a gente fosse definir teus principais mestres, seriam Nuna e Zé Hemetério? O Zé Hemetério foi o cara que me deu essa dica, eu não sabia que existia acorde dissonante. Me despertou. O Nuna foi a pessoa que, depois, mais na frente, depois que eu toquei no AC7, depois a gente desfez o grupo, mudou pra Som Livre, eu fui tocar nOs Fantoches, como guitarrista, junto com Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Nós formamos um grupo justamente com os filhos de seu Nuna, são todos meus amigos, considero irmãos, Bastico, Biné e Zequinha [violonista, cavaquinista e saxofonista, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], mais alguns colegas de fora, Almir que era o cantor, Joaquim na bateria e por último entrou Pinheirinho, o Chico Pinheiro, arranjador, maestro. Eu não saía de lá da casa, os ensaios eram na casa de seu Nuna. Lá, enquanto a gente não estava ensaiando, ele pegava o bandolim dele, e começou a ensaiar comigo os choros dele, valsas, às vezes Bastico pegava o outro violão. Ele me ensinou a criar amizade, intimidade com o choro dele. Eu não tocava choros de outros compositores até então. Eu conhecia Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, mas não tocava. Eu me lembro que quando esse grupo ia tocar em Rosário, a gente se hospedava na casa deles em Rosário, ele costumava me acordar de manhã cedinho e dizia: “Capitão, vamos treinar o negócio do choro”. Nessa época, por incentivo de outro colega, Zé Nilson, foi professor de matemática, hoje é engenheiro, nós fizemos um grupo de choro. Chamava 20 Cordas no Choro, eu não sei de onde saiu essa história de 20 cordas, por que somando não dava. Era um grupo pra gente brincar, aí a gente começou, nesse grupo eu tocava cavaquinho, Biné era bandolinista e Bastico fazia o violão. E Marciano era o pandeirista e Celso, já falecido, fazia marcação. Chegamos a nos apresentar algumas vezes no programa de Moreira Serra na Rádio Ribamar, fizemos algumas brincadeiras em casas de pessoas, Zé Maria do Amaral, que tinha um cursinho, às vezes aniversários, coisas de família. Meses depois eu saí da banda, do Curtisom, o nome da banda lá da família era Curtisom. Saí e voltei para tocar com Ataíde já no Som Livre.

A gente pode dizer que sua paixão pelo choro começa com essa amizade com seu Nuna? É. Ele e a família dele. Depois, na Cohab, no bar do Eustáquio, era uma verdadeira tribuna artística, eu conheci uma figura extraordinária, músico de muito talento chamado Careca. Tocava bandolim muito bem. Nos encontrávamos quase que todos os finais de semana nesse bar, e sempre estávamos juntos com Agnaldo. Eu no seis cordas, Agnaldo no sete e Careca na bandola [bandolim]. O Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinista], quando chegava aqui, mandava logo buscar o Careca. Então como o seu Nuna, o Careca me exercitou muito no choro. Isso tudo em meados dos anos 1970 até meados dos anos 80. Foi a época que mais toquei chorinhos com essa galera.

Tua família sempre te estimulou? Ou quando você decidiu seguir pela música houve uma resistência? Não. Minha mãe não me proibiu, a gente sempre soube que o ambiente musical profissional sempre rolou álcool e às vezes outras coisas, mas minha mãe sempre confiou em mim. O único entorpecente que eu já digeri foi álcool.

Você vive ou já viveu de música algum tempo? Pra viver nunca deu. Sempre foi um paralelo. Eu nunca comprei nada com dinheiro de música, de valor relevante. Eu tinha meu emprego, paralelo a isso, na noite, uns cachezinhos, pra comprar uma bobagem ali, um negócio. Às vezes você levava um mês para fazer uma festa. O conjunto de ponta que eu toquei aqui foi o Som Livre, depois o Curtisom, tinham agendas mais cheias. Interessante que nessa minha caminhada de músico profissional de banda, eu tive a satisfação de ser obrigado, contratualmente falando, a acompanhar grandes figuras da música popular brasileira.

Quem, por exemplo? Waldick Soriano, no Cine Monte Castelo, ainda na época do AC7, isso tudo sem ensaio, era aquela coisa “empurra o cara, se ele morrer afogado é problema dele” [risos], Luiz Gonzaga, o Gonzagão, fiz um show com ele aqui no Hotel São Francisco, Elizeth Cardoso no Casino Maranhense. E outros cantores, tipo Emílio Santiago, Alcione, recentemente eu fiz vários shows com Marquinhos Satã, Mário Sérgio, ali no Porto da Gabi, com Bola Sete, do Rio de Janeiro.

De que outros grupos você já participou? Aí é dividido em duas partes. Tem as bandas, começou com o AC7, depois Curtisom, Os Fantoches e Som Livre. Depois que eu saí do Som Livre vem a parte do samba. Meu violão, eu passei praticamente uns 12 anos sem nem pegar. Um dia minha cunhada foi morar comigo, olhou o violão dentro do guarda roupa, abandonado, e pediu para eu ensiná-la a tocar. Isso foi em 1992, 12 anos que eu nem pegava no violão, nem para tirar poeira. Como músico de banda nunca ganhei dinheiro, às vezes levava um mês para fazer uma festa, às vezes toda semana.

E os grupos de samba? Eu fiquei esse tempo todo sem tocar, nem dentro de casa. Depois eu fui fazer um curso, tinha um violão no clube, eu entrei lá, tinha uma turma tocando, comecei a tocar umas coisas de música aqui do Maranhão. Depois eu passei umas lições para minha cunhada, aí criou bolhas nos dedos e ela largou. Final de semana eu me sentava numa cadeira e começava a recordar aqueles antigos sucessos, Os Pholhas, um sambinha e tudo. Um dia Valter Nunes passou lá, eu tava tocando uma bossa nova, e “cara, tu não quer tocar domingo com a gente ali?”. Isso era uma terça-feira, eu estava por fora de samba, eu não conhecia um samba de Zeca Pagodinho, nada. Eu arranjei um captador, botei no violão. Tinha lá vários pagodeiros. E eu passeando, escorregando na manteiga o tempo todo, eu não conhecia as músicas, um esforço mental doido para não fazer feio. Quando terminou alguém disse que eu nunca mais podia sair do conjunto [risos]. A primeira coisa que eu acabei foi com esse negócio de tocar sentado, tem que tocar em pé, jogar o corpo, animar quem está lá. Aí nós começamos a dominar a praça com o Sambando na Praia. Depois eu fui para o Sem Dimensão. Quando eu estava no Sambando na Praia, o Vinicius foi embora. Foi uma dificuldade, ele cantava e tocava. Aqui era difícil gente cantar e tocar, a gente começou a andar atrás de músicos que fizessem as duas coisas, aí a gente contratou Ivan para cantar e Neto Peperi para fazer o cavaco. Tínhamos contrato fixo com o bar O Luar, ali na [avenida] Litorânea, o cachê lá era muito bom.

Você integra algum grupo atualmente? O Sob Medida, nós estamos ensaiando. Fizemos um pré-lançamento no programa do Ricardo Baty.

Na sua opinião o que significa o choro? Qual a importância dessa música? O choro, para mim, é uma música que não foi feita para qualquer um. O choro, o músico tem que ter muito conhecimento, nem eu tenho. Já vi muito músico tocar só com o talento, mas o choro exige do músico muito preparo técnico, conhecimento teórico e prático da coisa, do instrumento, da música. É uma música realmente emocionante. Eu me arrepio, me emociono escutando choro. Já tive oportunidade de tocar, de brincar, com pessoas de muito conhecimento, tipo Marco César [bandolinista], lá de Recife, com Jorge Cardoso [bandolinista], ainda em início de carreira.

Você se considera um chorão? Eu me considero um chorão mais como ouvinte, admirador. Se bem que no violão eu toco uns chorinhos. Muita coisa eu já esqueci, até de autores famosos, justamente por causa do samba. É aquela coisa, por que o chorinho, você pega um choro, você tem que estar tocando ele. Com o tempo você vai saindo. É como se fosse um satélite, manda um sinal para corrigir a órbita. Se você aprende uma música hoje, daqui a um ano você está tocando diferente. Agora, se não tocar, você esquece. Aquilo você cria uma espécie de memória mecânica, a posição, a sequência, como vai levando os dedos, a mão.

Chorografia do Maranhão: Os Irmãos Gomes

[O Imparcial, 22 de junho de 2014]

A 34ª. edição da Chorografia do Maranhão é misto de entrevista e homenagem. Entrevistamos os Irmãos Gomes, naturais de Rosário, e homenageamos seu pai, o compositor Nuna Gomes, também oriundo da cidade banhada pelo Itapecuru.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: MURILO SANTOS

Ladeados pelos chororrepórteres, Os Irmãos Gomes. Da esquerda para a direita: Bastico (violão), Zequinha do Sax e Biné do Cavaco (violão). Foto: Murilo Santos
Ladeados pelos chororrepórteres, Os Irmãos Gomes. Da esquerda para a direita: Bastico (violão), Zequinha do Sax e Biné do Cavaco (violão). Foto: Murilo Santos

 

Vem de Rosário o trio de entrevistados da 34ª. edição da série Chorografia do Maranhão. Os Irmãos Gomes, filhos da doméstica e costureira Isabel Pereira da Silva Gomes e de Nionílio Alódio Gomes (1904-1985), barbeiro e músico mais conhecido pela alcunha de Capitão Nuna Gomes, herdaram do pai o gosto e talento pela música.

Desfalcados do fotógrafo titular, Murilo Santos assumiu o posto e clicou no Bar do Léo o depoimento a Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro de Benedito do Espírito Santo Silva Gomes, o Biné do Cavaco (nascido em 6 de agosto de 1953), José Raimundo Silva Gomes, o Zequinha do Sax (6 de fevereiro de 1940) e Sebastião de Jesus Silva Gomes, o Bastico (14 de setembro de 1948).

Autor de obra pequena – muito se perdeu na própria memória, pela falta de registro – Nuna Gomes é nome fundamental na galeria de compositores de choro do Maranhão. Sua Um sorriso foi registrada em Choros Maranhenses (2005), do Instrumental Pixinguinha, primeiro disco autoral de choro registrado no Maranhão – Biné do Cavaco integrou o grupo em sua formação inicial, no começo da década de 1990.

 

A conversa foi ilustrada musicalmente por, entre outras, Saxofone, por que choras? (Ratinho) e Siboney (Ernesto Lecuona).

Além de músicos, vocês têm outras profissões?
Biné – Eu tentei ser aeroviário, trabalhei uns 10 anos, trabalhei na Vasp, Transbrasil, mas com o tempo fiz uma empresa pra mim, tentei ser empresário. Resultou agora já há 14 anos abri minha escola de música, já formei dois filhos e acho que vou me aposentar nisso, como professor de música.
Zequinha – Eu fui funcionário público federal, trabalhei muitos anos nos Correios, carteiro, passei 17 anos, quase 18, nos Correios. Aí eu fui redistribuído para a Escola Técnica, na época era Escola Técnica Federal do Maranhão, cheguei lá em 1978 e lá eu me aposentei, trabalhando uma parte como músico, ensinando na banda de música, e outros anos eu trabalhei como supervisor, passei nove anos como supervisor e nove anos como professor na banda de música. Ensinei muita gente lá.
Bastico – Além de músico eu consegui fazer cursos profissionalizantes na Escola Técnica Federal do Maranhão. Consegui fazer as profissões de tornearia, marcenaria, eletricidade, bombeiro hidráulico, solda elétrica e oxigênio, tipografia, e fora outras profissões como xerografia. E algumas com atividades durante algum tempo. Outras já até abolidas, como o caso da tipografia. Algumas exercidas, outras não. Atualmente sou só músico. Continua, essa é padrão.
Biné – Não tem saída: lá em casa a gente encerra com música.

Como era o universo da infância de vocês? Era musical? Como era o clima na casa de vocês?
Zequinha – Lá em casa sempre foi. Ainda em Rosário, aqui. Lá em Rosário a gente era muito novo.
Biné – Eu vim de Rosário com seis anos, sete. Mas lá em casa sempre foi música.
Zequinha – Eu era o mais velho. Lá eu aprendi a tocar o clarinete, com o professor da época, João dos Santos, grande músico. Eu comecei a tocar cabaça coberta com botão de cueca, ia fazer festa pra ganhar dinheiro.
Biné – O músico do interior, na época, tinha três classes. Zequinha entrou na terceira, pra depois ir pra segunda e depois pra primeira. Na terceira entrava cabaça, pandeiro; o cantor já era da segunda, com banjo. Agora o cara do sax, do pistom, já era da primeira.
Zequinha – Eu entrei como cabacista, da terceira. Era como se aquele ganhasse cem reais, o outro 80 e eu ganhava 60. Eu não achava legal, por que eu trabalhava mais, ainda cantava. Moral da história: eu comecei a aprender, fui estudar música, passei uns meses. Depois comecei a tocar clarinete. Aí vim pro quartel, passei um ano, quando eu voltei pra Rosário, seis meses ou um pouco menos, eu ganhei uma nomeação no Correio de São Luís e tive que vir pra cá. Eu não tinha conhecimento nenhum, a não ser o quartel.
Biné – Eu me lembro que papai dizia que a gente só vinha pra São Luís quando Zequinha estivesse empregado.
Zequinha – Aí com poucos meses eu estava empregado, aluguei uma casa e disse para mamãe botar tudo dentro do caminhão que a casa já estava alugada. Aí eles vieram pra cá, ali no Monte Castelo, eu gosto muito do bairro. Tudo o que eu precisava ter eu tive lá. Passei 10 anos lá, durante o tempo de solteiro. Ali eu saía pra tocar.

Capitão Nuna Gomes. Sem data. Autoria desconhecida
Capitão Nuna Gomes. Sem data. Autoria desconhecida

 

Além da genética, o fato de o pai de vocês tocar, vocês acham que houve outro fator decisivo para vocês seguirem a carreira de músicos?
Biné – Sobrevivência!
Zequinha – Eu, me ajudou demais. Aqui eu fiz conjuntos, naquela época era conjunto musical, participei de vários. Isso tudo a gente faturava, e bem, na época. Eles já vieram depois. Eu tinha que arrumar um jeito para ajudar na despesa de casa. Nós éramos nove irmãos, mais os dois pais, e alguns amigos que moravam. Tinha que ter dinheiro pra poder segurar, e com a música eu ganhava muito mais do que o próprio salário no Correio. Até hoje.

O violonista Bastico. Foto: Murilo Santos
O violonista Bastico. Foto: Murilo Santos

 

Bastico, você, filho de Nuna, que tocava bandolim e violino, o que te fez escolher o violão? Eu já te vi tocando seis cordas, sete cordas, guitarra, baixo. O que te levou aos instrumentos de cordas?
Bastico – Esse fator de nosso pai ter sido músico e concentrar em sua volta muitos músicos, a apreciação da arte em si, me chamava a atenção, eu como criança. Apesar de me chamar a atenção não havia em nosso pai uma permissão ou uma preferência para que qualquer um de nós seguisse os dons que ele tinha, que era ser músico ou barbeiro. Ele aspirava, como geralmente todos os pais, alguma coisa melhor que a que ele continha. Mas como esse dom é uma origem que se alastra por toda a família. Chamava-me a atenção, aquela reunião, a forma de meu pai tocar, a forma de meu irmão mais velho, Denisal, tocar, e outros amigos e alunos dele. Mas eu não expunha meu interesse a meu pai nem a ninguém. Eu procurei captar às escondidas. Na ausência dele, na forma mais oculta possível, pegando instrumento dele, sem o conhecimento dele. Isto com pouca idade, meus oito, nove, 10 anos. Até chegar o momento do conhecimento: num determinado momento em que ele necessitava de uma pessoa que tocasse violão para que ele pudesse fazer uma apresentação. E ele, que não sabia que eu já havia captado alguma coisa dele e das outras pessoas que com ele tocavam, foi surpreendido pela minha irmã para poder tomar conhecimento de que eu já tocava as músicas que ele precisaria tocar. A partir desse momento eu fui levado junto com ele para um compromisso, em que ele faria o oferecimento de duas músicas, uma valsa e um chorinho, de autoria dele, eu passei a ser um músico assediado por ele, já. Então eu passei a fazer parte das apresentações, das amizades dele. A partir daí meu desenvolvimento foi baseado no que ele fazia, da forma que ele tocava, na qualidade que ele desenvolvia o instrumento e o meu irmão também. A música é um dom natural de família. A partir daquele instante, já vindo pra cá, houve outras evoluções.

Zequinha do Sax e Biné do Cavaco. Foto: Murilo Santos
Zequinha do Sax e Biné do Cavaco. Foto: Murilo Santos

 

Biné, você está com um violão, mas você tem o nome artístico de Biné do Cavaco.
Biné – Essa é uma história muito interessante. A gente tinha uma banda, Curtisom, inclusive eu fiquei muito satisfeito: todos nós estamos vivos. Encontrei Joaquim [baterista], fazia 10 anos que eu não via, vamos fazer um encontro. A história do cavaco é a seguinte: a gente tinha uma Rural [veículo utilitário]. Nós éramos sete. Imagina, ficávamos cinco lá atrás, dois na frente e o motorista. O motorista nunca ia dormir para vir depois da festa. Aí ele ficava com sono e dizia: “toquem alguma coisa!” E às vezes a gente levava um violão pra brincar, pra fazer um sambinha, numa época em que samba não se tocava em festa. Era inconveniente o violão. Um dia levamos um cavaquinho, peguei a afinação do violão, eu tocava para animar o cara, pra ele não dormir. E eu comecei a tocar cavaquinho naquela afinação. Um dia Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor] chegou pra mim e disse: “Biné, esse cavaquinho tá tocado em afinação errada”. Aí ele me deu a afinação como seria. O que aconteceu? Eu comecei a tocar o cavaquinho, aprender um chorinho aqui. Depois a gente fez um grupinho de brincadeira, a gente ia pra rádio Ribamar. Zequinha, você lembra o 20 Cordas no Choro? Mas a gente não era chorão, então a gente sabia 10, 15, 20 choros. Não dava pra segurar um repertório, a gente tocava em banda. A gente chegava, tocava cinco choros, diziam “está muito bom, voltem na próxima semana”. Na outra semana a gente tocava os outros cinco [risos]. Dava pra tocar umas quatro semanas. Aí chegou a época de roda de samba, o Curtisom saiu na frente, por que tinha um cara tocando cavaquinho: eu.

Quem integrava o Curtisom?
Biné – O Curtisom era formado, inicialmente, por Almir, cantor, Zequinha, eu, Bastico, Joaquim, esse amigo nosso que eu falei, Giovani, violonista, e Pinheiro, Chico Pinheiro, de teclado. Chico Pinheiro foi a coisa mais interessante, por que ele não sabia tocar teclado e nós convidamos ele pra tocar teclado, quando a gente comprasse. “Vai treinando na Escola Técnica no piano, que quando a gente comprar, tu vem ser o nosso tecladista”. E ele veio. Quando comprou, “te vira aí”.

Isso era década de 1970?
Zequinha – 72.
Biné – Dia 2 de julho o Curtisom faria 42 anos.

Vocês tocavam em casas noturnas? Como era isso?
Biné – São Luís era maravilhoso! Não é como agora. Eu fico prestando atenção. Eu passo ali, vejo o Lítero [o Grêmio Lítero Recreativo Português, no Anil] no chão. Em 1972 eu toquei o carnaval ali. Foi a época, quando eu falei com Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], Zequinha foi um dos fundadores dos Fantoches. Nós tínhamos tantos lugares para tocar. Tinha os grupos classe A, uns quatro: Nonato, Fantoches, Som Livre e Curtisom. A gente tocava no mesmo valor. Quando a gente estava cheio de contratos, a gente passava. Tinha um negócio interessante: toda turma fazia duas a três festas para poder fazer as festas do final de ano, dos colégios. Tinha Casino Maranhense, Montese, tantos clubes aqui, as bandas não davam para quem queria.

No traço de Nuna Neto (chargista de O Imparcial), outro herdeiro do capitão Gomes, a família musical reunida
No traço de Nuna Neto (chargista de O Imparcial), outro herdeiro do capitão Gomes, a família musical reunida

 

Mesmo o pai de vocês sendo músico, não era tranquilo o apoio dele a vocês serem músicos também, até pelo preconceito que existia à época. Depois o pai de vocês apoiou essa escolha?
Zequinha – Meu pai sempre me apoiou eu tocando sax. Por que também é o instrumento que eu sei tocar, embora um pouco menos do que os outros, mas dá pra gente ouvir. Canhoto, seria difícil eu tocar um instrumento de cordas, por que eu não tocava numa afinação minha. Ficou difícil eu aprender cavaquinho ou bandolim. Violão eu toco pro gasto. Quando eu fui pro saxofone ele me dava todo apoio.
Biné – Acontece um negócio interessante: com o tempo papai passou a admirar muito a gente, eu não lembro por quê. Quando a gente reunia tinha uma banda tocando: Bastico no violão, eu de cavaquinho, Zequinha de saxofone, alguém fazendo ritmo, não sei quem cantando. Vamos, tá uma banda montada. Quando era banda, era eu guitarrista, Bastico baixista, Zequinha sax, aí já vinha Celso, irmão nosso que faleceu há uns quatro meses, cantava, tocava bateria.
Bastico – Na opinião dele ninguém seria músico, ninguém seria barbeiro. Mas a partir do momento em que cada um abraçou a música, o dom dele, que é o nosso também, e passou a desenvolver, ele passou a apoiar. Passou a apoiar e a usufruir o que se fazia. Estava sempre que possível junto com a gente, sempre perto, e sempre mostrando ou expondo às pessoas o que ele tinha, de família, como músicos iguais a ele ou no ramo dele. Ele fazia questão, ele tinha um prazer, não era a preferência dele. Talvez a preferência dele fosse outras coisas, mas ele apoiava todos nós, sim.

Ele chegou a dar aulas para vocês? A ensinar música?
Bastico – Para mim, no caso, não. Eu acho até que para nenhum dos irmãos. Cada um foi autodidata ou procurou alguma forma de desenvolver a sua cultura. Foi mais fácil uns com os outros e com ele também, embora indiretamente. Mas ele lecionar qualquer coisa pra gente, não. Depois desse desenvolvimento nosso ele poderia sugerir qualquer opinião.
Biné – Eu concordo contigo numa coisa: a primeira ação de papai para os filhos tocarem. Papai tinha muita ideia musical, mas sabia que aquela música que ele fazia não tinha grande futuro. O que ele fez? Pegou nós três irmãos primeiros, mais Denisal, Concita e Nazaré, essa já falecida, e botou com Pedro Gromwell pra poder estudar partitura. Ele ia uma ou duas vezes por semana em Rosário, dar aulas.

Ainda assim, ele não dando aula formalmente, vocês o consideram o seu principal mestre?
Zequinha – Eu o considero. Por que ele, quando a gente fazia coisa errada, brigava. Dava murro nas paredes, na mesa. “Tá errado!” Eu não, por que meu instrumento é solo e ele não sabia tocar [risos], mas ele gostava de ouvir.
Biné – Ele tinha um ouvido magnífico. Não era o que ouvia bem a música: ele ouvia, memorizava e passava para o instrumento.
Zequinha – Ele tinha uma facilidade monstra de aprender as coisas. Ele não lia música, mas tudo ele pegava no ar.
Biné – Papai teve essa visão de botar os filhos para aprender a ler música, na época. Os outros, que não quiseram aprender a ler, ele começou a relaxar um pouco. Papai conhecia perfeitamente os instrumentos que tocava, a ponto de eu pensar que eu já era o craque, artista, cabeludo, de guitarra e tudo mais, e chegar e dizer o seguinte: “papai, eu tou tocando cavaquinho, já sei solar uns choros, vou comprar meu cavaquinho”. E ele dizia: “vá comprar o cavaquinho que eu quero ver se você sabe comprar o instrumento”. Cheguei, procurei o mais bonito, quando eu cheguei ele só fez isso [belisca duas cordas, imitando o gesto do pai]: “vá devolver, que não presta”. Aí eu fui estudar para entender aquele gesto dele. É como eu lembro, comento, as músicas de papai, hoje, que a gente procurou estudar um pouco mais para entender a estrutura, a organização das músicas que ele fez, rapaz, as músicas de papai estão todas dentro do padrão. Eu conversando com meu grande amigo César Jansen [bandolinista], ele me disse que as músicas de choro, cada parte tem 16 compassos. “Foi um estudo feito através de Pixinguinha. Vamos ver os de Capitão”, é como chamam papai. Cumprem rigorosamente as determinações da parte teórica, as músicas dele, as movimentações harmônicas. Ficou mais fácil, estudando, entender a música de papai. É a mesma variação da música de Jacob [do Bandolim], a mesma dos grandes compositores.

Em "A arte musical de Nuna Gomes" estão registradas nove composições dele. Capa. Reprodução
Em “A arte musical de Nuna Gomes” estão registradas nove composições dele. Capa. Reprodução

Qual o tamanho da obra de Nuna Gomes?
Biné – Nuna não tem uma obra muito grande. Ele deve ter umas 14 músicas – umas quatro valsas, uns 10 choros. Tem umas coisas perdidas, por que não era escrito. O que foi escrito foi por Zé Hemetério, foi o que foi gravado. Tem até músicas com dúvidas quanto aos nomes. Mas aquelas que foram gravadas estão certinhas. Só podia memorizar naquela época através de um gravador. Tu queria ver papai não dar uma nota num instrumento era botar um gravador na frente. Ele se perdia todinho, “tira esse gravador daí!”

Como vocês definiriam o Capitão Nuna Gomes?
Bastico – Eu posso dizer, em particular, que fui priorizado com a preferência dele na forma de meu aprendizado sobre as coisas que ele fazia. Eu procurei aprender da forma que ele tocava, ele e meu irmão, assim satisfazendo a necessidade dele. Por essa razão ele procurou aproximar-se o máximo possível de mim, chegando ao ponto de não satisfazer-se em tocar sem minha presença em determinados momentos. Eu acho que definir meu pai tanto como pai, homem, músico ou como um cidadão, ele para mim foi um modelo, um modelo que a gente cria na mente, um exemplo a seguir.
Zequinha – É um tanto difícil de a gente chegar e dizer a verdade: “ah, por que é filho”. Não: eu sempre dei 10 pra ele. Ele pegava o cavaquinho, tudo o que ele queria ele fazia com aquele cavaquinho. Violão do mesmo jeito, bandolim, esse era o instrumento dele, e o violino. Violão ele pegava depois. [Lacrimejando:] Eu não gosto de falar.
Biné – Eu tentei ser solista. Da família, é como se fosse um time de futebol, eu era o nove. Eu era o solista, com Zequinha, lá na frente da banda. Solista de guitarra, solista de cavaquinho. Aí eu passei a perceber e valorizar Capitão Nuna: ele passava cinco anos sem pegar um instrumento. Quando a gente foi levar Nuna pra gravar o primeiro cd dele, lá onde Anísio, ele disse: “a coisa mais impressionante, eu não vejo seu Nuna errar uma nota”. Ele tinha uma segurança tão grande na escala, que se tornou, devido a tocar muito tempo, conviver muito tempo com o instrumento, o que ele imaginava, ele fazia perfeitamente. Eu tenho certa dificuldade. O músico completo tem que ter muitas coisas, inclusive memória. A escola dele, ele foi autodidata. Aí é que está minha admiração: magnífico nessa parte. Todo instrumento que ele tocava, ele tocava com muita segurança.

A obra de Nuna foi registrada em disco recentemente. Como foi esse processo? Se alguém quiser ter acesso, onde encontra?
Biné – Esse material não se encontra direto ao público. Ele foi registrado por um grande amigo nosso, Hilton Mendes, que mandou fazer uns 400 cds. Isso já se distribuiu para os amigos, deve ter bem poucos [exemplares]. Foi uma obra feita de caráter mais documental, não foi com caráter comercial.

Além desse disco que registrou a obra de Nuna, vocês participaram da gravação de outros discos?
Biné – A gente fez algumas coisas, tem registros de memórias, em fitas lá em casa. Tem Zé Hemetério tocando. Tem Ricarte [risos dos chororrepórteres], um grande violonista, amigo de Zé Hemetério.

 

Biné, você foi membro do Instrumental Pixinguinha. Quanto tempo você passou no grupo?
Biné – Eu passei 18 meses. Eu estava trabalhando na Transbrasil e na época não queria saber de música, mas Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] me convidou e eu fui. Na época eu não lia música e eles disseram [risos]: “tu tá lascado”. “Mas eu aprendo”. Foi muito importante nessa parte teórica, eu comecei a estudar, gostava do trabalho que estava sendo feito. Fizemos um espetáculo no Teatro Arthur Azevedo em que tocamos a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Depois saímos eu, César Jansen, Solano, Paulinho [Oliveira, flautista] e Marcelo [Moreira, violonista]. Ficou só Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. De lá reuniu, o pessoal trouxe Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Isso era 1990, esse pessoal [a atual formação] veio depois.

O pai de vocês tinha amizade com Zé Hemetério? Como era isso?
Zequinha – Nós éramos vizinhos. Era aquela amizade louca! Eu toquei demais com Zé Hemetério.
Biné – Zé Hemetério era o seguinte: já envelhecido, ele tinha alguns contratos, mas não tinha parceiros. Ele chegava e perguntava: “vocês vão tocar quinta-feira?” Íamos eu, Bastico e Maneco acompanhando ele, tocamos muito. Ele no violino, tocando festa de 15 anos. Muito depois ele começou a tocar bandolim, mas só pra brincar, não pra ganhar dinheiro.

Vocês já falaram no Curtisom e no Pixinguinha. De que outros grupos musicais vocês participaram?
Biné – Eu e Bastico participamos da Orquestra Maranhense. A Orquestra Maranhense tem uma história que ainda não foi dita por ninguém. O Ataíde, que fez a Orquestra Maranhense, na época era dono do Som Livre, depois extinto. Ele pensou assim: todos os músicos, das bandas da polícia e das bandas do exército, não têm onde tocar depois que se reformam, a não ser em [bumba meu] boi e carnaval. E ele idealizou uma orquestra para poder tocar todo o tempo. Pegou todos os músicos reformados da época e fez a Orquestra Maranhense, lá na casa dele no Ipase. Ele perguntou: “Biné, tu não vai dar uma força pra mim?” Eu fui pra guitarra, Bastico pro baixo, e ele ficava lá no teclado.
Zequinha – Nós criamos aqui o Conjunto Melodia, com Mascote [o violonista e percussionista Antonio Sales Sodré], Ataíde, [o cantor Léo] Spirro, a gente tocava muito. Sabe como é o conjunto: vai, vai e se acaba. Aí nós criamos o Big Nove, com aquela dupla Ponto e Vírgula, Jorge e Othon Santos. Foi chamado Spirro, Bárbara, cantora, naquela época cantava muito bem, eu. Nós éramos nove músicos, por isso Big Nove. Fizemos muita festa, [Clube] Jaguarema. Terminou o Big Nove nós fizemos Os Fantoches. Depois o Curtisom, em 1972 eu saí dos Fantoches. Aí nós fundamos o nosso, um nome criado por Bastico, Curtisom, muito bom. Quando surgiu, surgiu com tudo.
Bastico – Eu fiz parte de muitos, como Big Nove, Ferreira e Seu Conjunto. Depois fui participante do Som Livre, Os Fantoches e do Curtisom. Depois da Orquestra Maranhense. Toco violão há oito anos no bumba meu boi Mocidade de Rosário.

Vocês se consideram chorões?
Bastico – Eu sempre fui. Eu sou muito amante do gênero, e como amante eu gosto sempre de participar como músico. Portanto, tanto quanto como amante, como quanto participante instrumentista, eu sou chorão.
Zequinha – Eu me considero. Por que foi um dos ritmos que eu mais abracei. Na época em que eu tocava o sax alto ele pede que a gente toque choro devido à facilidade na execução. Eu morava no interior e lá eu tinha que aprender a tocar, pra fazer aquelas festas que começavam às nove horas e terminavam às seis da manhã. De madrugada a gente tocava choro e eu me acostumei com aquilo, aprendi, vim pra cá e trouxe o costume pra cá. Abraço todos os gêneros, toco todos os gêneros, mas naquela época eu tocava mais o choro.
Biné – Na visão de músico ou na de musicólogo? Na visão de musicólogo eu adoro o choro; na de músico, eu gosto, porém eu não pratico. Eu fui um dos primeiros a tocar choro aqui dentro de São Luís. Eu procuro ser o máximo eclético. Hoje eu toco mais violão, tenho minhas agendas. Na verdade eu tenho que parar para poder estudar, treinar. Não tem grupo, o choro é fundamental ter o grupo.

Chorografia do Maranhão: Agnaldo Sete Cordas

Lenda viva do instrumento que lhe deu sobrenome artístico, o ludovicense Agnaldo Sete Cordas, 85, é o segundo entrevistado da série Chorografia do Maranhão.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Agnaldo Sete Cordas começou de maneira descontraída – e assim se manteve até o final. Ele já contava causos antes mesmo de ligarmos o gravador e acionarmos o botão da máquina fotográfica. Nós quatro – ele, o fotógrafo e os dois chororrepórteres – em pé, aguardando Chiquinho [o proprietário do bar] com as chaves do Chico Discos (Rua 13 de Maio, 389-A, altos, esquina com Afogados, Centro), onde a entrevista aconteceu num sábado à tarde, horário em que o bar normalmente não abre e o foi exclusivamente para a ocasião.

Agnaldo Sete Cordas é uma lenda viva do instrumento que acabou por lhe emprestar o sobrenome artístico, tendo tocado com diversos artistas de sucesso nacional, quando de suas passagens pela ilha. Não por acaso, poucos dias antes de receber a ligação convidando-o a dar um depoimento à série Chorografia do Maranhão, ele havia começado a rabiscar em um caderno suas memórias. Uma espécie de “fique por dentro” particular, em que, a caneta, em papel pautado, lembra “histórias, curiosidades, manias de antigos e novos chorões”. Gente com quem tocou, formação de bandas, orquestras e regionais, rodas, farras, datas e causos em geral engraçados – que em parte ele repesca na entrevista, às vezes recorrendo ao caderninho de anotações.

Entre estas últimas lembra quando Cardoso [lenda entre os seresteiros do Maranhão] ia batizar uma filha sua e Six [o cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, lenda entre os chorões] – ambos já falecidos – chegou e mandou dispensar o padrinho. Foram todos para a igreja, aberta mediante o pagamento do último ao padre. O batizado aconteceu em meio a uma roda de choro. “Meu compadre era um bom companheiro”, disse, referindo-se a Six.

Agnaldo de Jesus Sousa, seu nome de pia, nasceu no Desterro, em São Luís, em 1º. de janeiro de 1928, filho do clarinetista Benedito Sousa, professor de música, e Sabina Martins Sousa. Tem 13 filhos, 13 netos e um bisneto. “O choro é uma música que não se acaba”, vaticina, pouco antes de atender ao celular: era [o bandolinista] Raimundo Luiz, diretor da Escola de Música do Estado Lilah Lisboa, convidando-o para uma roda. No toque do celular do jovem senhor, Odeon, de Ernesto Nazareth.

Agnaldo, o Sete Cordas e o caderno de memórias

Além de músico, qual tua outra profissão? Eu nunca tive profissão assim. Era empregado numa firma, a Francisco Aguiar e Cia. Entrei lá em junho de 1942. Era office-boy, como se diz hoje em dia, levava os telegramas para os Correios. Entrei lá de calça curta [risos]. Passei 17 anos lá. Depois saí, passei uns anos fora e depois, em julho de 1961, eu me empreguei na Companhia de Água e Esgotos. Naquela época era água e luz junto. O governador da época, Newton Belo, foi quem separou água para um lado e luz para outro, eu fiquei na parte da água. Me aposentei em 17 de fevereiro de 1993.

Com quem tu aprendeste a tocar? Eu aprendi a tocar esse instrumento, sem ser esse aqui, foi um violão de seis cordas. O namorado da minha irmã tinha um e deixou o violão lá em casa, aí eu fui pegando quando ele saía e aquilo foi me dando vontade de tocar, de aprender. E de repente mudou-se lá pra casa um vizinho, que era de Caxias e eu soube que ele tocava violão. E a gente ficava até tarde da noite, ele passando as notas. Depois apareceu outro moço que tocava muito bem violão, o nome dele era Ricarte, morava no Monte Castelo [os entrevistadores espantam-se com a coincidência]. Ele ia lá pra casa, levava o violão e eu ficava manjando aquelas notas. Quando ele saía eu ia fazer e não acertava. Pensei em largar de mão. Mas o tempo foi passando e eu fui pegando gosto pelo instrumento.

E depois substituiu pelo sete [o violão de sete cordas]? O sete foi o seguinte: depois de passar muito tempo nesse violão de seis, eu passei pela guitarra, por que pra tocar nos grupos que tinha em São Luís, eu fui fundador do Nonato e Seu Conjunto, pra tocar em grupos assim eu passei pra violão elétrico, depois eu peguei guitarra, mas eu não sabia tocar guitarra, por que eu tocava com dedeira. Para este violão foi da seguinte forma: muitos anos, eu tocava no Lira, e ia para casa descansar, e dia de domingo eu ia para o barzinho lá defronte lá de casa, tomar aquela cerveja com os amigos. Num domingo eu tava sentado lá quando chegou Six, seu Dega, irmão dele, Carlinhos [Leite], Jonas [Pereira da Silva], aquele que tocou com Jacob [do Bandolim, no Conjunto Época de Ouro]. Seu Dega quando me olhou, disse “olá, meu compadre! Olha quem tá aqui! Esse aqui é o Carlinhos, o violonista que toca com Jacob do Bandolim”. Ele tava com o violão de sete cordas, eu com o de seis, ele me deu o instrumento, mas eu não acertei uma nota, entreguei o instrumento pra ele [risos]. Mas nessas alturas eu não estava com o grupinho. Estava eu, Careca no bandolim, sentou Carlinhos com o sete cordas, tinha um menino com um tamborim pra fazer ritmo, Six no cavaquinho e finado Marreta com um gravador Philips. Aí o samba começou. Essa música foi tocada lá, aquele dia, um choro de Waldir Azevedo por nome Contraste [parceria com Hamilton Costa]. Essa música eu tenho gravada numa fita, acompanhada pelo Carlinhos. Aí depois, nessas alturas, a farra começou. Cantou [Léo] Spirro, cantou Seu Dega.

Na tua juventude, de que modo vocês ouviam música? Nós ouvíamos rádio que nós mesmos fabricávamos. Esse mesmo rapaz que me ensinou violão, Mizael, ele enrolava motor de avião, de compressor, essas coisas, era inteligente. Ele enrolou umas bobinas e disse que íamos captar uns sons da PRJ-9, Rádio Difusora do Maranhão. Funcionava ali defronte o Mercado Central, no prédio do SIOGE [o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, hoje abandonado]. Ela entrava no ar e quem tinha rádio ouvia. Então nós fizemos um tal de rádio galena. Era feito com uma bobina de fio, um telefone antigo, pegava só o fone, fazia adaptação, pegava chumbo com enxofre, botava numa colher no fogo. Aquilo quando diluía, ficava aquela pedra brilhante. Através daquela pedra amarrava uma agulha na pontinha do fio, botava o fone no ouvido e sintonizava a estação. Só tinha essa aqui no Maranhão. Eu ouvia longe… Eu me lembro tão bem de uma música que Isaurinha Garcia cantava, [cantarola:] “aquele aperto de mão não foi um adeus” [Aperto de Mão, de Jaime Florence, Augusto Mesquita e Dino 7 Cordas], parece que era essa música. E eu ouvia aquele violão e “meu Deus, o meu não dá esse som”. Aí foi que aconteceu, quando Carlinhos chegou lá na Cohab com aquele violão, aí eu me envaideci pelo som do instrumento. Fiz uma carta pra minha mãe, que morava no Rio de Janeiro, pedindo pra ela me dar um violão, que tinha visto um violão aqui, e tinha vontade de tocar num de sete cordas. Fiz sem esperança. Um dia de sábado eu tava em casa com a mulher, quando parou o carro do Correio lá na porta. “Olha, Marilene”, minha mulher, que tava lá, “é bem roupinha de menino que mamãe tá mandando pros netos”. Quando eu abri, era um violão sete cordas, Del Vecchio, já afinado. Quando eu peguei esse violão, a notícia correu rápido. Fui inaugurar esse violão e a aporrinhação dos colegas, “tu nãos sabe tocar nem de seis, quanto mais de sete”. Eu pensava em tirar a sétima corda, não tava acertando. Foram quatro anos, me dediquei, fui acertando. Uma vez aquele Biné, irmão de Bastico, disse “Agnaldo, esse violão tem que falar grosso”, e ele me gozava com isso. Fui lutando, Deus foi me ajudando, fui entrando nos grupos. Aí apareceram uns seguidores, que se envaideceram pelo instrumento também. Mascote, Bastico, Chiquinho, eu tenho o nome deles aqui [aponta o caderno], se metiam e largavam por que não acertavam. Entre o grupo que se interessou ficou [Francisco] Solano, Elinaldo, o mais competente, foi quem pegou com mais facilidade, Domingos [Santos]. O resto desistiu. Toquei muito nas noitadas por aí.

Teu pai dava aulas de música e tocava no exército. Ele de alguma forma influenciou o senhor a ser músico ou havia um desencorajamento, que músico naquele tempo era vagabundo, mal visto. Como era essa relação? Naquela época violonista era vagabundo, era mal visto. Ele não sabia, eu pegava esse violão escondido. Ele queria que eu estudasse telegrafia, o código Morse, ele me passava para estudar. Ele não queria negócio de violão, nem bola, o caso era estudar, e era o que eu não gostava.

Você chegou a jogar bola? Eu jogava bola. Até quebraram minha clavícula, aí eu larguei logo.

O senhor fundou o Nonato e Seu Conjunto. No ano de 1962, num daqueles bancos, defronte o Lítero, na praça João Lisboa. Eu tava trabalhando no DAES [Departamento de Água e Esgotos], chegou um colega que tocava comigo na rádio, Rafinha, e Osmaro contrabaixista. Ele disse que não tinha mais nenhum grupo tocando, o que Nonato tava tinha acabado, por causa de molecagem dos músicos. Aí eu disse “vamos convidar Nonato”. Eu peguei folga no serviço e fomos os três. Nonato tava lá em cima tocando piano. Quando desceu a gente disse: “Nonato, nós estamos formando um grupo pra tocar, tu não queres tomar parte?”. De cara ele disse que não. Aí a gente conversou, ele disse que dava a resposta amanhã. Voltamos no mesmo horário e eu combinei com a turma: “se Nonato aceitar, o nome vai ser Nonato e Seu Conjunto, a gente bota uns papeizinhos em um copo, Nonato e Seu Conjunto, o que ele tirar vai dar Nonato e Seu Conjunto” [risos]. No outro dia ele tava ensaiando uma música. Quando ele desceu, “como é, Nonato, resolveu?”, e ele “é, eu vou aceitar”. A gente, êêê, aquela comemoração. Vambora escolher logo o nome do grupo, já tava combinado. Ele meteu a mão no copo, deu Nonato e Seu Conjunto. Daí ficamos. Eu já tinha meu instrumento, eu tinha meu violão elétrico, o baterista tinha a bateria dele, o contrabaixista tinha o baixo, o pistonista tinha o pistom, o saxofonista, que é Nero, já tinha o sax, o cantor era Murilo Oliveira. Depois passou a ser Cardoso. Aí fizemos o grupo, começamos a ensaiar. De repente pegamos o contrato para tocar as tertúlias do Lítero, que começava às oito da manhã. Começava oito, terminava dez. Durou bastante tempo. Aquilo era uma brincadeira, a gente tocava na base da brincadeira, pegava um cachezinho pra levar pra casa. Aí passamos a pegar contrato pra festas de casamento, colação de grau, tocávamos lá no Casino [Maranhense], que era na [avenida] Beira Mar. E o grupo foi tomando frente e só tínhamos nós na praça. Depois foi que surgiu o CurtiSom, Os Colegiais, Os Fantoches. Mas de início éramos só nós, tanto aqui na cidade quanto no interior. Essa baixada toda nós tocamos, e também do outro lado, a gente pegava Vargem Grande, Itapecuru, Chapadinha.

Quem foi o músico que mais te influenciou no começo da carreira? Era o Careca, que tocava bandolim e cavaquinho. Tinha os olhos gateados. Era exímio músico. Tocava violão também. Ele pegava o violão dele, lá no João Paulo, ele vendia pastel numa cesta desse tamanho [gesticula com as mãos]. Quando ele chegava com o violão dele lá no João Paulo, aí faziam a roda, ele cantava até um samba assim [cantarola:] “violão amigo/ venha ouvir meus ais”. Ele cantava essa música, toca violão, aí a canalha fazia a roda e ele vendia o pastel todinho. Quando passava pro cavaquinho, foi quando surgiu aquele choro que o Jacob fez por nome Flamengo [de Bonfiglio de Oliveira], esse era o começo [toca a introdução]. E o Careca tocava isso e chamava a atenção. Aí eu fiz amizade com ele. Eu estudava no Teixeira Mendes, onde é a Caixa Econômica hoje, e eu saía do colégio e passava pra brincadeira. Mamãe falava, “meu filho, vai pra casa”, e eu tava atrás do instrumento.

Você já viveu só de música, a música já te sustentou? Já vivi. Sustentei a família muito tempo na música. Eu tinha um patrão muito agressivo, uma vez ele me passou um carão na frente de Mascote, lá no balcão. Eu já tinha mais de 10 anos da empresa e ele perguntou se eu tinha vontade de sair da firma. “Então faça o seguinte: o que você vai levar de indenização, dá para abrir um negócio para você”, ele disse. E me orientou a, quando me perguntassem o porquê de eu deixar a firma, eu devia responder que era de livre e espontânea vontade. Assim fiz, era 1958 ou 59. Não recebi nada. Passei dois anos vivendo apenas com o ordenado que eu ganhava na rádio Timbira, como violonista do regional. E tocava por fora pra levar pra casa.

Você chegou a gravar discos com Nonato? Ele gravou, mas eu não tava mais no grupo. Quando ele gravou, tava [Arlindo] Pipiu, Zé Américo, Chico do Zuca, saxofonista, Garrincha. Nonato adquiriu um empréstimo no Lítero e foi à São Paulo comprar um instrumental novo. Nosso baixo não tinha trastes, era gavetão. Quando Nonato veio de São Paulo trouxe um contrabaixo elétrico, mas sem trastes, trouxe bateria nova. No dia da inauguração desses instrumentos, foi uma coisa gozada. Nós fomos tocar no Clube Alvorada, ali no Tirirical, um clube da Força Aérea Brasileira. Garrincha antes de chegar já tinha enchido a cara. Na hora que começou a festa, só dava Nonato, o clube cheio de gente, Garrincha cheio do pau, a gente foi tocar uma música [faz o ritmo com a boca], na hora em que ele foi fazer uma frase, estourou os dois tambores, rasgou de meio a meio. Nonato com aquela calma terminou a música e o show na bateria. Garrincha continuou no grupo, mas aprontou muito das suas.

O senhor teve algum estudo formal de violão? Não. Aprendi na raça. O pouquinho que aprendi foi só pra me divertir.

Além de Nonato e Seu Conjunto, de que outros grupos musicais você participou? Primeiro nós tínhamos o Grupo Difusora. Nós tocávamos em aniversário, éramos eu e Zé Cantanhede, dois violões de seis cordas, Careca no bandolim e violão tenor, que ele tocava que era uma beleza, Racinha na maraca e no pandeiro, ele era canhoto, Maneco baterista, Osmaro contrabaixo, Antonio Rodrigues sax tenor e Toinho acordeom. Aconteceu que até uma vez a Dalva de Oliveira se apresentando no Teatro Arthur Azevedo, aquela música [cantarola:] “Ave Maria, lá rá ri” [Ave Maria no morro, de Herivelto Martins], rapaz, nós ensaiamos a música e Rodrigues antes de começar a função era uma dor de cabeça e não teve jeito de ele descer para tocar e quem fazia o solo era ele. Quando chegou na hora dessa música, ele veio de lá, mesmo com a dor de cabeça, ninguém esperava isso dele. Na hora do solo, o saxofone saiu de detrás da cortina, a coisa mais linda, todo mundo aplaudiu. Depois eu passei seis anos com Nonato, tocando no Lítero, festa de carnaval, aquelas músicas que até hoje em dia se toca. Nonato depois que criou asas começou a dar ordens dentro do grupo. Aí ele dizia: “só fica no grupo quem ensaiar”. Eu era empregado, não podia ensaiar, Cardoso, do Banco do Brasil, também não podia ensaiar. Ninguém podia deixar o trabalho para ensaiar. Aí ele já queria botar Oberdan e Pitomba no grupo, eu fui me aborrecendo e larguei. Quando eu saí do grupo, uma noite eu tava em casa, quando recebi um convite para uma seresta na Rua Oswaldo Cruz. Foi a última vez que eu toquei com Nonato, foi na inauguração dessa boate. Depois eu entrei nos Fantoches, em 1968, na vaga de Sinhô, [o violonista] João Pedro Borges. Passei oito anos nos Fantoches. Raimundo Sebastião Coelho, sargento do exército, era o chefe. Tínhamos três pistons, três saxofones, botijão de gás tocado com dois vergalhões, aquilo fazia uma zoada, “taca-taca, taca-taca, taca-taca” [imita o som percussivo do botijão com a boca].

E regional de choro, em quais tu tocou? Regional de choro, não teve assim um seguro. Eu me unia com [o flautista] Serra [de Almeida, primeiro entrevistado da série Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3/3/2013], a gente tocava umas pisadas em ritmo de choro, o repertório todo de Altamiro Carrilho.

Só vocês dois ou tinha mais gente? Às vezes tinha um pandeirista, às vezes não.

Tinha nome essa formação de vocês? Não, não tinha.

Vocês tocavam em vários lugares, no Hibiscos [bar da época, o entrevistado localizou-o nas proximidades do Detran, Castelão]? No Hibiscos nós tínhamos grupo. Era eu, Serra, Spirro, Zé Branco e Juca [do Cavaco]. Não tinha nome o grupo. Depois do Hibiscos foi que nós fomos para a Caixa Econômica [a Serenata Caixa Alta, na Associação do Pessoal da Caixa – APCEF].

Você compõe, faz arranjos? Não. Às vezes eu crio uma ou outra coisinha diferente [improviso na execução de uma música], pra não ficar bitolado.

Já participou da gravação de discos? Não.

Mas acompanhou grandes nomes nacionais. Dalva de Oliveira, no Casino Maranhense. Quem mais me deu trabalho foi a Maysa Matarazzo.

Deu trabalho por quê? Ela botava um pó na bebida. Pelo menos, no dia em que nós fomos ensaiar, fomos eu, o rapaz do ritmo e o acordeonista, ela tava no Hotel Central. Quando nós chegamos lá, ela tava no banho. Ficamos esperando. Ela saiu do banho toda de roupão, bonita, nos cumprimentou, os olhos bonitos. Ela cantou uma música, passou uns 10 minutos, disse que não queria mais ensaiar. “Eu não quero mais ensaiar, tá tudo bom”. Lá no [Teatro] Arthur Azevedo, estavam tocando artistas locais, a atração era ela, e o teatro cheio de gente. A caminhonete chegou com ela e nos chamaram, estava na hora. Quando subiu ao palco ela disse que não queria cantar com o regional, começou a cantar só. Tinha outro contrato pra mesma noite, no Casino. Ela também se recusou a tocar acompanhada pelo regional e mandou chamar Mascote, um violonista muito bom de que ela tinha ouvido falar. Depois ela se negou a cantar também com ele, o povo já ensaiando uma vaia, quando ela começou a cantar Meu mundo caiu. No outro dia, nos jornais, foi um escândalo.

E outros nomes? Dóris Monteiro, Linda e Dircinha Batista, Ademilde Fonseca, Ângela Maria, Núbia Lafayette, Nora Ney, Dalva de Andrade, Alcides Gerardi, Orlando Dias, Blecaute, Genival Lacerda, Cauby Peixoto, Silvio Silva, Altemar Dutra, Carlos Gonzaga, Nelson Gonçalves, Anísio Silva, Sivuca, Jackson do Pandeiro, Conceição de Oliveira, Orlandira Matos, Suely, Maria Diniz, Célia Maria, Naná Ramires, Ivone Mendes, Elza Lopes, Lourdinha Costa, Sérgio Miranda, Bico Doce, Roberto Müller, Cardoso, Moacir Neves, Escurinho do Samba, Álvaro Duarte, Joaquim Fernandes, Nilton Vieira, José Penha.

O que significa o choro pra ti? Eu considero uma das melhores músicas. É o gênero que eu abraço, é o que eu gosto. E o choro, eu vou te dizer uma coisa: só toca o choro quem sabe. É uma música difícil. Não pode ter erro, de jeito nenhum.

Quem é o artista que você mais admira dentro do universo do choro? Aqui em São Luís eu gosto bastante do Serra. Gosto do Juca. Fomos companheiros de muito tempo. Quando ele começou a tocar cavaquinho, eu disse: “esse menino vai dar um bom cavaco”, e não me enganei. Nacionalmente, um nome que eu admiro é Jacob, o estilo de Jacob.

Tu falaste em vários espaços em que havia música ao vivo. Como tu vê São Luís hoje, em termos de espaço para a apreciação de boa música, choro? Tens saído para ver isso? Se eu passar e escutar um ritmo de choro ou sambas canções, eu paro para ouvir. Mas se eu passar e escutar uma pagodada doida, mal tocada, com três cavaquinhos, um banjo fazendo aquele centro doido, dando umas notas que não tem na música, eu não paro pra ouvir isso aí.

Tu estás escrevendo tuas memórias, né? Umas coisas que fui lembrando de minha juventude e fui anotando. O tempo em que militei na Zona do Baixo Meretrício, eu tocava por lá, apreciava as noitadas, toquei com muita gente. A zona era conhecida, tinha as [pensões] de luxo e tinha as vagabundas.

Quando foi que o senhor teve a ideia de registrar as memórias? Foi semana retrasada, eu não tou fazendo nada, vou me lembrar das coisas aqui que eu passei e comecei a escrever.

O senhor pretende publicar esse material? Publicar isso aqui? [risos]. Eu não sei, comecei a fazer para mostrar pros colegas. Parafuso [o sonoplasta Elvas Ribeiro] se lembra dessas pessoas todas. Onde eu botei aqui o regional [que tocava na ZBM na época]? [Lendo um trecho das anotações] Eu ainda recordo, apesar do tempo, as casas que tinham música ao vivo: Casa Branca, Maroca, Lili, Zilda Preta. O grupo que tocava era assim: Vital, baterista, Jorge Cego, trombone, Haroldo, banjo, Santinho, pistom, Seu Riba, pistom, Amilar, bandolim, Roque, rabecão, Zé Hemetério, violino. Outros músicos davam canja: Osvaldo, baixo, Apolinário, banjo, Mr. Jones, bateria, Padilha, violino. Nome das pessoas que animavam o salão do Bar Hotel Central, do senhor Maia: Vital, baterista, Lauro Leite, violino, Pajebinha, sax alto, Haroldo, banjo, Zé Hemetério, violino, Chaminé, acordeom, Cunha, pianista, Roque, rabecão, Santinho, pistom, Seu Riba, pistom [continua lembrando outras formações, que tocavam em outros espaços]. Olha como eu botei aqui [continua a leitura]: a casa de Lili era frequentada por pessoas mais escolhidas. Não tinha bagunça. Quando acabava o movimento das outras casas, nós, digo, Zequinha de Jagunço, Amilar, Agnaldo, Zé Penha, Xereta, irmão de China, que era amigo de Cleres… Zequinha de Jagunço se dava com a dona da pensão, a Lili, por isso ele nos levava para tocar até de manhã, e eu ia por que sempre eu ficava com uma puta [gargalhadas gerais]. Ora se eu ia pra lá pra ficar de graça? Amanhecia lá.

[O Imparcial, 17 de março de 2013]