Crônica de feira

Retrato: Zema Ribeiro

 

Peço quentinhas de bisteca e pescada, fritas na hora. Como demoraria alguns minutos, resolvo pedir uma cerveja. Minto: havia vários restaurantes no entorno, inclusive a quilo, em que eu me serviria mais rapidamente, mas resolvo adentrar a tradicional Feira da Praia Grande com o intuito de uma transgressora cerveja em plena quinta-feira antes do meio-dia.

Quando me serve a cerveja, Roxinha, apontando para o padrão “véu de noiva”, diz: “essa aqui resolve todos os problemas. Eu quando tomo uma assim vou nos Estados Unidos e volto no Iraque”, certamente referindo-se aos sabores da embriaguez e ressaca. “É de uma dessas que estou precisando”, penso. “A senhora gosta?”, indago e ela ri. “Não quer tomar um copinho?”, ofereço. “Rapaz”, ela diz e se interrompe, sem aceitar, como se a resposta fosse “não bebo durante o expediente”.

As frituras continuam chiando no interior do restaurante e ela liga a tevê. Uma reportagem dá conta de acidentes causados por mangas em Balsas: as frutas caem das mangueiras e esmagadas por pneus transformam-se numa lama viscosa, levando motoqueiros e ciclistas a derrapagens, pelo menos foi o que eu entendi sem prestar muita atenção, um olho no celular, outro no gibi do Tex.

“Com farinha é bom demais”, comenta Maria Ferreira, a Roxinha. “Manga e jaca mole”, complementa. “Eu saí do interior, mas o interior não saiu de mim”, confessa, revelando a saudade de Brejo, sua cidade natal, a 313 km da capital, onde passa até três anos sem ir.

Finalmente ela me serve os bandecos em uma sacola. Agradeço e digo que vou apenas terminar a cerveja. “Fique à vontade”, ela recomenda, sentando-se para terminar de ver o telejornal.

“Posso tirar um retrato seu?”, peço permissão. “Claro!”. Aponto o celular e fotografo Roxinha – com o contrabaixista Nema Antunes (conversando com o também contrabaixista Mauro Sérgio, encoberto por ela) ao fundo. Mostro-lhe o resultado: “ficou bom?”, pergunto. “Ficou, escritinho uma mucura”, ri de si mesma. E completa: “a gente tem que brincar. Depois que cai duro não dá mais”.

A poesia parou o trânsito

Clima de poesia, tempo de poesia. Fotos: Adriana Gama de Araújo

 

Às vezes me demoro mais do que gostaria para escrever (sobre) algo. Às vezes simplesmente não escrevo, embora o texto passe dias me fermentando o juízo.

Cá estou, tardiamente, escrevendo sobre a reinauguração do Poeme-se, o sebo de José Ribamar Silva Filho, vulgo Riba do Poeme-se, que havia deixado a Rua João Gualberto, na Praia Grande, onde o conheci ainda na adolescência, para funcionar apenas virtualmente – Riba estava vendendo livros, cds, dvds, gibis etc. apenas pela internet, mas como bom homem de vícios antigos não resistiu à saudade de abrir as portas físicas de sua casa. Literalmente.

Sorte a nossa.

Riba agora atende na Rua de Santo Antonio, na quadra entre Sete de Setembro e 13 de Maio, a mesma da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em frente à Praça Antonio Lobo, onde fica a recém-reformada Igreja de Santo Antonio, onde acontece um dos mais tradicionais arraiais da capital.

Mas tergiverso.

Ao lado do Papiros do Egito, da saudosa Moema de Castro Alvim, em L na Sete de Setembro a partir do Poeme-se de agora, estes foram os dois sebos mais importantes em minha formação de leitor, comprador compulsivo de livros, rato de sebo, enfim.

A noite de re/abertura do Poeme-se foi bonita. Por que não dizer: mágica. O dj Pedrinho Dreadlock comandou o som, que silenciava a cada rodada de poesia, dita sem amplificação, sob a lua que se somava às lâmpadas dos postes para iluminar os versos lidos em livros ou telas de celular. Uns se postavam de frente para a igreja; outros para o vale na contramão que vai dar na Rua do Egito.

Teria sido aniversário de Carlos Drummond de Andrade, 31 de outubro. Era aniversário de Carlos Drummond de Andrade: poetas não morrem. Ele foi um dos lembrados no recital. Ele, Roberto Piva, Waly Salomão, Paulo Leminski, Alen Ginsberg, Fabrício Corsaletti, Ferreira Gullar e tantos outros que minha preguiça de repórter vadio – que estava ali para rever amigos, bater papo, ouvir poesia, comentar política (impossível não fazê-lo nestes tristes tempos!) e beber – impediu de anotar.

Adriana Gama de Araújo inaugurou a noite lembrando Ginsberg – uma das organizadoras do sarau, ela me revelou a ideia de realizá-lo mensalmente, oxalá! Celso Borges lembrou Piva e Waly. O veterinário e inveterado colecionador de vinis Otávio Costa perdeu a timidez e mandou um Leminski, para minha surpresa (não pela escolha do poeta ou do poema). Márcio Vasconcelos, que fez um livro de fotografias baseado no Poema sujo de Gullar lembrou a importância e a necessidade do saudoso conterrâneo. Uimar Jr. lembrou Nauro Machado e Franck Santos mandou o vivíssimo Corsaletti. E tantos outros.

Riba, o anfitrião, esquivou-se de dizer algo, ao ser convidado por CB, agitador poético fundamental. Outros livreiros de uma espécie de triângulo literário do centro da capital estavam por lá: os indispensáveis Arteiro e Riba (o outro, apelidado Riba Careca, da Feira da Tralha) – este “corredor” sebístico, aliás, merece atenção (Homem de vícios antigos voltará ao tema).

“Esta máquina mata fascistas”, pregou em seu violão o bardo americano Woody Guthrie, “professor” de Bob Dylan. “Poesia mata fascistas”, lemos aqui e ali, sobretudo no triste momento político vivido no Brasil. A rua do Riba não foi interditada na altura de seu sebo, sua casa. Os poetas recitavam no meio da rua e foi louvável a postura da maioria absoluta dos motoristas, que preferiu aumentar o trajeto a interromper o curso dos poemas.

(Para) Sempre Drummond

Autorretrato e outras crônicas. Capa. Reprodução

 

Conhecedor ou não de poesia, a quem quer que se pergunte quem foi Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) certamente se seguirá a resposta: poeta. Poucos lembrarão que ele foi também contista, cronista, funcionário público e efígie na cédula de 50 cruzados novos, entre o fim da década de 1980 e início da de 90.

Quem se lembrar do mineiro apenas como poeta não está cometendo erro, crime ou pecado: é que mesmo escrevendo em prosa, o que Drummond fazia era poesia, como atesta o oportunamente recém-relançado Autorretrato e outras crônicas [Record, 2018, 255 p.; R$ 40], cuja primeira edição – póstuma – data de 1989. Quando lançado, o livro inaugurava um parque gráfico da editora; agora, celebra outra efeméride: os 75 anos (completados em 2017) da casa editorial. Organizado por Fernando Py, a folha de rosto do volume alerta: “edição única comemorativa”. Correi às livrarias, pois, os fãs do poeta – mesmo enquanto cronista.

O livro revela uma prosa delicada, colhida em jornais e revistas, apresentadas cronologicamente, a partir da que dá título ao volume, entre 1943 e 1970, versando por temas diversos: de flores, frutas e estrelas aos feitos da ciência, passando por futebol, recenseamento, a mineirice, o hippie “faça amor, não faça guerra”, escritores e escritoras obscuros/as à época – alguns ainda hoje. Ou mais ainda hoje.

Difícil escolher melhores momentos em um livro composto inteiramente deles. Seu obituário do pintor e compositor Heitor dos Prazeres (1898-1966) é simplesmente comovente, bem como o perfil do poeta Mário Quintana (1906-1994). Em Obrigado, Bahia, gaba-se (na falta de termo melhor) – “Jogando fora minha extraordinária modéstia”, começa o texto –, do dia em que seu poema Quadrilha foi lido por um deputado estadual na Assembleia Legislativa da terra de Caetano e Gil – citados na crônica.

Em A banda, crônica de outubro de 1966, publicada no Correio da Manhã, saúda Chico Buarque de Holanda, “um rapaz de pouco mais de vinte anos”: “que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente”, arremata, esperançoso (e certeiro), quando alguns críticos torceram o nariz ao compositor, apostando num modismo passageiro.

O que faz um livro como Autorretrato é, através de um grande autor, demonstrar a grandeza da crônica, gênero literário – e jornalístico – genuinamente brasileiro, infelizmente por vezes tido como menor. Em geral é o que se salva na memória dos leitores ao embrulhar de peixes na feira do amanhã.

Deixo-lhes com uma crônica de Autorretrato, livro cujo texto mais novo já conta quase 50 anos, provando que feliz ou infelizmente, Drummond segue atual.

QUANDO

Quando o poder, que emana do povo, deixa de ser exercido, ou contra o povo se exerce, alegando servi-lo;

quando a autoridade carece de autoridade, e o legítimo se declara ilegítimo;

quando a lei é uma palavra batida e pisada, que se refugia nas catacumbas do direito;

quando os ferros da paz se convertem em ferros de insegurança;

quando a intimidação faz ouvir suas árias enervantes, e até o silêncio palpita de ameaças;

quando faltam a confiança e o arroz, a prudência e o feijão, o leite e a tranquilidade das vacas;

quando a fome é industrializada em slogans, e mais fome se acumula quanto mais se promete ou se finge combater a fome;

quando o cruzeiro desaparece no sonho de uma noite de papel, por trás de um cortejo de alegrias especuladoras e de lágrimas assalariadas;

quando o mar de pronunciamentos frenéticos não deixa fluir uma gota sequer de verdade;

quando a gorda impostura das terras dadas enche a boca dos terratenentes;

quando a altos brados se exigem reformas, para evitar que elas se implantem, e assim continuem a ser reclamadas como dividendo político;

quando os reformadores devem ser reformados;

quando a incompetência acusa o espelho que a revela dizendo que a culpa é do espelho;

quando o direito constitucional é uma subdisciplina militar e substitui a disciplina pura e simples;

quando plebiscito é palavra mágica para resolver aquilo que a imaginação e a vontade dos que a pronunciam não souberam resolver até hoje;

quando se dá ao proletariado a ilusão de decidir o que já foi decidido à sua revelia, e a ilusão maior de que é em seu benefício;

quando os piores homens reservam para si o pregão das melhores ideias, falsificando-as;

quando é preciso ter mais medo do governo do que dos males que ao governo compete conjurar;

quando o homem sem culpa, à hora de dormir, indaga de si mesmo se amanhã acordará de sentinela à porta;

quando os generais falam grosso em nome de seus exércitos, que não podem falar para desmenti-los;

quando tudo anda ruim, e a candeia da esperança se apaga e o If de Kipling na parede não resolve;

então é hora de recomeçar tudo outra vez, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no terremoto.

Correio da Manhã, 14 de setembro de 1962 (p. 87-89)

Terça é dia de Choro

Foto: ZR (4/7/2017)

 

Terça à tarde, ou para ser mais charmoso, terça boca da noite. Há tempos eu devia a visita, o projeto já tem algum tempo. O Núcleo de Choro da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem) toca às terças-feiras, a partir das 17h, no Buriteco (Rua Portugal, Praia Grande).

A formação, regida e acompanhada pelos olhos brilhantes do professor Nonatinho, de percussão, responde a algumas indagações preocupadas deste boêmio: onde tocam os músicos formados pelas escolas de música locais? Por que não há eventos não noturnos de música? (esta pergunta chegou a ser feita no programa de rádio que apresento com Gisa Franco, o Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, ao vivo, por telefone).

São vários/as alunos/as, revezando-se no palco. Isto é, em uma, são várias formações musicais distintas, todas primando pela qualidade de repertório e execução. Modestamente afirmo: vale a pena!

Adentrei o Buriteco, digamos, por acaso. Já conhecia a casa, de outras ligeiras passagens. Restou-me de um desencontro com um amigo e um (re)encontro com outros, esta (pretensão de) crônica inspirada, sempre, obviamente, por Paulo Mendes Campos e adjacências.

Ricarte Almeida Santos ia dar aula e não se furtou a tirar onda: como é que podia, em plena terça à tarde, encontrar uma mesa formada pelo arremedo de cronista, o cineasta Francisco Colombo, o sociólogo Igor de Sousa e a engenheira Clariane Natali? Só restava fazer uma foto para comprovar – afora o casal Bruna e Max, que após cumprimentarmo-nos sentou-se numa mesa mais ao fundo.

Volto a pensar em Paulo Mendes Campos e naquela crônica de viagem em que ele, não encontrando bar aberto, teima, sempre há, sempre há, encontrando um, mais de meia noite. Não era o caso, pouco passava de boca da noite, 18h, cedo, programa familiar, vão e levem as crianças.

O repertório, impecável, passeava por Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Raul de Barros, Paulinho da Viola e Zezé Alves, entre outros grandes mestres. Uma armação de bumba meu boi ao lado do palco remetia ao período recém-encerrado, sob fortes chuvas fora de hora – Deus e São Pedro sabem o que fazem.

Não era acaso estarmos ali – Deus e São Pedro sabem o que fazem – e logo adentraram o recinto para somar-se às feras já presentes, e refiro-me ao palco, e não à plateia, o flautista João Neto, depois, e, antes, o violonista João Soeiro, aniversariante do dia, saudado com um merecido parabéns a você.

Pedi mais uma cerveja, sob protesto de meu companheiro de mesa. Aos garçons havia gracejado: eu fazia a reversão. Ele era um crente que eu havia convencido a beber após minha ladainha bebum.

Deixamos o recinto na contramão de onde eu havia estacionado: por solicitação da esposa, eu precisava arcar com as encomendas de uns Sousas. Incluí um para este que vos perturba, embora àquela altura, ainda não percebesse fome.

A sede é de voltar lá terça que vem.

Para ler e reler (e deixar mais doce a vida)

Trinta e poucos. Capa. Reprodução
Trinta e poucos. Capa. Reprodução

 

Qualquer assunto é tema para Antonio Prata e essa versatilidade também faz dele um grande cronista. Trinta e poucos [Companhia das Letras, 2016, 226 p.; leia um trecho] reúne um punhado de crônicas suas publicadas desde 2010 no jornal Folha de S. Paulo.

Do relacionamento à paternidade, passando por futebol, infância, tecnologia, Deus, Keith Richards, procrastinação, cirurgia plástica, cinema e muito mais, qualquer assunto é tema para Antonio Prata, insisto.

A crônica, esse gênero legitimamente brasileiro, tornado grande literatura por nomes como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Nelson Rodrigues, entre outros – não à toa todos citados na seleção de Trinta e poucos –, encontra em Antonio Prata um dos melhores nomes a garantir a continuidade desta tradição, hoje, no país.

Por detrás de textos aparentemente simples, descolados do compromisso com o factual, o calor da hora, tão caro às principais manchetes dos jornais, a crônica pode ser erroneamente vista como gênero menor. No fim das contas, tudo acaba forrando obra ou embrulhando peixe, como tira sarro o próprio Prata. E talvez aí resida a necessidade de o autor reunir as melhores em um livro, a que os afeitos às tecnologias podem achar desnecessário: livro? Que coisa mais obsoleta! Ainda mais com textos já publicados em jornal, outros torcerão o nariz.

Por detrás de textos aparentemente simples, insisto, toda a sensibilidade e um misto de erudição e cultura de almanaque do autor – em Saída para o mar, por exemplo, ele cita a Wikipedia como fonte. Engana-se quem pensa, no entanto, que é fácil ser cronista. Que é fácil ser Antonio Prata.

Filho do Mário (como assim, que Mário?, ele também uma referência, também personagem), Antonio Prata tem quase quarenta, como entrega o título do presente volume, e já tem, mesmo tão jovem, seu lugar garantido em algum panteão ao lado de todos os citados – inclusive Luis Fernando Veríssimo e Humberto Werneck, de quem também lembra em textos ao longo de Trinta e poucos, o bom humor sempre presente, outra característica sua.

A vida é que nem rapadura: é doce, mas é dura, diz o dito popular. Pode ser mais doce ou mais dura. Depende, certamente, se você lê ou não Antonio Prata.

Sambira

Retrato: Zema Ribeiro
Retrato: Zema Ribeiro

 

Raimundo Nonato Lopes da Silva tem 63 anos e nasceu em Guarimã, povoado de São Benedito do Rio Preto/MA, onde mora até hoje.

Ganhou o apelido de Sambira numa pelada jogada na juventude, num campo de futebol ainda existente e em uso na comunidade. Então goleiro, fez uma defesa e caiu abraçado à bola. “Parece uma mambira!”, gritaram alguns, de sua equipe e da adversária, comparando-o a uma espécie de tamanduá – ou gambá.

“Eu sou é a mãe bira, a mãe de vocês!”, retrucou o alcunhado, cuja reação e zanga inicial bastaram para que o apelido fosse mudado e pegasse para sempre.

Sambira é filho de dona Sebastiana, 83, a moradora mais antiga da comunidade centenária, cujos mais de 400 hectares são agora requeridos por uma suposta proprietária em ação de reintegração de posse. Basta uma visita e um passeio rápidos pela área para perceber quem são os verdadeiros donos da terra, os homens e mulheres-árvores, há tanto tempo ali enraizados.

Mael, um sobrinho de Sambira, está se formando em História e tem pronta uma monografia, que defenderá por estes dias, em que remonta a ocupação da área, desde o século XIX.

Um misto de Charles Bukowski, Pepe Mujica, Gabriel Garcia Marquez e Urtigão, o bronco barbudo da Disney, não necessariamente nessa ordem, nos lembrou sua feição, aos colegas de trabalho e a este cronista improvisado – viajei com outra tarefa, já cumprida, mas desde que o vi, ouvi e fotografei, a vontade de escrever sobre o personagem ficou me martelando o juízo.

Sambira vive da venda de peixes que cria em quatro tanques. Apesar da iminente ameaça de despejo, não perde o bom humor. O ótimo humor, eu diria. Riu e nos fez rir bastante ao longo da tarde em que passamos no local, tratados qual paxás, a peixe frito e juçara farta.

Ao ver um dos colegas passar por trás de uma jumenta e fazer um gesto, talvez por medo dum coice, mandou, para gargalhada geral: “esse aí é acostumado a pegar jumenta. A bichinha quando olha para ele já pergunta: “por que é que tu não veio onte, oooonte, oooooooonte!””, a corruptela do pretérito tornando-se onomatopeia do zurrar da fêmea do equus asinus.

Entre diversas outras – vez por outra me pego rindo sozinho –, contou ainda a história de um advogado que soltou dois presos em Chapadinha. Os apelidos dos liberados, que garantem a graça da história, são impublicáveis aqui, mas o causo foi recontado várias vezes ao longo da viagem, ou entre nós, ou pelo próprio Sambira, inclusive a secretários de Estado.

Sambira é daqueles que devolve a palavras como “gaiatice” e “molecagem” a nobreza que merecem, aquela porção menino que nós adultos deveríamos guardar para sempre.

Quase crônica em comentário a telefonema de ouvinte a rádio AM

O chargista Carlos Latuff dando a real sobre a redução da maioridade penal em charge de 2010
O chargista Carlos Latuff dando a real sobre a redução da maioridade penal em charge de 2010

 

Em comentário em rede social que cito de memória, Bruno Azevêdo afirmou, certa vez, que telefonemas a rádios AM dariam bons contos. Ou crônicas, já não lembro. Tão bons que bastaria gravar e transcrever as ligações e publicar. Escriba de raro talento, ele tem razão.

Como se o trânsito já não me estressasse o suficiente, normalmente dirijo ouvindo AM. Vez por outra sintonizo uma FM, a depender do horário, da qualidade da música tocada e, o que quase sempre enseja a mudança, das opiniões reacionárias propagadas pelas amplitudes moduladas: enojam-me mais as de certos colegas radialistas que as de ouvintes em geral.

O fato é que, hoje pela manhã, enquanto dirigia, após ouvir diversas notícias entre as quais as dos assassinatos de um vereador em Santa Luzia, domingo, e de um estudante, durante um assalto a ônibus na capital, ontem, o telefone começou a ser usado pelos ouvintes para as esperadas colheradas no angu.

No caso, a defesa da redução da maioridade penal é uma espécie de unanimidade burra, como advertiria Nelson Rodrigues. O ouvinte começa seu alô dizendo o nome e o bairro em que mora, depois saúda o locutor e os ouvintes da rádio e do programa. A certa altura da ligação, ouvimos um “eu sou policial também”. Depois emenda com um “não estou incitando a violência” para finalmente destilar sua opinião – veneno que ninguém pediu.

Antes de desligar, ameaça a torto e a direito: “não nasci com farda na costa nem tenho paixão por emprego: comigo é elas por elas. Adolescente vagabundo que vier se meter com soldado Carlos vai levar” – omiti o nome real do policial, mas o programa tem grande audiência, então é capaz de os poucos mas fiéis leitores o saberem.

Não culpo Carlos por sua postura pública. Embora ele não tenha dito na ligação se é policial civil ou militar, disse que a profissão “é de risco”. Neste aspecto ele sabe o que fala. Ademais, na hipótese de ser militar, repete a opinião dos hierarquicamente superiores, incluindo seus representantes na Assembleia Legislativa e Câmara Federal.

Feito Carlos, grande parte dos que defendem a famigerada medida apenas repete clichês surrados ouvidos aqui e acolá. Desconhecem, por exemplo, estatísticas que dão conta de que cerca de 1% dos homicídios são cometidos por pessoas com 16 e 17 anos. Ou seja: você não soluciona um problema e, de quebra, aprofunda outro, gravíssimo, inchando ainda mais os superlotados locais de privação de liberdade do falido sistema penitenciário brasileiro.

O homem ao lado inaugura reedição da obra de Sérgio Porto

Companhia das Letras reedita obra do autor, cronista bem humorado, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O homem ao lado. Capa. Reprodução
O homem ao lado. Capa. Reprodução

O homem ao lado [Companhia das Letras, 2014, 247 p., leia um trecho] apresenta um Sérgio Porto mais lírico, embora o bom humor permeie as crônicas ali selecionadas. O livro é a reedição de sua primeira coletânea de textos jornalísticos – isto é, publicados na imprensa [1958] – e A casa demolida [1963], que era uma versão ampliada do primeiro, incluindo as crônicas então selecionadas pelo próprio autor.

Sérgio Porto é o nome de batismo de Stanislaw Ponte Preta, multimídia antes do termo ser inventado: cronista, radialista, compositor, o bancário trabalhou ainda em teatro e televisão. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro e é responsável por uma galeria de personagens conhecidos, como Tia Zulmira, Rosamundo e Primo Altamirando, além do antológico e – infelizmente – atualíssimo Febeapá [a edição mais recente saiu pela Agir em 2006], o Festival de Besteiras que Assola o País.

Também são de sua lavra ditados populares cuja autoria acabou diluída de tanta repetição. Para ficarmos em apenas dois exemplos: foi ele quem usou pela primeira vez a expressão “mais perdido do que cego em tiroteio”. Ou o “samba do crioulo doido”, de fato um samba-enredo composto por ele, hoje em desuso após o advento do politicamente correto.

Publicadas entre 1952 e 1956 em veículos como a revista Manchete e os jornais Diário Carioca e Tribuna da Imprensa, as 71 crônicas reunidas em O homem ao lado atestam a proficuidade do gênero e do autor. Tudo é assunto para a crônica e ele escreveu um sem número delas. “Direis que homem no banheiro não é assunto de crônica. Talvez, minha senhora, talvez. Depende do homem, do banheiro, do cronista”, escreve em A janela de Marlene (p. 153). Sabia o que dizia. E mais ainda: sabia como dizê-lo.

Ao lado de nomes como Otto Lara Resende, Millôr Fernandes e Paulo Mendes Campos – autores também reeditados pela Companhia das Letras –, entre outros, Porto foi um dos responsáveis por “consolidar a crônica como a manifestação literária mais fecunda e popular do país”, como afirma o jornalista Sérgio Augusto no texto de apresentação de O homem ao lado – ele, o curador da reedição da obra de Porto pela editora. Uma pena a brasileiríssima crônica ter perdido espaço, salvo raras exceções em jornais da metade de baixo do mapa do Brasil.

A graça, o bom humor, o lirismo, a leveza e a elegância permeiam toda a obra de Porto, cuja reedição aparece em boa hora. “O sol entrava em suas frases por todos os lados”, atestou o escritor Barbosa Lima Sobrinho.

Bondes, traições, trajetos, quintais, lembranças da infância – muitas crônicas evocam a casa demolida que acabou por batizar-lhe um livro – vizinhas, corações partidos, sambas, boemia, jogo do bicho, repartições públicas, conversas ouvidas: tudo eram panos para as mangas de Sérgio Porto. Recortava “no violento sol da praia, pedaços dos jornais que lia sem parar, aproveitando o tempo. Pois era, como quase todos os humoristas brasileiros, um trabalhador braçal”, escreveu Millôr Fernandes em O Pasquim em outubro de 1970, num dos textos sobre Sérgio Porto trazidos no volume a guisa de posfácio – as coisas mudaram muito após quase 50 anos do falecimento do escritor e os humoristas já não são tão engraçados ou trabalhadores assim.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho”, escreveu Paulo Mendes Campos na Manchete de 30 de novembro de 1974 – o  texto saiu em O mais estranho dos países [Companhia das Letras, 2013] e completa o “posfácio” de O homem ao lado, ao lado do texto de Millor Fernandes. Ao leitor só resta constatar que tanta vida e tanto trabalho valeram tanto a pena.

[O Imparcial, domingo, 1º. de fevereiro de 2015]

Homens não podem fingir um orgasmo

Homens não podem fingir um orgasmo se não estiverem de pau duro — disse Sócrates a Xantipa, não sei exatamente em que circunstância. E disse mais: os homens não podem ficar de pau duro se não estiverem com tesão, mesmo tendo tomado alguma dessas pilulinhas mágicas cujo princípio ativo só funciona se turbinado por alguma dose de genuíno desejo sexual prévio. Tá na bula. Tá também no senso comum. O tautológico Conselheiro Acácio, personagem do Eça de Queirós que só dizia chavões e obviedades, poderia ter dito a frase. De pau mole, com certeza.

Já a mulher pode fingir um bom orgasmo a hora que quiser. Tanto a mulher do Conselheiro Acácio quanto todas as demais mulheres do mundo. Orgasmo animal, orgasmo lírico, orgasmo cósmico, a escolha é dela. E, se a trepada for apenas fonográfica, como nos antigos serviços de sexo por telefone, aí fica ainda mais fácil. Qualquer asmática em crise ou maratonista em fim de prova pode simular um orgasmo fonográfico espetacular sem nenhum esforço extra. A atriz e cantora Jane Birkin, que até onde eu sei não é asmática nem maratonista, não fez outra coisa diante de um microfone, uns cinquenta anos atrás, no Je t’aime, moi non plus, clássico romântico de bailecos, boates, hotéis de passe e das rádios dos anos 60. Nessa canção, a bela Birkin protagonizou um orgasmo sexual em parceria com seu então marido e espantalho particular, o compositor, ator, provocador, bebum e anarquista Serge Gainsbourg. Esse Gainsbourg, você sabe, é aquele sujeitinho feioso, baixinho, orelhudo e narigudo, do time do Belmondo. A feiura nunca o atrapalhou, nem lhe diminuiu o carisma, pelo contrário, e ele passou a vida colecionando beldades. Talvez sua frase mais conhecida seja: “A feiura é superior à beleza. A feiura fica, a beleza passa.”

Voltando ao Je t’aime, até hoje fico mexido ao ouvir o Gainsbourg fazendo a Birkin arfar seu orgasmo sonoro enquanto ele vai entoando com sua voz de bebum defumada em milhões de Gitanes sem filtro o grande verso da canção: Comme la vague irrésolue / je vais et je viens / entre tes reins… (“Como a onda irresoluta, eu vou e venho entre teus rins…”). Isso, em meio à melodia ultrarromântica desenhada com pungência no órgão elétrico. A melodia soava como a própria trilha da trepada que as vozes da Birkin e do Gainsbourg encenavam. Era como se o casal de gemedores apaixonados tivesse ido a um motel, ligado o FM e sintonizado justamente o Je t’aime, moi non plus, que passava, então, a ser a trilha sonora da fodelança real. Coisa fina e engenhosa, metalinguística e tudo mais, ouvida e apreciada por casais de quase todas as idades e classes sociais, sobretudo na hora do vamo-vê. Isso no Brasilzão jeca e conservador daqueles tempos, o mesmo que tinha visto se instalar a ditadura militar em 64. E com o Vaticano, ainda acatado cagador de regra na época, indicando o caminho do inferno a quem executasse ou apenas escutasse a música, sem falar no Gainsbourg e na Birkin, os protagonistas do pecaminoso ultraje, esses já com lote reservado na fornalha de Belzebu.

[trecho da crônica safada Catherine, Serge et moi, de O cheirinho do amor, que o grande Reinaldo Moraes lança daqui a 12 dias, o que, como qualquer lançamento seu (até mesmo não menos importantes textos na revista piauí, por exemplo), me deixa curioso e ansioso. Não é de meu feitio comentar aqui livros antes de lê-los, mas em se tratando de Reinaldo Moraes…]

A Real Grandeza de Edu Krieger

Impossível obedecer a recomendação de não fazer fotografias sem autorização prévia da produção (ou do espaço, sei lá). Fotosca: Zema Ribeiro
Impossível obedecer à recomendação de não fazer fotografias sem autorização prévia da produção (ou do espaço, sei lá). Fotosca: Zema Ribeiro

Sucessos é um nome bastante apropriado para o show que Edu Krieger apresentou sábado e domingo passados (6 e 7), de graça, no Espaço Furnas Cultural, na mítica Rua Real Grandeza, em Botafogo, Rio de Janeiro – este blogueiro assistiu ao segundo.

À frente do Edu Krieger Trio, como anunciado, acompanhado do irmão Fabiano Krieger (guitarra) e PC Castilho (flauta e percussão), Edu Krieger (voz e violão sete cordas) mostrou, em cerca de hora e meia de show, por que é um dos mais interessantes artistas da música brasileira da atualidade.

Completo, canta, toca e compõe como poucos e ouso mesmo dizer que Krieger é, apesar da pouca idade e tempo curto de carreira, apenas dois discos lançados – Edu Krieger (2006) e Correnteza (2009) –, um dos maiores cronistas musicais já surgidos neste Brasil de Noel Rosa e Chico Buarque, com quem sua obra dialoga diretamente.

Suas personagens e paisagens têm força e categoria para estar à altura deste e daquele. Basta ver os casos de Graziela, A mais bonita de Copacabana, Pole dance e Maria do Socorro (gravada por Maria Rita) – seus discos podem ser ouvidos na íntegra em seu site.

Aliás, para continuarmos às comparações a Noel e Chico, nunca o diminuindo, Krieger é um grande fornecedor de matéria-prima – ou obras primas, melhor dizendo – a nomes como a citada Maria Rita (Ciranda do mundo e Novo amor, além da citada), Roberta Sá (Novo amor), Aline Calixto (Saber ganhar), Pedro Miranda (Coluna social) e Ana Carolina (Combustível, Resposta da Rita e a citada Pole dance), entre outros, o que faz com que você muito provavelmente conheça-o, mesmo que (ache que) nunca tenha ouvido falar em seu nome.

“Eu gostaria muito que todos os políticos, tanto na esfera federal quanto na estadual, se sentissem homenageados com esta”, anunciou antes de tocar Coluna social, cujo verso inicial diz: “o Cinismo casou/ com dona Hipocrisia/ teve uma grande festança/ no apartamento da Demagogia”.

Como bom cronista que é, de língua ácida e afiada e pensamento ligeiro, o filho do maestro Edino Krieger sabe que sua opinião é importante e sobre determinados assuntos nos quais se quer e se deve meter o bedelho não dá para esperar disco. Assim vem pitacando sobre questões importantes se utilizando do youtube. São deliciosos e contagiantes seus hits Aos vinte e sete – decassílabo cujo mote afirma “rock’n roll pra valer foi Noel Rosa/ que partiu sem chegar aos vinte e sete –, Desculpe, Neymar – sobre a Copa do Mundo de 2014 –, e a Resposta ao funk ostentação – cujo ritmo foi marcado nas palmas pela plateia.

Ele cantou-as no show e comentou sobre as polêmicas geradas pelas duas últimas. “Me chamaram de coxinha, de reacionário. Até de eleitor do Aécio eu fui xingado”, disse entre risos, seus e da plateia. “O problema não é a ostentação do funk. O autêntico funk carioca, que mistura nossas raízes africanas ao eletrônico, é uma das mais importantes músicas surgidas no Brasil nas últimas décadas e eu mesmo quero aproximar essa relação da música brasileira com o funk”, afirmou. “De repente eu passei a ser chamado de comunista, marxista. O problema não está na ostentação do funk, mas na ostentação, seja ela no sertanejo, no camaro amarelo”, continuou.

Entre outras, Krieger cantou ainda Temporais (parceria com Geraldo Azevedo, “um cara que sempre foi meu ídolo, na MPB”, afirmou), Correnteza, Clareia e Rosa de açucena. No bis, uma versão eletrizante do afrossamba Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Edu Krieger está definitivamente entre os grandes.

Obituário: Ubiratan Teixeira

Ubiratan Teixeira perdeu ontem (15) a batalha que travou nos últimos meses contra um câncer no estômago. Nome fundamental para a literatura, o jornalismo e o teatro maranhenses, Bira, como era conhecido entre os íntimos e os nem tanto, deixa importante legado nas áreas em que atuou.

As áreas, em sua obra, aliás, não raro se confundiam. Transitava com desenvoltura por elas, às vezes mesclando-as. Suas crônicas em O Estado do Maranhão, jornal em que trabalhou desde a fundação, não raro deixavam o leitor na dúvida: o que ali havia acontecido de verdade e o que era pura invenção da cabeça mágica de Bira? A pulga na orelha do leitor que só os melhores cronistas conseguem plantar.

No teatro era autor e crítico. Seu grande Pequeno Dicionário de Teatro é obra que o torna merecedor de respeito em qualquer canto e se Bira não foi mais famoso ou conhecido (respeitado era e continuará sendo), certamente é por ter optado pela província. Seu conto Vela ao crucificado rendeu festejadas adaptações ao teatro, por Wilson Martins, e ao cinema, por Frederico Machado.

Encontros – Em 2007 sua novela Labirintos venceu uma das categorias do último edital para literatura lançado pela Secretaria de Estado da Cultura. Vez por outra, à época, ele ia à sede do órgão, na Praia Grande, saber do desenrolar das coisas para a publicação, prevista no regulamento do certame. Os poucos encontros que tivemos sempre foram muito agradáveis: Bira era muito educado, simpático e engraçado. Adorava ouvir suas lembranças de episódios hilários somadas às de José Maria Nascimento, Nauro Machado e Wilson Martins, gargalhadas às quais por vezes somei as minhas, quando eles se reuniam, para água, cafezinho e prosa, na sala que eu ocupava (naqueles idos eu chefiava a Assessoria de Comunicação da Secma). A burocracia emperrou e as obras vencedoras do edital lançado pelo governo Jackson Lago só foram publicadas no governo Roseana Sarney, quando o golpe judiciário tirou aquele do poder.

Ubiratan merece mais respeito. Foto: Murilo Santos

 

O Estado da lambança – Se por um lado a oficialidade, em notas de pesar e fotografias aos pés do féretro, parece lamentar realmente a perda de Ubiratan Teixeira, por outro sua memória parece já ameaçada: qual Tião Carvalho apontado como João do Vale, no Parque Folclórico da Vila Palmeira, órgão público estadual, o velho e saudoso Bira aparece, no mesmo “palco”, como Odylo Costa, filho, entre gente – inclusive o com quem lhe confundem – de sua mesma envergadura: Ferreira Gullar e Josué Montello. Nem comentarei a grafia do nome do jornalista que batiza outro importante órgão público estadual.

Homenagem – Ubiratan Teixeira já havia sido escolhido pela Fundação Municipal de Cultura como um dos homenageados da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que acontecerá em novembro.

Outra grande perda – Em pouco mais de um mês, é a segunda grande perda para as letras maranhenses: seu confrade na Academia Maranhense de Letras (AML) José Chagas faleceu em 13 de maio passado.

Sobe José Chagas, maior versejador destas plagas

Conheci José Chagas (Piancó/PB, 29/10/1924 – São Luís/MA, 13/5/2014) primeiro por sua poesia, simples, mas não simplória, portanto cativante. Paixão à primeira leitura. Durante certo tempo acompanhei suas crônicas sabáticas nO Estado do Maranhão, valendo-me da assinatura de algum lugar em que trabalhei.

Ainda lembro-me do impacto de ouvi-lo abrindo XXI, livro-disco de Celso Borges. Depois o conheci pessoalmente, já velho e frágil. Dizer conhecer, neste caso, talvez soe um exagero: eu não era um seu amigo, nem fomos próximos, vi-o no máximo duas ou três vezes, em geral em eventos. Numa Feira do Livro o ouvi falar, por ocasião do lançamento de algum de seus muitos livros.

Ele não tardaria a abandonar a coluna e deixar leitores órfãos de sua pena – perdoem se não lembrar aqui a ordem precisa em que os fatos se deram. Depois deixaria de lançar livros. Dizia ter abandonado a poesia. Com sua subida – o poeta faleceu às 13h de hoje, após dias internado em um hospital da capital – familiares certamente descobrirão material inédito. Chagas pode até ter abandonado a poesia, mas esta certamente não o abandonou.

Uma vez pensei em entrevistá-lo por ocasião de alguma efeméride de Marémemória (1973), seu livro-poema tornado peça multimídia (1974) pela trupe do Laborarte, donde vem essa imagem de Josias Sobrinho e Cesar Teixeira que encabeça este blogue. Por qualquer motivo não o fiz.

Como até agora não escrevi sobre o lindo A palavra acesa de José Chagas, obra-prima lançada no posfácio de 2013, pelas mãos “cavando a terra alheia” de Celso Borges e Zeca Baleiro, um disco fundamental, imprescindível. Como a própria poesia de José Chagas.

A exemplo de outros pa/lavradores que de alguma forma relacionaram poesia e música, Chagas será lembrado sobretudo por Palafita (José Chagas/ Fernando Filizola/ Toinho Alves) e, principalmente, Palavra acesa (José Chagas/ Fernando Filizola), versos seus musicados pelo Quinteto Violado ainda na década de 1970 – a segunda fez estrondoso sucesso cerca de 15 anos depois, quando escolhida para trilha sonora de uma novela da Rede Globo. Ambas as faixas estão em A palavra acesa de José Chagas, recriadas, a primeira por Lula Queiroga e Silvério Pessoa, a segunda por Zeca Baleiro.

Era certamente um de nossos maiores poetas, mas nem isso se considerava. E não por modéstia, já que afirmava ser o maior versejador que conhecia. Nesse quesito, todo mundo está certo, todo mundo tem razão. Chagas era grande no que fazia.

Deixa mais de 20 livros publicados, entre os quais destaco (diante da importância no conjunto da obra ou por questão de gosto pura e simples) Marémemória (1973), Lavoura azul (1974), Alcântara – negociação do azul (ou A castração dos anjos) (1994), De lavra e de palavra (ou Campoemas) (2002) e Os canhões do silêncio (2002), entre outros. Obra vasta e profunda que merece ser (mais) conhecida – ainda é tempo.

O lirismo de Paulo Mendes Campos revisitado

O amor acaba. Capa. Reprodução

O título O amor acaba [Companhia das Letras, 280 p., 2013] pode soar pessimista, mas ao leitor menos avisado, que não conhece o autor, ou dele não lembra, será quase certeza do contrário: amor à primeira leitura, o amor começa.

Um dos “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, como classificou o amigo Otto Lara Resende – um deles – sobre grupo completado por Hélio Pelegrino e Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos é desde sempre um dos maiores cronistas do Brasil.

Talvez dizer isso hoje soe fácil, a crônica, este brasileiríssimo gênero, caindo em desuso; mas não o era quando o mineiro ocupou redações cariocas, tempos de Antonio Maria, Rubem Braga, de Drummond e dos próprios colegas citados, para ficarmos em poucos – e grandes – exemplos.

As “crônicas líricas e existenciais” – o subtítulo – do volume (leia três textos, incluindo a crônica-título) revisitam um Paulo Mendes Campos entre o amor, o cotidiano, a boemia, o futebol, a poesia. Poesia, aqui, deixemos claro, tanto o escrever em verso responsável pela estreia literária do autor, quanto seu texto em prosa – as crônicas deste volume carregadas de… poesia!

Selecionadas por Flávio Pinheiro – que assina a apresentação do volume. Ivan Marques assina o posfácio –, as crônicas deste O amor acaba foram publicadas originalmente em jornais e revistas entre 1951 e 1990, a maioria em Manchete, mas também no Correio Paulistano, Diário Carioca e Jornal do Brasil, além dos livros Homenzinho na ventania (1962), Os bares morrem numa quarta-feira (1980) e Diário da Tarde (1981) – recentemente relançado pelo Instituto Moreira Sales, no formato pensado pelo autor, assunto para outra resenha. Como também merece outra resenha O mais estranho dos países – Crônicas e perfis (2013), também publicado pela Companhia das Letras.

Com sua leveza e lirismo, Paulo Mendes Campos permanece atual e sua leitura tem muito a nos ensinar, de estudantes do ensino fundamental – onde o conheci em livros de gramática e paradidáticos – a jornalistas, mas não só. A quem se interessa pela vida e pelo que de mais prosaico esta tem. Ou a quem precisa, vez por outra, dar um tempo no corre corre para observar o que realmente importa: o canto de um passarinho, o sorriso de uma criança, um boteco com os amigos, um beijo em quem se ama, uma crônica de Paulo Mendes Campos.

Lembranças da infância com bom humor

Antonio Prata é um de nossos mais charmosos cronistas em atividade, e aqui poderia estar me referindo ao homem, mas falo da obra. Com elegância, idem, ele ocupa uma coluna dominical na Folha de S. Paulo, dono de um estilo fino, inconfundível.

Nu, de botas [Companhia das Letras, 2013, 144p., leia a primeira crônica], seu novo livro, reúne divertidas histórias de sua infância, numa mescla de memória e ficção – não é possível que apenas um moleque tenha sido agraciado com tantas experiências hilariantes como as que povoam as páginas do livro.

As primeiras descobertas, as brincadeiras e os brinquedos, a vizinhança num bairro de classe média em São Paulo nos anos 1980, a admiração pelo palhaço Bozo, o maior astro da televisão de então na inocente opinião dos petizes, até a descoberta das revistas de sacanagem e do amor, não necessariamente nessa ordem. Nada fica de fora do crivo memorialístico e do talento de ficcionista do escritor, o leitor não suspeita onde termina um e começa o outro, tão habilidoso é o autor na condução dos enredos – para quem não sabe, por exemplo, Antonio Prata integrou o elenco de roteiristas da novela Avenida Brasil.

Embora as histórias sejam independentes entre si, a coleção de crônicas pode ser encarada como um romance, já que o leitor não vai conseguir parar de rir e consequentemente desgrudar do livro antes de terminá-lo. Não há um rigor por lê-las na ordem em que aparecem, mas como as próprias experiências infantis, cada leitor se relacionará com os textos de maneira diferente, uns certamente voltando páginas para reler e garantir ainda mais risadas.

Meu personagem da semana: Fluminense

“Não se diga, porém, que faltou alegria à nossa franciscana vitória de domingo. E pelo contrário: houve alegria até demais. Quando acabou o jogo, a torcida invadiu o campo. Vi garotos, de lábio trêmulo e olho rútilo, apalpando um Pinheiro, ou um Waldo, como se um ou outro fosse um César conquistador. Era a vitória que nos subia à cabeça e nos transfigurava. Dir-se-ia uma euforia de campeonato do mundo. E já que um feito tão humilde nos parecia tão deslumbrante, eu me convenci, de vez, que o Fluminense era, de fato, o coitadinho do ano”.

*

Nelson Rodrigues em crônica de 11 de outubro de 1958 (o título é o que roubo ao post). Está no calhamaço O berro impresso nas manchetes (Agir, 2007).

Copio o trecho final da crônica, que falando de outra coisa, começa assim: “Um amigo meu, “pó-de-arroz” doente, faz o exagero melancólico”. Abaixo, um amigo meu, “pó-de-arroz” doente, num exagero captado até pelas câmeras da Rede Globo:

Rogério Tomaz Jr. conta os títulos brasileiros de seu tricolor carioca

A ele, que engraçadamente ilustra o post, e a outros ilustricolores, Cinthia Urbano, Gisele Brasil, João Pedro Borges, Luís Antônio Câmara Pedrosa e Márcio Jerry, dedicamos o Nelson Rodrigues acima, com os parabéns pelo título, nada melancólico, nada coitadinho. Fred explica!