O crítico

O jornalista Pedro Alexandre Sanches está em São Luís a convite do Sesc/MA. Ele ministra desde sexta-feira (22) até amanhã uma oficina de Escrita e Crítica Cultural, dentro da programação da Mostra Nape – Napoleão Ewerton, que acontece no Condomínio Fecomércio (Av. dos Holandeses, Renascença).

Sanches é um dos idealizadores do Farofafá, site especializado em jornalismo musical, e atualmente é um dos editores de cultura da revista semanal CartaCapital, ao lado dos jornalistas Eduardo Nunomura e Jotabê Medeiros, seus parceiros também de Farofafá.

Ex-crítico do jornal Folha de S. Paulo e ex-colunista da revista Caros Amigos, é ainda autor dos livros Tropicalismo: decadência bonita do samba (2000) e Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (2004), ambos publicados pela Boitempo e fora de catálogo há algum tempo.

No carro, entre o almoço e a visita ao Sesc, antes do primeiro dia de oficina, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

À esquerda, Pedro Alexandre Sanches em ação durante a oficina de Escrita e Crítica Cultural. Exercício prático com a turma: entrevista coletiva com Vicente Melo (ator que interpreta João do Vale) e Celso Brandão (diretor do Teatro Arthur Azevedo e idealizador do musical “João do Vale: o gênio improvável”). Foto: Marla Batalha

Como e quando surge a ideia do Farofafá? O nome vem da música do Mauro Celso. Por que ela e não outra?
Essa semana mesmo eu estava ouvindo Farofafá, estou escrevendo um livro falando de vários discos da música brasileira e o disco do Mauro Celso é um dos que eu falo. É uma música muito maravilhosa. Farofa é aquela refeição que tem uma base básica, de farinha, e você coloca o ingrediente que você quiser, cada um coloca a seu gosto. A sua farofa é diferente da minha, minha farofa pode ter Mauro Celso, a sua pode ter Joelma, e de qualquer maneira a farofa é um alimento popular, talvez as elites não apreciem tanto por que valem ingredientes chulos, digamos assim, azeitona, sei lá o quê. Mas a ideia é isso, estou brincando, mas falando sério: todos os ingredientes fazem parte da música popular brasileira, tudo o que você quiser comer e for gostoso pro seu paladar. Então a ideia original do Farofafá é essa. Ele nasceu no seguinte contexto: meu segundo emprego tinha sido a CartaCapital, eu saí de lá em 2009, fiquei fazendo frila, e o Eduardo Nunomura, meu parceiro, meu colega, meu amigo, desde que a gente fez faculdade de jornalismo juntos, falava: “você tem que ter seu site, você tem que ter seu site, você tem que ter seu site”. E ele foi me ajudar a fazer meu site, e a gente foi tentar uma Lei Rouanet pra esse site. No processo a gente foi chegando a várias conclusões: não deveria ser o site do Pedro Alexandre Sanches, que devia ser uma coisa mais legal, podia ter uma ideia por trás, um conceito. E meio assim, no susto, na garra, a gente ganhou essa Lei Rouanet, nunca conseguiu captar um centavo sequer, então o Farofafá se mantém desde 2011, estreou no dia 13 de maio de 2011, data não casual, é o dia da libertação dos escravos, tem oito anos, e nunca viu um centavo até hoje. Viu alguns, alguns centavos a gente conseguiu, mas não foram muitos.

Hoje o Farofafá é tocado pelo trio de editores de cultura da CartaCapital. Como é que Jotabê chega e como é a relação do site com a revista?
A gente começa eu e o Edu apenas, ficamos juntos uns três anos, no começo a gente era bem ativo, tem umas matérias bem legais, tipo, Mano Brown é o principal intelectual brasileiro, é uma matéria do Eduardo, uma dissertação de mestrado que defendia essa bandeira, tem muita visualização, é um dos textos mais lidos do Farofafá até hoje. Fomos indo, fomos fazendo dentro desse princípio da mistura musical, pode falar de brega, pode falar de rap, pode falar de forró, axé, tudo. E o Jota é um parceiro desde sempre. Eu era o jornalista de música da Folha, ele era o do Estadão, a gente se conhecia pouco, se cruzava por aí nas pautas da vida e o Edu, na verdade, não sei se estou deixando de citar algum amigo do Edu, mas meio que eu e Jotabê éramos os melhores amigos do Edu, que era amigo do jornalista de música da Folha e do jornalista de música do Estadão. E aos poucos ele começou a tentar unir os dois, nunca houve, que eu saiba, nenhum empecilho para que eu e Jotabê fôssemos amigos, mas o Edu sacramentou isso. E isso foi por volta de 2014, portanto, o Farofafá já tinha uns três anos. O Jotabê vinha enfrentando dificuldades de emplacar matérias importantes no Estadão, onde ele trabalhava e a gente começou a publicar umas matérias de política cultural, que Jotabê ou fazia ou ajudava a gente a fazer, que foram matérias muito importantes também, naquele momento que a Dilma tinha acabado de ser eleita e nomeou a Ana de Holanda ministra da cultura, o que era um despropósito, uma pessoa totalmente despreparada, mal sabíamos nós que viriam pessoas muito mais despreparadas para a cultura, mas aquilo já era intolerável pra gente, então a gente fez umas matérias bem engajadas, por que a Ana de Holanda chegou destruindo tudo o que o Gilberto Gil [ministro da Cultura nos governos Lula] e o governo Lula tinham feito. Foram matérias que o Jotabê fez, que repercutiram muito e a partir desse momento o Jotabê ficou mais unido com a gente, mais colado. Eu não sei te dizer exatamente a sequência das coisas, mas os anos passaram, o Jotabê saiu do Estadão, nós levamos adiante o Farofafá, já os três nessa ocasião, e surgiu a oportunidade de a gente editar a cultura da CartaCapital. Foi uma coisa muito sem querer. O Farofafá funcionou independente por uns dois anos e depois a CartaCapital passou a ancorar, isso por que a gente já tinha uma relação anterior, eu já tinha trabalhado lá, tinha uma boa relação com eles, a gente acabou levando o Farofafá pra lá, dentro de um processo deles de congregar um monte de blogues progressistas, essa coisa toda. A gente estava nesse momento e pintou a chance de a gente se responsabilizar pelo conteúdo da revista também, que é um arranjo bem maluco, bem novos tempos, precariado. A gente não é funcionário da CartaCapital mas cuida de todo conteúdo [de cultura] da revista, que são oito páginas semanais. Tem dado super certo, a gente está super feliz, a gente adora o Mino [Carta, jornalista, fundador da CartaCapital], tem altos embates com ele, de concepções de cultura e tal, mas por enquanto está dando certo. Fizemos dois anos no final do ano.

Você está vindo à São Luís novamente para ministrar um curso pelo Sesc. Fala um pouco desse curso e de tuas expectativas em relação à participação dos inscritos.
Se não me engano eu vim três ou quatro vezes para São Luís. A primeira com Rita Ribeiro, hoje Rita Benneditto, lá nos anos 90, foi maravilhoso. Depois eu vim no festival BR-135, foi louquíssimo por que eu aproveitei a vinda e voltei pela BR-135. Vim pro festival e voltei de ônibus, percorrendo o Brasil por dentro, sem ser pelo litoral, percorrendo o Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Agora volto, sei lá, vamos dar um laboratório de jornalismo cultural, seja lá o que isso for. Acho que assunto não falta, o jornalismo está em crise, o Brasil está em crise, está tudo em crise, a cultura está em crise, Bolsonaro está querendo matar de inanição principalmente a cultura, mas acho que o jornalismo também, então eu acho que não falta assunto pra gente debater, teremos uma turma de 20 pessoas, espero que seja uma turma bem bacana, pra gente dar asas à imaginação.

Você falou que o jornalismo está em crise. Como você avalia a produção em jornalismo cultural no Brasil e, fora vocês três da CartaCapital, que outros nomes você destacaria, que têm te chamado a atenção? Da nova e da velha guarda, gente que fez tua cabeça e continua escrevendo, ou gente que surgiu agora…
Houve realmente uma dizimação. Eu sou mais do jornalismo musical, muitas vezes eu vou entrevistar ou fazer matérias sobre músicos e é recorrente, todos eles dizem a mesma coisa: “acabou a crítica musical, não existe mais”.

Acabou qualquer crítica, na verdade, não é?
É, eu tenho dúvidas. É um bom assunto pra gente debater lá no curso. A crítica não acabou, ela migrou para a famigerada caixa de comentários. Quando tinha blogue, o blogue tinha caixa de comentários, hoje em dia os portais ainda têm, é aquela carnificina, mas aquilo ali, assim como eu em 1997 falava horrores do Caetano Veloso, do Djavan, na Folha de S. Paulo, hoje em dia o cidadão comum fala horrores sobre o Lula ou a Dilma ou o Bolsonaro no espaço que ele tiver, pode ser a caixa de comentários da Folha, pode ser o facebook ou o twitter. Na verdade, os formatos esfacelaram, houve uma explosão e estilhaços pra tudo que é lado. O que era concentrado, você podia ir no jornal ou na revista e encontrar a crítica nossa de cada dia, hoje em dia ela está por todos os lugares. Então, na cultura, fica essa impressão de que ela acabou. E aí entram outras questões, a gente estava conversando sobre isso no almoço: aparece o youtuber, que é o crítico dos novos tempos, que é um cara que também vai lá e dá um monte de opinião, é o bonzão, e fala e acontece, e tem milhões de espectadores, e algum dia alguém descobre que esse cara está recebendo para falar de um livro sem ter lido o livro. E aí se descobre que não só é um crítico como é um mau crítico, por que ele não ouve o disco, ele não lê o livro, ele só recebe uma quantia de dinheiro para escrever alguma coisa e dar publicidade para aquilo. Essas coisas não são crítica cultural, muito embora elas frequentem, assim como a azeitona frequenta a farofa, o youtuber frequenta a crítica cultural.

Mas isso que você está dizendo não acaba por corroborar com essa tese da morte da crítica? Comentarista de portal não é crítico, embora ele emita uma opinião sobre uma obra, assim como o youtuber não é um crítico por que ele nem lê o que está comentando. Do ponto de vista da qualidade da crítica, da credibilidade e da seriedade da crítica.
Mas veja: eu também não era. Essa é a outra volta do parafuso. Por que eu fiz jornalismo. No jornalismo eu estudei história do jornalismo, sociologia, teorias sobre o jornalismo televisivo, eu estudei um monte de coisa, mas eu não estudei crítica, não aprendi a ser crítico na faculdade, foi uma coisa meio no fazer diário. Chegar na Folha de S. Paulo e entender que a Folha gostava que todo mundo falasse mal de tudo, aí eu comecei a falar mal dos cantores, e funcionou, eu fiquei 10 anos lá. Mas não era uma coisa científica ou estudada ou, sei lá, então, na verdade, eu acho que toda geração tem críticos mal formados, eu fui o da minha geração, pelo menos lá no comecinho eu fui, em algum momento eu fui.

Mas em algum momento você aprendeu.
Essa é uma questão: talvez eles nunca aprendam. Ou talvez eles aprendam e a gente vai queimar nossa língua.

O que esperar da mordaça do governo Bolsonaro?
Acho que não vai funcionar. O Bolsonaro só vai fazer mordaça se ele merecer, se a gente se acovardar. São três meses, é muito pouco tempo, mas assim, todo mundo está falando o que quiser. Quem está falando muito é por que quer falar muito, quem está falando pouco é por que quer falar pouco. Quem estiver acovardado, com medo de criticar ou de fazer cultura ou de fazer peça, ou de gravar um disco falando mal do Bolsonaro, eu acho que a sociedade que se autoamordaça [se interrompe]. Eu próprio, confesso, estava com muito medo, que ele ia reprimir geral, tudo. Seja dita a verdade, ele está reprimindo no sentido econômico, ele está tirando a grana, aí a gente vai ter que dizer se precisa de grana pra criticar ele ou se pode criticar de graça.

Zeca Baleiro relê assuntos populares e lados b de Zé Ramalho

Chão de giz. Capa. Reprodução
Chão de giz. Capa. Reprodução

 

Há quase 20 anos, quando estreou no mercado fonográfico com Por onde andará Stephen Fry? [1997], Zeca Baleiro já mostrava a que veio. Revelou-se compositor de talento, acima da média, além de intérprete original. Em um disco quase completamente autoral, gravou Essas emoções (Donato Alves), toada do bumba meu boi de Axixá.

Parte da crítica, mais acomodada e afeita a rótulos, não hesitou em cravar no artista que então aparecia a alcunha de “o novo Zé Ramalho” ou coisa que o valha, talvez por conta da proximidade temática de Heavy metal do senhor, que abre a estreia do maranhense, e A peleja do diabo com o dono do céu, faixa título do segundo disco do paraibano – a análise, com quase duas décadas de distância, é do próprio Zeca Baleiro, em texto de apresentação de seu novo trabalho.

Em Vô imbolá [1999], seu segundo disco, Zé Ramalho daria as caras – e a voz. Cantariam juntos Bienal, música de Baleiro inspirada no universo dos repentes e violas, em que tira um sarro do mercado de artes.

Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho surgiu após um desafio aceito pelo primeiro, não após certa hesitação. Com curadoria de Monique Gardenberg, o projeto BBCovers, do Centro Cultural Banco do Brasil, teria diversos artistas interpretando a obra alheia, e ao maranhense cabia justamente a obra do “admirável bardo” paraibano. Há alguns anos, Baleiro havia dividido um disco de inéditas com Fagner [Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, de 2003], outro nome da chamada geração Nordeste 70, outro artista admirado pelo garoto nascido na terra de João do Vale na década anterior.

Lançado em cd e dvd, Chão de giz passa por grandes hits de Zé Ramalho, repetidos à exaustão por qualquer cantor em qualquer barzinho, mas traz também lados b. “Um “tributo” a um cara como Zé, com cerca de 40 anos de carreira e um repertório consolidado, não poderia omitir seus sucessos populares, concorda? Mas fazer um show só com os hits seria tedioso e acomodado. Juntei as canções-estandartes, como Avohai e Admirável gado novo a lados b que gosto muito, como Um pequeno xote e Kamikaze, além de algumas pérolas esquecidas”, contou Baleiro com exclusividade ao blogue.

Para Ave de prata, que abre Chão de giz, Zeca Baleiro (voz, violão, ukelele e guitarra) chega de capa e chapéu, acompanhado por Adriano Magoo (teclados, acordeom, violão e vocais), Fernando Nunes (contrabaixo, violão sete cordas, triângulo e vocais), Kuki Stolarski (bateria, pandeiro, zabumba, violão e efeitos), Pedro Cunha (teclados, acordeom, sampler, escaleta e vocais) e Tuco Marcondes (guitarra, violão, mandolin, sitar, banjo e vocais).

O próprio Zeca Baleiro considera a experiência curiosa, já que em sua fase de barzinhos, antes de deixar São Luís e estrear em disco, não lembra de ter cantado Zé Ramalho. “Não me lembro de ter cantado Zé quando cantava na noite. Meu repertório era muito insólito, talvez por isso não tenha feito “sucesso” como músico de bar [risos]. De todo modo, é certamente uma volta à origem, à época da minha formação, de quando começava a tocar violão e surgia essa turma do Nordeste – Zé, Belchior, Fagner, Ednardo, Alceu [Valença], Geraldo [Azevedo], Vital [Farias]”, enumera.

No dvd há projeções de Ivan, o terrível [1944], de Sergueï Einsenstein, ilustrando Kriptônia, e Powaqqatsi [1988], de Godfrey Reggio, em Admirável gado novo, num interessante diálogo visual com as músicas, de certo modo ajudando a garantir certo tom sombrio, talvez apocalíptico, profético, para ficar em adjetivos quase sempre usados para se referir ao repertório ramalheano. “É estranho, porque não é Brasil, mas tem tudo a ver”, afirmou Baleiro sobre a segunda, como nos conta a diretora Monique Gardenberg em texto de apresentação ao projeto.

Em alguns momentos Baleiro suaviza Ramalho, noutras mantém os arranjos próximos aos originais, sempre com uma pegada original, sem se contentar com o conforto da posição de cover. Ele é parceiro de Zé Ramalho em O rei do rock, música já gravada pelo homenageado em Parceria dos viajantes [2007]. “Eu escrevi a letra de O rei do rock inspirada no Zé, na sua persona artística, esse misto de caubói, profeta, justiceiro, visionário. Ele musicou e gravou, numa onda meio “rock cigano”, mas refiz o arranjo e o rock ganhou uma pitada de rap”, comentou. Em Bicho de sete cabeças [Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Renato Rocha], Baleiro opta pela versão instrumental, anterior à com letra, que já tinha gravado para a trilha do filme homônimo [2001], de Laís Bodanzky.

Em roteiro bem construído e edição caprichada, Chão de giz guarda ainda ótimos momentos em seus extras. Quando canta Frevo mulher cita Bob Dylan – artista reverenciado tanto por Baleiro quanto por Ramalho – e é imediata a cumplicidade da plateia; lá também está o registro da única música não composta por Zé Ramalho, mas cuja gravação definitiva, inclusão em trilha de novela e execução à exaustão, fazem muita gente crer nisso: Entre a serpente e a estrela [de Frevoador, 1992], versão de Aldir Blanc para Amarillo by morning (Terry Sttaford e P. Fraser).

O próprio Zeca, antes de aceitar o convite para reler a obra do autor de Vila do sossego, afirmou, também no texto de apresentação, a admiração pela obra de outros nomes da música brasileira, entre os quais Luiz Melodia, Martinho da Vila, Tom Zé, Jackson do Pandeiro e Sérgio Sampaio, de quem já produziu disco póstumo [Cruel, de 2005] e relançou Sinceramente [1982], por seu selo Saravá Discos.

Sabedor de sua citada admiração por outros nomes, sobretudo os nordestinos surgidos na década de 1970, indago-lhe se há algum outro artista com quem Baleiro tenha vontade de dividir disco, show e/ou se tornar parceiro. Ele responde, terminando a conversa com um sorriso: “Todos. A obra de Belchior merece um belo tributo. Mas minha carreira de “crooner da caatinga” se encerra aqui [risos]”.

*

Confiram Zeca Baleiro em Não existe molhado igual ao pranto [Zé Ramalho e Lula Côrtes]:

O homem ao lado inaugura reedição da obra de Sérgio Porto

Companhia das Letras reedita obra do autor, cronista bem humorado, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O homem ao lado. Capa. Reprodução
O homem ao lado. Capa. Reprodução

O homem ao lado [Companhia das Letras, 2014, 247 p., leia um trecho] apresenta um Sérgio Porto mais lírico, embora o bom humor permeie as crônicas ali selecionadas. O livro é a reedição de sua primeira coletânea de textos jornalísticos – isto é, publicados na imprensa [1958] – e A casa demolida [1963], que era uma versão ampliada do primeiro, incluindo as crônicas então selecionadas pelo próprio autor.

Sérgio Porto é o nome de batismo de Stanislaw Ponte Preta, multimídia antes do termo ser inventado: cronista, radialista, compositor, o bancário trabalhou ainda em teatro e televisão. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro e é responsável por uma galeria de personagens conhecidos, como Tia Zulmira, Rosamundo e Primo Altamirando, além do antológico e – infelizmente – atualíssimo Febeapá [a edição mais recente saiu pela Agir em 2006], o Festival de Besteiras que Assola o País.

Também são de sua lavra ditados populares cuja autoria acabou diluída de tanta repetição. Para ficarmos em apenas dois exemplos: foi ele quem usou pela primeira vez a expressão “mais perdido do que cego em tiroteio”. Ou o “samba do crioulo doido”, de fato um samba-enredo composto por ele, hoje em desuso após o advento do politicamente correto.

Publicadas entre 1952 e 1956 em veículos como a revista Manchete e os jornais Diário Carioca e Tribuna da Imprensa, as 71 crônicas reunidas em O homem ao lado atestam a proficuidade do gênero e do autor. Tudo é assunto para a crônica e ele escreveu um sem número delas. “Direis que homem no banheiro não é assunto de crônica. Talvez, minha senhora, talvez. Depende do homem, do banheiro, do cronista”, escreve em A janela de Marlene (p. 153). Sabia o que dizia. E mais ainda: sabia como dizê-lo.

Ao lado de nomes como Otto Lara Resende, Millôr Fernandes e Paulo Mendes Campos – autores também reeditados pela Companhia das Letras –, entre outros, Porto foi um dos responsáveis por “consolidar a crônica como a manifestação literária mais fecunda e popular do país”, como afirma o jornalista Sérgio Augusto no texto de apresentação de O homem ao lado – ele, o curador da reedição da obra de Porto pela editora. Uma pena a brasileiríssima crônica ter perdido espaço, salvo raras exceções em jornais da metade de baixo do mapa do Brasil.

A graça, o bom humor, o lirismo, a leveza e a elegância permeiam toda a obra de Porto, cuja reedição aparece em boa hora. “O sol entrava em suas frases por todos os lados”, atestou o escritor Barbosa Lima Sobrinho.

Bondes, traições, trajetos, quintais, lembranças da infância – muitas crônicas evocam a casa demolida que acabou por batizar-lhe um livro – vizinhas, corações partidos, sambas, boemia, jogo do bicho, repartições públicas, conversas ouvidas: tudo eram panos para as mangas de Sérgio Porto. Recortava “no violento sol da praia, pedaços dos jornais que lia sem parar, aproveitando o tempo. Pois era, como quase todos os humoristas brasileiros, um trabalhador braçal”, escreveu Millôr Fernandes em O Pasquim em outubro de 1970, num dos textos sobre Sérgio Porto trazidos no volume a guisa de posfácio – as coisas mudaram muito após quase 50 anos do falecimento do escritor e os humoristas já não são tão engraçados ou trabalhadores assim.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho”, escreveu Paulo Mendes Campos na Manchete de 30 de novembro de 1974 – o  texto saiu em O mais estranho dos países [Companhia das Letras, 2013] e completa o “posfácio” de O homem ao lado, ao lado do texto de Millor Fernandes. Ao leitor só resta constatar que tanta vida e tanto trabalho valeram tanto a pena.

[O Imparcial, domingo, 1º. de fevereiro de 2015]

Brasil-Polônia, uma ponte pavimentada de alegria musical

Barbosa Trio surgiu após turnê do músico paranaense Wagner Barbosa pela Polônia, acompanhado do cearense Rafael Mota Rodrigues e do polonês Kuba Palys. Sonoridade de Alegria, disco de estreia do grupo, tem vários sotaques

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ESTADO DO MARANHÃO

O Barbosa Trio não carece de muito tempo para fazer jus ao título de seu disco de estreia: Alegria [2013]. Se você tomar como marco zero a audição da bolachinha em si, disponível para download grátis no site do bandleader Wagner Barbosa, bastam os segundos iniciais de Pererê (parceria dele com Demetrius Lulo), faixa de abertura. Mas antes, ver a capa, em que ele e Rafael Mota Rodrigues e Kuba Palys aparecem em tons circenses, fellinianos, já garante alguma… alegria.

O paranaense Wagner Barbosa já tinha um disco, mas este Alegria foi concebido após uma turnê do trio pela Polônia, terra natal de Palys – Rodrigues é cearense. A ponte Brasil-Polônia garante ao disco vários sotaques – ou deveríamos dizer sorrisos? – incluindo o nordestino, o jeito “leste europeu” de tocar piano do titular do instrumento, o jazz, a bossa, a beatlemania.

Wagner Barbosa (voz, violão e arranjos), Rafael Mota Rodrigues (percussão) e Kuba Palys (piano) passeiam entre temas autorais e releituras, com participações especiais de Toninho Ferragutti (sanfona na faixa título), Joanna Chmielecka (voz na faixa título), Jurandir Santana (guitarras em Água de beber), Jorge Helder (contrabaixo em Nothing new), do grupo polonês de percussão Ritmodelia (em Pata de elefante) e Lu Amaral e Adonias Jr. (vozes em Vento bravo). Kuba Palys canta o Blackbird dos Beatles.

A palavra polonesa Szczęście, que significa felicidade, também aparece na capa, e é uma grata surpresa ouvir o modo como toca o trio, entre seis músicas de autoria de Wagner Barbosa (duas em parceria) e regravações de Blackbird (Lennon/ McCartney), Água de beber (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes) e Vento bravo (Edu Lobo/ Paulo César Pinheiro). Alegria, felicidade e outros sentimentos aparecem. Algo que a boa música ainda é capaz de proporcionar.

[Esta reseninha saiu nO Estado do Maranhão, caderno Alternativo (link para assinantes com senha), no último dia 4 de dezembro. Aqui faço duas correções: não sei como este blogueiro errou os sobrenomes do percussionista do grupo e do contrabaixista convidado]

Uma história de amor, sexo e morte

Estreia de Marcelino Freire na “prosa longa” – para usar uma expressão do próprio autor – tem tons de literatura policial

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O próprio Marcelino Freire referiu-se a este seu Nossos ossos [Record, 2013, 120 p.] como sua estreia na prosa longa. Pernambucano radicado em São Paulo, ele é um dos maiores contistas e agitadores literários do país, inventor da Balada Literária, que anualmente agita o cenário das letras em São Paulo, desde 2006, ano em que venceu o prêmio Jabuti por Contos Negreiros.

Nessa nova empreitada, o escritor mantém o fôlego, o frescor, a agilidade e o bom humor de suas prosas curtas, que acabaram por torná-lo isto que já dissemos: um dos grandes de nossa literatura.

O romance conta a história de Heleno de Gusmão, dramaturgo homossexual que se vê envolvido em um intrigante enredo quando o seu boy morreu, evocando a cantiga popular do interior do Piauí usada de epígrafe no livro. Entre capitais – São Paulo e Recife – e interiores – a cidade de Pedra, no agreste pernambucano, o povoado Poço do Boi tornado cidade na ficção – Marcelino Freire constrói sua grande narrativa policial.

Cícero, o boy, não tinha ninguém na cidade grande e Heleno dá uma de herói ao contratar Lourenço – o nome do motorista é tomado emprestado de Lourenço Mutarelli, que desenhou a capa – para levar os restos mortais à família, garantindo alguma dignidade a quem tanto lhe havia dado alegria em vida. Tudo narrado na prosa ligeira e elegante de Marcelino Freire, de frases curtas e certeiras, como as facadas mortais que acertaram o boy na altura do peito.

O livro é ambientado na noite e vida paulistanas e povoado pelas lembranças de Heleno, nascido em Sertânia, por acaso a cidade natal de Marcelino Freire, criador que guarda muitas semelhanças com a criatura, embora Nossos ossos não seja, necessariamente, uma autobiografia.

[O Imparcial, ontem]

Narciso em estado terminal

FLÁVIO REIS*

Um trabalho de Celso Borges é sempre promessa de surpresas. Poeta visceral, afeito a experimentações e radicalismos, há muito deixou de fazer propriamente livros, no sentido mais comum do termo. Apresenta, antes, objetos de arte. Foi o que vimos no esmerado design dos livros-cds que compõem a trilogia A Posição da Poesia é OposiçãoXXI, Música e Belle Epoque. O livro se completa noutra coisa, a poesia é lançada furiosamente ao encontro de sons, vozes, colagens, em meio a um grafismo elaborado, num jogo de cores, desenhos, fotografias, apropriações, citações, que são o invólucro para os petardos que estouram em nossas lentes, ouvidos e mentes.

O Futuro tem o Coração Antigo, lançado recentemente no Cine Roxy, é a nova e desconcertante iguaria desse alquimista da palavra, que vem misturando poesia com música, artes plásticas, cinema, fotografia, num esforço sempre múltiplo, coletivo. O jogo de Celso no entrelaçamento das palavras com as imagens e os sons ganha mais um capítulo, com duas faces.

De um lado, poemas curtos, como um click, chamados por ele mesmo de fotográficos, tendo ao fundo fotografias tiradas por alunos de um curso técnico do IFMA, coordenado pelo professor Eduardo Cordeiro. As fotos utilizam uma técnica antiga, criando imagens meio embaçadas, disformes, distantes, em uma palavra, fantasmagóricas.

De outro, a transposição dos poemas e fotografias para o formato de vídeo, num filme realizado em parceria com Beto Matuk, onde a experiência alcança sua maior complexidade, com a inclusão dos sons, a ampliação das imagens e a duração, revelando de maneira mais intensa todo o estranhamento que está na base da construção. Estamos falando de um momento de inflexão, em que o poeta olha sua longa relação/obsessão com a cidade sem saudosismo, somos logo avisados na abertura do livro/vídeo, mas como um “exercício de ternura” na “carne da cidade futura”.

A combinação aponta, no fundo, para um mergulho necessário e urgente nas sombras do passado. Não o passado da memória narcísica, inerte, perdido nos devaneios da autoglorificação, mas aquele turvo, borrado, sujo, que teimamos em recalcar na imagem dos casarões. O objetivo do salto é de estabelecer um novo encontro com o passado, sem as fantasmagorias que nos impedem de olhar de frente os olhos do futuro.

Celso carregou na vida a paixão da cidade natal, que demarca em três momentos bem distintos: da infância até os 30, quando criou a sua experiência de São Luís e inscreveu a cidade em si; depois, os vinte anos seguintes passados em São Paulo, quando a cidade ganhou os contornos da memória; por fim, a volta em 2009 e o encontro com uma “terceira cidade”, quando os alicerces da memória são então sacudidos pela crueza de uma realidade na qual “cercas elétricas se engalfinham sobre os muros” e o cenário é de destruição e medo.

O livro/vídeo é sobre este terceiro momento, mas se constrói de maneira que não aparece apenas como presente ou simples evocação do passado, e sim como fantasmagoria, uma projeção do passado no presente.  Compõe-se de dois poemas, o poema-título e A Terceira Cidade.

No primeiro, um bordão forte, “o futuro tem o coração antigo”, serve de base para a artilharia diversificada de Celso, alvejando lugares, figuras, situações, de ontem e de hoje, embaralhando as coisas e os tempos, enquanto “os azulejos portugueses encardidos nos observam do alto de sua nobreza rachada”. É a certeza de que “o futuro tem o coração antigo porque a fonte do ribeirão nunca vai secar e os condomínios do renascença morrem de medo”, “porque gullar ainda não escreveu o poema sujo e gonçalves dias não conheceu sabiás empalhados”, “porque o maria celeste ainda queima no cais da sagração” e, principalmente, “porque faustina faustina faustina”, eco que se perde no oco do tempo.

Em pequenos flashs são provocados nomes e imagens emblemáticas da nossa história. Uma história nebulosa, onde o fundador é uma miragem e “ninguém sabe se bequimão é uma força ou uma farsa na forca”. Celso trabalha à vontade em meio aos pedaços, pois sabe que “o futuro tem o coração antigo porque precisamos continuar bebendo na fonte de marcel duchamp”.

No poema A Terceira Cidade, mais longo e propriamente na forma de “poema fotográfico”, vemos todo o impacto da antiga cidade dos azulejos violentada num progresso devastador, mas ao mesmo tempo o anúncio do rompimento do casulo em que a cidade se manteve até então. A abertura não deixa dúvida, “Ó, ilhéus, abris os portais do futuro para o renascimento do maravilhoso”. O recomeço indica que o tempo passou, pois “alguma coisa já não é mais a mesma”. O enredo é simples: “era uma vez uma cidade e a cidade já era”.

Desfilam a devastação e a violência vivenciadas hoje nos quatro cantos da Ilha. São trechos quase sempre estarrecedores, mesmo em sua acidez crítica, expondo as muitas fraturas de uma cidade perdida em meio a ruas engolidas por buracos, a destruição ambiental e a lenta agonia dos casarões, quando “o berro mudo dos cupins devora a pele podre da parede do prédio”, enquanto “uma boca de lobo uiva na camboa”, “jegues abandonados vagueiam em procissão pelas estradas da maioba” e “centenas de carros rosnam na jerônimo de albuquerque”.

Superposição de cenas cotidianas: “ratos mascam chiclets num bueiro de vinhais. baratas brincam de esconde-esconde no calçadão da rua grande. impossível fotografar”. A cidade atulhada de carros, retratados de maneira turva, entupindo as vielas entre os casarões perdidos no tempo, mergulhados na sujeira e no abandono, por trás das placas cheias de cifrões com as promessas nunca cumpridas de reconstituição. Tudo parece distante e, no fundo, totalmente próximo, incômodo. Fantasmas que nos paralisam mesmo quando agonizam.

Momento de morrer, momento de renascer, “a mais bela flor do mundo agoniza. osso duro de morrer”. É também o momento do encontro entre as três cidades, entre as três eras, como um ajuste de contas. Onde se esconde São Luís? Onde se encontra São Luís? Em que visões, em que memórias, em quais sonhos? Terá a antiga cidade dos azulejos virado um grande pesadelo? Ou este foi sempre seu retrato mais fiel, sua imagem mais profunda? Ciente da urgência, Celso sabe que “chega uma hora em que chegou a hora”, “uma hora em que os gatos latem os cães piam e os bambis atiram pra matar”. Para São Luís e os ludovicenses essa hora parece soar. “O centro da cidade é um ciclope se mirando no espelho: narciso em estado terminal”.

Submetida a um processo desordenado e brutal de expansão, sem a resolução mínima de problemas estruturais seculares, chegando mesmo ao ponto de explosão, a cidade afunda a olhos vistos, sob a complacência de uma elite mesquinha apodrecida. “fidumaséguas!” berra o poeta. O fundo do poço em que nos encontramos parece o momento final da cidade na lenda da serpente, evocada no fecho do poema. A hora mítica do despertar, da destruição das fantasmagorias que dominam a nossa cultura. Momento possível, atual, de quebra da adoração vazia dos símbolos em que estamos atolados, seja da cultura ateniense, da cultura popular ou da união hipócrita de ambas executada sob o comando da mídia, em prol de uma apropriação criativa da própria história, pela invenção, pela negação desse futuro perverso vendido como redenção, onde o “turista de pacote clica a tanga da brincante do boizinho de butique”.

Uma obra em processo, que não tem programa, roteiro ou atores definidos, nem precisa, pois começa a se desenhar anarquicamente em experiências descontínuas e dispersas neste momento de cruzamento de gerações, traduzindo-se em movimentações variadas que podem confluir de maneira a criar fendas nas visões canônicas da cultura e da identidade ludovicenses. Nada mais adequado para celebrar a urgência deste “espírito destrutivo”, aliás, que a própria dedicatória feita por Celso naquela noite. Em sua maneira direta, diz apenas: “Chega de boferagem. Viva a fúria!”.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, autor de Cenas Marginais (2005), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007) e Guerrilhas (2012).

A Pedeginja já brota madura

Sobre Contos cotidianos, show de lançamento do disco homônimo, de estreia da banda, ontem (15), no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy)

“É a Pedeginja que vem chegando!”

Uma pequena aglomeração formou-se na porta do Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) pouco antes – durando até um pouco depois – da hora marcada para o início de Contos cotidianos, show de lançamento do disco homônimo, o de estreia da banda Pedeginja.

A plateia lotou completamente o recinto, com algumas pessoas ocupando cadeiras extras colocadas pela produção e outras vendo o espetáculo em pé, nos corredores laterais. Com uma hora de atraso a banda subiu ao palco. Nada menos que 11 músicos ocuparam-no: a formação da banda, incluindo seu poderoso naipe de metais, mais o gaitista Pedro Luz dos Anjos e o tecladista Dney Justino.

“A banda é grande, gente, então, paciência”, advertiu Jéssica Góis, a talentosa vocalista, única mulher do bando, antes de atacarem a primeira da noite. “Caralho, quanta gente!”, espantou-se João Vitor, o Jovi, outra voz de frente.

“É a Pedeginja que vem chegando”, anunciou o Conto de um Pé-de-ginja, faixa de abertura do disco e do show, espécie de prefácio-resumo do trabalho, o grupo dizendo a que veio. A plateia irrompeu inteira em aplausos, entregando-se à sonoridade inconfundível dos estreantes – em disco, que em shows, os meninos já têm uma estrada considerável.

Garoto grandalhão que empunha uma das guitarras do grupo e é responsável pela maioria das composições e pelas intervenções poéticas, Paulo César Linhares juntava-se à emoção que tomava conta de todos ali, entre palco e plateia: “É um prazer enorme estar tocando aqui, hoje, pra vocês”. Lamentou não ter conseguido arrastar a avó Julieta, para quem escreveu Vovó de férias no séc. XXI, um dos destaques de Contos cotidianos.

A média de idade da Pedeginja é baixa, basta olhar os rostos de seus integrantes. A banda fica entre o profissionalismo e a pura diversão. Explico: apesar do enorme atraso no início do show, tudo ali estava impecável: som, luz, repertório ensaiado, performance espontânea, a cumplicidade entre os músicos. A pura diversão é a responsável pela comunhão entre todos no palco e entre a banda e a plateia, que não poucas vezes bateu palmas, aplaudindo ao final de cada número ou marcando as músicas, cantando junto e mesmo dançando nos corredores e entre as cadeiras. As lâmpadas do cenário pareciam acesas pelo fogo que o grupo tacou no teatro. A Pedeginja já brota madura: a garotada brinca de fazer música, mas leva isso a sério.

O repertório baseou-se no disco, mas foi além: Dia D e uma música ainda sem nome, da lavra de Linhares, inéditas “que estarão no próximo disco”, como anunciou Jéssica, além de Grilos, também dele, do ep Instante, de Nathália Ferro, que em participação especial, dividiu os vocais com Jovi.

Um bloco de covers também registrou as influências da banda, o que em parte explica sua sonoridade, qualidade, talento e bom gosto: um medley uniu Os Mutantes a Secos & Molhados, Top top (Rita Lee/ Arnaldo Baptista/ Sérgio Dias) e O vira (Luli/ João Ricardo). Depois A menina dança (Luiz Galvão/ Moraes Moreira), dOs Novos Baianos e, fechando o repertório não autoral da moçada, outro medley uniu Criolo – Subirusdoistiozin – ao afrossamba Canto de Ossanha, de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Pouco mais de uma hora depois, toda a plateia estava de pé, em total sintonia com a Pedeginja. O espetáculo se aproximava do final. Linhares já havia apresentado todos os músicos e lido os agradecimentos e a banda mandava um bis sem aquela saída ensaiada e já manjada, quando o trompetista Bigorna sopra-lhe alguma coisa no ouvido. “Zé da Chave, por favor!”, anunciou o guitarrista, convidando o personagem onipresente ao palco.

O próprio Bigorna explicou: “Você quer saber se uma banda é boa, é ter esse cara aqui na plateia”. Que Zé da Chave e muitos outros tenham a chance de doses contínuas de Pedeginja. Talento, carisma e repertório não lhes falta. Com o show redondinho apresentado ontem, o grupo merece mais palcos e mais aplausos. E nós, mais Pedeginja, que o disco só nos fartará em parte.

Serra Pelada: uma amizade que vale mais que ouro

Ficção usa elementos de documentário, entre o bang bang e o filme de gangster, com grandes interpretações

Juliano Cazarré interpreta um personagem com seu próprio nome (Juliano) em Serra Pelada [Brasil, 2013, drama]. E é com um big close em seu rosto, durante um depoimento, que tem início o retorno do cinema nacional ao maior garimpo a céu aberto do mundo: em 1982, no auge de suas atividades, Os Trapalhões na Serra Pelada foi rodado lá.

Encravado no sul do Pará, o garimpo de Serra Pelada foi a maior concentração de trabalho braçal humano desde as pirâmides do Egito, dado a que cheguei ao ver o filme. No caso da paisagem brasileira, foi construída uma enorme pirâmide de cabeça pra baixo, informação que o roteiro também nos traz, embora essa seja mais fácil deduzir. Algo como parece querer fazer a ganância da Vale, por exemplo, com as minas de Carajás, não por acaso no mesmo cenário: o Pará.

O capitalismo é, aliás, apresentado como metáfora para entendermos a hierarquia do garimpo. Muitos homens embarcaram para Serra Pelada no início da década de 1980, ainda durante o regime militar – a ditadura brasileira chegou a intervir no local e a Caixa Econômica Federal a fazer o câmbio oficial do ouro extraído.

Os que tomaram o rumo daquelas bandas tinham o sonho de enricar ou ao menos fazer um pé de meia. Era mais ou menos como ganhar na loteria. Inclusive com o jogo virando vício: uma vez os números sorteados em um globo, a vontade de ganhar mais. A única diferença é que no garimpo, além da sorte necessária para o triunfo lotérico, é necessário o uso da força. E de outras artimanhas, por vezes.

Sérgio Chapelin e Cid Moreira, ainda de cabelos pretos nas bancadas do Jornal Nacional e Globo Repórter, embora na tela em preto e branco, dão ao filme um ar de documentário – o que Serra Pelada é, em parte, embora seja obra de ficção, algo entre um bang bang e um filme de gangster. O recorte de Heitor Dhalia (também diretor de Nina e O Cheiro do Ralo) para nos (re)contar essa história é a amizade de Juliano e Joaquim (Júlio Andrade), um professor que deixa a mulher grávida para ir garimpar uns trocados.

É em nome de sua amizade com o professor que Juliano inaugura seu currículo de homicida, adaptando-se rapidamente à lei da selva – literalmente. Porém a ambição desmedida e a paixão pela prostituta Teresa (Sophie Charlotte), mulher de Carvalho (Matheus Nachtergaele), um dos coronéis locais, levam-no a ir cada vez mais fundo, sem trocadilhos com o garimpo ou o cabaré. Todos têm atuações memoráveis e ela surpreende os que, qual este blogueiro, conheciam-na apenas de papéis em novelas e séries da Globo.

A atuação do coprodutor Wagner Moura também merece destaque. Com um bigodinho sem vergonha e uma careca a la São Francisco, ele interpreta o bandido Lindo Rico, um dos mais temidos da trama, responsável por cenas entre trágicas e hilariantes.

É um filme com final feliz, desculpem-me os pessimistas. Costurado por uma bela trilha sonora – que nos mostra o que era o Pará, musicalmente falando, antes de Joelmas, Chimbinhas e seus inúmeros covers –, Serra Pelada recria o ambiente violento e romântico do garimpo, entre ganâncias, traições, brigas, assassinatos por armas brancas e de fogo, prostituição, farras, sonhos e amores. Mais que uma miniatura do garimpo, um resumo desta selva chamada vida.

Choro & Companhia relê repertório pouco conhecido de Ernesto Nazareth

Disco Nazareth: fora dos eixos é bela homenagem ao pianista, por seus 150 anos de nascimento

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ESTADO

Não passa em brancas nuvens este 2013, ano do sesquicentenário de nascimento de Ernesto Júlio de Nazareth (1863-1934), um dos pais do choro. A efeméride tem gerado justas e belas homenagens, a exemplo de um site inteiramente dedicado à vida e à obra do pianista, criado e mantido pelo Instituto Moreira Salles.

Completados no dia 20 de março, os 150 anos de Nazareth também são lembrados pelo grupo Choro & Companhia, de Brasília/DF, que lançou Nazareth: fora dos eixos (Brasilianos, 2013), disco inteiramente dedicado à obra do músico que lhe batiza, de maneira nada convencional.

Amoy Ribas (percussão), Fernando César (violão sete cordas), Pedro Vasconcellos (cavaquinho) e Ariadne Paixão (flauta), ela responsável também pelos textos do encarte, (re)visitam um repertório de Nazareth praticamente desconhecido do grande público – e por vezes mesmo de aficionados pelo músico ou pelo gênero musical cujas bases ajudou a definir.

“Nazareth deixou uma extensa gama de composições diversas […]. Esse legado recebeu nossa atenção quando vimos que muitas dessas obras ainda continuavam raras ou muito pouco conhecidas do público em geral”, afirma um dos textos do encarte.

Músicas – Nas 11 faixas predominam tangos (e suas classificações brasileiro e carnavalesco), sambas, valsa, polca e polonesa, sob direção geral de Marcos Portinari e Hamilton de Holanda. O bandolinista participa do disco em Jangadeiro (tango brasileiro de 1922). Outros convidados especiais são Alexandre Dias (piano em Cataprus, tango brasileiro de 1914), Juninho Alvarenga (banjo na faixa-título, tango carnavalesco de 1922), Ricardo Dourado Freire (clarineta e clarone em Polonesa, polonesa anterior a 1922 – o encarte não traz a data precisa de algumas faixas) e Roberto Corrêa (viola caipira em Matuto, tango de 1917).

Como a obra do autor de clássicos como Brejeiro, Odeon e Apanhei-te, cavaquinho, Nazareth: fora dos eixos é disco plural em que o quarteto desfila por diversos climas. O banjo na faixa título lhe dá ares festivos, lembrando em determinados momentos o bumba meu boi e o cacuriá maranhenses (o azulejar selo do disco também nos faz pensar em São Luís); a viola caipira em Matuto dá à música ares rurais; e o uso de vibrafone (pelo percussionista Amoy Ribas) confere ar de música infantil (da rara, não a que se vê e ouve em programas para o público na tevê aberta) à Segredos de infância (valsa de data desconhecida) – título mais que apropriado.

“Queremos acrescentar nosso grão na interpretação da grande obra de Nazareth”, afirma ainda aquele texto no encarte, pura modéstia. O belo resultado certamente ficou à altura do homenageado. Na contracapa do disco, além do conteúdo, uma inscrição mostra que o grupo está à frente: em vez do “disco é cultura” de outrora, um “moderno é tradição” de agora.

[Reseninha no AlternativoO Estado do Maranhão de ontem]

Teresa Cristina cai no bom rock

Cantora uniu-se à banda carioca Os Outros e dedicou disco ao universo poético na obra de Roberto Carlos.

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

Não é a primeira vez que Teresa Cristina dedica um disco inteiro à obra de um compositor. Sua estreia, em 2002, com o Grupo Semente, se deu em A música de Paulinho da Viola, disco duplo em que passeou pelo repertório do portelense.

Há pouco mais de 10 anos ela foi figura de proa na redescoberta do samba a partir da Lapa, bairro carioca que deu ao Brasil diversos outros talentos do gênero. Teresa Cristina seria rotulada como sambista – ou cantora de samba –, limite que quase nunca coloca, por exemplo, Paulinho da Viola entre nossos grandes compositores. Como se o samba fosse coisa menor.

A intérprete não precisava provar nada para ninguém, mas, versátil, mostra que é bem mais que sambista ao dedicar um disco inteiro à obra de Roberto Carlos. Ou, antes, ao universo “real”, já que não se limita a composições dele, solo ou em parceria com Erasmo Carlos.

Roqueira – A fórmula é conta que fecha certeira: Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos (Deck, 2012) passeia por um repertório que o faz fugir do óbvio, a começar por “transformar” a cantora em roqueira. Pela ousadia é um disco tão ou mais importante que As canções que você fez pra mim (1993), que Maria Bethânia dedicou ao repertório do ídolo da Jovem Guarda, para ficarmos em um exemplo mais ou menos próximo.

Com um disco lançado – Nós somos os outros (Bolacha Discos, 2006) – a banda carioca acompanha Teresa Cristina ao longo de 14 faixas, que viraram disco de estúdio após o encontro dela com o quarteto para um show em homenagem a Roberto já há alguns anos. O vocalista Botika canta solo em Você não serve pra mim (Renato Barros). Além dele, Os Outros são Eduardo Sodré (guitarra), Rafael Papel (guitarra) e Vitor Paiva (baixo e ukulele).

Yuri Villar (sax tenor, sax soprano, flauta e triângulo), Ricardo Rito (teclado e sanfona) e Antonio Neves (bateria) completam a “cama e mesa” de Teresa Cristina, garantindo o ar roqueiro e jovem-guardista do disco – embora o repertório se concentre na fase entre o “movimento” e o romantismo mais desbragado que culminaria na novelesca e comercialíssima Esse cara sou eu.

Aos descontentes com o Roberto de hoje em dia, um disco para ser ouvido sem susto: a música mais nova é Cama e mesa (1981). Emoções, do mesmo disco, por exemplo, ficou de fora, como Detalhes (1971), do disco em que foram pescadas Como 2 e 2 e I love you. A quem o acha datado, não o conhece, ou conhece apenas dos especiais de fim de ano na Rede Globo, este disco é ótima introdução, um rebobinar competente de parte importante de sua obra.

Escoltada pelOs Outros, Teresa Cristina mostra versatilidade em homenagem a Roberto Carlos

Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos: repertório

1. Ilegal, imoral ou engorda (Roberto Carlos), 1976
2. A janela (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1972
3. Como 2 e 2 (Caetano Veloso), 1971
4. Proposta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1973
5. O moço velho (Sylvio Cesar), 1973
6. Do outro lado da cidade (Helena dos Santos), 1969
7. O portão (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1974
8. Você não serve pra mim (Renato Barros), 1967
9. Quando (Roberto Carlos), 1967
10. Nada vai me convencer (Paulo Cesar Barros), 1969
11. Cama e mesa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1981
12. I love you (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1971
13. As curvas da estrada de Santos (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1969
14. Despedida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1974

[O Estado do Maranhão, 21 de junho de 2013]

Cuspindo os caroços na cara dos leitores

[Entrevista que os autointitulados “los cachorros borrachos” fizemos e publicamos na edição de fevereiro do jornal Vias de Fato. Em 2013 vocês ainda vão ouvir falar bastante deste trio cá no blogue: Bruno Azevêdo deve lançar ao menos três livros (começando por A intrusa, cujo anúncio está aí na cabeça), Celso Borges lança O futuro tem o coração antigo e Reuben da Cunha Rocha estreia, tudo pela editora Pitomba]

Vias de Fato entrevista os editores de sua irmã, a revista Pitomba

Os editores da Pitomba: Reuben da Cunha Rocha, Bruno Azevêdo e Celso Borges

POR IGOR DE SOUZA E ZEMA RIBEIRO*

O jornal Vias de Fato e a revista Pitomba têm muito em comum. Feitas quase sem apoio nenhum, as publicações buscam, cada qual a seu modo, dar voz a quem não tem na chamada grande – e “séria” – mídia.

Juntas, as publicações editaram, entre o fim de 2011 e início de 2012, o livro Guerrilhas, coletânea de artigos que Flávio Reis, guru dessa galera, entre entrevistadores e entrevistados, infiltrou na imprensa, tradicional e alternativa, ao longo destes primeiros anos do milênio.

Pitomba e Vias de Fato incomodam. A primeira não toca em política, ao menos não de maneira convencional. É uma revista de poesia, artes gráficas, literatura e sacanagem, no dizer dos próprios editores, os ludovicenses Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha.

Na mais recente passagem do último por São Luís, Vias de Fato aproveitou para ir ao encontro deles. Era uma tarde cinzenta, a cidade de ressaca das chuvas e do carnaval. Mais que uma entrevista, um descontraído bate-papo dos repórteres do jornal com os editores da Pitomba.

Uma caminhada por algumas ruas do Renascença, os dois repórteres e o trio de entrevistados, antes de ligar o gravador e pedir emprestada a Bruno Azevêdo a máquina fotográfica que captou alguns momentos do encontro (as fotoscas são de Zema Ribeiro). Destino: um boteco próximo, encher os cascos que ele tinha no apartamento com a cerveja que regaria a conversa. De volta ao apê, misto de residência e editora, os melhores momentos do bate-papo.

ENTREVISTA: BRUNO AZEVÊDO, CELSO BORGES E REUBEN DA CUNHA ROCHA

Vias de FatoComo foi que surgiu a ideia da revista?

Reuben da Cunha Rocha – Conheci Bruno na véspera de viajar [Reuben saiu do Maranhão para cursar Mestrado, primeiro em Santa Catarina, depois em São Paulo. Hoje está no Doutorado em Ciências da Comunicação da USP], começo de 2008. Nesse ano a gente conversou bastante por e-mail. Celso sempre foi um papo, de muitos anos. E aí tinha a história da Pitomba, da editora, que era uma discussão que tava rolando.

Celso Borges – A gente criticava o texto que Bruno fez [o Manifesto Pitomba, impresso nos livros que Bruno Azevêdo publicou por sua editora]. Ele é meio que um manifesto, é uma ideia de um texto… e aí, conversa entre a gente… vamos fazer uma revista? Eu sempre gostei de revista.

Reuben – Na verdade, a ideia de fazer revista, ela existe o tempo inteiro na cabeça de quem escreve, eu acho. Desde que me entendo por gente e converso com outras pessoas que escrevem, esse papo de “vamos fazer uma revista” sempre existiu.

Celso – E Bruno sempre trabalhou com fanzine.

#1

Vias de FatoTodo mundo tem alguma experiência, ou com fanzine, ou com blogue, que é uma coisa menos palpável. CB com a [revista] Guarnicê [editada por um grupo de poetas que levava o mesmo nome] ainda na década de [19]80, na época mais novo do que vocês hoje.

Celso – Antes. O [grupo poético] Arte e Vivência, final dos anos 70, aquelas revistas dentro do saquinho. Então, eu faço revista, de estar envolvido, desde o final dos anos 70. Depois veio o [grupo] Guarnicê, depois teve a [revista] Uns e Outros [do grupo Akademia dos Párias]. Eu gosto, acho que a revista dá uma alegria, é muito prazeroso fazer. Agora o exato momento em que decidimos fazer, não lembro.

Bruno Azevêdo – Isso tava sendo discutido, “vamos fazer uma revista”, “vamos fazer uma revista” e rolaram várias coisas. Mas o negócio para mim, pelo menos até onde eu me lembro, virou uma coisa “vamos fazer” quando Celso e Reuben baixaram lá em casa com uma pilha de um metro de revistas de poesia, “ó, é isso aqui que a gente quer fazer”. E eles deixaram lá em casa e vazaram. Vocês lembram disso?! Um monte de revistas! [Enfático, gesticula com as mãos, para dar ideia da grande quantidade]

Vias de FatoNessa pilha de revistas, por assim dizer, as referências da Pitomba? O que inspira vocês em termos de outras revistas que já existiam, ou melhor, que continuam a existir?

Celso – A Coyote inspira a Pitomba, a Oroboro, a Medusa, puta que pariu! São tantas. A Nuvem Cigana é uma coisa linda.

Reuben – A Revista de Autofagia é uma coisa importante também.

Celso – Quando me mandaram por e-mail um fascículo, aquilo é uma coisa linda, bicho, um exemplar único [a revista Nuvem Cigana teve número único]. Só tem uma e lá estão Chacal, Haroldo [de Campos], Augusto [de Campos], Hélio Oiticica, Wally Salomão… toda aquela energia dos anos 70, bicho, aquela revista é linda. Fotos, intervenções, tipografias, tudo ali naquela limitação, quer dizer, a gente chama de limitação porque vê de hoje, com a tecnologia que se tem, mas as intervenções iconográficas, porra, tu é doido? Aquilo é uma referência máxima. Para mim é.

Reuben – Mas acho que uma motivação fundamental, pelo menos para mim, era a coisa da editora. Quer dizer, fazer uma revista com o nome da editora, que é uma forma da editora circular mais rapidamente do que a edição de livros, que, pelo menos na minha cabeça, seria uma coisa mais lenta do que a edição de revistas, que seria uma forma de fazer acontecer.

Celso – Eu acho que revista tem um coração coletivo, coisa que para mim é muito estimulante. Com uma revista você consegue não só motivar as pessoas que estão fazendo, mas ao seu redor criar uma alegria, uma motivação, um esperar por uma Pitomba nova, um esperar por uma revista nova, o que é que vem ali, que forma, que poema. Isso aí é muito mais que um livro, até. Você não espera um livro. Uma revista você espera, você acalenta: “qual vai ser a da próxima revista?”, ou então “posso mandar um poema para revista?”, “posso escrever pra revista?”. As pessoas também querem fazer parte, tem uma coisa de divisão que eu acho legal.

Vias de FatoPorque tem isso de ser um espaço de publicar o material de vocês, quem faz poesia faz, quem faz tradução faz, quem faz quadrinhos faz, quem faz sacanagem faz. Mas tem o lance de publicar coisa dos outros e a revista não tem periodicidade, mas aí tem dois anos e cinco números, então mais ou menos um número a cada quatro, cinco meses. Mas isso não tá definido em lugar nenhum, acho que nem na cabeça de vocês.

Bruno – Não tem nada definido nessa revista em lugar nenhum, a não ser conteúdo. [risos]

Vias de FatoComo é que vocês decidem o conteúdo e a hora de fazer uma Pitomba nova?

Celso – Rapaz, é uma guerra… É uma guerra… [risos]. É uma briga, porque tem uma série de coisas que trabalham contra a gente também, contra cada um de nós e contra nós três juntos, que é a vida que cada um leva, que cada um tem que pagar suas contas, cada um tem sua vida, cada um tem não sei o quê mais.

Vias de FatoA questão geográfica atrapalha um pouco ou não? [Reuben mora em São Paulo]

Celso – Eu acho que a questão da operacionalização é uma coisa difícil, porque Bruno é um cara que trabalha em meio ao caos. Ele faz muita coisa ao mesmo tempo e a gente tem, eu tenho na minha relação com ele, eu tenho que ser um pouco assim…

Bruno – [interrompendo, enfático] Chato!

Celso – Eu tenho que hostilizá-lo, ele me hostilizar, porque é uma guerra, aí são três, mas a minha relação é mais próxima com Bruno porque ele está aqui e Reuben não tá, ele tá longe e então tem uma dificuldade.

Bruno – O trabalho de edição da revista é bem mais fácil que o de editoração da revista, que é até ela sair daquele computador bem ali [aponta para o cômodo do apartamento em que trabalha] para chegar no arquivo impresso. Isso é o mais traumático porque é o que demora mais.

Celso – A ausência de Reuben é sentida, não só por ser uma companhia, um cara que faz falta de estar junto, mas porque se senta eu, ele e Bruno numa tarde a gente já monta o esqueleto, entendeu? Agora eu ficando sozinho com Bruno, e Reuben lá, fica mais complicado porque tem uma dificuldade nessa operacionalização.

Reuben – Importa dizer que muito do trabalho recai sobre Bruno, porque só ele consegue diagramar a revista.

Celso – De texto, geralmente ele não quer se meter. [Irônico:] “ah!, eu não leio poesia” e não sei o quê mais, aquele negócio do rabicó do poema [gargalhadas gerais]. Isso eu divido meio com Reuben: “ah, tá ruim!”, “ah, tá legal!”, quando chega uma coisa com que ele concorda. Mas tem as discordâncias também, porque Bruno não quer ter o voto de minerva, ele se omite. Mas a distância de Reuben também faz com que surjam outras iluminações, coisas que ele descobre por lá, enfim.

Reuben – Mas o negócio de coletar material acaba cada um sacando o que acha interessante, ou pega e lembra alguém, se tem material suficiente para fechar as 44 páginas.

#2

Bruno – Tem coisas que pertencem e não pertencem ao que a gente imagina que a revista comporte. Nós três vamos te dar repostas diferentes sobre o que a revista comporta, mas no final das contas, esse lance que Reuben está falando da coleta, da cota, “pô!, isso daqui vai ficar massa” ou “isso daqui não ia ficar massa”, ou de repente tem um cara que nós três conversamos, que a gente acha uma inteligência, por assim dizer, que poderia estar por aí, tipo o [poeta Fabiano] Calixto, agora nessa última edição que saiu, que é um cara massa e blá blá blá, que está fazendo coisas legais e não sei o quê.

Celso – A gente fica naquela coisa, de abrir a revista, porque a princípio pensou em fazer um negócio de escritores do Norte e Nordeste, ou que estando fora, atuem nesse circuito. Eu já penso que pode abrir e sair um pouco desse sufoco, de que não necessariamente sejam artistas do Norte, mas tem um conceito que a gente não tem mais certeza se continua ou não.

Reuben – Nunca conversamos sobre isso com o passar do tempo. Isso foi posto inicialmente, e eu com o passar do tempo passei a achar que é um conceito armadilha.

Vias de FatoDe repente colocar alguma coisa que possa “despitombar” a revista?

Reuben – Que pode ser bom. Na verdade a gente fica naquela de ficar cavoucando nessa história de Norte e Nordeste e isso servir para legitimar uma ideia de folclore, regionalismo ou panela, de ter que colocar o cara porque ele é nordestino. Então para mim é a mesma questão de colocar gente do sul ou de qualquer lugar e ver que, pera lá!, isso não tem nada a ver.

Bruno – A própria ideia de fundar a editora é porque, num determinado momento, depois de fazer zines e livros, eu percebi que estava completamente marginal, fora do mercado. No final das contas tinha só eu lá dizendo “olha meu livro!, olha meu livro!” e que coisa antipática! A editora impessoaliza, parece uma instituição. Então, o critério para mim parece muito mais: esse sujeito aqui não consegue espaço; é bom e não consegue espaço em algum outro lugar. Porque, porra!, na prática você sabe que se mandar o original para 20 editoras, nenhuma vai te responder. Nenhuma mesmo! A maioria delas, na hora que tu abres o negócio [site], “não recebemos originais, exceto do Paulo Coelho”. Ou se tiveres uma indicação de dentro. Então, nesse aspecto, quando tu estás geograficamente distante, aí o critério geográfico é legítimo, tu não consegues existir, porque tu só consegues mesmo ter acesso a esses caras quando tu conheces alguém, e tu só conheces alguém numa mesa de bar, num lançamento e alguma coisa assim. De outra forma tu não existe, pô! Tu não existe mesmo.

Celso – Tem um elemento na revista que eu acho que não devemos abrir mão, embora seja uma característica e um traço que incomode muita gente, que nós temos essa coisa da despersonalização: as revistas não só não têm um nome na capa, como ela não tem o nome de quem escreve na capa e isso irrita muita gente. Mas esse retorno é pequeno, em todos os sentidos. Então eu acho que tem que manter o atrito, é uma característica da revista. Isso a gente não tem que abrir mão, nem é essa coisa do atrito, é a coisa da irritação mesmo.

Vias de FatoEu acho que é a única revista que não tem o nome na capa.

Bruno – É, porque se colocar o nome vai ter que colocar junto “revista de literatura contemporânea brasileira”. Imagina que coisa ridícula…

Celso – Ia ter que fazer editorial como se fosse um slogan, como se fosse uma frase.

Vias de FatoA propósito, o primeiro editorial de vocês é muito marcante, e eu acho que dá um pouco a ideia, além dessa coisa toda de despersonalização e talvez um pouco de não se levar a sério, eu não sei bem se é isso ou se é só isso, mas o lance do “quer fazer faz” [este, o texto do editorial], já que vocês não têm apoio ou os apoios que têm são pequenos, não cobrem a edição, o negócio sai do bolso mesmo, o lance de não ficar só reclamando, que “o poder público não me apoia”, que “a iniciativa privada é tímida”, isso e aquilo, então é aquela coisa de botar o bloco na rua.

Reuben – A prática é ficar 40 anos esperando até alguém reconhecer que eu sou um bom artista e tem interesse em… [se interrompe] Isso não vai acontecer! Não vai acontecer mais em lugar nenhum, isso acabou, é coisa de até metade do século XX e quem não sacou isso daí, não vai rolar mais nada, entendeu? [risos]. Então, não é uma reação à falta de apoio, é uma reação à mentalidade que espera apoio. Nós não temos apoio, portanto faremos. Porque raios a gente vai esperar apoio se a gente quer fazer o negócio e o quê que isso tem a ver com o Estado? 

Bruno – Os meios são completamente democratizados, digo os meios, as ferramentas, nós somos pessoas adultas, conseguimos excedentes com o nosso trabalho que dá pra fazer essa porra, então que diabos a gente vai ficar esperando uma secretaria abrir um edital?

Vias de FatoMas vocês entrariam num edital?

Bruno – Eu não! A revista não. Não mesmo, cara.

Celso – A gente não botou nem o nome na revista, vai botar o logo de uma fundação ou sei lá… É uma questão de postura mesmo, eu acho que tem que ter um distanciamento, eu acho que eventualmente, não com a revista, mas você pode, como escritor, fazer parceria com o poder público em algum momento, ou como poeta ou como artista subir num palco. Eu já fiz isso. Nenhum livro meu tem um carimbo de uma secretaria de cultura ou fundação cultural. Não vou dizer que nunca vai ter isso, eventualmente pode até ter, mas dentro de mim eu me sentiria um pouco constrangido com aquilo. Eu prefiro não ter, eu acho que o artista tem que manter um distanciamento. Ele pode eventualmente até fazer parceria com o poder público, mas ele tem que manter o poder público como um inimigo, como um cara que não deve se aproximar muito. Eu acho que é ele que não deve se aproximar muito para que não seja atraído, sei lá como é que se pode dizer isso, a gente trabalha com mais autonomia, trabalha com mais força para dizer aquilo que quer porque o poder público, ele vai calar você.

Bruno – Tem a questão que o poder público é tudo, menos público. Ele é pessoalizado. Ele não é pessoalizado apenas ideologicamente, mas socialmente.

Vias de FatoNão é querendo que vocês coloquem ou não uma logomarca, concorram ou não a um edital, recebam ou não recurso. O poder é pessoalizado e aí, tipo: se não tem a Pitomba recebendo verba pública, tem uma porcaria recebendo verba pública e difundindo arte e literatura de qualidade duvidosa.

Bruno – Por mim tudo bem, pra mim tá tranquilo. Eu acho que não devia ter verba pública investida em arte!

Celso – No caso aqui de São Luís é mais triste, não tem nenhuma revista do poder público! É triste! O poder público não faz uma revista de literatura. Podia juntar, fulano me dá um artigo tal, fulano me dá um quadro tal, mas ninguém tem é motivação. Eles não saberiam como administrar a divisão desse bolo. Como eles não podem contemplar a todos, só poderiam contemplar alguns, então eles decidem não fazer e não fazem.

Bruno – Pois é, porque não haveria nenhum critério estético, haveria um critério de geração, de subservilismo [sic].

Celso – Em Natal, por exemplo, existe revista do poder público.

Bruno – Tem aquela revista da Biblioteca Pública de Curitiba.

Vias de Fato[O jornal] Cândido. Cândido é lindo! [A revista] Helena e tal, que é dessa grossura [gesticula com os dedos], que é da biblioteca também.

Reuben – Tem um uma coisa interessante nesse negócio de edital no Brasil, que é por meio deles, especialmente da Petrobrás, que se tem conseguido que o artista se coloque como profissional. Ele pode ficar oito meses ou um ano escrevendo um livro. Isso é um trabalho, não é um favor. Isso não deixa de ser interessante, a figura do artista como profissional, que vai ter um dinheiro para fazer isso e não ter que correr numa coisa para, pelo menos, conseguir pagar o livro. Isso historicamente não é desprezível, mas isso gera uma série de comprometimentos que não faz sentido o sujeito se meter nisso daí. Você pega um livro de Joca [Reiners Terron, escritor], que o cara teve que passar por uma série de burocracias assim enorme só para mudar o título, que tinha sido inscrito um título e ele queria colocar outro e não podia. Com o mercado não é diferente, não dá pra dizer que se eu estiver sendo patrocinado por uma empresa privada eu seria mais livre do que se estivesse sendo patrocinado por uma empresa pública. Pra mim não faz diferença.

Bruno – A questão é, até onde eu consigo ver, a política do edital tá fazendo gente rica ficar mais rica.

Celso – O cara pode entrar também, pode fazer a parceria com o poder público, mas manter sua integridade.

Reuben – O problema é que, por onde começou essa história, não sei por onde começou, mas por onde se desenvolveu bastante foi no cinema, em que se chega a um ponto onde o sujeito não faz filme se não tiver dinheiro público. Quer dizer, não passa pela cabeça do sujeito que se ele não tiver 100 mil para fazer o filme, ele que faça o filme. Tu achas que as verbas vêm de onde? Se o sujeito quiser fazer um filme ele faz nesse apartamento aqui, com duas câmeras ou uma câmera, e seis atores. Ele não vai conseguir fazer um épico hollywoodiano, com duzentas locações, um filme na Amazônia etc., alguns projetos dependem realmente de dinheiro, mas o que eu quero chamar a atenção é para a imobilidade do cineasta. O sujeito não faz. Mais radical e mais independente que se possa fazer no Brasil, hoje ele tem dinheiro de lei de incentivo.

Vias de FatoPatrocínio da Petrobrás. Todo filme brasileiro começa “este filme foi selecionado pelo Programa Petrobrás Cultural” e depois logomarca, logomarca, logomarca.

Reuben – E se o sujeito não conseguir, ele não vai fazer o filme.

Bruno – Tem gente que faz filme massa sem dinheiro público, como no [documentário] Brega S/A [sobre a cena musical contemporânea em Belém do Pará], que começa logo “esse filme não tem dinheiro público nenhum”.

Celso – Mas isso é muito excludente, cara. Porque um filme como esse vai ter um público muitíssimo menor.

Reuben – Não necessariamente.

Bruno – Eles distribuem de graça na internet.

Vias de FatoTem um ponto, voltando a essa história da Pitomba aqui e do cenário, que é a história da Pitomba, que está em São Luís e São Luís que tem um histórico de artistas e intelectuais a serviço de dados grupos políticos. Como é que a revista se situa nesse campo, já que ela está à margem?

Celso – Ela se situa contra essas pessoas. Se tu pegares a primeira Pitomba, lá no [texto de Roberto] Bolaño [traduzido por Reuben na contracapa] é uma porrada; a segunda contracapa, cada contracapa é uma porrada. Na revista tem todas as repostas que tu tá falando aí. Acho que a segunda é que fala melhor dos artistas, aquilo é uma porrada!

Bruno – A revista tem uma série de indicações, mas as coisas não são dadas.

Reuben – A própria ideia de se manter distante dessas relações já fala sobre esses artistas e o fato de nenhum deles estar na revista.

Vias de FatoSe a esquerda abomina, a direita ignora.  Aquela história de alienante e alienado. A esquerda clássica, naquele modelo de partidos e sindicatos.

Celso – Há um silencio. Me mostre alguém que tenha se manifestado sobre a Pitomba publicamente. [O artista plástico] Jesus Santos [link para assinantes com senha] que escreveu n’O Estado do Maranhão.

Bruno – E [José] Loredo [proprietário da Livraria Resistência Cultural, que se negou a vender exemplares da revista, alegando ofensas ao cristianismo], que excomungou a gente! É o silêncio total. Não existe discussão sobre arte em São Luís.

Celso – Com raríssimas exceções, esses três, Loredo, Jesus Santos e o blogue do Zema, nunca ninguém falou nada sobre a Pitomba publicamente. Esse é o ponto!

Vias de FatoModéstia às favas, não existe crítica.

Bruno – Queria ou não a gente tenta ainda fazer, nem que seja resenhando livro um do outro.

Celso – A única crítica que rolou foi do Loredo e do menino lá, o Ronald [Robson], defendendo em blogue e tal. Agora, que a gente sabe que pessoas da esquerda não gostaram, a gente sabe. O que eu quero dizer é que não existe, a única vez que alguém falou foi da direita. Por que a revista tem a provocação, ela tem arrogância, vamos dizer assim.

Vias de FatoÉ iconoclasta total, se é que isso pode ser um adjetivo.

Celso – A gente sabe que nos bares se fala dela.

Bruno Azevêdo dá um gole durante o papo

Bruno – A revista tem uma existência concreta nem que seja nas conversas de bar, e, porra!, eu quero é estar na conversa de bar.

Celso – Na Pitomba, às vezes, se sobressai um pouco o lance da imagem, um editorial ou uma coisa que Bruno faça. Mas ali, velho, estão 60% de poesia, pode ver, ou é tradução ou é alguma coisa que eu faço, ou é coisa de alguém.

Bruno – Pode ver que esse negócio de poesia deu tanto na minha cabeça que fiz uma fotonovela.

Vias de FatoQue eu achei sensacional! E isso volta para aquela discussão sobre financiamento, independência e coisa e tal, porque se tu tivesses um apoio do que quer que fosse, tirando [o bar] Chico [Discos] e [a livraria] Poeme-se, mas tu irias criticar tua própria revista dentro da revista?

Bruno – Rapaz, ninguém ia me publicar senão eu. Quase todas as coisas que eu escrevo, não é nada enquadrado assim, ninguém consegue transformar em um produto fácil para dizer “isso aqui é isso aqui” e a revista tá meio nesse negócio.

Reuben – Isso é uma coisa que deve perturbar a leitura de quem está aqui porque talvez a leitura da revista seja um negócio difícil de localizar. Primeiro que a revista não é uma revista de poesia. Não tem uma ordem, não tem uma prioridade. Então, [o professor] Flávio Reis contou uma história do primeiro lançamento da revista que talvez possa ser ilustrativo. Ele disse que tava sentado no lançamento da revista e tinha um pessoal dizendo “vem cá, olha isso daqui, essa revista não tem como vender”, querendo dizer que era um negócio mal acabado e tal. O que não deixa de ser interessante também. E Flávio perguntou: “rapaz, vocês acham que esse pessoal está interessando em vender?” Mas eu tô dizendo isso porque eu tenho a impressão de que a gente não tá preocupado com nada, então, isso dá certa flexibilidade de critérios, que no fim das contas a gente bota o que tá a fim de botar e não bota o que não está. Pronto.

Celso – E as pessoas ficam, talvez, procurando um sentido, uma estratégia.

Bruno – Uma razão de ser, [irônico:] onde se situa o marxismo contemporâneo na narrativa.

Celso – Tem um negócio de confundir, de desabilitar, de você não saber direito. Rapaz, você tem uma tradução de [o poeta e. e.] cummings e o cara lá comendo as hóstias, tem a pornografia, tem as coisas opostas, que não teriam uma unidade. A revista trabalha quase como se não houvesse um conceito que ligasse uma coisa a outra.

Reuben da Cunha Rocha ri: “a Pitomba não tem absolutamente nenhuma seriedade”

Reuben – Agora aí, eu acho, e pessoalmente, se ninguém percebeu, isso precisa ser dito, que daí vem talvez o mais interessante da revista: o fato de que ela não tem absolutamente nenhuma seriedade. De critérios, e não tem nada assim que se possa dizer que a revista não publicaria, poderia até não publicar por falta de interesse ou gosto pessoal nosso, como não achar bom, mas coisa tipo censura de conteúdo, moralismo, não tem como dizer que não tem uma revista na literatura que se possa dizer isso. Toda revista de literatura é séria. A seriedade acompanha, seja a poesia seja a prosa. Escritor é um sujeito sério. Foi a única revista até hoje que conseguiu fazer isso daí foi a Pitomba. Inclusive daí vem alguma fraqueza, porque a gente publicou muito texto ruim ao longo dessas cinco edições. Agora, o que levou a isso foi de onde vem a principal força dela, que é isso daí.

Celso – Agora imagina uma revista em que você faz um assassino de funcionários públicos [a série O matador de funcionários públicos, de Bruno] onde 80% da população é funcionário público. É claro que você vai ter uma raiva introjetada na cabeça de muita gente.

Vias de FatoÉ porque também tem muito o lance de você só poder falar de dentro. Para você falar de funcionário público você tem que ser funcionário público.

Bruno – E funcionário público não vai falar porque já está morto de feliz por estar lá.

Vias de FatoOu você tá empertigadinho lá, contente porque o salário não atrasa etc., até atrasa [lembrando o calote de João Castelo (PSDB) às vésperas de deixar o cargo e o parcelamento da dívida pelo atual prefeito Edivaldo Holanda Jr. (PTC)]. O que fica provado é que o pessoal perdeu a capacidade de rir de si mesmo. Seja funcionário público, seja sei lá o quê.

Bruno – Esse negócio dO matador ninguém comenta, eu acho isso tão engraçado, ninguém diz nada.

Reuben – Nem pra dizer que “eu não gostei disso”.

Bruno – Moreira da Silva passou a vida inteira sendo motorista de ambulância. O cara, um dos criadores do samba de breque, um dos maiores cantores do samba brasileiro, teve uma carreira longeva no samba e ele chegou a viajar e passar três meses em Portugal fazendo turnê e o chefe dele dizendo “não se preocupe que você é um funcionário de utilidade nacional” e pronto. Tu não achas que houve gente que precisou ser socorrida pela ambulância que Moreira dirigia, ou deveria dirigir? Eu não posso achar graça disso, por mais que seja engraçado.

Celso – Tem também a história da alta e da baixa cultura. Muitos olhares sobre a revista são de crítica, do mau gosto que algumas pessoas devem achar, mas também que há eventualmente uma pobreza, que pertence a uma baixa cultura, que não é uma literatura que seja levada a sério. Eu acho que isso a Pitomba também coloca na cabeça das pessoas. “Isso daqui é literatura?”, isso é uma questão que também vem à tona. Tem a questão do pornográfico e erótico. E aí se tem um especialista no assunto [aponta para Bruno]. Tu olhas lá o [quadro] A origem do mundo, do [pintor Gustave] Courbet e mostra o sexo lá e tal. Pois é, isso é mau gosto? É erótico ou pornográfico? Eu sempre venho observando essa coisa, do que é mais literatura, do que é literatura mais séria, do que não é.

Vias de FatoVocês acham que há um desprezo total por parte da crítica? É por isso que ninguém comenta O matador de funcionários públicos ou outra coisa?

Bruno – Que crítica? Não existe crítica! A gente desprezaria se a crítica existisse.

Celso – O único cara que fez alguma crítica foi Ronald Robson. O único, o único! Foi uma crítica de acordo com o que ele pensa.

Reuben – Uma crítica inteligente, o cara leu a revista e raciocinou em cima daquilo ali, se dispôs a escrever sobre uma revista da qual ele sequer gostou. Por outro lado, a gente não deixa de ter respostas entusiasmantes. Não dá para ser injusto.

Bruno – Rapaz, o papel da revista é grosso demais para ser papel higiênico. Então de alguma forma alguém lê.

Reuben – Também, essa relação é tipicamente nossa, né? Quem foi que gostou, quem foi que não gostou e a gente começa a mapear o negócio. A diferença é que a gente está fazendo isso daqui sem nenhuma intenção de por conta disso o negócio começar a “fulano de tal não entra, cicrano também não”. Então a questão não é tanto de gostarem ou não gostarem, mas de um retorno que dissesse que a revista é interessante por isso, não é interessante por aquilo.

Bruno – Eu penso muito mais em livros do que na revista. Eu penso muito mais na proposta do livro, que ‘nego’ tem que fazer seus livros e tal. Talvez eles tenham uma possibilidade de exploração de ideias mais interessante, enfim, a ideia é continuar fazendo livro e revista.

Reuben – A revista essencialmente é um negócio efêmero, por mais que ela continue, que tenha 20 edições, com o tempo ela vai se perdendo. Livro, o sujeito guarda. Revista chega uma hora em que o cara vende pro sebo, dá pros amigos, perde e tal. Agora, isso não é um problema, o lance é permitir que ela fosse mais experimental ainda, mas “isso daqui vai se perder”, foda-se! O importante é testar a mão e ver o que dá para fazer e o que não dá para fazer.

Vias de FatoCelso, tu estás com mais de 50 e já fazia revista com menos de 20.

Celso Borges: poesia e teimosia

Celso – Rapaz, se eu tiver saúde com 80, uma revistinha lá eu vou estar fazendo…

Vias de FatoPor tudo aquilo que a gente conversou aqui às vezes tu não te sente meio pregando no deserto, não bate certa depressão? Será que alguém vai ler a revista?

Celso – Não bate depressão. Acho que às vezes bate um desestímulo. Mas aí tem o lance da disciplina. Sempre foi assim e sempre vai ser. Tá na minha cabeça, tá na minha alma, não tem resposta para isso. É como se fosse uma coisa que eu precisasse fazer.É uma doença, uma maldição, como diz Fabreu [o poeta Fernando Abreu].

Vias de FatoComo é a seleção do que a Pitomba, a editora, não a revista, o que ela publica e não publica?

Bruno – É uma questão pessoal, o que eu acho que deva ser publicado.

Vias de FatoUma vez eu perguntei, que eu nem lembro sobre o quê, mas qual é a sensação de colocar um selo na capa de um livro, e tu me respondeu que era ilusão de achar que tem uma editora.

Bruno – É. É isso mesmo.

Vias de FatoComo é o financiamento disso? Tu? Tu e o autor? Depende?

Bruno – O disco [Z de Vingança] do [Marcos] Magah eu paguei todo. Exceto a gravação, o resto eu paguei tudo. Porque eu peguei o disco, esse cara ta aí, não tem dinheiro nenhum. Ele tá com o disco tem uns seis meses e esse disco precisa existir. Tem tudo a ver com a ideia da editora. Porque eu só fiz O Monstro Souza porque Souza [proprietário do cachorro-quente homônimo que inspirou o livro] me deu boa parte da grana para fazer o livro, então eu tenho uma certa obrigação e vamos ver o que vai acontecer. O trabalho de editoração de outros livros eu não cobrei nada pra ninguém. Do [poeta] Dyl [Pires, O perdedor de tempo], da [poeta] Jorgeana [Braga, A casa do sentido vermelho, a ser publicado em breve]. Por enquanto é assim que funciona, o livro da [jornalista] Karla [Freire, Onde o reggae é a lei] eu e ela que pagamos tudo pro livro sair.

Vias de FatoE as vendas?

Bruno – Já vendeu umas 110 cópias. No Riba [livraria Poeme-se] já esgotou, eu repus hoje; na [livraria] Leitura eu ainda não fui; no Chico eu também ainda não fui. Tem tido certa saída. Já recuperou 30% do gasto. Eu nunca espero dinheiro de volta. Quer dizer, só em prestação de serviços que pode ser reinvestido como em achar um cara como Magah. Vai sair o livro de Reuben, o da Jorgeana. Tem uns livros para lançar aí e sempre aparecem outras coisas. Mandam coisas, me mandam originais, mas eu fico sempre desconfortável em ler porque vai que eu leio e o livro é uma merda? Então eu sempre tenho que dizer alguma coisa. Se me aparecer um livro de poesia eu jogo para esses dois aqui.

Vias de FatoEntão, a editora usa os editores da revista como conselho editorial, digamos assim?

Bruno – É, eu jogo direto para eles. Ainda mais porque se aqui em São Luís sabem que tem uma editora que publica livro de poesia, tu é doido!, ia ter todo dia 20 livros de poesia aqui em casa. Todo mundo é poeta, sabe aquele cara bem ali? [aponta um transeunte pela janela] Ele é poeta, pô! “Ó, São Luís”, e coisa e tal. A poesia é apologética em relação à cidade ou preocupada em falar da própria poesia. É o negócio do rabicó.

Reuben – Para mim essa é a grande ironia, a maior obra de Nauro Machado é essa tiração de onda de com todo mundo: “Ô, meu poeta!”, todo mundo é poeta.

Bruno – Esculhambou geral.

Vias de FatoOutra afinidade de vocês é a música. Vocês estiveram juntos no palco para o lançamento de Belle Epoque [mais recente livro de poemas lançado por Celso]. Tem alguma possibilidade ou previsão de vocês tocarem juntos novamente?

Celso – A gente queria fazer um lance de rock’n roll com leitura. O grande lance é a disponibilidade de tempo. Pra mim é na hora, fazer um som com esses camaradas. Agora tem que ser uma coisa igual ao que teve no Belle Epoque. Ali a gente teve um mês livre para fazer aquilo. [O baterista André] Grolli, [o violonista André] Lucap, esse rapaz [Bruno] totalmente disponível, [o guitarrista] Reuben. No dia em que Bruno me ligar pra gente fazer um som eu tô aqui na hora e Reuben pega o helicóptero dele.

Reuben – Ah, de novo não, mas outra. Fundamental é o cara quebrar a ideia de que ele vai conseguir manter as coisas. O fundamental aqui sempre foi fazer tudo. O sujeito tem tempo para fazer um som, ele vai fazer, não tem, ele vai fazer outra coisa. Tem para um zine, ele vai fazer, não tem, faz outra coisa. Se não ele vai ficar a maior parte do tempo parado e fazendo as coisas no tempo livre, as coisas não vão durar. O lance é o tempo livre. Se juntar de novo, as coisas vão mudar, tudo muda o tempo todo.

 

Celso – A música talvez seja a coisa que mais nos ligue. Eu tenho uma preferência, Reuben tem outra, mas entre a gente bota ali o rock. A gente se une bastante, bota o rock’n roll ali. Tem uma identificação com a linguagem do rock. Tem essa diferença de Bruno não gostar de poesia, tem a formação dele em quadrinhos. A minha é precária, ficou para trás. Eu tento pegar alguma coisa com ele, mas eu não tenho a formação e a influência que tem na obra dele.

Reuben – Restos Inúteis [título de poema de Celso que deu nome à banda que o acompanhou no show de lançamento do livro] foi um nome que muita gente não gostou, quer dizer, algumas pessoas. Porque não é sério. Não basta ser resto, ainda tem que ser inútil.

Bruno – Se fosse Parnasianos Alados…

O lugar dos livros

“Na minha biblioteca tem os livros que estão comigo desde a adolescência e os chamados livros do coração, aqueles que li e tenho a esperança de reler, e ainda aqueles que comprei a partir de desejo muito forte de ler, mas que ainda não tive oportunidade de começar. Acredito que existe um tipo de livro que você precisa em determinada época. Essa obra exige uma adequação, um momento e uma hora exata para a leitura. Às vezes, você pega um livro, abre, lê duas ou três páginas e não prossegue. Depois de cinco ou seis anos, você abre aquele mesmo livro e se apaixona, lê até o final. Isso aconteceu comigo diversas vezes. Então, hesito em me livrar dos livros.”

“Sou leitor profissional, faço crítica para jornal e, por esse motivo, entrei na lista de envios das editoras. Sem pedir, recebo até 25 livros por semana em casa. E isso acaba virando um problema porque não é a toda hora que você consegue encontrar tempo para organizar e mesmo fazer uma triagem de tantos volumes.”

“Três prateleiras da minha estante quebraram por excesso de peso, e os livros estão espalhados por diversos pontos do apartamento. Comecei a fantasiar que, uma hora ou outra, o piso também vai ceder e serei responsável pela morte da família do andar de baixo, onde, inclusive, tem uma adolescente que berra o dia inteiro. Mas, apesar disso, tenho tudo bem organizado na cabeça. Se alguém precisar de um livro da minha biblioteca, é só perguntar que eu encontro. A minha organização é totalmente afetiva, não tem lógica. Na sala, devo ter uns cinco mil livros. Meu criado-mudo está uma calamidade. Outra fantasia que tenho é de morrer soterrado pelos livros do meu criado-mudo, onde deve ter uns 200 livros.”

“Traduzi para a Cosac Naify, o livro Paris não tem fim (2007), do Enrique Vila-Matas, mas eu não conhecia o autor. Depois disso, ele veio ao Brasil para participar de um evento literário, circulou e concedeu entrevistas. É comum perguntarem a um autor estrangeiro se ele conhece a literatura brasileira e, para a revista Época, ele respondeu o seguinte: “Conheço a Clarice Lispector, o Dalton Trevisan e o grande Joca Terron”. Fui o único que mereceu um adjetivo. Peguei o exemplar da revista e procurei o expediente para ver se não tinha algum amigo meu fazendo piada. Não tinha. Meses depois, recebi uma ligação telefônica de uma repórter da revista Época, a mesma que tinha entrevistado o Vila-Matas, para falar sobre um outro assunto. Perguntei a ela se o escritor catalão tinha dito aquilo mesmo. Estava em dúvida. Afinal, ele poderia ter dito “o grande Dalton Trevisan, Joca Terron” e, na edição, por descuido, o “grande” teria se aproximado de meu nome. Mas a repórter garantiu que a frase era aquela mesma e, confesso, fiquei muito feliz porque o Vila-Matas é um autor que admiro.”

“A maior probabilidade é que um livro não seja escrito. As exigências da sobrevivência, o cotidiano, tudo, absolutamente tudo, atuam contrariamente ao seu desejo de escrever. Sobrevivo da minha imagem como escritor, atuando no jornalismo, com crítica, no mercado editorial, por meio de traduções e palestras. Há todo um sistema relacionado ao universo do livro. Mas não sobrevivo diretamente da minha ficção.”

&

Recebo em casa a 12ª. edição do Cândido, jornal da Biblioteca Pública do Paraná que, ao completar um ano, salta de 32 para 40 páginas dedicadas à literatura. O título deste post “trocadilha” O lugar da poesia, manchete de capa do mensal.

Leio as sete páginas com os melhores momentos de Joca Reiners Terron no Um escritor na biblioteca, e faço isso em voz alta nos trechos acima, para minha esposa, ao lado. Guardadas as devidas proporções, há um quê de Joca no blogueiro: minha modesta biblioteca, embora menor, faz minha esposa, exagero!, pensar no dia em que não poderemos entrar em casa de tantos livros (e discos e dvds), vivo da fama de blogueiro sem ganhar por isso, tendo que me virar entre assessorias e frilas, e minha citação, pelo admirado Jotabê Medeiros, em O Estado de São Paulo, em matéria sobre a subida de Nelson Jacobina, me fez sentir algo parecido com o que o autor de Sonho interrompido por guilhotina sentiu no episódio Vila-Matas.

Minha esposa vira e retruca, entre a ironia e a compreensão: “não vai te inspirar nesse cara!”

Um assalto hilariante

Assalto ao Banco Central [Brasil, 2011, 104min., ação (comédia?) direção: Marcos Paulo] é um bom filme e justificaria sala cheia. Infelizmente, não é o que acontece – ou fui eu quem demorou muito a ir? Na em que vi, cerca de vinte almas riram bastante durante a sessão. Por que é um filme engraçado. Não faz apologia ao crime, tampouco termina com a moral de “o crime não compensa”.

“Conta”, “detalhadamente”, a história do plano, de sua execução e das investigações do assalto ao Banco Central, acontecido na capital cearense em 2005, o maior do século, como nos lembra o cartaz. Na ocasião foram levados 164 milhões de reais por quem o planejou durante meses, entre conseguir plantas, pensar e executar a obra do túnel, que começa na casa alugada pelos assaltantes e termina no cofre da instituição, fora do alcance das câmeras de segurança e dos sensores eletrônicos.

A riqueza de detalhes me faz crer que há muito de ficção ali, sem tirar-lhe o brilho. Como, aliás, outro filme nacional que narra outro assalto mui famoso: a versão cinematográfica dO Assalto ao Trem Pagador [Brasil, 1962, 102min., drama/policial, direção: Roberto Farias] não tem, por exemplo, Ronald Biggs, o pai do Mike da Turma do Balão Mágico, quem se lembra?: os assaltantes são favelados cariocas. E por lembrar do grupo de Jairzinho e Simony, Os Smurfs estão em minha fila de coisas por ver particular.

Mas voltemos à ficção baseada em fatos reais. Por exemplo, a mulher (Carla, interpretada por Hermila Guedes) do Mineiro (Eriberto Leão), que vira mulher do Barão (Milhem Cortaz, sempre um monstro em suas interpretações) – o líder da gangue – e depois volta ao Mineiro. Ou seu irmão evangélico (Devanildo, interpretado por Vinicius de Oliveira, o menino de Central do Brasil), que entra inocentemente na parada e acaba cometendo vários pecados, roubar o banco apenas um deles.

Tatu, personagem de Gero Camilo, "irado" após o "banho"
Tatu, personagem de Gero Camilo, "irado" após o "banho"

E tem Gero Camilo, que no papel de Tatu (nome mais que apropriado para um cavador de túneis), rouba a cena (como sempre, né?): a em que sua britadeira encontra um cano de esgoto no caminho e ele toma um banho de bosta é um dos momentos de risada geral, mesmo com pouca gente na sala. Ô, Léo! Toca aí Tatu, Engenheiro do Metrô, clássico de Bidu e Antonio Carlos, sucesso na voz de Alcione, que bem poderia ter entrado na trilha sonora da película.

O elenco é carregado de globais (Lima Duarte, Guilia Gam etc.), algo óbvio numa obra da Globo Filmes: mas não encontraremos ali as comédias sem graça do canal dos Marinho (e da empresa cinematográfica “afiliada”), em que A Grande Família é exceção, de onde um Tonico Pereira é pescado para ser um engenheiro “comunista” que vai gastar sua parte do roubo com vinhos em Paris. É possível até que os constantes forwards e rewinds da narrativa confundam algum espectador mais desavisado – recurso necessário: diz se você não acharia chato ver a história de um assalto que começa com o plano, tem a execução no meio e acaba com a condenação/prisão de parte dos envolvidos?

Assalto ao Banco Central não é nenhum Tropa de Elite – e penso que nem queria ser mesmo. Mas merece ser visto por bem mais gente.

Para entender Cesar Teixeira

Em determinada altura do dia de ontem, em que aniversariaram meu tio Sérgio Tadeu e meu amigo “presida” Vicente Mesquita (a quem desejo muitos anos de vida e alegrias, mesmo sem ter ligado para nenhum dos dois na data), André Sales, meu amigo editor do caderno Alternativo do jornal O Estado do Maranhão, alcançou-me nalgum desses bate-papos a que pass(am)o(s) (quase) o dia inteiro conectado(s). Perguntava se eu tinha alguma boa foto feita durante o show Bandeira de Aço, sobre o que já escrevi aqui. Eu não tinha. Indiquei o fotógrafo Paulo Socha, a quem vi por entre a plateia. Quando o jornalista perguntou-me se eu não tinha uma caricatura, também foi negativa minha resposta. E perguntei: “Salomão não faz?”.

Não perguntei a ele do que se tratava, mas imaginei que algum comentário sobre o show seria publicado na edição de hoje do jornal. Chegando ao trabalho, o exemplar hodierno não fora recebido por nenhum dos colegas. Acessando o site do jornal, li o belíssimo texto abaixo, que tomo a liberdade de copiar, compartilhando-o com meus poucos mas fieis leitores.

Aliás, tem sido uma delícia ler com relativa constância e constante emoção os textos que Alberto Jr. tem publicado recentemente (por exemplo sobre o show de Marcelo Camelo, sobre o disco novo de Chico Buarque, e mesmo o texto que colo abaixo, que André Sales já havia postado em seu Diário do André; o link original n’O Estado do Maranhão é exclusivo para assinantes).

Alô, Salomão Jr., vou pendurar essa caricatura no peito!

Alô, Alberto Jr., nós merecemos mais que uma atualização mensal do Emepebistas!

PARA ENTENDER CESAR TEIXEIRA
Alberto Júnior
Especial para o Alternativo
 

 

Acesse agora o oráculo digital contemporâneo, o Google, e digite o verbete “Cesar Teixeira”. Você vai constatar que existe pouca informação disponível em contraponto à importância que este compositor maranhense tem para a música popular brasileira.

Nem mesmo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira registra algum tipo de conteúdo ou breve biografia sobre Cesar, apenas o cita em composições dele gravadas por outros maranhenses que ultrapassaram o Estreito dos Mosquitos na difusão de suas músicas, como Flávia Bittencourt, Glad Azevedo, Antônio Vieira e Rita Ribeiro.

Contudo, é possível fazer o download do único disco gravado por Cesar, Shopping Brazil (2004), pelo blogue Música Maranhense, uma iniciativa do estudante universitário Victor Hugo, que reúne um bom acervo sobre a música popular do Maranhão, além de encontrar algumas informações esparsas sobre o artista, como um “release” e algumas entrevistas.

A constatação da ausência do nome de Cesar Teixeira nos meios massivos reforça a aura mítica do compositor no Maranhão. Representante de um movimento musical, que gerou uma estética própria da música produzida no Estado, ele não cedeu aos apelos da voz do dono tornando-se o dono da própria voz. Em vez de aprisioná-la em material de acetato, deixou-a livre para fazer coro junto aos seus pares e para ser registrada na memória coletiva de todos nós, tatuada com as cores e as palavras do afeto, da luta e da identidade de uma comunidade.

Um momento – O show Bandeira de Aço, realizado sábado passado (30), no Circo Cultural Nelson Brito (Circo da Cidade), foi a prova de que ele está mais vivo do que nunca. No repertório, novas composições foram apresentadas, além das obras-primas da carreira, como Ray Ban, Parangolé, Flor do Mal, Dolores, entre outras.

Iniciativa da produtora cultural Ópera Night que reuniu os músicos Moisés Profeta (contrabaixo, guitarra), Ribão (percussão), Quintino Neto (bateria), Rui Mário (sanfona, teclados), Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho, percussão), Hugo Barbosa (trompete), Daniel Miranda (trombone), Regina Oliveira (vocal) e Mayrla Oliveira (vocal) para apresentar os diversos ritmos da obra de Cesar e o que ele tem de melhor: a música em formato canção. Como convidado especial, subiu ao palco também o compositor Joãozinho Ribeiro, com quem dividiu a apresentação do divertido Samba do Capiroto.

Mais do que a tentativa de entender a obra de Cesar Teixeira pelo viés da crítica ou da pesquisa – tão necessárias e importantes – está a experiência com o artista em cena e na interação com seu público. A resposta está na pureza das crianças que abriram o show cantando a toada Boi da Lua, na urgência do corpo em rejeitar o comportamento disciplinado pelas cadeiras de plástico levantando-se para a dança, na delicadeza de quem se emocionou com canções do ‘tempo da janambura’ que ressuscitam personagens e cenários de velhos tempos e na força da palavra de ordem repetida em coro por todos no bis: “E diga sim a quem nos quer acolher, mas se for pra nos prender diga não”.

A força de uma poesia que põe em xeque qualquer pretensão buarquiana.

Alberto Júnior é radialista e pesquisador musical.